Érico Assis

O futuro ainda não chegou

Por Érico Assis

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Capa de The Private Eye.

Na quinta-feira, dia 19, saiu a décima e última edição de The Private Eye. Foi a conclusão da trama sobre o detetive particular que, em 2176, descobre um plano terrorista para reativar a internet. Na futurologia dos autores, em algum momento deste século a Nuvem vai estourar e seus dados, senhas, fotos e histórico de navegação ficarão abertos para o mundo. O desligamento da internet será só o primeiro passo para remediar o caos. A seguir, a privacidade vai virar valor máximo, a ponto de as pessoas andarem na rua de máscara. Ironia ou não, já que ninguém se mete na vida dos outros e ninguém perde tempo em rede social, a sociedade é muito mais produtiva.

A premissa de The Private Eye contrasta com outra ironia: é uma HQ que só existe na internet. Os autores — o escritor Brian K. Vaughan e o desenhista Marcos Martin, ambos com renome considerável nos quadrinhos dos EUA — quiseram fazer uma experiência. Sem editora e sem intermediário algum, lançaram um gibi no estilo norte-americano, em capítulos mais ou menos mensais de vinte e poucas páginas, somente em formato digital aberto (pdfs e cbrs, copiáveis sem restrição) e cobraram segundo o modelo Radiohead: pague o quanto quiser. Você pode inclusive pagar zero dólares e baixar o arquivo no site da dupla, PanelSyndicate.com. Fica a sugestão de que, se você gostar da história, volte ao site e deixe uns caraminguás.

É praxe dos roteiristas de quadrinhos envolverem-se simultaneamente em diversos projetos. Vaughan, o escritor, não teve que largar a segunda série de maior sucesso entre os gibis autorais dos EUA, Saga, nem seu emprego de roteirista de TV para tocar The Private Eye. Martin, o desenhista, por sua vez largou serviço garantido na Marvel para se dedicar à experiência. Terceira ironia: Martin acreditava que a experiência ia dar certo; Vaughan, não.

Dois anos depois — comemorados na quinta-feira —, os dois estavam errados.

Primeiro porque, sim, o gibi rendeu. Mesmo com a opção de pagar nada, um bom número de leitores deu dois ou mais dólares para baixar o arquivo. Fizeram o mesmo na edição seguinte, na posterior e assim por diante. O Panel Syndicate divulgou apenas uma cifra: em um ano e meio, haviam arrecadado mais de 100 mil dólares. O que não é nada espetacular, mas não é trocado.

Em entrevistas, Vaughan diz que a grana sustenta Martin e a esposa Muntsa Vicente (colorista da série, que também não se dedica exclusivamente a Private Eye). Se tivessem seguido o modelo tradicional de gibi autoral impresso, porém, Vaughan acha que a renda seria maior — ele levanta seu próprio Saga como exemplo.

“O motivo pelo qual eu digo que o futuro [do modelo The Private Eye] ainda não chegou (…) é que a imensa maioria dos leitores de gibi impresso, de momento, tem pouco ou zero interesse em ler gibi no formato digital. Não interessa quantas vezes eu e o Marcos tenhamos repetido que não existe plano de lançar nada do Panel Syndicate impresso, a maioria dos meus leitores de gibi analógico, como Saga, diz que só vai conferir Private Eye quando sair em papel.” Vaughan releva que este público tradicionalista — do qual ele faz parte — está em diminuição natural e que o público que surge por vias digitais não vem com frescura arraigada. Além de estar em expansão.

Por outro lado, uma das críticas ao projeto é que os autores mandaram o cronograma mensal que haviam prometido para as cucuias: a espera entre as edições passou para dois, depois três meses. Numa editora tradicional, o cronograma imprevisível seria inadmissível.

A experiência de The Private Eye é muito instrutiva. A circulação do quadrinho de papel sempre foi um empecilho e virou uma situação mais complicada nas últimas décadas: impressão e distribuição ficam sempre mais caras, a segmentação do mercado prejudicou a renovação de leitores e há um universo inteiro de distrações por aí, muitas mais baratas. Já o quadrinho digital bate-se com a grande incógnita da boa vontade: como conseguir um bom número de pagantes por algo que existe de graça? The Private Eye não é um caminho pronto, mas dá indicativos do que autores podem montar e ajustar, e das expectativas que  podem ter.

Seja como for, Vaughan e Martin já anunciaram que farão um novo projeto nos mesmos moldes, embora não tenham dito se farão ajustes no modelo. Também disseram que convidaram “grandes nomes” dos quadrinhos para participar da iniciativa, incentivando outros a lançar seus próprios sites. “A distribuição autoral vai ser tão importante para os próximos 25 anos da indústria quanto a publicação autoral foi para os últimos 25.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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O Teórico na Prática

Por Érico Assis

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Trecho de Desvendando os Quadrinhos.

Uma das resenhas de The Sculptor começa dizendo:

“The Sculptor, assim como Terror Sagrado de Frank Miller, Batman: Odisseia de Neal Adams e Ghost in the Shell Volume 2 de Masamune Shirow, é uma HQ que só existe porque o autor é bem quisto demais para lhe dizerem ‘Não’.”

O que eu considero uma coisa meio mandona, levemente hiperbólica, decididamente maldosa… que, quem sabe, capta um dos problemas do álbum. A resenha prossegue pontuando pontos fracos, que são vários: personagens mal construídos, uma trama que não vale 400 páginas, desenhos acadêmicos e uma pilha de clichês.

The Sculptor foi lançada há poucas semanas. É a graphic novel mais comentada que se vê no mercado livreiro nesses últimos anos. A maioria das resenhas, diferentes da que eu citei, é elogiosa. O Guardian fala em um “livro brilhante e envolvente”. Uma semana depois do lançamento, a Sony reservou os direitos para o cinema. Ler todas as entrevistas que o autor deu no último mês rende mais tempo de leitura que o álbum em si. O autor, no caso, é Scott McCloud.

Se não é a referência mais básica, McCloud deve estar num top 5 de autores mais influentes entre quem faz quadrinhos. No planeta. Ele não é influente devido às duas ou três graphic novels que desenhou, mas pelas obras teóricas: Desvendando os Quadrinhos, Reinventando os Quadrinhos e Desenhando Quadrinhos. A primeira, sobretudo, é o grande manual para mostrar como são complexas as narrativas com imagenzinhas e quantas possibilidades existem em colocar um quadro depois do outro. E, mesmo que sejam teóricos, são livros desenhados — são livros teóricos em quadrinhos.

Posso dizer que a minha descoberta de Desvendando, há uns vinte anos, fez eu repensar muitos dos gibis que tinha lido toda a vida, fez eu ler outros de que nunca tinha ouvido falar, me deu gosto por teoria, virou leituras de McLuhan, virou curso de Comunicação, jornalismo, mestrado, ser professor, esta coluna e vários etc. Continuo lendo e recorrendo às ideias do Desvendando (mesmo que já não concorde com todas), principalmente pela clareza de McCloud. Não sou o único com esse histórico.

Logo se percebeu que os livros de McCloud não se aplicavam só a quadrinhos, mas a animação, design gráfico, teoria narrativa e outros campos. Por conta disso ele vive como palestrante, dando cursos e fazendo projetos relacionados a comunicação visual em universidades e em empresas de tecnologia: Google, MIT, Harvard, Pixar. Nunca parou de escrever sobre quadrinhos, foi impulsionador dos webcomics e da competição 24-Hour Comics. No ano passado, foi editor convidado da coleção anual Best American Comics e o livro resultante podia entrar muito bem como quarto volume irmão de Desvendando / Reiventando / Desenhando; é uma aula sobre o que se faz de HQs e o que se inventa na mídia nesta década.

O que nos traz ao alarde e aos problemas em The Sculptor. A trama: jovem artista atormentado faz pacto com A Morte para ser um grande escultor em troca de uma existência limitada a 200 dias; aí descobre um Grande Amor e tem Lições. Dá um filme pipocão. Mas o que me incomoda — e provavelmente incomoda quem lê e relê o McCloud de Desvendando e cia. — é ver o traço tão claro, tão estudado, certinho, limpíssimo do autor tentando contar uma história que quer transmitir emoção ao invés de explicação.

Aos olhos de quem está acostumado aos livros teóricos, é impossível não notar quando McCloud faz perspectivas perfeitas, como se saíssem de um manual de desenho. Volta e meia você se lembra que: esta é literalmente a pessoa que mais entende dos recursos da narrativa em quadrinhos no mundo. Mas, quando os usa, parece que quer fazer uma lista e não contar uma história.

Numa das trocentas entrevistas de divulgação, McCloud dá um alento a quem só consegue vê-lo com estes olhos: planeja dar um passo além dos quadrinhos para escrever sobre comunicação visual em geral, incluindo animação, infográficos, educação. Será seu próximo livro teórico. É sacanagem dizer que ele deveria ater-se a este tipo de livro e esquecer arroubos como The Sculptor — é o que eu acho maldoso na sugestão da resenha lá em cima. Porém, ler uma história de McCloud, para mim, é como encontrar um professor fora da sala de aula, mas não conseguir ouvir o que ele diz se não como aula.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Je Suis Malheureux

Por Érico Assis

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Tenho um blog próprio para (também) falar de quadrinhos. Há alguns dias mandei e-mails para uns cinquenta autores de HQ brasileiros perguntando sobre suas agendas para 2015: o que iam lançar, o que iam produzir. São listas e mais listas.

Mas também recebi respostas de, digamos, agenda vazia. Teve um “Acho que desisti. Empacotei todas minhas páginas de quadrinhos e tirei do estúdio”. Outro: “Mandei currículo para trabalhar num banco semana passada, ainda não recebi resposta”. E um terceiro: “Por enquanto tô só torcendo pra conseguir me manter vivo e alimentado até o meio do ano, as perspectivas são no sentido contrário!”.

Fico lisonjeado em ver que meu curto e-mail copiado e colado para um monte de gente provocou respostas que me transformaram em, vá lá, confidente. Respondi todos dentro do meu possível — embora eu tenha tendência a ser mais Zelig do que ombro amigo.

Mandei os e-mails no dia seguinte ao Charlie Hebdo (um dos que me responderam disse, entre parênteses, “tive sonhos vívidos de ser assassinado na prancheta essa noite”). Antes do massacre, a principal conversa entre os quadrinistas franceses era outra: a precarização. Já faz algum tempo que o número de publicações por ano no mercado franco-belga vem aumentando, as tiragens baixando e, como os autores vivem dos royalties, o rendimento caiu. Depois, uma mudança na previdência francesa botou os quadrinistas em outra categoria de contribuição, o que também mexeu com o lucro. Houve abaixo-assinado ao Ministério da Cultura, “greve de autógrafos” e provavelmente haveria manifestações no Festival d’Angoulême, no final deste mês. A reclamação parece ínfima depois do dia 7, mas ainda inquieta. Segundo o último relatório da Associação de Críticos e Jornalistas de Bande Dessinée, 1411 europeus vivem de fazer quadrinhos francófonos — mas metade ganha menos que o salário mínimo francês.

“Estamos todos fodidos, uns mais, outros menos”, dizia um dos e-mails. Não se sabe quantas pessoas vivem profissionalmente de quadrinhos no Brasil. Muitos combinam os quadrinhos a outras fontes de renda. Ou, em muitos casos, fazem quadrinhos e têm fontes de renda. Não é muito diferente da situação de quem faz literatura brasileira. Contudo, há um bom número de brasileiros — talvez dê para contar em mais que mãos e pés – que trabalha para mercados de quadrinho estrangeiro, principalmente os EUA, e têm aí sua principal ou única renda.

Os três e-mails me deixaram marcado, mas ainda assim eram três entre mais de cinquenta. Nos demais, recebi listas de projetos com cronograma bem definido, colaborações planejadas profissionalmente até 2017, planos para revistas e sites, organização para Catarses, FIQ e CCXP, “o que mais aparecer que eu puder der conta” e “2014 foi um bom ano”. Não vieram só de quem trabalha para o estrangeiro.

Sem desconsiderar a desolação da parcela de autores que teve um ano fraco ou está passando por um momento complicado, dá para pensar que a desolação é um avanço. Até poucos anos, ninguém ficava triste por não se dar bem nos quadrinhos. Era o modo default: praticamente ninguém podia viver de HQ ou falar de sucesso com HQs. Agora, você pode até se sentir triste quando as vacas não engordam — desde que lembre que isso há de passar.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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RL

Por Érico Assis

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Capa de RL

as piradices que te ocorrem quando você vai desenhar a cena em que sua filha morre.

a- não usar a palavra “morrer”. deixe em branco e depois você cola as letras de outra parte da página

2- desenhe só alguns quadros — o quadro em que você toca nas costas dela para acordar, de manhã —  desenhe em outra folha e depois você cola. se você desenhar na prancha mesmo pode ser que aconteça

3- trabalhe em camadas e torça que depois elas fechem

4- faça tudo que for possível para não ser literal. faça tudo ter mais de um sentido. se tiver que ficar um rabisco só é porque você está no caminho certo. porque aí de repente sempre dá pra voltar atrás

5-deixar o lápis no arquivo do photoshop. Se precisar…

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Tom Hart e Leela Corman são um casal de quadrinistas. Ele apareceu na cena independente dos EUA no início dos anos 1990 e ficou conhecido principalmente pelo personagem Hutch Owen. É um quadrinista para quadrinistas — Craig Thompson, de Retalhos e Habibi, é grande fã —  e durante alguns anos foi professor de quadrinhos em Nova York. Corman, que se identifica “ilustradora, cartunista e dançarina estilo Oriente Médio”, lançou uma graphic novel bem comentada em 2012, Unterzakhn, sobre garotas judias crescendo na Nova York de cem anos atrás. Seus trabalhos atuais tendem para o documental: a história da dança do ventre, o Egito pós-revolução, músicos viajantes na Europa medieval.

Hart e Corman estavam morando em Nova York, e cansando de Nova York, quando a economia mundial veio abaixo. Em meio aos planos de mudar para a Flórida, onde haviam se conhecido, tiveram uma filha: Rosalie Lightning. O primeiro nome veio de uma música de Brian Eno. “Lightning”, relâmpago, porque ela era filha de quadrinistas.

Eles mudaram-se para a Flórida. Estavam tentando vender o apartamento em Nova York, mas nada dava certo. O dinheiro estava curto. O carro deles pifou. Estavam com trabalho atrasado. Tentavam distrair Rosalie com a nova casa, a nova vizinhança, os novos brinquedos. Enfim: vida, como é pra quase todo mundo.

Só que, um dia, Rosalie não acordou.

* * *

Não sabemos por que escolheram essa vida pra gente, e com certeza nem sei se essas são as palavras que se usa para quem somos e o que fazemos. Tem muita coisa que não sabemos.

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Tenho uma filha que está com três anos. Quando a Olivia tinha um ano, talvez antes, doutrinei ela a gostar de Meu Amigo Totoro. Antes de falar direito, a Olivia imitava os personagens levantando os braços naquela cena em que eles fazem as sementinhas virarem uma árvore gigante.

RL, a HQ autobiográfica de Tom Hart, começa com esta cena. Rosalie Lightning adorava Totoro e também ficava levantando os braços junto a Totoro, Satsuki, Mei e os mini-Totorinhos. Ela também ficava juntando acorns, as bolotas que caem das árvores, lembrando do filme.

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Faz poucos dias que perdemos Rosalie. Parece que uma bomba explodiu. “Explodiu no meu coração”, diz Leela.

Caminhamos.

Caminhamos em círculos no bairro do meu amigo Travis. Faz sol.

Assombramos as ruas.

Juntamos bolotas.

Nos escondemos. Choramos. Desabamos.

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Não ouso, de forma alguma, comparar o que eu sinto ao “desabar” de Hart. Mas RL me amassa por dentro. Não é pela coincidência do Totoro, mas com certeza é por ter uma filha e, como todo pai (ou não?), viver nessa iminência de que a coisa mais importante que você ajudou a criar pode sumir de um dia para o outro. Ou melhor: viver tentando não pensar nessa iminência.

RL é uma das HQs mais lindas que já li. Mas fico pensando se ela tem algum significado para quem não tem filhos, ou quem não encara a paternidade como eu. Ou como eu leria RL se ela existisse quatro anos atrás, antes da Olivia. Nossas histórias preferidas têm algo a ver com a nossa experiência pessoal, não tenho dúvida. Mas será que isso não invalida toda crítica, no sentido de a crítica propor a outros formas de ler algo — como estou fazendo agora — que eu só consigo ler assim porque eu sou eu?

* * *

A gente diz “saudade dela” como outros casais se dizem “te amo”.

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RL deve virar uma graphic novel nos próximos anos. Por enquanto, Hart publicou dois capítulos em versão digital, aqui. Descobri a história lendo o Best American Comics 2014. Depois tive algumas horas de insônia — que usei para me amassar um pouco mais lendo o Tumblr e o blog de Hart.

Ele e Corman tiveram uma segunda filha em 2013. Ela se chama Molly Rose.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Übersetzungen von Comics

Por Érico Assis

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Quadrinho do cartaz do congresso Übersetzungen und Adaptionen von Comics.

O diálogo é verídico:

— Então você vai na Alemanha para um congresso de tradutores?

— Hã, não é bem de tradutores, é de pesquisadores de tradução. Acadêmico e tal…

— Pesquisadores de tradução. Putz, mas é bem específico, né?

— Hã. Na verdade é só de pesquisadores de tradução de história em quadrinhos.

— …

— …

— Na Alemanha, é?

* * *

Hildesheim é uma cidade de médio porte que fica quase no meio do mapa alemão. Você chega no aeroporto de Hannover e pega o trem que leva precisos 67 minutos, contando os 11 de baldeação na Hannover Hauptbanhof, até a Hildesheim Hauptbanhof. A cidade tem 100 mil habitantes, já começou comemorações do 1200º aniversário (chupa, História do Brasil) e eu nunca tinha ouvido falar de sua existência.

A Universität Hildesheim, especificamente o Campus Bühler, fica no meio de um bairro residencial extra-arborizado, de ruas curvas com prediozinhos uniformes de três andares. Foi lá que aconteceu o Congresso Übersetzungen und Adaptionen von Comics, ou Tradução e Adaptação de Quadrinhos, entre 31 de outubro e 2 de novembro. Diziam os pesquisadores mais experientes que era o primeiro congresso do mundo especificamente com este tema. “O primeiro do universo!”, brincou a organizadora, Dra. Nathalie Mälzer.

Foi relativamente pequeno, com menos de 30 trabalhos. Fora eu e uma professora que veio de Penang, todos os congressistas eram de universidades europeias. Aceitava-se trabalhos em inglês, mas a grande maioria apresentava em alemão. Para quem só entende eins, zwei, drei  e apfelstrudel (meu caso), havia intérpretes que faziam chuchotage — interpretação sussurrada. Às vezes era só eu, às vezes era um grupinho de dois ou três em volta da intérprete, de ouvido voltado para ela e olhos no palestrante. O resto da sala, germano-parlante, nos olhava estranho. Numa das apresentações, uma senhora idosa veio reclamar que a intérprete estava sussurrando muito alto.

* * *

Mais tarde descobri que a reclamona também ia fazer uma apresentação: era Gudrun Penndorf, tradutora de Asterix e meio que sumidade da tradução (de quadrinhos) alemã. O nome dela só era menos citado que o de Erika Fuchs (1906-2005), tradutora e editora que passou décadas vertendo Pato Donald (em alemão: Donald Duck), carregando o gibi de referências literárias germânicas e criando neologismos que entraram no dicionário.

Apesar de arisca com minha chuchoteuse, Penndorf falou durante mais de uma hora e o público ria, ria muito. Eu não entendia nada. Nas apresentações que tratavam de tradução para o alemão, de soluções específicas que os tradutores nacionais encontraram ao verter do inglês, do francês, do italiano ou outros idiomas, as intérpretes se retiravam porque, de fato, seria quase intraduzível para quem não entende alemão. Mas o povo riu e bateu nas mesas.

(Tradição das universidades alemãs: ao invés de bater palmas, feche o punho e bata na mesa.)

* * *

Grande parte dos trabalhos tendia mais para Adaptação e menos para Tradução. As adaptações de literatura para os quadrinhos, por exemplo: adoravam citar uma HQ clássica do Mickey (em alemão: Micky Maus) que seguia A Divina Comédia com fidelidade incrível.

Em uma das apresentações, o pesquisador aventou que Joubert, o narrador do Gemma Bovery de Posy Simmonds — adaptação bastante livre do Madame Bovary de Flaubert — seria Simmonds criando uma perspectiva em abismo crítica ao ter ela, autora, trazendo um personagem masculino para narrar a vida de uma mulher, assim como a perspectiva do Flaubert homem sobre sua Bovary original. Duas meninas na minha frente se olharam com cara de tacho e, por baixo da mesa, fizeram o gesto universal da punheta filosófica.

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Descobri que a tradução alemã de Jimmy Corrigan (em alemão: Jimmy Corrigan) levou uns seis anos basicamente porque eles não tinham uma Lilian Mitsunaga. Descobri que existe uma tradutora em Berlim ligada no quadrinho brasileiro tentando vender os álbuns daqui para as editoras de lá. E descobri que o principal argumento da minha apresentação já tinha sido mais ou menos tratado por outro pesquisador, em livro, uns dez anos atrás.

Aliás, ouvi isso do próprio autor, Klaus Kaindl, que me informou do fato com a devida educação austríaca. Tentei virar o jogo dizendo que estava procurando orientador para meu sanduíche, e que ele era um dos mais indicados…

— Sim, mas eu estou em Viena, meu idioma é o alemão e você não fala alemão…

— Bom, então… eu aprendo alemão?

Ele riu.

— Érico, acaba teu doutorado. Depois você aprende alemão.

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Agradecimentos ao Augusto Paim, hervorragend tradutor de HQs alemãs que estava lá em Hildesheim para me ajudar a decifrar cardápios, pegar ônibus e fugir das armadilhas de turista.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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