A irrelevância da literatura brasileira

Por Joca Reiners Terron


Mutantes e Gilberto Gil

No mês passado fui convidado a falar sobre José Agrippino de Paula, escritor paulista nascido em 1937 que publicou somente dois romances e alguns poucos contos. Aproveitei e reli tudo dele, além do texto crítico mais conhecido — o único? — sobre sua obra, o ensaio Supercaos, de Evelina Hoisel (Civilização Brasileira, 1980). Para que Zé Agrippino entrasse para a história da literatura brasileira teria bastado apenas Panamérica, livro que influenciou o Tropicalismo e semeou a cachola encaracolada de Caetano Veloso (o paulista é o mais citado no índice onomástico de Verdade Tropical, livro de memórias do músico baiano). A verdade, porém, é que — queiram ou não Caetano e demais defensores da importância de Panamérica, como Mario Schenberg, Celso Favaretto etc — Agrippino não entrou para a história da literatura brasileira: não é lido, não gerou massa crítica. Pergunto: e por que ainda não?

Dias atrás tive a sorte de entrevistar em Porto Alegre o escritor argentino César Aira, frequentemente relacionado como atual camisa 10 da forte literatura produzida na vizinhança. Em meio a outras afirmações, Aira (que entre seus mais de sessenta livros também é autor de um abrangente — repleto de brasileiros — dicionário de autores latinoamericanos) considerou nossa literatura a “mais rica do continente”, além de comentar como a leitura precoce dos contos de Guimarães Rosa quase o levou a desistir de escrever e de tascar uns elogios hiperlativos à obra de Sérgio Sant’Anna, Dalton Trevisan e João Gilberto Noll. Eu o ouvia em seu entusiasmo e pensava o que diriam se ali estivessem os jovens críticos brasileiros tão céticos que militam na internet e enchem a bola dos argentinos sem muito critério, pois tudo vale para parecer moderno e bem informado (chamo isso de “Síndrome de Pepe Escobar”*). O crítico literário brasileiro do século 21 é um provinciano às avessas, preferindo valorizar o estrangeiro a parecer caipira.

E por que Agrippino não entrou para o cânone brasileiro ou mundial (há esperanças, pois Panamerica foi recém editado na França) e os “pepe boys” da crítica literária webrasileira olham tanto para cima, para baixo e nunca para os lados, embora César Aira lhes forneça pistas com alguma regularidade (ele já falara de Dalton na Flip em 2007 e vem traduzindo sistematicamente Sérgio Sant’Anna na Argentina)? A releitura de Hoisel me sugeriu uma hipótese: a segunda metade da década de 60 viu no Brasil a explosão da música popular em sua vertente mais estridente e pop, da Jovem Guarda à Tropicália. Com o endurecimento que rolou em 64, mas principalmente a partir de 68, o teatro brasileiro — cujas origens estão diretamente ligadas ao comentário social — também veio para a frente do palco, unindo-se ao protagonismo da música e do cinema. A literatura teve lá seus destaques — o Concretismo, por exemplo, e ensaístas políticos —, contudo a ficção se recolheu aos bastidores.

Tornou-se impossível para a narrativa competir com amplificadores Marshall e plumas e paetês, mas não creio que a ficção literária de então tenha sucumbido à irrelevância, ela apenas não foi ouvida: diante da barulheira de massa provocada pelo impacto estético da Tropicália, pelo Cinema Novo e pela dimensão opositora do teatro (de Augusto Boal, de Zé Celso, e até do próprio Agrippino, cujo Rito do Amor Selvagem espocou a cilibrina da rapaziada), a baixa voltagem da narrativa — mais propensa à fruição individual — se alastrou pelas margens, fazendo a cabeça de uns poucos antenados e atingindo o público apenas indiretamente. Entre criadores da época que só seriam resgatados três décadas depois estão Hilda Hilst, Samuel Rawet e Campos de Carvalho. A situação começa a mudar nos anos 90, mas isto ainda não se reflete na produção crítica brasileira, que continua a dedicar** mais teses a Aira (e a Roberto Bolaño, W. G. Sebald e J. M. Coetzee) do que a todos os brasileiros citados neste texto — juntos.

Isso se deve, evidentemente, ao fato de a Argentina produzir bibliografia crítica sobre César Aira aos montes. Para que, afinal, perder tempo procurando reverter nosso descaso e atraso em relação ao que se produziu aqui se referências abundam logo ali e com as vantagens do câmbio favorável? Enfim, para que pensar? Ademais, é como afirmou Nelson Rodrigues: “Que Brasil formidável seria o Brasil se o brasileiro gostasse do brasileiro.”

* Jovem e pouco esclarecido leitor, Pepe Escobar é um jornalista musical que atuou na Folha de S.Paulo nos anos 80 e adorava citar umas bandas de rock que ninguém conhecia a não ser ele (e eram desconhecidas, claro, porque ele as inventava).

** Não possuo dados estatísticos, só chutes empíricos.

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujoSonho interrompido por guilhotina, entre outros. Pela Companhia das Letras, lançou seu último romance, Do fundo do poço se vê a lua, e relançou seu primeiro, Não há nada lá. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.
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55 Comentários

  1. Carlos Lima disse:

    Caros muito bom o texto é historia que muitos ainda nao conhecem, obrigado demais !! para voces deixo um site otimo

    http://portugues.free-ebooks.net/

  2. Selma disse:

    Puxa, agora me senti mesmo velha…pois me lembro do Pepe Escobar e das bandas de garagem inglesas que ele citava, como que zombando da nossa ignorância…Também considerava muito colonizado essa mania que ele tinha, talvez porque, naquele tempo, eu gostava mesmo e’ de ouvir musica brasileira. Obrigada pelo texto!

  3. Heli disse:

    Mesmo que eu não tivesse gostado do que vc. escreveu (e gostei), teria adorado a menção ao injustiçado/ transgressor/gênio Rawet, que a Record editou há uns 5 anos (obra quase completa) e vendeu pouquíssimo, e ao Marcos Santarrita, que faleceu há um ano sem o reconhecimento que teria merecido. Tem um romance inédito considerado difícil de publicar pelo tamanho (400 páginas). O texto tem amor, intriga e pano de fundo histórico, seria legível se, em vez de ser sobre a guerra do Paraguay, fosse sobre a Guerra Civil americana? Vai saber o que os editores acham que vende… Deve existir por aí um leitor brasileiro “normal”, culto mas não pedante, leigo em literatura mas voraz admirador de bons textos, que adoraria ter nas prateleiras mais opções nacionais. Diversidade devia ser the name of the game…

  4. Rogério disse:

    Li todos os comentários, procurei entender o ponto de vista de cada um, não consegui, não fui capaz de chegar a consenso. Mas que dane-se o consenso. O escritor, parodiando um artigo do Bortoloto é um outsider. Ele não tem nenhuma pretensão de pertencer a uma turma ou se enquadrar em alguam escola, se é de esquerda, se é de direita, se é poticamente correto, se não é.
    Ele escreve sem se preocupar se a academia vai gostar, se os literatos vão aclamar, se o livro vai vender, se, se, se… O caminho da literatura é ele e a sua escrita, nada mais. Cada um que faça do seu escrito o que quiser: goste, odeie, critique, elogie. Não importa. Quem se importa com o que os outros vão dizer, pensar, escrever, nem devia começar.

  5. jimmy Avila disse:

    Por muito tempo viviamos sobre um patrulhamento ufanista da esquerda mais popularesca e provinciana que rejeitava boa parte da produçao literaria estrangeira.

    Nos ultimos tempos essa atitude ingenua tornou-se insustentavel em funçao da internet e das novas midias.

    Os leitores e criticos bem informados admiradores de escritores estrangeiros poderam sair do armario e declarar seu fascinio por obras literarias contemporaneas de altissima qualidade que eram simplismente ignoradas pela inteligencia engajada .

    Mas a alegria durou pouco e o Multi-Culti relativista, antes reservado a academia e aos escritos obscuros dos universitarios, tornou-se o impoerativo em todos os setores da arte e do pensamento tupiniquim!

    Da novela-das-oito ao cafe filosofico o culturalismo nacionalista virou o que há de mais…. cult!

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