Como ler “Habibi” (2)

Por Érico Assis

[Clique aqui para ler a parte 1]

Quando esteve no Brasil, em 2009, Craig Thompson disse que eu devia work on my Koran, caso viesse a traduzir Habibi. Por e-mail, ele também me sugeriu Uma história de Deus, de Karen Armstrong. A ex-freira Armstrong recupera a construção da ideia do ser divino nas religiões que se formaram principalmente no Oriente Médio, destacando seus pontos em comum.

O encontro de religiões é explícito em Habibi. Mesmo que você não soubesse (via Retalhos) que Thompson teve criação cristã, ele é um autor produzindo para o público cristão-ocidental e este é seu ponto de partida. Ao tratar do islamismo, ele faz questão de ressaltar, até didaticamente, os momentos em que o Corão trata de personagens da Bíblia — inclusive com versões divergentes, como a história de Isaque, Abraão e Ismael.

Também li O Corão, de Bruce Lawrence, que faz bom apanhado da biografia de Maomé e serviu principalmente para eu encontrar opções consagradas de tradução fonética — ou melhor, para descobrir que estas não existem. الحديث é hadith ou hadiz ou hadite ou ahadith? O diabrete jinni (ou djinni) vira jinn no plural (segundo Lawrence e tradutora) ou é jinn no singular e jinni no plural (segundo outras fontes)? Descobri inclusive que não se fala em traduções do Corão — as versões em outros idiomas são “explicações” ou “significados”, pois o texto árabe original, além de ser feito para ser lido em voz alta, com rimas e musicalidade própria, possibilita várias interpretações.

Também comecei A leitora do Alcorão, de G. Willow Wilson, uma das críticas que comentei na última coluna, e Islã, de Paul Balta. Nesses admito que fui pulando capítulos até achar o que interessava. Armstrong e Lawrence ficaram de referências principais.

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Islã, Corão, Maomé e ahadith são pano de fundo de Habibi. Porém, além de demandar pesquisa do tradutor, foram o principal ponto de discussão dos críticos de Habibi. Há poucos dias, foi o português Pedro Moura que se somou à lista dos que veem ingenuidade em Thompson dizer que sua obra é apenas um conto de fadas ou uma história de amor, diante de pano de fundo tão carregado. Ele se soma a Robyn Creswell, convidada do New York Times para resenhar a obra, que voltou à discussão orientalismo/exoticismo. Michael Faber, no Guardian, também não gostou muito da temática sexualizada.

Como eu já disse, porém, Habibi não vive só de ataques. Douglas Wolk, na Time, declarou-se apaixonado pela arte “miraculosa” de Thompson. Jacob Lambert, na Millions, chamou-a de “maior história já desenhada”. O Independent, o Washington Post (com resenha em quadrinhos), a Salon, o Financial Times e outros derreteram-se. Foi até acréscimo de última hora nos 1001 Quadrinhos para Ler Antes de Morrer. E um dos primeiríssimos comentários sobre o álbum veio de Sean T. Collins, que fez todos os orientalistas tornarem-se contramão ao dizer que “não é uma obra sobre o Islã… é uma obra que usa o Islã para tratar de outras coisas” — sendo as outras coisas as obsessões pessoais, humanas e poéticas de Thompson.

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Foi Collins também que destacou o projeto ousado que é a estrutura do livro — que Thompson faz questão de deixar a descoberto, não querendo fazer mistério quanto ao intento. É algo, aliás, que talvez só tenha importância na segunda ou terceira leitura. Nas palavras do autor:

“A estrutura do livro baseia-se no símbolo do quadrado mágico, espécie de talismã árabe. Na prática, é como o Sudoku — um quadrado três por três com nove letras árabes, uma em cada espaço. Isto se reflete na estrutura do livro, pois são nove capítulos, e cada capítulo baseia-se numa letra árabe que também tem seu componente numerológico, e com este número também ganha um componente geométrico. O capítulo intitulado ‘Anel de Salomão’, por exemplo, estrutura-se em torno de uma estrela de seis pontas — a Estrela de Davi, também conhecida como Selo de Salomão. Todos os temas do capítulo enfocam o profeta Salomão e o número seis na estrela de seis pontas.”

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Pode soar arrogante usar o título “Como ler _______”. Este, porém, é o título não-dito de qualquer crítica: propor uma forma de ler a obra, com ênfase no propor. Você também pode decidir se e como vai ler estes críticos. Assim como fará a sua própria leitura de Habibi.

Por mais que eu seja suspeito, com minha leitura privilegiada de tradutor da HQ, minha impressão é a seguinte: Habibi é feita para durar. À parte do contexto de tensão contra o islamismo, à parte das perspectivas orientalistas, à parte das obrigações dos resenhistas de erguer ou baixar o dedão neste intervalo em que a obra é “novidade”, penso que Thompson não fez uma obra apenas para ser lida hoje, mas que pode ser relida e redescoberta em anos, décadas, quem sabe outras gerações.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos e Habibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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6 Comentários

  1. […] histórias, como a do cara que emprestou Retalhos para todo o condomínio (vi nos comentários de uma coluna recente), dos que começaram por Macanudo e chegaram ao Shaun Tan, do pessoal que acompanhava os livros do […]

  2. Rogério disse:

    Faz um mês, depois de mais um ano sumido, passando por vários leitores – da família e amigos – entre 8 e 40 anos, Retalhos voltou a minha pobre biblioteca. Foi assombroso, para mim, o quanto esse livro agradou o público infantil do condomínio. Habibi herda esse legado de leitores novos e encantados por Retalhos, espero que não os decepcione, balizando pelas críticas que tem recebido.

  3. Fabio Negro disse:

    o senhor é sempe um foda positivo!

  4. Érico disse:

    Érico, não entendi. A dificuldade que recomenda uma proposta de leitura reside na religião? Ansioso para ler. E, atencipadamente, parabéns pela excelência do trabalho, como de costume. Abraço.

  5. Érico disse:

    Fabio: “foda” positivo ou “foda” negativo?

  6. Fabio Negro disse:

    “Este, porém, é o título não-dito de qualquer crítica: propor uma forma de ler a obra, com ênfase no propor.”
    Érico, você sabe que isso foi muito foda, não sabe?

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