Colunistas

Leitura em voz alta

Por Carol Bensimon


(Foto por Meredith Nutting)

Leitura em voz alta. Leitura em voz alta de um texto em andamento. Talvez isso seja tão ritualístico quanto afiar uma dúzia de lápis idênticos, alinhá-los sobre a escrivaninha, e então abrir o computador e começar a escrever (o que eu não faço). No entanto, parece fazer algum sentido. Lembro de ler capítulos inteiros sentada no chão de um banheiro em Paris, porque essa era a única maneira que eu encontrava para ficar sozinha. Precisava fazer algum sentido. Do contrário, seria só ridículo.

Às vezes, eu estou lendo com aquela entonação particular, a que devo dizer que ninguém conhece, pois é a da leitura solitária em voz alta, e percebo que, do outro lado da porta, há um vizinho esperando o elevador. Ok. Tudo isso certamente começou na oficina literária de Luiz Antonio de Assis Brasil, em Porto Alegre, 2003. Assis Brasil costuma ler seus textos em voz alta e recomendava que fizéssemos o mesmo. Segundo ele, coisas que nos passavam desapercebidas em uma leitura silenciosa, como ecos e cacofonias, seriam rapidamente desmascaradas se adotássemos esse método.

No segredo de nossos quartos e escritórios, nós todos aceitamos aquela regra de ouro, com a esperança de que isso nos tornaria melhores escritores. Naquela época, nós aceitaríamos qualquer macete, desde que ele estivesse revestido com a ideia “escritores de verdade fazem desse jeito”. Afinal de contas, se Assis havia destruído nossas ilusões, afirmando que nossos textos dependiam menos de inspiração e mais de trabalho pesado, alguma coisa ele precisava nos dar em troca. Leitura em voz alta foi uma delas.

Com os anos de erros e acertos desta vida literária, percebi que entoar aquelas narrações não evitava somente cacofonias, ecos, repetições involuntárias e outras anomalias do texto; a leitura em voz alta era uma espécie de “corretor” do tempo da narrativa, um radar que apitava caso a cena estivesse passando rápido ou devagar demais. E, acredite, esse radar apita bastante.

Talvez eu precise deixar isso mais claro. Imagine que você se debruçou toda a tarde em cima de meia página de texto. Essa meia página corresponde ao momento que a personagem A encontra B. Há duas falas, uma pequena descrição do ambiente, alguns pensamentos do narrador. Você passou QUATRO HORAS escrevendo e afinando tal trecho. Não me admira que tenha perdido a noção do quanto aquilo dura realmente. Como dizia o Assis (acho que era mais ou menos assim), há três tempos misturados no ato de escrever, e claro que isso causa uma bela confusão: o tempo que passa na narrativa, o tempo que você demorou para escrevê-la e, por último, o tempo que alguém levará para ler aquele texto depois.

Meus equívocos de ritmo, detectados pela leitura em voz alta — e quando falo ritmo não me refiro àquele das frases, mas da maneira como o tempo vai passando na narrativa — costumam seguir a lógica da falta; frequentemente percebo que preciso me estender naquela cena, preciso retardar aquela fala, preciso de algo que ocupe o espaço entre o acontecimento X e o Y. Então vou lá e tento consertar. Outros escritores, acho eu, pecam pelo excesso: escrevem três páginas, depois descobrem que está chato demais, e tudo se condensa em um único parágrafo.

Seja você do primeiro ou do segundo tipo, a leitura em voz alta é sua melhor amiga. Certificando-se de que ninguém está ouvindo, você pega aquelas páginas recém saídas da impressora e começa a ler. Você sabe que jamais conseguirá simular a sensação de quem mergulha naquele texto pela primeira vez, mas está resignado. Toma um gole d’água, continua, rabisca, sorri.

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008, e no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Ela contribui para o blog com uma coluna quinzenal.

Que fazer?

Por Luiz Schwarcz

Muitos autores que me conhecem caçoam da minha excessiva preocupação. Bem, excessiva preocupação é modo de dizer! O nome certo é paranoia mesmo. Um grande amigo, jornalista e autor já disse que fazemos uma dupla quase perfeita: ele sempre com mania de grandeza e eu o paranoico non-stop. Numa passagem da minha fala no SESC, por ocasião da comemoração dos 25 anos da Companhia das Letras em outubro de 2011, agradeci minha mãe, a mais judia de todas, pelos excessos de atenção e carinho que engendraram o ser absolutamente paranoico que acabei me tornando.

Mas vocês podem se perguntar no que a paranoia contribui para o ofício editorial. E a minha resposta imediata é: eles têm tudo a ver.

Acordo muitas vezes à noite com medo de perder autores, e desenvolvo fantasias terríveis de rejeição.

Com o Jô foi um pouco assim. Tentei, durante os últimos anos, incentivá-lo a voltar à literatura. Mas ele estava muito mais ocupado com o talk show e com atividades de tradutor e diretor de teatro. Toda vez que eu ligava, e o Jô alongava nossos planos, eu tinha certeza que ele iria me abandonar. Se um editor aparecia em seu programa acompanhando um autor entrevistado, eu me culpava por alguma possível desatenção. Até que ele começou a falar do livro em andamento, da ideia, e de sua confecção. Eu insistia para que conversássemos sobre o contrato, mas ele dizia que só faria isso ao terminar. Imaginem os temores que tal atitude causou em mim!

Porém, é na confecção dos livros que a paranoia é minha melhor companheira. Lembrar de um detalhe qualquer da edição, um detalhe aparentemente sem importância, é o mais comum dos meus atos. Enquanto lia a nova biografia de Getúlio, de Lira Neto, ou um livro sobre as origens do cristianismo, parei um sem-número de vezes ao lembrar, por exemplo, que ainda não sabíamos quantas entrevistas o autor da biografia do câncer — O imperador de todos males, que lançaremos no mês que vem como um dos nossos livros fortes do semestre — concederia à imprensa brasileira.

Hoje, por exemplo, amanheci com a preocupação de que a carta para convidar Patricia Cornwell para vir ao Brasil ainda não havia sido mandada. Uma visita sua seria muito importante para conquistar novos leitores para seus livros no país.

Esses detalhes aparentemente insignificantes não saem da minha mente. E as fantasias de que serei abandonado, de que fiz algo errado como editor, de que não atendi a todos os anseios dos autores, são tão frequentes quanto uma coçadinha nas costas quando a pele está queimada de sol, uma piscada de olho quando há muita claridade, um franzir da testa em resposta a alguma preocupação.

Que fazer? Nem Lênin saberia a resposta. Talvez,  quem sabe, Freud. Ou um bom analista, que, sentado em sua confortável bergère, sem que eu o visse, do outro lado do divã, disfarçando a vontade de gargalhar diria secamente:

— Nada!

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

Não, não e não

Por Vanessa Barbara

Um dos maiores críticos literários do século, Edmund Wilson nunca primou pela delicadeza. Não hesitava em criticar duramente seus próprios amigos, entre eles Vladimir Nabokov, autor de uma controversa tradução de Eugene Oneguin, de Pushkin. Wilson acusou Nabokov por “erros graves de inglês”, “um estilo desnecessariamente canhestro”, “uma linguagem pobre e deselegante”, expressões vulgares, imodéstia, transliteração imprecisa, falta de bom senso, um apêndice tedioso e interminável, um entendimento pobre de prosódia russa e falhas sérias de interpretação.

No campo do mau humor, porém, sua obra mais conhecida é um bilhete intitulado “Edmund Wilson lamenta”, enviado como resposta a pedidos de participação em palestras, festivais, entrevistas.

Diz o bilhete:

“Edmund Wilson lamenta, mas para ele é impossível:

- Ler originais,
- Escrever artigos ou livros sob encomenda,
- Escrever prefácios ou introduções,
- Dar declarações para fins publicitários,
- Desempenhar qualquer tipo de trabalho editorial,
- Ser juiz de concursos literários,
- Dar entrevistas,
- Ministrar cursos,
- Organizar conferências,
- Dar palestras ou fazer discursos,
- Aparecer na TV,
- Participar de congressos literários,
- Responder questionários,
- Tomar parte em simpósios ou “mesas” de qualquer espécie,
- Doar manuscritos para leilão,
- Doar cópias de seus livros para bibliotecas,
- Autografar livros para estranhos,
- Permitir que seu nome seja usado em cabeçalhos,
- Fornecer informações pessoais a seu respeito,
- Dar opiniões sobre literatura ou outros assuntos.

(Também não aceito convites para fazer leituras públicas, a menos que me ofereçam um bom dinheiro. E.W.)”

À parte a ranhetice e a antipatia, é preciso aplaudir o sr. Wilson. Se fosse contemporâneo, passaria a maior parte do tempo perdido em turnês de divulgação, participando de festivais literários, integrando mesas de debate sobre blogs e literatura, sendo afável em bares, respondendo se dá pra viver de quadrinhos no Brasil, filmando participações em programas de TV e dando entrevistas para estudantes que lhe perguntariam em que ano nasceu. Não teria tempo de escrever, pois gastaria toda a energia em falar sobre o assunto.

Há escritores que gostam de dar aulas e proferir palestras. Outros gostam de viajar para participar de festivais e conhecer colegas de profissão. Alguns acabam até mudando de ofício, ou conciliando a escrita com outras atividades mais sociáveis. Fato é que não dá pra dizer “sim” a tudo o que aparece, sob pena de virarmos pés de tomate e não conseguirmos tempo para escrever.

Já recebi convites para participar do programa do Ronnie Von e de congressos no Amapá. Já me sondaram para apresentar um programa na MTV e virar repórter de um jornal diário. Me pediram para traduzir um livro técnico e participar de bancas examinadoras de graduação. Por mais que a gente queira ajudar, é impossível agradar a todos — de modo que acabo aceitando só o que eu consigo fazer. E o que não me dói em demasia.

Meu bilhete de recusa personalizado atualmente está neste pé:

“Vanessa lamenta, mas para ela é impossível:

- Atender o telefone,
- Participar de congressos,
- Aparecer na tevê,
- Ministrar cursos,
- Tirar fotos fingindo ler ou conversar,
- Comparecer a congraçamentos sociais com mais de sete pessoas,
- Fazer parte de bancas examinadoras,
- Escrever livros sob encomenda,
- Ser afável indiscriminadamente,
- Trabalhar de graça quando o contratante pode pagar,
- Responder questionários com mais de seis itens,
- Responder questionários “pra amanhã”,
- Analisar originais,
- Discursar em jantares (o jantar em si é bem aceito).

(Consulte-nos sobre a disponibilidade de escalar uma atriz contratada para atuar em meu lugar, se necessário. V.B.)”

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Vanessa Barbara tem 29 anos, é jornalista e escritora. Publicou O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

“Adultos não existem”

Por Érico Assis

Ser adulto talvez seja esquecer algumas coisas. Esquecer talvez seja parar de perceber. Parar de aprender. Parar de querer aprender. Parar de querer entender e fixar-se no que é “claramente explicável”.

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Eu gosto dos seus quadrinhos. Gosto do traço, gosto da composição, gosto das ousadias formais. Mas nem sempre entendo, e gosto mesmo sem entender. Explique porque eu não consigo explicar.

Haha. Bem, acho que se todo mundo tiver essa opinião que você tem e ousar gostar de algo que não se completa inteiramente, será sinal de que eu alcancei meu objetivo. Basicamente: acho que tudo conta uma história. Temos essa capacidade de juntar pedaços.

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Minhas histórias tiveram muitas influências, entre elas as versões confusas de fábulas que meu avô contava, que, por terem sido passadas por tradição oral, eram um mistério, que para ele se resolvia provavelmente através do mesmo mecanismo cerebral que o fazia não questionar a Bíblia. Onde estão os três atos na Bíblia? Ou por exemplo, a verdadeira história da Chapeuzinho Vermelho: o Lobo se adianta, mata a avó, se disfarça, faz Chapeuzinho beber o sangue da velha fingindo que é vinho ou algo assim e comer a carne dela também. Não segue uma lógica do tipo atual, onde essa história se encaixaria como “terror” ou algo assim. Não busca se encaixar num estilo que o justifique.  A mitologia é uma grande influência. Então, não, nem sempre tenho intenção de levar o personagem pra algum lugar. É como uma música onde um instrumento não aparece nela inteira, só faz um som rápido ali no meio, e aí, o que isso representou pra música?

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Duvido que caras como C.F., Gary Panter, Gerlach e outros NÃO tenham domínio técnico para “desenho de realidade”. O primitivismo é opção estética, opção por não mostrar o apuro técnico e voltar a um desenho mais primitivo. É uma exploração, como o cara que — não sei se estou citando uma pessoa ou se é um sentimento geral — tem anos de desenho e pintura mas quer regressar aos rabiscos de quando era criança.

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De vez em quando faço uns exercícios de análise das coisas através de uma lógica livre, tentando enxergar o que tem por trás da impressão formatada que tenho das coisas. E nessas surgiu essa ideia. Talvez tenha tido a ver com a visão que eu tinha dos meus pais quando era criança, de que eles, por serem adultos, estavam isentos de certas coisas. Tem a ver com a perda dos rituais de passagem. Talvez a história devesse se chamar “Adultos não existem (mais)”. Mas não seria verdade também, acho que meu avô também era uma criança. Um bobo, cheio de manias e (tô imaginando o  Rafa Coutinho falando isso) coisas ‘lindamente’ não resolvidas.

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Como funciona esse processo shuffle quando o roteiro é de outra pessoa, ou compartilhado? Como foi o caso de Campo em branco, em que você trabalhou com Emilio Fraia?

Bem, daí temos uma outra “vertente”, porque as ideias rebatem. Mas acontece do Emilio me passar uma coisa e eu devolver bem diferente, e a partir disso ele tem outra ideia. Isso porque acho um saco desenhar cenas “inúteis” só pra dar um diálogo ou passar um tempo na história. Acabamos dando um ritmo bem dinâmico, onde tem sempre algo acontecendo, mesmo que não soe muito importante. Daí vem o trabalho depois de ver se o ritmo está legal, se as cenas soam naturais.

Acho que esse é um ponto que vai ficar bem diferente da Cachalote. Temos muito menos silêncio, páginas transitórias, ações detalhadas. Foi uma escolha estética, até um pouco baseada na ideia de fazermos diferente deles. Eles mandaram muito bem, e fizeram 300 páginas. O nosso vai ter metade disso. Espero que crie uma emoção equivalente, a seu modo.

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Você comentou que não gosta nem de saber muito dos personagens, mas tem ideia daonde quer chegar com eles?

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Depois comecei a ler Lispector, aquele livro Perto do coração selvagem, que é bizarro, e ficava me forçando a continuar, mesmo sem entender tudo. Desse fui pro Kafka, depois Joyce. O Godard causou impacto também, inesquecível aquele filme O desprezo. Tinha os livros de infância também que achei na casa do meu avô, no interior, tinha fábulas com bichos, desenhados realisticamente, que falavam e usavam roupas. Depois o Cortázar, John Cage, Nirvana, Of Montreal, tanta coisa.

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Em “Adultos Não Existem”, parece que você quer levar esse “não-causalismo” às últimas consequências. Os quadros fazem sequência aleatória, os diálogos não se completam, as frases ficam pela metade, até as palavras parecem intencionalmente cortadas. É algo que você quer desenvolver enquanto estilo ou você quis reforçar a desconexão neste trabalho específico?

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Eu uso um método que estou chamando de SHUFFLE. Pensei em escrever sobre isso no blog, mas daí fiquei pensando se não seria legal ter a mediação de um jornalista.

Sei que é estranho, mas estou tipo te convidando pra me entrevistar, hahaha, ou dá pra chamar talvez de bate-papo por escrito.

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disse que curtiu mas não entendeu

dá pra ir nesse viés

se quiser dissecar a coisa

daí vamos trocando e-mail

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(Versão shuffle de conversa com DW Ribatski. Itálicos são dele, negritos são meus. Campo em Branco, de DW e Emilio Fraia, sai este ano pela Quadrinhos na Cia.)

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
http://www.ericoassis.com.br/

Doutor Jomatto e o Senhor Isconde

Por Tony Bellotto

O transtorno bipolar foi inicialmente descrito como depressão maníaca no final do século XIX. À mesma época Robert Louis Stevenson lançava o grande romance sobre o tema, Strange case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde, O médico e o monstro aqui no Brasil. Não conheço título que expresse melhor a ciclotimia crônica que se abate sobre escritores na penosa reta final da feitura de um livro. Pelo menos é o que acontece comigo.

Depois de quase dois anos trabalhando um texto, quando começo a perceber que ele está querendo chegar ao ponto final, entro num processo neurótico que intercala — às vezes com segundos de intervalo — a depreciação exasperada e a idolatria desmedida de mim mesmo. Quando leio e releio obsessivamente meus manuscritos inacabados, às vezes me sinto um digno postulante ao prêmio Nobel de Literatura, noutras uma horrenda aberração literária. Claro que há exagero nisso, mas é incrível como consigo, ao ler e reler a mesma página (quando não o mesmo parágrafo) que escrevi, ter, num intervalo de um dia ou dois, avaliações tão antagônicas e pouco objetivas do meu próprio trabalho. Isso acontece com todo mundo?

É interessante que, como leitor, esse tipo de coisa não aconteça. Logo que começo a ler um livro, depois de algumas páginas já sei o que acho daquele escritor, e daquele texto. Se o considero bem escrito ou não. Interessante, instigante ou meio chato. Mesmo que me decepcione um pouco com o final, ou que me surpreenda, o veredicto é assimilado sem maiores transtornos no princípio da leitura. Já quando escrevo, perco a noção. Um dia acho que escrevi páginas geniais, no outro teria vergonha de mostrá-las ao meu cachorro. Hoje, por exemplo, estou com vontade de enviar pelo correio o manuscrito de meu mais novo romance ao Reinaldo Moraes com orientações precisas de como ele deverá queimá-lo. Tá em casa, Reinaldão?

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu livro mais recente, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro de 2010.