Érico Assis

Piratinhas

Por Érico Assis
DIY Comic Scanning Rig…

Na quarta-feira, foi só tocar na internet que os e-mails, RSSs e tuíters pululavam: The Sandman Overture #2 havia saído, e a internet viu que The Sandman Overture #2 era boa. Entre abrir outra aba do navegador, entrar no site, um clique para categoria, um clique no link, um clique no torrent, passaram 15 segundos. Voltei às minhas outras abas, mas o balãozinho do µTorrent não levou 20 segundos para pular: The_Sandman_-_Overture_002_(2014)_(3_covers)_(digital)_(Son_of_Ultron-Empire) has finished downloading. O iPad já estava conectado no computador, então bastou arrastar o arquivo e largar no iTunes. Mais três segundos, e abri The Sandman Overture #2 numa tela que seguro nas mãos da mesma forma que um gibi.

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Faz pouco mais de dez anos que um passarinho de tapa-olho me anunciou que, sabendo procurar, todos os gibis que eu queria estavam na internet – se não para ter fisicamente, pelo menos para ler. Exigia um software meio arcano, endereços numéricos que não se localizavam no Google e ser aceito numa comunidade. Antes de meu quatro-oito-meia ter um HD que contasse gigas, os grandes nicks da comunidade anunciavam pastas de 10, 20, 100 GBs onde se encontrava – geralmente com organização impecável – Miracleman completo, a coleção de HQs do Grant Morrison por editora inglesa obscura, Akira colorido, Uncanny X-Men 1 a 442 e assim por diante. Era clicar e aguardar, às vezes alguns dias. Mas chegavam.

Levei um tempo para descobrir as pastas 0-day. Nem imaginava que fosse possível: os quadrinhos lançados nos Estados Unidos naquela semana. Já é tradição de muito tempo a quarta-feira ser dia de lançamento lá fora; pois bem: na quarta-feira à noite (nosso fuso horário), boa parte das 20 ou 30 novidades da semana que me interessavam já estava lá, scanneada, tratada, organizada em arquivos .cbr (comic book reader). Até a sexta-feira, todas estavam disponíveis.

Em dez anos, a precariedade do esquema quase desapareceu. Google, três cliques e uma conexão decente rende os gibis da semana em minutos – na mesma quarta-feira. Os sites de compartilhamento são aqueles com banners que piscam “ENCONTRE UMA MULHER! FALE COM UMA MULHER! FODA UMA MULHER!”. Sempre que vejo isso, lembro de uns vinte anos antes e eu andando por sebos/casas de jogo do bicho, que exibiam infinitas Playboy e EleEla na parede. Eu seguia diligente a procurar os números que me faltavam de Capitão América.

Aliás, minha última descoberta nesses sites é que outros interessados de tapa-olhos vêm scanneando coleções inteiras dos gibis da Editora Abril (COM os anúncios do Instituto Universal Brasileiro e dos Tênis Kimkol), incluindo as Capitão América que eu nunca encontrei. Há também outros seres de olho de vidro que já digitalizaram Circo, Animal, Piratas do Tietê, Fradim, a primeira tradução de Sandman…

Praticamente toda a história dos quadrinhos dos EUA já foi scanneada. Uma das brincadeiras mais recentes dos camaradas com perna de pau é organizar a cronologia da Marvel em ordem de leitura: as pastas têm umas 70-80 edições na ordem de lançamento do cânone, desde Fantastic Four #1, de 1961. Já são quase 150 pastas.

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Existem livros inteiros para discutir a pirataria, e o assunto realmente é complexo. É melhor não me alongar, por isso fico em duas observações. Para os já adeptos baixantes-torrenteantes: é muito legal ter acesso a tudo, mas pense se o responsável pelo material que você gostou não merecia algum incentivo pecuniário. Há poucos dias, felizmente convenci um amigo de que a Sequart – um pequeno coletivo inglês que faz belos documentários sobre quadrinhos – merecia 10 dólares pelo download de cada filme, independente de estes filmes serem vendidos digitalmente e estarem disponíveis de graça.

E para os que veem a pirataria como cara de mau: minha Sandman Overture Deluxe Edition já está encomendada.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Quadrinhos que existem

Por Érico Assis

Dominion, a cidade maquete de Seth.

Existe Seth e existe Dominion. Dominion é uma cidade canadense da província de Ontário com belos prédios históricos e um passado rico em produção cultural que foi vítima da decadência econômica. Dominion existe no porão da casa de Seth: é uma maquete construída com papelão, tinta e cola. Também existe em vários cadernos de anotações de Seth, assim como serve de cenário a várias HQs que ele já publicou: Wimbledon Green, George Sprott, The Great Northern Brotherhood of Canadian Cartoonists.

Assim como existe Emmanuel Guibert, que, em 1994, estava caminhando pelas ruas da Ilha de Ré e pediu informações a um idoso. O idoso era um norte-americano chamado Alan Cope. A amizade entre os dois durou até a morte de Alan, cinco anos depois. Guibert dedicou boa parte de sua obra às memórias do amigo: três tomos de A Guerra de Alan (Cope serviu na Segunda Guerra) mais um de A Infância de Alan, possivelmente mais pela frente. “Produzo livros para provar que é possível uma pessoa ouvir outra com tanto cuidado que se descobrem coincidências de perspectiva, pois é fato que há certa lógica na vida”, diz.

Existe Anamorphosis, de Shintaro Kago. A história principal começa com um apresentador de TV que morre durante uma pegadinha na qual veste fantasia de monstro arrasando uma Tóquio-maquete. Um bilionário convida seis pessoas a reviver o momento do acidente, com direito a invocação do espírito do morto. Nas histórias secundárias, uma detetive adolescente investiga as forças eletromagnéticas que mataram uma mulher durante fantasia sexual; um cientista coleciona pessoas que fazem chover sempre que se excitam, para que procriem e gerem uma raça de bebês “chuventos” com benefícios à agricultura e potencial bélico (inundar países inimigos com tempestades); uma garota acorda com uma boca no lugar do mamilo e o médico lhe explica que é um fato corriqueiro como os bebês que trocam a boca pelo mamilo da mãe ao mamar, como as mãos que trocam de lugar com maçanetas, como os dedos que trocam de lugar com as teclas do computador; ela perdeu o mamilo durante uma noite de bebedeira e só vai reencontrá-lo 40 anos depois.

Existe uma HQ sobre namorados que param o tempo quando fazem sexo e decidem usar o poder para virar ladrões. Chama-se Sex Criminals e ficou em primeiro lugar na lista de melhores HQs de 2013 da Time. Existe Lastman, que tem quase todas as características de uma mangá — como lutas de mais de vinte páginas —, mas é co-criação de um dos maiores nomes do “quadrinho-arte” francês: Bastien Vivès. Como bom mangá, Vivès e parceiros — Balak e Michaël Sanlaville — já estão projetando a transição da série para videogame e animação. Existe Meanwhile, a HQ de Jason Shiga na qual você escolhe entre opções de desenvolvimento da história e tem 3856 possibilidades de trama — talvez de leitura mais fácil num app. Existe 3”, de Marc-Antoine Mathieu, que acompanha a trajetória de uma bala de espingarda por Paris durante três segundos em 72 páginas.

Existem 1h25 e Momon, as autobiografias em que a francesa Judith Forest relata problemas com os pais, com as drogas, com as aventuras sexuais e com o próprio sucesso, pois sua história acabou virando um dos destaques recentes do mercado franco-belga. Judith Forest, porém, não existe. Foi inventada por uma turma de quadrinistas que queriam discutir a gana do mercado editorial pelas HQs autobiográficas (“e se a ‘sinceridade’ não fosse mais que estratégia de marketing?”, perguntam). A mesma turma — comandada pelo editor Xavier Löwenthal — é responsável por Katz, um détournement de Maus onde os rostos de todos os personagens são substituídos pelos de gatos (independente se gatos, ratos, cachorros ou outro bicho no original). Katz não existe mais, juram eles: a tiragem foi completamente destruída em resposta a uma ameaça de processo da editora francesa de Maus. O que não os impediu de publicar Metakatz (assim como existe um Metamaus), livro de entrevistas e tributos que documenta todo o processo de Katz.

Conheci alguns dos exemplos acima no livro Comics Art, escrito pelo crítico, historiador e jornalista Paul Gravett a convite dos museus Tate — porque, sim, existe um livro sobre quadrinhos enquanto arte editado pelos museus Tate.

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Recentemente me perguntaram se muitos lançamentos em quadrinhos estrangeiros demoram para chegar ao Brasil. Respondi que sim: a esmagadora maioria. É óbvio que o mercado brasileiro não comporta nem precisaria comportar tudo que se edita lá fora, mas ainda há um problema de representatividade por aqui: há um percentual dessa esmagadora maioria que é composto por quadrinhos de temática diversificada, premissas atraentes e já imbuídos de certo renome no mercado de origem. Já fiz uma lista parecida e repito: eles existem.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Desde criancinha

Por Érico Assis


Você assiste True Detective, né? Como assim, “não”?

Ainda não ouviu falar das performances auge-da-carreira de Matthew McConaughey e Woody Harrelson? Não sabe do roteiro que mistura o pulp detetivesco centenário ao existencialismo foster-wallaciano? Não viu o plano-sequência de seis minutos do fim do episódio 4, “uma das maiores realizações cinematográficas da televisão”? (Aqui, ó.)

Tenha assistido ou não, goste ou não, True Detective é o centro do auê middlebrow em fevereiro de 2014. E o auê leva a notinhas jornalísticas como essa: “True Detective: é tudo culpa de Alan Moore e Grant Morrison”, da parte de um site especializado em quadrinhos e cinema, o Bleeding Cool.

A nota recupera um texto de 2010 do criador do seriado, Nic Pizzolatto, no qual ele fala sobre suas influências e diz que passou a infância lendo gibis de Moore e Morrison. Ok que depois tenha se engraçado com William Faulkner, com Raymond Chandler, com Cormac McCarthy, Alice Munro. Importa para nós, povo dos gibis, que ele leu Moore e Morrison, e que “numa casa sem muitos livros, a sofisticação e profundidade das histórias deles faziam qualquer criança pirar”.

Dizer que você lia (ou lê) gibis, principalmente se hoje você contribui com uma arte mais séria — todas as outras —, ainda é uma coisa que sai dos lábios com um tom de transgressão, de audácia, de desafio aos baluartes intelectuais. É como um chef dizer que se inspirou no McDonald’s. O auge desse gostinho de desafio foi a pop art, de forma mais óbvia nos quadrões do Lichtenstein: pegamos esse negócio sujo, barato e infantil, ampliamos, colocamos no museu e, rá-rá, o lixo virou arte.

Mas a pop art foi um movimento de cinquenta anos atrás, e os pontos de referência da — e dos entendidos em — arte de museu já deviam ter mudado. O certo é que os pontos de referência dos quadrinhos mudaram. Pizzolatto, que tem 38 anos, teve a adolescência sincronizada com o quadrinho norte-americano da segunda metade dos anos 80, momento de explosão das HQs com pretensões artístico-literárias. Para ficar nos nomes que ele citou, havia Watchmen de Moore e Asilo Arkham de Morrison, entre outras obras dos dois e de outros. Se você lia quadrinhos na época e seguiu alguma carreira criativa, é difícil não dizer que esses autores foram influência.

Por outro lado, hoje em dia conta pontos para o currículo dizer que você leu muito gibi se quiser trabalhar na alta roda da produção audiovisual. As melhores bilheterias do cinema são de filmes baseados em gibis, a melhor audiência da TV a cabo é de um seriado baseado em HQ. Até o mercado editorial passou por uma época de alta receptividade se você dissesse que era mais influenciado pelo Stan Lee do que pelo Steinbeck. Você conhece os caras, os personagens e a mina de ouro.

Já do lado de cá, da audiência, o prazer transgressor está em falar que todas essas figuras que frequentam telonas e telinhas fazem parte da sua vida desde sempre. Não que isso tenha muita relevância para os pares, mas dá um tiquinho de auto-satisfação.

Para todos os outros, que nunca leram e que querem ficar por dentro dos próximos auês pop-culturais, recomendo o seguinte: comece a espalhar por aí que lê Preacher desde criancinha.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Tijolos

Por Érico Assis

Edges of a thick book pages taken in macro

Não sei se é assim pra todo mundo, mas, pra mim, as livrarias online criaram um prazer literário que não existia quando você fazia/faz compras na livraria-papelaria-armarinho-megastore. É um prazer de surpresa: descobrir o tamanho do livro.

Tamanho em termos de dimensões físicas: altura, largura e profundidade. O caso é que as lojas online insistem em exibir as capas padronizadamente do mesmo tamanho. Na vitrine virtual, todo livro tem mesma altura e mesma largura. Algumas lojas inovaram com representações tridimensionais, mas que acabaram virando só nova dimensão de engano: tanto os de 100 quanto os de 800 páginas tinham exatamente a mesma profundidade. Você pode conferir o registro das dimensões em centimetragem (a Amazon até registra o peso, ínfimo que seja) e do número de páginas. Mas eu, pelo menos, não consigo visualizar o objeto tridimensional e continuo levando surpresa.

Tanto que, esta semana, mais uma vez recebi uma caixa do tamanho que abrigaria uma gata e sua ninhada. No adesivo de remetente, a loja registrou o conteúdo: “1 (ONE) BOOK”. Na verdade, era uma caixa (dentro da caixa) com os três volumes de The Graphic Canon. No site da loja, o detalhamento dizia que eram 1088 páginas (“informações fornecidas pela editora”), mas na verdade dá mais de 1500. Também registrava os 12.4 pounds, mas sempre me perco na conversão.

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Em 2000, a L’Association lançou Comix 2000, que tinha 2 mil páginas de HQs sem texto, por vários autores. Se ficar em obras de um volume só,  deve ser a maior dos quadrinhos. Nunca vi um exemplar.

Nos EUA, faz algum tempo que estão na moda as edições Omnibus, repetidamente com mais de 1000 páginas. No ano passado, as 1200 páginas mais capa dura de X-Statix Omnibus provocaram distensão muscular em um leitor. Prevista para este ano, Big Damn Sin City, com todas as histórias de Frank Miller, tem provisórias 1360 páginas. The Invisibles Omnibus, de 2012, saiu com 1536. O produto mais rentável no mercado de quadrinhos norte-americano em 2012 e 2013 foi The Walking Dead Compendium, edições de mais de 1000 páginas cada.

Todos estes casos, porém, são de HQs que saíram inicialmente em um formato, o de revistinha, e depois ganharam coletâneas tijolo. O caso dos álbuns que já são projetados como tijolos é mais interessante. Um dos primeiros foi Retalhos, com suas 592 páginas. Craig Thompson declarou-se influenciado por Lapinot et les carottes de Patagonie, desafio auto-imposto do francês Lewis Trondheim de desenhar uma história de 500 páginas.

Profundidade física não determina profundidade ou qualidade na leitura. É fato, porém, que dá essa aparência. No caso dos quadrinhos querendo ser levados a sério, sair do formato de revistinha e ganhar tamanho de livro (ou maior) é sentar na mesa dos adultos. Não necessariamente vão ter papo, mas estão lá, com a gravata coçando.

Lembro de uma conversa sobre Umbigo sem fundo precisar ou não ter suas 720 páginas. Não que o tempo de leitura determine profundidade ou qualidade, mas a sentença de um colega acabou com o papo: “Li numa cagada.”

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Os quadrinhos tendem (ou tendiam) a ter poucas páginas por conta da forma de produção e do público/preço pretendidos, mas também porque desenhar toma tempo e o quadrinista precisa pagar as contas. Há séries japonesas ou franco-belgas planejadas para milhares de páginas, mas que saem aos capítulos ou fascículos para o autor poder financiar os anos de produção. Craig Thompson, Lewis Trondheim, Dash Shaw, nos seus tijolos de início de carreira, são casos peculiares e raros de audácia e desprendimento financeiro.

Habibi, segundo tijolo de Thompson, por outro lado, já veio de um autor estabelecido e com um bom adiantamento para passar oito anos trabalhando em 672 páginas. Da mesma forma, o espanhol Nadar produziu as 400 páginas de Papel Estrujado, lançada há pouco, graças ao patrocínio da Maison des Auteurs de Angoulême. Supõe-se que nenhum deles foi contratado para obras deste tamanho, mas o peso não faz mal ao status.

Aí, quando o correio me entrega mais um caixote com conteúdo declarado “1 (ONE) BOOK” e é o primeiríssimo trabalho de uma quadrinista inglesa — Lighter than my Shadow, Katie Green, 528 páginas –, você tem quase certeza de que as propriedades físicas da obra viraram critério de seleção editorial. Ainda não li. Será que vale o quanto pesa?

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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O Escritor Original

Por Érico Assis

Um dos acontecimentos mais importantes para os quadrinhos no final de 2013 foi Alan Moore ter completado 60 anos. Chegar à sétima década já não é aquele terror da decadência existencial que pintavam — meu pai completa 68 esta semana e recentemente descobriu que adora andar de bicicleta. Moore, porém, resolveu ser o tio velho que considera a efeméride avançada desculpa para aposentar a pátina de polidez social.

Na semana do aniversário, Moore apareceu no Guardian reclamando dos super-heróis entre os quais construiu a carreira. Aproveitou e botou todos os quadrinhos no mesmo saco. “Alguém apareceu com essa de graphic novel. Aí os leitores se agarraram na ideia, só pra ter como validar o amor infinito pelo Lanterna Verde e pelo Homem-Aranha sem que pareça subnormalidade afetiva”, disse. E também: “Acho alarmante plateias de adultos em filme dos Vingadores se excitando com ideias e personagens criados pra divertir garotinhos de 12 anos da década de 50.”

Para Moore, os gibis continuam sendo feitos para os meninos de 12, apesar de raros leitores terem menos de 30. A evidência empírica confirma. Surpreende, porém, Moore reclamar que um dos prazeres possíveis na leitura é o escapismo.

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Então, no início deste ano, um desse leitores com bem mais de 30, Pádraig Ó Méalóid (ele é irlandês), postou em seu blog: “A Última Entrevista de Alan Moore?”, com a interrogação. Estranha-se não só o “última”, mas também “entrevista”: são seis perguntas curtas, e as respostas rendem mais de 15 mil palavras. Daria um livreto de 40 páginas.

O tratado mooreano, em linhas gerais, [1] rebate críticas por ele ter utilizado em HQ um personagem infantil do século XIX com conotações racistas, [2] critica os críticos que o acusam de apelar frequentemente para a violência sexual como recurso narrativo, [3] aquece três décadas de guerra fria entre ele e Grant Morrison, [4] denuncia o destratamento que sentiu nas mãos de jornais e jornalistas (o que pode render-lhe processo por calúnia) e [5] reflete sobre dar menos entrevistas, quem sabe nenhuma. “Melhor deixar meus trabalhos falarem por mim, que é tudo que sempre quis ou esperei, tanto como escritor quanto leitor das obras de outros”, escreve, ressaltando que deixou de ficar com a família entre Natal e ano novo para responder à entrevista.

Comecei a ler há pouco a última biografia de Moore, chamada Magic Words. Já nas primeiras entrevistas, com vinte e tantos anos, ele não escondia opiniões sobre colegas vacas sagradas. Nessa época, porém, sua plateia era meia dúzia de adolescentes. Duas décadas depois, estes haviam virado editores do Guardian e do New York Times. Descobriram que podiam ligar para Moore sempre que a pauta estivesse fraca e precisassem de alguém com verve irônica para comentar a derrocada cultural da humanidade, começando pelos gibis, terminando em Hollywood. Ele cumpriu o papel. Passou a sexta década de vida construindo a persona midiática de velho ranzinza, com direito a participação nos Simpsons.

A decisão de fechar a porta para entrevistadores, por isso, é marcante. De qualquer forma, apesar de ser aferrado a seus posicionamentos, Moore deixou exceções à regra: vai apenas “restringir” sua participação em eventos (que já é mínima e só na Inglaterra), mas manterá “performances”. Para deixar as obras falarem por si, contudo, continua produzindo ferozmente: tem HQs inéditas agendadas para este ano e próximo, continua a produção de uma série de curta-metragens que devem levar a um longa, e ainda tem Jerusalém, romance de duas mil páginas que escreve há mais de uma década. Faz dois anos que diz estar quase acabando.

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Há poucos dias a americana Marvel Comics relançou Miracleman, uma das célebres HQs de Moore com super-heróis. Apesar de citada e comentada em toda história dos quadrinhos, não era publicada há mais de vinte anos por conta de um enrosco jurídico. O nó se desatou à base de muita paciência e dinheiro. Ou quase.

Em contrato, Moore estipulou que seu nome não poderia aparecer na republicação. Os motivos são complexos, têm a ver com o enrosco e com o criador do personagem ter levado um prejuízo sem que Moore soubesse na época em que trabalhava nos gibis. Também têm a ver com Moore não gostar da Marvel.

Respeitando o contrato, a editora seguiu com a brincadeira: os créditos de roteiro da edição são dados a “The Original Writer”. Feliz sessenta, sr. Original.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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