Por Joca Reiners Terron
Em um ensaio, o filósofo italiano Giorgio Agamben relata como Alfred Sohn-Rethel criou a “filosofia do quebrado” ao observar pescadores e automobilistas napolitanos em luta permanente contra motores velhos e defeituosos. “Segundo Sohn-Rethel, para um napolitano as coisas só começam a funcionar quando se tornam inúteis. Isso quer dizer que o napolitano na realidade começa a usar os objetos técnicos só a partir do momento em que eles deixam de funcionar; as coisas intactas, que funcionam bem por sua conta, irritam-no e lhe dão ódio. E no entanto, acertando-lhes uma paulada no lugar certo ou um tranco no momento oportuno, consegue fazer com que os aparelhos funcionem de acordo com seus próprios desejos. Este comportamento, comenta o filósofo, contém um paradigma tecnológico mais elevado do que o de uso corrente: a verdadeira técnica começa somente quando o homem é capaz de se opor ao automatismo cego e hostil das máquinas e aprende a deslocá-las rumo a territórios e usos imprevistos.”
A beleza da ideia certamente justifica citação tão longa. Além disso, me recordou O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar. Coincidência ou não, o início desse romance (um exemplo já clássico de “romance quebrado” com suas duas possibilidades de leitura; esta a que me refiro é a segunda e começa no capítulo 73) tem um parafuso metafórico que é adorado por, vejam só, outro napolitano. Uma das numerosas citações do velho Morelli fala do napolitano que passou anos a observar um parafuso solto na calçada diante de casa. À noite, guardava o parafuso debaixo do colchão. “O parafuso foi primeiro uma simples piada, uma gozação, uma irritação comunal, reunião de vizinhos, sinal de violação dos direitos cívicos, e, finalmente, um encolher de ombros, a paz, o parafuso foi a paz.” Depois disso, o napolitano morre e o parafuso desaparece, certamente recolhido por outro vizinho que às escondidas o retira de seu esconderijo para continuar a admirá-lo em segredo.
Esse parafuso, caído de algum motor o qual mesmo sem sua presença continuou a funcionar, é, para Cortázar, a própria invenção. “Talvez o erro tenha sido aceitar que esse objeto fosse um parafuso, tão-somente por ter a forma de um parafuso. Picasso pega um automóvel de brinquedo e o converte no queixo de um cinocéfalo (…) É bem possível que o napolitano fosse um idiota, mas também pode ter sido o inventor de um mundo. Do parafuso a um olho, de um olho a uma estrela… Por que entregar-se ao Grande Costume?” E ao perguntar isso, o grande cronópio parece nos dizer: para que tomar sorvete de colherinha se você pode enfiar a mão? Essa defesa poética da criação como prática hedonista herdada das vanguardas acabou por envelhecer os romances quebrados de Cortázar, querem alguns.
Mais próximos da “ideia de jogo meticuloso” em contraposição ao “romance realista lírico” (ambas definições de Zadie Smith em seu referencial ensaio “Two paths for the novel”), O Jogo da Amarelinha e 62: Modelo para Armar têm sofrido carga crítica bastante pesada nos últimos tempos. Curiosamente, com a publicação integral das cartas do belga em cinco volumes, essa visão negativa migrou para os aparatos críticos da própria edição, em cujo prefácio Carles Alvarez Garriga afirma que as cartas, em sua totalidade, conformam “provavelmente o seu melhor romance.” Temo que o tempo linear da edição, através da organizada distribuição cronológica da correspondência, foi suficiente para arrefecer e entreter o prefaciador com um artificial (portanto ilusório) princípio de ordem. Assim, provavelmente por não ser napolitano, ao crítico as Cartas devem ter parecido uma máquina em pleno funcionamento, o que mais aproximaria Cortázar de um romancista realista e inofensivo. Entre essa visão satisfeita e amena da obra literária, continuo ao lado de Sohn-Rethel, que conclui suas observações acerca da “filosofia quebrada” citando um garoto de Capri que transformou um motor danificado de motocicleta em uma máquina de fazer milk-shake.
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Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujo e Sonho interrompido por guilhotina, entre outros. Pela Companhia das Letras, lançou seu último romance, Do fundo do poço se vê a lua, e relançou seu primeiro, Não há nada lá. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.













