A dor da perda

Por Luiz Schwarcz

Another Brick in the Wall

Hoje me vi pensando sobre o momento mais triste na vida de um editor; quando este fica sabendo que perdeu um autor. Por que este momento é tão doído? Muitos devem imaginar que o que mais importa ao editor é o prejuízo financeiro, sentido por antecipação, com a saída de alguém que produz a “matéria prima” a partir da qual sobrevivemos.  Será este o centro da dor da perda?

É fácil também entender a importância simbólica implícita nesta situação, o peso do prestígio vencido ao ver publicamente nossa casa editorial ser trocada por outra: “o que pensarão de mim ao saberem que um outro profissional foi considerado melhor para cuidar de uma obra literária?”. Será o ego o mais afetado dos bens que estão em jogo?

Em muitos casos, como nas separações conjugais, o abandono se dá sem que necessariamente o autor tenha outro endereço a seguir. A dor carrega menos ciúme nesse caso. É diversa, mais cheia de culpa que de inveja, mais depressiva e menos raivosa, talvez.

Com certeza o dinheiro conta, as várias formas de ego ferido também. Mas arrisco dizer que, apesar de cada editor reagir de maneira particular, a situação é mais complexa do que pode parecer à primeira vista. Parte das separações matrimoniais acontecem e ficam resguardadas na esfera privada. São as mais tranquilas, em geral. Já aquelas que viram públicas, tendem a ser as mais dolorosas e desgastantes.

A separação de um editor e de seu autor se dá sempre na esfera pública, assim como a maior parte da vida deste casal peculiar. O editor torna público algo muito pessoal criado pelo autor, fazendo com que a vida dos dois  seja quase uma constante cerimônia de casamento, um ato público que não se encerra, que deve sempre ser festivo, e nem sempre é.

Na produção dos livros parte da procriação se dá privadamente: algumas passagens da gestação são reservadas, algumas cenas de amor também. Mas há uma promiscuidade pública na vida de autores e editores, que advém da natureza do trabalho comum.

No entanto, não são só o bolso e o ego os mais afetados no momento da perda. Há a nostalgia do que não será mais feito em conjunto; do prazer público esquecido ou que agora será vivido com outro parceiro. Da prole que terá outro pai ou padrinho, como queiram.

Os laços que se criam entre autor e editor são complexos. Em muitos casos há uma profunda amizade, talvez até amor. Há segredos, cumplicidades, interesses econômicos comuns, e o estímulo mútuo e legítimo dos respectivos egos.

Escrevo para tentar entender este momento, pensando numa situação que já vivi e viverei muitas vezes.

Este é um post sem resposta, ou sem final. Curto sem ser grosso. Espero que delicado. Sem dúvida, triste.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

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16 Comentários

  1. Luiz,
    Sempre leio seus posts. Adoro. Hoje estive relendo porque queria encontrar um para fazer um comentário que encaminhei ao site da Cia das Letras, mas que não recebi retorno. Acabei relendo esse, sobre sua perda. Algumas de nós mulheres feministas vimos sofrendo com a perda de uma importante socióloga, cujas obras encontram-se esgotadas há muito tempo – Heleieth Safiotti.
    Heleieth, em minha opinião, tem tanta importância ao feminismo, quanto Simone de Beauvoir, mas nasceu em uma cidade pequena do Estado de São Paulo e não na França. A socióloga foi uma mulher audaciosa e pioneira na América Latina nos estudos de gênero no universo acadêmico, propondo a discussão sobre a emancipação das mulheres na sociedade de classes, sob a perspectiva do trabalho.
    Sua produção intelectual contribuiu para a construção de novos marcos teóricos que ampliam e aprofundam o entendimento das condições para o pleno desenvolvimento da sociedade com igualdade e justiça social. Suas ideias suscitaram uma reflexão crítica sobre as condições das mulheres, contribuindo de forma teórica para os movimentos feministas dos anos de 1970 e também os da atualidade. Infelizmente, apesar de toda essa importância, todos os seus livros encontram-se esgotados e só podem ser encontrados em sebos.
    Há uma semana, a ONU decretou que a violência contra mulher ganhou caráter de pandemia. Os movimentos feministas estão ganhando, na medida do possível, espaço maior para as suas pautas e há uma quantidade razoável de mulheres estudando as questões de gênero, sob o viés do feminismo. Tudo isso está se perdendo porque sua obra, boa parte dela, encontra-se esgotada e sem previsão de ser reeditada. A Cia das Letras não teria interesse em resgatá-la, não somente para as feministas, mas para toda a academia ou interessados sobre o assunto.
    Sei que não deve ser o melhor mecanismo de comunicação por aqui, mas estou tentando porque acredito.
    Por favor, sobre a biografia que leu, não a escrevi. Retirei da apresentação de uma premiação que a prefeitura de SP oferecerá a práticas de combate à violência e que leva o nome de Heleieth Saffioti.
    A socióloga nasceu em 1934 e morreu em 2010. Sua contribuição teórica mais importante é a “teoria do nó”, pela qual mostra que as três ordem que formam a realidade social: classe social, raça/etnia e gênero são de tal maneira imbricada que não se mexe com uma sem que se mexa com as demais.
    Obrigada e me perdoe se pareci invasiva ao escrever por aqui.

  2. Marcio Muraca disse:

    O trabalho que a Cia. tem feito com as obras de Jorge Amado é primoroso: o autor que estudo e amo. Obrigado: parabéns!

  3. Diana (admin) disse:

    Oi, Carolina. Para agendar entrevistas, por favor, entre em contato com a assessoria de imprensa: divulgacao@companhiadasletras.com.br

  4. Carolina França disse:

    Olá Luiz,
    sou jornalista e vim procurar conhecer um pouco mais sobre você para um perfil que queremos fazer em uma de nossas revistas. Adorei o blog e quando percebi uma hora já havia se passado e eu continuava a ler seus textos. Gostaria de entrevistá-lo, seria possível?
    Agradeço desde já!
    Abraços,
    Carolina

  5. luiz schwarcz disse:

    Muito obrigado Márcia pelo seu gentil comentário e por ter lido meu livro. Abraço Luiz

  6. Márcia disse:

    Caro sr.Luiz Schwarcz,
    Depois do distanciamento necessário do seu lançamento, o livro “Linguagem dos Sinais”, com a sua concisão poética e elegância dos contos, aliados à leitura do post da semana, refleti sobre perdas, de quaisquer natureza, escolhas próprias ou alheias e sobre sucessos. Se escritora fosse, de qual obra preferiria a autoria…das histórias melancólicas e ranzinzas ou dos 50 tons de cinza? Vão os anéis, ficam os dedos, as dúvidas, os medos e as contas a pagar. Quiçá a vontade de escrever o romance adiado.Abraços.

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