Semana cento e cinquenta e quatro

Os lançamentos desta semana são:

Frank: a voz, de James Kaplan (Trad. Pedro Maia Soares)
Muito antes de Elvis Presley e dos Beatles sonharem com os primeiros acordes, ele provocava histeria em multidões de adolescentes enlouquecidas que dormiam na porta do teatro para ver, rever e desmaiar diante do ídolo. Fenômeno da nascente cultura de massa nos anos 1930 e 1940, Frank Sinatra sabia como rechear de paixão as baladas que cantava, enquanto seus assessores de imprensa produziam o clima na plateia. Mas ele era muito mais que isso: músico de ouvido requintado, estudava minuciosamente as letras, aprimorava a dicção e a musicalidade de modo a transmitir todo o sentido das canções; perfeccionista, nenhum detalhe de uma gravação lhe escapava. Neste livro, que acompanha os primeiros quarenta anos da vida de Sinatra, James Kaplan narra em cinco atos dramáticos a ascensão, a queda e o renascimento de uma figura contraditória, com qualidades e muitos defeitos — os próprios amigos o chamavam pelas costas de “Monstro” —, mas de inegável (e impressionante) talento musical, que deu forma definitiva ao cancioneiro norte-americano. Com mão de romancista, o autor utiliza de forma ousada técnicas da ficção para penetrar na alma e na mente de seu biografado e recriar sua personalidade. O resultado é uma narrativa pontuada pela emoção genuína e pelo drama real de um homem que cresceu ao lado da máfia, não mediu esforços para construir sua carreira, cobiçou e foi cobiçado por muitas mulheres, viveu uma tempestuosa história de amor com o furacão Ava Gardner, teve sua morte artística anunciada e renasceu para a glória no cinema e na música.

Nada a invejar, de Barbara Demick (Trad. José Geraldo Couto)
A vida na Coreia do Norte, sob um dos regimes mais fechados do mundo, parecia impenetrável aos olhos estrangeiros até o surgimento deste livro. Nele, a jornalista americana Barbara Demick traça um painel vívido da sociedade norte-coreana a partir de uma extensa pesquisa e, principalmente, dos depoimentos de refugiados dissidentes que ela entrevistou durante o período em que trabalhou como correspondente do Los Angeles Times em Seul, na Coreia do Sul. Nas dramáticas trajetórias pessoais narradas aqui, o culto obrigatório à personalidade dos ditadores, as crises de escassez e o controle do cotidiano dos cidadãos configuram uma realidade sufocante; porém, mesmo num universo tão autoritário, é possível perceber as brechas para o humor, os atos de heroísmo e a solidariedade.

A morte do pai, de Karl Ove Knausgård (Trad. Leonardo Pinto Silva)
Uma noite de ano-novo e rebeldia, regada a cervejas vedadas aos menores, um amasso nauseante na primeira namorada, um show fracassado com a banda de punk no shopping center — em A morte do pai, primeiro romance da série autobiográfica Minha Luta, Karl Ove Knausgård se concentra em narrar os anos de sua juventude. Ao embarcar numa investigação proustiana e incansável do próprio passado, o narrador busca reconstruir, sobretudo, a trajetória do pai, figura distante e insondável que entra em declínio e leva o núcleo familiar à ruína. Honesto e sensível, Knausgård investiga também o próprio presente: aos 39 anos, pai de três filhos, ele deve se ajustar à rotina em família, trocar fraldas e apartar brigas, tudo isso enquanto tenta escrever seu novo romance, numa luta diária. Com A morte do pai, Knausgård inaugura um projeto monumental e ambicioso, que logo se tornou best-seller na Noruega e fenômeno literário internacional. São seis volumes híbridos entre a ficção e a memória, em que o autor explora, com pleno domínio da atividade narrativa, as possibilidades da ficção contemporânea.

A loucura vista de um lugar seguro

Por Vanessa Ferrari


Imagem de “Institute Benjamenta”, filme inspirado em “Jakob von Gunten”.

“Fiz uma profunda reverência, quase até o chão, ante a criatura que já não me dedicava atenção nenhuma; murmurei um ‘Adieu, senhor diretor’, como determina o regulamento, bati os calcanhares um contra o outro, dei meia-volta — ou melhor, não, procurei com as mãos a maçaneta da porta, sempre fitando o rosto do senhor diretor, e, sem me voltar, esgueirei-me porta afora. Assim terminou minha tentativa de fazer uma revolução.”

 

Não tenho interesse pela vida dos escritores. Não quando essa curiosidade serve ao propósito de entender a obra do autor. Não busco pistas que revelem o que é verdade ou ficção nos personagens dos romances; tampouco arrisco análises psicanalíticas para descortinar o momento em que o desajuste do autor virou arte. Questão de gosto. Essa convicção, porém, que eu tinha como algo imutável, ruiu quando conheci Robert Walser e o seu romance Jakob von Gunten. Por causa de Jakob, esse narrador-personagem estranhíssimo, decidi vasculhar a vida do autor, justificando a mim mesma que a intransigência só atrai desgraça, e me obrigando a rever certos maneirismos filosóficos, que comumente alimentam a nossa vaidade mas que, na maioria das vezes, são uma grande bobagem.

Jakob von Gunten é um rapaz perturbador. É ele que vai conduzir o leitor para dentro dos portões do Instituto Benjamenta, uma escola para formar serviçais. “Vestimos uniformes. Usar uniforme é algo que, a um só tempo, nos humilha e enobrece.”  É ele também que durante a narrativa irá se render de modo cínico aos ditames do diretor. “Obedeço razoavelmente bem, não tão bem como Kraus, que é mestre em precipitar-se de cabeça ao encontro das ordens, pronto para servir.”

Mas, na maior parte do tempo, Jakob irá se dedica ao seu passatempo favorito, tripudiar Kraus, seu colega de internato. “A cada dia que passa, Kraus olha para mim com expressão crescente de censura. O que acho encantador. Gosto de ver pessoas adoráveis um pouco raivosas. Nada me agrada mais do que transmitir uma imagem inteiramente falsa de mim mesmo àqueles que guardo no coração.”

Jakob von Gunten é uma figura muito estranha. Sentenciá-lo de cínico, cético, manipulador, mentiroso ou qualquer outra coisa não elucida a questão, porque o narrador não parece querer ser isso ou aquilo. E definir o personagem como paradoxal também é pouco, porque ao conduzir o leitor à rotina da escola (“Aqui se aprende muito pouco, e nós do Instituto Benjamenta, vamos dar em nada.”), ele despeja no leitor pontos de vista muito particulares. Ali não há um mosaico de imagens, um painel vigoroso, um estilo envolvente, uma escrita inteligente e inventiva, nada disso. Jakob von Gunten é o antijargão. Ele não é de direita, tampouco de esquerda, não advoga a favor de ninguém e não parece ser contra nada. O fato é que o leitor não tem onde se amparar. Na melhor das hipóteses, deverá se escorar em suas próprias convicções que, cá entre nós, como bem sabemos, podem vir abaixo a qualquer momento. Por isso, para ler esse romance, o leitor precisa saber que estará absolutamente só.

E sobre a biografia de Robert Walser, finalmente, que foi meu ponto de partida, não direi uma linha, porque saber como um autor viveu, morreu, e a relação intrínseca e subjetiva da vida versus obra, nesse caso, sejamos sinceros, não serve pra nada.

* * * * *

Vanessa Ferrari é editora da Penguin-Companhia e mediadora do clube de leitura na Penitenciária Feminina de Sant’Ana. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

[Veja a lista de clubes de leitura organizados pela Companhia das Letras.]

Em Tradução (Infinite Jest)

Por Caetano Galindo

(919 páginas)

Regionalismos. Regiões. Koinés… (parte 2)

Mais perguntas que respostas, ok? Baseado numa certeza que, pelo menos para mim, certeza é. Qual?

Hmm…

Que o texto traduzido deve (malgrado a posição EUA-cêntrica [pasmem!] de teóricos como o Venuti etc…), aqui na nossa casa, parecer basicamente direto, imediado, em termos exclusivamente linguísticos.

É quimera? É quimera.

(É tradução afinal…)

Mas me pauta.

Agora, quando é que surgem os problemas incontornáveis mesmo?

Quando o texto se volta urobórico sobre o próprio texto. Quando a língua (fonte), naquela cansada metáfora do Jakobson, vira o centro do debate etc…

É isso que são os trocadilhos.

É isso que é qualquer referência ao próprio idioma (He didn’t speak any english, como a gente já comentou aqui). Coisas que impossibilitam aquele pacto quimérico que a gente vinha celebrando… estilhaçam a ilusão.

Os regionalismos são um desses grandes problemas. Dos maiores.

Porque e se num texto todo escrito numa língua medianamente uniforme um único personagem aparece falando ‘caipirês’? Como no caso dos ‘matutos’ do Faulkner, por exemplo?

O tradutor tem que marcar esse cabra. Claro. E tem que marcar com marcas, digamos, co-extensivas. Ou seja, usar um conjunto de características de um português sub-standard que provoque no nosso leitor um determinado efeito estilístico que gere a mesma (equivalente, ok) sensação de distanciamento/proximidade em relação àquele indivíduo.

O problema, no entanto, passa a ser como fazer isso (marcar um padrão sub-padrão) sem precisar recorrer ao que, na mão dos autores, é marca facilmente empregada: o toque regional delator.

Posso fazer um personagem do Faulkner, ou da Flannery O’Connor falar mineirês?

Ou piracicabês?

Se não (e eu acho que não), como marcar um português caipira de caipira nenhum?

Ou, mais frequente, como definir um português-brasileiro-oral-distenso reconhecido por uma parcela bacana do público bacana mas, de novo, não marcado demais como sendo deste ou daquele fulano.

Do rio? Daqui? De lá? Trans- ou Cis-Paranapanema?

Lembra que no texto passado a gente falava aqui que parte (e parte cabeluda) da ‘tarefa do tradutor’ de literatura em Pindorama 2013 é ajudar a criar um padrão sociolinguístico pan-brasileiro?

Pois bem. Saiba, leitora querida, que muitas vezes cabe também criar é um subpadrão!

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Ilustração bríttica nº 1. Em Contra o dia, o brilhantíssimo romance de Thomas Pynchon, em um dado momento um personagem, americano, chega à Inglaterra e, lá, começa a ter pequenos problemas de incompreensão linguística. O grande Britto teve que botar os ingleses a falar lusitanês!

Ilustração bríttica nº 2. E quando esse distanciamento que o leitor sente em relação ao texto não é causado por afastamento geográfico, e nem decorrente de uma intenção do autor? Quando ele é fruto do envelhecimento?

Em Viagens de Gulliver, o grande-mestre-padroeiro da confraria dos tradutores literários decidiu, macho pacas, usar apenas português do século XVIII, com um puta efeito.

Será que a sensação que a leitura da tradução dele (finalmente a tradução definitiva de um texto definitivo) causa entre nós equivale ao motivo por que os americanos ainda adoram ler as traduções dos russos do XIX feitas pela Constance Garnett, quase contemporânea deles?

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Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de Tom Stoppard, James Joyce e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal sobre a tradução de Infinite Jest, cujo lançamento está previsto para o 2º semestre de 2013.

Concurso: O grande Gatsby

No dia 7 de junho chega aos cinemas brasileiros a nova adaptação de O grande Gatsby, com direção de Baz Luhrmann. O filme tem Leonardo DiCaprio, Tobey Maguire e Carey Mulligan nos papeis principais, e promete ser bem diferente das adaptações anteriores.

Para aqueles que gostam de ler o livro antes de ver o filme, a Penguin-Companhia está vendendo com desconto sua edição do clássico, que tem tradução de Vanessa Barbara e introdução de Tony Tanner: o livro físico está disponível em diversas lojas por R$19,50, e o e-book está à venda por R$7,90.

Para combinar com essa versão moderna do livro, nós aqui do blog propomos o seguinte: resuma O grande Gatsby em 140 caracteres. O autor da melhor resposta ganhará 5 (cinco) clássicos da Penguin-Companhia, à sua escolha.

Para participar, basta deixar seu resumo na caixa de comentários deste post até a meia-noite do dia 26 de maio. Os editores da Companhia avaliarão as respostas, e o vencedor será divulgado aqui no blog dia 29 de maio. Só aceitaremos uma participação por pessoa, e para evitar cópias, todos os comentários serão ocultados até o fim do prazo.

Veja os trailers abaixo para se inspirar, e boa sorte!

Quem é quem na Companhia das Letras

Nome: Edely Mitestaines

Há quanto tempo trabalha na editora? Em março completei 21 anos.

Função: Sou vendedora da Companhia das Letras. Atendo as principais livrarias do mercado editorial, apresento os lançamentos, sugiro reposições, controlo o envio e o faturamento das consignações.

Um livro: A elegância do ouriço, de Muriel Barbery.

Uma história que você se lembre da editora: Em uma das visitas de José Saramago ao Brasil, por volta de 1997, o Luiz levou-o até o departamento comercial e apresentou a equipe de vendas. Ele me disse: “Minha filha, faça o possível para vender o meu livro, porque eu fiz o impossível para escrevê-lo”. Frase de efeito? Talvez… Mas, a partir daquele dia, dei maior importância a minha profissão. Mesmo o Maior Escritor conta com o vendedor de livros para ajudá-lo a vender seu melhor livro. Estou “me sentindo” até hoje…