Érico Assis

Sexo e gibi e judeus

por Érico Assis

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Um trechinho raso, uma menção rápida numa matéria que eu li essa semana, mas que rende uma conversa:

“Os quadrinhos começaram a crescer nos EUA, na prática, quando o La Guardia virou prefeito de Nova York e começou uma campanha anti-pornografia, que acabou com as editoras de pornô…”

A matéria conta um encontro entre historiadores dos quadrinhos no Center for Jewish History de Nova York para tratar de “Quadrinhos e Judeus”. Quem falou o trecho acima foi um dos convidados, Paul Levitz. O prefeito que ele menciona, Fiorello La Guardia (de ascendência judaica), esteve à frente da metrópole de 1934 a 1945 e fez fama no primeiro mandato por perseguir a máfia. A máfia estava envolvida, entre outras coisas, com editoras de pulp fiction e revistinha pornô. Com legislação e fiscalização pesada contra esses gêneros, editores e distribuidores tiveram que achar outro nicho. Uma das coisas em que eles investiram foi: gibis. Oitenta anos depois ainda se tem o mercado norte-americano de gibis e tudo que dele derivou, mundo afora.

Acho curioso pensar que Superman, Batman e tudo que veio depois existem porque, em parte, se negou ao público o estímulo sexual da pornografia. E porque era preciso substituir o pornô por outro estímulo.

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Super-heróis e pornografia talvez pareçam muito distantes. No mínimo, feitos para públicos diferentes. Os super-heróis podiam ser coisa de garoto, a ponografia seria para garotos de mais idade; na prática, porém, se vê que os dois gêneros cruzam as gerações de homens. No sentido comercial, a diferença é insignificante: gibi ou pornografia, ou um ou o outro, ajudam editora e distribuidora a fechar as contas vendendo grande volume de distração de massa.

A pornografia é o estímulo mais óbvio que se pode ter. Em termos biológicos, o sentido da vida é se reproduzir (ando lendo muito Dawkins) e a configuração mental instintiva é: sexo. Buscar sexo, estímulo sexual, meios para se garantir sexo, qualquer coisa que sirva à reprodução e proteção dos descendentes é o nosso default. Já viu o Louis C.K. traduzindo o que se passa na cabeça do homem se masturbando? “Oh! O tamanho avantajado dessas glândulas mamárias é perfeito para alimentar minha prole!”

Tudo que não é pornografia ou estímulo descaradamente sexual, enfim, está nos distraindo de pensar ou fazer algo em relação a sexo. Não vale só para quadrinhos, mas para todo entretenimento – que meio que joga com esse estímulo, mas sem cair no que a gente tacha de pornô. E veja só: dificultar o acesso a esse estímulo básico ajudou a construir impérios, entre outros, de gibis.

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A outra parte da matéria – na verdade, o foco da matéria – tratava da participação dos judeus na construção do mercado de HQ dos EUA. Foram autores judeus que criaram quase toda a primeira leva de super-heróis (fora Mulher-Maravilha e Capitão Marvel, lembra o texto) e lhes atribuíram noções judaicas de justiça, abnegação, comunidade e, mais tarde, autocomiseração e questionamento existencial.

Pululam as análises do Superman, último sobrevivente de Krypton, como judeu da Diáspora. Brian Bendis, roteirista judeu da Marvel, adora provocar os chefes dizendo que Peter Parker é o maior judeu não-declarado dos quadrinhos. A ideia da identidade secreta já seria em si um aceno ao judeu que tem que ocultar sua ascendência e religião dos preconceituosos — tal como Stan Lee, Jack Kirby, Bob Kane e outros tiveram que adotar pseudônimos para esconder os Lieber, Kurtzberg e Kahn de batismo.

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E aí, fechando a conexão sexo, gibis e judeus, li a entrevista do Robert Crumb que anda circulando. Crumb não vem de Crumbstein nem Crumbovsky, é Crumb mesmo, embora o velhinho seja grande praticante de autocomiseração. E anda na fina flor da misoginia:

“Muita mulher vem dizer que o que gosta mesmo em homem é o senso de humor. Os caras mais engraçados que eu conheço, os que têm o melhor senso de humor, são os judeus miseráveis, autodepreciativos, daquele senso de humor pra baixo, irônico. Eles são o maior fracasso com mulher. A mulher enxerga essa autodepreciação — se você ressalta uma fraqueza sua, elas até riem, mas notam a fraqueza. Mesmo que seja difícil generalizar, se você faz uma piada de si, se você diz que é desajustado, fracassado, o que gruda na cabeça delas é isso.” (…)

“A mulher quer que o homem tome a iniciativa, que seja forte, assertivo; elas querem o cortejo, a sedução. Apesar do feminismo, as mulheres ainda querem ser objeto de atração, e a autoconfiança do homem no cortejo é o teste pelo qual ele tem que passar para conquistá-la.”

Entrevistador: “Então, antes de ser famoso, como é que você levava elas pra cama?”

Crumb: “Não levava.”

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Érico Assis é jornalista, tradutor e doutorando. Mora em Florianópolis e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Também escreve em seu site pessoal, A Pilha.

Pais e Filhas

Por Érico Assis

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Em María y Yó, Miguel Gallardo conta um período de férias que tirou com a filha. Miguel mora em Barcelona e María mora nas Ilhas Canárias, com a mãe, e às vezes eles passam juntos uma parte do verão. “María tem 12 anos, um sorriso contagiante, um senso de humor especial e tem autismo”, Miguel escreve na primeira página.

Uma das maneiras prediletas de comunicação entre os dois é o desenho: María gosta de lembrar de todas as pessoas que conhece e os desenhos que Miguel faz de família e amigos ajudam-na a lembrar que elas existem. Miguel, por sua vez, desenha para nós as caras e bocas que as pessoas fazem na rua ao ver sua filha com o passo incomum e o olhar agitado — e as caras e frases de raiva com que gostaria de revidar.

Mais do que se irritar, porém, ele admira a filha brincando com a areia na praia: “Nas minhas fantasias (sou uma pessoa muito imaginativa), tendo a pensar que María consegue ver a composição dos átomos da areia ou, quem sabe, de mundos inteiros ou de estrelas ou… só areia caindo. Mas enquanto a areia passa entre seus dedos, María está feliz. Ela passa horas e horas vendo os grãozinhos de areia caírem… como uma ampulheta”.

Em María Cumple 20 Anõs, continuação publicada este ano, Miguel está preocupado porque não sabe como será o resto da vida da filha. “Quem vai cuidar de María quando May [a mãe] e eu não estivermos mais por aqui? Quem vai gostar dela tanto quanto nós? María será feliz? O que vai acontecer?”

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Em Maia, de Denny Chang, pai e filha estão caminhando para casa enquanto conversam sobre gatos e sobre o jantar. Ela quer pizza. Ele lembra que eles comeram pizza ontem. O pai diz: “Já sei. Vamos fazer aquele prato do vô. Faz tempo que não cozinho esse. Pode ser?” Maia topa.

“Pai…” “Oi…” “Será que eu vou poder ter um gato lá com a mãe?” Pausa. Um quadro do pai em silêncio. “Não sei… Tem que perguntar pra ela.”

O jantar dá errado (tem a ver com um gato). Acaba em pizza. Pai e Maia trocam caretas antes da hora do banho.

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Em O Cavaleiro das Trevas, Batman e Robin — a primeira menina-Robin — são emboscados pela polícia num arranha-céu de Gotham City. Pulam pela janela e salvam-se com uma Bat-asa-delta. A polícia atira. Um dos tiros atinge a cinta que prende Robin à asa delta.

Ela cai. Ele a segura pela mão. A luva dela escapa e Robin volta a cair do céu. Última chance: ela se agarra na ponta da capa de Batman. Ele puxa ela para cima até ficar segura. Os dois se abraçam forte.

Batman percebe que, durante toda a tensão, ela não emitiu um som. “Good soldier”, ele diz. “Good soldier.”

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Em Pílulas Azuis, Frederik Peeters conta da festa em que reencontrou Cati, a amiga de um amigo de um amigo, os dois sentaram num sofá para conversar e de repente foi como se aquele sofá estivesse num mar distante e não existisse mais ninguém. E, depois disso, conta do jantar em que ela falou que era soropositiva e que seu filho, de outra relação, também tem Aids.

No posfácio da obra, “Treze Anos Depois”, Frederik Peeters entrevista toda sua família. Cati e ele estão casados. O filho dela, enteado dele, tem 16 anos e demonstra disposição a encarar o preconceito, a dificuldade que vai ter com as namoradas e os novos tratamentos.

Surge uma personagem nova. “Por que você não aparece na HQ?”, pergunta o autor. “Bom, porque ainda não tinha nascido.” É a filha de Frederik e Cati, com nove anos e meio. Ele pergunta se ela já leu Pílulas Azuis. Ela responde que leu partes, mas que fica nervosa com as cenas do irmão.

“Quer dizer alguma coisa à pessoa que está lendo esta HQ?”, pergunta Frederik. “Que não se deve ter medo das pessoas que têm HIV. Não é porque elas têm uma doença que não são boas pessoas.”

“Eu te amo, minha linda”, diz o autor. “Eu também”, ela diz.

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Érico Assis é jornalista, tradutor e doutorando. Mora em Florianópolis e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
A Pilha

Mate minha mãe

Por Érico Assis

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Jules Feiffer aparece em Mad Men. Ele está no antepenúltimo episódio da quinta temporada, compondo um trio que avalia Megan Draper para o elenco da peça Pequenos Assassinatos. Não é Feiffer em pessoa que aparece no episódio. O ator escolhido tem a cara do Feiffer em 1967, entre os trinta e os quarenta, época em que o episódio se passa. O personagem não é nomeado nem tem falas. Sua aparência entra ali como um detalhe, um easter egg para quem souber quem é o autor de Pequenos Assassinatos.

O Feiffer desta época estava começando a carreira de dramaturgo. Viria a escrever mais umas peças e alguns roteiros de cinema. Já tinha uma vida inteira nos quadrinhos: aos 16 anos, fora ao estúdio de Will Eisner para dizer que não só lia e admirava as HQs do mestre, mas que também as estudava como um nerd. Começou a carreira lá, tendo inclusive escrito alguns Spirit creditados a Eisner. Uma década depois, ele começou uma tira no Village Voice que viria a durar mais de quarenta anos, em meio às peças de teatro, aos filmes, aos livros para crianças e para adultos, a um Oscar aqui, um Pulitzer ali…

Feiffer sempre foi uma figura esquisita nos quadrinhos dos EUA. Seus desenhos rabiscados não tinham o rebuscamento mais claro que se pedia nas revistas, seu humor não era óbvio nem infantil o bastante para as tiras de jornal (embora ele tenha tido uma tira de curta duração, chamada Clifford, nos anos 50). Foi o que o levou a publicações alternativas como o Village e a um público cult. Alguém deve ter dito que ele devia aproveitar o ouvido para diálogos e o talento nos cortes de cena fazendo roteiros. Foi um ótimo conselho: Feiffer ganhou mais reconhecimento em outras áreas, e provavelmente mais dinheiro, do que teria ganho se ficasse só nas HQs.

Talvez se pense que Mate minha mãe, escrita, desenhada e lançada pelo Feiffer octagenário — no momento, ele está com 86 — seja misericórdia dos editores com o velhinho. Hogwash, berraria um de seus rabiscos. Os diálogos afiados continuam à frente dos colegas de profissão. Os desenhos talvez tenham até ficado melhores. Feiffer tem fôlego para inventar algumas coisas: dê uma olhada no design esperto da leitura da página 108.

Mate minha mãe é vendida como primeira “graphic novel” de Feiffer, usando o termo que seu ex-chefe Eisner popularizou. Fãs mais atentos do autor reclamaram que ele já havia feito muita coisa com cara de graphic novel, como Passionella e Tantrum — a primeira, ainda nos anos 50. Em entrevistas, o autor se mostrou mais uma vez afiado: seja ou não sua primeira graphic novel, ele ressalta que é seu primeiro noir.

A tela plana de 65 polegadas, os blu-rays, o canal TCM e o botão de pause aparecem na sessão de agradecimentos de Mate minha mãe. Nomes de personagens e de ruas, cenas e diálogos fazem referências a momentos clássicos de Relíquia Macabra, Pacto de Sangue, a Raymond Chandler, Joan Crawford e Billy Wilder. Assim como nos filmes e livros noir, os personagens mais fortes não falam to os outros, mas at os outros. Não são falas, são disparos.

Embora não se associe o noir tanto às trilhas sonoras, Mate minha mãe tem muita música. Feiffer queria usar as letras de Duke Ellington, mas seu editor disse que ia custar uma fortuna. Então ele criou músicas por conta própria. Como tradutor, defendi que elas ficassem em inglês para reproduzir aquela dissonância dos filmes dos anos 40, quando a música começa e a dublagem é substituída pela voz original. Para a referência ficar mais evidente, pensei em sugerir legendas como as de cinema sob os quadros da HQ, com a tradução literal das músicas. Mas ia atrapalhar o desenho e podia causar mal entendidos. (As traduções literais de todas as músicas estão no final.)

Feiffer já disse que quer fazer dois outros álbuns com personagens de Mate minha mãe. O primeiro será um prelúdio, nos anos 30, com policiais e investigadores particulares; o segundo se passa depois de Mate, e trata da época da lista negra em Hollywood. Provavelmente vai terminar os dois perto dos 90. No ano passado, ele disse à Mother Jones: “Artista não costuma se aposentar. O grande Al Hirschfeld morreu aos 99 com as mãos tremendo porque queria desenhar. Eu fui quem fiquei mais surpreso com a diversão que tive trabalhando em Mate minha mãe. E é nisso que eu vou me concentrar daqui em diante, dependendo do quanto tempo me resta até eu começar a babar e cair na escada.”

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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★✝

Por Érico Assis 

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Frank Miller não anda muito bem. Fotos do ano passado mostram um homem emaciado, esquelético, sem cabelo, barba nem sobrancelhas, o pescoço caído e o ombro direito sempre mais baixo que o esquerdo. Miller tem só 58 anos. Estava entre os 22 e os 24 quando se projetou no Demolidor, 28 quando se consagrou em Cavaleiro das Trevas, 34 quando inventou Sin City.

Angeli também tem 58 anos e está muito bem. John Romita Jr., Gilbert Hernandez e Dave Sim têm 58. Héctor Germán Oesterheld foi desaparecido pela junta militar argentina aos 58. Peter Bagge tem 57. François Schuiten, Geof Darrow e Suehiro Maruo têm 59. Osamu Tezuka morreu aos 60, de câncer no estômago.

Tezuka publicou seu primeiro mangá aos 17. Harvey Kurtzman entrou no mercado aos 17, Adrian Tomine autopublicou sua primeira Optic Nerve aos 17. Hugo Pratt e Moebius começaram aos 18. Jules Feiffer foi contratado como assistente de Eisner aos 16 (está com 86). Joe Kubert publicou aos 15 (faleceu aos 85). Pedro Cobiaco e João Montanaro começaram aos 14. Katsuhiro Otomo, Jack Kirby, Laerte, Robert Crumb, Barry Windsor-Smith, Hergé e Will Eisner começaram aos 19. Rob Liefeld e Garth Ennis também.

Dave Sim tinha 23 anos quando disse que ia publicar 300 edições de Cerebus, que começou aos 21 (e publicou mesmo, até os 48). Gilbert e Jaime Hernandez tinham 25 e 23 quando lançaram Love & Rockets. Morris criou Lucky Luke aos 23. Zep criou Titeuf aos 25. Neil Gaiman tinha 27 anos quando concebeu Sandman, mesma idade de Bill Watterson ao criar Calvin & Hobbes. Dan Clowes tinha 28 quando lançou a Eightball, Kurtzman tinha 28 quando lançou a Mad, Charles Schulz tinha 28 quando lançou Peanuts. Pat Mills e John Wagner criaram o Juiz Dredd com 28, Katsuhiro Otomo tinha 28 quando começou Akira. Hugo Pratt estreou Corto Maltese aos 30.

Joann Sfar publicou O Gato do Rabino aos 30 e no ano seguinte ganhou uma honraria do Festival d’Angoulême normalmente reservada a quem tem mais de 50. Para ser mais preciso, a média de idade de quem ganha o Grand Prix de la ville d’Angoulême é 52 anos. É um reconhecimento pela carreira. No Hall of Fame do Prêmio Eisner, equivalente dos EUA, a maioria dos premiados já é falecida.

Michael DeForge tem 28 anos. Bastien Vivès tem 31. DW tem 33. Caeto, Rafael Sica e Bryan Lee O’Malley têm 36. Fábio Moon e Gabriel Bá e Scott Snyder e Matt Fraction e Brian K. Vaughan e Tom Gauld e André Diniz e Shiko têm 39. Frederik Peeters, Manuele Fior e Jeffrey Brown têm 40. Liniers e Junko Mizuno têm 42. Paul Pope, Ludovic Debeurme e Marcello Quintanilha têm 44. Mark Millar e Rafael Campos Rocha têm 45, que Christophe Blain completa daqui a alguns dias. Chris Ware, Blutch, Warren Ellis, Frank Quitely, Jamie Hewlett e Brian Bendis têm 47. Odyr e James Kochalka têm 48. Lelis faz 48 esta semana. Julie Doucet, Killoffer e Guy Delisle têm 49. Lewis Trondheim, Jean-Christophe Menu e Jason têm 50. Spacca, Lourenço Mutarelli, Junji Ito, Emmanuel Guibert, Dave McKean e Jim Lee têm 51. David Mazzucchelli, Joe Sacco e Mike Mignola têm 54. Grant Morrison, Jeff Smith, Chester Brown e Scott McCloud e Eduardo Risso têm 55. Igort, Peter Kuper, Calpurnio, Marc-Antoine Mathieu e David B. têm 56.

David B. tinha 37 anos quando começou a publicar Epilético, sua autobiografia, mesma idade em que Harvey Pekar começou a contar sua vida na American Splendor. Alison Bechdel tinha 36 anos quando lançou Fun Home. Justin Green inaugurou a autobiografia no quadrinho underground aos 27, Marzena Sowa começou Marzi com 26, Craig Thompson começou Retalhos aos 24. Miriam Katin só publicou a história de sua família aos 63; Joyce Farmer, só aos 72. Marjane Satrapi e Art Spiegelman começaram Persépolis e Maus, respectivamente, aos 32.

Quino criou Mafalda aos 32. Gian Luigi Bonelli criou Tex aos 40. Uderzo tinha 33 e Goscinny tinha 34 quando criaram Asterix.

Goscinny morreu fazendo um teste ergométrico aos 51. Yves Chaland e Alex Raymond morreram em acidentes de carro, respectivamente aos 33 e aos 46. E.C. Segar morreu de leucemia aos 43, Henfil morreu de AIDS aos 43. Glauco foi morto aos 53, Wolinski foi morto aos 80. George Herriman morreu aos 63. Winsor McCay se foi aos 63 ou 67, pois não se sabe direito quando ele nasceu. Jijé, Martin Vaughn-James e Angelo Agostini morreram aos 66. Kurtzman, Pratt, Don Martin e Jean-Claude Forest, aos 68. Moebius, Gil Kane, André Franquin e Keiji Nakazawa morreram com 71. Hal Foster e Jerry Robinson morreram com 89. Rudolph Dirks, aos 91. G.L. Bonelli, aos 92. Carl Barks, aos 99.

Al Jaffee está com 94. Shigeru Mizuki, com 93. Mort Walker, com 91. John Romita Sr. tem 85 anos, Ziraldo tem 82, Kazuo Koike e Mauricio de Sousa têm 79. Jean-Claude Mézières, Jean Van Hamme e Jim Steranko têm 76. Joost Swarte, André Juillard e Jiro Taniguchi têm 67. Milo Manara está com (heh) 69.

Stan Lee está com 92 anos. Entrou de office boy numa editora de quadrinhos aos 17, publicou seu primeiro texto em gibi aos 18, criou (com colegas) o Universo Marvel contemporâneo aos 40. Continua trabalhando. Dizem que sua longevidade se justifica porque ele sempre escreveu de pé. Está com aparência melhor que a de Frank Miller.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Fritz The Cat na livraria infantil

Por Érico Assis

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Na semana passada, o Dicionário de Inglês de Oxford registrou a palavra comix. A definição do substantivo plural é: “Histórias e tiras em quadrinhos, especialmente as escritas para adultos ou de natureza underground ou alternativa”. Na mesma semana, encontrei Fritz the Cat numa livraria infantil.

Veja bem: não era seção infantil de livraria. Era uma livraria infanto-juvenil. A livraria matriz chama-se Xis. Você anda mais alguns metros na mesma galeria e chega na filial, que se chama Xiszinha. A Xiszinha só tem livros para crianças e adolescentes, prateleiras de várias cores, mesinhas com lápis de cor. Xiszinha tem uma pequena seção de quadrinhos. Ali que eu vi Fritz the Cat, de R. Crumb, da editora Conrad, formato álbum, 132 páginas, lançado em 2002.

O gato foi criado por Crumb nos anos 1960. Foi estrela de várias histórias e tinha personalidade adaptável: foi beatnik, pop star, poeta hippie, agente da CIA. A consistência estava na personalidade: mulherengo, arrogante, hipócrita, drogado, indigno da confiança de namoradas e amigos, às vezes meio racista. Era um canalha gozando a/da/na revolução sexual. As gatas, pombas, raposas que Fritz pega têm os peitos e coxas grossas típicos de Crumb. Quase sempre acabam nuas. Em uma das primeiras histórias, ele seduz a irmã. Em 72, Fritz virou um longa animado que inclui cenas das HQs e uma suruba zoológica na banheira. Teve continuação. Fez tanto sucesso que Crumb se irritou e matou o gato nos quadrinhos.

Não que a livraria Xis ou Xiszinha precisem saber o histórico de cada livro que vendem. Mas a capa da edição da Conrad dá dicas: Fritz com a mão enfiadas na blusa de sua gatinha, umas coisas caídas no chão que parecem baganas. A quarta capa deixa tudo bem claro. Fritz the Cat é tão marco dos comix que podia ilustrar o verbete do Oxford. Será que eu devia informar a Livraria Xiszinha?

Óbvio que o meu eu de 20 anos me xingou pelo ataque de moralismo. Mas o caso é que eu não tenho 20 anos e tenho uma filha de quatro anos que gosta de gatinhos. Ela também ama dinossauros, então a levamos para assistir Jurassic World e no final ela resenhou: “Não me tragam mais nesses filmes assustadores”. Fritz não tem dinossauros comendo gente, embora tenha bichos comendo bichos. Não sei o que ela ia achar.

Por coincidência, no mesmo dia eu tinha lido uma declaração do Neil Gaiman: “Sou absolutamente, cem por cento a favor do direito do pai ou mãe dizer: ‘Não quero que meu filho leia isso.’ Sou absolutamente, cem por cento contra o pai ou mãe que diga: ‘Não quero que meu filho leia isso e não quero que outra criança leia.’ São duas coisas bem diferentes”. Ele falava de pais que tentam proibir livros em bibliotecas. Vale para livrarias também, Gaiman? Como eu disse, a matriz da Xis fica a poucos passos da filial Xiszinha, e era só questão de passar o Fritz da Xiszinha para a Xis. Além disso, ninguém proíbe crianças de entrar na Xis-matriz, que tem sua própria seção de HQ.

Tem um ensaio do Alan Moore sobre erotismo e pornografia onde ele diz que “culturas sexualmente progressistas nos deram a matemática, a literatura, a filosofia, a civilização e coisas desse tipo, enquanto culturas sexualmente restritivas nos deram a Idade Média e o Holocausto”. Entre os exemplos, ele fala das estátuas de Pã ostentando ereções nas praças da Grécia antiga e os anéis penianos, com espigões voltados para dentro, que os pais alemães e austríacos no início do século passado prendiam em adolescentes para evitar pensamentos impudicos.

Tem também aquela entrevista maravilhosa do Colbert com o Maurice Sendak, quando este diz que: “Eu não escrevo para crianças. Eu escrevo. Aí vem alguém e diz: ‘Isso é para criança’”.

Também lembro de uma conversa com um amigo que reclamava da Disney, a qual insiste em colocar cenas tristes nos filmes que a filha dele gosta. Justifiquei (mal, muito mal) que filmes também podem ser um aprendizado. Que podem render uma ou duas noites mal dormidas, mas que ajudam a criança a entender o mundo, inclusive coisas ruins do mundo. Tomei: “Minha filha já aprende as coisas ruins do mundo vivendo no mundo. Ela não precisa aprender num desenho”.

Minha vó repetia que só gostava de filmes onde podia ver “coisa bonita”. Dor, sofrimento, tristeza não era coisa pra cinema. O filme preferido dela era Uma linda mulher.

Mexi um pouco mais na seção de quadrinhos e vi que também tinham a adaptação de O estrangeiro para HQ. De repente o problema não é moralismo, imoralismo, nem desorganização ou falta de conhecimento. De repente é só porque gibi é tudo para criança e esse tem um gatinho. Enfim: não avisei nada à Xiszinha. Ainda não sei se devia.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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