Links da semana

Curiosidades:

  • Quem é melhor: Tolstói ou Dostoiévski? Oito experts em literatura russa dão sua opinião (The Millions)
  • Precisa-se de novos críticos literários: Pedro Almeida critica a pouca atenção que os suplementos literários dão à literatura comercial (PublishNews)
  • Ilan Brenman, autor de diversos livros infantis, foi ao Programa do Jô para falar sobre literatura e o politicamente incorreto. Veja o programa aqui.
  • A ONG Worldreader deu ereaders para estudantes de Ghana, e percebeu aumentos significativos nos índices de leitura das crianças (GigaOm)
  • Madame Bovary resumido em um gráfico (PWxyz)
  • Julgue um livro pela capa: assista à conferência TED de Chip Kidd, um dos mais famosos capistas americanos.
  • 12 bibliotecas móveis impressionantes (Flavorwire)
  • 10 prédios inspirados em livros (Flavorwire)
  • John Updike sugere 6 regras para critícos literários (Bibliotecário de Babel)
  • O Instituto Moreira Salles promoveu um bate-papo sobre Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos. Assista a íntegra dessa conversa entre Flávio Pinheiro e Matinas Suzuki Jr.
  • 10 instalações construídas com livros (Flavorwire)
  • Já pensou como seria um reality show tipo America’s Next Top Model… com escritores? O Entertainment Weekly tentou imaginar um programa assim.
  • Thomas Pynchon completou 75 anos dia 8, e o Mais1Livro preparou um especial sobre esse autor recluso.
  • Ecologicamente incorreto: comparações feitas por Nick Moran mostram que um ereader teria que ser usado por 5 anos para causar um impacto ecológico menor que os livros impressos (The Millions)
  • Um papo sobre literatura, cinema e quadrinhos com Lourenço Mutarelli (Saraiva Conteúdo)

Notícias:

  • O poeta Simon Armitage resolveu aproveitar as Olimpíadas para propor uma reunião de poetas de todos os países que participam da competição — e Paulo Henriques Britto foi escolhido para representar o Brasil.
  • Brooklyn, de Cólm Tóibin, virará filme com roteiro de Nick Hornby e Rooney Mara no papel principal (Hollywood Reporter)
  • Inundação na Biblioteca Nacional causou danos maiores do que os anunciados pela instituição (O Globo)
  • A HBO resolveu não produzir o seriado inspirado em As correções, que teria Ewan McGregor e Maggie Gyllenhaal no elenco (Omelete)
  • Uma parte da obra de Laerte foi perdida após um assalto à casa do cartunista (G1)
  • O lançamento do filme Cosmópolis foi adiantado para 13 de julho no Brasil, e mais dois clipes foram divulgados (Omelete)
  • Orhan Pamuk inaugurou na Turquia o Museu da Inocência, espaço que aparece no seu romance de mesmo nome, e que reúne objetos dos personagens fictícios. Veja algumas fotos.
  • Com obras atreladas a um certo estigma de exotismo, escritores brasileiros portugueses, angolanos e moçambicanos tentam conquistar igualdade no mercado editorial internacional (Gazeta do Povo)

Entrevistas:

  • Alex Bellos, autor de Alex no País dos Números: “No colégio, eu era bom em inglês e matemática. Todos falavam que a aula de inglês é mais criativa, porque é algo que nós lemos e escrevemos histórias. Mas a matemática é ainda mais criativa. Você tem de inventar uma linguagem própria para solucionar um problema.” (Link)
  • Ali Smith, autora de A primeira pessoa e outros contos: “Ficção significa todos os possíveis eus. E se pensarmos em apenas uma pessoa, tantos eus habitam essa pessoa. Então, cada eu é nós, você, ele, ela, eles.” (Estadão)

Resenhas:

  • Contra o dia, de Thomas Pynchon: “é o exemplo máximo da prosa descontrolada do misterioso autor, um dos principais nomes da literatura norte-americana contemporânea” (Antônio Xerxenesky, Bravo!)
  • Patrimônio, de Philip Roth: “No esforço de registrar o sofrimento do pai e também a própria tristeza de perdê-lo, Roth faz um tributo ao homem que o criou.” (Irinêo Baptista, Gazeta do Povo)
  • Segundos fora, de Martín Kohan: “É difícil imaginar um livro que tenha tratado de forma tão fidedigna os eventos de uma luta de boxe, assim como tenha sido tão respeitoso e vibrante ao abordar as minúcias da música clássica. Da mesma forma, como todo bom romance policial, um livro capaz de deixar a resolução do mistério literalmente na última folha e sem perder a tensão narrativa é um feito notável.” (Gustavo, Amálgama)
  • Festa no covil, de Juan Pablo Villalobos: “São pequenos detalhes narrados com sutileza e inocência que  vão delimitando uma vida que aparenta ser normal, mas é moldada por armas, cadáveres e vinganças.” (Clícia, Silêncio que eu tô lendo)
  • Uma morte em família, de James Agee: “seus trechos poéticos têm o dom de encantar e surpreender o leitor, especialmente quando mesclados com um tema tão doloroso e delicado quanto a morte.” (Camila, Livros abertos)
  • A magia da realidade, de Richard Dawkins: “Seu objetivo é mostrar que a realidade de cada fato natural é mais maravilhosa que a história mítica inventada para explicá-lo.” (Amanda, O espanador)
  • Ho-ba-la-lá, de Marc Fischer: “O alemão não queria uma entrevista, uma fotografia ao lado do ídolo, um autógrafo, nada disso. Queria apenas ouvi-lo tocar Ho-ba-la-lá em seu violão.” (Zema, Musa Rara)

10 Comentários

  1. Paulo Dias disse:

    Pelo que percebo, já é hora de levarmos o debate um pouco mais longe. Vou tentar fazer, ligeiramente (ou talvez nem tanto) minha defesa do que considero importante na alta literatura e porque insisto tanto em sua proteção e em sua difusão “assistida”. Antes quero deixar claro que não sou crítico literário e nem pretendo sê-lo. O objetivo que sempre norteou minha vida foi e ainda é, além o de tornar-me um bom escritor, um homem, em todos os sentidos, melhor. Isto, naturalmente, levou-me a refletir sobre a espécie de textos que, segundo meu temperamento, senso crítico e eventual talento, estava apto a produzir. Pois bem, dentro de todas as literaturas com as quais travei contato ao longo dos últimos trinta anos, a literatura russa clássica, ao lado da francesa, foi a que mais me impressionou e com a qual melhor me identifiquei. Por isso, vou procurar me deter em alguns de seus principais autores. Então, se me permite, me verei obrigado, apesar do improviso, a adotar um tom ligeiramente ensaístico.
    Poderíamos intitular o que vai ser dito abaixo, partindo da “Inspiração”, lúcida e serena que motivava esses mestres na realização de suas obras monumentais de “A Sanidade dos Autores Russos”. Me acompanhe, por favor…
    A seriedade e sabedoria com que o autor, através de seu conhecimento da vida e dos homens, como dizia Máximo Gorki, reveste e ao mesmo tempo disciplina sua inspiração – amorfa, maleável e naturalmente rebelde –, é o que determina a qualidade e o alcance que, efetivamente, terá a obra.

    Os autores russos, nesse sentido, são exemplares. Talvez ninguém mais tenha como eles, exceção feita a Shakespeare e possivelmente, Cervantes, exercido um domínio tão perfeito sobre esse potro selvagem que designamos, muitas vezes levianamente, por inspiração. Eles a traziam em rédea curta, muito bem controlada. Sabiam eles que ao menor descuido ela os arrancaria da sela, ou o que era pior, os arrastaria loucamente para o precipício mais próximo. O que, em literatura, se configura no grotesco, na tergiversação estúpida e vazia, numa ambiguidade cínica, num experimentalismo vaidosamente irresponsável ou na tola presunção literata.

    A questão toda é: como eles conseguiam fazer isso? Em primeiro lugar, porque estavam particularmente cientes que eram, como também nós o somos, quer admitamos ou não, movidos por padrões ancestrais de comportamento, herdados e transmitidos de geração a geração. E estes, eles sabiam – bem antes de Freud e das vertentes psicanalíticas que tomariam de assalto o século vinte –, pertenciam à duas categorias principais. Quais sejam: Conscientes e Inconscientes. Eles acreditavam que se fossem capazes de compreender profundamente e livre de preconceitos os primeiros, ou seja, os Padrões Conscientes de Comportamento, poderiam, com maior liberdade, dialogar com os segundos, quer dizer, os Padrões Inconscientes de Comportamento, que em última instância são os responsáveis por influenciar e determinar os primeiros. Pois bem, uma vez estabelecido o difícil “diálogo” que elucidaria para eles seu contexto cultural, histórico e ideológico, seriam capazes de começar a desfazer o nó de seus maus, ou quando pouco, mal compreendidos hábitos mentais, e possivelmente reorientar sua excepcional inspiração de modo que ela pudesse criar uma obra de autêntico valor.
    Isso, naturalmente, essa “tomada de consciência”, essa “sanidade extremada”, num sentido estritamente intelectual, contestador e moralmente crítico a qual se dispuseram, não implicou necessariamente numa mudança radical de comportamento, digamos, social e familiar. Embora, acredito eu, tenha-os tornado indivíduos, fraternalmente falando, melhores em variados aspectos e provocado todo o gênero de mudanças em suas vidas. Mas não é disso que se trata quando me refiro à “Sanidade”, aqui, nomeadamente, dos escritores russos. Essa, devo frisar, refere-se à eles exclusivamente enquanto escritores, artistas da palavra e do pensamento escritos.

    Certamente que reconheço, dentro da acepção que empresto ao termo sanidade (que poderia tranquilamente substituir por Cosmovisão), outros tipos, como as de São Tomas de Aquino, Santo Agostinho, Paulo de Tarso, Sidarta, Gandhi, Jesus Cristo, Nietzsche, etc. Algo assim como uma pausa, um lapso, um nicho, um esconderijo, uma espécie de Aleph, um ponto de luz em meio à mais cerrada escuridão e demência pessoal e coletiva; a partir do qual pode se ver tudo e compreender tudo com uma nitidez e lucidez espantosa e que muitas vezes, dependendo de quem olha, pode iluminar e instruir, por simples reflexo, os demais a sua volta.

    Penso que esse, justamente, seja o maior mérito dos mestres russos, o que os tornou realmente imprescindíveis a todos aqueles que ainda acreditam no Humano; porque, precisamente em razão do mergulho que operaram – não apenas nas trevas das taras, do crime, dos complexos inconfessáveis ou das visões apocalípticas e inevitavelmente destruidoras, como já apontaram maliciosamente nos romances de Dostoiévski; ou no cristianismo realista e ao mesmo tempo ingênuo de Tolstói com seu apelo à não-violência; ou na aparente alienação social e política dos contos sublimes de Tchekhov; ou na melancolia soturna e repleta de um simbolismo sombrio das novelas de Andreiév, mas sobretudo no salto sem rede de proteção que eles deram no âmago de uma luz tantas vezes cegante, na clareza mais brutal de nossas consciências ainda em processo de formação.

    Essa energia clarividente e conscientizadora perpassa seus textos e lhes dota de uma ressonância incrível, que ultrapassa e transmite ao leitor mais impressões que aquelas que foram, num primeiro momento, explicitamente e implicitamente sugeridas pelo narrador. E imagino que recompensa maior que essa nenhum leitor, por mais exigente que se queira, possa desejar de um livro.

    É inerente à grande literatura a capacidade de despertar no leitor, uma vez atento e sensível ao que lhe é comunicado, o melhor de seu potencial, e de torná-lo, também ele, leitor, um visionário (quase ia dizendo das coisas eleitas). Visionário no sentido de ensiná-lo a estar alerta e a aprender a interpretar o que acontece consigo mesmo e o com o outro. Assim, a grande literatura, como a praticada pelos escritores russos, esclarece, retira da sombras o que penava na obscuridade; nos liberta, nos coloca no controle (que acreditávamos impossível) de nossas vidas inconscientes. Posto que ela encerra uma verdade extraordinária. Não o tipo de verdade que pode ser manipulada pelas nossas pré-disposições práticas, de tempo hábil, de competências, de efetividade; em suma, de imediata aplicação, visando vulgarmente a tal e qual resultado, e tal e qual efeito. Ou mentais, normalmente solipsistas, auto-centradas. Ou ainda espirituais, remotas e diluídas, quer seja por promessas desenganadas, quer seja pelo inevitável esgotamento da fé. Oferece antes uma verdade, que nos afirma e nos confirma como entes, como existentes numa congregação de seres inteligentes e sensíveis, e assim nos cura e liberta da imposição afirmativa, todavia, insegura e irresoluta de nossa natureza enfermada e escravizada pelo tempo e pelas necessidades sempre urgentes e iguais de pão, de crença e de razão.
    Agradeço a você, Marco Severo, ao Sr. Schwarcz e as demais pessoas responsáveis pelo excelente espaço que, pelo que percebo, está aberto aos bons debates. Obrigado a todos.

  2. Marco Severo disse:

    Luiz –

    Eu que agradeço a você pelo espaço, esse blog que sempre, desde o começo, tem sido motivo pessoal de tantas alegrias. E lisonjeado por saber que você lê as coisas que os leitores publicam nesse espaço. Aproveito e faço dos seus agradecimentos à Diana, Juliana e Clara, meus também.

  3. Marco Severo disse:

    Bom, Paulo Dias: honestamente, de minha parte, nunca imaginei que essa discussão tivesse como objetivo um demover o outro de suas ideias; mas unicamente de argumentar a respeito daquilo em que acreditamos. Medir forças nesse sentido é da mesma natureza da medição de falos em Freud, e francamente sem razão de ser, levando a uma torrente de palavreados de natureza ígnea, o que anda longe de ser algo que me cause qualquer contentamento.

    Assim, afirmo-lhe: ao tornar a leitura um vício, numa época em que eu misturava Erico Verissimo com Albert Camus e Stephen King, pelos idos de minha adolescência e início da fase adulta, quando queria abarcar tudo vorazmente, caminhei muito pelos vales das descobertas, e sim, algumas obras que li de autores bestsellers me serviram, sim, para discutir assuntos que me eram novos, como a eutanásia (e isso há 20 anos), que parece ser sempre um motivo para discussões acaloradas. E o assunto estava lá, com o ponto de vista do autor, dentro de uma obra bestseller. Serviu pra que eu refletisse sobre o tópico, conversasse com professores, amigos, fosse pesquisar sobre o assunto. E esse é só um exemplo. Não vejo sentido em querer nortear ninguém pra nada, chega de querer tratar as pessoas como se fossem ovelhas, eu não sou pastor nem de mim mesmo, como poderia ter a prepotência de querer apontar caminhos para os outros? (Nesse sentido da literatura, que fique bem claro). No máximo, ergue-se o braço e mostra-se um caminho POSSÍVEL, sem a pretensão de que ele seja o MELHOR.

    Se estamos aqui para evoluir de alguma forma – ainda que não necessariamente dentro de uma vertente espiritual – , não há outro caminho que o da tentativa e erro. Somos essencialmente isso: um emaranhado de caminhos possíveis que se desfazem ao longo da vida. Ou não. As pessoas podem, sim, ter caminhos sugeridos, mas ninguém pode, jamais, achar que tem o direito de dizer que o Expressionismo é melhor que a arte contemporânea, que Chopin é melhor que Choro, que Joyce é melhor que Harold Robbins – ainda que nós POSSAMOS ver atributos melhores em cada um daqueles que consideramos ter mais qualidade. E vivemos sob essa égide inabalável. Eu acho que Joyce é melhor que Harold Robbins, e pra mim, quanto a isso não pairam dúvidas. Mas e se alguém precisar passar antes por ele até um dia chegar no Joyce? Eu também considero Virginia Woolf melhor que James Joyce, e sei que muitos discordarão de mim, embora talvez essa mesma pessoa concorde que ambos são bons autores. Mas e daí? Por que isso me faria alguma diferença? A que tipo de questionamento social se quer chegar ao afirmar que precisamos nortear o povo, como rebanho? Deus – pura força de expressão – me livre de uma condenação dessas, porque, seguramente, é um trabalho mais duro que quebrar rochas. E que fará quem quer que se proponha a fazê-lo andar a esmo, feito lemmings.

    Se é preciso “estabelecer algum tipo de mecanismo” para resguardar a arte dos mestres que amamos, eu é que não quero fazer parte disso, tratar o outro como se foram robô, depósito de qualquer coisa. Nações e nações tentaram destruir a arte, e no entanto, ela continua aí, ereta, imponente, pronta para ser descoberta por quaisquer mente que se mostre um pouco mais aberta para absorvê-la e acolhe-la dentro de si, sem que para isso precisemos de pessoas a dizer que a estrada pra percorrer é essa ou aquela. Robert Frost nos ensina: Duas estradas divergem numa bifurcação, e como és só um e não podes viajar por ambas, naturalmente escolhes uma – e essa escolha faz toda a diferença!

    Não há problema se a diferença agrada àqueles que acham que se deveria ter escolhido a outra estrada, ou desagrada. O que importa, Paulo Dias, é que tudo é caminho. Quem somos nós pra julgar onde ele vai dar?

  4. Paulo Dias disse:

    Pois então, Marco Severo, essa discussão parece não ter mesmo fim. Mas, como qualquer outra que vale a pena, precisa ser conduzida no campo do cavalheirismo. Mas lhe afianço, não recuarei de minha posição, a não ser que seja para contra-atacar com mais determinação. Vejamos então. Não pretendo lançar diretrizes. Extrapola minha alçada e não é de meu caráter determinar o que as pessoas devem fazer ou ler. Meu compromisso pessoal, encarado com firmeza, mas com a humildade que a empreitada (quixotesca para muitos) requer. Sustento mais uma vez que é preciso sim disponibilizar coordenadas concretas para aqueles que ainda tateiam no escuro, sem um norte ou porto no largo oceano da mediocridade que os assedia. Isto não significa impor coisa alguma ou a execração púbica de um sem-número de obras e autores duvidosos. As fogueiras de Hitler ainda ardem em nossas consciências com demasiada intensidade, quanto mais porque os livros queimados e os escritores banidos durante seu regime eram em sua maioria esmagadora, relevantes. Mas ficou o exemplo da intransigência a que se pode chegar, tanto para o bem quanto para o mal. Desejo longa vida aos best-sellers, até porque não são um fenômeno moderno. A literatura barata sempre coexistiu com a alta literatura. Pois, ora, será que só haviam Tolstóis, Dostoiévskis, Tchekhovs na Russia czarista? O tempo, sabemos, é implacável, e daqueles que não alcançaram atingir certo patamar de excelência, nem poeira restou. Contudo… temo que essa premissa básica está por ser derrubada. O crisol do tempo, a grande purga de nossos percalços, de nossas veleidades, particulares e coletivas, está a enferrujar. No sentido, entre outros, de que a realização de um livro praticamente perdeu seu status individual, de obra autônoma, de reflexo de uma inteligência e sensibilidade que se coloca numa posição privilegiada para avaliar/analisar/perceber/fruir o mundo. Ou seja. De si mesmo e com o incontornável compromisso do auto-aperfeiçoamento e, se for bem sucedido, do aperfeiçoamento alheio. Os livros, cada vez mais (aqui está minha objeção), são produzidos para atender a uma demanda sempre crescente por entretenimento fácil e barato, esse insaciável e libertino Moloch. Que, paradoxalmente, pode ser entendido como puro, nefasto egoísmo, dado que, a rigor, não encerra experiência humana alguma possível de ser partilhada.
    Convido-o a fazer um teste. Tente se lembrar de algo que o tenha impactado, uma reflexão, uma tomada de consciência qualquer acerca de algo lido num desses livros de fácil degustação. Algo passível de gerar um debate crítico, ou, na melhor das hipóteses, um diálogo honesto e fraterno com alguém de sua convivência.
    Como deixei claro, não estou a apregoar o fim de nada, nem mesmo do mosquito da dengue, o qual deve servir a algum propósito na natureza. Digo apenas que é preciso estabelecer algum tipo de mecanismo capaz de resguardar nas consciências tudo aquilo que foi conquistado e que, tão importante quanto (eis talvez minha missão, a sua, a do Sr. Schwarcz), nos possibilite compartir, contagiar, levar adiante a arte, a percepção, a sabedoria desses mestres que tanto amamos.
    Agora, sou sim. Sou um autor publicado, e meu próximo livro (o segundo) sai até setembro. Figurar na lista dos mais vendidos? Bem, tudo é possível, embora jamais tenha sido este o fator motivador de minha ficção. Ela, quero acreditar, é portadora de alguma complexidade e de alguma virtude maior do que eu mesmo jamais possui. Assim sendo… Bem, de todo modo, eis aí o mistério da arte – um cristianismo, se quiser, de ponta-cabeça. A criatura pode sair(-se)infinitamente melhor que seu criador.

  5. Luiz Schwarcz disse:

    Gostaria de agradecer a vocês pelo debate tão interessante no blog, com o qual todos saímos ganhando. E um parabéns a turma que toca o blog, Diana, Juliana, Clara, por proporcionar todos dias e de formas diversas um local tão atraente para leitores opinarem. Feliz e realizado mando abraços a todos.

  6. Marco Severo disse:

    Olá, Paulo Dias.

    É uma boa discussão, seguramente. Mas ainda acho – e não sei se isso é pessimismo ou “ser realista”, o que pra mim muitas vezes é o pessimismo com outro nome – que lançar diretrizes para as pessoas seguirem, e consumir algo melhor, é uma armadilha traiçoeira. Primeiro porque não funciona. É uma característica do nosso povo, que sempre foi seguidor da lei do menor esforço. Então, por que se dariam ao trabalho de compreender as nuances de um Roth, de uma Clarice, de um Mann, de um Pynchon (só pra ficar na seara da ficção), quando é mais fácil “curtir” literatura bestseller? Sem contar que a maioria quer ler pra se sentir num parque de diversões, e no entendimento dessa mesma maioria, são os Harlan Cobens e Sheldons que divertem. Só que não aponto o dedo. E nem me esquivo. Uma ou duas vezes por ano, leio lá o meu policial, o meu thriller. Sem culpa. Um segundo motivo é a questão da educação no nosso país. Sou professor. Sei que tem de começar por aí, e é um trabalho árduo e longo, essas mudanças até poderão acontecer – quando de mim não existir mais nem o pó dos ossos, e eu ainda estou na casa dos 30…

    Certa vez vi um escritor de bestsellers, talvez o mais vendido em termos absolutos nos Estados Unidos, o James Patterson, dizendo que seu autor favorito era Gabriel García Márquez, e que sabia que sua literatura, diferente da do Gabo, morreria. Não há inocentes nessa história.

    Não acho que alguém seja criticado por ter um “posicionamento sólido” diante dessas questões literárias e editoriais. Acho que o são ao quererem ser eles (os que leem coisas outras) os detentores do direito – e talvez se arvorem até ao dever! – de apontar caminhos como se fossem os “certos”, os “caminhos a serem seguidos”. Quando alguém que não gosta de ler me diz, Marco, eu quero gostar de ler, me indica um livro. Dependendo da pessoa, eu saco de um Sidney Sheldon, de um policial que li na adolescência e gostei, de um Jeffery Deaver (O colecionador de ossos), Lisa Scottoline e por aí vai. Porque são autores que se lê de forma rápida, prendem o leitor e o fazem GOSTAR de ler, ter prazer. Então, essa falta se suprirá, mas ele continuará desejando ler, porque se criarão outras faltas, de outras leituras e descobertas. Nesse momento posso até sugerir coisas, mas geralmente, gosto de deixar o espírito livre de cada um buscar seus próprios anseios. E digo, Olha, tem o Roth, que eu amo, o Auster. A Woolf. Esse e aquele. Mas falo como gostos pessoais, e não porque eu ache que esses autores são aqueles que têm de ser lidos…

    Outra coisa: um livro, ainda que “descartável”, pode, sim, exercer sua função na mente e na vida do leitor. Volto ao Sidney Sheldon, à Danielle Steel: como você acha que ficou minha vida quando, através de autores como estes, eu descobri que ler proporcionava prazer? Garanto que foi um verdadeiro tsunami emocional, e tal qual um tsunami real, transformador. Não tenho pretensão de ser escritor, embora escreva. Se é de baixão calão ou não, pouco se me dá, não sou de julgamentos, escrevo para expulsar demônios. Mas eu não me angustio ao ver a lista de bestsellers. Nem um pouco. Essa semana, ao lado dos livros das tais “Crônicas de gelo e fogo”, e “Jogos vorazes”, que são os atuais livros do momento, vi, na lista de mais vendidos de não-ficção, “Patrimônio”, do Philip Roth. Em TERCEIRO lugar. Fiquei exultante, claro. Mas qual o problema em essas coisas conviverem de mãos dadas? É isso que não entendo. Esse incômodo atávico. Porque me parece arrogância. Se você fosse escritor publicado não gostaria de estar entre os mais vendidos? Eu gostaria. Certamente que sem precisar escrever a tal “literatura de consumo fácil”. Mas gostaria.

    E acho que o problema reside principalmente no fato de nos frustrarmos demais, nos angustiarmos demais, com uma ausência que na verdade também é muito nossa. A vida requer mais humildade. Somos, sob todos os aspectos, um país jovem, e que até bem recentemente, vinha sendo regido por um governo de pseudo-intelectuais que nada fizeram pelo povo. As políticas mudaram (as politicagens, nem tanto, embora sejam mais e melhor combatidas atualmente, e não escondidas, como antes), os tempos são outros. Mas a essência do ser humano é a mesma. Não fosse assim, não existira literatura clássica, música clássica, cinema clássico – todos apreciados até hoje. Portanto, acredito que seja melhor fazermos a nossa parte sem julgar o Outro, ou ter a pretensão de sermos donos de qualquer verdade. Provavelmente o mundo seria um lugar melhor assim.

    Longa vida às editoras que se propõem a lançar livros de entretenimento – porque nada como o Tempo, e só ele, pra julgar quem vai e quem fica.

  7. Paulo Dias disse:

    Esse é o perigo, considerar que as pessoas não precisam de coordenadas para encontrarem seu norte. Não vejo problema algum em consumir má literatura, música ruim, televisão ordinária, desde que a pessoa saiba estabelecer padrões, diferenciações de qualidade. E com essa massificação que já existe em outros meios (vide o caso da música sertaneja, aché, pagode, que praticamente acabaram com a MPB, com o bom rock nacional que era produzido até meados dos anos 90), essa noção do que é válido e do que é descartável acaba se diluindo. Você, Marco Severo, é um sujeito de sorte, como eu fui, quando parti dos Harold Hobbins da vida para voos mais altos. Mas não devemos nos esquecer que eram outros tempos. Quanto à “prepotência” de que são acusados aqueles que ainda possuem um posicionamento sólido, outra distorção dessa democracia famigerada (entenda-se livre mercado de consumo), onde a liberdade apregoada é sinônimo de permissivismo. Entendo que as editoras precisam sobreviver, mas não devem se esquecer que o livro transcende o estatuto de mero produto. Que não pode ser vendido com o intuíto de vê-lo, placidamente, descartado mais tarde sem ter cumprido, mesmo que ligeiramente, sua missão transformadora na mente e na vida do leitor. Não sei se você escreve, se têm pretensões a escritor. Se tiver, e não produzir textos de baixo calão, deve ser um bocado frustrante, como é para mim, acompanhar a lista dos mais vendidos e do destaque que tais títulos recebem na midia e nas livrarias. Existe um mito bastante difundido de que aquilo que de fato é bom acaba, mais cedo ou mais tarde, se impondo, conquistando seu espaço apesar de toda adversidade. Creio que seja isso, no fundo, o que alimenta a esperança de muitos artistas, escritores autênticos em pontencial. Mas quando você vê a situação daqueles que já existem, que já se deram a conhecer e que no entanto são preteridos, ou simplesmente ignorados pelas novas gerações que se acostumaram, antes de comprar um livro, ver se o autor em questão figura na lista dos best-sellers, ou se há, ou vai haver uma adaptação de sua obra para o cinema. Lembro agora de um excelente escritor, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, que, apesar disso, não se ouve falar em praticamente nenhum círculo. E, no entanto, se trata de um escritor maravilhoso. Falo do escritor hungaro, Sándor Marai. Isso é preocupante.

  8. Marco Severo disse:

    Paulo Dias –

    Quanto a isso, arrisco-me a dizer que você pode ficar despreocupado. Creio que a Companhia lançou esses selos com a intenção de popularizar determinados autores (inclusive praticando preços de bestseller) justamente pra não macular a Companhia. Cada editora vai ter se nicho e seu público, pelo que entendi. E que bom que seja assim, acho ótimo, e não vejo problema algum em fazer as pessoas lerem literatura de consumo rápido. Eu não nasci lendo Saramago nem Philip Roth. Comecei com Sidney Sheldon, que na minha época, era o equivalente a Harry Potter e Crepúsculo. E hoje me orgulho por ser um bom leitor. Não acho que se precisa andar em círculos porque se lê literatura bestseller. O que seria exatamente “elevar o padrão moral e artístico da população desafortunada”? Quem dita esses padrões? Não é um pouco prepotente achar que se precisa “educar” um povo para usufruir de algo dito “melhor”? Cada qual que busque suas necessidades. Gente com os gostos os mais díspares possíveis vai existir sempre, e não existe certo ou errado nisso. Vale refletir…

  9. Paulo Dias disse:

    Acabei de ler o infeliz “manifesto” em defesa da sub-literatura feito pelo Sr. Pedro Almeida e devo dizer que por essa e por outras tantas é que a literatura brasileira no exterior não é vista como coisa séria. Só porque a “classe C”, (entenda-se os deserdados, e ao que parece, segundo seu ponto de vista distorcido, não só de moeda sonante, mais de inteligência e bom-gosto) começaram a “consumir” livros e a alimentar o mercado editorial, não é motivo para rebaixarmos, em razão de não ser imediatamente acessível, nossos conceitos e na insistência cada vez maior na divulgação e produção de uma literatura de qualidade. É preciso antes elevar o padrão moral e artístico da população desafortunada, do que incrementar mais ainda sua indigência intelectual com o consumo de mais miséria. Espero que a Companhia das Letras e outras boas editoras brasileiras não se esqueçam de sua missão civilizadora, que não se deixem rebaixar, como as emissoras de televisão e as gravadoras já há muito fizeram.

  10. Qfwfq disse:

    uau, puta palestra genial, Chip Kidd!!!

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