Érico Assis

O Escritor Original

Por Érico Assis

Um dos acontecimentos mais importantes para os quadrinhos no final de 2013 foi Alan Moore ter completado 60 anos. Chegar à sétima década já não é aquele terror da decadência existencial que pintavam — meu pai completa 68 esta semana e recentemente descobriu que adora andar de bicicleta. Moore, porém, resolveu ser o tio velho que considera a efeméride avançada desculpa para aposentar a pátina de polidez social.

Na semana do aniversário, Moore apareceu no Guardian reclamando dos super-heróis entre os quais construiu a carreira. Aproveitou e botou todos os quadrinhos no mesmo saco. “Alguém apareceu com essa de graphic novel. Aí os leitores se agarraram na ideia, só pra ter como validar o amor infinito pelo Lanterna Verde e pelo Homem-Aranha sem que pareça subnormalidade afetiva”, disse. E também: “Acho alarmante plateias de adultos em filme dos Vingadores se excitando com ideias e personagens criados pra divertir garotinhos de 12 anos da década de 50.”

Para Moore, os gibis continuam sendo feitos para os meninos de 12, apesar de raros leitores terem menos de 30. A evidência empírica confirma. Surpreende, porém, Moore reclamar que um dos prazeres possíveis na leitura é o escapismo.

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Então, no início deste ano, um desse leitores com bem mais de 30, Pádraig Ó Méalóid (ele é irlandês), postou em seu blog: “A Última Entrevista de Alan Moore?”, com a interrogação. Estranha-se não só o “última”, mas também “entrevista”: são seis perguntas curtas, e as respostas rendem mais de 15 mil palavras. Daria um livreto de 40 páginas.

O tratado mooreano, em linhas gerais, [1] rebate críticas por ele ter utilizado em HQ um personagem infantil do século XIX com conotações racistas, [2] critica os críticos que o acusam de apelar frequentemente para a violência sexual como recurso narrativo, [3] aquece três décadas de guerra fria entre ele e Grant Morrison, [4] denuncia o destratamento que sentiu nas mãos de jornais e jornalistas (o que pode render-lhe processo por calúnia) e [5] reflete sobre dar menos entrevistas, quem sabe nenhuma. “Melhor deixar meus trabalhos falarem por mim, que é tudo que sempre quis ou esperei, tanto como escritor quanto leitor das obras de outros”, escreve, ressaltando que deixou de ficar com a família entre Natal e ano novo para responder à entrevista.

Comecei a ler há pouco a última biografia de Moore, chamada Magic Words. Já nas primeiras entrevistas, com vinte e tantos anos, ele não escondia opiniões sobre colegas vacas sagradas. Nessa época, porém, sua plateia era meia dúzia de adolescentes. Duas décadas depois, estes haviam virado editores do Guardian e do New York Times. Descobriram que podiam ligar para Moore sempre que a pauta estivesse fraca e precisassem de alguém com verve irônica para comentar a derrocada cultural da humanidade, começando pelos gibis, terminando em Hollywood. Ele cumpriu o papel. Passou a sexta década de vida construindo a persona midiática de velho ranzinza, com direito a participação nos Simpsons.

A decisão de fechar a porta para entrevistadores, por isso, é marcante. De qualquer forma, apesar de ser aferrado a seus posicionamentos, Moore deixou exceções à regra: vai apenas “restringir” sua participação em eventos (que já é mínima e só na Inglaterra), mas manterá “performances”. Para deixar as obras falarem por si, contudo, continua produzindo ferozmente: tem HQs inéditas agendadas para este ano e próximo, continua a produção de uma série de curta-metragens que devem levar a um longa, e ainda tem Jerusalém, romance de duas mil páginas que escreve há mais de uma década. Faz dois anos que diz estar quase acabando.

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Há poucos dias a americana Marvel Comics relançou Miracleman, uma das célebres HQs de Moore com super-heróis. Apesar de citada e comentada em toda história dos quadrinhos, não era publicada há mais de vinte anos por conta de um enrosco jurídico. O nó se desatou à base de muita paciência e dinheiro. Ou quase.

Em contrato, Moore estipulou que seu nome não poderia aparecer na republicação. Os motivos são complexos, têm a ver com o enrosco e com o criador do personagem ter levado um prejuízo sem que Moore soubesse na época em que trabalhava nos gibis. Também têm a ver com Moore não gostar da Marvel.

Respeitando o contrato, a editora seguiu com a brincadeira: os créditos de roteiro da edição são dados a “The Original Writer”. Feliz sessenta, sr. Original.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Meu quadrinho favorito de 2013

Por Erico Assis

Meu quadrinho favorito de 2013 saiu em 2012 e chama-se Annie Sullivan and the Trials of Helen Keller. Annie Sullivan, deficiente visual, foi a professora da menina cega e surda Helen Keller, que viria a tornar-se defensora dos portadores de deficiência nos EUA cem anos atrás. A história das duas já virou peça de teatro e filme. No quadrinho, o mundo sem visão, sem audição e sem instrução de Keller consiste em sombras imaginadas. A língua de sinais que Sullivan lhe ensina vai dando nome às sombras: pedra; grama; graveto; você; eu. Não haveria como representar o processo mental de Keller melhor do que numa HQ. O autor é um americano chamado Joseph Lambert, que está recém começando carreira.

Meu quadrinho favorito de 2013 foram os quase 4 mil frames de “Time”, da xkcd. Ou melhor, a discussão em torno de “Time”, seus significados ocultos, suas pistas elaboradas, o xkcd Time Wiki e os quatro meses de especulação. Não curti muito quando o Randall Munroe resolveu explicar a história, por isso finjo que a explicação não existe.

Meu quadrinho favorito de 2013 foi a edição de Hellblazer pelo Neil Gaiman que eu li pela primeira vez quando tinha uns dezesseis anos, e várias vezes depois dos dezesseis, e que rererererereli de forma privilegiada porque tive que traduzi-la. Duas outras HQs do Gaiman que li e reli e reli muito desde a adolescência também saíram com traduções minhas: Orquídea Negra e Os Livros da Magia. Além de fazer outras traduções de Gaiman, este ano vi o próprio de perto durante três dias seguidos. Não lhe dirigi uma palavra sequer.

Meu quadrinho favorito de 2013 foi virar editor de quadrinhos. Não tanto editor, mas tradutor com privilégios. O Outros Quadrinhos, que surgiu da conversa num café com meu amigo Fabiano, encerrou o ano com 500 páginas de webcomics inéditas em português. (E ainda rendeu a colaboração com The Private Eye, que também é meu quadrinho favorito de 2013.) (Não espalhem, mas meu Outro Quadrinho preferido é Os Nós Ocultos.)

Meu quadrinho favorito de 2013 foi a descoberta de Robô Esmaga, do Alexandre Lourenço. Meu quadrinho favorito de 2013 foi Notre Toyota Était Fantastique (ou Our Toyota was Fantastic), do Boulet. Meu quadrinho favorito de 2013 foi Sex Criminals, Hawkeye, Matt Fraction contra o suicídio, Jupiter’s Legacy, The Superior Foes of Spider-Man, Battling Boy. Meu quadrinho favorito de 2013 foi o infográfico The Chris Ware Sadness Scale no Supergraphic. Meu quadrinho favorito de 2013 foi Você é Minha Mãe? e o molho de chaves do Rafael Sica no Claviculário. Meu quadrinho favorito de 2013 foi Harmatã, do Pedro Cobiaco, One Page Movie, do Bruno Seelig, e O Beijo Adolescente 2, do Rafael Coutinho.

Meu quadrinho favorito de 2013 foi “There’s a Place”, que o Kioskerman só postou no Twitter. Tem seis quadros, parece ter sido desenhado enquanto ele estava no telefone e diz que “Existe un país adentro de mi cabeza donde la práctica religiosa de la población entera consiste en observar a un bebe por horas, sin pensar absolutamente nada.” Se os melhores quadrinhos — e literaturas, e cinemas, e músicas etc. — são os que mostram o mundo onde gostaríamos de viver, eu escolho esse.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Mercados, acasos e bons quadrinhos

Por Erico Assis

Esses dias, Art Spiegelman estava repetindo pela enésima vez que Maus não era, digamos, seu plano de carreira. Tendo chegado meio atrasado para o movimento underground dos anos 60, Spiegelman queria ser o explorador da linguagem dos quadrinhos,  criar o Ulysses das HQs, ser o formalista que testaria os limites da narrativa quadrinística. Era o que havia começado em Breakdowns, a qual ele também disse enésimas vezes que não lhe rendeu nem grana nem reconhecimento.

Maus era acima de tudo Spiegelman tentando livrar-se de um comichão para contar a história do pai, da mãe que se suicidou e dele mesmo em sua relação com os dois. Havia uma história ali, inegavelmente. Bastava livrar-se dela e seguir com o plano de carreira.

Maus acabou virando mais que o plano, e propriamente a carreira de Spiegelman. Único prêmio Pulitzer dos quadrinhos, é o estandarte para dizer que HQs podem ser sérias, profundas, inteligentes, adultas. Publicada em uma dúzia de idiomas, alguns milhões de cópias em circulação, adotada por universidades, deixou Spiegelman sem conseguir fazer mais nada de mesmo peso. Em parte, porque ele não precisa.

Cito o exemplo de Maus porque a última coluna pode ter deixado uma impressão comercial ou taxativa demais sobre o que deveria constituir o mercado de quadrinhos. Falei que os autores deveriam atentar mais ao fato de que novos leitores chegam aos quadrinhos porque se interessam por um tema, um gênero, uma abordagem, e não simplesmente por serem quadrinhos. Mas fique claro: não penso que autores deveriam investir em um determinado tema, gênero ou abordagem só para conseguir leitores. Não penso que questões de mercado deveriam ter posto alto na consideração de um quadrinista quanto ao que produzir.

Todos os mercados de entretenimento seguem a regra eternizada pelo William Goldman: “Nobody knows anything”, ou ninguém tem certeza de coisa alguma. Por mais que os caras da grana venham botar regras (geralmente a posteriori), para explicar o que torna o filme, a música, o livro, o gibi etc. mais vendável, a confluência de fatores que existe entre produção, recepção e o contexto geral de seres humanos no universo entre produção e recepção torna impossível prever o que vai e o que não vai dar certo. GTA V render 1 bilhão em um dia é tão previsível quanto ele não render nada. Ninguém tem certeza.

Claro que existem alguns indicativos, algumas linhas, alguns parâmetros e aquele texto do Malcolm Gladwell reafirma medinhos adornianos de Indústria Cultural e tais. Claro que há inclusive umas fórmulas que funcionam, que conseguem fabricar febres. Mas só febres, e não conheço exemplo que tenha ido além de febre. Maus, Sandman, Asterix, Calvin & Hobbes, Peanuts, Watchmen, a Marvel dos anos 60, Tintim, Lobo Solitário: nenhum deles foi talhado/modelado/customizado para virar produto com alta chance de venda. Mas enchem bolsos com constância há décadas, sem depender de febres.

A real é que ninguém sabe o que vai achar público e o que vai parar na liquidação. Como não existe deus do mercado, tudo é permitido. Qualquer quadrinho tem a chance de encontrar um nicho rentável de público – assim como de nem sua mãe gostar. Qualquer quadrinho pode catapultar o autor ao contrato internacional com a marca de vodka – assim como pode fechar o crowdfunding no zero. Qualquer quadrinho pode ser recusado por uma editora e aceito por outra – ou levá-lo à publicação independente. Ninguém tem certeza.

E se ninguém tem certeza, o que interessa mesmo é a vontade do autor de fazer o que quer. Se não há garantias do que é um bom quadrinho para o mercado, o bom quadrinho é aquele que satisfaz o autor. Não há parâmetro melhor. Se a obra vai satisfazer outros, aí é questão do autor aventurar-se na confluência de fatores que existe entre produção, recepção e o contexto geral de seres humanos no universo que fica entre produção e recepção.

A realidade de criar entretenimento é a briga constante entre esta imprevisibilidade do que vai dar certo e o vencimento do aluguel. A favor dos quadrinhos está o investimento bastante baixo para produzir uma paixão. Na pior das hipóteses, você, sei lá, volta a trabalhar com publicidade. Na melhor, você vira o Art Spiegelman. Ninguém tem certeza de coisa alguma.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Quadrinho e quadrinhos

Por Erico Assis

Kilgore Used Books and Comics Loves You

Laerte foi o homenageado-mor do 8º FiQ – o Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, que terminou no dia 17. Foi exatamente neste último dia que ele tinha hora marcada para conversar com o público, respondendo perguntas de uma mesa polivalente (quadrinista, jornalista, ativista, filho) e da plateia. Como é próprio do Laerte, conseguiu resumir em meia dúzia de palavrinhas uma confusão que estava há dias na minha cabeça.

Numa das primeiras perguntas da plateia, Laerte foi questionado quanto ao que pensava do panorama dos quadrinhos no Brasil. Parafraseio a resposta: só o Festival ali em volta era prova de que não existe mais só o quadrinho brasileiro, mas os quadrinhos brasileiros.

Laerte estava falando da variedade de gêneros, de formatos, de estilos, de públicos, de temas, de variação que se vê na produção atual. Se nos anos 70, quando ele começou, havia poucas opções fora dos gêneros de massa, o que se vê hoje é a consequência do movimento que buscou mostrar as HQs como opções de leitura que podem abarcar o infantil, o adulto, o super-herói, a biografia, a filosofia, a arte experimental, a simplicidade estilizada, o underground, o cômico, o ensaístico e virtualmente tudo que se queira fazer com imagens e palavras.

A confusão vigorava na minha cabeça porque, como sempre, o Festival começou com discussões sobre o mercado de quadrinhos no Brasil, tanto nos debates marcados quanto nas rodas de colegas. Falava-se em canais de acesso: o número de bancas em queda, as livrarias estagnadas, o digital incipiente. Falava-se nas editoras sem ousadia: desconhecimento da mídia, foco em programas do governo, erros grosseiros de logística. Falava-se dos independentes: crowdfunding, capricho, ousadia e inovação, mas com alcance restrito de público. Não se falava de números, pois todo mundo esconde os seus. Falava-se que ainda é preciso alcançar novos leitores.

Ninguém fora o Laerte, porém, lembrou que o quadrinho são quadrinhos. Ninguém falava de conteúdo. Ninguém falava das diferentes temáticas, dos diferentes estilos de texto, diferentes estilos de desenho, diferentes personagens.

O leitor recém-chegado aos quadrinhos – ou melhor, a um quadrinho – costuma chegar porque este quadrinho tem o mesmo Homem-Aranha que ele viu no filme. Ou porque trata da Segunda Guerra Mundial. Ou porque fecha com suas tendências políticas. Ou porque as aquarelas enchem seus olhos. Porque tem relação com mitologia greco-romana. Porque ele achou a capa animal. Porque é a autobiografia de um adolescente reprimido. Porque é uma história com o roqueiro preferido. Porque aquele cara é engraçado. Porque tem ninjas/zumbis/vikings/dachshunds/bukkake/aviões.

O caso é que o ponto de acesso mais comum do novo leitor não é o fato do quadrinho ser quadrinho, mas sim por ser uma leitura atraente. Se o novo leitor gostar deste ponto de acesso, posteriormente pode acompanhar nomes de autores, catálogos editoriais, outras opções do gênero, quem sabe até os quadrinhos em um nível macro.

Para os já iniciados e a meia dúzia de apóstolos (como eu) que gosta de quadrinho só por ser quadrinho, é fácil esquecer essa ideia aparentemente óbvia. O discurso que se passa ao público em formação é de que os quadrinhos são um mundo à parte, uma linguagem alheia aos gêneros, interesses e gostos, que só pode ser adentrada se você gostar de todos os quadrinhos.

Ainda naquela mesa com Laerte no FiQ, uma menina levantou-se e declarou que era recém-chegada aos quadrinhos. Havia chegado ao/à Laerte devido, nas palavras dela, às “discussões de gênero” que o autor embandeira – e estava contente com o mundo variado ainda em exploração.

E no dia em que eu estava escrevendo este texto, recebi o e-mail de um ex-aluno perguntando “por onde eu começo a ler quadrinhos?”. Se eu escrevesse sobre música, ele ia perguntar “por onde eu começo a ouvir música?”?

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Meus ídolos em carne e osso

Por Érico Assis


Conta Mark Waid, escritor de quadrinhos dos EUA, que uma vez foi convidado a fazer uma sessão de autógrafos na comics shop de uma cidadezinha em Vermont. Os proprietários da loja buscaram-no no aeroporto. Antes de levá-lo à loja, resolveram dar uma volta pela cidade e apresentaram pontos turísticos. Como o passeio estava demorando, o escritor começou a perguntar sobre o horário da sessão. Os anfitriões desconversavam. Waid insistiu. Eles tiveram que confessar.

Não havia sessão de autógrafos. Eles não eram donos de comics shop. Nem havia comics shop na cidade. Eram dois fãs que haviam feito uma vaquinha com os amigos para pagar passagem e estadia do autor predileto. Queriam passar um dia com ele.

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Tento mas não consigo entender a necessidade que temos de conhecer os escritores, os artistas, a carne e osso das pessoas que criaram as coisas de que gostamos. Seria para comprovar que a pessoa existe? Seria pela chance de conversar com um ser de intelecto superior? Seria para sentir o cheiro do outro?

A incógnita é maior porque também me encanta a ideia de pisar o mesmo chão que um autor querido. Invariavelmente, porém, a relação não passa do assoalho em comum. Se encontro um ídolo, meu cérebro assume velocidade Homer Simpson. Caso eu já tivesse hipotetizado um encontro com a figura e o que eu diria, a amnésia apaga tudo. Fica só a sensação de que não há o que falar com o ser do intelecto superior. Quando me ocorre uma solução cool — dizer “Obrigado. Por tudo.”, apertar a mão e tchau —, a figura já está longe.

Uma vez, uns anos atrás, consegui o e-mail de um escritor cujos livros estão entre os inestimáveis que mudaram a minha vida. Era a chance de dizer isso a ele, de explicar por quê, de agradecer e, vai-quem-sabe, até receber uma resposta para ser impressa, emoldurada, admirada e entendida só por mim. Estou pensando até hoje em como escrever este e-mail. Ele já deve ter trocado de endereço.

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E a chance de decepção? Pela lógica, ela é grande. A obra que você admira é provável resultado de horas de investimento mental, tripas, suor e sangue do autor. O autor é uma pessoa.

Enquanto pessoa, ele/ela provavelmente prefere estar entre outras pessoas conhecidas do que entre hordas de estranhos. Ele/ela não é o personagem que você admirou, não defende necessariamente as mesmas opiniões que você louvou na obra, possui necessidades básicas maslowianas, pode ter discutido com o namorado na hora do almoço e pode ou não tomar banho todos os dias. Tendo acumulado algumas horas entre fãs, ele/ela já deve ter escolhido a estratégia de defesa mais apropriada a seu gênio: a timidez modesta, o júbilo exacerbado, a frieza arredia. São pessoas, afinal. Fora o brilhantismo, é um ser humano biologicamente bem parecido com você. Só que o brilhantismo está na obra, não na carne nem no osso.

A Vanessa Barbara, no último texto do blog, disse que preferia não ter conhecido pessoalmente certos autores, e que o mau-caratismo de alguns leva ela a não lê-los. Também tive a infelicidade de conhecer gente com quem prefiro não ter mais contato. São as decepções que eu carrego. Ainda consigo, porém, considerar que a obra é uma coisa, a pessoa é outra — posso gostar de uma sem gostar da outra. Ênfase no “ainda”.

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Na quarta-feira, começa o 8º Festival Internacional de Quadrinhos, o FIQ, em Belo Horizonte. Vou pisar no mesmo chão que Boulet, Peter Kuper, George Pérez e outros que consumo vorazmente mas não conheço pessoalmente. O Laerte também vai estar por lá — e o que dizer ao Laerte que não seja vazio, que não seja igual a tudo que ele já ouviu, que não seja babaca? Vou me contentar com o mesmo chão.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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