Joca Reiners Terron

Os escritores e a grana

Por Joca Reiners Terron


A edição de julho da revista Piauí traz uma seleção das cartas de Julio Cortázar a Eduardo Jonquières, seu amigo de adolescência. A correspondência, retirada do póstumo Carta a los Jonquières (Aguilar, 2010), retrata essa amizade de cinquenta anos, servindo como a autobiografia que Julio (depois de ler as cartas se torna impossível chamá-lo pelo sobrenome) nunca escreveu.

As primeiras resenhas que pipocaram na imprensa já chamavam a atenção para o principal assunto dessas cartas: dinheiro, ou a falta de. Nelas, o cronópio lamenta sua sorte, pede emprestado, chora o extravio de envelopes contendo notas, acusa atrasos em pagamentos, reclama de como sua falta lhe afeta a dieta, de como sua ausência o obriga a traduzir e a traduzir demais, e a escrever textos que não gostaria de escrever, e a viajar de classe econômica etc.

Em uma das missivas selecionadas e traduzidas por Davi Arrigucci Jr (que igualmente as apresenta), há uma descrição rabelaisiana do caos que impera a bordo de um navio da Compagnie Générale des Transports Maritimes no qual Julio embarcou ao lado de Aurora Bernárdez (sua primeira mulher), rumo a Dacar. Ambos viajam de terceira classe, e têm como vizinha de cabine uma escotilha que dá para o toilette feminino. Cansado da ruidosa faina do mulherio, ele empreende uma investigação em todos os banheiros de bombordo a estibordo, e depois escreve a Eduardo amaldiçoando a miséria e a fisiologia humanas.

O relato financeiro mais excruciante de todos, entretanto, está numa carta enviada em 9 de dezembro de 1953 de Roma, onde Julio e Glop (o apelido tão delicioso quanto sonoro de Aurora) vagabundeavam e aguardavam uma remessa de dinheiro enviada por Jonquières pelo correio. Com o atraso e o passar dos dias, o Correio (assim mesmo, com maiúsculas de nome próprio) vai adquirindo proporções de grande vilão. Para aumentar o suspense, as cartas eram entregues na Itália somente em dois dias da semana, na terça e na sexta. Julio se descabela, quase um mês se passa, e nada de a grana entrar por debaixo da porta.

O casal então adota economia de guerra, fazendo apenas uma refeição diária. Não existe mais dinheiro para o vinho, ó lástima! A barriga vazia, porém, não tornava Julio menos divertido: “(…) decidimos iniciar a era dos recursos heróicos. Descartamos o mais vulgar de lançar a sorte, a fim de incorrer no usual canibalismo. Aurora achava que era pequenina demais para me alimentar por muito tempo, e quanto a mim, sou um monte de ossos, e realmente não poderia lhe deixar muito para comer.”

Por fim, o drama monetário de Julio & Glop termina bem, com a chegada do envelope e os dois sendo devolvidos “à pizza e ao sonho sem íncubos.” Dilema historicamente ligado à existência dos escritores, a dureza permanece crônica para muitos deles (oi). Uma série de três crônicas de Simon Leys a esse respeito publicadas no Magazine Littéraire e reunidas no livro Le bonheur des petits poissons reúne alguns tristes (e magérrimos) episódios. Para que sirvam de alerta, não custa lembrá-los.

Com um paradoxo lapidar, Samuel Johnson definiu a origem do problema: “Nenhum homem, a menos que seja um perfeito idiota, ia querer escrever nunca nada, a não ser que se pague por isto”. Simon Leys lembra então que Johnson escreveu em algumas poucas semanas sua obra-prima Rásselas, príncipe da Abissínia, somente a fim de pagar o funeral da mãe. As atribulações econômicas da vida dos escritores sempre tinham editores por perto.

Com o desenvolvimento da indústria editorial no século 19, escritores deixaram de sobreviver às custas dos mecenas e das benésses da corte, passando cada vez mais a fazer parte de uma cadeia profissional que ao mesmo tempo lhes protegia e açoitava, permitindo surgir daí uma relação de natureza ambígua com editores, que Edmund Wilson afirmava “serem todos uns cães.” A recíproca não só era notória como verdadeira. Gaston Gallimard, o grande editor francês, dizia que “um escritor com frequência não é um homem, mas uma fêmea à qual se deve pagar mesmo sabendo que sempre está disposta a se entregar a outros. É uma puta”.

Contudo, nos últimos tempos amor e ódio arrefeceram, cedendo lugar a relações trabalhistas menos “calientes” e mais profissionais. A título de final melancólico, uma historinha com Dostoiévski, célebre durango kid, que de certo modo se relaciona àquela desventura postal vivida por Julio Cortázar. No estrangeiro, sem um puto no bolso e impossibilitado de retornar para casa, Dostoiévski escreveu velozmente o romance O eterno marido a fim de negociá-lo com seu editor russo. Depois de escrito o livro, no entanto, ao chegar na agência do Correio (sempre ele, o crudelíssimo supervilão), descobriu que nem ao menos tinha dinheiro suficiente para despachá-lo.

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Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujoSonho interrompido por guilhotina, entre outros. Seu último livro é o romance Do fundo do poço se vê a lua, publicado pela Companhia das Letras. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.

A última hora do sargento Salinger

Por Joca Reiners Terron

1.

O sargento Salinger sabia que iria morrer naquele dia, e isto não lhe deixava nem um pouco satisfeito. Havia sobrevivido ao Dia D, a uma amante adolescente e fofoqueira e a tantas outras provações terríveis, e mais essa agora: estava prestes a morrer de velhice.

A perna quebrada no ano anterior já o alertara de que a vida aos 91 anos não era nenhum pudim de leite. Ainda por cima o doutor o impedia de dar suas caminhadas pelo bosque ao redor da casa. Cornish não lhe parecia mais uma cidade tão aprazível.

Coisa mais chata, esse negócio de ter de morrer.

2.

Não havia muito do que reclamar, afinal. Ele sobrevivera a Holden, desaparecido em missão na Segunda Guerra, e a Seymour, suicidado em plena lua-de-mel.

Mesmo assim, esperava ao menos um telefonema dos dois. Ele merecia. Talvez Buddy aparecesse. Seria legal, uma última xícara de chá com seu amigão. A água já está fervendo no bule.

Mas o que o apavorava mesmo era o tal clichê, aquele negócio de a vida inteira passar diante dos olhos na hora da morte. Que saco, viver tantos maus momentos e meio que ser obrigado a rever tudo de novo.

Bem que a vida podia vir com botão de fast-forward.

3.

Essas coisas todas e o frio que fazia acabaram levando-o a se lembrar da guerra.

Era o dia 13 de setembro de 1944.

Ele e seus companheiros do 12º Regimento de Infantaria chutavam moitas congeladas no meio da floresta de Hürtgen e avançavam em direção à Alemanha. Suas galochas tinham furos do tamanho de moedas e faltavam cigarros. Os trocentos mil alemães da 2ª Divisão S.S. Panzer mais à frente não incomodavam tanto quanto não ter cigarros.

Sem cigarros não dá. Pior que não ter cigarros só fumar com luvas. Você não sente a textura do papel entre os dedos, e acaba sendo a mesma coisa que não fumar. Isso e meia molhada devem ser as piores coisas do mundo.

É fogo.

Dentro das botas os garçons serviam uma cheirosa sopa de meias.

Foi então que a neblina baixou, encobrindo a visão das montanhas Schnee Eifel. Não se via um maldito chucrute à frente.

Que merda.

4.

Engraçado, mas ele nunca contara a ninguém aquela história. Fazia parte do pacto entre os soldados da 12ª de nunca mais tocar no assunto.

O sargento Salinger liderava o pelotão no ataque a uma casamata inimiga. A metralhadora alemã parecia uma velha mascate que conhecera no mercado municipal de Nova York, soltando perdigotos de luz que furavam a neblina noturna.

Então foi atacado. Saído por detrás de uma árvore com baioneta em punho, um alemão pretendia fatiá-lo feito salame hamburguês. Na lama, o sargento rolou agarrado ao inimigo a ponto de sentir seu cheiro de merda e repolho misturados. Depois de alguns minutos, conseguiu furá-lo com a própria baioneta.

Ao levantar-se, porém, Salinger viu um vulto que saía da névoa na sua direção. Sem piscar duas vezes, saiu distribuindo facadas na fumaça leitosa até ver sangue nas mãos. Quando olhou para baixo, viu o corpo de Jimmy, um soldado da companhia.

Sua respiração fazia bolhas de ar na lama.

Daí não se mexeu mais.

5.

O sargento Jerry Salinger sempre achou divertidas, as especulações acerca de seu isolamento naquela cidadezinha rural de New Hampshire. Diziam que não suportava a convivência com outros seres humanos. Que prezava apenas seus personagens.

Isso era e não era verdade. Ele não suportava a si mesmo, e preferia poupar os outros de sua presença hostil.

Como sempre, Holden e Seymour não telefonaram. Eram uns ingratos.

Ele necessitava de paz para recriar a vida de Jimmy. E foi isso o que fez naqueles anos todos de solidão: escreveu a vida que Jimmy não tivera. Seu casamento infeliz com Lucille. As três crianças gordinhas. Uma carreira bem sucedida na publicidade. E o segundo casamento, com Zara. Desta vez ele foi bem feliz.

Mas ninguém precisava ler isso. Enquanto jogava as páginas datilografadas à lareira, a campainha tocou.

Deve ser o Buddy.

Que bacana, bem a tempo de servir o chá.

Odeio quando falta cigarro.

Odeio meia molhada dentro do sapato.

Mas o que mais odeio é tomar chá sozinho.

PS. Assista ao videoartigo que fiz sobre a morte de J.D. Salinger.

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Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujoSonho interrompido por guilhotina, entre outros. Seu último livro é o romance Do fundo do poço se vê a lua, publicado pela Companhia das Letras. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.

As leituras confessadas

Por Joca Reiners Terron

Como a maioria das pessoas, eu nunca gostei de poesia. Isso, ao menos, é o que sempre pensei. Quando alguém me pergunta sobre como surgiu meu gosto pelo assunto (e a pergunta é meio frequente, pois tenho dois livros de poemas publicados), costumo afirmar que nasceu tardiamente, após descobrir a música popular brasileira (o de sempre, Caetano, Gil, Rita, Torquato, Waly, Duda — mas não Chico, “nosso maior poeta dos anos 50”, como provocava Leminski). Nasceu, sobretudo, do rock’n’roll de língua inglesa. Esse costuma ser o momento em que subo nas tamancas, ou melhor, subo nos coturnos, afirmando: sou herdeiro dos bardos Jim Morrison, Lou Reed e Bob Dylan. Quá, quá.

Nada mais longe da verdade. José Paulo Paes afirmava que o maior teste vocacional para um poeta é o casamento: se o vate se casou e continuou a poetar, aí sim é um verdadeiro poeta. Parte significativa da poesia universal tem inegável parentesco com a imaturidade e suas bravatas juvenis: o canalha Rimbaud, o ladrão François Villon e o dândi Baudelaire me enchem de razão. Há inclusive uma tradição japonesa que defende que ninguém pode passar pela adolescência sem escrever ao menos um poema. Por isso deve ser tão comum que os segundos e terceiros e demais livros de poetas sejam tão sofríveis. A maioria dos bons poetas é dona de somente um bom livro: o primeiro, o inaugural, aquele escrito na adolescência. Trata-se de teoria temerária (e não literária), para não dizer pior, e não se fala mais nisso.

A verdade de minha descoberta pessoal da poesia, porém, é sem dúvida mais subterrânea e inconfessável. Necessitei ultrapassar o meridiano de Greenwich da maturidade e enfiar no baú dos trinta anos qualquer sombra de pretensão para descobrir tais origens. Isso não faz muito tempo: foi praticamente ontem. Vá lá: anteontem. Como a maioria das pessoas, eu nunca gostei de poesia. A resposta pronta de quem não aprecia o gênero costuma apontar a ideia de poesia fornecida pelo currículo escolar obrigatório como grande culpada. Quem, afinal de contas, apreciaria a leitura de sonetos e outras formas clássicas depois de ser obrigado em tenra idade a enfrentar a chatice de Gonçalves Dias, de Álvares de Azevedo e dos parnasianos? Desculpa de manco é muleta: Arthur Rimbaud — assim como qualquer francês de sua geração — foi obrigado a aprender as regras poéticas e a versificar em grego e latim, coisa que fazia muito bem, aliás, ganhando prêmios e tal, antes de revirar a poesia de pernas pro ar.

Bem, talvez o clichê (como todo clichê) seja verdadeiro: Rimbaud reinventou a poesia pois odiava a poesia. Quanto ao meu caso particular, recentemente descobri que eu lia poesia, e além disso gostava muito, me comovendo e tal, ao mesmo tempo em que era apresentado à ideia canônica de poesia oferecida pela escola. Eu aprendi a gostar de poesia por causa dos esquimós, dos navajos e dos gibis do Ken Parker. No final dos anos 70, Ken Parker, criação dos italianos Milazzo e Berardi, estava entre os títulos mais populares de western publicados no Brasil pela extinta Editora Vecchi. O gibi publicou durante alguns números, no verso de sua capa, a seção Rastros no Vento, que trazia “palavras e escritos dos índios da América”, com ilustrações do inesquecível Milazzo. Eu simplesmente adorava aquilo (o que me leva a ler poesia oriental até hoje).

EU E VOCÊ CAMINHAREMOS

Está escrito que eu e você caminharemos;
ao longo da via Láctea, caminharemos;
ao longo das trilhas floridas, caminharemos;
colhendo flores pelo caminho, caminharemos.

Wintu

Agora imaginem o imbróglio translatício: os poemas originais tinham sido escritos em navajo, nahuatl, inuíte e outras tantas línguas tão majoritárias quanto o ianomâni, pesquisados por algum maluco que os traduzira ao italiano, em versões que por sua vez haviam sido convertidas a um português pra lá de questionável (a edição, hoje percebo, era repleta de erros). Mas aquilo, ao contrário de Álvares de Azevedo e suas dores românticas, me apaixonou.

Não saberia dizer se você esteve longe;
eu me deito com você; me levanto com você;
nos meus sonhos, estamos juntos.
Quando sinto os brincos vibrar nas orelhas,
sei que é você movendo-se no meu coração.

Nahuatl

Não é difícil compreender por que os poemas indígenas de Rastros no Vento me atraíam: eles, de algum modo, “ilustravam” a trajetória de meu herói Ken Parker, um boy scout do exército norte-americano que abandonava a “civilização” branca depois de ter seu irmão assassinado. O “Rifle Comprido” (era conhecido assim por usar uma precisa carabina de tiro único, ao contrário dos outros soldados que preferiam armas de repetição) era um libertário, um idealista que seguia o ideário transcendentalista de Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau e, portanto, um ecologista avant la lettre. Além disso, Ken Parker viveu com os índios (casou-se com uma hunkpapa, que terminou assassinada pelo exército) e tornou-se, no final da série, um escritor.

Taí: acho que acabo de descobrir o real motivo de me tornar escritor.

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Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujoSonho interrompido por guilhotina, entre outros. Seu último livro é o romance Do fundo do poço se vê a lua, publicado pela Companhia das Letras. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.

As leituras inconfessáveis

Por Joca Reiners Terron


Borges e sua irmã Norah, em 1908. (Colección Jorge Luis Borges; Fundação San Telmo)

A origem do gosto pela leitura é um grande mistério, principalmente se depender da sinceridade do leitor que a confesse. Depois de adquirir certo status, tornando-se o leitor profissional que todo escritor é obrigado a ser em temporadas de dureza (que podem levar a vida toda), raramente alguém confessa o endereço da nascente, preferindo mascará-la ao citar autores que não comprometam a qualidade desse “prestígio” tão frágil.

Por isso é bastante comum encontrar poetas que se apaixonaram pela poesia ao ler Baudelaire aos sete anos de idade, além de romancistas mirins que espoucaram a cilibrina enquanto gargarejavam o monólogo de Molly Bloom no original etc. É verdade tida como biográfica em casos como os de Jorge Luis Borges ou Fernando Pessoa, privilegiados por sua condição familiar (estrangeira e anglófona em ambos, além de burguesa). Mas na maior parte não passa de deslavada mentira, equivalente a comer o Frangolino dos desenhos da Warner e arrotar o Peru, de Gordon Lish — um peru bastante literário, portanto.

O caso de Borges é sintomático de certa assunção aristocrática do leitor. Bilíngue de berço devido à ascendência da família paterna (sua avó, Fanny, era natural de Staffordshire), o grande argentino temperou contos, poemas e ensaios com a influência recebida da literatura clássica de língua inglesa. No final da vida, quando já estava cego, os espetáculos de Borges pelas academias do mundo incluíam o momento apoteótico no qual recitava poemas em inglês arcaico memorizados na juventude ao ouvir seu pai, um erudito advogado e professor de psicologia, recitá-los.

Borges e sua literatura, apesar de pertencerem cronologicamente ao século 20, são frutos do 19 (e, em alguma medida, do 18, graças às imitações juvenis de Wordsworth). Em Ensaio autobiográfico, ditado em inglês a seu tradutor Norman Thomas di Giovanni (publicado pela New Yorker em 1970 e depois utilizado como prefácio à edição americana de O Aleph), Borges enumera suas primeiras leituras: Twain, H.G. Wells, Poe, Longfellow, Dickens e Dom Quixote — todos em inglês, incluindo este último. “Quando mais tarde li Dom Quixote na versão original, pareceu-me uma má tradução”, afirma.

É curioso que Roberto Arlt, considerado o introdutor da literatura argentina ao século 20 (ou vice-versa, do século 20 à literatura argentina), igualmente descendente de imigrantes e bilíngue, tenha construído sua ficção a partir de leituras diametralmente opostas às de Borges. Não à toa os dois são colocados nas antípodas um do outro: Borges, cerebral e literário, quando não demasiado bem escrito; Arlt, direto e rueiro, em geral de escrita apressada e malfeita.

A origem dessa imperfeição literária de Arlt estaria nas suas leituras de formação — de deformação —: filho de alemães pobres e insatisfeitos com a vida de imigrantes em Buenos Aires, conviveu com os pais monoglotas e instruiu-se de maneira autodidata. Estavam entre suas leituras prediletas os manuais de mecânica e de informações técnicas variadas (Arlt ambicionava ser inventor) e traduções ruins de Dostoiévski e de outros russos. A má influência dessas leituras ecoaria nas crônicas do submundo portenho que ele publicaria desde cedo na imprensa argentina. Ricardo Piglia, seu maior leão-de-chácara crítico, subvertendo a afirmação pejorativa feita por alguém de que Arlt falaria “lunfardo com sotaque estrangeiro”, concluiu que esta era uma excelente definição do efeito de seu estilo.

Em Roberto Arlt, novamente de acordo com Piglia, “há uma crítica frontal ao que poderíamos chamar de produção imaginária de massas”. Ou seja, ao cinema, ao folhetim e sobretudo ao jornalismo. Apesar de retratar a Buenos Aires dos anos 20, conclui-se que o argentino visionário desde então lamentava a perda do poder libertário (no sentido de perdição) da literatura, em substituição às ilusões sociais promovidas pelas novas máquinas de imaginar.

Assim, ainda estavam por nascer autores que confessassem entre suas principais influências a leitura pé-de-chinelo de histórias em quadrinhos, para ficar num só exemplo de gênero bastardo (e poderiam ser tantos: fotonovelas, policiais, ficção científica, romances açucarados de bancas de jornal etc). O poeta norte-americano e. e. cummings foi pioneiro, encarnando o leitor do século 20 ao prefaciar a primeira edição em livro da despirocada Krazy Kat, o cartum surrealista de George Herriman que também tinha entre seus fãs H.L. Mencken e Jack Kerouac. Depois destes e de alguns outros, John Updike (que sonhou ser cartunista antes de ser escritor) escreveu um ótimo ensaio sobre a magia dos quadrinhos (publicado no Brasil na segunda edição da revista Serrote). E daí, mais recentemente, veio a torrencial homenagem de Umberto Eco ao gênero, com o romance A misteriosa chama da Rainha Loana.

Resta saber se existe alguma verdade na influência desses tantos meios mestiços no modo que compreendemos a formação da leitura nos apocalípticos dias atuais. Mas, para chegarmos a tal ponto, é necessário que nasça aquele escritor-leitor que, ao ser perguntado sobre sua principal influência e suas primeiras leituras, responda: “A internet”.

PS. Para saber mais sobre dois livros fundamentais de Borges e Arlt, assista ao divertido Impreso en Argentina, programa — em espanhol — estrelado pelo escritor Pedro Mairal e pelo quadrinhista Juan Sáenz Valiente.

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Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujoSonho interrompido por guilhotina, entre outros. Seu último livro é o romance Do fundo do poço se vê a lua, publicado pela Companhia das Letras. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.

Brás Cubas e o chip do amadurecimento precoce

Por Joca Reiners Terron

Round and Round
(Foto por Ryan Macon)

Tenho uma filha pré-adolescente bastante precoce. Estava para pedir a vocês que tentassem visualizar meu sofrimento, mas isso é impossível, a não ser que alguém aí fora se encontre em situação idêntica à minha.

Passo meus dias e noites torcendo para que esses cientistas que se dedicam à solução de problemas esdrúxulos da humanidade, em geral relacionados à decadência física masculina, criem uma espécie de chip que possa ser instalado no cérebro pré-adolescente, assim queimando etapas básicas do aprendizado, extirpando-lhes de vez a ingenuidade.

Não me tomem por um foragido das hostes do doutor Mengele. Com a criação desse chip eu gostaria apenas de evitar que minha filha sofresse, por exemplo, os dissabores do primeiro amor fracassado. Seria um modo (reconheço, nada sutil) de acelerar o andor da carruagem, adaptando a evolução humana a estes novos tempos expressos. Assim, expressamente, ela estaria protegida da ignorância dos sentimentos velozes e supérfluos.

Com a mudança hormonal, minha filha também mudou de hábitos. A principal mudança está relacionada ao uso do celular. Se antes ela atendia minhas ligações, agora não as atende mais. O diálogo secou, murchou, virou uma estática interrompida por interjeições monossilábicas pelas quais cobram 1 real o minuto. É um preço caro demais, esse.

Outros hábitos, entretanto, se mantêm. Um deles é a leitura de livros adiantados à sua faixa etária. O único culpado dessas leituras antecipadas sou eu, e acho justo que seja justamente eu a pagar o pato da incomunicabilidade atual.

Ao adiantar as leituras da Julia, eu me rebelava contra a chatice dos livros que lhe eram impostos na escola. Ao mesmo tempo, sem saber, inventava o chip que lhe extirparia a inocência. É claro que ler livros inadequados para uma determinada idade fornece apenas, digamos, o arcabouço teórico da existência, pois a dor prática sempre bate alguns palmos abaixo de onde fica o cérebro.

Perdoem estas ranzinices e chavões de um velho pai. Não tão velho assim, nem sei mais se é evidente ou não, mas agora, neste instante tão cruel, eu me sinto um Matusalém batucando estas linhas  no fundo de uma gruta sem luz. E a bateria de meu laptop está prestes a se acabar. Em breve submergirei no breu total.

Antes que isso aconteça, porém, gostaria de lhes dizer que a dor do abandono não arruinou totalmente o meu raciocínio. Seria tão imprudente (para não dizer estúpido) quanto impossível negar a alguém o crescimento, dia atrás dia, fracasso após fracasso, felicidade sobre felicidade. São essas pancadas na canela e cascudos na moleira que forjam nosso caráter. Nos fortalecem. Doem agora para que no futuro doam menos.

Desde que começou a caminhar, a Julia pisa torto. Não é nada grave, apenas um jeitinho gauche de caminhar, mas que me preocupou durante um tempão. Com a idade, e apesar dos ortopedistas, o problema não se corrigiu. Me conformei, e hoje tenho certeza que, em algum momento, aquele jeitinho único dela de ir pra direita dando a impressão de que está indo pra esquerda vai tirar completamente o norte de um carinha qualquer, que dará seu mundo pra entrar em sua dança torta.

Bem, talvez já tenha tirado. Talvez já estejam dançando.

O fato é que, enquanto testemunho com espanto o avançar do tempo, eu retorno ao passado, e leio Machado de Assis. Eu já havia feito isso na adolescência, na idade que a Julia tem agora, mas tinha reservado as Memórias póstumas de Brás Cubas para ler depois que fizesse quarenta anos. Essa foi uma decisão consciente que tomei, e o compromisso me foi lembrado por Woody Allen, que recentemente recomendou a obra-prima de Machado no Guardian.

Embotado pela tormenta hormonal de então ou não, foi uma decisão acertada, e não me canso de glorificar linha a linha, frase a frase, a conquista de Machado de Assis. Que livro, meus amigos, que livro. Os quiproquós pelos quais passa nosso bom Brás Cubas traduzem com um humor e uma sabedoria a natureza da vida que dá gosto de ler, a ponto de em vários momentos me bater um orgulho idiota de brasilidade e chegar a ouvir a musiquinha do Ayrton Senna vinda de não sei onde.

O livro de Machado de Assis é um chip de queimar etapas do crescimento, uma ferramenta de evolução abrupta. No célebre capítulo VII, “O delírio”, no qual Brás Cubas pede à Natureza que viva mais um pouco e depois desiste, após rever nas brumas o caos de que é feita a vida, a Natureza afirma: “Não importa ao tempo o minuto que passa, mas o minuto que vem”.

Para o meu desespero, entretanto, Brás Cubas morreu jovem para os padrões de hoje, aos sessenta e quatro anos. Como pretendo viver um pouco mais  — não, muito mais —, preciso agora arranjar um update para o chip do amadurecimento que me permita antecipar o que vai acontecer nos anos subsequentes. Ou isso ou um carregamento do famoso emplastro anti-hipocondríaco de Brás Cubas.

PS. Não por acaso, este post é publicado no dia do encontro de aniversário do blogue. Parabéns a todos os envolvidos, principalmente a Juliana Vettore e Diana Passy. Feliz aniversário!

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Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujoSonho interrompido por guilhotina, entre outros. Seu último livro é o romance Do fundo do poço se vê a lua, publicado pela Companhia das Letras. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.