Por Joca Reiners Terron
Tem duas coisas que eu negaria se me perguntassem quando garoto se faria no futuro: 1) ter filhos; 2) saber cozinhar. Hoje eu tenho uma filha e não só sei cozinhar como gosto muito de fazer isto. Na verdade a vida ideal pra mim seria escrever enquanto ponho feijão no fogo. A panela de pressão fica lá dando seus apitos, eu fico no escritório ao lado assoviando bem alto e escrevendo minhas bobagens. Seria o paraíso. Mas não, a vida sempre nos obriga a pegar fila de banco, fila de cartório, fila da Previdência Social, fila pra cadeia. Por exemplo, cometer um crime bobo num país civilizado e de economia estável e ser metido em cana também não seria nada mau. Acho que foi o Milton Hatoum que disse que o ideal pra qualquer escritor era pegar prisão perpétua na Suíça: três refeições por dia, acomodações pra lá de razoáveis, cama macia e um chocolatinho de vez em quando. Todo o tempo do mundo pra ler e escrever. Bem, e a cerveja? Se a lei suíça permitir uma geladinha de vez em sempre, aí sim. Senão, não. Também acho que na Suiça não deve ser nada fácil arranjar feijão, ainda mais numa prisão suíça (a não ser que tenha uma gangue de travestis brasileiros na prisão e elas façam tráfico de feijão; de todo modo, seria complicado, talvez doloroso). Tem uma entrevista famosa com o Roberto Bolaño onde ele diz que conquistou a mulher, Carolina, cozinhando arroz pra ela. Na entrevista ele diz que era pobre, e que sabia fazer arroz de todas as formas possíveis: canja de arroz, bolinho de arroz, risoto, arroz doce, arroz assim, arroz assado. Bem, eu também conquistei minha mulher de um jeito parecido, mas foi fazendo feijão. Também fui mais pobre do que sou hoje (só um pouco) e sei cozinhar feijão das maneiras mais variadas possíveis. Tenho para comigo, aliás, que só quem foi muito pobre aprende a cozinhar de verdade. Não me joguem tomate. Eu sei que hoje em dia é possível aprender a cozinhar em escola de gastronomia etc, mas não é disto que estou falando. Estou falando de cozinhar o trivial, arroz, feijão, fritar ovo, bife (e aprender a deixar carne de segunda mole pro bife não ficar duro — com óleo de mamona, mas dizem que é broxante) e fazer picadinho. Também costumo relacionar cozinha com literatura. Acho que era o Maiakóvski dublado pelo Augusto de Campos que dizia que poesia é risco. Cozinhar também é risco, e por isto cozinheiros principiantes ficam excessivamente presos às medidas, justamente porque têm medo de fazer cagada (por sal demais na mistura, cozinhar o macarrão além do ponto etc — e aí não fica chique, né, não fica al dente) e pôr tudo a perder. Com literatura não é diferente e a cada dia (vide os cursos de escrita que existem aos montes por aí) a moçada não quer saber de ser pobre, não quer aprender a cozinhar o trivial, o arroz com feijão, pra só então poder arriscar. Só que em literatura é impossível pôr tudo a perder, pois não há nada a se ganhar. Quando digo arriscar, me refiro a experimentar sozinho com a linguagem assim como se experimenta com os temperos na panela. Pesar a mão com a pimenta. Varar a noite escrevendo. Ficar trancado no quarto dez mil horas só lendo. Escrever até quando não se escreve, escrever no ar com os dedos, escrever com a colher de pau e com a escumadeira no céu da cozinha. Cozinhar literatura. Escrever feijão com arroz. Ou então escrever haute cuisine, claro, o que defendo aqui é o complicado, não o simples. Evidentemente os riscos só vêm com a liberdade de meios que a ignorância traz, com o desejo de fugir ao script e inventar moda, como se dizia antigamente, mas inventar moda sem saber que se está inventando. Não estou fazendo aqui a defesa da ignorância, mas o elogio da oficina pessoal, solitária e intransferível (não me refiro à masturbação, mas pode ser que sim). Hoje em dia todo mundo quer ser romancista, ser publicado no exterior; “viver de literatura”, como dizem. Entrar naquela antologia. Pra que perder tempo escrevendo conto e poema? Vamos direto ao romanção de 400 páginas, cê viu o sucesso que o Franzen fez na Flip? Então toca pra oficina. Não me entendam mal, eu acho oficina de texto um troço importante, embora nunca tenha feito uma. Serve pra ler em conjunto, na pior das hipóteses, o que é bem bacana. E pra fazer amigos, na melhor. Tem outra: será que vai ter arroz e feijão suficiente pra todo mundo? Às vezes penso que o ideal seria diversificar um pouco e a moçada voltar a querer ser outras coisas, tipo editor, por exemplo: nunca foi tão fácil ser editor, basta você conhecer programas de editoração, de formatação de ebooks e pronto, é só reinventar a roda. Crie sua editora, nunca foi tão fácil revolucionar o mundo. A internet, essa verdadeira cozinha industrial de-meu-deus-do-céu, taí pra todo mundo explorar. Ou então ser cozinheiro pobre, pra aprender a cozinhar arroz e feijão direito e descolar namorada. Ou então ser poeta, escritor experimental, contista fenomenal. Sim, pois muito pior que não ser selecionado pra qualquer antologia é ficar sem namorada. Aí não dá, né, meu patrão? Aí não dá!
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Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujo e Sonho interrompido por guilhotina, entre outros. Pela Companhia das Letras, lançou seu último romance, Do fundo do poço se vê a lua, e relançou seu primeiro, Não há nada lá. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.
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[...] http://www.blogdacompanhia.com.br/2012/07/feijao-com-arroz/ [...]
Só pra lembrar uma frase do Henry James que tem a ver: “Só existe uma receita: todo cuidado na hora de cozinhar”.
hahahahah! Morri de rir com o final do texto. E eu concordo com tantas coisas que você disse! Tipo a parte de aprender primeiro a cozinhar o feijão e o arroz. O problema é que a gente aprende desde criancinha que literatura boa é Machadão, e que o resto é só o resto. Daí fica difícil pegar exemplos, se espelhar em algo. Só lendo e pesquisando muitos autores.
Você escreve de uma forma tão gostosinha!
Queridos, obrigado por não me jogarem tomates. Podem fazer como o Wellington e desgostar de meu tempero à vontade, porém minha intenção não foi desestimular ninguém a escrever, pelo contrário, apenas defendo que outras formas de textos (que não o romance-com-trama-estilo-inglês-blablablá) merecem atenção. A tradição literária brasileira e seu apego ao breve (a crônica, o poema, o conto) andam merecendo cuidados por parte da moçada literária. Portanto, o arroz e feijão.
Ah, Joana, tenho uma má notícia para você: o meio literário, ao contrário do quer a vida civilizada, é cheio de preconceitos. Na literatura, é assim: isto é bom, isto é ruim. Nisto o meio literário está mais próximo da selva e da natureza: é um lugar selvagem. Quer escrever? Afie seus dentes (ou seja carnívora: lembrando que arroz e feijão é coisa para vegetariano).
Abrazos gerais & obrigado pela leitura!
Por favor não me matem tb! Mas achei que o texto começou bem e terminou mal. Perdeu o gás (pra ficar na metafóra da cozinha), ficou chato e panfletário no fim. E me permito não render o assunto. Vamos fazer assim: eu tento viver de escrever, se não conseguir fazer nem pro café da manhã, vou comer na sua casa (na do Joca). Sei que cozinha bem e é caridoso. Abraço.