Joca Reiners Terron

Curto e grosso

Por Joca Reiners Terron

Essas faíscas incompletas da Carol Bensimon, em especial seu ceticismo em relação ao “miniconto do dinossauro”, fazem pensar na atual obsessão pelo extenso confundido por grandioso e profundo.

*

Essa fissura tem matriz ocidental, certamente de origem anglófila — Moby Dick, romance seminal da ficção norte-americana, apresenta relação isomórfica entre forma e conteúdo —: é um cachalote de mais de 600 páginas.

*

A semente oriental da percepção literária da realidade é ligeiramente mais breve, mas não menos influente. Matsuó Bashô:

velha lagoa

o sapo             salta

o som da água

*

Ao contrário da ficção ocidental, que ambiciona congelar o fugidio (a História, a patologia nacional, a psiquê do autor), o haikai fixa o instante. Em resposta ao seu mestre Bucchô (que o acusava de se dedicar demais ao gênero — segundo Leminski), Matsuó respondeu: “Haikai é apenas o que está acontecendo aqui e agora.”

*

Existe, porém, a contribuição ocidental para captar o momento, de origem grega com grandes praticantes entre latinos: o epigrama. Por exemplo, o espanhol Marcial (nascido em 40 d.C., na tradução de Rodrigo Garcia Lopes):

Você diz, Sênia, que os ladrões te violentaram.
Não foi bem isso o que eles me contaram.

*

Entra aí, ao contrário de no haikai (mais interessado na imagem), a ironia com finalidade humorística de comentário social. Nesse aspecto, o guatemalteco Augusto Monterroso (autor do “miniconto do dinossauro”) e outros latinos (desta vez americanos) fizeram sua parte para enriquecê-lo e renová-lo (entre eles Millôr Fernandes e Dalton Trevisan).

*

Monterroso, aliás, que definiu: “o bom, se breve, duas vezes bom”. Curto e grosso.

*

Grossura e sutileza, aliás, que caminham de mãos dadas nas epiformas plasmadas por Monterroso e evoluem para o autossarcasmo (e o abismo):

Fecundidade

Hoje me sinto bem, um Balzac; estou terminando esta linha.

*

Visão crítica que muitas vezes, com a transformação do miniconto no carro 1.0 dos gêneros literários (no sentido de que ao praticá-lo todos pensam que escrevem, mas e quando chega a ladeira?), esgotou a limpidez lapidar que lhe é característica, rumando à autocomplacência já experimentada em outras formas breves banalizadas anteriormente pela prática excessiva (incluindo o haikai nos anos 80).

*

Falta, entretanto, ao pensamento anglófilo que aspira à superioridade representada pelo Grande Romance Americano, o pensamento lacunar das formas breves que operam “em rede”, com a contribuição alheia. Em tempos de babelização intensa, o vazio, a lacuna, a elipse são oásis, ar puro que se respira no vácuo.

*

Como na filosofia de Wittgenstein, por exemplo: “O que alguém se propõe com a filosofia? Ensinar a mosca a escapar do frasco.”

*

Ou como sacaneia o poeta californiano Bob Kaufman num verso:

Quando respondo que estou escrevendo
O Grande Bilhete de Suicídio Americano
Eles cheiram minhas roupas e vão embora.

*

O Grande Romance Americano Ou Não se autoilude com a possibilidade de escapar ao Ponto Final. O miniconto, por outro lado, sabe que todo o resto é ilusório, menos o Ponto Final.

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu novo livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, acaba de ser publicado. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
Site – Twitter – Facebook

Não há garantias

Por Joca Reiners Terron


Valêncio Xavier (Fonte: Gazeta do Povo)

Ontem à noite assisti ao documentário Procurando Sugar Man. É um filme surpreendente, que relata a vida de Sixto Rodríguez, obscuro compositor folk de Detroit, e a investigação promovida por um punhado de fãs sul-africanos para encontrá-lo. Como disse, a história é repleta de surpresas inestimáveis para a fruição do espectador que não pretendo contar aqui.

Enquanto acompanhava os depoimentos das pessoas envolvidas naquela busca, não pude deixar de relacionar alguns de seus aspectos à literatura. O primeiro, sem dúvida, é a contingência do fracasso inerente ao projeto literário, preponderante 99,9% na existência de todo desavisado que se arrisque a publicar. Rodríguez, que lançou apenas dois álbuns, diz uma frase lapidar no filme. Questionado se se surpreendera por seu primeiro disco não ter vendido nada, ele responde, conformado: “É o negócio da música, então não há garantias”.

Então não há garantias.

Até no bungee jumping há garantias.

Na criação literária não há, e muito menos em sua difusão. Assim como na música.

Mas agora falemos de esperança, dos 0,1% que movem todo criador. Essa merreca percentual equivale, no melhor dos mundos, aos cem leitores de Stendhal, e em casos extremos, ao papel que Max Brod cumpriu na carreira póstuma de Franz Kafka ao salvar seus escritos do fogo.

Esse é o segundo aspecto, portanto, a esperança de que o espírito daquilo criado se comunique com o espírito daquele que lê. Não estou falando de mesa branca aqui, mas quase. Na definição do uruguaio Mario Levrero, “a literatura é uma das formas possíveis de comunicar a outros seres uma experiência pessoal que caia fora das formas habituais de percepção”.

Fora das formas habituais de percepção.

O espírito de Kafka, portanto, comunicando-se com o espírito de Brod através do texto. O espírito de Sixto Rodríguez se comunicando através da música com o de Craig Bartholomew-Strydom, o jornalista musical que o procurou.

Reparem nas diferenças aí: Brod leu os originais de Kafka, que sem sua intervenção teriam desaparecido para sempre. Já Craig pôde ouvir as raríssimas gravações de Rodríguez, mas elas existiam, apesar de quase inencontráveis. Não fosse Brod, nada de Kafka existiria, a não ser o pouco que publicou em vida. E hoje existiríamos nós, sem Kafka?

Tive a breve felicidade de participar do resgate de um autor que afetou meu espírito, que me deu esperança e fé, quando publiquei em 1998 a novelinha Meu 7º Dia, de Valêncio Xavier, pela Ciência do Acidente, minha falecida editora nanica.

VX, vivo fosse, teria feito 80 anos no dia 21 de março. Conheci o seminal O Mez da Grippe por meio de outro espírito fiel, mais um 0,1%, professor da universidade que guardava a primeira edição do livro como se fosse a Clavícula de Salomão, o saudoso Zé Luiz Valero Figueiredo.

Tenho consciência, porém, que minha “procura de Valêncio Xavier” não teria resultado em nada se a Companhia das Letras, creio que na figura de Maria Emília Bender, não estivesse fazendo a mesma coisa. O lançamento de O Mez da Grippe e outros livros no mesmo ano permitiu que Cassiano Elek Machado — e pronto, a procissão aumentou — fizesse esta matéria na Folha, aumentando o buxixo.

Ao menos por um tempo.

Pois, como se sabe, fora das formas habituais de percepção não há garantias.

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu novo livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, será publicado dia 26 de abril. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
Site – Twitter – Facebook

No alto da torre

Por Joca Reiners Terron

Untitled

No alto da torre voltamos a intuir o ritmo do dia, as repercussões da luz no horizonte, e as altas estrelas não nos obrigam a nada, a não ser a admirá-las no extremo do céu. Não torcemos para que elas caiam. No alto da torre ensaiamos, compomos e eu volto a escrever em meu blogue. É apenas esta a nossa compreensão da vida. O céu estrelado visto por mim através da janela é o mesmo céu estrelado visto pelos olhos de outra pessoa. Silêncio, ausculte a noite: vai começar a transmissão — concentre-se — a partir de agora começam a ser projetadas em sua mente as linhas deste poema, assim como numa tela de cinema. Do Cão para você, sim. Fixe-se nas estrelas. Pronto.

Saio do banheiro e sento aqui, diante do computador. Começo a escrever este texto, enquanto a chuva parece atravessar o vidro da janela, além do cinza do dia que se espicha lá fora. Você talvez tenha saído da cozinha, onde desligou o fogo e encheu uma xícara de café, e agora sentou-se diante do computador e está lendo este texto no meu blogue. Seus dedos desistem das havaianas azuis e pisam os tacos frios, depois dos lábios tocarem a borda quente da louça do café. Há uma mancha no canto de sua boca. Você olha para a janela no mesmo momento em que eu também olho, depois de pensar um pouco e afinal decidir colocar uma enfermeira neste texto. Ela serve chá a um senhor muito velhinho e gentil que está prestes a morrer, mas consegue pensar apenas no seu filhote de beagle, e imagina as estrepolias que o cãozinho faz naquele momento sozinho em casa, e sorri. O velho também sorri para ela, feliz por ela ter sorrido para ele, enquanto neste exato instante o cachorro vira sua tigela de leite e você derruba sua xícara e também sorri. Enquanto o café esparrama por sua escrivaninha, eu também sorrio. A chuva diminui e o dia ganha dimensões mais luminosas por causa disso. A enfermeira recolhe a bandeja, se despede do paciente e atravessa o corredor do hospital. Eu penso para onde ela poderia ir, enquanto você pensa que um filhotinho de beagle talvez diminuísse sua solidão. Eu hesito em escrever a palavra solidão aqui, pois eu não acredito na solidão. Eu não quero começar a pensar agora, isto certamente atrapalhará a escritura deste texto e assim nunca saberemos onde a enfermeira pôde chegar, se ela voltou para casa e se sentiu feliz por estar com seu cãozinho e se o velho ficou triste por estar só e morreu de madrugada, olhando a chuva tocar na janela do hospital uma melodia líquida com seus dedos de granizo. Eu não quero pensar em outras coisas, mas é inevitável, e penso em Michel. Penso no quanto o devo estar chateando, com meus atrasos no trabalho. Ouço um grito do Pernalonga, vindo da tevê na sala: a minha filha diz algo impossível ao Pernalonga no exato momento em que o cãozinho lambe uma lágrima no rosto da enfermeira. Os pensamentos todos sobre a sua solidão, a minha solidão, a solidão de minha filha e a solidão de seus pernalongas imaginários atrapalham o desenvolvimento deste texto, que certamente não terá fim. Você levanta para além deste texto, para fora deste blogue, e coloca “This year’s love” para ouvir. O piano de David Gray e sua voz rascante fazem com você e com o dia algo semelhante ao que o cãozinho faz com a enfermeira. O fato de eu ter começado a pensar e interromper este texto me deixa mais confuso ainda e eu penso em como tenho me sentido estranho, em como tenho me sentido só, mesmo quando acompanhado por uma turma de setenta pessoas, e penso que alguma coisa deve estar por acontecer, pois há muito tempo não tinha a consciência de estar tão só. A enfermeira trança seus dedos no pelo do cãozinho, minha filha abraça seu cobertor deitada no sofá, você veste suas calças pensando em mim, no beagle, David Gray solta um vibrato, Michel desiste de esperar meu telefonema sobre o trabalho atrasado, o velhinho ruma para sua felicidade escura e o dia começa, em um outro dia, em um outro dia — em um outro dia.

Fim da transmissão.

Agora olhe de novo as estrelas. Não estão mais brilhantes?

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu novo livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, será publicado dia 26 de abril. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.
Site – Twitter – Facebook

Sargento Leminski & os Garotos Perdidos a meio-oeste de Lugar Nenhum

Por Joca Reiners Terron

A edição laranja-choque de Toda poesia do Leminski me leva a lembrar dele, de quando o conheci, nos anos 70. Ambos tínhamos perdido o último navio que partiria de Saigon de volta a nossa pátria, uma cidadezinha chamada Terra do Nunca no meio-oeste de Lugar Nenhum. Leváramos uns balaços dos vietcongues (ele os chamava de “charlies”), porém nossos fígados ainda estavam intactos, apesar da noitada num antro de jogatina e prostituição da zona vermelha da cidade. Lemmy era um sargento tipo monumento rochoso, um herói de nossa gente. Os Garotos Perdidos o idolatravam, e eu, mero frangote, um recruta zero, achava-o simplesmente o máximo. Por sua causa, nos tornamos poetas.

Então não era difícil entender nossa identificação com o sargento Lemmy. Na tropa, havia um capitão chamado Cabral que dizia que não gostava de ser identificado como “poeta” (embora o capitão Cabral fosse um dos grandes, e sua metralhadora cuspisse versos durões e ele próprio fosse uma pedra dura de roer no meio de nosso caminho de jovens versejadores inábeis), pois era a mesma coisa que ser chamado de “efeminado”. E com o sarja Leminski não tinha essa noia, ele era o cara do bigodão e do pelo no peito que usava camiseta mamãe-quero-ser-gay e punha uma margarida no capacete, mas também era o cara que quebrava os adversários com golpes de judô e haicais matadores — ou seja, usava da brevidade oriental como antídoto para a chatice antipoética da guerra cotidiana.

Depois do Vietnã, nos encontramos nas barricadas da comuna de Paris, onde lembramos com toda eloquência da enfermeira Ana C., uma mina que plantou coquetéis molotov em nossos corações. Ana C. rindo pra gente seu riso solar do banco da frente do fusca, nós dois tornados bebês diante de sua sensualidade móvel fixada no retrato: por onde andaria Ana C. naqueles dias de mil oitocentos e muitos, estaria explorando a gaveta do vício de Rimbaud junto com o cabo Reinaldão? Nunca saberemos, e a enfermeira Ana C. nunca passou da punheta de nossas saudades. Então, o sarja Lemmy andava escrevendo ficções, e publicara um romance chamado Agora é que são elas que tinha espanado o cabeçote dos Garotos Perdidos e desfeito nossas tênues convicções do que poderia ser um romance. “Ficção, re-ficção, uma história que desvenda o processo de todas as histórias, uma novela com começo, meio e fim (não necessariamente nessa ordem, claro). Um romance pra tocar no rádio”, dizia o Leminski. Aquele livro nos viciou para sempre no pop metaliterário e na literatura escrita como se fala. Por sua causa, nos tornamos romancistas.

Uns séculos depois, reencontrei o sarja Lemmy em Bauru, na república na qual eu morava com o Beto, a Fábia, o Serjão e a Patrícia. Enquanto os Garotos Perdidos envelhecíamos, ele permanecia jovem, na verdade parecia ainda mais novo do que era antes. Paradoxalmente, falava como um sábio, e nos ensinou antiguidades sobre gregos, egípcios e samurais poetas; sobre profetas judeus e negros brancos; agora escrevia biografias mínimas e publicara um livro de ensaios chamado Anseios crípticos. Esses textos nos ensinaram que não dá pra vir a este planeta curtir literatura e não tentar entendê-la; que é impossível escrever ficção, poesia ou o que seja atualmente sem ter uma visão crítica do que se está fazendo, uma abertura para pensar o novo frente ao clássico e repensar o clássico transformado pela novidade. Afinal, se falta algo ao sistema literário brasileiro contemporâneo, é justamente a compreensão de que não basta ser artista, tem de participar na difusão e na reflexão. É uma militância, e temos de ser meio Trótskis, totalmente Leminskis. Tem de vestir a farda da literatura e encarar o Vietnã da linguagem todo santo dia. E por causa de Leminski, nos tornamos críticos literários.

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujoSonho interrompido por guilhotina, entre outros. Pela Companhia das Letras, lançou seu último romance, Do fundo do poço se vê a lua, e relançou seu primeiro, Não há nada lá. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.
Site – Twitter – Facebook

Abduções literárias

Por Joca Reiners Terron

1. Há motivos para se cogitar um possível interesse extraterráqueo por nossa produção literária? Quando digo “nossa” não me refiro à literatura canarinho, e quando digo “extraterráqueo” não pretendo fazer nenhum comentário sub-reptício a respeito da crescente atração despertada por escritores brasileiros no mercado gringo. Estou falando de coisa séria aqui, gente: de alienígenas que abduzem escritores com a finalidade de compreender melhor a raça humana para depois, quem sabe, invadir a Terra.

2. Escrevi o parágrafo anterior e fiquei imaginando se seria possível um alienígena macho (supondo que nossos vizinhos estejam geneticamente submissos à sina cromossômica dos gêneros sexuais) entender o Homo sapiens, ou melhor, as fêmeas humanas, sem antes a) marcar encontro com elas, chegar atrasado e ainda por cima sem flores; b) casar com uma delas e ir dormir sem dar beijo de boa noite; c) usar meias por duas semanas e depois se enfiar na cama sem descalçá-las; mas enfim, retornemos à vaca fria; peguemo-la pelos chifres. Etcétera.

3. Se há motivos? Evidentemente que sim. O sumiço inexplicável de escritores é um fenômeno tão célebre quanto a deserção de maridos, exceto pelo fato de que os primeiros somem sem avisar que estão saindo para comprar cigarros (taí, essa é velha); Edgar Allan Poe, por exemplo, ficou desaparecido entre 27 de setembro e 3 de outubro de 1849, quando surgiu maltrapilho e descompensado nas ruas de Baltimore, para morrer quatro dias depois sem dar explicações (não há), delirando com sua falecida Virginia.

4. Suspeita-se que Poe tenha sido vítima de “cooping”, um tipo de sequestro praticado por políticos e seus correligionários nas vésperas de eleições nos E.U.A. do século 19. O eleitor era trancafiado, drogado e encharcado de cachaça feito um peru natalino, depois o levavam para votar repetidas, disfarçadas, vezes. Bem, esta é uma das teorias acerca do caso. Eu tenho a minha própria, a de que Poe foi abduzido para esmiuçar sua poética bizarra numa espécie de oficina literária do Assis Brasil sideral.

5. Não estou com isso querendo dizer que os gaúchos são alienígenas sequestradores, deixem de paranoia.

6. Devo dizer que há casos semelhantes ocorridos em nossa pátria varonil; de acordo com seus vizinhos (que exigem minha discrição), Dalton Trevisan pode ficar semanas sem dar as caras. Não aparece no quintal nem à cata de goiabas. Evita ir à banca comprar a Gazeta do Povo. Não corre à farmácia para comprar dentifrício especial pros caninos salientes. É um problema que preocupa seus amigos com demasiada frequência. Depois dessas tréguas, Dalton costuma reaparecer todo lampeiro. Como os sumiços são regulares, é possível supor que há mais mistérios entre João e Maria do que a vã filosofia dos aliens possa imaginar.

7. Gostaria de ressaltar neste lisonjeiro parágrafo 7 que adoro Curitiba e seus habitantes, os curitibanos, e que nunca associei a forma da copa de uma araucária à de um disco voador.

8. Agatha Christie foi outra célebre abduzida. Em dezembro de 1926 ela desapareceu durante onze dias, e nem Hercule Poirot, Miss Marple, quinhentos policiais e quinze mil voluntários conseguiram encontrá-la; quem o pôde foi um jovem repórter, contudo a pessoa era outra, chamava-se “Teresa Neele” e se hospedara num hotel de Harrogate, onde dançou foxtrot e fumou cigarrilhas após abandonar seu carro de faróis acesos às margens do lago Silent Pool, em Surrey, mais ou menos longe dali — a abdução da escritora comoveu a Inglaterra, a ponto de ter sido a vez inaugural, na história da ilha, a serem usados aviões a fim de localizar pessoas desaparecidas.

9. Mas Agatha estava numa galáxia longínqua, ensinando regras do cerebral romance policial britânico aos etês curiosos.

10. O que, convenhamos, deve tê-la distraído um pouquinho da pena de perder a mãe, morta alguns dias antes de sua desaparição, além da sacanagem de ter sido abandonada pelo marido enquanto a pobre Clara agonizava de bronquite: o zeloso Archie a havia trocado por outra, mostrando-lhe a dureza da realidade; entretanto Agatha Christie lhe devolveu a lição através de uma história policial verdadeira, na qual ela era a única vítima, retomando assim as rédeas — ineptamente roubadas pelo marido em seu duplo ato de traição — que conduziam sua narrativa existencial. Ou isso ou então se exibia aos alunos intergaláticos, com a demonstração prática (quem sabe aula de encerramento) da qualidade paliativa da imaginação contra a dor real.

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujoSonho interrompido por guilhotina, entre outros. Pela Companhia das Letras, lançou seu último romance, Do fundo do poço se vê a lua, e relançou seu primeiro, Não há nada lá. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.
Site – Twitter – Facebook

[Excepcionalmente hoje não teremos o post da seção Passo a passo. Ela retorna normalmente na semana que vem.]