Por Juan Pablo Villalobos
1. A República dos Robôs Moralistas. Um romance protagonizado por robôs, robôs domésticos, concebidos para lavar a louça, passar a roupa ou varrer. Nos primeiros capítulos seria descrita com detalhe a tecnologia dos robôs e o momento psicológico de uma sociedade que achava imprescindível ter robôs em casa como método para garantir a felicidade. Mas então acontecia que um grupo de robôs mexicanos desenvolvia sentimento de culpa. Isso revolucionava o mundo da robótica, porque até aquela época o estado da questão era que os robôs podiam sentir satisfação e euforia, só isso. Um empresário oportunista inscrevia a patente e depois resultava que era um péssimo negócio, porque os robôs haviam se tornado moralistas. Duvidavam o tempo todo ante qualquer decisão, tinham auto gerado um chip que em vez de ser binário era milenário. As donas de casa ordenavam varrer o quintal e os robôs em resposta criavam discursos sobre a exploração laboral desde a revolução industrial. O engraçado era que de repente os robôs começavam a pecar e iam à missa. Alguns fugiam das grandes cidades e iam morar na região mais conservadora do país. Lá fundavam uma seita e organizavam um Golpe de Estado na prefeitura. Linchavam um monte de gente, decapitavam liberais, os partiam pela metade, em nome dos bons costumes. A ideia era que aos poucos o movimento fosse crescendo até que os robôs instaurassem uma República Moralista. Tudo isso com muito sangue, como num filme gore, só que toda essa violência era para nos convencer de ser bonzinhos. Mas a gente não queria ser gente boa. (Possibilidade de escrever uma saga de vários volumes.) (Sem vampiros.)
2. Sobrancelhas. Um romance protagonizado por um cara que tinha sobrancelhas muito bonitas, tão bonitas que ele era rico, amado e bem sucedido só graças a elas. Além de serem sedosas e brilhantes, eram perfeitamente simétricas e idênticas: as duas sobrancelhas tinham o mesmo número de pelos. Mas um dia começavam a surgir nele sobrancelhas dissidentes. Sim, nasciam sobrancelhas fora do espaço designado na espécie humana para estas questões, que é em cima dos olhos. A princípio saíam um pouco mais à direita, um pouco mais à esquerda, na testa ou nas pálpebras, mas não era uma ou duas, eram muitas muitíssimas sobrancelhas. Infelizmente o protagonista era um cara muito convencional que não gostava da licantropia, dos circos nem dos portugueses. Daí a grande decisão dele era comprar umas pincinhas. Passava o dia inteiro extirpando as dissidentes. Era uma atividade que exigia as 24 horas do dia: perdia o trabalho, os amigos, as namoradas, o cachorro morria de fome, abandonado. Porém, o grave, o verdadeiro nó do relato, chegava quando um dia começavam a surgir sobrancelhas na barba. O protagonista se paralisava diante do dilema, porque duvidava entre usar as pincinhas ou a navalha de barbear de sempre. No romance não sabíamos por que, mas de repente esta dúvida derivava num discurso metafísico no qual eram feitas releituras da Bíblia, da Torá, do Corão e do Popol Vuh. Mil e quinhentas páginas com quatro mil notas ao pé, onze prólogos e sete epílogos. O final ficaria aberto, sem desenlace aparente: “Olhou seu reflexo no espelho, segurando fortemente a navalha na mão direita. Enxergou esse rosto que há dias olhava sem olhar, repleto de marquinhas vermelhas. Falou assim: Sou eu, sou eu. E ele entendeu, por fim, o que haveria de fazer”. Os leitores poderiam interpretar que o protagonista iria se suicidar, especialmente os fanáticos da literatura russa do século XIX. Ou que o livro culminava com uma epifania peluda que o autor, de maneira truculenta, não revelava ao leitor. (Os sete epílogos, surpreendentemente, falariam de técnicas para evitar a caspa em cachorros.)
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Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e atualmente mora no Brasil. Festa no covil é seu primeiro romance. Editado originalmente na Espanha, já foi traduzido na Alemanha, Reino Unido, Holanda e França, e tem lançamento previsto em mais sete países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
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[...] [Clique aqui para ler a parte I] [...]
O que eu mais gostei foi do algarismo romano (I)…
Que provavelmente significa que virão o II, o III, o IV…
Quanta bizarrice divertida: posso rir antes? rs
(…)
OBS: FODA o teu livro do Covil, FODA!
Gente, a caspa dos cachorros está virando trending topic mundial!!!
Joca, vizinho, eu que agradeço a leitura. Passe por aquí quando quiser, se precisa de açúcar ou farinha, só bater a porta! Aquí sempre tem tequila! (e discussões bizarras).
(Silvia querida, es usted bienvenida en este blog, pero esta semana la cosa está difícil para los argentinos, hay mucho lector corinthiano… shhh).
{…) “era um cara muito convencional que não gostava da licantropia, dos circos nem dos portugueses” >> Haha, obrigado pela gargalhada gostosa, Juan Pablo!
Saludos do vizinho!
Me encanta la historia de las cejas subversivas. Y si en una de esas pacta con ellas y las convierte en rastas?