Por Carol Bensimon
Tenho ideias que me deixam entusiasmada por algumas horas, às vezes semanas, só de pensar e repensar nelas. Posso imaginar a cena um milhão de vezes. Por exemplo, a que eu estou andando sobre uma linda e brilhante bicicleta dobrável, cumprindo assim a necessidade dos exercícios físicos, olhando a paisagem, escutando um dos grandes álbuns de 2011 segundo a revista Les Inrocks ou o site Pitchfork, depois subindo a ladeira para casa com a bicicleta embaixo do braço, leve, tão compacta quanto um livro de bolso. Nesse primeiro momento, não há coisas como ela-pesa-20-quilos, ela-custa-2-mil-dólares, não-tenho-bicicleta-desde-os-12-anos, provavelmente-nem-gosto-tanto-assim-de-pedalar.
Mas isso não tem nada a ver com literatura. Vamos tentar de novo.
Alguns meses atrás, eu disse a mim mesma: como seria legal dirigir um filme! Não simplesmente escrever um filme, que é algo plenamente possível, eu sou escritora agora, eu crio histórias, eu sei uma coisa ou duas sobre formatações de roteiros, não pode ser tão difícil ter uma oportunidade (na verdade, eu já estou metida em uma coautoria); o que seria incrível de verdade seria dirigir um filme. Paris, Montreal, Bruxelas, eu já me via fazendo um curso em um desses lugares. Aliás, já tinha as memórias dos meses de curso antes de saber se o curso existia, que dirá qualquer detalhe sobre ele. O meu filme. Eu ia rodar o meu filme.
Semanas depois eu pensava, com uma raiva beirando a auto-comiseração: você não pode simplesmente decidir isso com quase 30 anos na cara. Os piás estão colocando curtas-metragens no youtube desde que conseguem apertar no botão on de uma câmera de alta definição. E em que momento você achou que poderia lidar com atores? Que tinha algum tipo de talento para lidar com outras pessoas em situações emocionalmente instáveis?
(Fantasias mais saborosas que a realidade. Hm. Isso parece lembrar vagamente minha motivação profissional.)
O que me deixa assustada nessas situações é o fato de você nunca saber se uma ideia parece muito boa porque acabou de surgir — e portanto será muito má assim que você conseguir pensar melhor sobre ela — ou se vale a pena se entusiasmar com a lâmpada que brotou no topo da sua cabeça. Quanto tempo para o filamento entrar em colapso?
Que tal bibliotecas compartilhadas? Uma meia dúzia de amigos já seria o suficiente. Tão contemporâneo, tão 2.0, ou o que quer que venha depois disso.
Que tal um grupo para estudar roteiros cinematográficos e fazer pequenos exercícios sugeridos nos livros especializados? Uns aprendendo com os outros, criando projetos coletivos, etc.
Não sei você, mas eu já pensei um bocado de vezes em fazer um clube de leitura. Nós escolhemos um livro, nós lemos fazendo anotações, nós conversamos calorosamente sobre ele, depois relaxamos com algumas taças de vinho, enquanto tentamos decidir entre A sangue frio e Palmeiras selvagens para o próximo mês. Parece tão agradável. Nós podemos fazer isso com filmes também, caso… nós podemos fazer. Nós podemos. Nós. Eu. Eu posso ler um livro. Eu posso ler um livro na minha poltrona e pensar bastante sobre ele e tomar uma taça de vinho assim que chegar na última linha.
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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008, e no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Ela contribui para o blog com uma coluna quinzenal.













