Por Carol Bensimon

(texto escrito no dia 7 de junho, portanto não estranhem o frio do primeiro parágrafo)
Está frio no sul do país, e os jornais começam a brincar com possibilidades de neve. Minha amiga da serra usa touca dentro de casa. Chimarrão começa a fazer mais sentido. Vitor Ramil começa a fazer mais sentido. Eu uso pela primeira vez, enquanto escrevo, um poncho que comprei em Bagé.
Há mais ou menos um ano, o frio era pior, com uma sequência de dias chuvosos em que as temperaturas não chegavam aos dois dígitos. Eu tinha uma reserva em uma pousada com cabaninhas vermelhas, de onde se podia ver um vasto campo pontilhado de araucárias. No dia em que peguei a estrada, havia um bonito sol. Creio que todo escritor cultiva a ideia de que se isolar em um lugar ermo vai ajudá-lo a escrever melhor ou, no mínimo, a mantê-lo completamente focado em sua obra, e era nisso que eu estava apostando naquele dia, com o primeiro capítulo de um romance em construção e uma semana inteira pela frente. Criúva era o nome estranho da pequena cidade onde ficava a pousada.
Parecia suficientemente ótimo nas primeiras horas. O dono da pousada me instalou na cabana, eu era a única hóspede, é claro, e assim muito provável por toda a estadia; falava demais, o dono, sem pudores para dizer que a vida nas Ilhas Canárias, onde tinha ficado por muitos anos, lhe agradava muito mais do que a daquele fim de mundo; contou muitas histórias sobre idas e vindas em vários países europeus, e prostitutas russas, e empregadores trapaceiros, de maneira que me lembrava um personagem de Bolaño, aventureiro, inconstante, misterioso. Então me deixou sozinha com o meu romance.
Quando o sol começou a se pôr, a cabana — que, aliás, o dono tinha construído com as próprias mãos — revelou-se uma estrutura precaríssima para aguentar aquelas temperaturas: sem aquecimento, cheia de frestas, piso frio, o fogão à lenha numa peça, a cama noutra. Eu estava com duas meias (sendo uma de lã) e botas e, mesmo assim, as unhas dos pés pareciam a ponto de cair. Imagine uma sensação semelhante para cada pequena parte do corpo. O desconforto era tanto que eu só conseguia pensar no frio que estava sentindo.
Minha amiga da serra morava a meia hora dali, em São Marcos. Peguei a estrada e devo ter ouvido uma sequência de músicas tristes na escuridão. No apartamento, eu e ela ficamos conversando diante da lareira até o fim da noite. Dormi lá. No dia seguinte, eu estava de volta a Porto Alegre.
É claro que avaliei esse episódio como um grande fracasso pessoal; ficava envergonhada a cada vez que contava a história para alguém, embora visse nela certo potencial anedótico. Mas onde estava aquela ideia romântica do escritor solitário no meio do nada? Onde ela tinha me levado? Se, olhando para trás, muitos haviam feito daquela maneira, então era eu quem não estava preparada?
Aos poucos, eu me convenci de que estava tudo bem se o que me fazia produzir de verdade era sentar com o computador em uma cadeira de praia no último andar de meu edifício. E que tampouco havia mal em fazer isso em horários “burocráticos” tais como, hm, das nove às seis. Não voltei à pousada da Criúva, embora tenha dito a mim mesma, naquela ocasião, de que deveria fazer isso assim que o tempo melhorasse; o dono provavelmente ainda está lá, contando a outra pessoa sobre as Ilhas Canárias; lendo agora O Terceiro Reich, de novo fiquei achando que ele poderia ser um personagem. Provavelmente o Lobo ou o Cordeiro.
Em notas relacionadas: divulgaram por esses dias os 27 nomes que farão parte de uma antologia de autores brasileiros a ser lançada na Alemanha, em 2013. Sou parte da lista, o que me deixa feliz e contente. Contribuo com um conto ambientado em São Marcos, livremente baseado nas memórias da juventude de minha amiga da serra, que ficou arrasada, ela e todos os adolescentes da colônia italiana, ao descobrir que Kurt Cobain havia se matado.
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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008, e no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Ela contribui para o blog com uma coluna quinzenal.
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[...] dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu texto foi originalmente publicado no blog da Cia. das [...]
Escritores sempre possuem essa idéia de locais tranquilos. Recordei a Emily Bronte, que vivia no campo, isolada, vestida de branco. Muitas vezes a idéia não funciona. Normal. Eu tenho o hábito de escrever à noite. Intercalo a escrita com alguma trilha sonora (ouvir Yann Tiersen é uma boa, e esse conselho eu peguei de você). Tudo aquilo que trouxer inspiração será válido. A escrita tem dessas artimanhas.
Abraços.
Sempre pensei que isolamento poderia ser uma espécie de estopim para criatividade e para a inspiração na escrita e aos poucos descobri, como parece ter descoberto também Carol Bensimon, que a inspiração não está muito mais naquilo que somos e no que nos transformamos do que no local onde estamos quando escrevemos ou se estamos ou não isolados do mundo.
Parabéns pelo post, mais um excelente e irretocável texto.
PS.: Não esqueça de compartilhar o texto enviado para compor a antologia de autores brasileiros, se possível, é claro. ou caso não seja indique a publicação em que o mesmo estará registrado.
Saudações e até breve
Carol, sou natural da Serra Gaúcha, na verdade, da mais gelada de suas cidades. A temperatura, no auge do inverno, oscila entre -5 e 0 graus. Isso a temperatura. A sensação térmica, derrubada pelo vento e pela serração onipresente despenca para -15. Embora não more mais lá há muito tempo, ainda pretendo um dia retornar, nem que seja para viver meus últimos anos. O frio não me incomoda, ao contrário do calor. E acredito, inclusive, que o frio é benéfico para aquele que escreve. Pode parecer coincidência, mas os melhores escritores que o mundo já conheceu são oriundos de climas, se não polares, temperados. Talvez não tenha, propriamente, tanto a ver com o frio, mas antes com os matizes de cinza, em todo seu espectro cromático. Desde o fuliginoso carrancudo ao resplendente da prata nova. Infinitamente mais variado e menos monótono que o amarelo-dourado do sol tropical, que acaba equalizando num único diapasão as variações de humor, sensações, percepções, etc. Variações essas fundamentais na elaboração de uma literatura densa. Enfim. Retorne qualquer dia a uma dessas cidadezinhas geladas, encarapitadas nos altos da serras e tente perceber como o cinza da paisagem, da luz obliterada pelas nuvens baixas de um céu tão próximo, a despeito da “morbidez” flagrante que afeta alguns espíritos menos robustos, pode ser inspirador.