Érico Assis

Pedro Franz

Por Érico Assis

O Pedro Franz mora numa daquelas ruazinhas tranquilas do Trindade, bairro central de Florianópolis. Filei o quarto de hóspedes em alguns dias de setembro. Eram umas nove da manhã do meu segundo dia por lá e o Pedro tinha saído. Aí começou a buzina.

Eu estava trabalhando e não me dignei a levantar e olhar pela janela. A buzina continuou. Não era alarme de carro, pois era prolongada, ininterrupta. Ninguém ficaria tanto tempo buzinando pra alguém. Se fosse um acidente e a cabeça do motorista estivesse pressionando o volante, imaginei que haveria gritos, barulhos de carros, alguém já teria removido a cabeça do coitado. Mas a buzina continuava. Com uns dez minutos de buzina, finalmente me levantei. Pela janela, não havia acidente, nem alarme, nem apito de fábrica, nem sequer um carro passando. Só uma ruazinha tranquila do Trindade. O barulho não era da rua.

Abri a porta do quarto e descobri que a buzina vinha de dentro do apartamento. O Pedro tinha deixado uma chaleira no fogão, ebulindo sei lá há quanto tempo.

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Promessas de amor a desconhecidos enquanto espero o fim do mundo, com seus 54 caracteres, é o título do primeiro trabalho de Pedro Franz. Trata de terroristas Peter-pan, enfrentando as forças de repressão numa Florianópolis meio futuro, meio presente. Foi publicado em doze capítulos na internet e, em paralelo, três volumes impressos. Um dos volumes é um envelope com as folhas soltas, para você ler na ordem que quiser. Está tudo aqui.

Promessas é um registro da evolução quadrinística de Franz. Embora sua ilustração já estivesse bem definida no primeiro capítulo – um pouquinho de Mutarelli, bastante Taiyo Matsumoto, muito Alberto Breccia, que ele estudou e admira –, os últimos trazem um desbunde de cores e de narrativa que demonstram que a HQ era sua oportunidade de experimentar até encontrar uma linguagem que fosse só sua. Os trabalhos que ele apresenta hoje têm mais a ver com o terceiro volume de Promessas.

Dentro do que se pode chamar de “carreira” nos quadrinhos brasileiros, Franz foi reconhecido rapidamente. No Festival Internacional dos Quadrinhos de 2009, ele andava com uns poucos fanzines do início de Promessas. No FIQ seguinte, em 2011, estava com álbuns agendados em duas editoras (a Companhia das Letras é uma delas).

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Assim como os terroristas de Promessas ou chaleiras que passam da ebulição, às vezes o Pedro pode ser incendiário. Uma vez ele recusou-se a participar de um grupo no Facebook chamado “Quadrinhos Autorais” porque, se entendi direito, era contra a definição de um quadrinho que não fosse autoral.

Da sua conta pessoal, no mês passado: “As maiores bobagens ditas e o maior ‘preconceito’ que existe sobre as histórias em quadrinhos são do próprio meio. Não me surpreende em nada ver o que a tal Zoraya Failla disse. Esse tipo de pensamento é reflexo de um campo artístico que, salvo raras exceções, sempre associou as histórias em quadrinhos à infância e a uma leitura ligada ao nostálgico. De que adianta criticá-la, se o FIQ, ‘maior evento de quadrinhos do país’, homenageou o Mauricio de Sousa em sua última edição? De que adianta tirar sarro dela, se HQs infantis para um público massificado são premiadas no HQMIX (‘maior prêmio do país’)? De que adianta achar um absurdo o que ela fala, se quadrinistas se mostram super preocupados com o cara que vai interpretar o Batman no filme? A questão é: qual a responsabilidade de autores, críticos, leitores, mídia e instituições do meio dos quadrinhos na perpetuação desse chamado ‘preconceito’?”

(E também: “Qual a responsabilidade de um crítico/teórico ao apresentar a ignorância da tal Failla sobre história em quadrinhos, se no seu texto seguinte se discute o valor do gibi dos X-Men?” Não sei se era comigo, mas o capuz serviu.)

Por sincronicidades da vida, fui professor de um primo do Pedro, o Tiago Franz. Na época em que Promessas estava saindo, o Tiago me contou por e-mail:

Quando eu tinha 17 anos, fui pra Floripa pela primeira vez e o primo Pedro me encontrou com toda a família e a tia Têre (a mãe dele) no McDonald’s. Ele tava só de passagem na rua, parou, foi até a mesa e disse algo do tipo: “não acredito que vocês estão aqui alimentando o capitalismo”.

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Nos dias que passei no apartamento dele, o Pedro estava envolvido com uma ilustração para a piauí. Cheguei à noite e ele estava na sala do apê que faz às vezes de estúdio. “Falei com a revista e decidimos mudar tudo. Madrugada vai ser longa”, disse antes de entornar vinho chileno da garrafa. (A ilustração, para um texto de Reinaldo Moraes, está aqui.)

Rolava pelo estúdio (“não sou muito cuidadoso com meus originais”) um desenho da Mônica que vai sair no livro Mônica(s), com vários ilustradores convidados a representar a personagem de Maurício de Sousa. Pedro havia sugerido uma ilustração que viria com uma frase da feminista radical Valerie Solanas. O editor não topou. Na versão final, uma mulher vestida com cabeção de Mônica sai de uma loja de conveniência com uma criança que grita “NÃGETIS”.

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Franz vai voltar aos fanzines: lança em breve Cavalos mortos permanecem no acostamento, de dezesseis páginas. Acertei minha estadia com ele traduzindo a HQ (mal, mas ele reconhece) para o inglês – vai sair também na š!, uma revista em quadrinhos da Letônia.

Nesse momento, ele está em Portugal para o Festival de Amadora, dividindo a exposição “Seis esquinas de inquietação” com André Diniz, Marcelo D’Salete, Diego Gerlach, André Kitagawa e Rafael Sica. Torço para que tenha desligado a chaleira antes de viajar.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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A caixa de ferramentas

Por Érico Assis


Batman por Rafael Grampá. Clique para ver a página inteira.

WHAM. Batman joga-se contra o meliantezinho que apontava o 38. BLAM BLAM BLAM. Batman fica de cara com outro meliante armado, que atira mas só atinge a capa. KRAK. Batman acerta um cotovelo que afunda a cara do novo meliante. KLOPH. O mesmo meliante da cara afundada leva um chute na cintura. THUD. Colidem as cabeças de dois outros meliantes que vinham na direção de Batman. O primeiro meliantezinho sai correndo pelas escadas. Batman observa-o de punhos cerrados. THE BATMAN paira onomatopeicamente sobre a cabeça de Batman.

São duas páginas de um gibi recente pelo brasileiro Rafael Grampá. E, sem exagero, todo mês saem uns dez gibis novos de Batman enfrentando meliantes. Na grande maioria, ao final da cena de exercício cotidiano meliantesco, Batman faz uma pose séria, soturna, ameaçadora, eu-sou-foda. Mas em nenhum outro gibi se vê Batman tão foda, mas tão foda, que esta fodolância vira seu próprio nome pairando no ar, sobre sua cabeça, como um halo. THE BATMAN.

A HQ de Grampá é típica dos gibis de super-herói em todos os outros aspectos. São oito páginas em que Batman desbarata um plano do Coringa, sendo as primeiras quatro de armação do plano, duas de pancadaria, uma de captura do meliantezinho fugitivo e a última de reviravolta na trama. É típica também em termos de linguagem: fora a pancadaria, são quadrinhos quadradinhos justapostos em ordem determinada, balões de fala e recordatórios de um narrador onisciente.

As duas páginas de pancadaria são dinâmicas como manda o gênero desde Kirby, e fluidas, dispensando requadros, que nem gostava o Eisner. As onomatopeias que se integram à arte são Howard Chaykin, Walt Simonson. No meio da dinâmica há o exagero de detalhes — olha o drapeado na capa — que começou lá nas virtuoses do Neal Adams e vem até caras contemporâneos tipo Geof Darrow, Frank Quitely, Paul Pope, passando pelas hachuras do Jim Lee e por todo mundo que leu, deglutiu e vomitou Katsuhiro Otomo e Goseki Kojima. Paira sobre todos os nomes, e principalmente sobre Batman, o halo de Frank Miller.

Tem também aquele seriado do Batman dos anos 60, com os cartões BIFF! POW! WHAM!. O que foi marcante para uma geração inteira, que começou a dizer que Batman, o seriado de TV, apesar de ser TV, era linguagem de gibi. No sentido de que não é real, pois não aparece um POW! no ar quando você soca outra pessoa. Não só não é real, mas também não é sério. Fora BIFFs e WHAMs, tinha Batusi, spray repelente de tubarão, a barriguinha saliente do Adam West. Coisas de gibi.

Os gibis de super-herói passaram anos tentando buscar respeitabilidade virando sérios, virando realistas, pra mostrar que linguagem de gibi não significava só BIFF! POW! WHAM!. Podia haver profundidade, ou fingir-se profundidade e sisudez mesmo com um homem vestido de morcego. O que não era realista aos poucos foi sendo cortado, ou usado com parcimônia: onomatopeias, balões de pensamento, linhas de movimento. Watchmen, apesar de ter vários méritos, é o cúmulo deste movimento sisudo: aboliu balões de pensamento, aboliu linhas de movimento (tem apenas uma), os recordatórios não são os “enquanto isso” ou “mais tarde” de um narrador, mas apenas para indicar local ou trazer fragmentos de textos escritos pelos personagens. É como se cada quadro quase só pudesse representar o que captaria uma foto.

Quadrinhos, porém, não precisam ser sequências de fotos. Se forem, tendem a ser chatos. Importa a relação entre os quadros na página, as deformações e estilizações que o desenhista faz das figuras, do cenário. Mais aqueles elementos que fogem a uma foto, como os balões, os recordatórios, as onomatopeias, as linhas de movimento, os diagramas, a ornamentação da página e uma caixa bem grande de ferramentas narrativas.

Aquele THE BATMAN não está lá só por ser legal. Tem uma função narrativa: é como se aquela pose de Batman exigisse um letreiro, um anúncio publicitário de si mesmo para reforçar a potência do que o herói acabou de fazer e amedrontar o meliantezinho fugitivo. Aquele THE BATMAN faz parte da caixa de ferramentas. Não é necessariamente uma inovação, mas é uma ferramenta que raramente sai da caixa. Como sai pouco, aqui serve de lembrete de que se pode fazer um monte de coisas com a linguagem dos quadrinhos — e que às vezes algumas ferramentas ficam guardadas porque se quer ser sério.

Apesar de haver indicações bem claras na capa, numa página de apresentação e na primeira página da HQ de que a história é dele, Grampá não deixa de colocar “R. GRAMPÁ” na direita inferior de cada página de pancadaria. Coisa dos quadrinistas dos anos 90, quando queriam sublinhar eu-sou-foda numa página especial. Dava para discutir ainda mais se aquela assinatura devia ou não estar ali, mas o fato é que ela também se inclui na caixa de ferramentas. Coisas de gibi.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Para onde vão os gibis?

Por Érico Assis

Fique tranquilo: a coluna não é de divagação teórico-futurologista. Não quero prever caminhos das HQs. A pergunta é bem… física. Material. Para onde vão os gibis no sentido dos amontoados de papel, tinta, cola, grampo, cartão e barbante que se empilham no escritório, na sala, no banheiro, em cima da mesa, escondidos no armário, esquecidos na casa dos pais? Onde vai caber sua boladenevesca biblioteca no ano que vem? O que será da minha biblioteca, a que já não cabe?

Não cabe no sentido físico, mas também não cabe no sentido de que tem os quadrinhos que eu nunca mais vou ler nem consultar. Não cabe porque há duplicatas, ou edições em dois idiomas para aquela eventual aula (que nunca acontece), para uma eventual consulta (que acabo fazendo na internet). Não cabe no sentido de que cada um desses pedacinhos custou dinheiro de mim ou de outros, e a maioria só foi e será aberta uma vez. Não cabe porque talvez nos mudemos mais uma vez, e talvez não seja a última mudança. Não cabe porque, com a idade, você vai percebendo estas constâncias da vida (não, você não vai ler; não, você não vai reler; não, você não vai precisar; não, você não vai ficar nessa casa para sempre) e o peso da biblioteca só aumenta.

Além do mais, um dia você some desse mundo e o peso fica para alguém.

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No sábado, resolvi levar os não cabe a sério. O computador ficou rodando os seis episódios finais de Dexter (que ruins, né?) enquanto eu ponderava o destino de cada item de uma das paredes da biblioteca: os lidos. Formei três pilhas (uma pilha = mais que isso vai desabar) de material que me convenci que não vai fazer falta. Se eu olhar para as pilhas de novo, vou repensar tudo, então é melhor não olhar.

E o descarte? Acredito que cada um dos itens seria do proveito de alguém, por isso não vou simplesmente jogar no lixo. Vender? Tem uma e outra coisinha que valeria a pena vender; a grande maioria não valeria o esforço. Sou péssimo vendedor. Doar? Gostaria muitíssimo de uma biblioteca, seja de uma instituição ou particular, que me transmitisse confiança — de que serão bem cuidados e bem aproveitados. Não conheço nenhuma (aceito sugestões).

Ainda tenho que mexer na parede oeste (literatura) e na leste (a maioria não lidos), que devem render mais umas pilhas. Já tinha feito algo parecido no ano passado: vários livros não-lidos-e-se-liga-você-nunca-vai-ler foram para uma caixa. A caixa ficava aberta para os amigos, que podiam adotar quantos livros quisessem. A caixa nunca se esvaziou, devido à reconhecida pobreza da seleção e ao bom senso dos amigos. Estratégia furada.

Nessa mesma arrumação, joguei para um canto — acessível só por escada — os livros que ainda não tinha lido, tinha interesse mas nenhuma urgência em ler, mas que conseguiria fácil em versão digital. (Quando se trata de prosa, sou convertido ao Kindle.) Talvez seja hora desse canto ir embora de vez.

A setecentos quilômetros daqui, na casa dos meus pais, ainda estão os 3 ou 4 mil gibis da infância e da adolescência que também precisam de destino.

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Há uma relação bem forte entre quadrinhos e colecionismo. Sou prova disso há quase trinta anos. A questão do não cabe é relativa ao espaço que você tem e às suas perspectivas. No meu caso, a biblioteca não cabe no meu espaço atual, provavelmente não vai caber no próximo e aquela sonhada casa com um puxadinho para a coleção (bétula, escada num trilho, classificação anotada no computador) está a um milhão de traduções de distância.

Já ouvi tanto as histórias de redenção — o cara que vendeu a coleção no período complicado da vida e depois readquiriu tudo — quanto de terror — incêndios, enchentes, crianças, o cara-que-morreu-soterrado-pelos-gibis-e-só-foi-descoberto-porque-a-pizzaria-estranhou-que-ele-não-pedia-tele-entrega-há-uma-semana. O que importa, a meu ver, é o exercício do desapego. Cada leitura e cada compra, se valeu a pena, vai sobreviver numa lembrancinha que não precisa ser ativada pela visão da lombada, por mais bonita e colorida que seja aquela lombada (tenho que parar de olhar para as pilhas).

Todos esses amontoadinhos de papel podem render memórias para outros. Por isso que volto ao pedido de sugestões: alguém aí quer adotar umas pilhas de gibis?

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Humpfs

Por Érico Assis

Contexto: era uma aula. Eu era aluno. Eu tinha que fazer uma apresentação do projeto que iria desenvolver dali em diante no curso. O projeto — ou “princípio para o projeto de um projeto”, como chamei — tem a ver com quadrinhos. As pessoas para quem eu ia apresentar não tinham grande familiaridade com quadrinhos, mas sim com Literatura.

Então preparei uma introdução para explicar que (1) quadrinhos não são literatura infantojuvenil e (2) tampouco são literatura. Que quadrinhos são uma linguagem ou mídia própria ou autônoma e, por serem linguagem ou mídia própria ou autônoma, não se comportam do mesmo jeito que um suporte só com letrinhas, nem se restringem a uma só faixa etária de leitores.

Seguiram-se slides de Eisner, Spiegelman, Bechdel, do Chris Ware. Expliquei que alguns destes autores, fora não serem direcionados ao público infantojuvenil, haviam ganhado prêmios ligados ao sistema literário. Expliquei “graphic novel”. A partir do Ware, passei às explorações formais contemporâneas: Jon McNaught, OuBaPo, Shintaro Kago, Laerte.

Foram só uns dez minutos de introdução para dizer que, reconhecidos os trocentos mil anos de desenvolvimento da Literatura, quadrinhos também tinham alguma história, algum desenvolvimento, alguma variedade, alguma experimentação e, humpf, não eram só a Mônica.

Enquanto eu apresentava o restante do trabalho, deixei circular pela turma exemplares de Você é minha mãe? e Jimmy Corrigan. Para não ficar só nos slides.

Um dos professores (pós-doutorado na França etc.) folheou o Você é minha mãe?, leu a quarta capa, um pouquinho da orelha, perguntou se Bechdel era homem ou mulher e também “você acha que minha filha de 17 anos vai gostar?”

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O professor Paulo Ramos (pós-doutorado na Unicamp etc.) recentemente publicou dois textos no Blog dos Quadrinhos comentando a mania pelas adaptações literárias em quadrinhos no ensino brasileiro. O grande estimulador é o Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE), que há sete anos tem selecionado HQs para comprar (em grande quantidade) e levar às bibliotecas de escolas públicas. Na conta de Ramos, mais da metade das HQs selecionadas este ano — 61% — são adaptações literárias. Quanto a isso, o texto expõe alguns prós e vários contras.

No segundo texto, o professor comenta a declaração de uma representante do Instituto Pró-Livro, Zoara Failla (mestrado na PUC etc.), que apoia a utilização dos quadrinhos em sala de aula. Porém, diz ela: “eu acho que [a HQ] pode ser um meio, nunca um fim. Porque o quadrinho pode até trabalhar algum conteúdo, mas o faz de forma superficial. Como incentivo à leitura, ele pode ser um mobilizador.”

Para Ramos, humpfamente, “há uma infinidade de obras que poderiam ser utilizadas como exemplos do quão equivocada é essa leitura”. Humpf, sem dúvida. (E poucas dessa infinidade seriam adaptações literárias.) Zoara Failla não é a primeira a quem se atribui um pensamento retrógrado sobre os quadrinhos. E os avaliadores do PNBE aparentemente pensam parecido. O fato é que os exemplos da impropriedade em chamar HQ de “nunca um fim” ou “superficial” estão por aí, são comentados e explicados a torto e a direito. Mas a carga de pré-concepção e de humpfs para as HQs ainda vence.

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Queria ter respondido que “Humpf! Sim, acho que sua filha pode gostar. Mas não só a sua filha. O engraçado é que o senhor não mencionou sua filha quando a gente estava comentando Literatura. Aliás, a autora de Você é minha mãe? é até mais velha que você, professor.”

Mas só respondi que “sim… se ela tivesse uns 13 anos, eu diria que não, mas com 17 acho que sim.”

O que rendeu um “humpf” e reprimenda do outro professor na sala (doutorado na Bélgica etc.), que não gostou da minha aparente desconfiança quanto à capacidade de leitura ou intelectual de adolescentes de 13 anos.

Tive que me justificar: “Não é por capacidade. Só acho que alguém de 13 anos tem mais chance de considerar chata uma história em que a autora analisa a relação com a mãe com base em teoria psicanalítica.” Ou seja, que não só existem quadrinhos para faixas etárias variadas mas que, por conseguinte, alguns deles não são atraentes para o público infantojuvenil.

Em resposta, levei outro “humpf”. A discussão nunca acaba.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Você é minha tradução?

Por Érico Assis


Não era para eu ter sido tradutor de Você é minha mãe?. Existia um tradutor mais apropriado para o serviço, que traduzira a HQ anterior de Alison Bechdel — Fun Home — e que por acaso também é o chefinho da Quadrinhos na Cia.: mr. André Conti. Ele me ligou aí pelo meio do ano passado, comemorando que tinha conseguido os direitos da nova gréfic novel, que tinha adorado e que voltaria a traduzir Bechdel.

Nossa conversa sobre Bechdel era antiga. Lá nos primórdios dos papos sobre o que acabaria virando a Quadrinhos na Cia., sugeri que Fun Home tinha a cara dos “quadrinhos literários” que a Companhia das Letras gostava (Maus, Persépolis, Will Eisner), e que tinha sido a gréfic novel mais importante de 2006 nos EUA. Não estava dizendo nenhuma novidade: a Time já tinha chamado Fun Home de “livro do ano” (não “HQ do ano”, e sim “livro do ano”) e havia toda a babação merecida sobre a autobiografia que trata, nas palavras da autora, de “como meu pai gay enrustido se matou uns meses depois de eu revelar pra ele e pra minha mãe que sou lésbica.”

Uns meses depois, mr. Conti me mandou um e-mail: “infelizmente não vou editar, mas olha a coincidência: vou traduzir”. (Estou parafraseando.) Fun Home saiu no Brasil em 2007, pela editora Conrad, e também foi bem falada por aqui.

Li Are You My Mother? pouco depois do lançamento. Enquanto lia, desejava boa sorte a mr. Conti: ia dar uma dor de cabeça traduzir todas aquelas citações de Winnicott, para não falar nos trechos de Virginia Woolf. Aí mr. Conti me liga e diz: “estou muito ocupado com meus cigarros, meu PS3 e em conduzir a literatura brasileira contemporânea. Traduz você o My Mother.” (Estou parafraseando.) “Cuidado com as orações coordenadas. O prazo é para o ano passado.” (Estou parafraseando.)

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Lembro de uma aula sobre Winnicott no mestrado. Ou melhor: era sobre outro autor, que propunha que a televisão era um objeto transicional, o que demandava explicar a teoria winnicottiana. Me interesso por psicologia, mas entender psicologia exige uma lógica que me parece exclusiva dos psicólogos.

Resolvi que ia precisar de ajuda. Tenho uma prima psiquiatra. Enviei para ela Fun Home e Are You My Mother?. Seria a pessoa a quem eu poderia fazer perguntas não só sobre Winnicott, mas também sobre Freud e Alice Miller, também citados no livro, e mais tarde conferir se minhas traduções deles não fugiam demais da teoria.

Meu plano foi por água abaixo devido a um fim de ano cheio de complicações. Acabei recorrendo direto aos livros traduzidos de Winnicott e dos outros (eles estão citados no final de Você é minha mãe?veja a pilha). Só fui falar com a minha prima depois da tradução já estar entregue, para agradecer mas informar que não precisaria mais da ajuda.

E ela: “Érico, que notícia bem boa. Eu li os quadrinhos. Mas só até uma parte. Que mulher bem INSUPORTÁVEL essa Alison!” (Estou parafraseando.)

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Carol Bensimon já escreveu, neste mesmo blog, sobre o “problema (?) ético (?)” (interrogações dela) de Alison ao retratar a mãe, Helen. Enquanto Fun Home tratava da relação entre Alison e o pai falecido há mais de vinte anos, Você é minha mãe? traz interações entre Alison e mãe — que estava bem vivinha —, as quais Alison armou já pensando em transformar em autobiografia. O que rende várias elocubrações sobre a ética memorialista, como a Bensimon já apontou.

Em perfil na New Yorker, a jornalista Judith Thurman descreveu o dia em que acompanhou Bechdel filha e Bechdel mãe num passeio a Nova York. Thurman e a namorada de Alison observam as duas de longe. A namorada comenta: “Helen é uma mulher muito inteligente e fascinante, mas expressa o que sente de um jeito meio torto. Por exemplo, ela fica se gabando da Alison com outros, mas nunca a elogia em pessoa.”

Mais tarde, a jornalista pergunta à mãe Bechdel o que achou do livro. “‘Acredito que todo escritor tem a obrigação de ser fiel a sua história’, ela me respondeu. Mas emendou: ‘A história de Alison é dela, não minha.’ A resposta que deu à filha foi ainda mais lacônica: três palavras sobre seis anos de trabalho e cinco décadas de experiência em comum. A seu modo, porém, foi, se não a benção de uma mãe, a benção de uma crítica: ‘Bom’, ela disse, ‘tem consistência.’”

“Às vezes eu acho que virei cartunista porque quadrinho não entra na cabeça da minha mãe”, Alison diz na matéria. Helen Bechdel morreu em maio deste ano, um ano após o lançamento de Você é minha mãe?

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Não bastassem os trechos de Winnicott, não bastassem os trechos de Virginia Woolf, não bastasse aquela página intrometida do Dr. Seuss — inimigo mortal dos tradutores —, eu ainda tinha que entregar a tradução a quem deveria ter sido o verdadeiro tradutor. Pior que essa situação, só aquela vez em que traduzi para o português uma HQ do Fábio Moon e do Gabriel Bá, que entendem muito bem de português e das suas próprias HQs (conto essa em outro momento).

Anticlímax: Mr. Conti foi compreensivo (assim como foram as revisoras Viviane T. Mendes e Adriana Cristina Bairrada). Até aquele “she has given me the way out”, a frase final, que rende horas de repensar e refazer, como é próprio das frases finais, ficou como eu sugeri. Obrigado. Não ouvi nenhum comentário, mas vale como um “bom, tem consistência”.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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