Erico Assis

Meu pai chegou em casa com a internet

Por Érico Assis


“This is for everyone”: homenagem a Tim Berners-Lee, criador da world wide web, durante a abertura das Olimpíadas de 2012.

Meu pai chegou em casa com a internet. A internet era um número de telefone da universidade. Talvez uma senha. Antes disso, meu pai tinha um colega da universidade que esperava até a meia-noite para fazer interurbano com a Procergs. A internet existia na madrugada, só para ele, pois a gente não ia fazer visita de madrugada. Meu amigo do outro colégio tinha disquetes com Coisas que tinha copiado de outro amigo, vindo de uma corrente de Verbatins que começava na internet. As Coisas eram um monte de pixels se mexendo que, vistos de longe, pareciam gente transando. Ele não me emprestou os disquetes.

Meu pai chegou em casa com a internet. Ninguém falava em navegar. Não existia navegador. Como se fazia para conseguir navegador sem ter navegador? Não tenho ideia. Fazia pouco que nosso computador tinha passado do C:> barrinha piscando para as cores Atari de Windows 3.1. Digitamos o número de telefone numa janelinha, talvez a senha, e aí… não lembro. Acho que apareceu outra janelinha. Digitei comics.

* * * * *

Não deu nada. É possível que a gente nem tenha conseguido conexão. Aquela marchinha do modem — os robôs jogando ping-pong (wiiiiibrrrr bim-bom bim-bom), a máquina de café (fssshhhhhRRRRRR), a cachoeira da esperança conectiva (pppóóórrrr) —, acho que só fui conhecer mais tarde. Passei anos ouvindo a marchinha.

Netscape: para descobrir como haviam feito uma página, era só olhar o código. Aí você salvava as páginas e estudava o que cada comandinho entre < e > fazia. Desconectado, porque ficar conectado era uma ligação telefônica muito cara. Teve um mês que a conta saiu dez vezes o que eu pago hoje de celular, e meu pai colocou um aviso na porta do escritório pra mim e pros meus irmãos. Tinha sete pontos de exclamação.

Minha mãe não quis usar o e-mail que a universidade cedia, então passou pra mim. Ganhei junto 1 mega de espaço para publicar minha “homepage”. Tinha gifs roubados, links do Arquivo X, a transcrição do discurso que o V faz na TV em V de Vingança, uma foto do Dean Cain como se fosse minha e, um tempinho depois, notícias sobre quadrinhos que eu traduzia de outros sites. Eu e meia dúzia de super-entendidos batíamos papo sobre gibi num fórum da UOL. Ninguém usava o nome real. Fora o Warren Ellis.

* * * * *

Eu saía de casa e tinha amigos, juro. Principalmente depois do IRC. Alguns deles também tinham fuçado código no Netscape, por isso a gente resolveu que teria uma empresa pra fazer sites (durou três anos). Os conhecidos do fórum da UOL me convidaram primeiro para escrever numa revista (durou quatro números), depois num site que estavam matutando (existe até hoje). Eu já tinha começado a faculdade.

Me recusei a fazer blog nessas ferramentinhas prontas. Eu escrevia em código, inclusive anotando data e horário por conta própria. Só cedi às ferramentinhas perto do mestrado. Aí eu disponibilizava meus artigos e minha dissertação. Alguém que leu a dissertação me sugeriu para uma palestra, a palestra virou uma conversa, que virou uma proposta de emprego, que virou uma mudança (faz sete anos). Queria passar pros meus alunos os livros que não existiam em português, então traduzia trechos e também publicava em blog. Acabou virando outra profissão (faz cinco anos).

* * * * *

Toda quarta-feira, início da tarde, tenho uma pilha de gibis novos (às vezes de graça). Leio numa tela que carrego só com uma mão. Três vezes por semana o carteiro traz gibis brasileiros, americanos, ingleses, franceses (e letões!). São cada vez mais baratos, não sei por quê. Se o texto da New Yorker é muito longo, eu jogo para outra telinha, que se encaixa no painel da esteira, na academia. Minha filha tem as telinhas dela e assiste o Muppet Show dos anos 80. Assisto o Colbert enquanto respondo e-mail burocrático e eu e esposa estamos revendo Arrested Development.

Se tenho alguma dúvida de tradução à prova de dicionário e fórum, minutos de google descobrem a solução do tradutor francês, ou do espanhol. Ainda escrevo para aquele site do início da faculdade, além deste. Tem ótimos quadrinhos — há quem diga que são os melhores — que só existem na internet, publicados pelos próprios autores. Cada vez mais tenho traduzido gibis que nem estes, com a vantagem inquantificável que é conversar e combinar com o próprio autor.

No último dia 30, a web fez 20 anos. Aproveitei quase todos eles, quase desde o início. Devo boa parte da minha vida (em termos profissionais, uns 300%) ao Tim Berners-Lee. Por isso, acho que até agora não teve comemoração que chegue. Valeu, Tim. Fiz e faço meu mundo graças a essa coisa que você inventou. E todo o povo dos quadrinhos devia te fazer reverência. E obrigado também ao meu pai.

* * * * *

(Esta semana vou conhecer Belém por conta de tudo isso. Valeu, Tim.)

* * * * *

Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
Site – Twitter

O tempo

Por Érico Assis


xkcd, você de novo. Depois de “Click and Drag”, que já era coisa de gênio, o autor Randall Munroe está numa nova experiência que só é possível em quadrinho na internet. Chama-se “Time”.

Quem viu a tira no dia 25 de março só encontrou o casal de bonequinhos-palito sentado na areia e olhando para o nada. A cada meia hora a imagem sofria pequenas alterações: os personagens se ajeitando na areia; um deles caminha até a beirada direita e coloca o pé na água; descobrimos que é uma praia; ele volta e os dois resolvem construir um castelinho de areia.

Passados 28 dias — agora com atualizações de hora em hora —, o casal já construiu vários castelos. Montaram uma estrutura que parece uma palafita, sobre a qual fazem mais castelinhos. Também trouxeram uma catapulta, para brincar de destruir os castelos. Já tiveram alguns diálogos, principalmente sobre a maré. A água realmente está subindo pela borda direita. Nesta segunda-feira, 600 e tantas horas após a estreia do primeiro quadro, a imagem já foi atualizada mais de 800 vezes.

Pode ser uma reflexão sobre o tempo, sobre a transitoriedade da vida e dos castelos de areia. Quem sabe uma brincadeira com a máxima “time and tide wait for no man”. Em toda xkcd há um alt-text, aquela legenda que aparece quando o mouse fica em cima da imagem. A de “Time” diz “Wait for it” (“aguarde”).

O grande feito de “Time” é ter gerado entre os leitores de xkcd algo que lembra um jogo. Começou com a discussão nos fóruns, onde o pessoal foi entendendo a lógica das atualizações. Depois, programadores tentaram desvendar o código que atualizava a imagem para capturar as imagens seguintes — só para descobrir que Munroe já havia previsto os interesseiros e montou um sistema de atualizações indecifrável.

Leitores devotos criaram sites que gravam cada imagem e deixam os leitores ver a progressão, ou rabiscam o que muda de uma imagem para outra. Sobre o trecho da catapulta, há um jogo de verdade para testar o resultado de jogar pedras sobre os castelos de areia da HQ, com direito a variações na gravidade planetária e composição do material arremessado.

O Explain XKCD, a enciclopédia gerada pelos fãs da webcomic, já registra toda a discussão que “Time” gerou. A tira, porém, ganhou seu próprio wiki, o XKCD Time Wiki, onde construiu-se uma espécie de culto religioso (inclusive com oração). É neste wiki que há páginas dedicadas a teorias sobre o desenvolvimento de “Time” (a maré vai subir e consumir tudo? A HQ será infinita?) e sobre seu significado (desde referência ao 11 de setembro até especulações lúgubres sobre um aborto no casal Munroe).

Da outra vez que falei de xkcd, foi para dizer que, mais do que querer ser literatura, os quadrinhos deviam almejar um grande propósito da boa literatura: gerar discussão entre gente inteligente. Com essa carga de interpretações, reinterpretações, obras inspiradas e até uma enciclopédia, “Time” só reforça a ideia. E, como vivemos nos nossos tempos, isso tudo acontece em menos de um mês.

Além disso, “Time” desafia a própria definição do que é uma história em quadrinhos. Parece um quadrinho, mas também poderia ser uma animação muito demorada. Se formos pela definição do Scott McCloud de “imagens pictóricas e outras justapostas em sequência deliberada”, “Time” fica devendo justamente na “justaposição”. A não ser que consideremos esta interação prolongada com os leitores — que voltam com frequência à página para ver as alterações — a tal da justaposição. Dá vontade de mudar a definição de quadrinhos só para incluir “Time”. xkcd mudou o paradigma.

* * * * *

Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
Site – Twitter

Ficção e Realidade

Por Érico Assis


Dana Morgan e Robert Crumb

No início de 1968, o casal Robert Crumb e Dana Morgan caminhava pelas ruas do Haight-Ashbury, São Francisco, empurrando um carrinho de bebê. Dana ainda estava grávida, e o carrinho servia de transporte para pilhas da Zap Comix #1. Casal e amigos venderam em torno de 1000 exemplares da publicação, a 35 cents, para gente que encontrava na rua e nas head shops (as “lojas de fazer a cabeça”).

Num mercado restrito a super-heróis ou gêneros ainda mais infantis, Crumb queria fazer HQ de humor adulto. Até já havia encontrado editores em Nova York de pretensões parecidas, como Harvey Kurtzman, mas ainda eram editoras, eram limites e, bom, era 1968 e São Francisco chamava. Crumb mudou-se para lá, achou um amigo para fundar uma micro-editorazinha, lançou a Zap Comix e com ela ajudou a criar os quadrinhos underground, ou comix, ou indies.

Apesar de a denotação ser apenas de publicação independente, o termo indie até hoje é utilizado para designar um “gênero” de quadrinhos, por assim dizer: basicamente o que não é de super-herói, ou que foge do esquemão ou que vende pouco em comparação ao esquemão. De uns anos para cá, porém, os velhos indies viraram outra coisa. Especialmente porque, veja só, eles vendem.

O ICv2 é um site voltado para o lado puramente comercial dos quadrinhos nos EUA. É coalhado de gráficos, de rankings e de números percentuais para explicar o sobe e desce de vendas título a título, editora a editora, gênero a gênero, mês a mês. Um dos relatórios mais interessantes do ICv2 é o de “Top Graphic Novels”, publicado a partir dos números brutos de distribuição (em lojas de gibi e livrarias) e conversas com lojistas.

O “Top Graphic Novels” não fica em títulos, mas sim em properties, ou franquias — ou seja, não uma edição de Walking dead, mas a linha editorial Walking dead. Mais curioso que isso são as oito categorias em que o ICv2 divide as graphic novels: Superhero, Genre (gibis de gênero relativamente bem marcado e não super-herói, como terror, fantasia, ficção científica), Comic Strips, Kids & Tweens, Manga — subdividida em Shojo e Shonen — e o curiosíssimo Fiction & Reality Graphic Novel Properties.

“Ficção e Realidade” corresponde ao filão das biografias/autobiografias e a tudo mais que não se encaixou nas outras categorias. No último relatório, Scott Pilgrim é a maior franquia de “ficção e realidade”. É seguida de Building stories, Fun home, Health care reform (HQ que explica as mudanças no sistema nacional de saúde), O chinês americano, Habibi, Get Jiro (HQ escrita pelo chef Anthony Bourdain), Hark! A vagrant, My friend Dahmer e Você é minha mãe?. Este ano, também frequentaram a lista Black hole, Do inferno, Ghost world, Retalhos e a adaptação de O alquimista para HQ.

A categoria podia ser facilmente batizada Gibi Que Vende Em Livraria. No linguajar de mercado editorial, são crossover titles: os títulos que conseguem sair do gueto onde está seu público tradicional e cruzar a fronteira para atingir o tal do grande público. Tanto para os EUA quanto para o Brasil, esse mercado dos gibis-que-parecem-livro tem dez anos e pouco.

Os quadrinhos de “Ficção e Realidade” começam a demonstrar características do segmento: a relação com outras mídias (leia-se adaptação para o cinema ou TV) não é tão determinante quanto em outras categorias (dominadas por Vingadores, Batman e Walking dead); como na literatura convencional, já há autores que vendem pelo nome, como Chris Ware, Alison Bechdel, Craig Thompson; diferente do Brasil, o investimento em adaptações literárias é quase irrelevante. O relevante é que há títulos perenes, que passam anos saindo das prateleiras: O chinês americano, quinto na lista deste ano, foi lançado há cinco anos; Retalhos, há nove; Ghost world saiu pela primeira vez em 1997.

Na época do lançamento de Gênesis, Crumb passou um ano frequentando o topo da lista. Os antigos indies trocaram a venda em carrinho de bebê pelo complexo sistema vidrado em estatísticas do mercado editorial dos EUA. Do nicho para a selva. A lista de “Ficção e Realidade” da ICv2 é o triunfo dos antigos indies: o mercado livreiro aprendeu a vender quadrinho de qualquer tipo. Ou os quadrinhos aprenderam as regras do mercado livreiro.

Claro que ainda há indies de verdade por aí, em convenções, crowdfundings e via PayPal. Mas se antes as opções deles eram seguir indies pelo resto da carreira ou render-se aos gibis de super-herói, agora há um horizonte muito mais amplo. Para o bem ou para o mal, a imprecisão de “Ficção e Realidade” não explica onde fica esse horizonte.

* * * * *

Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
Site – Twitter

Revistinhas baratinhas

Por Érico Assis

Playing The Hero

No fim das contas, é tudo porque o quadrinho é baratinho. Ou tem que ser baratinho.

São revistinhas. Custam menos que a revista do pai e da mãe. O diminutivo, até no próprio nome, diminui tudo que cerca a leitura e a produção do quadrinho: a remuneração do autor, o alcance de mercado, a idade do público-alvo, a perspectiva de lucro, a consideração crítica, a respeitabilidade, a relevância. Tudo é inho.

O que pode resultar em algo bem positivinho.

Gostei de uma postagem do Brian Bendis no Tumblr, dia desses. Bendis foi quadrinista independente por vários anos, virou roteirista da Marvel Comics e hoje, além de escrever gibis de X-Men e tais, é consultor em filmes, desenhos animados e outros licenciamentos dos heróis.

“Tive chance de trabalhar com cinema, com TV, com videogame. Tudo muito divertido, desafiador, estimulante… Só que, no fim das contas, nunca achei nada mais legal do que fazer quadrinhos.

Não é caso da grama ser mais verde nem nada disso… isso é ilusão. Ganha-se muito mais no cinema e na TV. Mas lá você trabalha, trabalha, trabalha, trabalha e ninguém vê o que você criou. Dá pra se ter uma vida bem confortável escrevendo um monte de roteiro que ninguém vai ver. Dá pra ter uma belíssima vida fazendo roteiro para seriado, trabalhando em equipe, mas só 20% do que você escreve vai ao ar.

Por que tanto escritor de sucesso em outras mídias vem pros quadrinhos? Porque nada é melhor que o entusiasmo de juntar palavra e imagem, quase sem interferência e nada de bilhetinhos do estúdio… e onde o orçamento é do tamanho da sua imaginação.”

Isso vale para o mercado de quadrinhos mainstream dos EUA. Um dos lados que Bendis ataca é o basilar, do ganha-pão versus gostar-do-que-faz. Com raríssimas exceções, ninguém enriquece com gibi: a satisfação pessoal em ter um produto fiel ao que você criou — com o mínimo de editores, produtores, marqueteiros e outros enchendo o saco — compensa o inho do salário.

Mas há outro lado, bem mais significativo: na produção de entretenimento de massa — games, cinema, televisão —, não há área com vigilância/editorialização mais frouxa que a dos quadrinhos. Para os editores, o risco é relativamente risquinho: se o gasto de produção é menor (mão de obra barata, estrutura editorial enxuta, impressão e distribuição relativamente baratos), o fracasso é menos preocupante.

Arriscar mais sem dúvida é dar mais com os burros n’água. Mas o modelo de insistir, insistir, insistir até achar algo que cole rende alguns diamantes. Não é à toa que as indústrias de games, cinema, televisão, até literatura comercial, vêm atrás dos quadrinhos: não para copiar o modelo, que é único e instransferível. Mas para colher os diamantes — tanto personagens, quanto histórias quanto autores que podem quebrar o marasmo em outra mídia.

Estou traduzindo um livro que fala bastante da história dessas relações contenciosas entre os autores de quadrinhos e a editora que quer preservar seus heróis para vender como bonequinhos, seriados e filmes. O barato de trabalhar na indústria de quadrinhos dos EUA é o seguinte: como se ganha mal, os autores se veem no direito de brigar contra as restrições que os editores impõem. E há ciclos, que alternam maior controle editorial e maior poder na mão dos autores. Os mais rentáveis são justamente quando o poder está nas mãos dos autores — as ideias mais absurdas, menos baseadas no marketing e no feijão com arroz pregado pelo editorial, são sustentação do mercado.

Quando os quadrinhos não são baratinhos — as “gréfic novels” e tais —, o modelo é outro. Só confirmam a tese do baratinho: se aumenta o preço, aumenta o prestígio, o alcance de mercado, a idade do público-alvo e até a remuneração dos autores. Mas esse mercado das graphic novels também é resultado do quadrinho-inho, tanto da sua história quanto da interpolação atual. É interessante ver como o modelo tenso, conflitivo, de orçamentos e pretensões limitadas de editoras versus imaginações e pretensões ilimitadas dos autores criou pérolas. Ou perolazinhas.

* * * * *

Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
Site – Twitter

Atividades sórdidas e desprezíveis (3)

Por Érico Assis


Quadrinhos sendo queimados após a investigação do Senado que contou com depoimento de Fredric Wertham

[As partes 1 e 2 de “Atividades sórdidas e desprezíveis” foram publicadas no Blog em 2011.]

Já falei algumas vezes por aqui sobre Fredric Wertham. Wertham foi o psiquiatra que escreveu A Sedução do Inocente, livro que fez explodir a perseguição aos quadrinhos nos EUA dos anos 1950. Quando pais, professores, padres e políticos já desconfiavam que os gibis estavam confundindo os miolos das pobres criancinhas e induzindo-as à delinquência, o livro de Wertham trouxe comprovação científica, baseada em sua extensa experiência profissional com o público juvenil.

Com base em relatos que colheu principalmente na sua clínica psiquiátrica para público de baixa renda no Harlem (NY), Wertham falou que os quadrinhos não conduziam somente à delinquência — resultado das cenas violentas que os meninos viam nos gibis policiais —, mas também à pederastia (Batman e Robin), distúrbios de identidade sexual (o bondage em Mulher-Maravilha) e tendências fascistas. Para comprovar, tinha falas de meninos e meninas perturbados e sua autoridade médica. Virou best-seller.

A relação entre quadrinhos e delinquência foi motivo de investigação no Senado dos EUA, as editoras viram-se obrigadas a criar um Código de Ética para proibir conteúdo discutível nas HQs (antes que a censura viesse do governo) e, de repente, ter emprego na indústria de quadrinhos era pior que ser lobista da NRA depois de tiroteio em colégio. Quase mil roteiristas, desenhistas, editores e outros abandonaram a carreira, o mercado veio abaixo e até hoje os pais, professores, padres e políticos erguem a sobrancelha para tudo que crianças leem, assistem, ouvem, jogam e, enfim, curtem.

Para os quadrinhos, Wertham foi o pior dos vilões. Mas, até o mês passado, não se sabia o quanto.

Carol Tilley, professora da University of Illinois, publicou um artigo revelador. Segundo sua pesquisa nos documentos do próprio Wertham (falecido em 1981), o psiquiatra manipulou os dados que colheu na sua clínica e apresentou em A Sedução do Inocente. Comparando as anotações do próprio ao que está no livro, Tilley descobriu que Wertham misturou depoimentos, atribuiu falas de um entrevistado a vários e de vários a um, falou de casos de outros médicos como se fossem seus e deu uma exagerada nos números.

O menino que queria ser Robin e “ter relações com Batman”, citado no livro, eram dois jovens de 16 e 17 anos, namorados, que falavam em Tarzan e Príncipe Submarino, nunca na dupla dinâmica. Outro paciente citado no livro, suposto fã de Batman que mijara na boca de outro menino, aparece nas anotações como fã de Superman que comete o ato por vingança — o mijado havia sido seu estuprador.

Um garoto de quinze anos, já desencaminhado e membro de uma gangue, aparece em páginas e páginas de anotações. Suas falas foram parar na boca de quatro personagens no livro. Wertham diz, em Sedução e em seu depoimento ao Senado, que analisou milhares de meninos e meninas, ao passo de 500 por ano — mas sua clínica só registra 500 pacientes com menos de 17 nos dez anos em que trabalhou lá.

Talvez as descobertas mais marcantes sejam as que fecham com teorias contemporâneas sobre mídia e comportamento juvenil: nos depoimentos do livro em que adolescentes dizem que imitaram algo visto num gibi, Wertham ignora que os entrevistados tinham, em alguns casos, deficiência cognitiva e que vinham de famílias com casos de dependência química ou envolvimento com gângsters, além de outros fatores de risco. Sua amostragem, no Harlem pobre dos anos 40 e 50, é apresentada como válida para todo tipo de adolescente.

Há décadas de pesquisas em comunicação, psicologia e sociologia que desmontam a causalidade entre mídia e comportamento — até antes de Wertham. Os gibis de terror, os games com heróis carniceiros e as músicas moralmente questionáveis só vão causar distúrbios na mente influenciada por um ambiente real em que exista predisposição à violência, à indiferença, à deturpação de valores. Mundos de ficção nunca terão o mesmo impacto que a vivência no mundo concreto, do adolescente com sua família, seus amigos, sua condição socioeconômica. Gibis, filmes, games etc. podem no máximo catalisar um impulso que já existe.

Wertham era um reformista social, legitimamente preocupado com a saúde mental dos jovens. Pegou o monstro que estava mais à vista — 90% dos jovens liam gibis — e, ao descobrir que o monstro não era tão feio, resolveu pintar garras, sangue e sexo sobre ele. Faz pensar em quantos monstros pintados, pesquisados e comprovados não andam por aí.

* * * * *

Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
Site – Twitter