Erico Assis

“Adultos não existem”

Por Érico Assis

Ser adulto talvez seja esquecer algumas coisas. Esquecer talvez seja parar de perceber. Parar de aprender. Parar de querer aprender. Parar de querer entender e fixar-se no que é “claramente explicável”.

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Eu gosto dos seus quadrinhos. Gosto do traço, gosto da composição, gosto das ousadias formais. Mas nem sempre entendo, e gosto mesmo sem entender. Explique porque eu não consigo explicar.

Haha. Bem, acho que se todo mundo tiver essa opinião que você tem e ousar gostar de algo que não se completa inteiramente, será sinal de que eu alcancei meu objetivo. Basicamente: acho que tudo conta uma história. Temos essa capacidade de juntar pedaços.

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Minhas histórias tiveram muitas influências, entre elas as versões confusas de fábulas que meu avô contava, que, por terem sido passadas por tradição oral, eram um mistério, que para ele se resolvia provavelmente através do mesmo mecanismo cerebral que o fazia não questionar a Bíblia. Onde estão os três atos na Bíblia? Ou por exemplo, a verdadeira história da Chapeuzinho Vermelho: o Lobo se adianta, mata a avó, se disfarça, faz Chapeuzinho beber o sangue da velha fingindo que é vinho ou algo assim e comer a carne dela também. Não segue uma lógica do tipo atual, onde essa história se encaixaria como “terror” ou algo assim. Não busca se encaixar num estilo que o justifique.  A mitologia é uma grande influência. Então, não, nem sempre tenho intenção de levar o personagem pra algum lugar. É como uma música onde um instrumento não aparece nela inteira, só faz um som rápido ali no meio, e aí, o que isso representou pra música?

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Duvido que caras como C.F., Gary Panter, Gerlach e outros NÃO tenham domínio técnico para “desenho de realidade”. O primitivismo é opção estética, opção por não mostrar o apuro técnico e voltar a um desenho mais primitivo. É uma exploração, como o cara que — não sei se estou citando uma pessoa ou se é um sentimento geral — tem anos de desenho e pintura mas quer regressar aos rabiscos de quando era criança.

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De vez em quando faço uns exercícios de análise das coisas através de uma lógica livre, tentando enxergar o que tem por trás da impressão formatada que tenho das coisas. E nessas surgiu essa ideia. Talvez tenha tido a ver com a visão que eu tinha dos meus pais quando era criança, de que eles, por serem adultos, estavam isentos de certas coisas. Tem a ver com a perda dos rituais de passagem. Talvez a história devesse se chamar “Adultos não existem (mais)”. Mas não seria verdade também, acho que meu avô também era uma criança. Um bobo, cheio de manias e (tô imaginando o  Rafa Coutinho falando isso) coisas ‘lindamente’ não resolvidas.

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Como funciona esse processo shuffle quando o roteiro é de outra pessoa, ou compartilhado? Como foi o caso de Campo em branco, em que você trabalhou com Emilio Fraia?

Bem, daí temos uma outra “vertente”, porque as ideias rebatem. Mas acontece do Emilio me passar uma coisa e eu devolver bem diferente, e a partir disso ele tem outra ideia. Isso porque acho um saco desenhar cenas “inúteis” só pra dar um diálogo ou passar um tempo na história. Acabamos dando um ritmo bem dinâmico, onde tem sempre algo acontecendo, mesmo que não soe muito importante. Daí vem o trabalho depois de ver se o ritmo está legal, se as cenas soam naturais.

Acho que esse é um ponto que vai ficar bem diferente da Cachalote. Temos muito menos silêncio, páginas transitórias, ações detalhadas. Foi uma escolha estética, até um pouco baseada na ideia de fazermos diferente deles. Eles mandaram muito bem, e fizeram 300 páginas. O nosso vai ter metade disso. Espero que crie uma emoção equivalente, a seu modo.

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Você comentou que não gosta nem de saber muito dos personagens, mas tem ideia daonde quer chegar com eles?

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Depois comecei a ler Lispector, aquele livro Perto do coração selvagem, que é bizarro, e ficava me forçando a continuar, mesmo sem entender tudo. Desse fui pro Kafka, depois Joyce. O Godard causou impacto também, inesquecível aquele filme O desprezo. Tinha os livros de infância também que achei na casa do meu avô, no interior, tinha fábulas com bichos, desenhados realisticamente, que falavam e usavam roupas. Depois o Cortázar, John Cage, Nirvana, Of Montreal, tanta coisa.

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Em “Adultos Não Existem”, parece que você quer levar esse “não-causalismo” às últimas consequências. Os quadros fazem sequência aleatória, os diálogos não se completam, as frases ficam pela metade, até as palavras parecem intencionalmente cortadas. É algo que você quer desenvolver enquanto estilo ou você quis reforçar a desconexão neste trabalho específico?

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Eu uso um método que estou chamando de SHUFFLE. Pensei em escrever sobre isso no blog, mas daí fiquei pensando se não seria legal ter a mediação de um jornalista.

Sei que é estranho, mas estou tipo te convidando pra me entrevistar, hahaha, ou dá pra chamar talvez de bate-papo por escrito.

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disse que curtiu mas não entendeu

dá pra ir nesse viés

se quiser dissecar a coisa

daí vamos trocando e-mail

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(Versão shuffle de conversa com DW Ribatski. Itálicos são dele, negritos são meus. Campo em Branco, de DW e Emilio Fraia, sai este ano pela Quadrinhos na Cia.)

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
http://www.ericoassis.com.br/

Luiz Gê

Por Érico Assis

Não conheci Luiz Gê. Digo, não conheci “na época”. Sempre ouvi falar que era da mesma geração e do mesmo nível de Angeli e Laerte, tanto que sempre tinha que ser mencionado com os dois. Mas estranhava que, diferente da facilidade em ler Chiclete com Banana ou Piratas do Tietê, não se encontrava dele álbum na livraria, nem revista na banca, nem tira de jornal. O meio da minha adolescência, quando comecei a levar os quadrinhos mais a sério, foi pós-Collor. O quadrinho pop-underground brasileiro, que vendia às dezenas (às vezes centenas) de milhares, tinha sido varrido da banca e das livrarias pela crise.

Ficaram só as menções recorrentes e a sensação de que eu tinha chegado atrasado na festa. O homem do sobrenome-letra já tinha ido embora.

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Edição número 2 da revista Circo, 1987. É Gê, de camiseta sem mangas e pose de machão, no índice da revista, início da fotonovela “Como é que se faz uma revista de história em quadrinhos“. Atrás dele, subindo uma escadaria, estão os colaboradores da revista Laerte, Glauco, Alcy e o editor Toninho Mendes. A fotonovela conclui nas páginas finais da edição, com todos descendo a escada a rolar e se estropiar. “Vamos de novo”, dizem. “O último a chegar é um Garfield”, conclui Gê.

Tivesse o Brasil alguma tradição de crítica e história dos quadrinhos, a Circo seria citada constantemente como marco. Bom, tivesse o Brasil tantas outras coisas, a Circo não teria durado só oito números. Só nesta mesma edição da fotonovela, havia histórias de Moebius e Crumb, lado a lado com a “Balada do Lobisomem” de Laerte (com narrativa e traço que não deixam nada a desejar em 2012, assim como irreverência que falta a 2012) e “Uma história de amor”, de Luiz Gê.

“Uma história de amor” é talvez o ápice da sua técnica de desenho. Treze páginas de batalha medieval com armas e armaduras pesquisadas, narrativa impecável — a sequência de planos-detalhe sem balão é quase sua marca registrada —, coisa que quadrinista brasileiro hoje só faz quando trabalha para o exterior. A reviravolta final lembra as de Moebius, e tem o humor irreverente que unia todos os colaboradores nacionais da Circo.

Na edição anterior, havia saído “Futboil (Fenomenozinho Urbano Tipicamente Brasileiro Observado In Loco)”. Na seguinte, “Presidente Reis”, que provocou polêmica no Estado de S. Paulo ao ser cancelada. Antes da revista acabar, ainda teve “Perdidos nos Espaço”, a revelação de que tatus-bola são naves alienígenas tentando invadir nosso planeta. Cada uma, um estilo de desenho — geometria meio Ziraldo em “Presidente Reis”, fotorrealismo em “Perdidos no Espaço” — experimentos de narrativa, misturas de sci-fi com política, crítica social e, sempre, ironia fina.

Hoje em dia, todo quadrinista que se preze diz que é difícil competir com a Laerte. Na época da Circo, eram os leitores na seção de carta que diziam não saber se gostavam mais de Laerte ou de Luiz Gê.

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No mês que vem, a Quadrinhos na Cia. lança Avenida Paulista, um dos trabalhos mais comentados e menos lidos de Luiz Gê. Publicado em edição especial da Revista Goodyear, no início dos anos 90, é a HQ que mais absorve sua formação universitária em arquitetura. É a biografia da avenida mais famosa de São Paulo, contada ao mesmo tempo com rigor histórico e delírios fellinianos. Serve como registro da criação e do desenvolvimento da Paulista, mas ao mesmo tempo trabalha a sensação poética do que foi passar por todas as renovações da Avenida do século XIX até as projeções para o futuro.

Numa das minhas sequências prediletas, um jato se arremessa para pouso complicado entre os dirigíveis e plataformas aéreas que formam o “céu” da Paulista. A pista de pouso é como a de um porta-aviões sobre um arranha-céu. O piloto desce auxiliado por uma comitiva de funcionários, tira o macacão e revela o uniforme de executivo, com o qual já entra no arranha-céu a comandar uma mistura de banco e indústria onde todo mundo usa jargões de business. O texto jornalístico que acompanha a HQ explica, nesta parte, a fase da globalização neoliberal, a relação do Brasil com o FMI e a crise de 2008.

Parece confuso, e certamente é complicada de fazer. Mas é o tipo de alegoria brilhante que só funciona na página de quadrinhos.

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Gê parou com a Circo e ficou meio sumido das HQs a partir do mestrado que fez na Inglaterra, no final da década de 1980. A partir daí começou carreira de professor e continuou produzindo, com menos destaque. Duas entrevistas relativamente recentes, com Télio Navega e Ronaldo Bressane, dão conta dessa história. E prometem mais republicações e mais inéditos de Gê no futuro próximo.

Laerte, seu reinado está a perigo.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Listas

Por Érico Assis

“A memória luta contra o tempo. É um cabo de guerra constante. Um dia, em outra terra, vais notar que os sons, os cheiros, as vozes que por toda vida te acompanharam não estão mais contigo. Só a memória pode recuperá-los. Então, vais tentar te concentrar, fazer força para lembrar de algo… da cor das paredes, de um sabor, de um nome de um alguém… e vais te dar conta que é tudo fugaz, que o tempo venceu a memória, que os perdeste. Aí, peço que lembre de teus amigos. Pois são eles que serão ao mesmo tempo inesquecíveis e guardiões daquilo que procuras, procuras, procuras e não consegues recuperar.”

Carlos Trillo faleceu em maio. Foi a motivação que eu precisava para sacar da estante El Loco Chávez, coleção da novelinha com o jornalista portenho que ele fazia com o desenhista Horacio Altuna para o Clarín, entre as décadas de 70 e 80. O trecho acima é a fala de Homero, o amigo idoso, quando Loco está partindo para nova vida na Espanha, bem no final da coleção. Segue uma página de silêncio, só com abraços e olhares lacrimosos, inclusive de quem lê.

(Horacio Altuna estava na FIQ. Queria falar com ele sobre esta página, mas duvidei que fosse conseguir, em portunhol, fazê-lo lembrar depois de tantos anos. Minha grande dúvida é se o texto era de Trillo ou uma citação. Contei isso a um colega, o especialista em quadrinho argentino Paulo Ramos, que levou a dúvida ao Altuna. Resposta: foi o próprio desenhista que escreveu. Trillo estava atrasado nos roteiros, e era Altuna quem estava de muda para a Espanha. Nunca vou saber a versão do próprio Trillo.)

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Foi impossível não reler “Lint”, só para confirmar que é o melhor trabalho da vida do Chris Ware. E isto pouco se fala, talvez, porque não há referencial para falar do que ele conseguiu. Também reli Blue Pills quando me convidaram para resenhar alguma HQ inexplicavelmente pouco conhecida. Depois li Castelo de Areia, e deu vontade de pegar a Pills de novo só para viver um pouco mais no traço do Frederik Peeters. Mas chegou a coleção nova de WE3, e sentei com ela para me maltratar pela oitava ou nona vez. Não tenho bichos de estimação, e acho que é melhor eu não ter.

Fechando as releituras, Três Sombras, agora sendo pai. Não foi mais assustador do que quando li na primeira vez, intercalando com A Estrada, do Cormac McCarthy. (Cyril Pedrosa, também no FIQ, disse que outras pessoas já lhe comentaram o livro do McCarthy, mas ele ainda tem que ler.)

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Tiago Elcerdo me mostrou a capa de Cinquemila Chilometri al Secondo, do Manuele Fior, e passei alguns minutos só olhando para ela. Levou meses para eu conseguir ler e, felizmente, conteúdo combinava com embalagem. Também foram meses admirando prévias e resenhas de Polina até poder botar as mãos e, mesmo eu não sendo quadrinista, sentir inveja mortal porque o Bastien Vivès não tem nem 30 anos.

A Kate Beaton e a Emily Carroll também ainda não chegaram aos 30, e a Carroll fez o primeiro quadrinho dela há dois anos. Falar o que do Brecht Evens, que recém chegou aos 25 este ano e já tem The Wrong Place e Night Animals, duas que passaram dias brincando na minha cabeça (e The Making Of, que só vou ler no ano que vem)? Acho que perdi o bonde. Se bem que o Rafael Coutinho tem a mesma idade que eu, e olha só o que é O Beijo Adolescente. Ou Drink.

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E aquela edição de Batman Inc. em que cada página — depois cada quadro, depois cada fala — é um high concept por si só, que renderia sequências de edições, sagas inteiras, cada uma? Grant Morrison diz que estava fazendo os quadrinhos que esperava ver em 2011. Eu não esperava que as edições do Warren Ellis em Secret Avengers fossem tão meticulosamente perfeitinhas, e que eu ainda conseguisse ficar empolgado com gibi de super-herói se não fosse por cliffhanger.

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Teve Habibi, do qual deixo para falar no ano que vem. Paying for It, que eu peguei com a expectativa mais baixa possível. The Influencing Machine, que tem conclusões discutíveis, mas prova que quadrinho pode tratar de temas chatos. Quai d’Orsay. Depois de anos na pilha para ler, encarei Cages e GoGo Monster. El Arte, do Juanjo Saez. Aquela edição de Love & Rockets. Todos aqueles indies fantásticos que eu só encontrei porque fui no FIQ.

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Listas de fim de ano são o clichê que eu adoro odiar, mas que também adoro fazer. Como sempre, li menos do que gostaria, talvez até menos do que devia, mas tive uma justificativa forte e uma carga de trabalho que, bom, aí não tenho justificativa. Em 2012, como todo no-ano-que-vem, eu vou ler mais e trabalhar menos. Arrã. Também não me livrei das promessas de fim de ano.

E você, quais foram seus melhores de 2011?

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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~798 quadrinhos para ler antes de morrer

Por Érico Assis

1001 comics you must read before you die — ou “1001 quadrinhos para ler antes de morrer” — pesa pouco menos que um recém-nascido e, assim como o bebê, cumpre a função de encantar as visitas. Não vai precisar de quarto nem berço, só de um espaço na mesinha de centro ou na estante da sala, desde que de madeira sólida.

Assim como toda a linha 1001, ou assim como toda lista pop associada a obrigações e morte, esta é feita para ser folheada e admirada com inveja por quem  já teve o ócio de fazer seus 10-mais. Quanto a sua utilidade enquanto guia, bom, aí é com você. Talvez o propósito seja só gerar discussão sobre o que entrou, o que não entrou, o que não devia ter entrado etc, e isso já seria válido. Até Paul Gravett, o editor inglês que montou o livro com 67 colaboradores, admite que não leu todos os 1001.

O que eu queria mesmo saber quando o livro foi anunciado era quais os critérios que Gravett e companhia teriam adotado para singularizar os quadrinhos. Os 1001 discos são perfeitamente divisáveis, os 1001 filmes começam no primeiro fotograma e terminam no último, assim como cada um dos 1001 livros tem primeira e última página. Quadrinhos complicam.

Porque se você for individualizar uma HQ enquanto revista ou álbum, muitas histórias não ficam completas sem a revista ou álbum seguinte (ou anterior). Se você restringir às graphic novels ou coleções, obrigatoriamente com início, meio e fim, vai cortar milhares de bons quadrinhos que nunca viraram coleção nem nasceram graphic novel. Lobo Solitário forma uma história completa em 6000+ páginas; se existisse em livro único, você não ia conseguir abri-lo, e os 28 tankobons do mangá comeriam quase 3% da lista. Uma tira de jornal, por mais brilhante que possa ser individualizada em seus três ou quatro quadros, não existe fora da experiência da publicação diária ou da leitura em sequência. Vai recomendar só uma tira do Laerte?

A solução dos listeiros do 1001 Comics: fazer de conta que isso não é problema. De forma que há verbetes que dizem apenas “Turma da Mônica”, “Superman”, “Batman”, “Diabolik”, “Peanuts” etc. O que me sugere que, antes de morrer, devo atravessar os respectivamente 41, 73, 72, 49 e 50 anos de publicação destes personagens. Sem considerar, ainda, que eu não sou imortal e eles não vão dar bola se eu morrer antes de sair a última história do Batman. Ah, e “Sobrinhos do Capitão”, 114 anos e contando, também está lá.

Por outro lado, evidenciando o descaso quanto a critérios, Tintim tem 5 álbuns selecionados (Tintim no Tibete, A lótus azul, As 7 bolas de cristal, O segredo do licorne e As joias da Castafiore), assim como Tio Patinhas e Pato Donald, só aparecem em histórias devidamente nomeadas. Mafalda é Toda Mafalda. Mais à frente, Batman e Superman ganham histórias selecionadas além do verbete genérico. E a Mad ganha tanto o verbete Mad (ou “leia todas as edições da Mad desde 1952″) quanto a coleção de Don Martin na Mad. Em páginas irmãs, um colaborador seleciona toda a Contos da Cripta, enquanto outro faz o favor de dizer qual é a melhor história de Young Romance (“The Girl Who Tempted Me”).

Ok, eu sou um chato completista com TOC. Mas sou um chato completista com TOC que comprou o livro, então quero respeito e objetivos realistas antes da morte chegar. Pelas minhas contas obsessivo-compulsivas — ou seja, “Superman” não entra —, tenho 798 quadrinhos pela frente. Com 53 anos sobrando, acredito que minha pressa se justifique. Critérios já!

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Para conhecer a lista dos 1001 quadrinhos, clique aqui.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Independentes

Por Érico Assis


(Foto Glenio Campregher)

Os traços de Lu Cafaggi, em Mix Tape, parecem pingos de vinho rabiscados sobre o papel creme. Seus personagens acordam com passarinhos, conversam com a Patti Smith, adoram música assobiada e os cheiros que vêm da cozinha. E soltam pum.

Irmão da Lu, Vitor Cafaggi conta em Duo.tone o momento da infância em que você precisa trocar as antigas aventuras pelas novas. Já Rafael Coutinho troca a infância pelo Beijo Adolescente, aquela época onde só entende o mundo quem tem a sua idade. A juventude contagia até a narrativa, que tem mais a ver com um tumblr ou editorial de moda — talvez o quadrinho mais apropriado para o ritmo de 2011.

Para conter este ritmo, O Beijo Adolescente tem 40×24cm, como aqueles altos cardápios de lanchonete. Promessas de Amor a Desconhecidos Enquanto Espero o Fim do Mundo vol. 2, de Pedro Franz, tem tamanho mais contido, mas as páginas vêm soltas num envelope. O leitor fica à vontade para montar a ordem de leitura que lhe aprouver.

Murilo Martins resume em Love Hurts o boy-meets-girl-boy-loses-girl em gráficos indispensáveis à parede do quarto dos corações partidos. Ele adora(va) R.E.M., idolatra Chris Ware e revela nos cantos de página a ditadura da namorada-editora-hauptmann Alessandra. Outras referências — Herculóides, Peanuts e Deus — encontram-se nas memórias do protagonista de “Viagem ao Centro dos 2.000 Eus”, na Primeira Edição de Odyr, que se prepara para enfrentar o maior vilão da história: Julio Verne.

Ryot revela os paradoxos da vida, da carreira, dos videogames, de Monet e de Jaspion nas Ryotiras. Os Birds de Gustavo Duarte enfrentam a própria Morte, obcecada por decapitação. O herói de Neeb, de Eduardo Medeiros, enfrenta robôs gigantes num planeta-prisão. Em EP, de Dalts e Magentaking, um duelo de guitarras mexe com roqueiros, públicos, estruturas e forças arcanas. De repente, os acordes mandam tudo pelos ares. Até os próprios quadros, que se espalham pela página.

Cynthia B., tanto na Golden Shower n. 2 quando em Bananas, fala para mulheres que já estão muito além das desilusões românticas e da liberação sexual. “A maior noite de sexo-furada na minha vida foi infinitamente melhor do que a melhor noite no Facebook”, conta, depois de revelar o tesão pelo irmão da amiga e citar Leila Diniz.

E Pedro Cobiaco, discípulo tanto do pai quanto de Rafael Grampá, desenha nervoso os serial killers que sofrem lavagem cerebral do governo num futuro onde todos têm que andar dentro de Bolhas. A história envolve tensão suada no bar, nas ruas, na mansão do ricaço de dedo médio erguido para a cidade. Pedro tem 15 anos.

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Desde que Robert Crumb saiu com o carrinho de bebê para distribuir a Zap Comix, a tradição do quadrinista que sofre, pensa, escreve, desenha, sofre, edita, fecha arquivo, manda pra gráfica e vende de mão em mão nunca foi mais forte e brasileira. Todos os quadrinhos acima — só uma amostra do que se encontrava no 7º FIQ, em Belo Horizonte  — foram feitos desta forma. A mesma mão criativa era a que via o troco e desenhava o autógrafo.

A discussão da utilidade da editora sempre surge quando se vê a quantidade, qualidade e variedade destes independentes. É uma discussão longa. Cinco dos autores acima, por exemplo, já publicaram ou publicarão pela editora deste blog, mas não deixam de publicar independentemente. As editoras, claro, não publicam tudo que um autor quer, nem exatamente da forma que um autor quer. Por outro lado, fazem revisão, preparação, diagramação, negociação com gráfica, divulgação na imprensa, distribuição, controle das vendas, logística de reimpressão e dão adiantamento, entre outras benesses — idealmente deixando para o autor só o criar e o sofrer.

Para complicar mais o debate, Um Outro Pastoreio e Achados e Perdidos são quadrinhos com toda apresentação e apuro gráfico de uma publicação de editora (e maior ousadia: muito bons) cuja edição foi financiada por crowdsourcing. Achados, por exemplo, foi financiado por mais de 500 pessoas que leram o primeiro capítulo na internet e pagaram antecipado para ver o resto.

A única certeza quanto aos independentes é que eles renovam o cenário. As editoras fazem reuniões, conferências, feiras, artigos e pesquisas para moldar o catálogo ao que sua ideia de público quer, enquanto os indies explodem loucos nas suas taras e vontades (até o limite do bolso dos amigos/familiares/cônjuges e do regateio com a gráfica), construindo leitores no charme e na ousadia. Leitores que as editoras posteriormente sem dúvida vão aproveitar.

Se essa simbiose continuar gerando quadrinhos como os da lista acima, tanto melhor não só para autores e editoras — mas também para quem lê.

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Todos os nomes dos livros e revistas acima são links. Se gostou da descrição, clique, conheça mais e compre direto do autor. Não esqueça de pedir o autógrafo, pois nada se compara a autógrafo de quadrinista.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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