Os bastidores de “Mata!”, parte 2: Áurea

Por Leonencio Nossa


À direita, foto da guerrilheira Áurea Elisa Pereira Valadão em Areado, Minas Gerais [Arquivo família Pereira]

No segundo de três artigos para o blog, o jornalista Leonencio Nossa conta sobre os bastidores de Mata!, que será lançado no dia 15. (Leia aqui o primeiro post da série)

É sempre difícil apontar a origem de um livro. Afinal, é um trabalho de fôlego que costuma ser pensado aos poucos, num longo processo de pesquisa e maturação. Mas lembro que um dos pontos de partida de Mata! foi o momento em que, na época de estudante universitário, em meados de 1997, li e recortei uma nota de jornal sobre a morte da guerrilheira Áurea Elisa Pereira, aos 24 anos, no Araguaia, na década de 1970.

A nota impressa havia se esfarelado na carteira quando, em 2002, já formado em jornalismo, tive os primeiros contatos com o Major Curió, agente que participou da repressão à guerrilha. Passei também a manter conversas com outros militares e centenas de testemunhas e protagonistas civis do conflito que envolveu as Forças Armadas e o grupo guerrilheiro no sul do Pará. Nestes dez anos de pesquisas, a trajetória de Áurea, estudante mineira de física da UFRJ, me reservou surpresas como nenhuma outra.

Para “encontrar” a guerrilheira, não bastava pegar um avião para o Araguaia ou mergulhar na história do movimento comunista internacional. Percorri as estradas que cortavam plantações de café em Monte Alegre, Sul de Minas, onde ela nasceu; entrei num metrô no sentido da zona norte do Rio, para conhecer os lugares em que passou a juventude; andei pelos caminhos do litoral do Espírito Santo, terra de Arildo Valadão, seu marido e colega de curso de universidade; estive no campus silencioso da UFRJ no Fundão, onde ela participou da montagem de um acelerador de partículas, época em que o Nobel escapuliu das mãos da inteligência brasileira, na rasteira do AI-5. Era preciso conhecer muitos Brasis e períodos históricos para chegar perto da Áurea real.

Quando você escreve um livro de não ficção, uma reportagem extensa, está sujeito a encontrar características de uma personagem muito diferentes daquelas que imagina.

Num dos momentos mais especiais da pesquisa, fui recebido por Iara, irmã de Áurea, no Rio. Iara abriu o álbum e a história da família. Diferentemente de outras jovens que participaram da luta armada, Áurea, no final dos anos 1960, não cantava músicas de protesto. Gostava de assistir aos programas da Jovem Guarda. Diante da TV, cantava músicas de Roberto, Erasmo e Wanderlea e pulava. A líder estudantil libertária, como alguns chegaram a escrever, era uma garota que fazia sucessivas dietas para emagrecer e demonstrava aplicação nos estudos.

Sempre me chamou atenção o fato de Áurea e Arildo terem viajado para o Araguaia dias depois do casamento. Nas conversas que tive com irmãos de Arildo em Marataízes, Vitória e Cachoeiro, não ouvi relatos sobre uma estudante disposta a fazer a revolução, tipo comum nos livros e filmes relativos ao período. Áurea queria acompanhar Arildo, ficar perto dele. Aliás, a guerrilheira não ilustrava perfeitamente a jovem do tempo de mudanças de costumes. Por mais justas que fossem suas minissaias e mais descontraídas as suas conversas, ela ainda carregava manias da vida recatada do colégio religioso da mineira Areado, onde viveu interna durante nove anos.

Procurei histórias de Áurea nos relatos de assembleias da guerrilha. “Encontrei” Áurea nas festas de lindô, o ritmo empolgante do Baixo Araguaia.

A Áurea reconstituída nos depoimentos da população cabocla da Piçarra e de São Geraldo, no Pará, era uma jovem que expressava medos e temores. O ceticismo e a racionalidade adquiridos na UFRJ foram trocados por benzementos e patuás nos terreiros de terecô, a religião dos migrantes maranhenses. Ao ouvir os ribeirinhos que conviveram com ela, eu não podia esquecer, no entanto, que a guerrilheira foi uma das últimas capturadas pelo Exército, uma das poucas que resistiram mais de dois anos na mata. Foi uma personagem difícil de retratar, pois oscilava entre a fragilidade e a resistência, o agrário e o urbano, a cidade e a selva.

Há poucos anos, o filho de um oficial das Forças Armadas publicou um livro com ataques pessoais a Áurea. A morte física da guerrilheira não bastou para acalmar a fúria de setores militares que, ao longo do tempo, explicaram combates, mas não conseguiram justificar o fuzilamento de prisioneiros de guerra.

Dias antes de entregar em definitivo os originais para a editora, localizei os homens que prenderam Áurea. A guerrilheira que me motivou a entrar na apuração de um dos mais impactantes capítulos da história do país era a mesma que me dava a sensação de que a aventura da reportagem estava encerrada. Finalmente, eu estava diante de quem poderia me descrever a Áurea combatente e rebelde — uma das últimas guerrilheiras capturadas, que permanecia difícil de decifrar a partir dos relatos daqueles que conviveram com ela. Embora estivesse acostumado aos desafios daquela história pessoal, a guerrilheira, agora nos depoimentos de seus algozes, voltava a surpreender. A selva maltratou seu corpo, deixando-a magra, pálida, ferida. A brutalidade forjada pela vida de privações no ambiente hostil, porém, se limitara ao físico. Ela não expressou o rancor do combatente acuado e obstinado em sobreviver. Apenas chorava.

Áurea era a brasileira comum que um dia esteve na luta armada. Demorei, mas percebi esse fato a tempo — um tempo suficiente para retratar uma guerrilha que não se limitava a um capítulo da Guerra Fria, como pregam livros sobre o assunto. Andar à procura de informações para descrever Áurea e outras dezenas de guerrilheiros e militares me deu a impressão de que a barbárie poderia ser explicada por outros momentos da história brasileira. A obstinação em descrever com detalhes uma personagem me mostrou que o Araguaia era também um mosaico de memórias pessoais, de dramas humanos jamais datados, um trecho de uma história nacional. Se a personagem não ilustrava uma época, a princípio, é porque pensei em encontrar um tipo previsível. Áurea e o país eram muito mais desafiadores que os mitos estabelecidos.

[Leonencio Nossa estará em Brasília dia 18 para bate-papo e lançamento de Mata!. O evento acontecerá na Livraria Cultura do Shopping Center Iguatemi, a partir das 19h.]

* * * * *

Leonencio Nossa nasceu em Vitória, em 1974. Formou-se em jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo. Com passagens por veículos como A GazetaJornal do Brasil eÉpoca, trabalha no Grupo Estado desde 2001 e, atualmente, na sucursal de Brasília. É autor de Viagens com o presidente (em parceria com Eduardo Scolese), Homens invisíveisO rio, e dos cadernos especiais “Guerras desconhecidas do Brasil” e “Os meninos do Contestado”, publicados em O Estado de S. Paulo. É vencedor dos prêmios Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, menção honrosa (2009), Embratel de Jornalismo (2011) e Estadão de Reportagem Especial (2011), entre outros.
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7 Comentários

  1. Elson Mauricio G. de Andrade disse:

    Ainda há muito para ser descoberto entre os anos da ditadura e os desaparecidos,com certeza este livro é uma grande obra que nos fará entender o que aconteceu.

  2. [...] Nossa conta sobre os bastidores de Mata!, que já está nas livrarias. (Leia o primeiro e o segundo posts da [...]

  3. Maria de Fatima Marques Macedo disse:

    ESCREVI ESSA CARTA PARA MEU IRMÃO,SIMBOLICA É CLARO, PAULO ROBERTO PEREIRA MARQUES – DESAPARECIDO NO ARAGUAIA -
    Rio de Janeiro, 09 de julho de 1999

    Irmão,

    Estou entrando na cidade e está frio agora, o Rio mudou de cor.
    Através da fina garoa, o Rio de Janeiro sorri tristemente para mim.
    A cidade que tanto amo. Verdadeiramente.
    Uma nostalgia imensa toma conta desse cenário e na fita cassete, ou melhor, no CD do carro, Simone canta Chico Buarque. Meus olhos embaçam na bela visão do Rio de Janeiro. Meu rosto vira para a janela, na tentativa de esconder o silencio ruidoso que passa no meu peito.
    É preciso engolir… seco.

    Irmão… o que será que me dá?
    Simone continua, pois o CD continua em “só uma palavra me devora, aquela que o coração não diz…” meus olhos já se perderam no mar. Não era mais possível conversar… mas era preciso recuperar … estou chegando.
    Agora Chico Buarque fala através de Simone que canta… ”estou voltando”… e cantarolando com ela desci no hotel.

    Que bom descer do carro, pisar no calçadão… estou chegando.
    Mas o que será que me dá… Irmão?
    Os passos estão medidos, contidos, com medo?
    Estão concisos, contidos, com mágoa?!
    Sinto que não… vim como em missão, falar de você ou para você.
    Pensando em você ficarei …em breve estarei lado a lado com alguns (poucos) que um dia foram seus companheiros de luta e com outros que são meus companheiros no resgate desta luta.
    O que me espera?!
    Apesar de saber que não é você, estou mobilizada como se fosse!
    São sensações dentro de sensações emolduradas pelo Rio de Janeiro.
    Que continua lindo!

    Tão lindo que me inspira passear!
    E sob a garoa fomos …eu e meu companheiro de sempre, rever alguns pedacinhos do Rio.
    Preferimos andar pela avenida Nossa Senhora de Copacabana para fugir do vento à beira mar.
    Meu companheiro de sempre… que para atender um pedido de nossa mãe entrou no carro, sem dúvida e sem medo, viajou vários quilômetros para te avisar:
    _Não volte, pois vão prendê-lo!

    Entre outras providências, logo depois, você adiantou seu caminho seguindo para o Araguaia.
    Conviveu com a mata, com os nativos, com os bichos, com os pássaros, desbravou o rio.
    Soube até que lutava com jacarés… Bravo!
    Cuidou dos doentes, fez muitos afilhados, ajudou muitas pessoas passando lhes mais conhecimento, mais dignidade.
    Certamente viu lindos amanheceres!

    Também conviveu com o perigo das noites, com a malária, com a solidão e privações.
    E, provavelmente se alimentava de muita esperança e saciava sua sede com a vontade de vencer.
    Não fosse por ele, meu companheiro de tantos anos, certamente voltaria para casa aonde já o esperavam num cerco fatal.
    E muito provavelmente seria liquidado como fizeram com o padre, naquela semana, sob dolorosas torturas.
    O padre… bem mais velho, mais comedido e experiente na vida…
    Você?!…Odiariam, porque viria com a arrogância natural de sua juventude, com o embalo vívido da ideologia e com o descuido da inexperiência – que presa fácil!
    Que torturas gratificantes!… Demoraria mais tempo para sucumbir.

    Como foi melhor ter seguido o seu caminho… já que era nele que trilhava, tivera a chance de antecipar o seu futuro mesmo que, paradoxalmente, esse futuro fosse tão breve mas, tão pujante!

    Saudades, de sua irmã

    Fatinha

  4. Paulo Dias disse:

    Caro Daniel.
    Sim, você tem razão. Não existe lei humana ou divina que pactue com o sacrifício (entendido aqui como a eliminação sumária ou gradual do outro ou de si mesmo, seja em guerras, revoluções, violência urbana, doméstica, terrorismo econômico, etc.), não importa suas motivações. Lembremos dos nazistas, que viam o povo judeu como o responsável pela degradação e aviltamento do potencial humano, e para isso condenaram a Alemanha, pátria de tantos gênios, à destruição que se conhece. Dos terroristas da Al-Qaeda que combatem os “infiéis” ocidentais e sua moral perniciosa, e que por via de consequência amargam com o aniquilamento de sua história e de sua rica tradição árabe, que tanto fez pela humanidade em termos culturais. Dos norte-americanos que oprimem e acanalham o planeta com sua sub-cultura de exportação, tendo como fator motivador uma ideia de capitalismo predatório, onde tanto teriam a contribuir com seu natural empreendedorismo. Mas o “sacrifício” a que me referi (por isso me vali do excerto do sr. L. N.) diz respeito àquilo que nos faz deixar nossa zona de conforto e avaliar, muitas vezes para nossa própria “imolação”, o quanto temos sido pouco participativos nesse extraordinário empreendimento que é a VIDA.
    Abraços.

  5. Daniel Abreu disse:

    Paulo,
    Em primeiríssimo lugar quero deixar claro que também admiro essas pessoas. Está fora de dúvida sua entrega a uma “causa maior”.
    Isto posto, devemos ver duas coisas: a) a relatividade da noção de honra – cada grupo tem a sua (inclusive, deus nos livre, a Al-Qaeda), os revolucionários, os militares, as pessoas em geral; b) a usurpação da liberdade alheia empreendida ao tratar a vida do outro como um objeto da minha vontade, ou seja, explicando: vc usou a palavra “sacrifício”, o que, trocando em miúdos, pressupõe um ente que julga outro ente como sacrificável em prol de uma causa, mas ocorre que esse outro “sacrificável” não teve direito de se manifestar, simplesmente foi considerado um ônus e eliminado. Assim, aquele que mata coloca a liberdade do morto como circunscrita à esfera da liberdade do “matador”, e isto, convenhamos, é um absurdo.
    Há casos, como em guerras declaradas, em que o embate se dá entre militares, com ocasionais baixas civis (um erro, sempre). No caso da morte de militares a usurpação da liberdade não se dá, por razões um tanto óbvias (falamos de soldados treinados para matar e morrer, etc…).
    Mas é uma questão polêmica.
    Abraço.

  6. Paulo Dias disse:

    De qualquer modo, a despeito da inutilidade do sacrifício, havia um sentido de honra, de entrega a uma causa maior que a simples manutenção do egoísmo, das veleidades particulares e coletivas. Essas pessoas, esses “martíres”, apreciadas a partir deste ângulo, são admiráveis. Nos dias de hoje sacrifica-se tudo por nada, e são raros aqueles que enxergam (que querem enxergar) um motivo de questionamento, uma razão para lutar, uma indignação que os leve às últimas instâncias da inconformidade, senão sociopolíticas, ao menos individuais. Mas quero ilustrar isso de uma forma literária, por isso transcreverei aqui, com a devida vênia de seu autor, a abertura de um de seus contos:

    “– Tu não consideras, apesar de tudo, perturbador o fato de o homem parecer estar na posição de mero espectador passivo de seu próprio drama – do embate cósmico de sua dualidade? Saberias me dizer que poderosa faculdade de abstração desenvolveu o homem para poder alhear-se tão cruel e radicalmente de si mesmo?
    O certo é que muito poucos dentre eles imaginam o quanto andam longe do ‘teatro de operações’; quantos poucos ouvidos ainda ouvem, dispersos na distância, o vozerio frenético e o alarido tumultuoso da batalha!
    A vida transcorre para lá de suas ocupações e preocupações fúteis. A paz que quiseram amealhar fingindo-se de mortos tem-se revelado demasiadamente pesada para ombros tão frágeis, naturalmente feitos para alijar todo o excesso…” (Luis Narval)

  7. Daniel Abreu disse:

    Confesso que tenho sentimentos contraditórios com relação a essas pessoas, que tentaram a revolução (e às vezes conseguiram). Acho-as abnegadas e altruístas, de uma força extraordinária, mas ao mesmo tempo não consigo concordar com a distinção entre crime comum, e crime político (lembrando que as pessoas em questão praticaram crimes diversos, crimes hoje classificados como “políticos”, isto é, praticados com a intenção de construção de um mundo melhor). São coisas diferentes, ou não, conforme o ângulo sob o qual se os olhe. A intenção é um ângulo possível, mas a perda provocada é outro também viável, e vá explicar pra família de um morto que quem o matou o fez com um objetivo nobre… Seria um ônus necessário? Por que as convicções de quem matou valem mais do que as de quem morreu? Existirá um critério universal?…
    Não sei.

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