Érico Assis

Seis Propostas para o Quadrinho Brasileiro

Por Érico Assis


Que não são propostas taxativas, nem exigências, nem garantias de um mercado melhor. Já escrevi aqui que ninguém sabe nada do mercado e que o quadrinista deve fazer o que bem entender. Não quero vir de diretrizes, nem receita de bolo, nem plano de governo. Também não entenda como reclamação. Se você quiser, pode chamar de Seis Coisas Que Eu Gostaria de Ver no Quadrinho Brasileiro, Mesmo Que Eu Já Goste do Quadrinho Brasileiro e Só Quero Mais Mais Mais.

Acima de tudo, eu gostaria mesmo é de mais gente gostando de ler quadrinho.

1) Primeiro histórias, depois quadrinhos. Puro experimento formal, ironia autorreferencial, piscadelas para os entendidos, metalinguagem, revolucionar a narrativa quadrinística. Tudo isso é muito legal, agrada os críticos e rende pontos entre os coleguinhas. Eu, é óbvio, curto muito. Mas um mercado em que as opções são majoritariamente estas é um mercado que fica fechado em si mesmo e que não dá pontos de entrada a quem quer começar por uma boa história. Uma boa história, antes de uma boa história em quadrinhos.

É questão de voltar ao feijão com arroz: premissa chamativa, personagem intrigante, trama clara e desenho foda. Com curry, com shoyu, com quiabo, com gelatina de caviar, enfim, a pirueta que se quiser. Mas sem esquecer o feijão com arroz.

Inclui-se aí vender (na capa, no título, no marketing) estas HQs antes como histórias, depois como “a nova obra do autor de”, “a HQ que mudou as HQs”, “um mestre do desenho em seu auge”, “impressa em papel acetinado por mãos virgens”. Ao invés disso: Qual é a história? O que você quer contar? Por que eu me interesso por esse personagem?

2) Que valha o quanto pesa. Me corrijam se eu estiver enganado, mas acho que a HQ brasileira com o maior número de páginas (e publicada originalmente nesse tamanho) é Cachalote, que tem 320. É possível que seja a única que passou das 300. Há poucas com mais de 200 e me parece que a média das gréfic nóvels estacionou aí pelas 100. A grandessíssima parte da produção brasileira ainda segue em histórias de 8 a 20 páginas, quando não em tiras.

Cadê as nossas HQs de 600 páginas? De 400? Ou mais exemplos na faixa dos 300? Cadê as HQs que tomam tanto tempo de leitura quanto um romance? Pelo menos tanto quanto um longa-metragem? É óbvio que soa mais como vaidade do que validade produzir um tijolão. A lista de contras é comprida: anos de produção, grana, gráfica, editora que se interesse. Nem temos as antologias para desovar capítulos, como têm outros países. Mas, seguindo a primeira proposta, envolver um leitor numa história tem a ver com manter sua atenção por um tempo considerável, o que nos quadrinhos significa ocupar mais espaço. Há HQs de 3 páginas tão profundas quanto as de 800, mas a petulância da de 800 fica mais na cara. Um pouco mais de petulância, de pretensão, de megalomania — atentando para a proposta 1.

3) Fale sobre as histórias, depois fale sobre quadrinhos. Quadrinhos não são, mas tendem a ser vistos como gênero literário. E pior, um gênero restrito, fechado, que só consegue ler quem vive lá desde criancinha, que faz bullying com quem não conhece o (impreciso) cânone. É um discurso que trava ou desmotiva novos leitores. Por melhor que seja a intenção do leitor que tenta evangelizar novos adeptos, geralmente o discurso fica no tom do leia-quadrinho-porque-quadrinho-é-massa.

Sim, quadrinho é massa, mas volto à primeira proposta: novos leitores tenderão para histórias, depois para quadrinhos. Se as primeiras propostas eram para quadrinistas e editores, esta é para você que os lê: fale das histórias. Fale da tragicomédia do cara que se apaixona pela enfermeira da mãe em Aos Cuidados de Rafaela, fale dos personagens da Salvador contemporânea em rota de colisão de Tungstênio, de quanta gente se encaixa no perfil do Terêncio Horto.

4) Consumismo. Compre mais quadrinhos. Para si (e se as estantes acabarem, distribua entre os amigos) ou para os outros (dê quadrinhos de presente). Se você gosta do autor ou da autora, seja generoso no Catarse ou micromecene-o(a) no Patreon. Pague ou doe o que achar justo por quadrinhos digitais.

5) Leia mais. Desistência do Azul, Cumbe, Yeshuah, Mesmo Delivery, Daytripper. Sabor Brasilis, Fim do Mundo, A Vida de Jonas. O Dom Quixote do Caco Galhardo, O Alienista de Moon e Bá, o Vestido de Noiva de Gabriel Góes, a Clara dos Anjos de Wander Antunes e Lélis. Ordinário, Muchacha, Diomedes, Guadalupe, Cachalote, A Máquina de Goldberg, Monstros! e Deus, Essa Gostosa. Robô Esmaga, Valente, Bear, Muzinga, Promessas de Amor a Desconhecidos Enquanto Espero o Fim do Mundo e Harmatã. Xampu, Bando de Dois, O Beijo Adolescente e Friquinique.

6) Categoria Quadrinhos no Jabuti. Demorou.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Tudo é ruim

Por Érico Assis


Dei uma entrevista e me perguntaram: você acha que essa avalanche de filmes de super-herói baseados em quadrinhos contribui para o que uma certa vertente de críticos chama de “idiotização do cinema atual”?

Respondi que não, que não vejo contribuição nem culpa dos quadrinhos diante do estado do cinema. Que o cinema tem seu mercado, seu funcionamento, sua estrutura financeira, e que tudo isso exige um tipo tal de produto que, no momento, serve-se muito de super-heróis de gibi. Pode muito bem servir-se de filme-catástrofe ou literatura policial ou virais-do-youtube-adaptados-pra-longa-metragem daqui a um ano ou dois, assim como os super-heróis são recentes. Não ponha a culpa nos meus gibis.

Só que, tão preocupado em defender os quadrinhos, esqueci de fazer um complemento… e acabei concordando com a tal da idiotização. Idiotização, logo nesses anos de Melancholia, Submarine, Aqui é o Meu Lugar, Azul é a Cor Mais Quente, Ela e o Wes Anderson em produção feroz.

A idiotização é uma generalização, e generalizações são bobas. Talvez mais bobas em consumo cultural, onde eu acredito que não se deveria aplicar nem estatística. Sim: eu, você e a tal vertente de críticos passamos ontem num multiplex vinte salas e não deu vontade de assistir nada. Sim: há uma quantidade monumental de Transformers. Daí a dizer que o multiplex vinte salas ou que Transformers representam o cinema é sacanagem retórica.

Principalmente porque eu, você e a vertente de críticos temos acesso a bem mais filmes — e filmes atuais — que a seleção do multiplex vinte salas. Tampouco somos obrigados a assistir Transformers. De VOD aos discos no tapetinho do camelô, o cardápio é bem vasto. E o cenário pode se repetir com seus próprios exemplos na música, na literatura, na televisão, nos quadrinhos. Se você vai numa banca (ou numa livraria, ou na internet) e não encontra uma pilha de gibis bons, o problema não é escassez, mas como montar a pilha de ouro.

Saber escolher é uma coisa eminentemente pessoal. Assim como eu coloquei a minha seleção do Melancholia aos Wes Andersons, você pode colocar a sua. Pode inclusive dizer que trocaria todos por Transformers. Perfeito. Concordamos que não somos a mesma pessoa. Não creio, porém, que alguém esteja desprovido de opções condizentes com seus gostos entre os 782 filmes lançados no ano. Nem com os 6497 livros, ou os 3459 gibis.

Claro que ler 3459 gibis para encontrar uma pilha boa não é a melhor forma de passar o tempo. Há formas de evitar o desgaste. Esperar a história peneirar o que há de melhor é um caminho – embora não seja meu predileto e você fique sujeito à nostalgia dos outros. Prefiro a crítica — e não venha com aquela outra generalização, de que todos os críticos são terríveis. Você é que ainda não encontrou o seu.

O caso é que os pregadores da “idiotização”, da “indústria está em crise criativa”, da “banalização”, do “estado lamentável” e do “tudo é ruim”, se realmente se levam a sério, me lembram a piada do cara que chega ao médico reclamando que sente dor quando toca os pés, o joelho, a barriga, o ombro, a cabeça, o ouvido. O problema, obviamente, está no dedo. Se você olha para tudo e tudo é idiota, pode ser que você esteja olhando no espelho recomendo que você vá ao médico.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Você vai passar o resto da vida tentando me encontrar

Por Érico Assis


Desenho original da capa de
It Never Happened Again

O livro se chama It Never Happened Again: Two Stories by Sam Alden. Saiu faz pouco pela Uncivilized Books. É o primeiro livro-livro-livro-mesmo de Alden, que já tinha se autopublicado em minicomics e, claro, na internet. Postagens no Tumblr viajam mais do que livros, mas livros — os de papel, daqueles que você tem que pegar a página com dois dedos e virar — ainda têm motivo. E não é só saudosismo ou o cheirinho de gráfica. São coisas de linguagem.

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“Hawaii 1997”, primeira história de It Never Happened, está no Tumblr de Alden há mais de um ano. As entrevistas que o chamam de um dos-talentos-mais-promissores-desta-geração costumam abrir com o link de “Hawaii 1997”.

Há muitos motivos, o maior sendo tudo que ele consegue fazer numa HQ que se lê em 3 minutos e que dá a impressão de ter sido desenhada em menos tempo. Ou isso ou aquele momento final, em que a menina nos olha de perfil, nos dá as costas e diz “você vai passar o resto da vida tentando me encontrar”.

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O caso é que “Hawaii 1997” parece feita para ser lida em livro, e não nos jpegs empilhados do Tumblr. Nas quatro páginas em que vemos a menina, de costas, correndo entre as árvores — seguidas de mais quatro do menino correndo —, o ato de passar o indicador por trás da folha para puxar a próxima página parece necessário. Como se a progressão daquela corrida precisasse de um ato físico e, no caso, rumo à direita. Dá o ritmo certo.

Pausar o olho em cada quadro, microssegundo que seja, sem muitas distrações ao redor que não mais três, quatro quadros da mesma página e da contígua, também é outra jogada que faz parte da narrativa. Assim como fazer a página anterior sumir quando você coloca uma nova por cima. Exagerando só um pouquinho, o lápis de Alden também pede papel — você passa o dedo por cima para ver se sente o grafite.

Comandar as setinhas do teclado ou o mouse, desculpe, não é a mesma coisa.

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Me sinto um velho ranzinza vindo aqui falar das vantagens de “passar o indicador por trás da folha”. Parece a mesma manha dos que vêm dizer que livro de papel não fica sem bateria. Então, só para constar: leio mais, muito mais, em telinhas do que em papel. A comodidade do digital (no acesso, no preço, na portabilidade, em dizer onde eu parei) ganha do papel em 90% das vezes. 99%.

Também posso dar um exemplo inverso: “His Face All Red”, uma HQ sensacional da Emily Carroll feita para a web, foi lançada em livro este ano e perdeu o que tinha de melhor nas suas “viradas de página” digitais. É questão de linguagem, enfim.

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E é só no digital que você faz isso (de outra HQ de Alden, “Hollow”):

(Crédito)

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Sam Alden tem 25 anos. Nasceu e mora em Portland, Oregon, cidade com provável maior concentração de bons quadrinistas nos EUA. Desistiu de concluir uma graphic novel depois de desenhar 200 páginas. “Tenho preferido escrever mais na hora que me ocorre. É tipo pregar uma cobra no chão: você começa pelo rabo e vai subindo até a cabeça, que não para de sacudir. Ela continua viva, se debatendo. Cacete, que metáfora bizarra” (daqui). Prefere publicar suas HQs no Tumblr, e imagina-se que várias delas ainda vão entrar em livro.

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Não sei se é a intenção, mas, para quem leu e tem coração, acho que o título do livro responde o que aconteceu quanto à promessa da menina.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Paul Pope

Por Érico Assis


“Meu pai dizia que eu gostava da Heavy Metal porque podia ficar segurando a revista com uma mão só. Mas meu negócio não era esse. Eu era vidrado nos mundos que os europeus construíam, na bizarrice.”

Paul Pope é norte-americano. Nasceu em Filadélfia, mas cresceu numa cidadezinha de Ohio. Passou a adolescência lendo X-Men e Superman igual a toda garotada. No fim da adolescência, bem diferente da garotada, queria olhar para fora: os álbuns de Manara, Vittorio Giardino, Yves Chaland, filmes de Kurosawa, catataus de mangá em japonês. Entrou na faculdade de artes para circular com o povinho da fumaça e discutir Grandes Ideias. Ficou lá oito anos sem se graduar. Mas aos 21 já tinha uma editora de quadrinhos. Quem administrava era uma sócio fictício chamado Ira Rubin — Pope com assinatura e voz impostada quando tinha que falar com jornalistas e distribuidoras.

A grande obra de Pope era THB, a série de aventuras da garota HR Watson. Em Marte, no futuro, ela carrega uma bolinha de borracha roxa que, em contato com a água, transforma-se num guarda-costas supermusculoso com dois metros e quinze. Eram os tempos da explosão do quadrinho indie nos EUA e Pope estava na dianteira.

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“Cara, se o Jack Kirby tivesse a liberdade do mangá, com toda aquela eletricidade, brio, potência que a gente lembra quando pensa no Kirby, se ele tivesse mais espaço, aquela pancadaria ia ser sensacional.”

Foi a mesma época de pico da indústria de mangás. A Kodansha foi de bolso cheio contratar ocidentais para diversificar os gibis no Japão. Pope foi um dos contratados, produziu centenas de páginas e viu poucas saírem de fato. Os japoneses levaram cinco anos para desistir do plano, mas mantiveram o americano como funcionário esse tempo todo. Ele chama o período de “aprendizado”.

Seus quadrinhos começaram a circular na Europa. Jean-Pierre Dionnet, um dos fundadores da Heavy Metal, nomeou-o “Jim Morrison dos quadrinhos” — não só pela semelhança de postura, mas também pela aparência física. Nos EUA, ele não tinha os melindres que outros indies tinham em trabalhar para a indústria: fez gibis de Batman e Homem-Aranha, vendeu criações para a Vertigo. Também vivia de ilustração no cenário da moda e editorial hipster nova-iorquino: a marca DKNY contratou-o para assinar coleções em duas temporadas.

Adorava citar Picasso, Salvador Dali, Ernest Hemingway. Morando no SoHo de Nova York, tentou viver sua versão da Paris anos 1920. Trabalhava até a meia noite e depois ia para o bar discutir gibi com Frank Miller.

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“Fui conversar com o cabeça da DC Comics. Eu queria muito fazer uma história do Kamandi, o personagem do Jack Kirby. Eu tinha uma ideia bem legal… aí ele me falou: ‘Você acha que vai fazer HQ pra criança? Para, pode parar. A gente não publica gibi pra criança. A gente publica gibi pra marmanjo de 45 anos. Se quiser gibi pra criança, a gente tem o Scooby-Doo.’ Aí eu pensei: ‘Ok, acabou entre nós.’”

Bom de Briga nasceu porque Pope não encontrava gibis legais para os sobrinhos pré-adolescentes. Não legais como ele queria: uma mistura da pancadaria fantástica da Era de Prata com o foco psicológico e distendido dos mangás nas paisagens barrocas da Heavy Metal. São poucos, muito poucos, que têm motor flex para processar a influência dos três grandes mercados de quadrinhos do planeta.

Assim, naquelas seis páginas em que o pai do Garoto Bom de Briga chega à morada celeste — ou nas quase 30 páginas de Bom de Briga contra Humbaba —, você vê tanto Kirby quanto Jean-Claude Mézières, tanto Moebius quanto Miyazaki. Aqueles sorrisos vêm do Hugo Pratt, os planos abertos têm Katsuhiro Otomo, heróis e vilões pulando e trocando farpas verbais lembram Stan Lee/Steve Ditko. E as porradas são Frank Miller.

O liquidificador de referências não serve para nada se Pope não tiver propósito definido e original. Bom de Briga tem isso: é quadrinho de ação puro, divertido, rock ‘n’ roll. Talvez seja um dos quadrinhos perfeitos para apresentar ao sobrinho, ao filho, aos pré-adolescentes. As influências, citações e homenagens estão lá só para os marmanjos de 45 anos.

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(As citações de Pope vêm da Comics Journal (edição 191 e aqui) e do Comic Book Resources.)

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Maracanaço

Por Érico Assis


“My Travels with the Curse of Maracanã”, reportagem de Christoph Niemann para o The New York Times.

A recomendação veio do Scott McCloud e, por vir dele, virou aquela avalanche de likes e retweets e alarmes entre a (nossa) turma de seguidores: “My Travels with the Curse of Maracanã”, reportagem de Christoph Niemann no site do New York Times. Não uma reportagem qualquer do Times, mas uma reportagem em… uhm… ahm… quadrinhos? Powerpoint? Livro ilustrado digital?

Bom, é o seguinte: Niemann foi enviado ao Rio de Janeiro para trazer algo sobre “o espírito da Copa do Mundo”. Sua produção é uma sequência de (quadros? páginas? slides?) que usam fotos, desenhos, desenhos sobre fotos, desenhos animados, desenhos animados sobre fotos, trilha incidental, efeitos sonoros e dois trechinhos de vídeo em loop. E, sim, uma bela narrativa sobre o Maracanaço — o monstro da derrota na Copa de 1950 — e Moacir Barbosa — o goleiro da Seleção na época. Numa das primeiras (cenas? montagens? parágrafos?), Niemann fica trocando bola com o Cristo Redentor.

O Times chama Niemann de “colunista visual”. Seus textos, usando a definição ampla de texto, sempre baseiam-se em ilustração, animação, fotografia e algumas palavras. A última postagem de seu blog Abstract Sunday, por exemplo, traz um obituário de André Cassagnes, criador da Tela Mágica, numa sequência de desenhos feitos numa Tela Mágica vintage. No currículo, ele tem livros infantis ilustrados, livros ilustrados não-infantis e apps.

Mas o caso é que a recomendação veio do Scott McCloud, o cara que escreveu Desvendando os Quadrinhos e que abriu milhões de cabeças para a definição de uma história em quadrinhos — o que nos (me) deixa pensando se ele queria recomendar a reportagem de Niemann, independente de suas animações, áudio e vídeo, como história em quadrinhos.

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Aí que, sincronisticamente, no mesmo dia da matéria de Niemann, o Guardian publicava uma conversa com Alan Moore falando de seu novo projeto de quadrinhos para internet: o Electricomics. O esquema ainda deve levar um ano para entrar no ar, mas incluirá uma plataforma/ferramenta/app/engenhoca para os próprios usuários criarem webcomics, colaboração de outros nomes conhecidos dos quadrinhos e Moore em si roteirizando uma nova versão de Little Nemo.

Já no segundo parágrafo, Moore dispara que não acha que os quadrinhos precisem se reinventar para a internet. “Não tenho a mínima ideia [do que se tem feito] porque não tenho qualquer tipo de presença da internet, nenhum desses aparelhos, nenhum tablet e, para ser bem sincero, não me envolvo mais com a cena dos quadrinhos.”

Ok. Envolvido ou não, Moore resolve dar uma aulinha sobre o que (não) viu. A reportagem explica que ele cita uma página do Spirit de Will Eisner na qual o herói investiga uma casa vazia: “Tem-se um quadro da cozinha no escuro. Uma torneira no primeiro plano, e da boca da torneira sai uma gota d’água levemente prolongada. Fosse num quadrinho digital, você estaria tentado a deixar aquela gota pingar, quem sabe adicionar um efeito sonoro, ping-ping-ping. Mas a narrativa não ficaria melhor e você estragaria a elegância que há no original de Eisner, onde o esticar da gota nos diz que ela vai cair em questão de segundos, e outra gota vai se formar. [Os quadrinhos são uma tecnologia] que se apoia no hardware do cérebro, no software da mente. Os efeitos potenciais já estão criados lá. Evitar esses badulaques seria um dos primeiros princípios a que os quadrinhos digitais deveriam ater-se”.

Moore não está nem aí para as reportagens de Niemann serem ou não quadrinhos. Nem para o que McCloud já defendeu sobre potencialidades a explorar no quadrinho digital. Provavelmente nunca viu Thunderpaw. Nem When I Am King. Nem “Our Toyota Was Fantastic”, na qual Boulet lembra das viagens de infância e faz as luzes da estrada passarem sobre o carro, uma memória que é ao mesmo tempo estática e animada em loop. E por que não chamar isso de quadrinho?

Tudo bem que cada um faz seu gibi do jeito que quiser. Mas lançar-se num projeto novo de webcomics já ditando princípios e torneiras que não pingam soa como contrassenso.

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Outros já tentaram categorizar os trabalhos de Christoph Niemann. Steven Heller diz que “não é ilustração no seu sentido convencional, pois está mais para uma espécie de pensar visual tão racional quando a ciência e tão irracional quanto a arte. É divertido, peculiar, mas também uma perspectiva de vanguarda, que atrai os sentidos.”

Mike Wenthe, tratando justamente da pergunta “isso é quadrinho?”, diz que o trabalho de Niemann talvez não se encaixe nas definições formais de quadrinhos, “mas eu prefiro ver como algo que expande os recursos dos quadrinhos, assim como a poesia expande os recursos da língua, ao invés de algo que não se equipara a um padrão ortodoxo. Sem esquecer que: é divertida”.

E basta isso: “My Travels with the Curse of Maracanã” é divertida. Leia (/assista/acompanhe/clique/etc.).

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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