Por Joca Reiners Terron
Acordo às 6h30 pensando em minha filha. Escovo os dentes e ligo o computador. Lembro que preciso trocar o hard-disk do laptop que me observa, desmemoriado. Ajeito o cabo de energia do computador de mesa, que está com mau contato, apoiando a entrada do plugue num livro. O computador funciona. A internet, não. Há dez dias que é preciso ligar e desligar o modem umas trinta vezes por dia. Ele funciona e de repente não funciona. Funciona. Checo emails. Nada de novo. Vou à cozinha. Lavo pratos e a cafeteira. Coloco-a no fogo. Penso em ouvir Dylan e lembro que a vitrola está soltando um ruído estranho. A borrachinha da polia deve estar ressecada. Amaldiçôo Péricles e o sistema de polias. Enquanto a água do café ferve, abro o Word. Sento à mesa da cozinha. Brinco com as migalhas de pão sobre a toalha e folheio os cadernos esparramados pela mesa. Dou uma lida nas anotações que fiz no dia anterior. Às vezes não entendo minha própria letra. É difícil. Gosto de escrever na mesa cheia de migalhas de pão. O café fica pronto. Coloco um pão pra tostar e sigo com a xícara pro quartinho de empregada onde fica meu escritório. Antes, olho pra vitrola e penso em Dylan e amaldiçôo todos os gregos e a borrachinha ressecada e o sistema de polias. Penso em minha filha pela décima vez. Conto as mais de cem páginas do texto que estou escrevendo. Cem páginas. Quando passo das cem páginas fico encantado e sou obrigado a criar novo arquivo para continuar escrevendo. Tenho de fazer isto, senão só ficarei correndo a barra de rolamento pra cima e pra baixo, admirando minha própria proficiência. Cem páginas. Crio novo arquivo e fico olhando pra página (tela?) branca por meia hora. O café esfria. Abro novamente o arquivo de cem páginas. Corro a barra de rolamento pra cima e pra baixo. Levanto. Ando 3 quilômetros dentro do apartamento. Olho pra vitrola. Penso em minha filha pela vigésima vez. Releio o primeiro parágrafo das cem páginas lidas e relidas centenas de vezes. Vou até a estante da sala e releio os primeiros parágrafos de vinte livros que admiro. Pego um deles e vou ao banheiro. Volto ao computador, à tela (página?) branca. Escrevo duas linhas. Releio as duas linhas. Apago as duas linhas. Levanto e dou uma caminhada de alguns quilômetros sem sair do lugar. Volto, ligo e desligo o modem e o computador. A conexão funciona. Checo o email (nada de novo) e deleto spams. Vou até a secretária eletrônica e ouço a voz de minha filha. Apago algumas mensagens. Volto ao computador, mas antes coloco roupa suja na máquina de lavar. Penso que em meia hora estarei sentado na máquina de lavar defeituosa na tentativa de impedir que ela passeie pelo apartamento. Penso que um dia talvez ela voe e me leve a algum lugar distante que não conheço. “Veja, esta é a terra onde nasci”, a máquina de lavar me diria. Releio o segundo parágrafo do livro que estou escrevendo. Escrevo duas linhas. Elas sobrevivem à segunda leitura. O telefone toca. Engano. Vou até a estante da sala e releio os segundos parágrafos de trinta livros que admiro. Vejo as horas. Vou até a cozinha e coloco feijão no fogo. O telefone toca. É a faxineira: “Amanhã?” “Amanhã”. A máquina de lavar começa a rodopiar. Sento em cima dela. “Será que essa massagem evita câncer na próstata?”, penso. Quando levanto da máquina, ainda estamos diante da mesma paisagem alpina montada com ímãs na porta da geladeira de casa. Penduro as roupas molhadas. O cheiro de amaciante que invade o nariz enfiado entre as roupas molhadas do varal traz lembranças do passado. Lembro que faz uma semana que não saio de casa. Quem sabe hoje à noite? Rever os amigos. Falar de nossas vidas gloriosas. Encher a cara. Quem sabe amanhã? Ligo a vitrola e ouço Dylan com ruído de borrachinha ressecada ao fundo. O telefone toca. É minha mãe. “Hoje pensei na minha neta umas quarenta vezes”, ela diz. Passo no quarto vazio de minha filha e arrumo pela quinta vez a cama que já estava arrumada. Vejo suas fotos e volto ao computador. Ligo e desligo o modem. Checo emails. Nada de novo. Escrevo uma página inteira. Metade dela sobrevive à segunda leitura. De repente me levanto e vou correndo até a tostadeira. O pão está preto. O feijão queimou. Desisto de cozinhar. Não há graça nenhuma em cozinhar pra si mesmo. Escrevo no caderno sobre a mesa da cozinha, a mão esquerda à cata de migalhas incontáveis. Gosto do que escrevo. Leio em voz alta e depois me sinto um tanto patético ali, falando sozinho. As paredes são finas, o que os vizinhos podem pensar? Penso em minha filha pela quinquagésima vez. Penso em sair e rever os amigos. Desisto de tudo e deito no sofá da sala. Meu time perde de novo. Adormeço com os pés frios pra fora do cobertor.
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Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujo e Sonho interrompido por guilhotina, entre outros. Pela Companhia das Letras, lançou seu último romance, Do fundo do poço se vê a lua, e relançou seu primeiro, Não há nada lá. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.
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linda crônica….acho que entendi ” a mesma vida” a que se referiu o rapaz….aliás, não sei se seu escrito cabe no limite da crônica…é verdade, é ficção, é conta pra pagar. rsss gosto demais!!!
Engraçado foi o comentário de um leitor aqui, “Que legal saber que os outros levam a mesma vida”
Acho que muita gente mitifica demais o outro e esquece de si…hehehe ^^
Que legal saber que os outros levam a mesma vida ahahha
Joca, acabo de terminar o seu Não há nada lá. Gostei bastante.
Minha impressão (e eu realmente não acho que vou falar algo que outro ainda não tenha dito) é a de que vc escreveu O nome da rosa que Jorge Luís Borges teria escrito, se fosse romancista.
Um romance de estreia, claro, menos desenvolvido do que poderia ser, mas que convida a conhecer o seu percurso no mundo mundo vasto mundo da escrita literária. Parabéns.