O gibi de faroeste trazido pela maria fumaça através do túnel do tempo

Por Joca Reiners Terron

Como toda crônica necessita de um ponto de partida, resolvi determinar um bastante idiota e calculei qual dentre os meus lados, o de leitor e o de escritor, havia me dado mais dinheiro nesta vida.

Entendam, por favor, pois há dias desinspirados que antecedem estas entregas e que podem levar qualquer um à loucura. Eu não devia ter feito isso, as tais contas. Nunca soube aritmética direito, porém não tive outra ideia. Desinspirado pra mim equivale a desesperado. Quando minha mulher acorda e me vê com esta cara de cachorro que perdeu o osso, ela sempre diz: “Ih, já sei, acordou desinspirado”. Depois disso, serve o café, já que às vezes o café também salva.

Mas nem sempre.

Na conta o escritor ganhou, evidentemente; contudo, pra chegar aqui, ou lá, precisei ir longe, muito longe, ao passado distante. Não estou querendo soar literário, só que é inevitável pensar na infância sem soar meio elegíaco, meio evocativo. Meio bobo. E foi necessário retroceder um bocado até chegar às prateleiras em que meu avô espanhol guardava uns exemplares velhos do Reader’s Digest e que ficavam no quartinho de costura da minha avó. Na verdade eu nunca entendi direito o que era aquele lugar, qual a sua serventia exata, só lembro da frieza dos tecidos em cima da máquina de costura e dos cabides esparramados. Acima dos cabides pairavam os exemplares do Reader’s Digest, amarelados e cheios de pó, atraentes feito ímãs de papel. Eu pescava um deles lá em cima e me enfiava debaixo das roupas pra ler. O geladinho do cetim no nariz dava vontade de espirrar.

Depois de um tempo, aparecia minha avó. Eu podia antecipar sua chegada pelo cheiro de cânfora que ela passava nas pernas pra curar varizes que nunca curavam. Aí a gente ia até o supermercado Pastorinho comprar uns biscoitos de chocolate que tinham acabado de sair do forno. Eu preferia o cheiro quente do açúcar derretido à cânfora negro-azulada das varizes das pernas de minha avó. Ela sempre me enrolava com os biscoitos e aproveitava pra me levar até a missa só pra se exibir pras freiras.

Mas calma aí, que pra falar do resultado da conta e de quanto dinheiro eu faturei como escritor e de quanto tutu consegui como leitor, bem, antes disto terei de falar do tempo em que eu era um leitor que não comprava livros, mas também não ganhava nada pra lê-los. Agradeço a compreensão, obrigado.

Depois das revistas velhas do seu Juan José, passei às bancas de jornal na companhia de meu pai. Na verdade era uma banca só, lá em Marília, no interior de São Paulo, onde meus avós paternos viviam. Lembro do contraste dos gibis coloridos contra a madeira escura das prateleiras e das paredes recobertas por lambris. E do cheiro de tinta fresca dos gibis novinhos que existia naquele lugar. Marília tinha duas ou três fábricas de doces (uma delas era a Ailiram, que ― tchãtchãtchã ― é “Marília” ao contrário). O ar da cidade tinha dois cheiros característicos: do lado de fora, cheirava a bala de amendoim, a bala 7 Belo e a bala Xaxa (a do gatinho); do lado de dentro, a banca cheirava a tinta de gibi (que pra mim sempre foi um cheiro multicolorido). Às vezes cheirava a cânfora, no quartinho de costura, mas só às vezes. Ao lado da banca tinha um bar onde meu pai tomava cerveja enquanto eu comia pastel e folheava gibis. Ali também tinha cheiro de cigarro Minister.

Um dia, faz tempo, meu pai me contou que até hoje se lembra de quando ia com minha avó à estação ferroviária de Marília receber o meu avô, que era maquinista de trem, de volta de suas viagens. Nesse dia o meu pai me contou que se lembra perfeitamente do cheirinho de café que os dedos das mãos do meu avô soltavam ao pegar na mão pequenina dele. Imagino que pro meu pai devia ser muito legal ter o perfume de café nos dedos do pai dele e o cheiro de bala de amendoim no céu da cidade; um ar desse tipo é um bom ar pra se respirar enquanto se cresce.

De novo peço paciência a vocês. Obrigado por aguardar enquanto faço as contas. Aritmética não é nada simples pra mim. Fugi da escola.

Não sei se meu avô trazia algum gibi de presente pro meu pai quando voltava de suas viagens pela Noroeste. É capaz que sim. Quem sabe um exemplar do Reader’s Digest, só que isto não é leitura de criança. Quem sabe um gibi de faroeste. Meu pai é o maior leitor do Tex que eu conheço. Ele continua a comprar as reedições uma a uma, às vezes é a décima edição, e ele relê todas sem pular uma que seja. Essa obsessão por Tex Willer e Kit Carson talvez tenha algo a ver com o trem, com a fumaça com cheiro de amendoim saindo das chaminés, com a temperatura fria do cetim tocando meu rosto, com os espirros e o amarelo do papel do Reader’s Digest; com o cheiro de café nos dedos de meu avô.

Somei os valores de todas as contribuições que fiz pra imprensa. Somei toda a fortuna que recebi pelos textos que escrevi. A escritura até que deu uns trocados; com eles acho que dá pra comprar uns biscoitos de chocolate quentinhos.

A leitura, além das lembranças tiradas das páginas dos livros, deu nestas recordações. E estas recordações me matam.

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujoSonho interrompido por guilhotina, entre outros. Pela Companhia das Letras, lançou seu último romance, Do fundo do poço se vê a lua, e relançou seu primeiro, Não há nada lá. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.
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9 Comentários

  1. edwards martin disse:

    Revistaria na rua 9 de julho ao lado do Pastorinho, a pastelaria é do Myabara, existe até hoje, a Ailiram fica na São Miguel.Xaxa e sete belo, já trabalhei muito com essas deliçias.

  2. João Thiago disse:

    Meu avô era leitor ávido de Tex, e ferroviário, também. Pai e filho de uma dinastia de ferroviários que trabalharam na antiga Estrada de Ferro Sorocabana. Foi ele que me ensinou a ler quadrinhos, e era dele o primeiro livro do Marquês de Sade que eu li, escondido, no andar superior da minha casa, que estava sempre em construção em Itariri, no interior do interior de São Paulo.

    Essas memórias vêm com cheiro mesmo. E quem se importa com quanto você ganhou como escritor? Nós é que ganhamos como leitores com um escritor como você. Ainda que o elogio seja piegas (como, intencionalmente, seu texto), é verdadeiro.

  3. Ricardo Böck disse:

    Pô cara, desvendei o porquê da leitura Texiana paterna: o aroma recôndito!

  4. [...] das letras por roselilopes411 em agosto 1, 2012 http://www.blogdacompanhia.com.br/2012/07/o-gibi-de-faroeste-trazido-pela-maria-fumaca-atraves-do-tu... O gibi de faroeste trazido pela maria fumaça através do túnel do tempo « Blog da Companhia [...]

  5. Trem exerce um fascínio incrível na gente! E avós são uma das melhores coisas do mundo. E as primeiras descobertas literárias são pra sempre. Estes dias, eu que acho ridículo adulto que coleciona boneca ou bichos de pelúcia, me peguei, aos 33 anos, comprando uma boneca de pano da Emília porque foi a personagem preferida da minha infância, das tardes em que jogava na cama, com um livro do Lobato e não via as horas passar! E há coisas que, com o tempo, acabam tendo cheiro de carinho. Tão bom ler seu texto!

  6. Sou português e chamo-me José Carlos Francisco e sou também o responsável pelo blogue português de Tex e ao saber que seu pai é um grande fã e coleccionador de Tex, gostaria muito de saber se seria possível entrevistá-lo para a nossa rubrica dedicada aos fãs e coleccionadores de Tex (http://texwillerblog.com/wordpress/?cat=80) pois seria uma grande honra podermos dar a conhecer ao mundo Texiano mais um dos grandes e especiais leitores brasileiros de Tex.
    Você acha que poderia ser possível? Claro que as respostas poderiam ser dadas consoante a disponibilidade e a inspiração, sem pressa alguma.
    No aguardo de uma sua resposta (se possível para o meu e-mail) despeço-me enviando um abraço para si e um cumprimento especial ao seu pai.
    José Carlos Francisco (Zeca)

  7. fao carreira disse:

    meu avó tbe da ferrovia de Botucatu, trazia o cheiro da oficina mecanica e dos armazens cheios de garrafas de bebida…

  8. betobombig disse:

    A pegada dessa música do Roberto Carlos deve ser geracional. Sempre me lembro da minha infância quando a escuto, dos meus pais, e, sim, penso: essas recordações me matam. Lindo texto.

  9. Edmilson Silva disse:

    Bisbilhotice dá nisso: acende nostalgias.

    Segui o rastro sinestésico da sua prosa e eis que estou passando por Turiaçu, ventrículo direito da Zona Norte do Rio de Janeiro, a sentir os aromas crocantes da Piraquê, as operárias rechonchudas sentadas em pequenos grupos ou rodas, a fumar e a prosear.

    Como a memória não está nem aí para as rédeas da cronologia, olha se acercando de mim, de novo, a certeza de que o Centro de Salvador está chegando, por causa da doce invasão dos ares saídos das chaminés dos biscoitos Aymoré. Cheiro que remetia, lá como agora, ao dos arredores da fábrica da Neugebauer, na Baixa do Bonfim, local em que a doçura atmosférica dos chocolates se mesclava aos do guaraná, pois ali nas redondezas também funcionava a Fratelli Vita, empresa produtora do que chamávamos de gasosa na Bahia.

    Entretanto, em meu caso, o aroma doce mais primal sabe a compota de araçá feito pela mãe. Cheiro que supera o de pipoca, associado às festas da padroeira, em janeiro, em Santo Amaro. E, por sublimação, também superava e supera o futum do arremedo de curtume que meu pai cuidava para um tal capitão Alcione. Vá ver que era por isso que a mãe separava cota especial do doce para o pai na volta à casa, à noite, e fazia questão de esquentar a porção, envolvendo o ambiente dos dois cômodos em que morávamos em cúmplice suavidade.

    Obrigado pela viagem sinestésica.

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