Por Carol Bensimon

No dia 12 de setembro deste mesmíssimo ano, a autora de livros de fantasia Silvia Hartmann deu início a um projeto curioso, que ela está chamando de The Naked Writer Project. Não se trata da possibilidade de vermos Hartmann sem roupas (escritores são tão sagrados que até sua nudez é composta de letras). A questão aqui é que a inglesa está escrevendo seu novo romance na ferramenta Google Docs, e que qualquer interessado pode acompanhar esse processo “ao vivo”. Hartmann espera que The Dragon Lords a torne a primeira romancista a permitir que os leitores leiam cada palavra no momento exato em que elas são digitadas. Deixarei meus julgamentos para depois.
A relação entre Silvia Hartmann e os leitores não é uma via de mão única, contudo; mais do que permitir que eles espiem pelo buraco da fechadura, a escritora quer opiniões, quer rumos, quer debater se o tom do livro deve ser assim ou assado. Para vocês terem uma ideia, ela chegou a abrir uma enquete intitulada “O quanto de sexo você quer em The Dragon Lords?”, e fez comentários sobre o assunto no fim de seu manuscrito in progress. Depois ela tomou nota dos nomes de alguns personagens, lugares e animais de estimação. Para não esquecer. Aliás, quase ia me esquecendo de comentar que Silvia Hartmann é rápida. Em oito dias, ela já está no quinto capítulo, o que obrigou-a a abrir um novo documento público.
Você gosta daqueles vídeos gravados por torcedores que passam no meio da transmissão de um jogo de futebol? Eu detesto.
Entendo que a literatura queira colher os frutos da interatividade, mas devo admitir que essa palavra me causa comichões. A “interatividade” é muitas vezes hipócrita porque simula um plano de igualdade entre todos; a opinião de não importa quem sobre não importa que assunto é automaticamente válida. Eu me pergunto se não deveríamos deixar de ter uma opinião sobre tudo e escutar com mais atenção os especialistas. É claro que parece tentador ser contra uma obra na cidade a qual prevê a derrubada de algumas árvores, mas será que urbanistas, engenheiros de trânsito e ecologistas não têm mais a dizer do que sua amiga mera ativista de facebook?
Voltemos ao “livro ao vivo”. Tudo bem, você dirá. Essa escritora inglesa está levando em conta a opinião dos leitores ― e isso durante o processo ― porque ela quer agradar-lhes ao máximo para então vender ao máximo. Quanto a isso não restam dúvidas. No entanto, acho que há uma questão mais profunda aí, que vem ao encontro do que eu dizia no parágrafo anterior: aceitar as “interações” desses leitores é, de certa forma, tirar a sua própria autoridade, colocando criador e público num mesmo patamar empobrecedor (para ambos). Ora, eu gostaria de acreditar que 1) um escritor escreve melhor e tem ideias melhores do que seus leitores, assim como jogadores de futebol devem jogar futebol melhor do que os torcedores de um clube 2) a melhor forma de agradar leitores não é fazê-los participar da criação de um texto, mas sim oferecer-lhes uma obra pronta que os seduza e os toque, em resumo, que signifique algo para eles, mas não porque eles ditaram os seus rumos.
Nessa horas, me lembro de uma aula da oficina literária do Assis Brasil. Era a última. Nós tínhamos trabalhado o ano inteiro em cima de contos e mais contos. Aquela derradeira tarde de quinta, contudo, havia sido reservada para algumas rápidas considerações sobre romances. O professor Assis enchia o quadro com diagramas malucos, correspondentes à estrutura de um de seus livros. Então começou a detalhar os pontos cruciais do enredo. Disse, lá pelas tantas: nós, como escritores, tínhamos infinitas possibilidades durante a montagem de uma história; quando o leitor deparava-se com aquela obra acabada, no entanto, aquele tinha de parecer o único caminho possível. Em outras palavras: o leitor não enxergava a gama de possibilidades que se apresentara ao escritor durante o processo, mas apenas as direções que efetivamente haviam sido tomadas.
Sempre achei muito bonito pensar em todos esses caminhos não escolhidos.
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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008, e no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Ela contribui para o blog com uma coluna quinzenal.
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Pra mim, o mais fantástico das artes e da literatura, é a obra ser produzida e então ser “dada”, “jogada”, à quem vai consumi-la, e este, que a consome, fazer seus próprios devaneios e tirar as interpretações que quiser, a seu modo. Não importando necessariamente o que o autor da obra queria comunicar (isso importa para o autor), mas importando agora, para quem lê/vê/ouve, o que este outro sente.
Sou a favor dos livros escritos entre quatro paredes.
Mas vai que, de repente, a autora não quis somente agradar, mas “inovar”, fazer diferente, e ver qual é. Ser pioneiro é uma vaidade dos artistas e escritores também, eu acho.
Acho que há espaço para tudo. Não que todos os livros tenham que ser escritos dessa forma, a maioria dos leitores também gosta de se surpreender. Mas também não consegui entender qual o problema de uma escritora em particular querer deixar que o público acompanhe seu livro.
“Eu me pergunto se não deveríamos deixar de ter uma opinião sobre tudo e escutar com mais atenção os especialistas”.
Essa frase, vinda de uma escritora, muito me assusta.
[...] aqui [...]
concordo demais com o que Luiz André dix arriba.
ahora mesmo me vejo escravo do tuíte, fico vindo olhar links e mais links, muitos fornecidos por vc, Carol.
ah os processos, a literatura moderna, a metalinguagem, bla bla bla bla… no final, o que conta é o resultado final, e pelo que li desse livro, é uma porcaria, serve só pra preencher pautas em jornais/blogs literários e será esquecido em 5… 4… 3… 2…
Achei a ideia da mulher genial! Vou acompanhar e dar os meus pitacos de não-especialista. E tomara que ela venda muito!
Taí algo que acho que não tem nada a ver com literatura.
http://garotadistraida.wordpress.com