Orgulho e indagação

Por Luiz Schwarcz


Ian McEwan (Foto por Lilia M. Schwarcz)

Acompanhar autores, editores e agentes literários em visita ao Brasil é um dos grandes prazeres da vida de um editor tupiniquim. Pelo menos é o que sinto quando recebo pessoas e me ponho a mostrar não só a mim mesmo, como sobretudo a Companhia das Letras, e meu país. É curioso como nessa hora percebo o quanto me orgulho de ser brasileiro. É um sentimento que não sei explicar, mas, ao frequentar o país com os olhos de quem o visita pela primeira vez, eu sinto uma alegria imensa.

Ao emprestar o olhar do estrangeiro, as vantagens de ter nascido e construído a vida no Brasil me parecem muito maiores do que as dificuldades e vícios.

Pois este ano, depois da Flip, a Lili e eu juntamos um grupo que em parte mal se conhecia e tivemos uma semana de sonho, passando por Tiradentes, Ouro Preto e Inhotim.

Jonathan Galassi, editor da Farrar Straus and Giroux, é um dos meus melhores amigos no mundo editorial. Um dia escreverei um post só sobre ele. Jonathan veio para o Brasil por dois motivos: como acompanhante de Jonathan Franzen, um de seus autores mais importantes, e também para assistir à Flip que homenageava Carlos Drummond de Andrade. Jonathan publicará Drummond em inglês. Já conhecia o poeta mineiro a fundo, pois foi aluno, e depois também editor, de Elizabeth Bishop — tradutora de alguns poemas de Drummond para o inglês.

Deborah Rogers é uma das principais agentes literárias do mundo, e representa vários autores da Companhia das Letras no exterior; graças à amizade que desenvolvemos há mais de duas décadas. Deb, como é conhecida, veio para a Flip com seu marido, o compositor Michael Berkeley, que prepara com Ian McEwan uma ópera baseada em Reparação. Tanto Deborah como Jonathan tinham um plano pós Flip: ir a Ouro Preto, para conhecer a cidade e a casa onde viveu Elizabeth Bishop.

Ian McEwan e Annalena McAfee são dois autores que não têm uma relação estritamente profissional comigo. Ficamos amigos há tempos, antes da Flip existir. Assim, Ian aceitou lançar seu novo livro, Serena, primeiro no Brasil; e vir à Flip para depois realizar um plano antigo: passar uns dias comigo e com a Lili, em nossa casa no interior de São Paulo.

Deborah é a agente literária de Ian e Annalena. Aproveitei a presença dos dois casais, muito amigos entre si, e de Jonathan Galassi, que pouco ou nenhum contato tinha com o resto do grupo, para propor que nos juntássemos e viajássemos juntos.

Deixamos a serra da Mantiqueira para outra ocasião, e fizemos um roteiro exclusivamente mineiro. Unidos pela amizade com a Lili e comigo, pelo interesse em Elizabeth Bishop e pela vontade de conhecer o Brasil, o grupo teve uma convivência mais que prazerosa. A casa de Bishop em Ouro Preto foi aberta para nós por seus atuais e super zelosos proprietários Linda e José Alberto Nemer, que chegaram a cobrir as camas com as mantas indianas que a poeta trouxe consigo dos Estados Unidos. Isso para que tivéssemos a ideia mais completa de como Bishop vivia. Vimos o estúdio onde ela escrevia, a sala de estar, a mesa de jantar e o seu jardim com a majestosa vista da cidade. Passeamos pelas ruelas de Ouro Preto, visitamos algumas igrejas — parte em bom estado de conservação — e tivemos a sorte de assistir, por conta do Festival de Inverno, a um show da Velha Guarda da Portela. Na noite fria da cidade barroca, Monarco cantava os grandes sucessos da escola azul e branco, enquanto Deborah dançava com um senhor desconhecido, os dois deixando a terceira idade de lado, com samba no pé. Ele havia ingerido uma quantidade considerável de álcool, mas apenas sorria e dançava com sua nova amiga. Enquanto isso eu tentava traduzir as letras dos sambas para Ian e Annalena e explicava se tratarem, na sua maioria, de canções sobre desilusões amorosas e corações partidos. Ao fazê-lo me dei conta de que todas estas canções tristíssimas são apresentadas no Brasil com melodias alegres e ritmo pulsante. A felicidade do samba, a serviço das mazelas do coração, é uma grande maneira de entender o país.

A cordialidade e hospitalidade superlativas do povo mineiro e a surpresa dos estrangeiros com a excessiva intimidade que nos era concedida logo no primeiro contato permitiam mostrar aos convidados o país do “homem cordial”, onde todos se unem na amizade, mas, ao mesmo tempo, com tão frágeis e tardias conquistas formais de cidadania e de igualdade social.

Nosso almoço no restaurante mais popular dos caminhoneiros, entre Congonhas do Campo e Ouro Preto, foi dos pontos altos do roteiro gastronômico, que incluiu também uma leitoa à pururuca em uma fazenda de Tiradentes, e frango ao molho pardo em uma casa de família, transformada em restaurante informal.

Ian comentou no final da estadia que os banheiros dos lugares públicos que visitamos eram extremamente limpos. Essa pequena observação, vinda de um escritor acostumado a viajar aos mais variados lugares, me fez pensar que talvez esse fato não fosse verdade há pouco tempo atrás, e que no banheiro asseado das estradas de Minas há razões para otimismo — quem sabe o país esteja de fato mudando.

A grandiosidade dos jardins e pavilhões de Inhotim, mesmo com os questionamentos que envolvem o projeto deste museu a céu aberto sem igual no Planeta, juntaram-se ao samba triste, em um novo retrato do Brasil. Um país aparentemente tão sedutor, mas difícil de decifrar. Com orgulho e indagações — haveria melhor forma de terminar uma semana de visita ao meu país?

Tiradentes:

Casa de Elizabeth Bishop:

Mariana:

Ouro Preto:

(Fotos por Lilia M. Schwarcz)

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

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6 Comentários

  1. Delícia de crônica. Minas é acolhedora e linda tb. Ouro Preto é belíssima.
    O último parágrafo está perfeito.
    Um abração,
    Elianne

  2. Paulo Dias disse:

    Saber-se brasileiro muitas vezes não é fácil, Daniel tem razão. Creio que nos falta ainda referências históricas e culturais para estruturamos melhor nossa sociedade, nossas maneiras de pensarmos a arte, a ética, o homem. Mas quando se repara na miséria conceitual de muitos de nossos literatos (referi-mo aqui especialmente aos autores selecionados pela revista Granta), que, supostamente, teriam a sagrada missão de elevar o padrão estético e filosófico de nossa produção cultural, a decepção não é pequena. Não me refiro (quando falo nesses autores) apenas a seu canhestrismo técnico, isso tem jeito, mas à sua pobreza e irrelevância temática, onde não se percebe a mais leve tentativa de estabelecer um diálogo minimamente arguto com aquilo que de fato faz toda a diferença em nossas vidas. Esse alheamento solipsista, intimista, ou coisa que o valha, solapa e anula de antemão suas bases e reduz a zero seus esforços. Serão assim tão vaidosos e autossuficientes a ponto de considerarem que aquilo que lhes importa é também importante para os demais? Esquecem que nosso mundinho doméstico, que nossas míseras idiossincrasias, herdadas e tomadas de empréstimo, não possuem a capacidade para configurar um objeto estético com a imprescindível ressonância que dele se espera? Mas ainda são “jovens” (embora isso pouco signifique em termos de verdadeiro aprendizado – se não possuírem uma alma suficientemente viril e experimentada) e talvez se apercebam de uma ou outra coisa nos anos futuros.

  3. [...] Até o Luiz Schwarcz vem, por que você deixaria de vir? Vamos retribuir o acesso ilustre, lendo o orgulho e indagação do chefão da [...]

  4. Luiz Schwarcz disse:

    Daniel não há razão para se desculpar. Sua visão e sentimentos são tão legítimos quanto os meus. Só uma observação as bonitas fotos não são minhas e sim da Lili que está virando uma ótima fotógrafa.

  5. Daniel Abreu disse:

    Tenho enorme dificuldade em me sentir brasileiro. Sou filho, neto, bisneto de brasileiros, mas não me identifico com esse país. Suas fotos, Luiz, são lindas, as cidades devem ser lindas, as pessoas calorosas, mas o Brasil tem muito, muito, lodo. Erguer essa nação, de uma forma honrosa, é uma tarefa tão imensurável, e eu já levei tanta pancada, já ouvi tantas explicações paradoxais, problemáticas, reveladoras de racionalizações de um mero querer se dar bem, que aos 35 anos, jovem ainda (ao menos eu acho), me encontro à beira de abandonar a terra brasilis. País do futuro, sim. Aqui posterga-se sempre, com exceção das vantagens.
    Me desculpe.
    Abraço.

  6. Lilian disse:

    Puxa, fiquei emocionada. Sou uma apaixonada por esse estado, pelas cidades históricas de Minas e seu artigo me encheu de saudades e de lágrimas na flor dos olhos. Puxa. O que pode ser melhor do que boa literatura, viagens e descobrir novos amigos?

    Lindo texto, lindo. Pra se compartilhar e ter vontade de voltar a esses lugares.

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