As respostas de Mia Couto

Algum tempo atrás pedimos para vocês, leitores do blog, enviarem perguntas para Mia Couto. Escolhemos 5 delas, que o escritor moçambicano responde agora:

Sandra Moret: Mia, seus livros parecem sempre ter uma saída especial perante os outros autores. É como se pudéssemos nos transportar para outro lugar, outro corpo, e estar realmente no lugar do personagem. Quando você cria seus personagens ou histórias, consegue realmente fazer com que não tenham nada de você ou existe sim um Mia nos personagens?
Mia Couto: Existe um pouco de mim em todas as personagens. Creio que, na chamada vida real, também existe um pouco dos outros em nós mesmos. Há um provérbio africano de que gosto muito que diz: eu sou os outros. A nossa identidade é relacional, nasce não de uma construção solitária e individual mas de um cruzamento e mestiçagem que representa, afinal, a humanidade inteira. A minha escrita é feita a partir de personagens e não de uma ideia antecipada da narrativa. Essas personagens precisam crescer dentro de mim, e nascer entre mim e elas uma relação apaixonada. Só assim elas me autorizam a chegar perto e a escutar o que elas têm para me dizer.

Filipe Chamy: Você acredita que livros devem falar à geração atual, respondendo a questionamentos da sociedade contemporânea, ou se esforçar por trazer reflexões perenes, que nunca envelhecerão?
Mia Couto: Nenhuma reflexão é tão perene assim, todas envelhecem. Ainda hoje relemos com prazer e com espantosa atualidade alguns tempos dos clássicos não contemporâneos. Mas mesmo nesses casos, o que sobrevive é mais a arte com que criaram a reflexão do que a reflexão propriamente dita. A literatura responde por via da inventividade literária às questões sociais. Essa é a distância entre ensaio e texto ficcional. Assim sendo, o texto literário não é pensado em função de um público. É uma história. O seu valor tem a ver com o mundo que ela inventa.

Felipe de Souza Fernandez: Mia Couto, não é engraçado que o maior escritor Moçambicano seja de tez branca e o maior jogador de futebol de Portugal seja de tez negra? Afinal a literatura é livre de fronteiras, ou é na fronteira que ela constrói seus significados, seus valores, sua etnicidade?
Mia Couto: A literatura brinca com as fronteiras e encoraja a que olhemos para elas como artifícios, construções que são sempre datadas. As fronteiras passam a ser vistas mas como lugar de trocas, como linhas de separação. As identidades que se constroem a partir das fronteiras também deixam de ser vistas como lugar de refúgio perante uma realidade exterior ameaçadora. A escrita sugere também que as identidades são invenções que devem ser olhadas com a mesma distância crítica de um texto literário. A literatura não está livre das condicionantes sociais e culturais do mundo em que ela é produzida, essas condicionantes resultam sempre de uma lógica de poder a que a literatura se deve esquivar. O poder da literatura resulta do seu distanciamento dessas relações de poder. No meu caso, agrada-me muito trabalhar nessa zona de interstício, em territórios onde as águas parecem se separar. Sou um africano cujos pais são europeus, sou um filho de emigrantes que lutou pela independência, sou ateu num universo dominado pela religiosidade, sou um cientista que procura resposta mais na poesia do que no discurso solene e frio da ciência.

Valter Ferraz: Gostaria de saber do escritor: você já sofreu com o bloqueio criativo e se sim, como lidou com isso?
Mia Couto: Não creio. Acontece que há momentos diversos no processo da escrita. Há um momento de imaginação, em que somos assaltados por ideias e visitados por aquilo que já alguém chamou de “musas”. Mas existem outros momentos, de trabalho, de labor oficinal. E esse trabalho não pede tanto inspiração criativa. Pede disciplina, a mesma disciplina de qualquer outro trabalho. No meu caso, sempre que termino um livro, surge um período que parece a travessia de um deserto. Mas tem sido sempre breve. Nesse momento, de vazio temporário, estou disponível e acontece que acabo ficando mais próximo das vozes. Eu escuto e logo vai nascendo uma nova história. Um escritor é mais do que tudo um escutador.

Barbara Deister: Mia Couto, sabendo que és fã de Guimarães Rosa, um mestre dos neologismos, e sabendo também que várias palavras morrem a cada ano, caem no buraco negro do desuso, gostaria de saber por qual palavra (ou palavras) tens grande apreço e o que faria para salvá-la desse triste fim.
Mia Couto: Eu gosto, sem qualquer narcisismo, de uma palavra que eu mesmo criei e que é “abensonhar”. A benção que gostaria que alguém me concedesse não poderia ser pronunciada numa língua existente. O escritor quer é falar na língua dos sonhos, essa que não tem possibilidade de tradução.

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5 Comentários

  1. Eugenia Luz disse:

    Foi uma pena a minha pergunta não ter sido escolhida (certamente, assim como outras), considerando a atualidade da questão dos relacionamentos inter-raciais na ficção e no mundo real. Penso que o Mia Couto teria uma contribuição muito grande a dar sobre esse tema, mesmo porque, de uma maneira ou de outra, o trabalho dele acaba seguindo nessa direção. De todo modo, gostei muito das respostas dadas às outras perguntas. Fica para uma próxima oportunidade. Abraços

  2. Aluísio Barros de Oliveira disse:

    As falas necessárias de Mia Couto: maravilhas do Índico. Acabo de defender mestrado sobre a obra “A Varanda do frangipani” e me sinto feliz por tê-lo escolhido.

  3. Filipe Chamy disse:

    Também gostei da experiência, é muito bom poder entrevistar escritores e gente que usa a palavra para mudar o mundo.

  4. Júnia Martins disse:

    Adorei a última resposta… E como é bonito o verbo “abensonhar”.

  5. valter ferraz disse:

    Agradeço à Companhia das Letras a oportunidade de “conversar” com meu autor contemporâneo favorito e também ao Mia Couto a disponibilidade de responder à minha questão.
    Um abraço a todos

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