Juan Pablo Villalobos

Meu escritor brasileiro favorito (II): Reflexões sobre a existência da Bulgária

Por Juan Pablo Villalobos

Em 3 de setembro do ano passado publiquei aqui uma coluna na qual reclamava das dificuldades para responder de maneira adequada à pergunta “quem é seu escritor brasileiro favorito?”. Escrevi esse texto na semana anterior à publicação, na sexta-feira que a antecedia e, segundo a informação do arquivo de Open Office, foi em 31 de agosto, dois dias depois de meu aniversário (já falei que odeio a Microsoft?). Estas explicações são necessárias porque no sábado 1º de setembro aconteceu minha festa de aniversário e recebi de presente o primeiro livro que leria de meu escritor brasileiro favorito.

O livro foi presente de um amigo colombiano que mora no Brasil, doutor em literatura e talentoso escritor, a quem chamarei Rafael Gutiérrez, embora seja seu nombre verdadeiro (autor do maravilhoso El escritor de culto. Guía rápida, a ser publicado em breve no Brasil). Rafa conhece muito bem meus gostos e interesses literários, mas eu ainda não o sabia. Rafa me disse: “Es un raro brasileño”, porque sabia que os escritores raros são meu ponto fraco. Recebi o livro com a típica desconfiança dos leitores maníacos. Era uma edição de 1977 da Editora Codecri, com uma capa especialmente horrorosa. O título do livro: A lua vem da Ásia. O autor: Campos de Carvalho.

Nessa mesma noite ao acabar a festa, que foi um almoço, peguei a pilha de livros que tinha ganhado para fazer uma analise rápida. Estava meio bêbado. Ou simplesmente bêbado. Ou inclusive bêbado e meio. Fiz a separação nas três pilhas que eu faço sempre que ganho livros. 1) Livros que eu vou ler imediatamente: ficam na minha mesa de trabalho. 2) Livros que eu vou ler algum dia: vão para a prateleira. 3) Livros que eu não vou ler nunca: vão para umas caixas que estão no quarto de visitas, que é, para falar a verdade, o quarto das tralhas.

O título do primeiro capítulo de A lua vem da Ásia me fez graça, “Vida sexual dos perus”, peguei o livro e o levei comigo para a cama, onde eu tentaria me estabilizar (a existência bípede estava muito complicada). E o milagre aconteceu desde os primeiros parágrafos:

“Aos dezesseis anos matei meu professor de Lógica. Invocando a legítima defesa — e qual defesa seria mais legítima? — logrei ser absolvido por 5 votos contra 2, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris.

“Deixei crescer a barba em pensamento, comprei um par de óculos para míope, e passava as noites espiando o céu estrelado, um cigarro entre os dedos. Chamava-me então Adilson, mas logo mudei para Heitor, depois Ruy Barbo, depois finalmente Astrogildo, que é como me chamo ainda hoje, quando me chamo.”

Eu já tinha um escritor brasileiro favorito. Não consegui largar o livro, mesmo estando meio bêbado ou simplesmente bêbado ou inclusive bêbado e meio. Lia Campos de Carvalho às gargalhadas, encontrando a cumplicidade que só a literatura pode conquistar.

No dia seguinte, ainda sob o impacto da leitura, e ainda também sob o impacto do tequila (já falei que o tequila é macho?), comecei a me perguntar: como era possível que eu não conhecesse Campos de Carvalho? Fiz uma pesquisa rápida na internet e achei os títulos de outros três livros: O púcaro búlgaro, A chuva imóvel, Vaca de nariz sutil. E como as vacas são outra de minhas fraquezas lembrei de uma conversa sobre literatura e vacas com minha amiga Graça Ramos em Brasília, capital mundial dos raros, na que ela tinha me ordenado sem ambiguidades: “você tem que ler Campos de Carvalho”. E lembrei também do curso sobre escritores raros que eu ministrei no Instituto Cervantes de São Paulo, e fui buscar as notas do curso porque numa folha eu tinha anotado os nomes de escritores raros brasileiros que os alunos tinham me recomendado. E lá também estava Campos de Carvalho. Mesma coisa em um caderno que levei para Belo Horizonte (ou foi para Porto Alegre?). Dá para perceber o quanto eu sou distraído?

Encomendei os livros na minha livraria favorita e os exemplares, em edição recente da Editora José Olympio, chegaram duas semanas mais tarde. Coloquei-os na prateleira, ainda morrendo de vontade de lê-los imediatamente, porque estes livros pertenciam a uma quarta categoria: livros que eu devo dosificar ao longo da vida, livros para ocasiões urgentes, livros para recuperar a fé na literatura.

Meses depois chegou o convite para ir à Bulgária para fazer promoção do lançamento da versão local da Festa no covil. E pensei de imediato que sim, que eu iria à Bulgária para poder ler aí O púcaro búlgaro. No avião que me levava a Sofia na segunda semana de março li as primeiras linhas:

“Se a Bulgária existe, então a cidade de Sófia terá que fatalmente existir. Este é o único ponto no qual parecem assentir os que negam e os que defendem intransigentemente a existência daquele amorável país, desde os tempos antediluvianos até os dias pré-diluvianos de hoje.”

O púcaro búlgaro é a história de uma expedição para confirmar ou desmentir a existência do pequeno país europeu. A expedição nunca acontece e o que lemos são os absurdos prolegômenos da viagem. Passei três dias na Bulgária na companhia do Professor Radamés, do Expedito, do Pernacchio, do Ivo que viu a uva e dos jornalistas búlgaros, que pareciam de verdade personagens de Campos de Carvalho, capazes de fazer as perguntas mais esquisitas. O que será que ensinam nas faculdades de jornalismo da Bulgária? O que será que os jornalistas búlgaros comem?

Eu gostaria de contribuir à polêmica, mas nem mesmo tendo visitado Sofia e Plovdiv posso confirmar ou desmentir a existência da Bulgária. Eu fui, sim, e há fotos, entrevistas nos jornais, na rádio, até imagens da televisão. Mas nesses dias, caros amigos búlgaros, eu estava morando dentro de um livro. Um livro de meu escritor brasileiro favorito.

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Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e atualmente mora no Brasil. Festa no covil é seu primeiro romance. Editado originalmente na Espanha, foi traduzido em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
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Romances que eu realmente não vou escrever (II)

Por Juan Pablo Villalobos

[ the man of berlin ]

[Clique aqui para ler a parte I]

3. A síndrome ML. Um jovem escritor publica seu primeiro romance em uma pequena editora do interior de um pequeno país do centro da Europa. Depois de meses sem repercussão, a revista literária mais importante do interior do pequeno país publica uma resenha. A crítica está assinada por KL e é implacável: o romance está cheio de estereótipos, os personagens não respiram, o uso da linguagem é pobre, o autor deve ser idiota. O jovem escritor, que trabalha em uma empresa de fumigação de bichos literários, com especialidade em impostores de Gregor Samsa, começa a beber. Semanas depois é demitido do trabalho e do time de futebol dos sábados, a namorada o abandona, o proprietário da pensão onde morava o expulsa e ele passa os dias vagando nas ruas. Uma noite acorda sem noção do tempo nem do espaço e está na frente do Teatro do Interior. Tem um monte de pessoas elegantes entrando, é a festa de entrega do prêmio literário mais importante do interior. E tem vinho e canapés de graça! O jovem escritor toma banho na fonte de um parque (é verão) e entra no Teatro usando a carteirinha da associação de escritores do interior, que ainda guardava no bolso. Fica em um canto ao lado da saída dos garçons da cozinha para pegar os canapés quentinhos. Perto da meia-noite, uma moça lindíssima se aproxima dele e pergunta se por acaso ele é o autor do… e diz o nome do romance publicado pelo jovem escritor. A moça se chama Klara Lindt. Ah, igual aos chocolates, diz o jovem escritor. Não, diz a moça, igual a KL! Aqui haveria uma discussão muito tensa na qual o leitor conheceria a história da literatura do pequeno país desde o século XVII até a atualidade. Diálogos assim: “O critério da escola supra-realista sempre foi castrar as novas expressões!” “E Richard Wolker?” “Pelamordedeus! Wolker? Tá brincando? É a restituição do amaneiramento pré-rafaelita!”. No final da noite, a crítica e o escritor transam selvagemente no toilette do Teatro. KL resgata o jovem escritor da rua, vão morar juntos, ele volta a escrever, recupera o trabalho como fumigador (tem um monte de trabalho, há muitos simbolistas soltos). Meses depois, o jovem escritor termina de escrever um novo romance e, antes de enviar para as editoras, pede a opinião de KL. O romance é péssimo. Agora o problema não são os personagens, nem a linguagem, o problema é o enredo! É um enredo sem graça, tedioso, e, pior ainda, com sérios problemas de consistência. Eles brigam selvagemente. O jovem escritor ameaça sair para comprar uma garrafa de uísque, KL grita: MEU AMOR, NÃO SEJA IDIOTA, EU GOSTO DE ESCRITORES RUINS. KL confessa, ela padece de uma patologia chamada síndrome ML (Má Literatura), caracterizada pela excitação sexual ao contato com textos literários de baixa qualidade. O jovem escritor exige conhecer a lista de namorados e casos que ela teve, e fica muito magoado pelas ausências: os escritores que não aparecem na lista pois ela considera que são bons. Eu gosto de você assim, ruinzinho!!! – chora KL de joelhos rogando perdão. Mas eu quero ser um bom escritor, diz ele. Ela para de chorar, indignada: você está me dizendo que prefere ser um bom escritor a que eu goste de você? É o climax do romance: amor ou literatura? O jovem escritor, que aliás daqui a pouco deixará de ser jovem, pede um tempo para pensar. Sai de casa e vai passear pelas margens do rio (já falei que a cidade tinha um rio?, sempre tem um rio nas cidades do centro da Europa). É uma tarde belíssima, as nuvens cobrem o céu e deixam passar listras dessa luz apagada tipicamente centro-europeia. Chega a um parque infantil, olha as crianças a brincar. As crianças, as crianças. O jovem escritor pensa que o melhor seria ter um filho.

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Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e atualmente mora no Brasil. Festa no covil é seu primeiro romance. Editado originalmente na Espanha, foi traduzido em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
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O apocalipse já era

Por Juan Pablo Villalobos

The Goalkeeper's Fear of the Dentist

Caros, eu sei que todo mundo odeia quando uma pessoa volta a um assunto do passado e diz: EU FALEI PARA VOCÊ. No dia 8 de outubro de 2012, faltando ainda mais de dois meses para o Apocalipse maia, EU FALEI PARA VOCÊS, nesta coluna, que o mundo, infelizmente, ia continuar existindo. Esse foi o final daquele texto: “E fique tranquilo. No dia 22 de dezembro, ao acordar, o mundo inteiro comprovará a verdadeira-única-máxima especialidade mexicana: errar.” Viram? O México perdeu, outra vez, a oportunidade de virar protagonista da história mundial. Vocês imaginam o orgulho que os mexicanos sentiriam por terem prognosticado a notícia mais importante da história do mundo?

Mas não estou voltando àquele assunto porque eu queira exigir reconhecimento, não. É porque, vamos combinar, na verdade o fato de o Apocalipse não chegar no finalzinho do ano passado supõe um monte de desvantagens para nós, os vivos. Aqui uma pequena lista de coisas terríveis que perdemos a ocasião de perder.

  • Vamos pagar impostos ad eternum. Começando logo, logo em janeiro. (Inferno.)
  • Vamos ter que ir ao dentista.
  • Paulo Coelho vai continuar escrevendo e publicando. (Ninguém merece.)
  • Vai ter fila no banco.
  • Alguém vai nos machucar. (Além do dentista.)
  • Vamos machucar alguém.
  • Facebook mudará (de novo) a configuração de privacidade. (Porra!)
  • O iTunes pedirá atualização. (Credo!)
  • Vamos repetir nosso CPF um milhão de vezes. (Cláusula para paulistas.)
  • A década de 90 vai ficar cada vez maaaaais longe… (Você acredita?)
  • O dentista dirá: não vai doer. (Mentira!)
  • Vamos receber inúmeras contas de celular erradas.
  • Vamos errar inúmeras vezes.
  • Vai ter fila no supermercado.
  • Vai ter Copa do Mundo em 2014. (E a Argentina pode ganhar.) (Vocês não pensaram em produzir um Apocalipse pessoal só para o Messi?) (Sério.)
  • Pessoas vão criar mais variantes do cartazinho que diz “Keep calm and…” (Mais? Sim, mais.)
  • Vai ter BBB 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21…
  • Vai ter fila no Poupatempo.
  • O dentista dirá: você vai ter que voltar na próxima semana. (Sacanagem.)
  • O Palmeiras voltará à Série A.
  • Vamos ter que seguir a dieta do gastroenterologista. (Puxa vida.)
  • Vai ter um novo caso de corrupção em… (coloque aqui o nome de qualquer país).
  • Vamos ficar indignadíssimos.
  • Não vai acontecer nada.
  • A Apple vai aperfeiçoar o sistema de i-Escravidão.
  • Alguém vai nos decepcionar.
  • Vamos decepcionar alguém.
  • Novas formas de pagamento, rápidas e fulminantes, serão criadas. Não vamos conseguir nem sentir o cheiro da nossa grana.
  • Vamos ter que dar mil jeitos nas coisas.
  • Alguém vai falar para nós: Eu falei para vocês.
  • Vamos viajar no Carnaval. E vai chover.
  • Vamos poluir e depredar até dar fim no planeta e, no fim, o fim do mundo será culpa nossa…

Agora é sua vez, caro leitor. Quem postar nos comentários o melhor motivo para lamentar a falha dos maias, ganha um exemplar da Festa no covil. Chatos do mundo, uni-vos!!!

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Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e atualmente mora no Brasil. Festa no covil é seu primeiro romance. Editado originalmente na Espanha, foi traduzido em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
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Postais da Feira do Livro de Guadalajara

Por Juan Pablo Villalobos


Foto de Yörch

1. Este ano a Feira Internacional do Livro de Guadalajara (FIL) – o maior evento literário do mundo em língua espanhola – organiza uma série de mesas chamadas “Destinação Brasil”. O avião que sai de Guarulhos está lotado de escritores brasileiros. Na fila de embarque um deles fantasia com a possibilidade de o avião cair: “Quem roubaria as manchetes do jornal? Quem é mais famoso?”, pergunta. Eu imagino um conto: um grupinho de jovens aspirantes a escritores organiza um atentado terrorista para derrubar o avião e assim – finalmente! – conseguir publicar. O interessante do conto é que nesse grupinho estaria o sucessor de Machado de Assis, o cara que está destinado a ser o grande escritor brasileiro do século XXI. E aí? Deixamos os caras derrubarem o avião?

2. No aeroporto da Cidade do México todos os passageiros que vêm da América do Sul têm que pegar as malas e passar pela alfândega. Inclusive aqueles que têm conexão para outras cidades. É porque são “vuelos calientes” (voos quentes) com malas que – teoricamente – transportam cocaína. O absurdo é que os funcionários do aeroporto têm que descer as malas da esteira e não podem deixá-las voltar na parte de trás, fora da vista dos passageiros. Então eles precisam parar o movimento da esteira o tempo todo e o processo se torna eterno. Por quê? Quer saber? Porque se uma mala “limpa” (revisada por raios X e cachorros treinados) volta para trás pode acontecer de um funcionário do aeroporto pegar a mala e colocar droga nela. É mesmo? É. De fato, há umas semanas prenderam um monte de funcionários do aeroporto envolvidos com redes de tráfico. Ao lado da esteira converso com os escritores brasileiros e sinto a impaciência deles. Eu rio. Bem-vindos ao México, meus caros. É uma pequena vingança pessoal por todas as filas que eu fiz no Brasil nos últimos meses…

3. Cada ano a FIL tem um país convidado: nesta ocasião é o Chile. O estande do Chile na Feira fica logo, logo na entrada e simula a estrutura de uma casa enorme. Uma ideia magnífica, a literatura chilena é uma casa e os convidados, na verdade, são os mexicanos que visitam a FIL. Entro na casa chilena e penso em meu escritor chileno favorito, o excêntrico Juan Emar. Depois lembro minhas leituras de Donoso, um dos poucos autores do Boom cujas obras ainda não envelheceram. E não posso não pensar em Bolaño, o mais mexicano dos escritores chilenos. E nos jovens de minha geração: Andrea Jeftanovic, Alejandro Zambra, Álvaro Bisama, Patricio Jara… O melhor da FIL é que nos lembra que a verdadeira pátria dos leitores é a língua. A casa do Chile é também minha casa.

4. O propósito da FIL é reunir a maior quantidade de escritores por metro quadrado do mundo. Para confirmar isso você pode ir ao lobby do hotel Hilton pela manhã ou a alguma das famosíssimas festas pela noite. Mas nesta ocasião eu descobri uma nova técnica da FIL para incrementar a média de escritores por metro quadrado – o chamado coeficiente Bartleby, porque se o escritor está em feira ou festival não pode escrever – que achei genial: a utilização de dublês. O caso que me revelou essa verdade foi o do escritor argentino Andrés Neuman. O cara estava em todas partes: no lobby do Hilton dando entrevista para um jornal de NY; numa mesa de poesia contemporânea da Costa Rica; no lançamento do último livro da última moça bonita que escreve mais ou menos bem; num debate sobre o futuro das narrativas homoeróticas-policiais-eruditas; no banheiro de uma festa dando gorjeta à moça que cuida da limpeza. Im-pres-sio-nan-te, Neuman. O outro caso óbvio, mas por motivos diferentes, é Mario Bellatin. A especialidade dele é aparecer em corredores e umbrais. Quando você chega num lugar, Mario já está ali. É o contrário do Godot de Beckett. E não é por divulgação, não: tem um Mario real que está dormindo no quarto do hotel e os outros são os Marios que o Mario real está sonhando.

5. O resultado da acumulação massiva de escritores, editores, críticos e jornalistas em espaços reduzidos é a necessidade de criar novas regras de etiqueta. Eis aqui algumas questões para analisar:

5.1 Como reagir se você encontra seu escritor favorito fazendo xixi no vaso sanitário vizinho ao seu? Fica elegante dar umas tapinhas nas costas dele e falar assim: “cara, adorei seu último romance”?

5.2 Que dizer se numa festa depois de uma conversa etílica com um indíviduo desconhecido você finalmente pergunta o nome dele e descobre que é seu íntimo amigo no Facebook e que você pediu que ele escrevesse um texto para uma revista e que você ainda não o pagou? É permitido fugir?

5.3 Que fazer se sem saber você acaba de dizer uma verdadeira besteira sobre um escritor na frente do editor e da namorada dele? Ainda dá para falar que era brincadeira?

5.4 É lícito o uso da violência quando o editor que não quis publicar seu primeiro romance abraça você com um carinho desbordante?

6. Guadalajara é a minha cidade, eu nasci aqui, eu morei aqui muitos anos. Que uma cidade como Guadalajara – apática, inculta, conservadora – se transforme por uma semana na capital mundial do livro em espanhol é um autêntico milagre. Mas o verdadeiro México as vezes irrompe: no sábado 1º de dezembro, dia da posse do novo presidente, os protestos chegaram até a Feira e houve grande confusão. Parece um péssimo sinal dos tempos que virão para o México. Tomara que eu esteja errado.

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p.s. Como minha próxima coluna será já em janeiro, aproveito para desejar a todos um feliz Apocalipse, um ótimo Natal e um divertidíssimo réveillon. Até 2013!

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Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e atualmente mora no Brasil. Festa no covil é seu primeiro romance. Editado originalmente na Espanha, já foi traduzido na Alemanha, Reino Unido, Holanda e França, e tem lançamento previsto em mais sete países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
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Cadê seu agente?

Por Juan Pablo Villalobos


Ilustração por Mick Stevens

Na última semana de outubro fui aos Estados Unidos para o lançamento da edição americana da Festa no covil. Participei de dois festivais literários, em Salt Lake City e Austin, e fiz leituras em livrarias de Portland e Seattle. Foi minha primeira experiência direta com o “sistema literário americano” e achei fascinante… e muito estranho.

Nas diferentes escalas, o normal era que meus anfitriões fossem escritores e professores de escrita criativa, dos famosos em-ei-ef (MAF): Master of Arts in Fiction. Durante nossas conversas, quando eu contava como consegui publicar meu primeiro romance, sempre aparecia a mesma pergunta incrédula:

— Você não tem agente? Como assim?

Eu explicava com detalhe que em 2009 enviei o manuscrito da Festa no covil por correio à editora Anagrama, na Espanha, que a editora gostou e que publicaram em 2010. Que assinei um contrato de direitos mundiais e que eles fazem o trabalho de venda dos direitos das traduções. Sem exceção, meus anfitriões achavam dois epílogos para minha história:

1) Isso nunca teria acontecido nos Estados Unidos.

2) Você tem agente, sim, é a sua editora.

Obviamente os agentes literários existem no mundo inteiro, mas os dos Estados Unidos são uma versão hiper-desenvolvida e hiper-influente, ao ponto de que o pessoal lá parece incapaz de imaginar um mundo onde um escritor não tem agente. Achei super engraçada essa visão da literatura e decidi consultar com meu mexicano de cabeceira. (Essa é uma das grandes vantagens de ser mexicano: quando você vai ao exterior e precisa de ajuda — inclusive ajuda epistemológica, como neste caso — sempre vai encontrar um mexicano por perto.) Meu mexicano de cabeceira mora em Austin, é formado em jornalismo e atualmente está estudando… adivinhem… sim!: um Master of Arts in Fiction.

Parece que para ser um verdadeiro aspirante a escritor nos Estados Unidos a melhor estratégia é se inscrever num MAF. Um MAF é uma versão supersônica de uma oficina de escrita criativa. Você entra com um projeto de livro que vai escrever durante o curso. A ideia é que ao finalizar você tenha um livro pronto para tentar sua publicação. Vamos traduzir isso para o inglês: ao finalizar você terá um livro pronto para tentar convencer  um agente literário de aceitar representá-lo.

Eis aqui a boa notícia: se você está escrevendo um livro bom, algum dos professores vai perceber. O comum é que o professor não seja um aspirante a escritor, o professor é um escritor. Vamos traduzir isso para o inglês: o professor tem agente literário. O professor vai ligar para o agente dele e vai falar assim:

— Olha, tem um carinha aqui interessante, acho que você deveria conversar com ele.

Então você vai ter uma reunião com o agente literário, na qual o importante não é o que você já escreveu. O importante é o que o agente imagina que você pode chegar a escrever. Quem sabe você é um Pulitzer!

O mais esquisito são essas reuniões, que na verdade são como entrevistas de seleção de pessoal. Eis aqui a má notícia: o agente pode recusar você. Ele pode achar que seu potencial não é interessante e não quer perder o tempo. (Lembra que Estados Unidos é um país capitalista?) Vamos traduzir isso para o inglês: se você é recusado pelo agente, você não consegue passar da categoria aspirante a escritor para a categoria escritor. Ou seja: você não é escritor.

Não sei vocês, mas eu tenho muitas perguntas. O agente literário é um leitor tão qualificado para ser o representante dos leitores? Ou o agente literário simplesmente conhece muito bem o que as editoras estão buscando? Ou seja: o agente literário só vai contratar autores que sabe que pode colocar com uma determinada editora, porque a editora acreditará que esses autores terão leitores? Vamos traduzir isso para o inglês: o agente literário só vai contratar escritores que acha que vão vender? Será que na verdade o agente literário é um representante do mercado?

Agora vamos imaginar o feliz cenário: o agente contrata você. Parabéns. Mas eis aqui a má notícia: ele vai mexer com seu texto e não vai enviar às editoras até ficar satisfeito. “Esse final tá muito deprimente, imagina, o povo não vai gostar”, isso foi o que o agente literário falou para uma das escritoras com as que eu dividi uma mesa num festival. E a escritora mudou o final, que continuou deprimente, mas justificado pelo amor.

Nos últimos anos, com as novas tecnologias, o cenário está mudando um pouco: alguns autores que se autopublicaram viraram best-sellers ou ganharam prêmios importantes. Mas esse fenômeno ainda é marginal.

Se você é aspirante a escritor, na sua próxima viagem aos Estados Unidos, além de visitar um monte de shopping centers, marque reunião com um agente literário.

Quem sabe você é o próximo Jabuti… ou não.

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Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e atualmente mora no Brasil. Festa no covil é seu primeiro romance. Editado originalmente na Espanha, já foi traduzido na Alemanha, Reino Unido, Holanda e França, e tem lançamento previsto em mais sete países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
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