Erico Assis

O silêncio da splash page (1)

Por Erico Assis

Em Cachalote, perto do final do primeiro capítulo, o filhinho-de-papai Ricardo Aurélio chega a Paris, encontra na rua um casal de amigos brasileiros e troca contatos. O casal despede-se e segue seu rumo. Ricardo acende um cigarro e parte para o outro lado. Então vira-se para, por cima do ombro, observar os que se afastam.

O olhar de Ricardo, enquanto solta fumaça pelo nariz, toma uma página inteira. Uma grande massa branca, vazia, empurra os desenhos para o canto inferior direito. Na linguagem clássica dos quadrinhos, caberia ali um grande balão de pensamento em que Ricardo reflete sobre o encontro que acaba de ter e constrói planos cínicos para tirar proveito dos conhecidos. Não é necessário, claro. O olhar do personagem e a grande massa branca já dizem muito do que passa na sua cabeça.

Existe algo de único e incomparável na splash page — o nome que os americanos dão para os quadros de página inteira nas HQs. Nos gibis de super-herói, a página que abre a história é geralmente uma splash — traz alguma cena impactante, ou um panorama para situar a ação. Também está no meio da história quando se chega a um clímax. O objetivo técnico é o mesmo: a página inteira só pode ser vista pela visão periférica, então a splash faz o olho do leitor passear pelo grande quadro, demorar-se em um único momento estático.

Na graphic novel autobiográfica Stitches, David Small reconta a visita ao psiquiatra onde teve que encarar a verdade mais difícil sobre os pais. Small, adolescente, agarra-se às pernas do terapeuta e começa a chorar. O choro vira oito páginas de chuva, sendo a primeira e as três últimas splashes — a narrativa acelera e desacelera-se com um efeito que pode ser comparado… à câmera lenta? A uma panorâmica demorada? Ao piano da trilha sonora? Tudo isso, mas algo mais.

Em Umbigo sem fundo, a sequência que encerra a segunda parte da história é composta só de splashes. À primeira vista ela pode ser comparada a recursos de montagem do cinema, quando algo de trágico ou climático está para acontecer. Mas Shaw começa com um quadro minúsculo, deixando o branco tomar a página, e a cada folha aumenta o tamanho do quadro. O virar de páginas do leitor fica mais frenético que nas cenas anteriores.

Não é possível analisar estas splashes, de Cachalote a Umbigo sem fundo, de Stitches ao trabalho autoral de Frank Miller, entre tantos outros exemplos contemporâneos, como se analisa uma pintura ou uma fotografia. As páginas fazem parte de uma sequência de imagens. Seu significado vem justamente por situar-se em certa posição de uma narrativa. Também não é possível analisá-la como uma cena do cinema, por mais que quadrinhos e cinema sejam narrativas com imagens.

No cinema, além do quadro ser sempre do mesmo tamanho, os personagens movimentam-se e a trilha sonora (incluindo falas, efeitos e música) também dará tom à cena. Há também a expressividade da fotografia — que, se comparada à expressividade do traço nos quadrinhos e à infinita possibilidade de estilos de desenho, prova-se bastante limitada. Além disso, há uma diferença básica: sou eu que viro as páginas no quadrinho, enquanto o cinema me define um tempo.

A linguagem dos quadrinhos baseia-se em modular o tempo. Acompanho uma sequência de quadros na página, com tamanhos e angulações variados, e aquelas imagens estáticas em conjunto me sugerem uma narrativa que acontece em determinado espaço de tempo, que pode ou não ser o mesmo que levo para ler. A splash page bem construída consegue mexer com o ritmo da história. Cria outro tempo, faz o mundo parar. Buscamos algum ponto de comparação com o cinema ou a literatura, mas o efeito é único.

Em suma: não há como se ter o efeito de uma splash page em outra linguagem que não a dos quadrinhos.

(Continua na próxima coluna)

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Erico Assis lê quadrinhos há 25 anos, escreve sobre quadrinhos há 12 anos e traduz quadrinhos há 3 anos. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley.
Em breve terá um garçoniere para guardar a coleção, pois sua esposa não admite mais uma página de gibi em casa. http://www.ericoassis.com.br/
Erico contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.

Identidades secretas

Por Erico Assis


(Foto por Rico Ramirez)

Subitamente ele puxou a manga da camisa para mostrar a tatuagem. Não lembro como que a conversa chegou a gibi, pois eu estava na minha identidade Clark-Kêntica de professor universitário. Ele era um professor visitante, que mencionou algo remotamente ligado a gibis. Engatei “então você também é chegado em quadrinhos?” e ele puxou a manga da camisa.

No antebraço, perto do cotovelo: “Wolverine”, na tipografia clássica do gibi.

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Às vezes tenho essa impressão de que ser leitor de quadrinhos é como fazer parte da Maçonaria: um aperto de mão especial, um padrão arcano na assinatura ou uma tatuagem é senha para dois, ahm, “irmãos” se reconhecerem. Certamente era assim antes dos filmes tornarem cool ler gibi. Hoje é fácil encontrar correligionários na livraria, por conta da seção de HQ. Mas puxar o assunto “o que você achou do último Batman do Morrison?” com um desconhecido ainda é risco de suicídio social.

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Estou escrevendo isso nos intervalos dos feed alerts da San Diego Comic Con, maior congregação geek do mundo ocidental. Quando começou, há quarenta anos, ia-se lá para trocar edições antigas ou conversar sobre gibi sem que os outros tivessem que mostrar a tatuagem para você saber que estava em ambiente seguro.

Hoje, HQ tem espaço cada vez mais reduzido no evento – Hollywood e outras indústrias de entretenimento descobriram que há uma relação recíproca entre o arregalar de olhos dos presentes e as vendas de produtos geek como filmes, bonecos, seriados de TV e games. O mercado encontrou uma serventia para nosso mundinho: somos tubo de ensaio. É nosso superpoder.

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No início da semana que terminou com a Comic Con, saiu na América do Norte o sexto e último volume de Scott Pilgrim. A sessão de autógrafos do primeiro volume, de 2004, tinha gerado uma fila de 50 amigos de Bryan Lee O’Malley na The Beguiling, comic shop de Toronto (onde O’Malley foi atendente). Duas mil pessoas lotaram a rua em frente à loja, esperando a abertura das caixas do volume 6 à meia-noite da terça-feira. O lançamento à moda Harry Potter se repetiu em algumas lojas dos EUA e do Canadá. Na Beguiling, O’Malley ficou autografando até as 3 da manhã.

“Ouvi pessoas dizerem que Scott Pilgrim é o único gibi que já leram, então com sorte podemos achar outros gibis que elas possam gostar. Você já assistiu Kung Fu Futebol Clube (Shaolin Soccer)? No final, ele transforma todo o mundo em Shaolin. Eu gostaria de usar esse pouquinho de influência para fazer mais gente se interessar por quadrinhos. Quero todo mundo lendo ou fazendo quadrinhos”, diz O’Malley numa entrevista. É outra característica das nossas identidades secretas: estamos sempre buscando gente com quem conversar sobre os gibis.

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Esse discurso, aliás, foi forte nos anos 90, principalmente nos EUA: todo leitor de HQ deve responsabilizar-se por converter não-leitores. Senão, o mercado vai afundar. A estratégia nunca deu muito certo. Geeks não costumam ter uma cara confiável para recomendar bons hábitos, e vão continuar invisíveis se tentarem lhe dizer que gibis são legais.

A internet deu impulso à “imprensa fã” (da qual faço parte), responsável por difundir cada migalha de informação liberada pelas editoras. A assessoria da Companhia das Letras, aliás, confirma que os leitores da linha Quadrinhos na Cia., comparada a outras linhas, são os que mais replicam informações sobre os lançamentos.

Mas foram os filmes que conseguiram levantar o mercado, em quase todo o mundo. Mesmo assim, ainda são poucos os casos em que o interesse despertado por uma adaptação cinematográfica de HQ transborda para algo além da própria HQ adaptada.

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O’Malley não quer um mundo onde todos sejam dedicados leitores de HQ e convirjam anualmente à San Diego Comic Con. Quer apenas que você possa conversar com um desconhecido sobre o último Batman do Morrison assim como fala do filme da Angelina Jolie ou do disco do Gorillaz. Onde leitor de gibi não precise ser identidade secreta.

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A propósito, minha tatuagem é da Morte (a irmã do Sandman).

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Erico Assis lê quadrinhos há 25 anos, escreve sobre quadrinhos há 12 anos e traduz quadrinhos há 3 anos. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley.
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iGibi

Por Erico Assis

Comparação de uma mesma página no iPad e no gibi impresso. (Foto por InfoMofo)

Faz uma semana que tenho um iPad em mãos. Como leitor de gibis na tela do computador há anos, fazia tempo que esperava uma telinha portátil, de tamanho e peso decentes, para poder “folhear” sem maior distração. Não me venha falar de gibi em celular (explico abaixo por quê). O Kindle foi uma esperança, mas limitada aos gibis em preto e branco, fora a resolução fraca.

Eu já estava fazendo gambiarras: girar o laptop 90 graus e segurá-lo no colo como um livro aberto. Assim você consegue ver uma página de gibi no tamanho quase real. Barra de espaço para passar de página, tecla “R” para girar a página, repetir a cada folheada. Depois de quase queimar o computador por bloquear o exaustor com a perna, descobri que podia girá-lo para o outro lado e trocar a “R” pela “L”. Mas enfim: gambiarra.

O iPad é Jack Kirby descendo dos céus para nos dizer “leia muito gibi”. Nessa semana, já percebi algumas coisas:

1) Você se converte muito rápido à ideia de que impresso é passado. E começa a olhar com desconfiança e arrependimento para as estantes. Seu cérebro começa a lhe enganar: você lembra que tem que levar o livro tal para a universidade e o instinto já diz “é só carregar no iPad”. Só depois vem a lógica dizer “dã”. É um choque.

2) Você lê mais. Isso eu já ouvia de quem tem outros leitores digitais. A chegada dum aparelhinho desses parece inaugurar uma nova era de dedicação à leitura do cânone ocidental ― talvez porque agora o cânone ocidental pese menos. Minha pilha (virtual) de leituras (virtuais) está caindo mais rápido. E não parece ser só pela novidade.

3) É mais rápido. Primeiro porque você aperta um botãozinho e ele está pronto, mais rápido que uma TV (não tem tela de “inicializando o sistema operacional”). Segundo porque sua biblioteca está ali à escolha do dedo, como numa jukebox. Terceiro porque cada segundo que você leva para virar a página de um gibi impresso vira meio segundo do indicador clicando pra página seguinte. Para ler mangá, com a narrativa geralmente mais veloz, parece ser o único jeito certo. Imagino milhares de japoneses batendo na testa.

4) A página inteira. E essa é a minha birra com os celulares. 99% das HQs ainda são feitas para o impresso, e isso implica em uma “experiência de impresso”. Will Eisner e Scott McCloud me apoiam em dizer que a página de HQ é pensada pelo desenhista como um todo, e você tem que recebê-la como um todo ao folhear ― mesmo que vá ler um quadro por vez. Fora o 1% de HQs criadas especificamente para serem lidas um quadro por vez (ou em tiras, como os webcomics), ler gibi quadro a quadro é como ouvir só a letra da música, sem a melodia. O entorno é indispensável.

Embora a tela do iPad seja uns 20% menor que o “formato americano”, você ainda consegue ler os balões com clareza. Já o formato europeu, como um álbum do Tintim, é 30% maior que a tela, o que cria um pouco mais de dificuldade. Quando chega a páginas duplas, que os americanos adoram, você tem aquela sensação de estar assistindo mal, na TV, um filme que deveria ter ido ver no cinema. Enfim, enquanto estiver usando o iPad para ler coisas que não foram criadas para o iPad, ele também é meio que uma gambiarra, mesmo que uma boa gambiarra.

5) “O achatamento”. Obviamente, não existe a dimensão da profundidade nem a sensação tátil numa tela. Você não pode ver a última página enquanto marca com o dedo o ponto em que está lendo (para ajudar nesse sentido, há uma barrinha de progresso, como de um vídeo do YouTube). Não há a sinestesia de segurar um livrão de capa dura ou um fanzine sem grampos. Não existem páginas menores ou maiores que as outras, pois todas são do tamanho da tela (falo isso olhando para a cordilheira de quadrinhos de diferentes tamanhos nas minhas estantes).

Enfim, tudo é “achatado” à mesma experiência, e qualquer experimentação com processos gráficos se perde. Pela lógica, toda HQ que não depende de sua materialidade gráfica pode ter sucesso no iPad ― e, convenhamos, são a grande maioria. Pela mesma lógica, edições de colecionador, luxuosos álbuns franceses e o Chris Ware vão manter as gráficas operantes.

É claro que os gibis de papel não vão acabar. Há motivos econômicos, culturais e até ergonômicos para isso não acontecer. Mas com tablets cada vez mais baratos ― olá, China ― por aí, o baque futuro vai ser grande. Mas me pergunte de novo daqui a três meses ― repito que isso tudo são só percepções de uma semana.

O melhor argumento que já ouvi contra os leitores digitais é que, quando todo mundo estiver com o seu no café ou na biblioteca, você não vai poder ver a capa do livro que a ruiva de compenetrados olhos verdes está lendo na mesa ao lado. E aquelas letrinhas na tela podem ser tanto Dan Brown quanto Philip Roth. Já com quadrinhos, o argumento perde a força ― você pode bisbilhotar por cima do ombro dela para tentar reconhecer os desenhos. Nem tudo está perdido.

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Erico Assis lê quadrinhos há 25 anos, escreve sobre quadrinhos há 12 anos e traduz quadrinhos há 3 anos. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley.
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Chris Ware dançando

Por Erico Assis

Chris Ware em sua casa (Foto por Tom VanEndye)

No livro Nouveaux moments clés de l’histoire de la bande dessinée, François Ayroles elege como um dos “novos momentos-chave da história dos quadrinhos” o dia em que Chris Ware, aí pelos 8 anos, enviou uma carta para Charlie Brown. Ele lera a tirinha dos Peanuts em que Charlie não sabe se vai receber cartões de Valentine’s Day. O pequeno Chris, lágrimas nos olhos, escreveu um cartão e endereçou-o ao dono do Snoopy.

Quinze anos depois, Ware já estava publicando quadrinhos no jornal da universidade. Mais uma década e ele lançaria Jimmy Corrigan: o menino mais esperto do mundo, clássico instantâneo das HQs e tratado visual sobre o fracasso e a tristeza.

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Num cross-over entre Jimmy Corrigan e Quimby the Mouse — Ware tem vários personagens recorrentes, que mudam de personalidade e circunstâncias de acordo com a necessidade —, Jimmy é procurado por um amigo em desespero: “o meu avô! Ele… ele envelheceu! Temo que algum dia possa até morrer! Ele tocava tuba para mim, agora não consegue mais!”.

O garoto mais esperto do mundo busca a solução nas “bibliotecas mais remotas do mundo”, empenha navios, aviões, trens, carros e horas sem sono para desenvolver a solução. O último ingrediente necessário: a cabeça do jovial camundongo Quimby. Jimmy liga para Quimby, o ratinho diz “sempre achei que algo assim fosse acontecer” e envia sua cabeça pelo correio. O experimento dá certo e Jimmy cura a velhice.

O avô revigorado vai tocar tuba no rádio. Jimmy lembra que Quimby adora ouvir concertos de tuba. Mas, de repente, Jimmy se entristece ao lembrar que Quimby não tem mais orelhas para ouvir música. A história termina com Quimby, sem cabeça, imóvel em sua poltrona, diante do rádio desligado.

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Do momento em que publicou Jimmy Corrigan até hoje, Ware, apesar de toda aparente falta de destreza nas relações humanas, tornou-se uma espécie de embaixador dessa nova fase de respeito literário dos quadrinhos, levando o país fechado das HQs ao planeta da alta cultura. Ganhou um prêmio de literatura do jornal inglês Guardian, foi o primeiro quadrinista a ter exposição solo no Whitney Musem of Art e editou o número 13, todo dedicado aos quadrinhos, da McSweeney’s, a revista dos novos nomes da literatura norte-americana.

Sua relação com o mundo highbrow é inédita para as HQs; parece mais a de um novo e celebrado literato. Ele já publicou seus contos (dá para chamar de “conto” se é HQ?) na Virginia Quarterly Review, no New York Times, na Granta, na New Yorker, na coletânea sobre estudos de personagens (organizada por Zadie Smith) The book of other people e em vários outros espaços. Em 2006, ganhou 50 mil dólares da fundação United States Artists, que financia artistas de áreas diversas. Seu estilo também já foi à TV, para animar sequências do programa This American Life. Há pelo menos quatro livros dedicados exclusivamente a analisar sua obra, publicados em inglês, espanhol e francês. The comics of Chris Ware: drawing as a way of thinking, deste ano, é uma reunião de artigos científicos sobre suas HQs.

Suas principais ocupações, porém, são a série Acme Novelty Library — que este ano chega à vigésima das edições publicadas sem frequência nem formato definidos desde 1993 — e projetar os volumes de arquivo da tira Krazy Kat (1913-1944). Seu “próximo Jimmy Corrigan” pode ser Rusty Brown, a história de um menino geek que vira adulto geek, e que vem sendo serializada na Acme Novelty.

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Ware: “Gente feliz tem arte de sobra. Toda a nossa cultura é organizada em torno de gente feliz. Os infelizes também precisam de alguma coisa.”

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Num documentário produzido para a TV francesa, Ware admite que prefere viver com as coisas do passado, “quando não parecia que tudo estava indo ladeira abaixo”. Diz isso enquanto monta a vitrola para tocar um de seus crepitantes discos de ragtime, o estilo musical de grande sucesso nos EUA da década de 1910. Ele já editou uma revista para os aficionados em ragtime e fazia capas de discos para músicos que ainda seguem o estilo, como Andrew Bird.

Nesse momento, a câmera capta-o, de pé, ouvindo a música. As mãos atrás do tronco, sua grande cabeça dá um leve indício de que vai se mexer. A câmera desce até seus pés — um dos quais bate sutilmente, ritmado, no chão. Chris Ware está dançando.

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Chris Ware enviando carta para Charlie Brown em Nouveau moment clés de l’histoire de la bande dessinée. O documentário na TV francesa: baixe completo ou assista em partes no Youtube (1, 2, 3). Ware na Virginia Quarterly Review, no Guardian, na New Yorker.  Seu perfil na American United Artists. Três animações para o programa This American Life: um clipe de Andrew Bird, uma história, outra história. Livros sobre o artista: Chris Ware, de Daniel Raeburn (Yale University Press, 2004), Chris Ware: la secuencia circular, de Ana Merino (Sinsentido, 2005); Chris Ware: la bande dessinée réinventée, de Benoît Peeters e Jacques Samson (Impressions nouvelles, 2010); The Comics of Chris Ware: drawing as way of thinking, organizado por David M. Ball e Martha B. Kuhlman (University Press of Mississipi, 2010). A variação de formato nas edições de Acme Novelty Library. E a frase citada de Ware vem de uma entrevista dele na revista Wizard.

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P.S.: Jimmy Corrigan não foi o primeiro livro com Chris Ware publicado pela Companhia das Letras. Procure em Little Lit: fábulas e contos de fadas em quadrinhos, de 2003, uma história-jogo de Ware no final.

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Erico Assis lê quadrinhos há 25 anos, escreve sobre quadrinhos há 12 anos e traduz quadrinhos há 3 anos. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley.
Em breve terá um garçoniere para guardar a coleção, pois sua esposa não admite mais uma página de gibi em casa. http://www.ericoassis.com.br/
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Meu primeiro semestre

Por Erico Assis


Recorte da capa rejeitada feita por Chris Ware para a revista Fortune.

Uma criança perspicaz ainda está pensando, nesse momento, na HQ sem título de Laerte publicada em maio na última página da Folhinha, suplemento infantil da Folha de S. Paulo. Daqui a 15 anos, estudando Artes Cênicas e lendo Baudrillard, a mesma criança vai reencontrar a HQ em um dos (espera-se) vários livros com a obra de Laerte, reler e confirmar que não a entende, pelo menos racionalmente. E não há por que racionalizar ou procurar moral da história. As tiras e contos de Laerte atingem um ponto mais primitivo, sensível e inominável do cérebro.

Será que Laerte seria aceito na coletânea Abstract comics? Com essa história, provavelmente não. A introdução do livro propõe uma teoria do “quadrinho abstrato”: não pode haver texto e não podem haver formas facilmente inteligíveis, mas é necessária pelo menos uma impressão de narrativa quadro a quadro. Numa das histórias mais simples do álbum ― “Stop quibbling, please”, do suíço (e matemático) Ibn Al Rabin ―, um quadrado conversa com um círculo sobre círculos e quadrados e sobre quadrados e círculos conversando sobre círculos e quadrados.

Shintaro Kago provavelmente também não seria aceito. O japonês cria delírios visuais que torcem e retorcem a linguagem da HQ ― bem como os corpos e vísceras de seus personagens. Numa de suas histórias mais famosas, Abstraction, uma relação amorosa entre jovens faz as próprias páginas da HQ girarem sobre um eixo, onde diferentes momentos se encontram em construções tridi… ok, é melhor você ler. Este ano, Kago começou a publicar pequenos cartuns em seu website; para ocidentais, é melhor acompanhá-los com a tradução em inglês no blog Same Hat! (aviso: não são para os de constituição fraca).

Há outros níveis de abstração, metáfora e alegoria em “Fiction”, conto do brasileiro Gabriel Bá, e em “Because I love you so much”, da dinamarquesa Nikoline Werdelin, este indicado ao prêmio Eisner. No primeiro, os escritores Joca Reiners Terron, Marcelino Freire e Milton Hatoum passam por uma crise de identidade entre a realidade e a ficção. No segundo, em uma sequência de tiras de jornal muito similares a Blondie ou Doonesbury, corre um drama familiar envolvendo abuso sexual infantil ― com direito a punchlines que fariam Todd Solondz (ou Hannibal Lecter) corar.

Nemesis, de Mark Millar e Steve McNiven, não tem qualquer significado ou moral ocultos. O maior supervilão do mundo sequestra o Air Force One, derruba-o sobre Washington e rapta o presidente dos EUA para chantagear o maior superpolicial do mundo. A grande expectativa de Millar é vender a série para Hollywood e aposentar-se aos 40. Já a coleção Wednesday comics dedica 200 páginas em 44 x 28 centímetros (mais ou menos seu antebraço por seu braço) a nada muito complexo. Superman, Batman, Supergirl, Mulher-Gato, Metamorfo, Lanterna Verde e outros estão num exercício de nostalgia, de recuperar o deleite estético das antigas grandes páginas de quadrinhos dos jornais.

Chris Ware, por outro lado, quer provocar. Convidado a produzir a capa da revista Fortune que traria a lista das 500 maiores empresas dos EUA, representou estas como arranha-céus no topo dos quais privilegiados dançam e bebem enquanto chegam os helicópteros de dinheiro. Lá abaixo, o populacho trabalha, consome, mata, explora, endivida-se e, com sorte, mantém uma casa mal ajambrada ― quando não afundada pelo aquecimento global. A capa, é claro, foi rejeitada.

Não é o que acontece com as capas que Ware produz com regularidade para a New Yorker, como a publicada no halloween passado: crianças de máscara fazendo o trick or treating nas portas dos vizinhos, seus pais aguardando-os compenetrados em seus iPhones ― que vestem estes pais com máscaras de luz refletida. Os mesmos iPhones ― e iPads e iPods ― para os quais a Marvel Comics lançará uma edição especial do Homem de Ferro, simultaneamente na tradicional versão em papel, o que deixa lojistas tradicionais em pânico e um mercado na expectativa da transformações tecnológicas que afetem distribuição, lucros, conteúdos e tudo mais.

Isto é quadrinhos, isto é 2010. Pelo menos no primeiro semestre.

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Laerte publica suas tiras em um blog chamado Manual do Minotauro. A HQ mencionada acima está aqui.

Abstract comics: editado por Andrei Molotiu, 208 páginas, Fantagraphics, 2009. Blog oficial.

Shintaro Kago: site oficial; em inglês, no blog Same Hat!. HQ “Abstraction”, aqui.

“Fiction”, de Gabriel Bá: na edição 35 da revista online Dark Horse Presents.

“Because I love you so much”, de Nikoline Werdelin, publicada originalmente no jornal dinamarquês Politiken em 2003; em inglês na coletânea From Wonderland with love: danish comics in the third millenium, editada por Steffen P. Maarup, Fantagraphics, 2009.

Nemesis, de Mark Millar e Steve McNiven, minissérie em 4 edições da Marvel Comics, linha Icon; primeira edição lançada em maio de 2010.

Wednesday comics: editado por Mark Chiarello, 200 páginas, DC Comics, 2010.

Sobre a capa rejeitada de Chris Ware para a Fortune: no blog O Esquema, no El País, no blog Bleeding Cool (com a capa escolhida para a edição); amostra de capas de Ware para a New Yorker.

Sobre a HQ do Homem de Ferro lançada simultaneamente para iPad e em versão tradicional.

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Erico Assis lê quadrinhos há 25 anos, escreve sobre quadrinhos há 12 anos e traduz quadrinhos há 3 anos. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley.
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