Uma imagem vale mais do que mil palavras. Vai dizer isto com uma imagem*

Por Érico Assis

Dando alguns passos para trás em relação à última coluna, você encontra o buraco-mais-embaixo onde começa o preconceito com os quadrinhos e por que se vê necessidade de recorrer a pedestalizações como “graphic novel“. A culpa, claro, é das figurinhas.

O povo da universidade chama isso de iconoclastia: o temor às imagens que vem da tradição judaico-cristã-islâmica e que levou o mundo ocidental a confiar mais em letrinhas do que nas traiçoeiras figurinhas. Começa lá nos gregos, passa pelos ativistas  midiáticos que quebravam imagens de santos no século VIII e vem até o pessoal de hoje que demoniza a TV.

O negócio dos iconoclastas é que letrinhas são confiáveis, figurinhas não. A interpretação de um texto tende a ser reta, certa, precisa. A interpretação de uma imagem tende a ser difusa, aberta, incerta. Textos são mais racionais, imagens são mais emocionais. Livros conectam você ao mundo das ideias (são profundos), imagens apenas reproduzem o que já é visível (são rasas). São dogmas que circulam desde que existe filosofia — mesmo período em que, indiferentemente, a produção de imagens evoluiu sem parar, seja ou não para fins edificantes.

Quadrinhos vivem numa zona cinza-escura entre o puro texto e a pura imagem. A grande maioria tem letrinhas mas, como têm figurinhas e são eminentemente imagem, gibis são “menos” que a literatura. Se você contestar, não estará apenas enfrentando o preconceito contra os quadrinhos, mas brigando com dois mil anos de pensamento filosófico que nos direcionou a confiar e a se contorcer para expressar o concreto e o abstrato em texto. Quer entrar na briga?

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Tem quem queira. Há alguns dias, o site The Graphics Classroom circulou a notícia de que Sam, um estudante de terceira série no Alaska, havia ganhado o primeiro lugar na Feira de Ciências Estadual com um projeto sobre quadrinhos.

Sam fez seu projeto de ciências baseado numa discussão com a professora. Ele e os colegas têm que comprovar leitura diária — um registro de páginas ou horas que dedicou à leitura, com o título da obra, assinado pelos pais. Mas a professora não aceitou Bone, uma HQ infanto-juvenil, como leitura.

Com toda a determinação de seus nove anos, Sam procurou uma forma de retrucar. Encontrou o Graphics Classroom, que orienta professores sobre como utilizar quadrinhos em sala de aula, entrevistou o responsável via Skype e montou uma cartolina que explica por que HQ é leitura, por que ajuda em seu desenvolvimento intelectual e por que ele deveria ter prerrogativa de escolher uma leitura que gosta, ao invés do que a professora determina. Usou gráficos, citações bibliográficas, depoimentos — em linguagem de quadrinhos.

A professora, acuada pelo reconhecimento da Feira de Ciências, teve que ceder. Sam e colegas agora podem registrar quadrinhos como leitura. Se o Sam vai virar mais um adulto que só roda a barra de rolagem do Facebook para ver foto e meme, ou alguém que reconhece o valor de ler, pensar e criticar, não há como prever. Mas há motivos para confiar na segunda opção.

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Não é a forma que determina o conteúdo, nem uma mídia é mais intelectualmente benéfica do que outra. Em outras palavras, há tanta literatura ruim quanto quadrinhos ruins. Quadrinhos talvez não consigam fazer você sentir a tensão de um Raskólnikov, mas vai pedir para a literatura descrever, com o mesmo peso, Frimme Hersh caminhando pela Eisnshpritz. Ou a paixão muda do protagonista de O Gosto do Cloro. Ou o avô do Jimmy Corrigan sendo abandonado pelo pai na Feira Mundial de Chicago. Ou o cinismo no olhar de Ricardo Aurélio em Cachalote. Ou…

(A frase do título é das minhas preferidas do Millôr Fernandes, falecido há alguns dias. Além de quadrinista, cartunista, tradutor e vários outros apostos, Millôr era um intelectual com senso de humor e senso de ridículo. Ou seja: era uma raridade.)

* * * * *

Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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10 Comentários

  1. EPITACIO MENDES disse:

    Os quadrinhos são a porta de entrada para o hábito de leituras mais complexas, e as letras são imagens criadas pelo homem para expressar sons, palavras,etc.

    No final tudo é imagem.

  2. […] Imagens ou texto? Os dois se complementam. Hoje não vou descrever minhas fotografias, fique a vontade para olhar e criticar. Segue abaixo aquilo que me inspira, me diverte e deixa os meus dias bem mais doce (no sentido literal da palavra). […]

  3. Vinicius Rodrigues disse:

    Érico, tal exemplo do menino do Alaska realmente me emocionou. Sou mestrando de Letras aqui na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e trabalho, justamente, com a abordagem dos quadrinhos na sala de aula. Teu post me inspirou – obrigado!

  4. César Carvalho disse:

    A imagem, comumente, precisa (e quer) o suporte da palavra escrita para alcançar toda sua expressividade, como bem ilustra este poema de Adam Zagajewski, poeta polonês radicado nos Estados Unidos, aqui em tradução do inglês por João Luis Barreto Guimarães.

    Uma sugestão: bem que a Companhia das Letras poderia publicá-lo no Brasil, como já fez com sua compatriota Wislawa Szimborska.

    DESCREVENDO PINTURAS

    PARA DANIEL STERN

    Normalmente fixamos apenas alguns detalhes –
    uvas do século dezessete,
    ainda frescas e cintilantes,
    quiçá um belo garfo de marfim,
    ou a madeira de uma cruz e gotas de sangue,
    o grande sofrimento que entretanto secou.
    O parquet brilhante range.
    Estamos numa cidade estranha –
    quase sempre numa cidade estranha.
    Algures ergue-se um guarda que boceja.
    Um ramo cinza balança para lá da janela.
    É absorvente,
    descrever pinturas estáticas.
    Estudiosos dedicam volumes a isso.
    Mas nós estamos vivos,
    cheios de memória e pensamento,
    amor, por vezes arrependimento,
    e por momentos temos um orgulho especial
    porque o futuro grita em nós
    e seu tumulto torna-nos humanos.

  5. André Françoso disse:

    Eu tava aqui a pensar com meus botões, será que os traços, dentre os vários, uma grande organização procedimental, peculiares aos orientais não são(foram) devidos ao seu sistema de escrita? Algum linguista por aqui? Ou alguém que assista o Discovery.

  6. Ernani Ssó disse:

    Eu gosto de quadrinhos, até já escrevi roteiros pra alguns, mas duvido que uma imagem valha mil palavras. Se valesse, não teriam inventado a legenda. Uma boa imagem pode me mostrar a cara emocionada do Raskólnikov, mas só com palavras se entra na cabeça dele e se esmiúça pensamentos e emoções.

  7. Alex D'ates disse:

    Os quadrinhos podem ser uma ponte muito interessante entre a mimetização da palavra-imagem para a palavra pura.

    Mais interessante ainda é esse prerrogativa de professores em “boicotar” as hqs como leitura. Será por desconhecimento ou por considerarem que é mais divertido que a maioria dos livros, pensando na geração atual?

    Tomara que professores tenham acesso a esse texto e repensem suas opiniões.

  8. Jonas disse:

    Belo texto, Érico. Parabéns.

  9. Luis Narval disse:

    A imagem, indubitavelmente, tem seu valor e até pode instruir, revelar, esclarecer, etc, mas há quem diga que ela tende a tornar-nos preguiçosos, pouco seletivos e incapazes de urdir conexões mais abrangentes. Mas poderá argumentar-se, em contraposição, que a literatura, como de resto todas as expressões, ilações, conclusões são, em última instância, constituídas de imagens, sejam elas concretas, objetivas, dadas, ou abstratas e subjetivas, ou (quando uma imagem de fato possui algum valor) formada das duas coisas ao mesmo tempo. Exemplo disso é que Einsten concebeu a ideia da Teoria da Relatividade observando, da janela de um trem em movimento, o relógio de um campanário. E toda a tradição poética, inclusive a poesia metafísica, (infelizmente tão escassa em língua portuguesa) tem seu motor de arranque numa imagem deste gênero, como nesse fragmento de T. S. Eliot, de Os Quatro Quartetos: “A água e o fogo sucederam à vila/ao pasto/à urze anônima/A água e o fogo escarneceram/Do sacrifício que repudiamos/A água e o fogo escavarão/Os podres fundamentos que olvidamos/Do santuário e de seu coro/Esta é morte da água e do fogo.” Portanto, o poeta teve, em primeiro lugar, de imaginar/observar como se processa a “morte da água e do fogo” quando aniquilam, no processo de existir, aquilo que os sustenta. A questão está, como você frisa, Assis, na relevância que está suposta imagem pode adquirir num determinado contexto. Quer esteja ela numa história em quadrinhos, ou nas páginas imortais de um “Crime e Castigo”.

  10. Arthur disse:

    Eu ainda estou esperando o dia em que vou chegar aqui, ler tua coluna e dizer “Pronto, o tema esgotou.”
    Não que não haja uma infinidade de abordagens acerca dos quadrinhos. Só acho louvável que, a partir do “mesmo tema” (a saber, algo como “quadrinhos vistos como algo inferior à literatura”), você tenha conseguido escrever tantos textos bons e com consistências semelhantes.
    Continue o bom trabalho.
    Aquele abraço

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