Criadores e criaturas

Por Érico Assis


Alan Moore e Dave Gibbons

Há dois anos, Isaac Perlmutter ganhou sozinho US$1,6 bilhão na partilha da venda da Marvel à Disney. Entrou para a lista de bilionários da Forbes. Há poucos dias, Vingadores virou o filme mais rápido a ultrapassar US$1 bilhão em arrecadação internacional. Kevin Feige, o produtor, está cotado para virar cabeça do Disney Studios, com salário de oito dígitos. O ator Robert Downey Jr. vai embolsar US$50 milhões de participação nos lucros do filme (e, sendo Robert Downey Jr., vai gastar tudo em alguma coisa que envolve transatlânticos, modelos russas, coalas e anões).

Stan Lee, co-criador dos Vingadores, ganha US$1,25 milhão por ano para dizer que está amando tudo. O mesmo Lee deu a entender que seu parceiro na criação dos Vingadores, Jack Kirby, não precisava ser creditado no filme. Afinal, não é produtor e estão lá os contratos que ele assinou dizendo que fez uma criação encomendada. Os direitos são da editora. Kirby faleceu em 1994 em litígio com a Marvel — que continua através dos herdeiros —, exigindo dividendos e devolução de originais.

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Aí por 1985, Alan Moore e Dave Gibbons criaram Watchmen, uma das raras HQs a virar unanimidade tanto de crítica quanto de vendas. Talvez a única. Tendo já algum renome, assinaram um contrato fora do padrão: teriam os direitos autorais sobre a obra assim que a DC Comics deixasse de editar Watchmen. A DC reedita a obra ininterruptamente há vinte e cinco anos. Nada conspiratório: a HQ vende, esgota, vende, esgota, vende etc.

Então os altos executivos da Warner viram que dava para tirar mais dinheiro de Watchmen. E aí ela virou filme (meio que fracassado). E aí ofereceram os direitos a Moore em troca de novas HQs sobre o antes e o depois de Watchmen – e ele respondeu que deviam ter feito isso vinte anos atrás. A DC então chamou outros autores para fazer Antes de Watchmen. Moore disse que só não processa a editora porque ficaria juridicamente amordaçado, disparou que as editoras norte-americanas têm uma “ética gângster” e decretou que quem comprar estas novas HQs nunca mais deve comprar obras suas. Por conta do debate, um free-lancer resolveu nunca mais trabalhar com a DC e uma loja recusou-se a vender Antes de Watchmen. Então, a Warner licenciou uma torradeira que tosta seu pão com a cara do Rorschach.

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Para quem acompanha o noticiário sobre quadrinhos, a maior discussão do momento é esta: casos de autoria e moralidade. Qual é a atitude certa quando esses folhetins desenhados há décadas começam a render milhões (ou bilhões)? Respeita-se, relembra-se e remunera-se os criadores das criaturas de sucesso? Independente do que diz o contrato (que diz “não”)? Por que outros podem lucrar seus milhões (ou bilhões) sobre as criaturas? O criador tem ou não tem direito de dizer que a narrativa de sua criatura começa aqui e termina ali? E se as criaturas podem ou não virar torradeiras?

A resposta sussurrada é a mesma: “é só um gibi”. É um julgamento que perpassa tudo. Stanley Lieber começou a assinar Stan Lee porque “é só um gibi” e ele queria reservar o nome verdadeiro para a literatura séria. Os autores abriram e abrem mão dos direitos em contrato porque “é só um gibi”. Não vamos criar caso com prelúdios, sequências, reinterpretações, roupa de cama e torradeira porque “é só um gibi”.

(Moore: “Até onde sei, não saíram prelúdios nem sequências de Moby Dick.”)

O preconceito embaça o debate, que já seria complicado de outra forma. Sinceramente, sinto um certo estranhamento — até medo — ao ler comentários de leitores que defendem as editoras. Por mais que entenda o argumento: a letra do contrato, enfim. Mas diante dos bilhões e das solicitações dos criadores — grana e integridade da obra e participação naqueles lucros —, me parece mais ético, mais esperto, mais todos ganham e mais longo prazo respeitar o criador.

Não é coitadismo. Não é desafiar a mais-valia. É gratidão. A sua existência e a minha são um pouco mais agradáveis graças às criaturas que estes criadores colocaram no mundo. Faz parte da leitura, pelo menos da minha leitura, a satisfação em saber que estes criadores têm uma vida agradável e prerrogativa sobre a própria obra. Não “é só gibi”, mas compaixão por alguém que criou algo que você admira. Bastaria isso.

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Para compensar, outra notícia desta mesma safra: Alison Bechdel, autora de Fun Home e do recente Are You My Mother?, ganhou a bolsa de artista da Fundação Guggenheim para continuar a fazer graphic novels sem se preocupar com as contas. Não corrige o mundo, mas dá um alívio.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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7 Comentários

  1. HENRIQUE disse:

    O autor tem que ter direito sempre sobre sua obra. Vendeu mais, ganhou mais. É o ganha-ganha-ganha. Ganha o autor, ganha a editora, ganha o leitor com o autor feliz que vai ter prazer em criar novamente.

    Respeito é básico quando se fala em criação.
    Criar é muito difícil, roubar ideia dos outros é fácil.
    A editora já fica sempre com a maior parte do lucro, mas o ganho, por respeito aos geniais criadores, tem que ser proporcional e repassado.

    Isso deveria estar em todos os contratos.

  2. Pedro O. disse:

    Érico,

    acho que um dos grandes problemas de defender o contrato é supor que o artista assinou aquilo porque consentiu. A editora e o artista não estão em pé de igualdade quando redigem aquele acordo, pois, caso o artista não concorde, a editora o manda embora e arruma um outro paspalho que vai aceitar, e o coitado fica sem emprego. Por isso, acho que falta ética mesmo. Mas pedir ética às grandes coorporações é piada.

    Uma discussão que parece a mesma, mas acho muito mais difícil de solucionar, é a do controle total do autor perante outros artistas. Será que é ou não valido que outros artistas utilizem trechos ou personagens de um autor? Eu acho que é, mas desde que seja por fins sublimes, artísticos. O próprio Alan Moore reutilizou personagens em Watchmen, validamente, pois seu objetivo era criar uma obra de arte. Acho que o problema começa quando se quer apenas uma fonte de lucro, comercializar sem pensar na arte, como esse prelúdio do Watchmen. Mas, voltamos ao problema do primeiro tópico, acreditar na boa intenção das pessoas. Mas o que mais podemos fazer?

    (R: Podemos selecionar melhor o que consumimos e incentivamos)

  3. Ricardo Tayra disse:

    Érico, sigo na sua linha de pensamento.

    Me parece que esta forma de agir inclusive só diminui as HQs como forma de expressão artística. Como tratar como Arte uma produção que envolve tanto interesse comercial assim?

    Por conta disso, iniciativas como a do Guggenhein citadas no seu texto são mais que louváveis.

  4. Alessandro disse:

    Olá,Érico. Muito bom seu texto, que suscita muita discussão se Watchmen é “somente” um gibi. Não sei se você sabe, mas Watchmen foi considerado um dos grande romances da década de 90 pela revista. Além dessa obra que é considerada a maior de Alan Moore , que tem ao mesmo tempo que a despreza também reconhece sua importância cultura, outro gibi que tem elementos literários, digamos assim, é Sandman, de Neil Gaiman. De qualquer forma, tanto Gaiman como Moore ajudaram a dar uma nova configuração as hqs e, talvez nos fazer repensar o conceito de literatura na época atual.Voltando a Moore, acho que o “cara” ao agir de forma tão radical a ponto de dizer publicamente quem comprar os previweis de Watchmen não deve mais ler nenhuma de suas hqs está literalmente “viajando na maionese”, além disso isso me cheira a markenting, já que no mundo atual somente aqueles que provocam polêmica é que ficam na mídia. Ou seja, agindo assim, Moore consegue sempre chama atenção para divulgar seus trabalhos pós-Wachtmen, que ele reconhecendo ou não continua sendo sua obra-prima. Abraço.

  5. Vitor disse:

    Isso me diz muita coisa, e é bem engraçado ler isso aqui no blog da companhia porque é um comportamento espelhado pelo que me parece. Mas claro, qualquer semelhante com a “realidade” é mera coincidência.

  6. Arthur disse:

    Podia estar recuperando minhas duas semanas ausente no mestrado, podia estar lendo Ulysses, podia estar preparando a apresentação que farei esta quarta, mas não, estou aqui lendo o teu texto, Érico. Vício meu, a única culpa que você tem é continuar a escrever.

    Muito bom o texto, as usual.

    Meu maior contato com o tema foi na hq Fracasso de Público, de Alex Robinson. O último volume que saiu no Brasil (“Adeus”, que, inclusive, possui o primeiro blurb numa quarta capa deste que vos fala/escreve/comenta) apresenta um baita tom agridoce na resolução dessa questão. O tom fica mais feliz no finalzinho mesmo (não pelo que acontece com o velhinho que criou o herói no passado, mas pelo desenrolar da história do quadrinista gordinho e meio solitário, que defendia os direitos autorais daquele). Essa hq, por sinal, vale MUITO a pena. Mas, lógico, você já deve ter lido e saber disso.

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