Gréfic nóvel

Por Érico Assis

Era 1970 e tantos quando Will Eisner ligou para Oscar Dystel, presidente da Bantam Books. Depois de quatro décadas, Eisner partiu para o ou-tudo-ou-nada na sua convicção de que os quadrinhos precisavam do mesmo respeito que a literatura. Escreveu e desenhou Um contrato com Deus, HQ de ousadias literário-romancescas, e queria que ela saísse por uma editora de respeito no âmbito literário-romancesco. A Bantam era uma boa opção, na época.

Se Eisner dissesse “quero lhe mostrar uma HQ”, Dystel ia desligar na sua cara. De improviso, soltou “é uma graphic novel”. Dystel marcou uma reunião, muito interessado.

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E o que vem a ser uma gréfic nóvel? A inspiração desta coluna está em dois textos recentes que ressuscitaram e discutiram em profundidade o termo: um artigo de Paulo Ramos e Diego Figueira, mais uma postagem do Daniel Werneck. O primeiro caminha mais por um conceituação em torno do marketing e da consagração do uso. O segundo faz comparações entre o tamanho de novels só de letrinhas e a quantidade de texto das graphic novels, entre outras. Ambos não conseguem fechar o sentido do que é a tal graphic novel. Mesmo porque não há como.

Eu considero o termo meio destrambelhado. Tudo bem, novel é a palavra que pegou na língua inglesa para a literatura ficcional extensa, o que nós e a maioria dos falantes de línguas latinas chamamos de “romance”. Mas graphic é uma salada. Por um sentido, qual livro não é um produto gráfico? Por outro, graphics são as figurinhas, as imagens, o que — nas gráficas de antigamente — fugia à composição usual só das letrinhas. Grafismos, ok. Em ainda outro sentido, graphic tem conotação de “explícito”: um livro, um filme é graphic se não tiver restrições quanto às imagens de sexo e/ou violência.

A tradução é uma salada. “Romance gráfico” diz a mesma coisa que “graphic novel”: nada. “Romance em imagens” consegue ser mais vago. Mesma coisa para “romance com figurinhas”. Misturando com o termo exclusivamente brasileiro “história em quadrinhos”, sai “romance em quadrinhos” — o que está na capa do hit Diário de um banana, que não é HQ, e sim prosa com intervenções de cartuns. Complicou. Por isso a maioria das editoras nacionais resolve falar mesmo gréfic nóvel.

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A história com Will Eisner não é a origem do termo graphic novel, mas é a mais famosa sobre os princípios das graphic novels. Eisner achou que estava neologizando, mas outras HQs haviam usado o pomposismo anos antes, nos EUA mesmo. Na França, a crítica já usara roman graphique para qualificar A balada do mar salgado no início dos anos setenta. Rodolph Töpffer, um dos pioneiros das HQs no século XIX, na Suíça, dizia que suas misturas de texto e imagem eram parentes dos romans.

Quando a imprensa dos EUA teve uma onda de matérias do estilo “Biff! Pow! Zam! Os quadrinhos ficaram adultos!”, há uns dez anos, graphic novel virou o termo para diferenciar esses gibis mais maduros, “mais livro”, tanto na imprensa quanto nos catálogos das editoras — bem na época em que todas as editoras começaram a publicar graphic novels. A coisa ficou mais confusa. Hoje a abertura de The Walking Dead identifica que o seriado baseia-se em graphic novels, embora nem autores nem mais ninguém chame The Walking Dead — uma revistinha mensal como a maioria dos gibis dos EUA — de graphic novel.

Se graphic novel estava na moda, os quadrinistas revoltadinhos torceram o nariz e disseram que o que fazem é gibi — comics. Art Spiegelman gracejava: graphic novel “é o gibi que você tem que ler com marcador de livro”. Minha síntese predileta é a do Joe Sacco: graphic novel é “um termo inventado para que os adultos não pensem que estão comprando gibi.”

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Que o termo é marqueteiro, não há dúvida. É sonoro e impreciso como o bom marquetês. O que interessa é que chamar o gibi de graphic novel não torna ele mais adulto, nem melhor que os gibis que só se identificam por gibis. É um termo pedestalizante. Mas se tudo que é gibi subir ali e se dizer “romance gráfico”, o pedestal não vale nada.

Enfim, não adianta se revoltar. O termo pegou, e protestar contra isso tem tanta validade quanto reclamar de filme dublado. Você vai passar por chato. Além disso, cobrar lógica das palavras e expressões que surgem numa língua não é algo muito são.

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O que pouca gente lembra é que, fosse gréfic nóvel ou não, Will Eisner não conseguiu convencer a Bantam a publicar Um contrato com Deus. Na reunião, Oscar Dystel folheou os originais e olhou sério nos olhos de Eisner: “isso aqui é gibi”. Eisner teve que procurar uma editora menor, a Baronet. Desde seus princípios, encher a boca pra dizer gréfic nóvel não garante nada a ninguém.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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12 Comentários

  1. [...] ao público infantojuvenil, haviam ganhado prêmios ligados ao sistema literário. Expliquei “graphic novel”. A partir do Ware, passei às explorações formais contemporâneas: Jon McNaught, OuBaPo, Shintaro [...]

  2. [...] foi a minha primeira experiência com as “graphic novels” – ih, acho que o Érico não iria gostar se lesse isso… -, e parece que eu já comecei com o pé direito. Conta a história de dois órfãos, Zam e [...]

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