Por Carol Bensimon

Há um mês e pouco, estou pensando no assunto título de livro como nunca pensei antes. Vamos dizer que títulos estão me tirando do sério. Tudo isso porque, até você e sua editora baterem o martelo sobre essa(s) palavrinha(s), e até a decisão ser completamente sem volta, dá tempo de pensar demais. E colher opiniões demais. Então de repente certa pessoa que prezo muito está dizendo que a opção A ficaria muito adequada em um álbum da Mariah Carey, o que na hora me soa como algo incontestável (vamos desistir agora). Estamos em um café da Liberdade e é domingo, embora eu particularmente acredite que não exista domingo em SP. Ali, no café, outra pessoa cuja opinião eu tenho que levar em consideração — ela leu o livro, afinal de contas — faz um diagnóstico catastrófico: o efeito de leitura será prejudicado de forma irreversível se escolhermos o título B. Respiro fundo e tento pensar em chá de jasmim e em minha eterna frustração com origamis.
Tenho a impressão de estar levando a questão muito a sério. A verdade é que nenhum livro deixou de ser um grande livro por causa de um título insosso, não é mesmo? Angústia. Liberdade. Lolita. O grande Gatsby. 2666. Assim como nenhum livro deixou de ser um grande livro por culpa de um nome traduzido de forma muito estranha. To kill a mockingbird virou O sol nasce para todos (oi?). E Revolutionary Road perdeu toda a sutileza ao ser rebaixado a Foi apenas um sonho. Se um bom título ajuda, será que um mau título atrapalha tanto assim? O título está no campo dos acessórios, como está a capa do livro, ou essas primeiras palavras cheias de pretensão vão dar sentido a todo o resto? Em outras palavras, o título é a chave? Ou o título não passa de uma bijuteria que só chama atenção quando é feia demais?
Título fantástico de um livro excelente: Se ninguém falar de coisas interessantes. Ótimo título de um romance que eu não gosto muito (mil perdões, venho novamente dizer que alguma coisa não me agrada, sei que alguns de vocês têm horror a isso): Precisamos falar sobre Kevin.
Mas vamos deixar de lado meu drama pessoal. Recentemente foram divulgados os vencedores do Festival de Cannes. Como eu já vinha acompanhando as impressões da mídia especializada, não me surpreendeu em nada que La vie d’Adèle tenha recebido a Palma de Ouro. Todas as resenhas se explodiam em elogios. Para quem não sabe, trata-se de um filme de três horas do cineasta franco-tunisiano Abdellatif Kechiche sobre a relação amorosa entre duas meninas. Uma tem o cabelo azul. O filme é baseado na graphic novel de Julie Maroh, Le bleu est une couleur chaude (O azul é uma cor quente, em uma tradução literal). No mundo anglófono, o título da HQ foi mais ou menos mantido em sua versão cinematográfica, Blue is the warmest colour. Parece-me muito mais instigante que o banal A vida de Adèle. O que não muda, a essa altura, absolutamente nada.
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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008, e no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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