Os Ninguéns Assassinos do Twitter e do Facebook

Por Joca Reiners Terron

No episódio que abre seu livro España, o escritor espanhol Manuel Vilas relata a invenção do Noevi, ou Negativo Objetificável de Experiência Vital, nome técnico de um procedimento de ressurreição da verdade a partir do que pensaram os outros, nossos semelhantes, a nosso respeito. Ou seja, uma espécie de autopanóptico, ou então uma penitenciária ou reality show cujo diretor seja o superego.

A ideia — péssima, como se verá — foi do teólogo Elmer Canter: interessado em investigar os negativos da vida, que ele determina como sendo os sentimentos “que acompanharam de forma invisível a vida de uma pessoa”, Canter instala microfones em todos os locais nos quais por ventura alguém falasse dele; na universidade na qual dá aulas, nas casas dos amigos e até na cozinha do cunhado.

Tudo gravado, o seguinte procedimento é a decupagem que visa reunir apenas aquilo que foi dito acerca da experiência vital em questão, neste caso, a do próprio Canter, que nunca conseguirá superar a opinião de sua irmã a seu respeito, algo que “o destruiu por dentro”. O resultado leva ao que Canter chama de “alargamento do Noevi”, ou dos “processos incontroláveis de crescimento da verdade do Ser”. Está fundado o canterismo.

Ao ler o conto é difícil não relacioná-lo às mídias sociais, ao Twitter e ao Facebook, que funcionam cada um a seu modo como Noevis, e nas quais podemos rastrear visões corretas ou francamente distorcidas sobre nosso modo de ser ou de não ser, desde trocas de horrendas fotos suas feitas por parentes, fotos às quais você preferiria que tivessem sido engolidas por algum incêndio familiar, até a calúnia mais maldosa vinda de fonte inesperada (que pode ser a irmã ou pior, a mãe, ou pior ainda, o filho-da-mãe).

O Noevi (que lembra um nome feminino, do tipo Noeli ou Nancy) também pode ser lido como versão paródica da psicanálise cujo funcionamento procede às avessas: em vez de procurar sanar ou corrigir conflitos identitários por meio de depoimentos, ou de ouvir o que nossa própria voz tem a nos dizer sobre nós mesmos, a leitura é feita a partir do que pensam ou acham ou julgam os outros, sem a mediação ética mantida pelo profissional da análise, e é aí que mora e morre o perigo.

De fato, no conto de Vilas o Noevi acaba sendo adaptado ao uso terapêutico de condenados: “Os criminosos escutavam conversas privadas das famílias de suas vítimas. Conversas que duravam anos, era uma experiência revolucionária. Tornou-se famoso o caso de Verdul Poliurens, um assassino de duas meninas (…) que era um miserável, e através de ilimitadas audições, foi comprovando dia a dia que seu nome e sua imagem conviviam, sem que ele pudesse intervir, com a família de suas vítimas.”

A replicação em muitas cópias do avatar que nos representa nas mídias sociais pode sofrer efeito colateral semelhante ao que acometeu Verdul, definido como “síndrome dos espelhos”. Verdul “não entendia o que representava seu nome e sua pessoa para a família de suas vítimas. Sentiu-se vários, muitos homens em um. Sentiu-se corporalmente multiplicado (…) O som de seu nome o enlouquecia.”

É evidente que por outro lado a situação permite aos hábeis a possibilidade da impostura, e o sujeito pálido e mesquinho de mão mole e suada pode se tornar a persona mais brava e justiceira da timeline. Movido pelo desejo fundamental de colar sua existência a uma oportunidade histórica qualquer que lhe possibilite existir — a luta pela libertação das minhocas, por exemplo —, e existir com todo o sentido possível, o avatar do impostor pode acabar se tornando a efígie do herói.

Basta lembrar do caso de Alicia Esteve Head, espanhola que alegou ser uma sobrevivente do 11 de Setembro e que chegou a liderar a associação de sobreviventes de Nova York. Estudante de marketing que, conforme se descobriu posteriormente, nem ao menos estava nos E.U.A. na data dos ataques às Torres Gêmeas, Alicia (depois de falsificações outras relacionadas a estudos acadêmicos), forjou o próprio suicídio após ser desmascarada em 2008.

Alicia pertence ao tipo mais aterrorizante possibilitado pela invenção de Canter, os Ninguéns. Sim, pois um indivíduo submetido ao Noevi, “ouvindo horas e horas de conversas nas quais só se fala dele, acaba compreendendo a extensão de sua vida, e então percebe  a distância que existe entre aquele que crê ser e aquele que é para os demais”. O cara se acha bacana, mas é visto como um filho-da-puta egoísta. Quanto aos Ninguéns, não chegam a tanto. Eles nem ao menos são detectados pelo Noevi — são os inadvertidos, os nulos, os invisíveis — Ninguéns.

Apelando à última esperança, a “de levantar a poeira do deserto psíquico em que tinham vivido”, os Ninguéns sucumbem à delinquência, tornando-se Ninguéns Assassinos. Por um breve momento, tornam-se Alguéns, mas logo se revelam vítimas dessa impostura. A tragédia do Noevi (e por extensão do Twitter e do Facebook) é que numa grande medida todos somos Ninguéns. Antes, porém, não tínhamos nenhuma prova conclusiva disso.

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujoSonho interrompido por guilhotina, entre outros. Pela Companhia das Letras, lançou seu último romance, Do fundo do poço se vê a lua, e relançou seu primeiro, Não há nada lá. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.
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7 Comentários

  1. [...] a lua, e relançou seu primeiro, Não há nada lá. Seu texto pode ser encontrado originalmente no blog da Cia. das [...]

  2. [...] :: Os ninguéns assassinos do Twitter e Facebook (Via Blog da Cia) [...]

  3. joca terron disse:

    Oi, Serena Williams, desculpe pela confusão. É difícil escrever debaixo do chicote do prazo, xlapt, xlapt!, a gente faz o que pode, xlapt! Mas quanta pergunta! Vamulá: 1. Há, assim como há nos romances seguintes, Aire Nuestro e Los Inmortales. 2. “Deveriam”, sim. 3. Acho, mas o texto se estende em outras propostas que não explorei na coluna, e é uma alegoria muito da brincalhona. 4. Já respondi. 5. Acredito que sim. 6. Aí já não acho: não há soberba nenhuma na animalidade mais pura. 7. Boa lembrança, mas não lembro de haver humor no Morel, coisa que no España escorre pelo canto do lábio como veneno. De nada, obrigado por ler e pelas perguntas bacanas!
    Bobbie, gostei do trecho do V-M, valeu. No conto, a terapia com detentos não funciona muito bem. Aliás, não funciona pra nada, tudo dá errado com o Noevi.
    Obrigado pelo comentário, Paulo. Acho, porém, que a visão do Vila-Matas é a visão do tímido, portanto parecida com a visão do tigre.

    Abrazos

  4. Paulo Dias disse:

    Bobbie (e Joca) há um erro básico, embora sutil, nesta descrição do Vila-Matas. A rigor, desejamos sim ser o que os outros esperam que sejamos, de sermos o reflexo exato de como nos veem. Pois o que nos perturba (razão pela qual sacrificamos uma nossa suposta originalidade e minamos uma nossa suposta personalidade – coisa que talvez apenas em Marte, ou em Netuno seja praticável) é convivermos com a inadequação angustiante de nossos pensamentos, sentimentos e propósitos em relação à vaga geral. Somos, por princípio, seres gregários. Portanto, precisamos comungar, precisamos a todo momento fazer conseções, precisamos aprender a ser complascentes se desejamos privar de algum grau de camaradagem e civilidade. Se fossemos como os tigres, por exemplo, que só se juntam durante o período de acasalamento, é possível então que pudéssemos chegar ao fundo de nós mesmos, mas – eis a ironia da coisa toda – replicaríamos ad infinitum essa imagem idealizada. Porque precisamos, de todo modo, nos enxergar no outro. E o outro, em ambos os casos, por paradoxal que pareça, trata-se de nossa particularíssima criação, e nós, em contrapartida, somos a dele. A mente psicopata, no outro extremo, falha nesse propósito. Seu sentimento de inadequação não possui uma solução pacífica, ou mesmo qualquer solução. Há que se melhorar o padrão global do “tipo comum”, e aí então não nos envergonharemos tanto de sermos tão parecidos com os outros e como os outros se parecem com a gente.

  5. Bobbie disse:

    fiquei curiosa com o livro. me lembrou um trecho de Doutor Pasavento [Enrique Vila-Matas]:

    “[...]os outros nos obrigam sempre a ser como eles nos veem ou como querem nos ver. Nesse sentido, a presença ou companhia dos outros é perniciosa, reprime a plena liberdade de que deveríamos dispor para nos construirmos uma personalidade e uma identidade adequadas a nossa forma de ver a nós mesmos. Pensar que somos o que cremos ser é uma das formas da felicidade. Mas aí estão sempre os outros para nos ver de outra maneira e nos impedir a construção de nossa felicidade iludida e, junto com isso, a construção de nossa personalidade favorita, muitas vezes mais complexa, por certo, que a de um personagem de ficção.”

    ps.: uso de tortura [se não são casos de psicopatia] como método terapêutico para os condenados? curioso…

  6. Serena W. disse:

    Quanta confusão, Joca. E que coisa, o uso terapêutico dos detentos, quem eles curariam, me pergunto, se curam alguém. Há qualidade literária neste España? Deveríamos ler? Acha certo pensar no Noevi como uma metáfora para a própria literatura? Ou para a arte em geral? Toda negação de nossa natureza sem nome, execrável, digamos, seria uma espécie de impostura? E toda confirmação a soberba de não resistir? Lembrei um pouco da Invenção de Morel, faz sentido? Obrigado por compartilhar a leitura!

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