Elogio aos livros difíceis e chatos

Por Michel Laub


Sempre que perguntam como alguém pega gosto pela leitura, minha resposta é: lendo. Nada contra programas públicos de compra de livros, investimento em bibliotecas, propaganda institucional na TV, clubes de leitura e qualquer recurso que traga a ficção para perto do dia a dia de professores e alunos, mas no fundo o caminho é individual. Existe uma vocação de leitor: ajuda tentar despertá-la, e essa deve ser uma tarefa de governo e educadores, mas não basta. Venho de uma casa onde sempre se estimulou esse gosto, e cada um dos meus irmãos deu resposta diferente ao incentivo.

Numa coluna passada, reclamei carinhosamente dos eventos literários em que não se discute literatura, e sim o aparato pedagógico/econômico/político ao redor da questão no Brasil. Poderia acrescentar o quanto há de mistificador nos slogans que tratam a ficção como um prazer, uma “viagem”, um atalho de ascensão social e libertação do espírito. Ler ficção pode ser tudo isso, mas antes e sempre é um exercício sem utilidade prática, em geral um obstáculo à vida social. Na adolescência, traz mais angústia, isolamento, tristeza e revolta que qualquer outra coisa. Na vida profissional, é mais vantajoso se dedicar a textos técnicos e de “aprendizado”.

Como apreciar um grande romance? Numa dimensão que dê conta de suas qualidades raras, o que só é possível por meio de repertório e comparação, é preciso um longo esforço anterior, anos e anos de contato com grandes, bons, médios, maus e péssimos outros romances. Não espero que uma campanha governamental diga que ler é trabalhoso e até chato muitas vezes, principalmente para quem está começando e não domina os códigos e manhas da prática que vão do conhecimento vocabular à sabedoria de pular trechos e largar livros no meio , mas de fato é. Quando se afirma que Machado de Assis é um autor inadequado para a escola, não é só porque alguém mais velho terá vivência para entender melhor os personagens de Dom Casmurro. Também porque, para uma apreciação de linguagem e estrutura narrativa, sem as quais esses personagens não existem como tais, faz diferença Dom Casmurro ser o quinto romance que o sujeito lê na vida ou o vigésimo, o centésimo e assim por diante.

Cultura é regra, disse Jean-Luc Godard, e arte é exceção. Qualquer incentivo à democratização do saber gira em torno da primeira, e não haveria como ser diferente. Apenas seria interessante, de vez em quando, ouvir alguém falar em larga escala sobre a última: como o prazer extraído da leitura não é necessariamente direto, fluido e emocional. E como pode ser compensador emergir ao final de dezenas ou centenas de páginas hostis como uma espécie de sobrevivente. O primeiro exemplar da chamada “alta literatura” que li foi O nome da rosa. Eu devia ter uns dezesseis anos e fôlego restrito a enredos policiais (me interessei pela obra de Umberto Eco porque era uma história de detetive). É possível que só tenha ido dali para textos de outros gêneros, registros e densidades porque resisti por estoicismo, orgulho ou vaidade, não importa ao cabedal de citações em latim e alusões históricas, religiosas e filosóficas sobre as quais não tinha a menor ideia.

Se ler é uma forma de ampliar a visão de mundo, é pobre limitar a experiência ao que, na forma e no conteúdo, com paternalismo ou demagogia, repete o que já sabemos. Por ocasião do lançamento da Granta e da (bem-vinda) Geração subzero, voltou à tona o debate sem muito sentido que contrapõe qualidade literária e entretenimento. Como se uma coisa excluísse sempre, ou não fosse muitas vezes decorrência da outra. De qualquer forma, Hermano Vianna, Raquel Cozer e Francisco Bosco se estenderam com propriedade sobre o assunto, incluindo suas implicações políticas e mercadológicas, enquanto prefiro seguir falando do que sempre será o patinho feio da história: o livro que não é feito para vender, para agradar, para passar o tempo, para dar lição, para render explicações sem fim do autor no Twitter, para virar tese literária ou extraliterária nascida na academia ou na militância antiacadêmica.

É ele, no fim das contas, que mantém a singularidade da ficção escrita, e portanto sua importância, num mundo em que divertir é tarefa cumprida em geral com mais competência por séries de TV, cinema, games e assemelhados. Nada contra quem opta por esse caminho ao contar uma história, repito, só não vejo aí superioridade estética ou moral, e nem mesmo despretensão. Na literatura infantil é aceita a regra de não subestimar a inteligência da criança, o que significa não poupá-la de desafios e recompensas proporcionais. No mundo adulto também pode ser assim: o que parece aridez, fragmentação, incoerência, gratuidade e entropia pode ser apenas disfarce do que ainda não se consegue entender numa narrativa. E do que ainda não se sabe que quer.

* * * * *

Michel Laub nasceu em Porto Alegre, em 1973. É autor de cinco romances, todos publicados pela Companhia das Letras. O mais recente, Diário da queda, foi lançado em março de 2011. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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20 Comentários

  1. lucia disse:

    “Ler ficção é atividade até anti-social e sem utilidade prática” – revi minha adolescência e entendi as contundentes críticas que recebia de amigos/as e mãe ! – Pare de ler… mais um livro da biblioteca? Eu era assídua na biblioteca da escola. Era introspectiva, já tinha miopia forte, livros eram ótimos companheiros das épocas difíceis de relacionamentos e, na frase acima, faz sentido as reclamações ouvidas sem entender as razões que me faziam ser diferente dos que odiavam ler… pois havia um certo culto à cultura e leitura pelos professores de português e orientadores pedagógicos – ler ficção estrutura um mundo interno próprio, uma deliciosa cumplicidade com o/a autor/a sobre ver o mundo:Cronin,Pearl´s Book, Jorge Amado, M.Delly,José de Alencar(coleção toda)- década de 60 – Diário de Danny, Diário de Ana Maria etc
    De índole prática eu fiz uma ficha com dados de cada livro lido, síntese e apreciação, tudo guardado em caixas, como se fosse de biblioteca. Rendeu-me certa “boa fama” aos 13, 14 anos…pragmática, tinha como provar “o inútil tempo de anti-social” ! Fui considerada inteligente e intelectual.

  2. [...] ler alguns textos inspiradores na internet (confira aqui, aqui e aqui), comecei a pensar como incentivar crianças, adolescentes e adultos a lerem. Difícil, [...]

  3. Lily disse:

    Minha filha de 12 anos devora uns livros infanto-juvenis com uma voracidade de deixar qualquer mãe coruja. Quando eu comecei a condicionar a compra de mais fantasias e “chicklit menininha” à contrapartida de que ela pelo menos tentasse ler outros livros mais “profundos”, me disseram que eu estava estragando o que estava indo bem. Gente, ela não estava indo a lugar algum :-/

  4. [...] e muito mais importante: como transformar o não leitor em leitor. A respeito disso, Michel Laub escreveu recentemente em sua coluna neste blog: “sempre que perguntam como alguém pega gosto pela leitura, minha [...]

  5. [...] No mais, tenho ressalvas quanto ao texto, não em seu argumento central, mas, por exemplo, a esta visão benevolente ligada a ideia de “ler aquilo de que gosta”, pois me parece um discurso demasiadamente satisfeito com a formação de leitores do fácil. Aquela velha história de todos poderem gostar do que quiser – seja erudito ou popular – sem sofrer a violência simbólica das patrulhas, mas quanto mais critérios e maturidade o leitor tiver para transitar e escolher melhor. O que, aliás, me faz lembrar de outro texto que circulou recentemente pela web, do Michel Laub, que prometo ser o último deste gigantesco post e deixo aí para quem se interessar, o título é: Elogio aos livros difíceis e chatos. [...]

  6. Marcos disse:

    Boa reflexão. Os argumentos se parecem muito com os argumentos de Jonathan Franzen no ensaio Qual é a importância?.

  7. Excelente reflexão. A literatura precisa, a despeito de tantos apelos mercadológicos, preservar-se como o espaço da expressão por excelência do espírito humano.

  8. [...] Sempre que perguntam como alguém pega gosto pela leitura, minha resposta é: lendo. Nada contra programas públicos de compra de livros, investimento em bibliotecas, propaganda institucional na TV, clubes de leitura e qualquer recurso que traga a ficção para perto do dia a dia de professores e alunos, mas no fundo o caminho é individual. Existe uma vocação de leitor: ajuda tentar despertá-la, e essa deve ser uma tarefa de governo e educadores, mas não basta. Venho de uma casa onde sempre se estimulou esse gosto, e cada um dos meus irmãos deu resposta diferente ao incentivo.  [...]

  9. GUIJA disse:

    Acho que é a galera dessa verve do “entretenimento” que havia me desestimulado a ler “A Montanha Mágica”, até mês passado, quando pude constatar que não era nada daquilo, mas uma obra exemplar e de uma elaboração das mais minuciosas que já vi, passagens marcantes e reflexões infinitas a respeito.

    Concordo contigo, Laub, a literatura, assim como a filosofia, não precisa ter qualquer viés instrumental.

  10. Bruce Torres disse:

    Gostei da puxada de orelha no final do artigo. Literatura, mesmo que para fins de entretenimento, tem que ousar, fazer o leitor pensar, ter uma reação, qualquer que seja.

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