Érico Assis

Definições (2)

Por Érico Assis


Seguindo o papo sobre a definição de histórias em quadrinhos: talvez o problema comece pela tradução (ou de tradições, se você preferir; é que estou puxando a sardinha para o meu lado). Praticamente cada país chama essa coisa de um jeito.

Não sei como o Brasil começou a usar um termo tão descritivo como “história em quadrinhos”, que remonta às “histoires en estampes” (histórias em gravuras) do Rodolphe Töpffer — primeiro cara a registrar que acontecia uma coisa diferente de literatura e de desenho quando se juntava literatura e desenho, há quase 200 anos. Os portugueses às vezes falam “história em quadradinhos”, mas preferem “banda desenhada” como o “bande dessinée” francês, sendo que a banda/bande é a nossa “tira”.

A Noruega usa “tegneserie” (desenhos em série) e a Holanda às vezes usa-se “stripverhaal” (narrativa em tira). Mas o “comic” dos americanos acabou pegando em boa parte da Europa, mesmo que seja tão restritivo. Quando você chega no “historieta” (historinha) do espanhol, no “fumetto” (fumacinha, em referência ao balão) dos italianos e no mangá (“imagens extravagantes” ou “imagens irresponsáveis” ou “rascunhos excêntricos” ou ene outras traduções de 漫画) japonês — e nas tentativas de pedestalização mercadológica (às vezes acadêmica), tipo graphic novel, literatura gráfica, narrativa gráfica etc. — aí sente que a bagunça é institucionalizada.

Isso, claro, se você pensar os termos ao pé da letra. E nomes são coisas totalmente arbitrárias, que vêm do desenrolar histórico, então não dá para levá-los ao pé da letra. (Lembre aí também do gibi brasileiro e do tebeo espanhol, outras denominações de quadrinhos que “pegaram” por conta de nomes de revistas famosas.) Mas é curioso que existam tantos nomes para a mesma coisa, enquanto literatura, cinema, teatro, fotografia e outras formas de expressão ficaram com nomes praticamente similares na maioria das línguas.

Ou a explicação é bem fácil: quadrinhos são tão bastardos e desvalorizados que ninguém se deu ao trabalho de inventar um nome bonito com raiz no grego, no latim e tal.

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Mas, enfim, independente de como se chame a coisa, o que define o que é um quadrinho?

A última coluna gerou uma série de conversas legais, com gente disposta a entrar na brincadeira de achar as palavrinhas certas que digam que é isso e não aquilo. Uma destas conversas, com o escritor Brontops Baruq, me lembrou uma coisa que, se não me engano, o Will Eisner também comenta em seus livros.

O caso é que quando o Brontops lê gibis para o filho, o menino começa a usar elementos do final da página antes do pai chegar lá. “Em um livro, ele aguarda pacientemente o que estou contando (afinal, ele ainda não lê). Mas no caso dos quadrinhos, eu vejo que ele fica meio confuso: parece que está tudo acontecendo ao mesmo tempo. E, de certa forma, está mesmo: tudo que está na página é ‘ao mesmo tempo’, nós é que já nos acostumamos a fazer a sequência temporal”, escreveu-me o Brontops.

E isso me colocou a pensar sobre a suma importância da página como elemento singular dos quadrinhos. Essa página pode ser de papel ou outro suporte físico, pode ser virtualmente infinita numa tela, mas o fato é que ela foi pensada e fechada pelo quadrinista como algo indivisível. A página pode ser a história inteira ou só um pedaço da história, mas é um espaço onde a (ou um trecho da) narrativa está expressa segundo uma composição específica reconhecida pelo autor, e a partir daí não se mexe mais.

De novo recorrendo à tradução: quando se publica uma HQ em outro idioma, pelo menos no mercado atual, é raro a editora modificar as proporções altura x largura e o conteúdo de cada página. Todos os quadradinhos de cada página são iguais em todos os idiomas (com exceção das letrinhas, é óbvio). Às vezes há exigências contratuais não só para que se mantenha a proporção, mas também o formato exato, quando não o tipo de papel. Para minha pesquisa atual, é muito relevante que a editora da tradução seja obrigada a (ou tenha preocupação em) manter as características tipográficas do original. Isto é largamente irrelevante para traduções de outras formas de expressão — como a literatura — mas é bastante relevante no caso dos quadrinhos.

E aí, pensando isso, você começa a considerar que design é uma palavrinha essencial para ligar aos quadrinhos. Há um projeto específico de uma configuração específica de imagens com vistas a contar uma história. Tem que achar aí uma raiz grega para algo que diga “projeto narrativo pictórico” e dar um nome novo pra coisa.

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De qualquer forma, nada disso resolve minha sanha atual de tentar mostrar que esta capa do Chris Ware para a New Yorker é, sozinha, uma história em quadrinhos. Fica para a próxima coluna — e aceito comentários ou contestações nas caixinhas abaixo.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
Site – Twitter – Outros Quadrinhos

 

Definições (1)

Por Érico Assis


Imagem: Austin Kleon

“Histórias em quadrinhos são palavras e imagens. Você faz de tudo com palavras e imagens.” A definição de quadrinhos do Harvey Pekar é bastante repetida. Também é sonhadora, tocante, bonita. Basta para 99,9% das pessoas que já pensaram o que é uma HQ. Eu, porém, acabo de cair no mundo dos 0,01% para quem ela não basta: o mundo acadêmico. Nos próximos 3 ou 4 (ou 10, ou 40) anos, sou pesquisador de quadrinhos, mais especificamente de tradução de HQ. E uma das primeiras coisas que um pesquisador tem que fazer é definir a coisa que está estudando.

Definir uma coisa é separar essa coisa do resto do mundo: encontrar uma forma sucinta de dizer tudo que a coisa não é. No 0,01% acadêmico já se viu muita gente definindo quadrinhos, cada um de um jeito, muitos deles reconhecendo a briga que é defini-los. Aí entram picuinhas políticas, culturais e também pessoais que os autores puxam para dizer que não querem que tal coisa seja quadrinhos.

Há os que dizem que, para ser quadrinho, tem que haver pelo menos duas imagens formando uma sequência. Outros veem narrativa quadrinística em histórias de um quadro só. Tem os que se recusam a ver fotonovela como quadrinhos, e os que veem fotonovela, livros infantis e as estações da via sacra como quadrinhos. Alguns vinculam quadrinhos à reprodução impressa, o que exclui não só as HQs digitais mas também os que veem HQ na Coluna de Trajano (séc. II), na Tapeçaria de Bayeux (séc. XI) e algumas iluminuras. Mas se estas forem aceitas como quadrinhos, então toda escrita ideogramática ou cuneiforme também seria HQ? E quando se usa recurso de animação, como os gifs animados de algumas webcomics, aí a HQ deixa de ser HQ? Há quem diga que, se o movimento/tempo não acontece na cabeça do leitor, não é uma HQ. E aí?

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O livro que estou lendo no momento, A Comics Studies Reader, tem uma seção dedicada a textos sobre definição de HQ. Embora não componha o livro, a definição de Scott McCloud – que não é exatamente uma definição acadêmica, mas é muito usada nos EUA e no Brasil – paira sobre os outros autores: as “imagens pictóricas justapostas em sequência deliberada”. A abordagem de McCloud busca transformar a definição num problema de engenharia. Nos seus livros, ele até ajuda o leitor ao explicá-la em forma de quadrinhos. Só que ela se choca com o povo que diz que pode existir quadrinho em uma imagem solo (ou seja, não justaposta a outra). Os próprios organizadores do Comics Studies Reader, entre outros, dizem que ela “carece de sofisticação”.

Sofisticados, claro, seriam os franceses, aquele povo que ama e cultua quadrinhos. Ou melhor, um belga: Thierry Groensteen, que escreve teoricamente sobre HQs há três décadas e vez por outra também ataca de quadrinista. Fazia anos que eu ouvia falar da principal obra dele, Système de la bande dessinée, mas só resolvi encarar a leitura há uns dias. Digamos que ainda estamos nos acertando, com dificuldades. Groensteen toma o caminho da semiótica e cria alguns conceitos interessantes, como o de solidariedade icônica (a essência seria ter duas imagens separadas, mas no mesmo espaço e com alguma conexão semântica ou formal) e de artrologia (a articulação entre as imagens). Mas aí entro em meus problemas pessoais com a semiótica: sempre lembro de um professor da graduação que me dizia que, passando de ícone-índice-símbolo, tudo na semiótica é masturbação mental.

Embora ainda esteja brigando com o texto de Groensteen, um dos meus achados queridos foi a remissão que ele faz a um ensaio de Alain Rey – linguista e personalidade literária na França como editor do Le Robert. Rey diz que “o intercâmbio entre os valores textual e pictórico cria a essência dos quadrinhos”, e que falar somente em imagem e texto é superficial, pois o que acontece nas HQs é “uma batalha entre figuração e narratividade”. O que, por mais que bata com o que o Harvey Pekar disse, é tão bonito quanto a definição pekariana. E voltamos ao problema: frases que não definem nada, mas que não deixam de ser lindas.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Piratinhas

Por Érico Assis
DIY Comic Scanning Rig…

Na quarta-feira, foi só tocar na internet que os e-mails, RSSs e tuíters pululavam: The Sandman Overture #2 havia saído, e a internet viu que The Sandman Overture #2 era boa. Entre abrir outra aba do navegador, entrar no site, um clique para categoria, um clique no link, um clique no torrent, passaram 15 segundos. Voltei às minhas outras abas, mas o balãozinho do µTorrent não levou 20 segundos para pular: The_Sandman_-_Overture_002_(2014)_(3_covers)_(digital)_(Son_of_Ultron-Empire) has finished downloading. O iPad já estava conectado no computador, então bastou arrastar o arquivo e largar no iTunes. Mais três segundos, e abri The Sandman Overture #2 numa tela que seguro nas mãos da mesma forma que um gibi.

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Faz pouco mais de dez anos que um passarinho de tapa-olho me anunciou que, sabendo procurar, todos os gibis que eu queria estavam na internet – se não para ter fisicamente, pelo menos para ler. Exigia um software meio arcano, endereços numéricos que não se localizavam no Google e ser aceito numa comunidade. Antes de meu quatro-oito-meia ter um HD que contasse gigas, os grandes nicks da comunidade anunciavam pastas de 10, 20, 100 GBs onde se encontrava – geralmente com organização impecável – Miracleman completo, a coleção de HQs do Grant Morrison por editora inglesa obscura, Akira colorido, Uncanny X-Men 1 a 442 e assim por diante. Era clicar e aguardar, às vezes alguns dias. Mas chegavam.

Levei um tempo para descobrir as pastas 0-day. Nem imaginava que fosse possível: os quadrinhos lançados nos Estados Unidos naquela semana. Já é tradição de muito tempo a quarta-feira ser dia de lançamento lá fora; pois bem: na quarta-feira à noite (nosso fuso horário), boa parte das 20 ou 30 novidades da semana que me interessavam já estava lá, scanneada, tratada, organizada em arquivos .cbr (comic book reader). Até a sexta-feira, todas estavam disponíveis.

Em dez anos, a precariedade do esquema quase desapareceu. Google, três cliques e uma conexão decente rende os gibis da semana em minutos – na mesma quarta-feira. Os sites de compartilhamento são aqueles com banners que piscam “ENCONTRE UMA MULHER! FALE COM UMA MULHER! FODA UMA MULHER!”. Sempre que vejo isso, lembro de uns vinte anos antes e eu andando por sebos/casas de jogo do bicho, que exibiam infinitas Playboy e EleEla na parede. Eu seguia diligente a procurar os números que me faltavam de Capitão América.

Aliás, minha última descoberta nesses sites é que outros interessados de tapa-olhos vêm scanneando coleções inteiras dos gibis da Editora Abril (COM os anúncios do Instituto Universal Brasileiro e dos Tênis Kimkol), incluindo as Capitão América que eu nunca encontrei. Há também outros seres de olho de vidro que já digitalizaram Circo, Animal, Piratas do Tietê, Fradim, a primeira tradução de Sandman…

Praticamente toda a história dos quadrinhos dos EUA já foi scanneada. Uma das brincadeiras mais recentes dos camaradas com perna de pau é organizar a cronologia da Marvel em ordem de leitura: as pastas têm umas 70-80 edições na ordem de lançamento do cânone, desde Fantastic Four #1, de 1961. Já são quase 150 pastas.

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Existem livros inteiros para discutir a pirataria, e o assunto realmente é complexo. É melhor não me alongar, por isso fico em duas observações. Para os já adeptos baixantes-torrenteantes: é muito legal ter acesso a tudo, mas pense se o responsável pelo material que você gostou não merecia algum incentivo pecuniário. Há poucos dias, felizmente convenci um amigo de que a Sequart – um pequeno coletivo inglês que faz belos documentários sobre quadrinhos – merecia 10 dólares pelo download de cada filme, independente de estes filmes serem vendidos digitalmente e estarem disponíveis de graça.

E para os que veem a pirataria como cara de mau: minha Sandman Overture Deluxe Edition já está encomendada.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Quadrinhos que existem

Por Érico Assis

Dominion, a cidade maquete de Seth.

Existe Seth e existe Dominion. Dominion é uma cidade canadense da província de Ontário com belos prédios históricos e um passado rico em produção cultural que foi vítima da decadência econômica. Dominion existe no porão da casa de Seth: é uma maquete construída com papelão, tinta e cola. Também existe em vários cadernos de anotações de Seth, assim como serve de cenário a várias HQs que ele já publicou: Wimbledon Green, George Sprott, The Great Northern Brotherhood of Canadian Cartoonists.

Assim como existe Emmanuel Guibert, que, em 1994, estava caminhando pelas ruas da Ilha de Ré e pediu informações a um idoso. O idoso era um norte-americano chamado Alan Cope. A amizade entre os dois durou até a morte de Alan, cinco anos depois. Guibert dedicou boa parte de sua obra às memórias do amigo: três tomos de A Guerra de Alan (Cope serviu na Segunda Guerra) mais um de A Infância de Alan, possivelmente mais pela frente. “Produzo livros para provar que é possível uma pessoa ouvir outra com tanto cuidado que se descobrem coincidências de perspectiva, pois é fato que há certa lógica na vida”, diz.

Existe Anamorphosis, de Shintaro Kago. A história principal começa com um apresentador de TV que morre durante uma pegadinha na qual veste fantasia de monstro arrasando uma Tóquio-maquete. Um bilionário convida seis pessoas a reviver o momento do acidente, com direito a invocação do espírito do morto. Nas histórias secundárias, uma detetive adolescente investiga as forças eletromagnéticas que mataram uma mulher durante fantasia sexual; um cientista coleciona pessoas que fazem chover sempre que se excitam, para que procriem e gerem uma raça de bebês “chuventos” com benefícios à agricultura e potencial bélico (inundar países inimigos com tempestades); uma garota acorda com uma boca no lugar do mamilo e o médico lhe explica que é um fato corriqueiro como os bebês que trocam a boca pelo mamilo da mãe ao mamar, como as mãos que trocam de lugar com maçanetas, como os dedos que trocam de lugar com as teclas do computador; ela perdeu o mamilo durante uma noite de bebedeira e só vai reencontrá-lo 40 anos depois.

Existe uma HQ sobre namorados que param o tempo quando fazem sexo e decidem usar o poder para virar ladrões. Chama-se Sex Criminals e ficou em primeiro lugar na lista de melhores HQs de 2013 da Time. Existe Lastman, que tem quase todas as características de uma mangá — como lutas de mais de vinte páginas —, mas é co-criação de um dos maiores nomes do “quadrinho-arte” francês: Bastien Vivès. Como bom mangá, Vivès e parceiros — Balak e Michaël Sanlaville — já estão projetando a transição da série para videogame e animação. Existe Meanwhile, a HQ de Jason Shiga na qual você escolhe entre opções de desenvolvimento da história e tem 3856 possibilidades de trama — talvez de leitura mais fácil num app. Existe 3”, de Marc-Antoine Mathieu, que acompanha a trajetória de uma bala de espingarda por Paris durante três segundos em 72 páginas.

Existem 1h25 e Momon, as autobiografias em que a francesa Judith Forest relata problemas com os pais, com as drogas, com as aventuras sexuais e com o próprio sucesso, pois sua história acabou virando um dos destaques recentes do mercado franco-belga. Judith Forest, porém, não existe. Foi inventada por uma turma de quadrinistas que queriam discutir a gana do mercado editorial pelas HQs autobiográficas (“e se a ‘sinceridade’ não fosse mais que estratégia de marketing?”, perguntam). A mesma turma — comandada pelo editor Xavier Löwenthal — é responsável por Katz, um détournement de Maus onde os rostos de todos os personagens são substituídos pelos de gatos (independente se gatos, ratos, cachorros ou outro bicho no original). Katz não existe mais, juram eles: a tiragem foi completamente destruída em resposta a uma ameaça de processo da editora francesa de Maus. O que não os impediu de publicar Metakatz (assim como existe um Metamaus), livro de entrevistas e tributos que documenta todo o processo de Katz.

Conheci alguns dos exemplos acima no livro Comics Art, escrito pelo crítico, historiador e jornalista Paul Gravett a convite dos museus Tate — porque, sim, existe um livro sobre quadrinhos enquanto arte editado pelos museus Tate.

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Recentemente me perguntaram se muitos lançamentos em quadrinhos estrangeiros demoram para chegar ao Brasil. Respondi que sim: a esmagadora maioria. É óbvio que o mercado brasileiro não comporta nem precisaria comportar tudo que se edita lá fora, mas ainda há um problema de representatividade por aqui: há um percentual dessa esmagadora maioria que é composto por quadrinhos de temática diversificada, premissas atraentes e já imbuídos de certo renome no mercado de origem. Já fiz uma lista parecida e repito: eles existem.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Desde criancinha

Por Érico Assis


Você assiste True Detective, né? Como assim, “não”?

Ainda não ouviu falar das performances auge-da-carreira de Matthew McConaughey e Woody Harrelson? Não sabe do roteiro que mistura o pulp detetivesco centenário ao existencialismo foster-wallaciano? Não viu o plano-sequência de seis minutos do fim do episódio 4, “uma das maiores realizações cinematográficas da televisão”? (Aqui, ó.)

Tenha assistido ou não, goste ou não, True Detective é o centro do auê middlebrow em fevereiro de 2014. E o auê leva a notinhas jornalísticas como essa: “True Detective: é tudo culpa de Alan Moore e Grant Morrison”, da parte de um site especializado em quadrinhos e cinema, o Bleeding Cool.

A nota recupera um texto de 2010 do criador do seriado, Nic Pizzolatto, no qual ele fala sobre suas influências e diz que passou a infância lendo gibis de Moore e Morrison. Ok que depois tenha se engraçado com William Faulkner, com Raymond Chandler, com Cormac McCarthy, Alice Munro. Importa para nós, povo dos gibis, que ele leu Moore e Morrison, e que “numa casa sem muitos livros, a sofisticação e profundidade das histórias deles faziam qualquer criança pirar”.

Dizer que você lia (ou lê) gibis, principalmente se hoje você contribui com uma arte mais séria — todas as outras —, ainda é uma coisa que sai dos lábios com um tom de transgressão, de audácia, de desafio aos baluartes intelectuais. É como um chef dizer que se inspirou no McDonald’s. O auge desse gostinho de desafio foi a pop art, de forma mais óbvia nos quadrões do Lichtenstein: pegamos esse negócio sujo, barato e infantil, ampliamos, colocamos no museu e, rá-rá, o lixo virou arte.

Mas a pop art foi um movimento de cinquenta anos atrás, e os pontos de referência da — e dos entendidos em — arte de museu já deviam ter mudado. O certo é que os pontos de referência dos quadrinhos mudaram. Pizzolatto, que tem 38 anos, teve a adolescência sincronizada com o quadrinho norte-americano da segunda metade dos anos 80, momento de explosão das HQs com pretensões artístico-literárias. Para ficar nos nomes que ele citou, havia Watchmen de Moore e Asilo Arkham de Morrison, entre outras obras dos dois e de outros. Se você lia quadrinhos na época e seguiu alguma carreira criativa, é difícil não dizer que esses autores foram influência.

Por outro lado, hoje em dia conta pontos para o currículo dizer que você leu muito gibi se quiser trabalhar na alta roda da produção audiovisual. As melhores bilheterias do cinema são de filmes baseados em gibis, a melhor audiência da TV a cabo é de um seriado baseado em HQ. Até o mercado editorial passou por uma época de alta receptividade se você dissesse que era mais influenciado pelo Stan Lee do que pelo Steinbeck. Você conhece os caras, os personagens e a mina de ouro.

Já do lado de cá, da audiência, o prazer transgressor está em falar que todas essas figuras que frequentam telonas e telinhas fazem parte da sua vida desde sempre. Não que isso tenha muita relevância para os pares, mas dá um tiquinho de auto-satisfação.

Para todos os outros, que nunca leram e que querem ficar por dentro dos próximos auês pop-culturais, recomendo o seguinte: comece a espalhar por aí que lê Preacher desde criancinha.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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