Érico Assis

A Seleção

Por Érico Assis


Era o Elio Gaspari que escrevia “saiu um livrão”? Enfim, saiu um livrão: Outside the Box, interviews with contemporary cartoonists [Fora da caixinha: entrevistas com quadrinistas contemporâneos], de Hillary Chute. É uma coleção de entrevistas com nomes importantes do quadrinho graphic-novelesco dos EUA, que a autora publicou principalmente na revista Believer.

A lista de entrevistados é óbvia: vem de um lastro de capas duras, premiações literárias e resenhas no New York Times. Já que estamos na semana em que estamos, vamos chamar de Seleção: os atacantes Dan Clowes, Chris Ware, Aline Kominsky-Crumb; os meio-campistas Joe Sacco, Lynda Barry, Alison Bechdel, Adrian Tomine e Charles Burns; os zagueiros Scott McCloud e Françoise Mouly; e o goleiro Art Spiegelman.

O time unissex de Chute (belo nome para técnica) tem seus momentos, principalmente para quem prefere o futebol-técnica ao futebol-arte. As entrevistas envolvem as perguntas esperadas sobre trajetória e carreira, sendo que a entrevistadora tem tendência para as motivações: por que visitar zonas de guerra para produzir uma HQ? Por que lançar uma revista de quadrinho de vanguarda? Por que não viver só de ilustração? Não se chega ao nível de perguntar qual a marca da lapiseira de cada um, mas há muita análise de composição de página, sensações que se queria transmitir com determinadas cenas, no que implica aquela variação no traço. Tem até momentos de futebol-arte — o capítulo com Spiegelman e Ware, que é uma conversa entre os dois mediada por Chute, é cheio de elucubrações filosóficas que terminam com os dois fazendo piada de si mesmo. Entende-se que todos prefiram guardar olés e finalizações mágicas para as HQs, não para entrevistas.

Um dos problemas com a Seleção de Chute é o das vaias por quem não foi convocado: cadê Craig Thompson, cadê David Mazzucchelli? Seth e Chester Brown não entram porque falta a cidadania estadunidense? Como montar ataque sem os irmãos Hernandez? Será que o Robert Crumb entrou no mínimo de preparador físico?

Mas o problema que mais salta aos olhos na lista é a idade. Nenhum dos convocados tem menos de 20 anos de quadrinhos; Spiegelman e Aline Crumb têm o dobro disso. O que não é demérito à qualidade do que fazem ou do que fizeram — a tendência neles é melhorar com a idade. Mas um livro de 2014 que fala  “contemporâneos” no subtítulo não conseguiu localizar um nome importante que tenha aparecido neste século?

Não seria fácil por vários motivos. O principal é que o mercado livreiro começou a levar os quadrinhos a sério somente na década passada, e isso indubitavelmente foi obra dessa Seleção que passou décadas de 70, 80 e 90 jogando na várzea. O jogo já existia antes, mas não havia essa arena com holofotes e trocentos mil assentos. Nem livros de “entrevistas com quadrinistas contemporâneos”.

Também é difícil falar em relevância de um novo artista quando não se tem o distanciamento temporal do que ele produziu. Sabe-se lá se Umbigo sem fundo continuará sendo tão comentada quanto foi em 2008. Mas dá para fazer apostas ou, com o perdão do trocadilho, Chutes: Joseph Lambert, Lucy Knisley, Darwyn Cooke, Jeff Lemire, Lilli Carré e meia dúzia de outros têm alguma consistência no que fazem — e prêmios e resenhas no New York Times — e dá para chamá-los de relevantes entre os “quadrinistas contemporâneos”.

Há outra forma de ver a questão. Li há poucos dias This One Summer, de Jillian e Mariko Tamaki, álbum deste ano que tem uma história linda sobre adolescência, com desenho e texto líricos — líricos de um jeito que só os quadrinhos conseguem. Não tem capa dura, mas prêmios e resenha no New York Times estão por vir. Percebe-se influência de cada componente da Seleção no que as Tamakis fizeram, embora elas não venham com nada de revolucionário em termos de linguagem, proposta, formato etc. Talvez a nova equipe seja essa: que se inspira na Seleção anterior não para reinventar o jogo, mas apenas para jogar bonito.

E não consigo parar de imaginar Spiegelman encostado na trave, fumando, o goleiro desnecessário diante do time que se tem em campo.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Definições (3)

Por Érico Assis


Começamos pela imagem que eu mencionei na penúltima coluna: uma das capas da New Yorker pelo Chris Ware. Há um casal na bancada da cozinha analisando e fazendo contas, prostrados, as mãos segurando o corpo pelas testas. Alheia ao casal, no chão da cozinha, a menina de vestido rosa desenha dinheiro. Ela estava com os pais (note o assento vazio e o copo rosa), entendeu a preocupação dos dois, pegou suas canetinhas e foi criar uma solução.

As definições de histórias em quadrinhos costumam excluir cenas “de uma imagem só”. Seriam necessárias no mínimo duas, “justapostas em sequência deliberada”, como diz o Scott McCloud. Caso não fosse assim, teme-se que qualquer fotografia, qualquer pintura, qualquer rabisco poderia ser chamado de HQ. McCloud é defensor da “sarjeta” [gutter] como elemento de extrema importância dos quadrinhos: aquele espacinho entre um quadro e outro (seja uma coluna em branco, seja uma virada de página, seja um risco) é o espacinho que conota uma transição no tempo e/ou na localização da história. É o que cria a narrativa. Não há sarjeta na capa de Ware. Entende-se que pais prostrados e menina desenhando são ações perfeitamente simultâneas, como numa foto.

Mas a imagem tem uma narrativa, e é uma narrativa deliberada. A diagonal que faz a bancada é um guia para os olhos: o abajur aceso (estamos no fim do dia), o copinho rosa, as contas e contas, os copos do casal, os dois prostrados, a mão na calculadora, os talões de cheque (estamos numa cena típica de casal suburbano com dificuldades financeiras) e, descendo do balcão, a menina de rosa desenhando ao lado da registradora rosa (ela estava na mesa, desceu e foi resolver a situação dentro de sua fantasia). Há um projeto na composição da imagem propondo que os olhos sigam este caminho e que o leitor considere que existe uma estrutura narrativa, um aconteceu-isso-depois-aquilo — o que não existe em qualquer pintura, fotografia ou rabisco. Volto àquela consideração que fiz na penúltima coluna, de que design é o ponto a ser considerado para contar uma história em quadrinhos — ter uma composição armada para contar uma história seria a chave, com ou sem delimitação de quadros.

Chris Ware, obviamente, é quadrinista e vai utilizar elementos de narrativa em quadrinhos quando é convidado a ilustrar uma capa. Nem todas suas capas da New Yorker, porém, poderiam ser chamadas de HQ. Vejo o design narrativo bem arquitetado nesta e nesta, mas não nesta nem nesta. A capa que escolhi para analisar ainda poderia ser considerada parte de uma obra maior — ela integra Building Stories —, mas quero defendê-la como HQ por si só. Convenci?

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Como já falei, estes textos sobre a definição dos quadrinhos renderem várias conversas. Uma delas foi com o Pedro Franz, que recomendou a conferida no texto de outro Pedro, o Pedro Moura. Moura é o melhor crítico de quadrinhos português, com análises longas e ponderadas sobre cada HQ de que trata em seu blog ou em outros sites, sendo que escreve em francês e inglês (talvez outras línguas) a partir de um repertório de leituras de comics, mangá, BD, arte e cinema que engloba o mundo. Enfim: um cara para ser ouvido.

Moura conhece bem McCloud, Groensteen e outros (Neil Cohl, Pierre Fresnault-Deruelle, Harry Morgan), já passou por todas essas briguinhas de definição e tem sua conclusão: não se dê ao esforço. “Uma definição blindada para sempre é impossível, pois existirão sempre, felizmente, experiências que vão mais longe e complicam este território”, escreve ele numa entrevista. Se as webcomics de hoje que usam movimento e áudio ainda parecem HQ — e brigam com as definições fechadas pré-webcomics —, o que fazer a respeito de outras tecnologias e formas de fazer HQ que possam surgir? Há condições quase — ênfase no quase — combinadas para a definição, como as “imagens justapostas” ou a “solidariedade icônica”. Mas ir muito longe disso pode criar armadilhas, despreparos para o avanço histórico da linguagem.

Provavelmente ainda terei momentos de teimosia frente à recomendação de Moura. Mas guardo a busca de definição para o mundinho acadêmico — e também para as conversas, quem sabe.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Frank Quitely, grande engrenagem

Por Érico Assis


(Sim, eu sei que deveria dar sequência às colunas de definição do que é quadrinhos — a primeira e a segunda. Mas circunstâncias várias não deixaram eu me concentrar nisto nos últimos dias, por isso faço uma breve pausa na sequência. Na próxima volto ao assunto. Prometo.)

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O programa chama-se What Do Artists Do All Day?, e já achei o nome fantástico. Se alguém for passar no Brasil, sugiro traduzir para Mas Artista Passa O Dia Fazendo O Quê? São documentários curtos que enfocam um dia de trabalho na vida de um artista britânico. Pelo que vi no arquivo, pintores, gravuristas, romancistas, fotógrafos e uma taxidermista já foram tema.

Um dos últimos episódios documentou, em fotografia e edição moderninha, um dia de trabalho na vida de Frank Quitely, quadrinista escocês. Você assiste completo aí embaixo:

Quitely não é dos grandes monstros do quadrinho-arte contemporâneo, porque (1) seu renome é relativamente recente e (2) ele pouco arreda pé dos gibis de super-herói. Nesse nicho, porém, é majoritariamente bem quisto, e com razão. Ele passou temporadas desenhando personagens clássicos — Superman, Batman e X-Men — após um período onde era mais dado a desconstruções de super-heróis — Flex Mentallo, Authority. Não escreve as histórias que desenha, preferindo trabalhar ao lado de roteiristas de renome: alterna entre Grant Morrison e Mark Millar, os dois também escoceses.

Mas o que todo leitor que o acompanha sabe de Quitely é que ele é extraordinariamente lento. Lento para os padrões da indústria de quadrinhos dos EUA, no caso, onde os desenhistas mantêm a média de uma página por dia, 20 e poucas por mês. Quitely leva três meses para fazer a mesma quantidade. Em dado momento do documentário, ele comenta: “O ideal é você estar alguns meses adiantado, mas eu… raramente consigo.” A seguir, a câmera foca sua lapiseira acrescentando marquinhas sobre o porto de uma grande cidade, num cantinho do último quadro da página, milímetros de um panorama minucioso cuja função é apenas ser fundo para um super-herói mirim voando.

Detalhismo, todavia, não é o que estoura as deadlines dele. (Aliás, esse mito de que o quadrinho americano gosta de detalhismo merece uma coluna.) Quitely praticamente não faz uma HQ em que não invente um jeito de contar a história que só seja possível nos quadrinhos.

We3 é o ápice desta vertente experimentalista (também é uma das minhas HQs mais queridas). Em cenas de ação, o movimento principal acontece num quadro grande, em cima do qual há vários pequenos quadros com planos-detalhe do que acontece aos personagens em diversos ângulos. O documentário fala do processo por trás de uma sequência famosa em que a história é contada por um painel de monitores de câmeras de segurança. As seis páginas exigiram três semanas.

O inglês scot de Quitely não é dos mais fáceis, mas a declaração final é mais ou menos o seguinte: “Quadrinho não é o que paga melhor nas indústrias criativas. Eu podia ganhar mais com games, ilustração pra revista, storyboarding etc. Só que não importa o nível em que você chegar em storyboarding, games ou departamento de design, o que for, você nunca deixa de ser uma engrenagenzinha na máquina, enquanto aqui você é uma engrenagem grande. E o que você faz no quadrinho é uma coisa que não funciona no cinema, não funciona direito em prosa. Quanto mais eu entendo o funcionamento dos quadrinhos, mas entendo como eles são singulares.”

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Definições (2)

Por Érico Assis


Seguindo o papo sobre a definição de histórias em quadrinhos: talvez o problema comece pela tradução (ou de tradições, se você preferir; é que estou puxando a sardinha para o meu lado). Praticamente cada país chama essa coisa de um jeito.

Não sei como o Brasil começou a usar um termo tão descritivo como “história em quadrinhos”, que remonta às “histoires en estampes” (histórias em gravuras) do Rodolphe Töpffer — primeiro cara a registrar que acontecia uma coisa diferente de literatura e de desenho quando se juntava literatura e desenho, há quase 200 anos. Os portugueses às vezes falam “história em quadradinhos”, mas preferem “banda desenhada” como o “bande dessinée” francês, sendo que a banda/bande é a nossa “tira”.

A Noruega usa “tegneserie” (desenhos em série) e a Holanda às vezes usa-se “stripverhaal” (narrativa em tira). Mas o “comic” dos americanos acabou pegando em boa parte da Europa, mesmo que seja tão restritivo. Quando você chega no “historieta” (historinha) do espanhol, no “fumetto” (fumacinha, em referência ao balão) dos italianos e no mangá (“imagens extravagantes” ou “imagens irresponsáveis” ou “rascunhos excêntricos” ou ene outras traduções de 漫画) japonês — e nas tentativas de pedestalização mercadológica (às vezes acadêmica), tipo graphic novel, literatura gráfica, narrativa gráfica etc. — aí sente que a bagunça é institucionalizada.

Isso, claro, se você pensar os termos ao pé da letra. E nomes são coisas totalmente arbitrárias, que vêm do desenrolar histórico, então não dá para levá-los ao pé da letra. (Lembre aí também do gibi brasileiro e do tebeo espanhol, outras denominações de quadrinhos que “pegaram” por conta de nomes de revistas famosas.) Mas é curioso que existam tantos nomes para a mesma coisa, enquanto literatura, cinema, teatro, fotografia e outras formas de expressão ficaram com nomes praticamente similares na maioria das línguas.

Ou a explicação é bem fácil: quadrinhos são tão bastardos e desvalorizados que ninguém se deu ao trabalho de inventar um nome bonito com raiz no grego, no latim e tal.

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Mas, enfim, independente de como se chame a coisa, o que define o que é um quadrinho?

A última coluna gerou uma série de conversas legais, com gente disposta a entrar na brincadeira de achar as palavrinhas certas que digam que é isso e não aquilo. Uma destas conversas, com o escritor Brontops Baruq, me lembrou uma coisa que, se não me engano, o Will Eisner também comenta em seus livros.

O caso é que quando o Brontops lê gibis para o filho, o menino começa a usar elementos do final da página antes do pai chegar lá. “Em um livro, ele aguarda pacientemente o que estou contando (afinal, ele ainda não lê). Mas no caso dos quadrinhos, eu vejo que ele fica meio confuso: parece que está tudo acontecendo ao mesmo tempo. E, de certa forma, está mesmo: tudo que está na página é ‘ao mesmo tempo’, nós é que já nos acostumamos a fazer a sequência temporal”, escreveu-me o Brontops.

E isso me colocou a pensar sobre a suma importância da página como elemento singular dos quadrinhos. Essa página pode ser de papel ou outro suporte físico, pode ser virtualmente infinita numa tela, mas o fato é que ela foi pensada e fechada pelo quadrinista como algo indivisível. A página pode ser a história inteira ou só um pedaço da história, mas é um espaço onde a (ou um trecho da) narrativa está expressa segundo uma composição específica reconhecida pelo autor, e a partir daí não se mexe mais.

De novo recorrendo à tradução: quando se publica uma HQ em outro idioma, pelo menos no mercado atual, é raro a editora modificar as proporções altura x largura e o conteúdo de cada página. Todos os quadradinhos de cada página são iguais em todos os idiomas (com exceção das letrinhas, é óbvio). Às vezes há exigências contratuais não só para que se mantenha a proporção, mas também o formato exato, quando não o tipo de papel. Para minha pesquisa atual, é muito relevante que a editora da tradução seja obrigada a (ou tenha preocupação em) manter as características tipográficas do original. Isto é largamente irrelevante para traduções de outras formas de expressão — como a literatura — mas é bastante relevante no caso dos quadrinhos.

E aí, pensando isso, você começa a considerar que design é uma palavrinha essencial para ligar aos quadrinhos. Há um projeto específico de uma configuração específica de imagens com vistas a contar uma história. Tem que achar aí uma raiz grega para algo que diga “projeto narrativo pictórico” e dar um nome novo pra coisa.

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De qualquer forma, nada disso resolve minha sanha atual de tentar mostrar que esta capa do Chris Ware para a New Yorker é, sozinha, uma história em quadrinhos. Fica para a próxima coluna — e aceito comentários ou contestações nas caixinhas abaixo.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Definições (1)

Por Érico Assis


Imagem: Austin Kleon

“Histórias em quadrinhos são palavras e imagens. Você faz de tudo com palavras e imagens.” A definição de quadrinhos do Harvey Pekar é bastante repetida. Também é sonhadora, tocante, bonita. Basta para 99,9% das pessoas que já pensaram o que é uma HQ. Eu, porém, acabo de cair no mundo dos 0,01% para quem ela não basta: o mundo acadêmico. Nos próximos 3 ou 4 (ou 10, ou 40) anos, sou pesquisador de quadrinhos, mais especificamente de tradução de HQ. E uma das primeiras coisas que um pesquisador tem que fazer é definir a coisa que está estudando.

Definir uma coisa é separar essa coisa do resto do mundo: encontrar uma forma sucinta de dizer tudo que a coisa não é. No 0,01% acadêmico já se viu muita gente definindo quadrinhos, cada um de um jeito, muitos deles reconhecendo a briga que é defini-los. Aí entram picuinhas políticas, culturais e também pessoais que os autores puxam para dizer que não querem que tal coisa seja quadrinhos.

Há os que dizem que, para ser quadrinho, tem que haver pelo menos duas imagens formando uma sequência. Outros veem narrativa quadrinística em histórias de um quadro só. Tem os que se recusam a ver fotonovela como quadrinhos, e os que veem fotonovela, livros infantis e as estações da via sacra como quadrinhos. Alguns vinculam quadrinhos à reprodução impressa, o que exclui não só as HQs digitais mas também os que veem HQ na Coluna de Trajano (séc. II), na Tapeçaria de Bayeux (séc. XI) e algumas iluminuras. Mas se estas forem aceitas como quadrinhos, então toda escrita ideogramática ou cuneiforme também seria HQ? E quando se usa recurso de animação, como os gifs animados de algumas webcomics, aí a HQ deixa de ser HQ? Há quem diga que, se o movimento/tempo não acontece na cabeça do leitor, não é uma HQ. E aí?

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O livro que estou lendo no momento, A Comics Studies Reader, tem uma seção dedicada a textos sobre definição de HQ. Embora não componha o livro, a definição de Scott McCloud – que não é exatamente uma definição acadêmica, mas é muito usada nos EUA e no Brasil – paira sobre os outros autores: as “imagens pictóricas justapostas em sequência deliberada”. A abordagem de McCloud busca transformar a definição num problema de engenharia. Nos seus livros, ele até ajuda o leitor ao explicá-la em forma de quadrinhos. Só que ela se choca com o povo que diz que pode existir quadrinho em uma imagem solo (ou seja, não justaposta a outra). Os próprios organizadores do Comics Studies Reader, entre outros, dizem que ela “carece de sofisticação”.

Sofisticados, claro, seriam os franceses, aquele povo que ama e cultua quadrinhos. Ou melhor, um belga: Thierry Groensteen, que escreve teoricamente sobre HQs há três décadas e vez por outra também ataca de quadrinista. Fazia anos que eu ouvia falar da principal obra dele, Système de la bande dessinée, mas só resolvi encarar a leitura há uns dias. Digamos que ainda estamos nos acertando, com dificuldades. Groensteen toma o caminho da semiótica e cria alguns conceitos interessantes, como o de solidariedade icônica (a essência seria ter duas imagens separadas, mas no mesmo espaço e com alguma conexão semântica ou formal) e de artrologia (a articulação entre as imagens). Mas aí entro em meus problemas pessoais com a semiótica: sempre lembro de um professor da graduação que me dizia que, passando de ícone-índice-símbolo, tudo na semiótica é masturbação mental.

Embora ainda esteja brigando com o texto de Groensteen, um dos meus achados queridos foi a remissão que ele faz a um ensaio de Alain Rey – linguista e personalidade literária na França como editor do Le Robert. Rey diz que “o intercâmbio entre os valores textual e pictórico cria a essência dos quadrinhos”, e que falar somente em imagem e texto é superficial, pois o que acontece nas HQs é “uma batalha entre figuração e narratividade”. O que, por mais que bata com o que o Harvey Pekar disse, é tão bonito quanto a definição pekariana. E voltamos ao problema: frases que não definem nada, mas que não deixam de ser lindas.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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