Em Tradução (Infinite Jest)

Por Caetano Galindo


(325 páginas)

Então.

Este é o último texto do ano. Queria em primeiro lugar agradecer a todo mundo aqui, no blog, na editora, entre os leitores, pelas oportunidades, os fidibeques, a boa-fé e o apoio.

Gostando muito de estar aqui.

Tomara que todo mundo tenha um jeito de dar uma descansada na virada do ano, e que 2013 seja supimpa a dar com o pau. E que todo mundo em algum momento do novo ano veja um passarinho diferente voando rápido.

Eu já tinha mandado semanas atrás esse ‘último post’ pra Diana e a Francine. Mas achei melhor reescrever. Só pra deixar umas coisas claras.

Que apesar do que alguns podem ter achado eu não sou ‘contra’ a fidelidade na tradução. Que eu não sou um maluco deformador de textos alheios. Que eu não pretendo escrever nada que David Foster Wallace, ou qualquer autor que me caiba traduzir, não tenha escrito. Ok?

Porém (ah, porém…), a questão é que eu acho que o público leitor às vezes espera (ou ‘acha’ que espera) coisas diferentes desses conceitos. As discussões no campo da tradutologia acadêmica são sem-fim, mas nem quero entrar pesado nisso. É só um pouco de bom-senso.

Fiquemos só com a fidelidade.

Se o que o leitor deseja é saber que o texto que está lendo não foi cortado, editado, mutilado, adulterado, que nele nada foi inserido, que nele nada foi censurado… ora, hoje, nas editoras sérias, não há motivo para preocupação.

Isso já se fez. Isso ainda se faz em casas mais vagabundinhas.

As boas traduções, das boas editoras, são sérias. São fieis. O leitor pode acreditar, deve acreditar, que está lendo o mesmo livro.

E eu insisto em repetir que o que um tradutor de prosa literária traduz não são frases. Não são palavras. É um livro. É nessa escala que está a noção final de fidelidade, e nela que devem residir as avaliações de qualidade. Por isso que às vezes é meio sacanagem resenhar tradução desancando o pobrezinho do tradutor e, pra isso, elencando 3-4 ‘erros’ lexicais.

Qualquer romance complexo e longo estará cheio de ‘erros’, segundo o critério da correspondência um-pra-um, por exemplo, que são ‘acertos’ destinados a reproduzir simetrias, trocadilhos, ecos, retomadas temáticas, cuja eficácia, para ser medida, precisa levar em conta um outro trecho do livro, às vezes a centenas de páginas de distância.

Agora, se o leitor espera chamar de ‘fiel’ apenas uma tradução que verta ‘todas as palavras’ ou, como às vezes se diz, que traduza ‘palavra por palavra’, a coisa pode ficar feia.

Porque:

1. As línguas não são isomórficas. Elas não recortam a realidade da mesma maneira. A gente divide o dia em três partes, nos cumprimentos. Bom dia, boa tarde, boa noite. Os ingleses (e franceses e alemães e por aí vai…) dividem em quatro. Manhã, tarde, noite, madrugada. Manhã, tarde, noitinha e noite…? E foi-se a correspondência um-pra-um.

Como gosta de lembrar o Paulo Henriques Britto, nem uma coisa molinha, no dicionário, precisa ser molinha de traduzir. A gente acredita que lunch é almoço e dinner é janta por estar ‘interpretando’ pelos nossos padrões. Em inglês dinner quer dizer refeição principal, e lunch, refeição leve, colação, lanche, oras. Ou seja, a gente interpreta pelo nosso relógio, senão, pelos nossos hábitos, devia era inverter…

E foi-se a molinhidade.

2. A sintaxe varia. Não posso traduzir bom homem a cada vez que o original inglês disser good man. O adjetivo à esquerda é normal pra eles, exceção pra nós.

Outra, em inglês se usa possessivo demais! Outro exemplo do Britto: um americano pode dizer: I put my hand in my pocket to get my handkerchief so I could blow my nose. O bom português? Eu pus a mão no bolso para pegar o lenço e poder assoar o nariz. Quatro possessivos lá. Nenhum aqui. Perfeitamente fiel.

3. Normalmente o que mais importa não é o que as palavras da frase significam, no dicionário, uma a uma. Mas sim o que aquela frase faz. O ato de linguagem que ela opera.

Um dos comentários àquele post em que eu apresentei uns trechinhos comentava que era melhor traduzir Look por . Ok. Faz sentido. Mas, naquele contexto (era um viciado mostrando o septo nasal destruído pela cocaína), eu julguei que a frase Ó era uma versão portuguesa mais adequada. Mais fiel à oralidade brasileira. Mais eficiente não necessariamente para dizer a mesma coisa, mas sim para fazer o mesmo que o original.

Ó.

Se eu topo, por exemplo, com um personagem que, num romance americano, exclama surpreso What are you thinking, man?!. A tradução literal (outra palavra recorrente), certamente seria a pior opção. Quem é que diz O que está você fazendo, homem?

Eu até encararia um O que é que você está fazendo, rapaz.

Mas provavelmente ia preferir um Qualé a sua, meu?

Foi isso que o personagem disse? Claro que não. E nunca será. O que ele disse, afinal, é justamente o que o tradutor tem que substituir.

E tem que substituir por algo que alguém, de perfil semelhante, em contexto igual, diria na nossa língua. Com o mesmo efeito, não necessariamente com as mesmas palavras.

Porque, afinal, a discussão da fidelidade tem esse outro subtom. Fidelidade a quem? Ao inglês? Ao original? Ao leitor e ao português do Brasil?

Eu prefiro esta.

Abração de cá.

E fica aí com diquinhas de férias. Uma, a publicação de um longo trecho de Infinite Jest na Revista Cult desse mês. Fiquei feliz com o resultado.

Outra, uma edição especial dos Cadernos de Não-Fição, com tema wallaceano e colaboração de dom Galera (autor do livro do ano!).

Terço, como dizia a minha filha, um trabalho acadêmico meu, sobre Wallace também.

Divirta-se.

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de Tom Stoppard, James Joyce e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal sobre a tradução de Infinite Jest, cujo lançamento está previsto para o 2º semestre de 2013.

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19 Comentários

  1. [...] Lá atrás eu comentava traduções ‘ruins’ de uma frase. Aí um leitor, nos comentários, disse que ‘O que você está fazendo aí, homem?’ era, sim, uma frase possível em certas regiões do Nordeste. Enquanto que, segundo ele, um gaúcho poderia dizer ‘O que fazes aí, guri?’. [...]

  2. Diana (admin) disse:

    Valter, a matéria está na página 50 da edição de dezembro.

  3. valter ferraz disse:

    Voltei: o trecho traduzido de Infinite Jest que saiu na Cult foi em Janeiro? No número de dezembro não encontrei.

  4. valter ferraz disse:

    Fico grato por partilhar o trabalho acadêmico. Já está salvo aqui no pc e vou ler com a atenção merecida.
    Um abraço

  5. Felipe Fernandez disse:

    Eu temo discordar mais pondo em pauta uma questão Sr. Galindo, na frase exemplo que o senhor colocou “What are you thinking, man?!” pode sim ser traduzida “O que você está fazendo homem!, isso é uma frase comum no nordeste, mais nem todo ele. Um gaucho seria algo “o que fazes ai guri”, mais nunca traduziriamos assim, não existe meio termo nesse sentido, ou se traduz como gíria, ai a giria local ou se mantém a frase entre parenteses, a verdade é que no Brasil pela sua dimensão sempre traduziremos para UM Português e não para todos, infelizmente São Paulo tem o domínio economico, falaremos sempre o mandarim de lá.

  6. Ale Esteche disse:

    Não sei como ainda não tinha lido nada daqui mesmo entrando no Blog da Companhia quase que diariamente e tendo interesse declarado em qualquer coisa que você venha a escrever.
    Só tenho a dizer, com a concisão que sempre tive e que você bem conhece: Bravo!

    E não vejo a hora de colocar as mãos no teu Infinite Jest.

  7. J.V. disse:

    Texto mais esclarecedor da coluna, até agora; mandou, Galindo!

    Ao contrário do que pode ter ficado parecendo no tom de alguns dos meus comentários (incluindo o do ‘Vê?,’ que, depois de ter lido o seu ponto, eu acho que hoje eu ficaria com ‘Viu?’), nunca te vi como um ‘inimigo da fidelidade’; só estava/estou sempre preocupado com a mesma e meio que nunca perco uma oportunidade de frisar o quão especialmente preocupante ela tende a ser no caso do DFW, um autor tão atento ao hipnotizante efeito do uma-palavra-depois-da-outra-quebrando-o-tempo que nos fascina tanto e que ele fazia com tanto carinho…

  8. Bardamu disse:

    Lembre-se: Qual­quer tradução de um grande livro é uma fotografia a preto e branco de um quadro.

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