O prédio de quatro andares em Imaginópolis

Por Carol Bensimon

Algumas memórias caprichosas parecem se esconder sob a pilha daquelas mais óbvias e repetidas à exaustão. Por exemplo, quando sou solicitada a lembrar de minha “formação como leitora/escritora”,  o que vem de pronto é a Coleção Vaga-Lume, os livros do Conan Doyle, alguns contos produzidos para uma disciplina da faculdade de Comunicação, etc. Mas, nessa semana, eu me lembrei de Imaginópolis, do sujeito lilás e narigudo chamado McZee, de uma máquina geradora de ideias, das minhas horas na salinha onde ficava nosso 386 com Windows 3.1. Em resumo, eu me lembrei que um programa de computador fez mais pelo meu ímpeto criativo que toda uma fileira de livros de ficção-científica na biblioteca de meus pais.

O nome desse programa era Creative Writer. O ano, 1993. Eu e meu pai comprávamos softwares em caixas bonitas lá na subida da Coronel Vicente, eu as adorava como adorava encartes de CDs, aquela caixa do Day of the Tentacle, aquela caixa do Indiana Jones, talvez não seja preciso dizer que fui filha única, e que houve pouca coisa nos anos 90 que eu não ganhei (kit Alquimia, cabeça para regar e onde eventualmente ia crescer um pouco de grama, uma tabela de basquete da Fischer Price).

O Creative Writer, no entanto, não era um jogo, ou ao menos não na acepção mais básica do termo; produzido pela Microsoft Kids, ele transportava a criança para uma cidade fictícia chamada Imaginópolis, onde o estranho McZee fazia as vias de anfitrião, levando-o pelo interior de um prédio maluco de quatro andares. Cada andar oferecia ao pequenos usuários um universo diferente. Despido de toda essa roupagem lúdica, o Creative Writer era um simples editor de texto. Mas entrar em um elevador roxo para então começar a escrever, ou descer por um corrimão de bombeiro até a biblioteca, fazia toda a diferença na cabeça de uma criança.

Eu escrevi um bocado de coisas no Creative Writer. As histórias tinham duas ou três páginas, e claro que um título todo colorido e em três dimensões no pior estilo “word art”. Além de bordas e figurinhas. Engraçado como o mundo funciona quando você é criança; você cai em qualquer truque e é tão bom. Eles aparecem com um carrinho de supermercado toscamente desenhado, fazem-no deslizar nos trilhos, e logo você está se sentindo em Imaginópolis. À ingenuidade infantil, soma-se a ingenuidade da informática naquele tempo. Para vocês terem uma ideia, isso tudo aconteceu quatro anos antes de eu jogar Warcraft via modem (U.S Robotics 14.400) com meus colegas de colégio. Antes da internet ser um troço de fundo cinza. Antes dos gifs animados de “em construção”.

No último andar do Creative Writer, havia uma slot machine geradora de ideias. O pequeno escritor puxava a alavanca, e lá vinha uma combinação de elementos que ditaria os rumos do texto. Algo como um lugar + uma situação + um personagem. Infelizmente, não consegui achar nenhuma imagem da tal engenhoca nessa ampla galáxia chamada internet. O que importa, de qualquer forma, é que até os bloqueios criativos tinham uma resposta lúdica e estimulante. Eu adorava ficar sem ideias para que então me dessem uma nova para explorar. Bons tempos.

* * * * *

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008, e no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Ela contribui para o blog com uma coluna quinzenal.
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16 Comentários

  1. Aline Viana disse:

    Esse programa de computador lembra os métodos defendidos por Gianni Rodari no “Gramática da fantasia”. Nossa, queria muito um programa assim! :D

  2. imoveis web disse:

    Nostalgia total, também usava esse programa na escola.

  3. Daniel Abreu disse:

    Bom, dizendo a verdade sem drama: eu era pobre, e, além do mais, sempre detestei videogame. Fui ter computador em casa comprado por mim mesmo, aos vinte e dois anos de idade, e nele só joguei campo minado e paciência, vez por outra.
    Conheço gente que passava horas no Playstation, e em jogos em rede. Nunca me atraiu nada disso…
    Jogo por jogo, prefiro os transpirantes, sejam coletivos – futebol, vôlei, basquete – ou individuais – ping pong.
    O caso, eu entendo, é que precisava ser algo a ver com literatura… Bom, sendo assim, prefiro ler e escrever mesmo, pura e simplesmente. Jogo divertidíssimo! Sou totalmente viciado, rs…
    Abraço.

  4. Bruno Vicentini disse:

    Eu lembro! :~ Eu também usei na escola, nas aulas de informática, mas um pouco fora de época já, devia ser 97 ou 98. O que faz total sentido, visto que sou um pouco mais novo e moro no interior. Tive Alquimia, mas não o Boneco Ecológico. Não sou filho único. Entrei direto na onda do Warcraft II, mas sempre no single player. Tive uma “página pessoal” que nunca passou do gif de “em construção”. Pra resumir: adorei o texto e o sentimento de nostalgia que ele fez surgir. Obrigado, Carol.

  5. Carol Bensimon disse:

    Brontomps: é, era bem parecido com isso, mas com desenhos no lugar de palavras.

    Ué, e como assim só as meninas lembram do Creative Writer? (provocação) ;)

  6. Nana disse:

    Usava na escola esse programa, nas aulas de informática! Era demás!

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