Erico Assis

14 fragmentos de Chris Ware

Por Érico Assis

“Building Stories”, foto de Julian Andrews para o The Telegraph

O prêmio anglófono do Desbunde Literário – não só quadrinístico; esse é o mundo pós-graphic novel – do ano foi para Building Stories. Chris Ware, seu diabrete. Doze anos atrás, o Guardian teve a ousadia de lhe dar prêmio de literatura. Em 2012, você é establishment. Livro dos livros do ano na Publisher’s Weekly. Olha ali o New York Review of Books. O New York Times. Olha só o Rick Moody: “ele fez uma coisa que, se possível, é mais literária do que grande parte da  literatura contemporânea” (grifo dele). E o Guardian, óbvio.

Building Stories é uma caixa com catorze coisas de ler: um livrão, um livrinho, quatro revistas, uma espécie de pôster (com história), um jornal, duas coisas do tamanho de jornais grandes, um caderninho comprido que nem tira de jornal, duas tiras de HQ dobráveis (sanfonas) e um tabuleiro. A personagem principal, sem nome, é uma mulher com tendências depressivas e metade da perna esquerda amputada, que acompanhamos da juventude à maturidade (ou vice-versa; ou não-linearmente). Leia os fragmentos na ordem que quiser, numa dessas tardes de fim de ano.

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Encontrei a Carol Bensimon em Porto Alegre. Ela comprou o Building Stories em Paris. Não conversamos sobre como carregou. Não é pesado, mas é como uma caixa de jogo de tabuleiro (42,6 x 29,8 cm) e não dá para afofar na mala.

“Ainda não acabei”, disse a Carol. “Ou já acabei, não sei.”

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O que você gostaria de dizer às mentes jovens e sugestionáveis que leem a Rookie?

CHRIS WARE: Bom, que a vida é mais séria e mais curta do que parece que vai ser. E que é muito fácil desperdiçá-la. E que a felicidade é superestimada. Seja gentil.”

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Em certo sentido, Building Stories é uma trapaça. Boa parte das histórias, se não todas, já haviam saído em revistas e antologias. O fragmento grandão é daquele tamanho porque saiu numa edição da Kramer’s Ergot cujo diferencial eram as dimensões avantajadíssimas. As páginas que saíram na New York Times Magazine continuam conformadas à diagramação da revista.

Ware gosta de experimentar formatos e teve que refazer ou desconsiderar parte do que virou Jimmy Corrigan, lá em 2000, porque havia publicado diferentes capítulos da história em tamanhos variados na sua Acme Novelty Library. Quando fez uma coleção do melhor da Acme, o Acme Novelty Library Final Report to Shareholders and Saturday Afternoon Rainy Day Fun Book, montou um livro gigante e preencheu os espaços que sobraram (por causa da variação de tamanhos) com uma nova história que serpenteava pelas páginas, engenhosamente sem interferir no material pregresso.

Ou seja, jogar um monte de republicações numa caixa parece menos jogo literário pós-moderno e mais saída fácil.

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Há mais três fragmentos avulsos da história na própria caixa que contém os catorze fragmentos.

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“Como é que traduziriam esse troço?”, me perguntou o Caetano Galindo, sem considerar a crise existencial que provoca ao dizer que nem ele sabe. Mas, enfim: como? Um exemplar para quem traduzir e mantiver pelo menos o jogo histórias do edifício / andares do edifício / construindo histórias e a referência das iniciais ao escritor B.S. Johnson (cujo The Unfortunates, de 1969, consistia em 27 capítulos sem encadernação, sendo os 25 do meio lidos na ordem que você quiser).

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Ware recentemente apareceu na TV aberta dos EUA para uma curta entrevista (também novidade). Completa 45 anos daqui a alguns dias e está cada vez mais parecido com o fazendeiro do Gótico Americano.

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A sensibilidade de Ware para captar e expressar movimento. No primeiro quadro, uma mão parada segurando um lápis, ereto, a ponta para baixo. No segundo, a mão pende o lápis 45 graus para a direita; nada mais muda. É a menina, filha da personagem principal, fazendo tema de casa. Aquele lápis, descansado e pendido – movimento que talvez tenha se repetido várias vezes num transcorrer natural -, sintetiza a cena.

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Muito se fala dos desenhos e da narrativa, mas pouco dos diálogos. São igualmente econômicos, sintéticos, várias vezes só fragmentos cuja função é mais caracterizar um personagem ou estabelecer clima da cena do que servir à “trama”. Aliás, às vezes parecem intromissões. Ou só estão ali para preencher espaço (há blocos de texto que, suspeitamente, têm o tamanho exato do espaço entre os quadros). Você lê a história somente nas imagens.

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Meu fragmento preferido é justamente o que não tem texto. São 52 páginas, a maioria tiras, sobre a relação entre mãe e filha. O final, com as cenas na cama que se repetem, confundem e contrastam ao longo da vida da personagem, é aquelas coisas que eu insisto que só se pode fazer nos quadrinhos.

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“Sabe aquela sensação de ficar sozinha no carro? Fecha a porta, o tempo para, só se ouve um zumbido baixinho; só os clics do motor resfriando. Você vê as pessoas andando pelo estacionamento, mas não ouve o que dizem, não sabe quem são e não quer ser vista porque, sei lá, é meio estranho ficar sozinha dentro do carro? Esta bela, árida síntese do embaraço, da tranquilidade e da pura solidão é o que eu sinto ao ler Chris Ware.” (Abertura desta resenha aqui.)

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Ler o reencontro com o ex-namorado que a convenceu a abortar antes de ler a história do aborto é menos ou mais dramático do que ler a história do aborto e depois o reencontro com o ex-namorado que a convenceu a abortar?

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Ware na introdução de um livro sobre capas da Penguin: “Um livro é um corpo no qual vive e respira uma história e, assim como um corpo, tem uma coluna vertebral, é maior por dentro do que por fora e não vai ter muitos encontros se não souber bater papo.”.

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Alguém comprou e NÃO mostrou no Instagram?

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Sobre traduzir gibi

Por Érico Assis


Tira de Laerte.

Fui convidado a falar sobre tradução de quadrinhos na Jornada de Estudos sobre os Romances Gráficos — edição Porto Alegre. É um evento que vai acontecer na PUC-RS dias 19 e 20, segunda e terça-feira da semana que vem, sendo a minha participação na terça às 8h30. Mais aqui.

O convite foi para uma mesa redonda, o que costumo interpretar por “beleza, é só responder” ou “não traga powerpoint”. Mas aí o organizador disse que terei “20 a 25 minutos para a fala inicial”. Ih.

Preciso pensar em coisas para contribuir, então vou pensar em voz alta.

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Já escrevi dois textos sobre tradução de HQ aqui no blog: um sobre as palavras mais complicadinhas de Scott Pilgrim contra o mundo e outro sobre o método Yusa, que usei para a tradução de Wilson. Estava relendo agora e, modéstia à parte, ainda concordo com tudo. O que eu tenho de novidade é um pouco mais de prática. Nesse meio tempo, tive aprendizado forçado nas traduções de Superdeuses, Metamaus, Contos de lugares distantes, Casanova e outros bichinhos complicados (alguns são mais prosa, mas todos têm relação com quadrinhos). As dificuldades continuam as mesmas, as formas de buscar solução também. Só as aflições diminuíram um pouquinho.

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O engraçado na minha experiência profissional é que comecei pela tradução de quadrinhos, sem passar pela tradução de prosa. Os quadrinhos têm a unidade do balão e do recordatório. Só em casos extremíssimos você pode aumentar, suprimir ou acrescentar balões a um quadro para encaixar texto. De preferência, não passe esta tarefa ao letreirista. O autor também vai odiar.

A estética da página muitas vezes está atrelada à posição original dos balões e ao conteúdo deles. Por isso, toda fala traduzida tem que ficar quase do mesmo tamanho da original. Se for menos texto, você deixa uma mancha branca na página. Se for mais, os balões perdem área de respiro e/ou a letra diminui.

Quando descobri que a tradução de prosa permite que você corte, estique, puxe, explique, mescle, inverta, transforme três parágrafos em um ou um em cinco, e ainda assim mantenha intenções e estilo do original, foi como a primeira vez sem camisinha. Malditos balões.

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Em traduções de HQ mais recentes, tentei unir os dois mundos: usar a amplitude de ferramentas da tradução de prosa para fazer o texto soar melhor no português, respeitando a limitação formal de HQ.

Fui teorizando: o maior parte do texto de HQ é diálogo, e deve assemelhar-se ao que as pessoas falam, não a como escrevem. Por outro lado, ainda é texto escrito, que será lido e não ouvido.

Sabe quando você altera de legendado para dublado no DVD e estranha que o texto não é o mesmo? Não é para ser. Legenda é lida, dublagem é ouvida, mesmo que ambas sejam traduções de linguagem falada. Nos diálogos de quadrinhos, é preciso fazer o mesmo jogo das legendas: o texto não pode ser tão formal quanto a prosa, pois é fala, mas não pode ser tão informal quanto a fala, pois é escrito.

Se o balão diz “Taligádo quissaí vai sê uma di-fi-cul-dad, tá não?”, por mais que as características do personagem levem a crer que você o ouviria assim, a transcrição hiper-realista da fala chamaria mais atenção que o conteúdo e, na maioria dos casos, fugiria da intenção do texto original. “Mas você sabe que será algo complicado, não sabe?”, por outro lado, foge demais do que uma pessoa normal e não-empolada falaria (fora nas novelas das sete). “Cê sabe que não vai ser fácil, né?” é uma forma de resolver o balão “Ya know thiss gonna be difficul’, righ’?” do original.

(Os anglófonos conseguem ser mais liberais com a transcrição da fala por questões técnicas e culturais.)

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Encontrar essa jinga entre representação-da-imagem-falada e texto-para-ser-lido-não-ouvido (fora a jinga entre imagem e texto, e a limitação formal do balão) costuma tornar a produção de uma lauda de HQ traduzida mais demorada que produzir uma lauda de prosa traduzida. Não é uma regra, mas com frequência minha realidade.

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Não é todo tradutor que tem acesso à versão final do livro em que trabalhou depois de este passar por revisor, preparador, editor e diagramador — ou seja, logo antes de ir para a gráfica. Em prosa, isto não é tão problemático, pois as interferências desta cadeia são aceitas no processo e você, tradutor, pôde quase ver como o texto será lido em sua versão final quando entregou sua parte.

Em tradução de quadrinhos, porém, conferir a tradução letreirada/diagramada é (ou deveria ser) indispensável: o produto que o tradutor entrega consiste em laudas de Word que apenas seguem a ordem de leitura da página de HQ. Não se traduz sobre a página de HQ em si (embora eu deseje muito um software que faça isto). Há, portanto, esta revisão última do tradutor de sua tradução aplicada à página, para conferir todas as jingas. O que toma mais tempo.

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O triste é que nunca mais usei o método Yusa. Estamos em falta do ingrediente esposa grávida.

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A quem vai no evento de Porto Alegre: é bem provável que eu não tenha pensado em nada além destas anotações até o dia da mesa redonda. Portanto, faça como eu e vá ouvir o Augusto Paim (ele traduziu Baby’s in black, Cash e outras coisas do alemão) e a Maria Clara Carneiro (O gosto do cloro, Lucille e outros franceses), meus companheiros de mesa.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos e Habibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Quem lê quadrinhos (3): HQs para vinho e HQs para cerveja, Chico Bento me recuperou e um incêndio

Por Érico Assis


Gabriela Testa tem 20 anos, estuda Psicologia, vai ser escritora e mora em Granja Viana, na Grande São Paulo, cercada pela pista de kart. Quando eu perguntei “quem aí lê quadrinhos?“, ela explicou como descobriu Persépolis, e daí em diante:

Gosto de histórias. Sempre gostei de ouvir ou ver coisas que têm histórias. Começou cedo, acho que lá pela primeira série, quando sentávamos em roda e a professora ia lendo a história do Barba Azul ou das três bruxas traiçoeiras. Depois descobri que outras coisas sabiam contar histórias além das palavras, que o retrato de um homem olhando meio torto para o outro continha uma história, que uma música do Beethoven podia ser a batalha entre o bem e o mal, a luz e as trevas. Ou então, dependendo da imaginação daquela noite na Sala São Paulo, as peripécias de uma lagosta tentando escapar da panela.

Aprendi a topar de tudo a qualquer momento. Às vezes dá certo, às vezes não. Acostumei a um dia a dia misturado de Herman Melville, Leminski, Billie Holiday, Pink Floyd, Ernesto Sabato, Tolstoi, John Coltrane, Guimarães Rosa, Segall, Mishima, Bukowski, Bashô, visitas constantes à Tomie Ohtake, onde eu aproveitava para filar um rango naquele restaurante muito gostoso, cujo nome sempre me foge…

Um dia caiu na minha mão um DVD de Persépolis — não deve fazer tanto tempo. Sem chegar a assistir o filme, fui atrás dos quadrinhos, e quando terminei de ler estava embasbacada. A sensibilidade, a clareza dos traços da Marjane, a pulsação da história… Descobrir um gênero novo àquela altura do campeonato, o gênero por mim completamente inexplorado das graphic novels (nominho controverso, muito menos simpático que “quadrinhos”), foi como ser criança de novo e descobrir escondido um último presente de aniversário embrulhado. Mergulhei de cabeça em tudo que meu bolso conseguia pagar: Cachalote, Daytripper, Scott Pilgrim, Retalhos, Asterios Polyp, Maus, Avenida Paulista, enfim, fica chato colocar aqui a lista completa. Também comecei a achar os filmes de super heróis muito divertidos, e fui surpreendida ao buscar os quadrinhos correspondentes e descobrir que alguns deles lidavam com temas bastante intensos, tramas infinitas e extremamente malucas.

Me apaixonei mesmo, de chamar para jantar e pedir uma garrafa de vinho, por Avenida Paulista, Asterios Polyp e Scott Pilgrim. Mas não tem nenhum deles que eu não convidaria para uma boa cerveja. Consegui ler depois Crônicas Marcianas, Adeus Tristeza e Sammy, the mouse (primoroso). Acabei de ler Habibi. Achei bonito pra caramba.

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Eduardo Warpechowski é professor de história em Uberlândia. Leu Turma da Mônica, Disney e super-heróis desde que se lembra de saber ler até a adolescência, quando ficou desgostoso com a ruindade dos gibis de herói. “Chiclete com Banana ainda fazia parte das minhas leituras, mas só se alguém me emprestasse”. Só voltou recentemente, graças ao filho e ao Chico Bento.

Fiquei 15 anos sem gibis em casa. Me desfiz de tudo. Doei, emprestei, vendi, esqueci por aí.

Foi só quando meu filho completou dois anos que minha esposa comprou um gibi do Chico Bento. Aquele velho prazer de ver-e-ler começou a voltar. Nem me lembro mais o que veio em seguida, nem como foram estes encontros. Mas teve Joe Sacco, Chris Ware, Spacca, uma onda de encadernados de velhas histórias de que já nem me recordava…

Depois de readquirir inúmeros títulos dois quais já havia me desfeito, e que têm um grande valor afetivo, abandonei de vez os heróis, parei de ignorar os mangás e entrei de cabeça em tudo que há neste mundo de quadrinhos.

Eu me delicio principalmente com os livros teóricos e de pesquisa sobre a história das HQs, os grandes clássicos (Angelo Agostini, Eisner, os Suplementos, a Indústria). E hoje me dedico a montar pequenos cursos sobre o uso de histórias em quadrinhos e ensino de História do Brasil.

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O Paulo Cecconi tem uma história que deixa qualquer colecionador arrepiado: perder toda a coleção. Ele é professor de inglês em Blumenau, Santa Catarina.

Comecei a ler quadrinhos lá pelos meus nove anos. Meu primo, por algum motivo, era leitor exclusivo de DC e me convenceu de que as pessoas poderiam ler somente um selo. Era impensável que alguém comprasse material da DC e da Marvel. Resolvi que seria um Marvelista. Passaram os anos e fui comprando gibis da Marvel e acompanhando a DC pegando emprestado do meu primo.

E então chegou o dia em que a minha casa pegou fogo. Aos 17 anos, minha coleção inteira queimou. O Horror! Tudo eliminado em questão de minutos.

Como uma bênção dos Novos Deuses, no mesmo ano em que a minha casa pegou fogo, surgiu em Blumenau a primeira (e até hoje única) loja de quadrinhos especializada. Não deu outra: recuperei uma parte dos gibis perdidos e, melhor ainda, fui apresentado a Crumb, Manara, Liberatore, Moebius e toda uma gama de artistas e materiais fora do circuito super-heroístico. A nova fase se iniciou.

Hoje, procurar artistas novos é uma das coisas que mais me dá prazer. Claro que nunca abandonei meus ídolos, mas inovar é uma necessidade.

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Continuo recebendo os e-mails mais fantásticos sobre experiências com leitura de quadrinhos. Outros ainda virão para a coluna. Quem mais aí lê quadrinhos? Entre em contato: ericoassis@gmail.com

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos e Habibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Quem lê quadrinhos (2): o condomínio que leu Retalhos

Por Érico Assis

reading on the roof

Rogério Rezende tem 47 anos, é escritor e avalia livros para bibliotecas na Secretaria de Educação de Campo Grande, bairro de Cariacica (ES). Peça a ele uma lista do que gosta de ler e veja o pergaminho se desenrolar das mãos: Tolkien, Lewis Carroll, C.S. Lewis, Karen Armstrong, Hans-Ulrich Treichel, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Blake, Keats, Jorge Amado, Scliar, Marie Darrieussecq, Ana Cristina César… e Craig Thompson. E Marjane Satrapi. E Jonathan Franzen.

Ele respondeu minha coluna “Quem aí lê quadrinhos?” com este e-mail:

Quando comprei Retalhos, também havia comprado Liberdade, de Franzen. No condomínio a molecada vivia o triângulo da (in)felicidade: escola, Playstation e shopping. Cheguei em casa e meu sobrinho de 13 anos viu o livro na minha mão. Queria saber que livro era aquele. Era legal?

Sem ter lido, falei que sim.

— Deixa eu ler? — pediu.

— Hãã… Tá, toma.

Imaginei que 55 pilas voltariam com orelhas e cheias de folhas amassadas.

O livro foi lido naquele dia pelo Daniel. No dia seguinte foi levado para a escola e foi um incêndio. Tanto que a biblioteca teve que comprar dois exemplares para atender a demanda. Nem vampiro nem lobisomem chegavam perto do interesse da garotada pelo livro. Alguns pais curiosos pelo interesse dos filhos também leram.

Acredito que mais de 50 pessoas leram aquele livro.

Antes havia comprado/emprestado Persépolis, mas não foi a mesma coisa, nem de longe foi o tsunami de Retalhos. Se não tivesse acontecido comigo, alguém contasse, eu acharia que alguém estava querendo vender o livro ou empolgado em demasia por um livro para adolescentes.

A dúvida atual de Rogério é se Habibi terá o mesmo feito. Ele ainda não leu. Nem o condomínio.

Hoje ele me enviou mais um e-mail:

Queria lhe contar uma experiência que aconteceu aqui no trabalho do Setor de Formação Continuada. Li um post seu em que colocava umas tarjas laranjas sobre os balões da história. Lembra? Pois é, eu conversando com a coordenadora disse que seria interessante usarmos isso nas aulas de redação e leituras de língua portuguesa. Ela gostou da ideia e incluiu esse assunto no curso. Comprou e usou o Diário de um banana. Resultado que vários professores começaram a usar quadrinhos nas salas de aula.

Uma das escolas decidiu colocar em cada sala uma “gibiteca” (nome horrível). A escola está situada num baixo de risco e vulnerabilidade social e tinha um Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) baixo. Ocorreu um fato curioso: os alunos levavam os quadrinhos para casa e muitos pais passaram a ler. Alguns foram alfabetizados com essa iniciativa. Na última avaliação, foi a escola da região que teve o melhor Ideb.

Como eu acredito que os quadrinhos são, comprovadamente, o meio ideal para que os alunos aprendam e se instruam, tenho defendido uma biblioteca de quadrinhos para cada escola.

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Tenho recebido os e-mails mais fantásticos sobre experiências com leitura de quadrinhos. Outros ainda virão para a coluna. Quem mais aí lê quadrinhos? Entre em contato: ericoassis@gmail.com

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos e Habibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Resenhando os Quadrinhos

Por Érico Assis

C.A.F.K.A.  A sigla quer dizer “comics aren’t for kids anymore”, ou “quadrinhos não são mais para crianças”, frase que aparece nas críticas de HQs desde que o Crumb era cadete, mas que segue repetida como se fosse novidade. Nos EUA, segundo Dylan Meconis, já virou tão clichê que os entendidos criaram a sigla. Como em “lá vem mais uma resenha CAFKA” e “que CAFKA o seu comentário” (lembre-se de usar na sua próxima discussão sobre quadrinhos).

Meconis, quadrinista, escreveu um artigo que circulou bastante nos últimos dias chamado “Como Não Escrever Críticas de Quadrinhos” (em inglês, aqui). Circulou merecidamente, pois é um resumo preciso, contundente, bem humorado e bem ilustrado sobre as armadilhas em que caem os resenhistas de quadrinhos — principalmente os críticos que, vindos sobretudo da crítica literária, são incumbidos de comentar um livro com desenhinhos que se diz “gréfic novel”.

“Alguns destes críticos não passam de babacas, ressentidos porque o editor arrancou-lhes das mãos as provas do novo Houellebecq e trocou por um livrinho imbecil cheio de figurinhas. Figurinhas. Só o Umberto Eco tem licença para usar figurinhas!”, satiriza Meconis. A autora levanta dez pontos periclitantes das críticas, como a insistência em ligar o sucesso de filmes baseados em HQs a todas as HQs, a incapacidade de ver que palavras e imagens devem funcionar em conjunto e o involuntariamente-preconceituoso “esta HQ é tão boa que parece um livro de verdade!

A implicância mais perspicaz de Meconis é com a preguiça dos resenhistas em entender minimamente a linguagem dos quadrinhos para poder resenhar. “Você chamaria uma pincelada de ‘posta de tinta’?”, ironiza. As “fumacinhas” ou “bolhas” sobre os personagens têm nome: são balões de fala. “Gibis” ou “revistinhas” são termos que muitos consideram problemáticos, prefira “quadrinho” ou “HQ”. Recomenda-se pelo menos um livro sobre linguagem dos quadrinhos (em português, há Desvendando os quadrinhos, de Scott McCloud, Quadrinhos e arte sequencial, de Will Eisner, A leitura dos quadrinhos, de Paulo Ramos, ou Linguagem HQ: conceitos básicos, de Nobu Chinen, dos que eu lembro. Um basta.)

Assim como exige-se do resenhista literário ou crítico musical, é requisito ter certo repertório sobre a história e as variações da mídia. Os quadrinhos ainda não têm idade para esnobar um “cânone”, mas saber que Mônica é diferente de Maus, de Marvel, de mangá e de Moebius já ajuda. O bom resenhista fornece contexto: as correntes históricas a que a obra resenhada pode se conectar, a comparação com os principais expoentes contemporâneos. São pontos de apoio para ajudar o leitor da resenha a entender a leitura que o crítico está fazendo do que lhe coube resenhar.

No fim das contas, a discussão é tão velha quanto o C.A.F.K.A.: quadrinhos são quadrinhos. Não são literatura, não são livros ilustrados, não são storyboard de cinema, não são artes plásticas e as figurinhas não se combinam com o texto por acaso. Nada impede que quadrinhos sejam resenhados em comparação a outras linguagem, mas a crítica não pode ficar só nestas comparações, e sim respeitar os quadrinhos como linguagem própria, com técnica, história e vertentes próprias.

O que Meconis não ressalta no texto, embora seja algo que provavelmente recomendaria, é que não se deve restringir resenhas de quadrinhos aos fartamente entendidos em quadrinhos.  Por mais que um quadrinho não seja uma obra literária, nem uma peça de teatro, nem um filme, ler uma HQ é tanto uma experiência quanto a experiência de um filme, de uma peça, de um romance. Todas as recomendações que a autora faz vão na direção de como relatar esta experiência de forma profissional. E isto pode ser feito muito bem — como muitas vezes é — por um resenhista mais versado na literatura, no cinema, nos games. O cerne da construção de uma resenha, de quadrinhos ou do que for, é sempre o mesmo: o que ela lhe provocou? O que toda técnica, relações históricas, terminologias e comparações querem, enfim, é uma reação.

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Aos que deixaram comentários ou enviaram e-mails para responder à pesquisa da minha última coluna, sou muito agradecido. Ainda vou tratar de todos vocês numa próxima coluna.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos e Habibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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