Érico Assis

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Por Érico Assis 

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Frank Miller não anda muito bem. Fotos do ano passado mostram um homem emaciado, esquelético, sem cabelo, barba nem sobrancelhas, o pescoço caído e o ombro direito sempre mais baixo que o esquerdo. Miller tem só 58 anos. Estava entre os 22 e os 24 quando se projetou no Demolidor, 28 quando se consagrou em Cavaleiro das Trevas, 34 quando inventou Sin City.

Angeli também tem 58 anos e está muito bem. John Romita Jr., Gilbert Hernandez e Dave Sim têm 58. Héctor Germán Oesterheld foi desaparecido pela junta militar argentina aos 58. Peter Bagge tem 57. François Schuiten, Geof Darrow e Suehiro Maruo têm 59. Osamu Tezuka morreu aos 60, de câncer no estômago.

Tezuka publicou seu primeiro mangá aos 17. Harvey Kurtzman entrou no mercado aos 17, Adrian Tomine autopublicou sua primeira Optic Nerve aos 17. Hugo Pratt e Moebius começaram aos 18. Jules Feiffer foi contratado como assistente de Eisner aos 16 (está com 86). Joe Kubert publicou aos 15 (faleceu aos 85). Pedro Cobiaco e João Montanaro começaram aos 14. Katsuhiro Otomo, Jack Kirby, Laerte, Robert Crumb, Barry Windsor-Smith, Hergé e Will Eisner começaram aos 19. Rob Liefeld e Garth Ennis também.

Dave Sim tinha 23 anos quando disse que ia publicar 300 edições de Cerebus, que começou aos 21 (e publicou mesmo, até os 48). Gilbert e Jaime Hernandez tinham 25 e 23 quando lançaram Love & Rockets. Morris criou Lucky Luke aos 23. Zep criou Titeuf aos 25. Neil Gaiman tinha 27 anos quando concebeu Sandman, mesma idade de Bill Watterson ao criar Calvin & Hobbes. Dan Clowes tinha 28 quando lançou a Eightball, Kurtzman tinha 28 quando lançou a Mad, Charles Schulz tinha 28 quando lançou Peanuts. Pat Mills e John Wagner criaram o Juiz Dredd com 28, Katsuhiro Otomo tinha 28 quando começou Akira. Hugo Pratt estreou Corto Maltese aos 30.

Joann Sfar publicou O Gato do Rabino aos 30 e no ano seguinte ganhou uma honraria do Festival d’Angoulême normalmente reservada a quem tem mais de 50. Para ser mais preciso, a média de idade de quem ganha o Grand Prix de la ville d’Angoulême é 52 anos. É um reconhecimento pela carreira. No Hall of Fame do Prêmio Eisner, equivalente dos EUA, a maioria dos premiados já é falecida.

Michael DeForge tem 28 anos. Bastien Vivès tem 31. DW tem 33. Caeto, Rafael Sica e Bryan Lee O’Malley têm 36. Fábio Moon e Gabriel Bá e Scott Snyder e Matt Fraction e Brian K. Vaughan e Tom Gauld e André Diniz e Shiko têm 39. Frederik Peeters, Manuele Fior e Jeffrey Brown têm 40. Liniers e Junko Mizuno têm 42. Paul Pope, Ludovic Debeurme e Marcello Quintanilha têm 44. Mark Millar e Rafael Campos Rocha têm 45, que Christophe Blain completa daqui a alguns dias. Chris Ware, Blutch, Warren Ellis, Frank Quitely, Jamie Hewlett e Brian Bendis têm 47. Odyr e James Kochalka têm 48. Lelis faz 48 esta semana. Julie Doucet, Killoffer e Guy Delisle têm 49. Lewis Trondheim, Jean-Christophe Menu e Jason têm 50. Spacca, Lourenço Mutarelli, Junji Ito, Emmanuel Guibert, Dave McKean e Jim Lee têm 51. David Mazzucchelli, Joe Sacco e Mike Mignola têm 54. Grant Morrison, Jeff Smith, Chester Brown e Scott McCloud e Eduardo Risso têm 55. Igort, Peter Kuper, Calpurnio, Marc-Antoine Mathieu e David B. têm 56.

David B. tinha 37 anos quando começou a publicar Epilético, sua autobiografia, mesma idade em que Harvey Pekar começou a contar sua vida na American Splendor. Alison Bechdel tinha 36 anos quando lançou Fun Home. Justin Green inaugurou a autobiografia no quadrinho underground aos 27, Marzena Sowa começou Marzi com 26, Craig Thompson começou Retalhos aos 24. Miriam Katin só publicou a história de sua família aos 63; Joyce Farmer, só aos 72. Marjane Satrapi e Art Spiegelman começaram Persépolis e Maus, respectivamente, aos 32.

Quino criou Mafalda aos 32. Gian Luigi Bonelli criou Tex aos 40. Uderzo tinha 33 e Goscinny tinha 34 quando criaram Asterix.

Goscinny morreu fazendo um teste ergométrico aos 51. Yves Chaland e Alex Raymond morreram em acidentes de carro, respectivamente aos 33 e aos 46. E.C. Segar morreu de leucemia aos 43, Henfil morreu de AIDS aos 43. Glauco foi morto aos 53, Wolinski foi morto aos 80. George Herriman morreu aos 63. Winsor McCay se foi aos 63 ou 67, pois não se sabe direito quando ele nasceu. Jijé, Martin Vaughn-James e Angelo Agostini morreram aos 66. Kurtzman, Pratt, Don Martin e Jean-Claude Forest, aos 68. Moebius, Gil Kane, André Franquin e Keiji Nakazawa morreram com 71. Hal Foster e Jerry Robinson morreram com 89. Rudolph Dirks, aos 91. G.L. Bonelli, aos 92. Carl Barks, aos 99.

Al Jaffee está com 94. Shigeru Mizuki, com 93. Mort Walker, com 91. John Romita Sr. tem 85 anos, Ziraldo tem 82, Kazuo Koike e Mauricio de Sousa têm 79. Jean-Claude Mézières, Jean Van Hamme e Jim Steranko têm 76. Joost Swarte, André Juillard e Jiro Taniguchi têm 67. Milo Manara está com (heh) 69.

Stan Lee está com 92 anos. Entrou de office boy numa editora de quadrinhos aos 17, publicou seu primeiro texto em gibi aos 18, criou (com colegas) o Universo Marvel contemporâneo aos 40. Continua trabalhando. Dizem que sua longevidade se justifica porque ele sempre escreveu de pé. Está com aparência melhor que a de Frank Miller.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Fritz The Cat na livraria infantil

Por Érico Assis

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Na semana passada, o Dicionário de Inglês de Oxford registrou a palavra comix. A definição do substantivo plural é: “Histórias e tiras em quadrinhos, especialmente as escritas para adultos ou de natureza underground ou alternativa”. Na mesma semana, encontrei Fritz the Cat numa livraria infantil.

Veja bem: não era seção infantil de livraria. Era uma livraria infanto-juvenil. A livraria matriz chama-se Xis. Você anda mais alguns metros na mesma galeria e chega na filial, que se chama Xiszinha. A Xiszinha só tem livros para crianças e adolescentes, prateleiras de várias cores, mesinhas com lápis de cor. Xiszinha tem uma pequena seção de quadrinhos. Ali que eu vi Fritz the Cat, de R. Crumb, da editora Conrad, formato álbum, 132 páginas, lançado em 2002.

O gato foi criado por Crumb nos anos 1960. Foi estrela de várias histórias e tinha personalidade adaptável: foi beatnik, pop star, poeta hippie, agente da CIA. A consistência estava na personalidade: mulherengo, arrogante, hipócrita, drogado, indigno da confiança de namoradas e amigos, às vezes meio racista. Era um canalha gozando a/da/na revolução sexual. As gatas, pombas, raposas que Fritz pega têm os peitos e coxas grossas típicos de Crumb. Quase sempre acabam nuas. Em uma das primeiras histórias, ele seduz a irmã. Em 72, Fritz virou um longa animado que inclui cenas das HQs e uma suruba zoológica na banheira. Teve continuação. Fez tanto sucesso que Crumb se irritou e matou o gato nos quadrinhos.

Não que a livraria Xis ou Xiszinha precisem saber o histórico de cada livro que vendem. Mas a capa da edição da Conrad dá dicas: Fritz com a mão enfiadas na blusa de sua gatinha, umas coisas caídas no chão que parecem baganas. A quarta capa deixa tudo bem claro. Fritz the Cat é tão marco dos comix que podia ilustrar o verbete do Oxford. Será que eu devia informar a Livraria Xiszinha?

Óbvio que o meu eu de 20 anos me xingou pelo ataque de moralismo. Mas o caso é que eu não tenho 20 anos e tenho uma filha de quatro anos que gosta de gatinhos. Ela também ama dinossauros, então a levamos para assistir Jurassic World e no final ela resenhou: “Não me tragam mais nesses filmes assustadores”. Fritz não tem dinossauros comendo gente, embora tenha bichos comendo bichos. Não sei o que ela ia achar.

Por coincidência, no mesmo dia eu tinha lido uma declaração do Neil Gaiman: “Sou absolutamente, cem por cento a favor do direito do pai ou mãe dizer: ‘Não quero que meu filho leia isso.’ Sou absolutamente, cem por cento contra o pai ou mãe que diga: ‘Não quero que meu filho leia isso e não quero que outra criança leia.’ São duas coisas bem diferentes”. Ele falava de pais que tentam proibir livros em bibliotecas. Vale para livrarias também, Gaiman? Como eu disse, a matriz da Xis fica a poucos passos da filial Xiszinha, e era só questão de passar o Fritz da Xiszinha para a Xis. Além disso, ninguém proíbe crianças de entrar na Xis-matriz, que tem sua própria seção de HQ.

Tem um ensaio do Alan Moore sobre erotismo e pornografia onde ele diz que “culturas sexualmente progressistas nos deram a matemática, a literatura, a filosofia, a civilização e coisas desse tipo, enquanto culturas sexualmente restritivas nos deram a Idade Média e o Holocausto”. Entre os exemplos, ele fala das estátuas de Pã ostentando ereções nas praças da Grécia antiga e os anéis penianos, com espigões voltados para dentro, que os pais alemães e austríacos no início do século passado prendiam em adolescentes para evitar pensamentos impudicos.

Tem também aquela entrevista maravilhosa do Colbert com o Maurice Sendak, quando este diz que: “Eu não escrevo para crianças. Eu escrevo. Aí vem alguém e diz: ‘Isso é para criança’”.

Também lembro de uma conversa com um amigo que reclamava da Disney, a qual insiste em colocar cenas tristes nos filmes que a filha dele gosta. Justifiquei (mal, muito mal) que filmes também podem ser um aprendizado. Que podem render uma ou duas noites mal dormidas, mas que ajudam a criança a entender o mundo, inclusive coisas ruins do mundo. Tomei: “Minha filha já aprende as coisas ruins do mundo vivendo no mundo. Ela não precisa aprender num desenho”.

Minha vó repetia que só gostava de filmes onde podia ver “coisa bonita”. Dor, sofrimento, tristeza não era coisa pra cinema. O filme preferido dela era Uma linda mulher.

Mexi um pouco mais na seção de quadrinhos e vi que também tinham a adaptação de O estrangeiro para HQ. De repente o problema não é moralismo, imoralismo, nem desorganização ou falta de conhecimento. De repente é só porque gibi é tudo para criança e esse tem um gatinho. Enfim: não avisei nada à Xiszinha. Ainda não sei se devia.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Nossa Fierro

Por Érico Assis

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Quadrinho de Lucas Gehre para a Nébula.

A Nébula surgiu no mês passado como um espaço novo para HQs brasileiras, associado à plataforma de publicação online Medium. Tem uma história nova a cada dia útil. Dentro da proposta maior do Medium — criado pelos cabeças do Twitter para que se faça tuítes mais compridos (entenda-se: textos) e para melhorar o nível da discussão do tema que se quiser —, a Nébula se identifica como “quadrinhos, jornalismo e cotidiano”. Os autores costumam pegar um tema e destrinchar em uma pequena HQ, às vezes do tamanho de uma charge. A referência é o Nib, espaço de HQ-reportagem, charges e crônicas em HQ no Medium em inglês.

Até aí nada de novidade, porque o Brasil sempre teve e ainda encontra nos jornais uma tradição de chargistas que consegue resumir a discussão nacional do dia em um desenho. Mas os “quadrinhos, jornalismo e cotidiano” da Nébula são mais.

A série Relatos da Greve em Curitiba, de Guilherme Caldas, é uma HQ-reportagem com o cuidado estético que dá mais cor às notícias que circularam do Paraná para o país nas últimas semanas. A ironia devastadora do Bruno Maron em Sabe qual é o seu problema? O jogo desproporcional no porte de armas conta em 16 quadros o embate entre direita pragmática x esquerda acadêmica no Brasil. Pacha Urbano tem tratado das suas desavenças (não só dele) com o Facebook. Mesmo quando a LoveLove6 faz algo que é mais próximo de uma charge — Um bebê de $2 bilhões e 200 mães que não valem nada — não se tem uma charge comum. Não no tamanho, no mínimo.

E vai mais. A publicação mais forte no site até agora, Cão cego, rei monstro, de Pedro Franz, segue o “quadrinhos, jornalismo e cotidiano” misturando fascismo, história do Brasil, black blocks, racismo e donos de cachorro com seus cachorros. Mas não é uma crônica usual, pois já são três capítulos que misturam realidade e ficção e, mesmo que cada capítulo proponha um argumento, percebe-se que vai sair uma narrativa maior. Jesus Carlos, de DW Ribatski, também se anuncia como algo maior e parece que não se encaixa necessariamente no tom jornalístico/cronístico da Nébula. Parece mais uma história, no sentido ficcional, desligada da obrigação de comentar alguma coisa.

A Nébula é bastante nova e sempre se tem receio quanto à durabilidade de iniciativas assim. Mas pode ser muito. E se liga a uma conversa que tive há poucos dias: por que a gente não tem uma Fierro?

A Fierro, no caso, é a revista mensal que sai há quase dez anos encartada no jornal argentino Pagina/12. É uma antologia, que reúne HQs dos melhores quadrinistas argentinos em atividade. Lucas Nine, Ignacio Minaverry, Fernando Calvi, Lucas Varela e outros estão lá com frequência; o lendário Juan Gimenez voltou para uns números, Liniers tem participações esporádicas e de vez em quando desenterram um roteiro perdido do Carlos Trillo. É a segunda encarnação da revista, na verdade. A primeira surgiu nos anos 80 e durou cem edições. A versão atual, nascida pós-crise, em 2006, recentemente superou a predecessora: está no número 103.

O interessante da Fierro, como comentou um amigo, é que os quadrinistas de lá aproveitam a revista para publicar capítulos de obras maiores. É o modelo que se tem há décadas no Japão e na França-Bélgica, às vezes nos EUA: depois de sair na antologia, junta-se uns dez capítulos e você faz um álbum. Serve inclusive de auxílio financeiro durante a produção. Alguns autores aí publicam o álbum direto na Europa, aproveitando um intercâmbio que já é velho entre argentinos e as editoras francesas, espanholas, italianas — e lá, é óbvio, paga-se melhor e vende-se melhor que na América Latina. Aspecto bônus: para saber o que é o quadrinho argentino no momento, basta ir a uma banca argentina e comprar a Fierro do mês.

A Fierro é uma revista impressa e a Nébula é digital. Essa diferença rende uma longa discussão sobre alcance e relação com o suporte. Por outro lado, parece que alguns autores na Nébula estão se ensaiando para aproveitar o site como espaço de desenvolvimento paulatino de álbuns, como acontece na Fierro. E as duas remuneram os colaboradores — ou seja, dão algum apoio financeiro para a produção — o que não é realidade para toda publicação de quadrinhos.

Acessar a Nébula é saber o que é o quadrinho brasileiro atual? A estatística pede pra dizer que não: tem uma cambada de autores e de estilos que não estão lá. Mas se um argentino ou outro gringo me perguntar onde se vê o quadrinho brasileiro atual — ou qual é a nossa Fierro — eu citaria a Nébula com todo orgulho ufanista.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Tradutor, escritor, palavrinhas, quadrinhos

Por Érico Assis

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Esses dias o Caetano Galindo esteve por aqui dizendo que considera um livro que traduz como “um livro de Thomas Pynchon/Ali Smith/James Joyce/etc. escrito por Caetano Galindo”. Não foi a primeira vez que o Galindo falou nisso, nem ele é o primeiro a dizer que traduzir é escrever. Mas dizer esse tipo de coisa, ainda mais quando vem de um tradutor, provoca reações inflamadas. E provocou de novo: olha lá na seção de comentários: “Para mim, tradutor bom é tradutor que some no texto do escritor. Aquele que não fica nem subentendido, afinal, a função dele não é adaptar ou reescrever. Perdão, Galindo, mas acho que dizer que você escreveu um livro é prepotência, pois não o fez. Você traduziu.”

Para dizer que traduzir é escrever, não é necessário abrir nem um livrinho de teoria da tradução. É uma questão da Física. Se Éric Sentadeau escreveu “je t’aime” e eu traduzi por “eu te amo”, quem escreveu “eu te amo” não foi Sentadeau. Fui eu. A frase dele começa com “j”, a minha começa com “e”. A dele tem um apóstrofo, a minha não. Sentadeau nunca aprendeu uma palavrinha de português e seus dedos não formariam “eu te amo” no teclado nem por acaso. “Eu te amo” saiu do meu teclado.

Graça infinita, segundo a lombada do livro, é de David Foster Wallace. Muito embora Wallace nunca tenha escrito Graça infinita, e sim Infinite Jest. Quem leu ou está lendo ( \o ) Graça Infinita lê palavrinhas encadeadas no computador do Caetano Galindo, conforme a capacidade criativa de encadeamento de palavrinhas do Caetano Galindo e as referências do Caetano Galindo, sendo que uma destas referências — vamos dizer que neste caso foi a principal — é um livro escrito em inglês por David Foster Wallace chamado Infinite Jest.

Repito: é Física. Se você quiser entrar nas teorias arcanas da tradução, aí vai dar umas voltas por contratos de leitura, que a gente ficciona que existe um autor por trás da tradução, que as ideias são de outro, que só é tradução porque existe um texto de base e…

Digamos que você andava por aí lendo Vício inerente e contou para todo mundo que estava lendo Thomas Pynchon. Vocês foram vistos juntos no café, vocês dividiram a cama, você contou pras amigas que trocou altas ideias com o Thomas Pynchon. Desculpe, era ilusão. Se você leu Vício inerente e não Inherent Vice, você foi ao café, dividiu a cama e trocou altas ideias com sr. Caetano Waldrigues Galindo. Ele só estava usando uma capa de Thomas Pynchon.

No fim das contas, a conclusão das teorias arcanas é a mesma: tradução é escrever (no máximo dos máximos reescrever, que ainda é escrever). E não tente trocar o “escrever” por “criar”, “inventar”, “elaborar”, “estruturar” etc. querendo justificar uma função maior do escritor do texto de partida. Tradutor também cria, inventa, elabora, estrutura etc.

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Aí parei pra pensar de novo na tradução de quadrinhos. O texto dos quadrinhos, grosso modo, é a articulação entre palavrinhas e figurinhas. Tradutores de quadrinhos geralmente só podem mexer nas palavrinhas. As figurinhas geralmente ficam intactas. Porque, né, ai do metido que quiser redesenhar o Moebius, o Paul Pope, o John Romita, o Katsuhiro Otomo.

Mas… e se não fosse assim? E se traduzir um quadrinho fosse mexer nas palavrinhas e nas figurinhas? E se os tradutores fossem desenhistas que se embasam em um quadrinho estrangeiro e refazem aquele quadrinho no seu traço, nas suas cores, no seu ritmo?

Teríamos quadrinhos do Mike Mignola traduzidos pelo Gabriel Bá. Do Frank Miller traduzidos pelo Diego Gerlach. O Rafael Grampá seria um tradutor especializado em Geof Darrow, quem sabe também em Frank Quitely. Akira Toriyama traduzido pelo Vitor Cafaggi. Crumb traduzido pelo Allan Sieber. Quantas retraduções do Eisner já teriam saído? Tiago Elcerdo traduzindo Christophe Blain. John Buscema por Danilo Beyruth. Novas traduções dos Peanuts no traço do Odyr.

Seriam, tipo, remakes? Será que ficariam como as dublagens? Timbre, entonação e ritmo de um James Spader ou de uma Judi Dench no timbre, entonação e ritmo de um ator carioca? Seriam traduções? Sim, seriam, pelo menos, traduções. Seriam boas traduções? Talvez sim, talvez não. Seriam novos quadrinhos? Seriam também.

E sim, seria uma ideia estapafúrdia, mas deixa eu me divertir com a ficção. Era só para chegar a esse ponto: pense que a tradução de prosa é uma história em quadrinhos redesenhada. Nada do que o autor original pensou para manchar a página aparece na tradução. As palavras são outras. Os parágrafos são outros. A contagem de páginas é outra. A capa, mesmo que traga o nome do autor original e que seja até aprovada por este, muitas vezes é outra. O livro traduzido é outro e foi escrito pelo tradutor.

Faz um tempo, terminei a tradução de uma HQ de Jules Feiffer. Feiffer é autor das palavrinhas e dos desenhos. Por um lado, não toquei (e provavelmente ninguém mais tocou) nos desenhos do Feiffer. Por outro, quem ler Mate minha mãe não vai ler uma palavra do que o Feiffer escreveu. Me sinto um pouco prepotente, de fato, como apontou o crítico do Galindo naquele comentário, mas o que você tem que entender ao ver meu crédito de tradutor é o seguinte: “uma HQ de Jules Feiffer com palavrinhas de Érico Assis.” Questão de física.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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O futuro ainda não chegou

Por Érico Assis

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Capa de The Private Eye.

Na quinta-feira, dia 19, saiu a décima e última edição de The Private Eye. Foi a conclusão da trama sobre o detetive particular que, em 2176, descobre um plano terrorista para reativar a internet. Na futurologia dos autores, em algum momento deste século a Nuvem vai estourar e seus dados, senhas, fotos e histórico de navegação ficarão abertos para o mundo. O desligamento da internet será só o primeiro passo para remediar o caos. A seguir, a privacidade vai virar valor máximo, a ponto de as pessoas andarem na rua de máscara. Ironia ou não, já que ninguém se mete na vida dos outros e ninguém perde tempo em rede social, a sociedade é muito mais produtiva.

A premissa de The Private Eye contrasta com outra ironia: é uma HQ que só existe na internet. Os autores — o escritor Brian K. Vaughan e o desenhista Marcos Martin, ambos com renome considerável nos quadrinhos dos EUA — quiseram fazer uma experiência. Sem editora e sem intermediário algum, lançaram um gibi no estilo norte-americano, em capítulos mais ou menos mensais de vinte e poucas páginas, somente em formato digital aberto (pdfs e cbrs, copiáveis sem restrição) e cobraram segundo o modelo Radiohead: pague o quanto quiser. Você pode inclusive pagar zero dólares e baixar o arquivo no site da dupla, PanelSyndicate.com. Fica a sugestão de que, se você gostar da história, volte ao site e deixe uns caraminguás.

É praxe dos roteiristas de quadrinhos envolverem-se simultaneamente em diversos projetos. Vaughan, o escritor, não teve que largar a segunda série de maior sucesso entre os gibis autorais dos EUA, Saga, nem seu emprego de roteirista de TV para tocar The Private Eye. Martin, o desenhista, por sua vez largou serviço garantido na Marvel para se dedicar à experiência. Terceira ironia: Martin acreditava que a experiência ia dar certo; Vaughan, não.

Dois anos depois — comemorados na quinta-feira —, os dois estavam errados.

Primeiro porque, sim, o gibi rendeu. Mesmo com a opção de pagar nada, um bom número de leitores deu dois ou mais dólares para baixar o arquivo. Fizeram o mesmo na edição seguinte, na posterior e assim por diante. O Panel Syndicate divulgou apenas uma cifra: em um ano e meio, haviam arrecadado mais de 100 mil dólares. O que não é nada espetacular, mas não é trocado.

Em entrevistas, Vaughan diz que a grana sustenta Martin e a esposa Muntsa Vicente (colorista da série, que também não se dedica exclusivamente a Private Eye). Se tivessem seguido o modelo tradicional de gibi autoral impresso, porém, Vaughan acha que a renda seria maior — ele levanta seu próprio Saga como exemplo.

“O motivo pelo qual eu digo que o futuro [do modelo The Private Eye] ainda não chegou (…) é que a imensa maioria dos leitores de gibi impresso, de momento, tem pouco ou zero interesse em ler gibi no formato digital. Não interessa quantas vezes eu e o Marcos tenhamos repetido que não existe plano de lançar nada do Panel Syndicate impresso, a maioria dos meus leitores de gibi analógico, como Saga, diz que só vai conferir Private Eye quando sair em papel.” Vaughan releva que este público tradicionalista — do qual ele faz parte — está em diminuição natural e que o público que surge por vias digitais não vem com frescura arraigada. Além de estar em expansão.

Por outro lado, uma das críticas ao projeto é que os autores mandaram o cronograma mensal que haviam prometido para as cucuias: a espera entre as edições passou para dois, depois três meses. Numa editora tradicional, o cronograma imprevisível seria inadmissível.

A experiência de The Private Eye é muito instrutiva. A circulação do quadrinho de papel sempre foi um empecilho e virou uma situação mais complicada nas últimas décadas: impressão e distribuição ficam sempre mais caras, a segmentação do mercado prejudicou a renovação de leitores e há um universo inteiro de distrações por aí, muitas mais baratas. Já o quadrinho digital bate-se com a grande incógnita da boa vontade: como conseguir um bom número de pagantes por algo que existe de graça? The Private Eye não é um caminho pronto, mas dá indicativos do que autores podem montar e ajustar, e das expectativas que  podem ter.

Seja como for, Vaughan e Martin já anunciaram que farão um novo projeto nos mesmos moldes, embora não tenham dito se farão ajustes no modelo. Também disseram que convidaram “grandes nomes” dos quadrinhos para participar da iniciativa, incentivando outros a lançar seus próprios sites. “A distribuição autoral vai ser tão importante para os próximos 25 anos da indústria quanto a publicação autoral foi para os últimos 25.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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