Érico Assis

Fritz The Cat na livraria infantil

Por Érico Assis

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Na semana passada, o Dicionário de Inglês de Oxford registrou a palavra comix. A definição do substantivo plural é: “Histórias e tiras em quadrinhos, especialmente as escritas para adultos ou de natureza underground ou alternativa”. Na mesma semana, encontrei Fritz the Cat numa livraria infantil.

Veja bem: não era seção infantil de livraria. Era uma livraria infanto-juvenil. A livraria matriz chama-se Xis. Você anda mais alguns metros na mesma galeria e chega na filial, que se chama Xiszinha. A Xiszinha só tem livros para crianças e adolescentes, prateleiras de várias cores, mesinhas com lápis de cor. Xiszinha tem uma pequena seção de quadrinhos. Ali que eu vi Fritz the Cat, de R. Crumb, da editora Conrad, formato álbum, 132 páginas, lançado em 2002.

O gato foi criado por Crumb nos anos 1960. Foi estrela de várias histórias e tinha personalidade adaptável: foi beatnik, pop star, poeta hippie, agente da CIA. A consistência estava na personalidade: mulherengo, arrogante, hipócrita, drogado, indigno da confiança de namoradas e amigos, às vezes meio racista. Era um canalha gozando a/da/na revolução sexual. As gatas, pombas, raposas que Fritz pega têm os peitos e coxas grossas típicos de Crumb. Quase sempre acabam nuas. Em uma das primeiras histórias, ele seduz a irmã. Em 72, Fritz virou um longa animado que inclui cenas das HQs e uma suruba zoológica na banheira. Teve continuação. Fez tanto sucesso que Crumb se irritou e matou o gato nos quadrinhos.

Não que a livraria Xis ou Xiszinha precisem saber o histórico de cada livro que vendem. Mas a capa da edição da Conrad dá dicas: Fritz com a mão enfiadas na blusa de sua gatinha, umas coisas caídas no chão que parecem baganas. A quarta capa deixa tudo bem claro. Fritz the Cat é tão marco dos comix que podia ilustrar o verbete do Oxford. Será que eu devia informar a Livraria Xiszinha?

Óbvio que o meu eu de 20 anos me xingou pelo ataque de moralismo. Mas o caso é que eu não tenho 20 anos e tenho uma filha de quatro anos que gosta de gatinhos. Ela também ama dinossauros, então a levamos para assistir Jurassic World e no final ela resenhou: “Não me tragam mais nesses filmes assustadores”. Fritz não tem dinossauros comendo gente, embora tenha bichos comendo bichos. Não sei o que ela ia achar.

Por coincidência, no mesmo dia eu tinha lido uma declaração do Neil Gaiman: “Sou absolutamente, cem por cento a favor do direito do pai ou mãe dizer: ‘Não quero que meu filho leia isso.’ Sou absolutamente, cem por cento contra o pai ou mãe que diga: ‘Não quero que meu filho leia isso e não quero que outra criança leia.’ São duas coisas bem diferentes”. Ele falava de pais que tentam proibir livros em bibliotecas. Vale para livrarias também, Gaiman? Como eu disse, a matriz da Xis fica a poucos passos da filial Xiszinha, e era só questão de passar o Fritz da Xiszinha para a Xis. Além disso, ninguém proíbe crianças de entrar na Xis-matriz, que tem sua própria seção de HQ.

Tem um ensaio do Alan Moore sobre erotismo e pornografia onde ele diz que “culturas sexualmente progressistas nos deram a matemática, a literatura, a filosofia, a civilização e coisas desse tipo, enquanto culturas sexualmente restritivas nos deram a Idade Média e o Holocausto”. Entre os exemplos, ele fala das estátuas de Pã ostentando ereções nas praças da Grécia antiga e os anéis penianos, com espigões voltados para dentro, que os pais alemães e austríacos no início do século passado prendiam em adolescentes para evitar pensamentos impudicos.

Tem também aquela entrevista maravilhosa do Colbert com o Maurice Sendak, quando este diz que: “Eu não escrevo para crianças. Eu escrevo. Aí vem alguém e diz: ‘Isso é para criança’”.

Também lembro de uma conversa com um amigo que reclamava da Disney, a qual insiste em colocar cenas tristes nos filmes que a filha dele gosta. Justifiquei (mal, muito mal) que filmes também podem ser um aprendizado. Que podem render uma ou duas noites mal dormidas, mas que ajudam a criança a entender o mundo, inclusive coisas ruins do mundo. Tomei: “Minha filha já aprende as coisas ruins do mundo vivendo no mundo. Ela não precisa aprender num desenho”.

Minha vó repetia que só gostava de filmes onde podia ver “coisa bonita”. Dor, sofrimento, tristeza não era coisa pra cinema. O filme preferido dela era Uma linda mulher.

Mexi um pouco mais na seção de quadrinhos e vi que também tinham a adaptação de O estrangeiro para HQ. De repente o problema não é moralismo, imoralismo, nem desorganização ou falta de conhecimento. De repente é só porque gibi é tudo para criança e esse tem um gatinho. Enfim: não avisei nada à Xiszinha. Ainda não sei se devia.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Nossa Fierro

Por Érico Assis

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Quadrinho de Lucas Gehre para a Nébula.

A Nébula surgiu no mês passado como um espaço novo para HQs brasileiras, associado à plataforma de publicação online Medium. Tem uma história nova a cada dia útil. Dentro da proposta maior do Medium — criado pelos cabeças do Twitter para que se faça tuítes mais compridos (entenda-se: textos) e para melhorar o nível da discussão do tema que se quiser —, a Nébula se identifica como “quadrinhos, jornalismo e cotidiano”. Os autores costumam pegar um tema e destrinchar em uma pequena HQ, às vezes do tamanho de uma charge. A referência é o Nib, espaço de HQ-reportagem, charges e crônicas em HQ no Medium em inglês.

Até aí nada de novidade, porque o Brasil sempre teve e ainda encontra nos jornais uma tradição de chargistas que consegue resumir a discussão nacional do dia em um desenho. Mas os “quadrinhos, jornalismo e cotidiano” da Nébula são mais.

A série Relatos da Greve em Curitiba, de Guilherme Caldas, é uma HQ-reportagem com o cuidado estético que dá mais cor às notícias que circularam do Paraná para o país nas últimas semanas. A ironia devastadora do Bruno Maron em Sabe qual é o seu problema? O jogo desproporcional no porte de armas conta em 16 quadros o embate entre direita pragmática x esquerda acadêmica no Brasil. Pacha Urbano tem tratado das suas desavenças (não só dele) com o Facebook. Mesmo quando a LoveLove6 faz algo que é mais próximo de uma charge — Um bebê de $2 bilhões e 200 mães que não valem nada — não se tem uma charge comum. Não no tamanho, no mínimo.

E vai mais. A publicação mais forte no site até agora, Cão cego, rei monstro, de Pedro Franz, segue o “quadrinhos, jornalismo e cotidiano” misturando fascismo, história do Brasil, black blocks, racismo e donos de cachorro com seus cachorros. Mas não é uma crônica usual, pois já são três capítulos que misturam realidade e ficção e, mesmo que cada capítulo proponha um argumento, percebe-se que vai sair uma narrativa maior. Jesus Carlos, de DW Ribatski, também se anuncia como algo maior e parece que não se encaixa necessariamente no tom jornalístico/cronístico da Nébula. Parece mais uma história, no sentido ficcional, desligada da obrigação de comentar alguma coisa.

A Nébula é bastante nova e sempre se tem receio quanto à durabilidade de iniciativas assim. Mas pode ser muito. E se liga a uma conversa que tive há poucos dias: por que a gente não tem uma Fierro?

A Fierro, no caso, é a revista mensal que sai há quase dez anos encartada no jornal argentino Pagina/12. É uma antologia, que reúne HQs dos melhores quadrinistas argentinos em atividade. Lucas Nine, Ignacio Minaverry, Fernando Calvi, Lucas Varela e outros estão lá com frequência; o lendário Juan Gimenez voltou para uns números, Liniers tem participações esporádicas e de vez em quando desenterram um roteiro perdido do Carlos Trillo. É a segunda encarnação da revista, na verdade. A primeira surgiu nos anos 80 e durou cem edições. A versão atual, nascida pós-crise, em 2006, recentemente superou a predecessora: está no número 103.

O interessante da Fierro, como comentou um amigo, é que os quadrinistas de lá aproveitam a revista para publicar capítulos de obras maiores. É o modelo que se tem há décadas no Japão e na França-Bélgica, às vezes nos EUA: depois de sair na antologia, junta-se uns dez capítulos e você faz um álbum. Serve inclusive de auxílio financeiro durante a produção. Alguns autores aí publicam o álbum direto na Europa, aproveitando um intercâmbio que já é velho entre argentinos e as editoras francesas, espanholas, italianas — e lá, é óbvio, paga-se melhor e vende-se melhor que na América Latina. Aspecto bônus: para saber o que é o quadrinho argentino no momento, basta ir a uma banca argentina e comprar a Fierro do mês.

A Fierro é uma revista impressa e a Nébula é digital. Essa diferença rende uma longa discussão sobre alcance e relação com o suporte. Por outro lado, parece que alguns autores na Nébula estão se ensaiando para aproveitar o site como espaço de desenvolvimento paulatino de álbuns, como acontece na Fierro. E as duas remuneram os colaboradores — ou seja, dão algum apoio financeiro para a produção — o que não é realidade para toda publicação de quadrinhos.

Acessar a Nébula é saber o que é o quadrinho brasileiro atual? A estatística pede pra dizer que não: tem uma cambada de autores e de estilos que não estão lá. Mas se um argentino ou outro gringo me perguntar onde se vê o quadrinho brasileiro atual — ou qual é a nossa Fierro — eu citaria a Nébula com todo orgulho ufanista.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Tradutor, escritor, palavrinhas, quadrinhos

Por Érico Assis

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Esses dias o Caetano Galindo esteve por aqui dizendo que considera um livro que traduz como “um livro de Thomas Pynchon/Ali Smith/James Joyce/etc. escrito por Caetano Galindo”. Não foi a primeira vez que o Galindo falou nisso, nem ele é o primeiro a dizer que traduzir é escrever. Mas dizer esse tipo de coisa, ainda mais quando vem de um tradutor, provoca reações inflamadas. E provocou de novo: olha lá na seção de comentários: “Para mim, tradutor bom é tradutor que some no texto do escritor. Aquele que não fica nem subentendido, afinal, a função dele não é adaptar ou reescrever. Perdão, Galindo, mas acho que dizer que você escreveu um livro é prepotência, pois não o fez. Você traduziu.”

Para dizer que traduzir é escrever, não é necessário abrir nem um livrinho de teoria da tradução. É uma questão da Física. Se Éric Sentadeau escreveu “je t’aime” e eu traduzi por “eu te amo”, quem escreveu “eu te amo” não foi Sentadeau. Fui eu. A frase dele começa com “j”, a minha começa com “e”. A dele tem um apóstrofo, a minha não. Sentadeau nunca aprendeu uma palavrinha de português e seus dedos não formariam “eu te amo” no teclado nem por acaso. “Eu te amo” saiu do meu teclado.

Graça infinita, segundo a lombada do livro, é de David Foster Wallace. Muito embora Wallace nunca tenha escrito Graça infinita, e sim Infinite Jest. Quem leu ou está lendo ( \o ) Graça Infinita lê palavrinhas encadeadas no computador do Caetano Galindo, conforme a capacidade criativa de encadeamento de palavrinhas do Caetano Galindo e as referências do Caetano Galindo, sendo que uma destas referências — vamos dizer que neste caso foi a principal — é um livro escrito em inglês por David Foster Wallace chamado Infinite Jest.

Repito: é Física. Se você quiser entrar nas teorias arcanas da tradução, aí vai dar umas voltas por contratos de leitura, que a gente ficciona que existe um autor por trás da tradução, que as ideias são de outro, que só é tradução porque existe um texto de base e…

Digamos que você andava por aí lendo Vício inerente e contou para todo mundo que estava lendo Thomas Pynchon. Vocês foram vistos juntos no café, vocês dividiram a cama, você contou pras amigas que trocou altas ideias com o Thomas Pynchon. Desculpe, era ilusão. Se você leu Vício inerente e não Inherent Vice, você foi ao café, dividiu a cama e trocou altas ideias com sr. Caetano Waldrigues Galindo. Ele só estava usando uma capa de Thomas Pynchon.

No fim das contas, a conclusão das teorias arcanas é a mesma: tradução é escrever (no máximo dos máximos reescrever, que ainda é escrever). E não tente trocar o “escrever” por “criar”, “inventar”, “elaborar”, “estruturar” etc. querendo justificar uma função maior do escritor do texto de partida. Tradutor também cria, inventa, elabora, estrutura etc.

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Aí parei pra pensar de novo na tradução de quadrinhos. O texto dos quadrinhos, grosso modo, é a articulação entre palavrinhas e figurinhas. Tradutores de quadrinhos geralmente só podem mexer nas palavrinhas. As figurinhas geralmente ficam intactas. Porque, né, ai do metido que quiser redesenhar o Moebius, o Paul Pope, o John Romita, o Katsuhiro Otomo.

Mas… e se não fosse assim? E se traduzir um quadrinho fosse mexer nas palavrinhas e nas figurinhas? E se os tradutores fossem desenhistas que se embasam em um quadrinho estrangeiro e refazem aquele quadrinho no seu traço, nas suas cores, no seu ritmo?

Teríamos quadrinhos do Mike Mignola traduzidos pelo Gabriel Bá. Do Frank Miller traduzidos pelo Diego Gerlach. O Rafael Grampá seria um tradutor especializado em Geof Darrow, quem sabe também em Frank Quitely. Akira Toriyama traduzido pelo Vitor Cafaggi. Crumb traduzido pelo Allan Sieber. Quantas retraduções do Eisner já teriam saído? Tiago Elcerdo traduzindo Christophe Blain. John Buscema por Danilo Beyruth. Novas traduções dos Peanuts no traço do Odyr.

Seriam, tipo, remakes? Será que ficariam como as dublagens? Timbre, entonação e ritmo de um James Spader ou de uma Judi Dench no timbre, entonação e ritmo de um ator carioca? Seriam traduções? Sim, seriam, pelo menos, traduções. Seriam boas traduções? Talvez sim, talvez não. Seriam novos quadrinhos? Seriam também.

E sim, seria uma ideia estapafúrdia, mas deixa eu me divertir com a ficção. Era só para chegar a esse ponto: pense que a tradução de prosa é uma história em quadrinhos redesenhada. Nada do que o autor original pensou para manchar a página aparece na tradução. As palavras são outras. Os parágrafos são outros. A contagem de páginas é outra. A capa, mesmo que traga o nome do autor original e que seja até aprovada por este, muitas vezes é outra. O livro traduzido é outro e foi escrito pelo tradutor.

Faz um tempo, terminei a tradução de uma HQ de Jules Feiffer. Feiffer é autor das palavrinhas e dos desenhos. Por um lado, não toquei (e provavelmente ninguém mais tocou) nos desenhos do Feiffer. Por outro, quem ler Mate minha mãe não vai ler uma palavra do que o Feiffer escreveu. Me sinto um pouco prepotente, de fato, como apontou o crítico do Galindo naquele comentário, mas o que você tem que entender ao ver meu crédito de tradutor é o seguinte: “uma HQ de Jules Feiffer com palavrinhas de Érico Assis.” Questão de física.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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O futuro ainda não chegou

Por Érico Assis

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Capa de The Private Eye.

Na quinta-feira, dia 19, saiu a décima e última edição de The Private Eye. Foi a conclusão da trama sobre o detetive particular que, em 2176, descobre um plano terrorista para reativar a internet. Na futurologia dos autores, em algum momento deste século a Nuvem vai estourar e seus dados, senhas, fotos e histórico de navegação ficarão abertos para o mundo. O desligamento da internet será só o primeiro passo para remediar o caos. A seguir, a privacidade vai virar valor máximo, a ponto de as pessoas andarem na rua de máscara. Ironia ou não, já que ninguém se mete na vida dos outros e ninguém perde tempo em rede social, a sociedade é muito mais produtiva.

A premissa de The Private Eye contrasta com outra ironia: é uma HQ que só existe na internet. Os autores — o escritor Brian K. Vaughan e o desenhista Marcos Martin, ambos com renome considerável nos quadrinhos dos EUA — quiseram fazer uma experiência. Sem editora e sem intermediário algum, lançaram um gibi no estilo norte-americano, em capítulos mais ou menos mensais de vinte e poucas páginas, somente em formato digital aberto (pdfs e cbrs, copiáveis sem restrição) e cobraram segundo o modelo Radiohead: pague o quanto quiser. Você pode inclusive pagar zero dólares e baixar o arquivo no site da dupla, PanelSyndicate.com. Fica a sugestão de que, se você gostar da história, volte ao site e deixe uns caraminguás.

É praxe dos roteiristas de quadrinhos envolverem-se simultaneamente em diversos projetos. Vaughan, o escritor, não teve que largar a segunda série de maior sucesso entre os gibis autorais dos EUA, Saga, nem seu emprego de roteirista de TV para tocar The Private Eye. Martin, o desenhista, por sua vez largou serviço garantido na Marvel para se dedicar à experiência. Terceira ironia: Martin acreditava que a experiência ia dar certo; Vaughan, não.

Dois anos depois — comemorados na quinta-feira —, os dois estavam errados.

Primeiro porque, sim, o gibi rendeu. Mesmo com a opção de pagar nada, um bom número de leitores deu dois ou mais dólares para baixar o arquivo. Fizeram o mesmo na edição seguinte, na posterior e assim por diante. O Panel Syndicate divulgou apenas uma cifra: em um ano e meio, haviam arrecadado mais de 100 mil dólares. O que não é nada espetacular, mas não é trocado.

Em entrevistas, Vaughan diz que a grana sustenta Martin e a esposa Muntsa Vicente (colorista da série, que também não se dedica exclusivamente a Private Eye). Se tivessem seguido o modelo tradicional de gibi autoral impresso, porém, Vaughan acha que a renda seria maior — ele levanta seu próprio Saga como exemplo.

“O motivo pelo qual eu digo que o futuro [do modelo The Private Eye] ainda não chegou (…) é que a imensa maioria dos leitores de gibi impresso, de momento, tem pouco ou zero interesse em ler gibi no formato digital. Não interessa quantas vezes eu e o Marcos tenhamos repetido que não existe plano de lançar nada do Panel Syndicate impresso, a maioria dos meus leitores de gibi analógico, como Saga, diz que só vai conferir Private Eye quando sair em papel.” Vaughan releva que este público tradicionalista — do qual ele faz parte — está em diminuição natural e que o público que surge por vias digitais não vem com frescura arraigada. Além de estar em expansão.

Por outro lado, uma das críticas ao projeto é que os autores mandaram o cronograma mensal que haviam prometido para as cucuias: a espera entre as edições passou para dois, depois três meses. Numa editora tradicional, o cronograma imprevisível seria inadmissível.

A experiência de The Private Eye é muito instrutiva. A circulação do quadrinho de papel sempre foi um empecilho e virou uma situação mais complicada nas últimas décadas: impressão e distribuição ficam sempre mais caras, a segmentação do mercado prejudicou a renovação de leitores e há um universo inteiro de distrações por aí, muitas mais baratas. Já o quadrinho digital bate-se com a grande incógnita da boa vontade: como conseguir um bom número de pagantes por algo que existe de graça? The Private Eye não é um caminho pronto, mas dá indicativos do que autores podem montar e ajustar, e das expectativas que  podem ter.

Seja como for, Vaughan e Martin já anunciaram que farão um novo projeto nos mesmos moldes, embora não tenham dito se farão ajustes no modelo. Também disseram que convidaram “grandes nomes” dos quadrinhos para participar da iniciativa, incentivando outros a lançar seus próprios sites. “A distribuição autoral vai ser tão importante para os próximos 25 anos da indústria quanto a publicação autoral foi para os últimos 25.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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O Teórico na Prática

Por Érico Assis

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Trecho de Desvendando os Quadrinhos.

Uma das resenhas de The Sculptor começa dizendo:

“The Sculptor, assim como Terror Sagrado de Frank Miller, Batman: Odisseia de Neal Adams e Ghost in the Shell Volume 2 de Masamune Shirow, é uma HQ que só existe porque o autor é bem quisto demais para lhe dizerem ‘Não’.”

O que eu considero uma coisa meio mandona, levemente hiperbólica, decididamente maldosa… que, quem sabe, capta um dos problemas do álbum. A resenha prossegue pontuando pontos fracos, que são vários: personagens mal construídos, uma trama que não vale 400 páginas, desenhos acadêmicos e uma pilha de clichês.

The Sculptor foi lançada há poucas semanas. É a graphic novel mais comentada que se vê no mercado livreiro nesses últimos anos. A maioria das resenhas, diferentes da que eu citei, é elogiosa. O Guardian fala em um “livro brilhante e envolvente”. Uma semana depois do lançamento, a Sony reservou os direitos para o cinema. Ler todas as entrevistas que o autor deu no último mês rende mais tempo de leitura que o álbum em si. O autor, no caso, é Scott McCloud.

Se não é a referência mais básica, McCloud deve estar num top 5 de autores mais influentes entre quem faz quadrinhos. No planeta. Ele não é influente devido às duas ou três graphic novels que desenhou, mas pelas obras teóricas: Desvendando os Quadrinhos, Reinventando os Quadrinhos e Desenhando Quadrinhos. A primeira, sobretudo, é o grande manual para mostrar como são complexas as narrativas com imagenzinhas e quantas possibilidades existem em colocar um quadro depois do outro. E, mesmo que sejam teóricos, são livros desenhados — são livros teóricos em quadrinhos.

Posso dizer que a minha descoberta de Desvendando, há uns vinte anos, fez eu repensar muitos dos gibis que tinha lido toda a vida, fez eu ler outros de que nunca tinha ouvido falar, me deu gosto por teoria, virou leituras de McLuhan, virou curso de Comunicação, jornalismo, mestrado, ser professor, esta coluna e vários etc. Continuo lendo e recorrendo às ideias do Desvendando (mesmo que já não concorde com todas), principalmente pela clareza de McCloud. Não sou o único com esse histórico.

Logo se percebeu que os livros de McCloud não se aplicavam só a quadrinhos, mas a animação, design gráfico, teoria narrativa e outros campos. Por conta disso ele vive como palestrante, dando cursos e fazendo projetos relacionados a comunicação visual em universidades e em empresas de tecnologia: Google, MIT, Harvard, Pixar. Nunca parou de escrever sobre quadrinhos, foi impulsionador dos webcomics e da competição 24-Hour Comics. No ano passado, foi editor convidado da coleção anual Best American Comics e o livro resultante podia entrar muito bem como quarto volume irmão de Desvendando / Reiventando / Desenhando; é uma aula sobre o que se faz de HQs e o que se inventa na mídia nesta década.

O que nos traz ao alarde e aos problemas em The Sculptor. A trama: jovem artista atormentado faz pacto com A Morte para ser um grande escultor em troca de uma existência limitada a 200 dias; aí descobre um Grande Amor e tem Lições. Dá um filme pipocão. Mas o que me incomoda — e provavelmente incomoda quem lê e relê o McCloud de Desvendando e cia. — é ver o traço tão claro, tão estudado, certinho, limpíssimo do autor tentando contar uma história que quer transmitir emoção ao invés de explicação.

Aos olhos de quem está acostumado aos livros teóricos, é impossível não notar quando McCloud faz perspectivas perfeitas, como se saíssem de um manual de desenho. Volta e meia você se lembra que: esta é literalmente a pessoa que mais entende dos recursos da narrativa em quadrinhos no mundo. Mas, quando os usa, parece que quer fazer uma lista e não contar uma história.

Numa das trocentas entrevistas de divulgação, McCloud dá um alento a quem só consegue vê-lo com estes olhos: planeja dar um passo além dos quadrinhos para escrever sobre comunicação visual em geral, incluindo animação, infográficos, educação. Será seu próximo livro teórico. É sacanagem dizer que ele deveria ater-se a este tipo de livro e esquecer arroubos como The Sculptor — é o que eu acho maldoso na sugestão da resenha lá em cima. Porém, ler uma história de McCloud, para mim, é como encontrar um professor fora da sala de aula, mas não conseguir ouvir o que ele diz se não como aula.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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