Por Luiz Schwarcz
Com quantas madeleines se faz um cronista? No post passado meu biscoito da memória foi a visita de um colega do colégio à editora. Hoje a lembrança surgiu a partir de um disco que ganhei do Pedro, meu filho. O presente é uma nova versão, a quinta ou sexta da minha coleção, dos Anos de peregrinação, de Franz Liszt. Pedro acertou em cheio: sabe que o pai vive às voltas com a audição das mesmas músicas, mas com diferentes interpretações e artistas diversos. Sempre à busca da gravação perfeita. Mania de colecionador que tenho, causada por algum tédio primordial, e que tento combater das mais variadas formas — há muito que venho dedicando horas e horas a ouvir discos e mais discos à procura de algo que não existe: a tal perfeição.
Cheguei a achar que Lazar Berman ou Jorge Bolet a haviam alcançado nas versões que fizeram dos maravilhosos Sonetos de Petrarca ou no Les jeux d’eau de la Villa d’este. São dois dos melhores momentos da série de peças de piano que Liszt compôs depois de viajar à Suíça e à Itália. Mas agora fico me perguntando se o jovem pianista francês, Bertrand Chamayou, os superou. Fiz o mesmo tipo de questão inúmeras vezes, com outras obras que tanto ouço, como as sinfonias de Mahler, as sonatas de Beethoven, os concertos de piano de Mozart…
Na verdade, essa inquietação sem fim move também a literatura. Penso no escritor, a quem nós editores e leitores devotamos reverência e atenção. Seria ele um colecionador de expressões perfeitas, frases ou palavras que, em outro contexto ou momento, poderiam ser trocadas por algo mais propício; melhor?
Além de ler desde pequeno, coleciono discos. Mimado por minha avó, eu cavava com ela um dinheiro que gastava nas lojas de discos, formando primeiro uma coleção significativa de rock, depois jazz e MPB, chegando por fim, mas não muito depois, aos clássicos. No começo eu ia atrás do que as revistas de rock — como a CashBox, Billboard e Rolling Stones — apontavam: os hits, os nomes novos, as tendências da moda; isso até criar meu próprio gosto musical. Tinha que ter tudo do melhor. Ouvia os discos seguindo um perfeito ritual de concentração e contava com uma aparelhagem de som que tentava aprimorar a cada ano — também financiada pela mais que saudosa Baba, a minha avó Mici. Sempre atentos e cuidadosos, meus pais educaram-me sem luxos, e todos os que tive vieram das liberalidades da minha avó. Minha primeira vitrola era de plástico, e tocava apenas compactos importados, que tinham um amplo furo redondo no centro e eram diferentes dos produzidos no Brasil. Muitas vezes, quando comprava discos nacionais eu os levava para a sala, e pedia autorização a meus pais para tocá-los ali, durante o almoço ou na hora do jantar.
Assim foi que, bem jovem, sem entender o que significavam os gemidos e ruídos que acompanhavam uma música que liderava as paradas de sucesso e tocava sem cessar nos bailes, coloquei “Je T’aime” com Serge Gainsbourg e Jane Birkin em plena refeição, vendo, logo nos primeiros acordes, meus pais ruborizarem. Não sei bem quando me dei conta do que acontecia na música, se foram necessários apenas alguns dias, semanas ou anos, talvez.
Fora esse episódio curioso, meus pais acompanharam minhas andanças pelos vários tipos de música e testemunharam uma busca que acabou desembocando na literatura, já que não perseverei nas aulas de violão clássico — que eles me obrigavam a tomar e que eu detestava.
Quem sabe se meus pais tivessem alugado um piano para preencher minhas horas livres, em vez de me dar um violão, eu hoje poderia ser um músico, ou administrador de orquestras, que colecionaria livros e livros apenas por prazer. O que mais ouço atualmente são obras de piano clássico. Por isso me ocorre agora que talvez tenha virado editor simplesmente porque um piano cobriria a coleção de tapetes persas da minha mãe, que ficava disposta bem na nossa sala de estar.
Um pequeno detalhe, uma coleção contra outra, os tapetes para o deleite da minha mãe, e não um teclado para preencher as horas livres de um menino sem irmãos. Vai saber?
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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.










Luiz, obrigada pela crônica. Identifiquei-me de certo modo. Fui no caminho inverso do seu.Tive aulas de piano na infância e nunca as levei a sério. Hoje, me sinto arrependida e penso – não sei dedilhar nem um acorde num violão. Filha caçula de 5 filhos, sobrevivi à insistência dos meus pais que achavam que todos os filhos tinham dons musicais. Preferi ficar com as palavras. Sou jornalista e publicitária. Mas meus pais não erraram. Nem comigo que amo as palavras e nem com meus irmãos, entre eles uma pianista maravilhosa. Conheça seu trabalho. Você vai gostar: http://www.mariaalice.com
Crônica bem elaborada, harmoniosa. Depois de ler surgiu flutuando uma lembrança que causou alvoroço em minha consciência…
Luiz, afora a possibilidade de madeleines perfeitas – que ficaria no âmbito da arte culinária -, sempre me pergunto se nunca consegui ir além deste trecho em “no caminho de swann” pela possivel perfeição que ele representa ou pela minha inaptidão de preencher minhas horas vagas com o belo. Admiro os que conseguem como voce, e isso me parece, seria com o piano, livros, ou qualquer distração que ocupasse. Abraço
Grato Sérgio pelo comentário a respeito dos lançamentos, e também obrigado Lívia e Raquel. Vou procurar ler o livro sugerido. Brendel sem dúvida é dos grandes intérpretes das peças de Lizst citadas. Abraços Luiz
Luiz, mais uma deliciosa crônica, que me levou a pensar nos pianistas. Na minha modesta opinião, eu diria que Lazar Berman, Jorge Bolet, Aldo Ciccolini, e o austríaco Alfred Brendel, estão entre os melhores pianista lichtinianos. Você conhece o livro “A arte do piano”, de Sylvio Lago, editado aí em São Paulo, pela Algol? É um estudo sobre os compositores e sobre os grandes intérpretes de todos os tempos. Mas voltando a sua crônica, mais uma vez, parabéns! Um beijo
Prezado Luiz,
Sou livreiro da Livraria da Travessa e escrevo apenas para parabenizá-los pelas recente e futura publicações de “Grandes Esperanças” e “Coronelismo, enxada e voto” (ambos me são muito queridos), respectivamente, e faço votos de que a Companhia das Letras continue resgatando obras fundamentais e esgotadas tanto da literatura nacional e universal quanto do nosso pensamento social e político. Um abraço,
Sergio
PS: Desculpe a mudança de tópico.
Gosto muito de suas crônicas mas a de hoje se superou com o sarau musical familiar!
Agradeço a gargalhada alcançada.