Made in Brazil

Por Luiz Schwarcz

Recentemente fiz duas apresentações sobre a Companhia das Letras para colegas da Penguin. A primeira foi no encontro de publishers do grupo em Charleston no final de abril. Lá tentei mostrar como, nesses últimos anos, estruturamos a editora para viver das vendas constantes do catálogo — sem depender de best-sellers para pagar as contas no final do mês. Nessa ocasião exemplifiquei, com apoio em alguns números, como conseguimos uma estabilidade de vendas pouco usual nos dias de hoje publicando clássicos brasileiros com a ginga de autores contemporâneos  e tentando transformar os novos nomes da literatura brasileira em clássicos — conseguimos uma estabilidade de vendas pouco usual nos dias de hoje. No futuro me estenderei mais sobre este assunto.

A qualidade gráfica dos livros da Companhia chamou a atenção de Susan Peterson Kennedy, presidente da Penguin dos Estados Unidos, que acabou me pedindo para mostrar aos diretores de arte dos vários selos da sua editora uma amostra do nosso trabalho. Como eu tinha uma viagem a Nova York marcada há tempos, aproveitei para fazer a apresentação e me ver livre daquele compromisso o quanto antes.

Confesso que o convite me deixou apreensivo. Por duas razões: em primeiro lugar queria me certificar de que minha apresentação em Charleston não teria levado alguns editores a entender a Companhia como um fenômeno de design. Bastante paranoico como sou, não me agradava a ideia de que o aspecto visual dos livros fosse desvinculado de nossa filosofia editorial. Entendo o design gráfico como uma resposta à leitura que fazemos dos textos que serão publicados, e não como mera embalagem. Eu estava enganado, ou exagerado em meus temores — como sempre. A compreensão do nosso trabalho, por parte dos novos parceiros, não poderia ter sido mais correta.

No entanto, o meu exagero tem razões históricas, ou melhor, minha paranoia já faz história. No começo da editora, concorrentes pouco generosos atribuíam o sucesso da Companhia das Letras a um “fenômeno de marketing”, ou à nossa boa relação com a imprensa. Outros reconheciam a qualidade gráfica dos livros e ponto final. Além de certo ciúme, nessa opinião estava implícita uma visão pouco profissional da imprensa de livros, e do próprio mercado editorial. Nada mais falso. Até hoje alguns editores brasileiros tratam a imprensa como um campo senhorial, onde reina o mundo dos favores, como se a divulgação de um livro não emanasse da sua própria qualidade e do trabalho sério das editoras e dos jornalistas. Se nossos livros tinham boa cobertura é porque possuíam qualidades, além de serem secundados por um bom e honesto trabalho de divulgação. Se vendiam bem, a embalagem, desvinculada do conteúdo, não poderia ser a principal razão. Vale pensar que visão dos leitores brasileiros estava implícita nessa avaliação, do começo surpreendentemente bem sucedido da Companhia das Letras.

A minha segunda apreensão vinha do fato de que a apresentação que eu deveria fazer seria dirigida a um grupo de diretores de arte excepcionais, responsáveis por ótimas capas e, com certeza, conscientes da sua própria capacidade profissional.

No final tudo correu bem. Frisei mais vezes do que o necessário que não pretendia ensinar nada a ninguém e que estava lá para dialogar e aprender. Durante a palestra notei algumas caras e bocas, nem sempre de contentamento. A situação era mesmo delicada. Afinal os designers estavam lá porque receberam um sugestão (ou uma ordem?) da presidente da empresa para assistir a uma preleção de um alienígena brasileiro, sobre um metier que eles conhecem tão bem. Com seu jeito muito opiniático e despachado é bem possível que Susan tenha preenchido o convite aos designers com comentários favoráveis ao trabalho gráfico da Companhia das Letras.

No final do evento a maioria dos diretores de arte congratulou-me pelo trabalho da editora. Alguns pediram para receber mais exemplares. Um deles, o mais reputado de todos, saiu da sala com um breve aceno, menos amistoso que os demais. Respirei aliviado com o saldo geral e deixei a paranoia no passado.

(Vejam na apresentação abaixo algumas das capas que mostrei.)

Após esse encontro, mais uma novidade na associação entre as empresas me alegrou muito. Na feira de Londres fui procurado por uma agente literária que desejava sugerir a venda dos direitos de um grande nome internacional conjuntamente para a Companhia das Letras, a Penguin US e a Penguin UK. Meus colegas toparam a negociação global, com essa primeira etapa sendo realizada pela equipe londrina. Se a negociação vier a dar certo, os ingleses, também presentes em Charleston, propuseram que as capas das três editoras sejam realizadas no Brasil; isto é, sob nossa supervisão. Esta semana saberei se tudo deu certo. Neste caso, os leitores do blog serão os primeiros a tomar conhecimento, e poderão acompanhar a feitura das capas online, e quem sabe até opinar. “Ademã” como diria um famoso colunista social, de remotos tempos.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

16 Comentários

  1. As capas são realmente lindas e felizes. Para mim que estou ás voltas com autopublicação (não há espaço para autores novos, então paciência, se autopublica) as capas de sua editora são realmente uma das formas de meu aprendizado. Obrigado.

  2. Bucker disse:

    Luiz, incrível ver esse reconhecimento. O design brasileiro vem saindo da escuridão a um tempo, muitos escritórios aqui tem prestado serviços para o mundo todo, temos inclusive uma vantagem cambial que nos torna super competitivos. Espero que dê tudo certo e mais capas sejam feitas aqui, assim se abrem oportunidades para designers mais jovens (como eu!). É bonito ver o respeito que a Companhia tem pelo design, vocês são uma das únicas editoras que creditam o capista no site. Parabéns! Espero um dia estar nesse time!

  3. Júnior disse:

    O projeto gráfico da Companhia é realmente notável. Faltou na apresentação a arte dos livros do mestre Saramago. Belíssimas. Aproveitando a deixa, gostaria de reiterar algo que eu já sugeri no início do ano, a uniformização das capas dos livros noir do catálogo quando forem lançadas novas edições, como O Falcão Maltês, O Homem Magro, A Noiva Estava de Preto e O Destino Bate à Sua Porta. Notei no blog que as novas edições de Garcia-Roza e Henning Mankel estão diferentes… Ainda não conferi, mas bem que eu gostaria que renovassem as capas dos romances noir com o mesmo estilo da coleção policial que a gente já conhece. Assim, a coleção fica bacana na estante, sem falar que a arte tem tudo a ver com o estilo noir. No mais, parabéns pelo trabalho.

  4. valter ferraz disse:

    Luiz,
    Sou apenas um leitor, portanto nenhuma especialização em desenho ou marketing. O que mais me agrada nas publicações da Companhia das Letras é exatamente a qualidade da capa, o cuidado na elaboração das mesmas. Depois ainda ganham-me: a qualidade do papel escolhido, as cores e o tamanho das fontes (parece que sempre pensam no leitor com mais de quarenta anos!).
    Parabéns e continuem assim.

  5. Gustavo disse:

    Luiz, admiro muito esta integração e intimidade que você tem com os leitores. Só de ter aberto um canal de diálogo e estar disposto a ouvir já é uma lição de humildade. Parabens.

  6. luiz schwarcz disse:

    Wilson boa sugestão. Vou encaminhar ao diretor de arte, não sei se será possível, mas agradeço a dica.

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