Juan Pablo Villalobos

Guia de reanimação de escritores

Por Juan Pablo Villalobos

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Foto: Moggi Interactive

Eu já conheci muito escritor na minha vida. Muito. Talvez demais. Conheci escritor pós-moderno. Vesgo. Policial. Flamenguista. Canhoto. Norueguês. Socialite-socialista. Conheci até escritor que não escrevia. Juro. E conheci o cara que escrevia os livros do escritor que não escrevia. É um mundo muito diverso. Mas todos os escritores do mundo inteiro, e até do universo, acho, têm uma coisa em comum. Só uma. Uminha. Todos são hipocondríacos.

Lembro de uma vez que fui para um festival literário no interior do Paraná e eu estava com uma crise de sinusite. No jantar depois da apresentação fiquei conversando com um escritor brasileiro que tinha uma crise de rinite sobre a relação da densidade e dos níveis de liquidez da meleca com o tipo de alergia. Outra vez, na Inglaterra, passei duas horas conversando sobre doenças do fígado com um autor indiano finalista do Booker (a gente estava bêbado). Os rins também são um tema favorito, especialmente entre os autores mexicanos. Pedras no rim, melhor ainda. E câncer, lógico. Escritor alemão adora falar em câncer. Por isso fiquei abismado quando percebi, aterrorizado, que NENHUMA feira do livro e NENHUM festival literário tinha uma guia, regulamento ou manual de reanimação de escritores.

Já imaginou?

O que você faria, caro leitor, se estivesse no lançamento de um livro e o autor tivesse, nesse momento, um chilique?

Sim, eu sei a resposta simples: perguntar se tem um médico no público, chamar uma ambulância, deixar espaço para ele respirar, fazer a manobra de Heimlich se o coitado se engasgou com o gelo do whisky etc. Mas a questão não é tão simples, não. Você tem certeza de que é preciso reanimar o cara? Eu não. Nem sempre. Tem bastantes situações ambíguas que implicam grandes dilemas morais. Por isso tomei a iniciativa de criar o primeiro GUIA DE REANIMAÇÃO DE ESCRITORES PARA USO DOS LEITORES EM FEIRAS DO LIVRO E FESTIVAIS LITERÁRIOS.

O uso do guia é muito simples, só é preciso analisar a tipologia do escritor e a situação ou contexto para determinar o que tem que fazer.

  1. Se é um autor consagradíssimo, que ganhou o Nobel (ou que está nas listas para ganhar): fique quieto, não se aproxime dele, não faça nada. Não importa se o escritor se salva ou morre, cedo ou tarde a viúva vai denunciar você.
  2. Se é um autor de livros de autoajuda: fique tranquilo, ele vai se virar sozinho.
  3. Se o chilique do escritor foi claramente provocado pela ingestão de substâncias recreativas: tem que reanimar o cara urgentemente e verificar se o fornecedor dele não é o mesmo que o seu.
  4. Se é um autor do século XIX, Dickens, Tolstói, Tchekhov: mudar de fornecedor de substâncias recreativas.
  5. Se é um autor do século XXI: faça o favor de passar para mim o telefone do fornecedor de substâncias recreativas dele.
  6. Se é uma socialite: gravar a agonia com o celular e vender o vídeo para a Band.
  7. Se é um escritor da América Latina durante um evento que acontece nos Estados Unidos e o cara não teve o cuidado de contratar um seguro médico: faça o favor de administrar uma injeção para acelerar o processo e que o coitado não sofra.
  8. Se é um desses autores que ficam falando que a “verdadeira narrativa contemporânea” está nos seriados de televisão: reanimar o cara igualzinho a Grey’s Anatomy ou ER, ou seja, simulando a reanimação, de mentirinha.
  9. Se é um youtuber: grave a agonia no celular e bote o filminho no YouTube.
  10. Se ele é autor de literatura confessional (diários, memórias, autobiografias): preste atenção! É o último capítulo e ele não vai poder contar!
  11. Se o escritor está fazendo uma turnê organizada pela embaixada do país dele e os diplomatas ficam com ele de um lado pro outro: faça o favor de administrar uma injeção para acelerar o processo e que o coitado não sofra mais.
  12. Se é dos Estados Unidos: pergunte se o agente literário dele está presente na sala.
  13. Se é o criador de uma saga de vampiros e criaturas sobrenaturais: fique tranquilo, ele é imortal.
  14. Se você é médico: siga seus instintos literários.
  15. Se o autor é poeta e político ou romancista e político: o que você está fazendo nessa porra de apresentação?

CLÁUSULA ADICIONAL: GUIA PARA PEDIR AUTÓGRAFO DURANTE CHILIQUE DO ESCRITOR.

  1. Ataque de asma: pode pedir assinatura e data.
  2. Infarto: se o autor consegue segurar a caneta pode pedir só assinatura.
  3. AVC: se está consciente pode pedir só assinatura.
  4. AHS (Ataque Hipocondríaco Severo): exija dedicatória, assinatura, data e lugar.
  5. Choque anafilático: se o autor consegue segurar a caneta, pode pedir só assinatura.
  6. Oclusão intestinal: pode pedir assinatura e data.
  7. Morte súbita: só dá para roubar a caneta.

Tradução do portunhol para o português por Andreia Moroni.

* * * * *

Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e morou alguns anos no Brasil. É autor de Festa no covil, Se vivêssemos em um lugar normal e Te vendo um cachorropublicados pela Companhia das Letras e traduzidos em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
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Carregando seu Cervantes

Por Juan Pablo Villalobos

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1. Em seu consultório médico, meu pai tinha um pesa-papéis de vidro piramidal com a figura do Quixote e o nome de um remédio gravados na base. Franzino. Barbadão. Montado num cavalo ainda mais magrela. O cara devia mesmo precisar do remédio. Numa das paredes da casa de um dos meus tios estava pendurado um quadrinho do Quixote, desta vez acompanhado de Sancho e sem o nome do remédio. Daí a tia Maria Cristina foi de férias às cidades coloniais e voltou com uma lembrancinha de Guanajuato para mim: uma estatuazinha do Quixote feita de arame. O calhamaço, lógico, adornava as prateleiras da casa dos meus pais e de todos os meus tios, respeitando um costume inquebrantável da classe média de todo o mundo hispânico. Para falar a verdade, eu nunca vi ninguém ler o Quixote, mas a lombada do livraço era um adorno muito lindo mesmo.

2. Depois eu fiz seis anos e fui atropelado por uma caminhonete enquanto ia comprar chiclete (a rima é involuntária — aliás, em espanhol não rima). Aquele foi o momento em que eu saí pela primeira vez do mundo de fantasia em que morava e entrei na realidade. Tudo para fazer uma grande descoberta: a realidade, certamente, machucava e doía. Igualzinho a Dom Quixote com os moinhos de vento, mas eu ainda não tinha lido o Quixote. Que pena ter perdido a ocasião de utilizar essa metáfora tão perfeita.

3. Logo chegou a adolescência, e na minha cidadezinha todo mundo queria ir pro Festival Cervantino em Guanajuato. Não, a gente não era muito culto: o tal Festival era, todo mundo sabia, a festa mais legal para se embebedar na rua e paquerar. Eu fui com minha turma e ficamos tomando cerveja e tequila nas escadas do Teatro Juárez. Segundo eu, meu olhar cativante estava fazendo o maior sucesso, mas logo acabei descobrindo que as meninas não tinham nem percebido minha presença. Igualzinho a Dom Quixote com Dulcineia, só que eu continuava sem ter lido o Quixote.

4. A primeira vez que eu viajei para Espanha, fiz questão de comprar a “melhor edição do Quixote”, a do Instituto Cervantes, anotada pelo Francisco Rico, papa e pope dos cervantistas. Eu estava na faculdade de letras espanholas e, no seguinte semestre, ia ter um curso dedicado ao Quixote. A edição constava de dois calhamaços com capa dura enfiados numa caixa rígida. Quatro, talvez cinco quilos. Comprei em Madri e carreguei na mochila durante dez dias por Toledo, Segóvia, Sevilha, Córdoba e Lisboa. O peso da tradição literária! (Mas essa piada eu já fiz no meu último romance, Te vendo um cachorro, justamente inspirada nesse episódio autobiográfico.)

5. Finalmente, eu li o Quixote. In-tei-ri-nho. Foram os quatro meses mais felizes de minha vida como leitor.

6. No ensaio que escrevi para passar no curso (uma dissertação sobre o sentido trágico e cômico no Quixote), coloquei o seguinte: “Dom Quixote é, antes de mais nada, antes de um cavaleiro, um escritor que está em processo de redigir seu próprio livro de aventuras. Dom Quixote é um estranho rei Midas que transforma em literatura tudo aquilo que ele toca (…) O que significa a irrupção de Alonso Quijano no final da história? A morte do personagem literário. Em suas últimas palavras, não é Dom Quixote quem fala, é Alonso Quijano, outro personagem literário, mas um personagem que não quer fazer literatura, que tem se deixado vencer pela realidade. A atroz condenação de Cervantes: morremos na realidade, na vida, abdicando da literatura.”

7. Sim, eu acredito que o Quixote é, sem a menor dúvida, o melhor livro de todos os tempos. Perdoem-me: eu sou mexicano, escritor, minha língua é o espanhol, minha pátria é minha língua, blá-blá-blá. Ou seja, a única oportunidade que eu tenho de me sentir de primeiro mundo, potência mundial, é falando de Cervantes. Eu sei que estou sendo vaidoso e pretensioso ao dizer que pertenço à tradição literária mais rica do mundo, mas porra, vamos fazer o que se é verdade?

8. Daí eu fui morar em Barcelona, a cidade onde Dom Quixote sofreu a derrota final, na praia da Barceloneta. Escrevi um conto: “Depois de almoçar fui para a praia, fiquei uns quarenta minutos porque ainda está bem frio. Eu estava deitado e a areia se enfiou em meus ouvidos e outra vez pensei em Cervantes, na crueldade de Cervantes. Na condenação de Cervantes. Na tristeza de caminhar pela praia da Barceloneta sabendo que é o lugar que Cervantes escolheu para que Dom Quixote fosse derrotado. Como poderia saber Cervantes que ele ia estragar meus passeios pela praia?”.

9. Depois eu fui morar no Brasil e um dia fui convidado para dar uma palestra sobre literatura mexicana no Colégio Cervantes de São Paulo. Os alunos me entregaram um presentinho: um pesa-papéis de vidro piramidal com a figura do Quixote.

10. Os cinco quilos da edição do Instituto Cervantes do Quixote já foram nas minhas mochilas e malas de Madri pro México, do México para Barcelona, de Barcelona para o Brasil e do Brasil de volta para Barcelona.

É o peso da tradição literária, sim.

Mas eu quero carregar.

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Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e morou alguns anos no Brasil. É autor de Festa no covil, Se vivêssemos em um lugar normal e Te vendo um cachorropublicados pela Companhia das Letras e traduzidos em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
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Você tem que ler Raduan Nassar

Por Juan Pablo Villalobos

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Foto de Juan Pablo Villalobos.

Em 30 de janeiro de 2013, recebi um e-mail do editor mexicano Diego Rabasa perguntando se eu conhecia a obra de um autor brasileiro chamado Raduan Nassar. Respondi que conhecia, sim, porque a grande maioria de meus amigos brasileiros (professores universitários, editores e escritores, principalmente) tinha falado para mim a mesma frase, idêntica, em algum momento de nossas conversas sobre literatura brasileira: você tem que ler Raduan Nassar. Eu tinha lido anos atrás, de fato — apesar das limitações do meu português na época —, Lavoura arcaica, Um copo de cólera e Menina a caminho, levando em consideração meus amigos quando percebi que Raduan Nassar era um desses raros casos de unanimidade. Li com muito respeito, com um pouquinho de medo, até, pela óbvia dificuldade de leitura, mas desde as primeiras páginas a contundência da prosa e sua plasticidade me converteram num desses caras que falava para os amigos: você tem que ler Raduan Nassar. Eu tinha virado Nassarita, ou Raduanita, uma seita bem mais fanática do que o Corinthians.

Até aquela época, só Lavoura arcaica tinha sido traduzido para o espanhol (uma tradução espanhola) nos anos 1990, e alguns dos contos de Menina a caminho haviam sido publicados em revistas mexicanas, argentinas e espanholas. Em um e-mail posterior, Diego perguntava se eu estaria interessado em traduzir os três livros e se poderia ajudá-lo a fazer os contatos para comprar os direitos. Falei que sim, lógico, poucas vezes na vida um leitor encontra a oportunidade de cumprir o maior sonho, a maior honra de todo leitor: traduzir um de seus autores favoritos para a própria língua.

Demorou quase um ano e meio para ter o contrato de edição pronto (as reticências de Raduan Nassar para a tradução de sua obra são conhecidas) e o primeiro livro, Um copo de cólera, me exigiu quase três meses de trabalho intenso e exclusivo para traduzir as 13.880 palavras do romance. Lembro que fiquei tão abismado com a exigência do texto que, quando terminei, até fiz um cálculo. Eu tinha dedicado aproximadamente 400 horas para a tradução do livro, o que quer dizer que eu conseguia traduzir 34,7 palavras por hora! Uma palavra a cada dois minutos! Lógico que estou considerando tempo de revisão e de reescrita, mas acho que o cálculo é válido para ter uma ideia do que essa tradução representou.

Eu acredito que, contrário à opinião de muitas pessoas, o trabalho de tradução é um trabalho de criação equivalente à escrita. No meu currículo, gosto de colocar os livros traduzidos junto com meus romances. Não pretendo pisar o terreno do querido Caetano Galindo, vizinho deste blog, grande tradutor, teórico engraçadíssimo e amigo, mas gostaria de reivindicar, com permissão do Raduan Nassar, que algumas das páginas de Un vaso de cólera (a tradução de Um copo de cólera para o espanhol) são, com certeza, do melhor que eu consegui escrever até agora.

Un vaso de cólera foi publicado em janeiro de 2016 pela editora Sexto Piso no México e na Espanha e já recebeu ótimas resenhas. Na semana passada chegou uma notícia fantástica da Inglaterra: a edição em inglês (A cup of rage, traduzida pelo Stefan Tobler), foi escolhida como semifinalista do Man Booker International, um dos prêmios mais prestigiosos no mundo. É uma boa notícia para a literatura brasileira, para a obra de Raduan Nassar, mas é, especialmente, uma boa notícia para esses novos leitores que, pela primeira vez, terão o privilégio de ler Raduan Nassar.

A seita dos Raduanitas e dos Nassaritas crescerá.

A ladainha continuará, agora em inglês, agora em espanhol.

You must read Raduan Nassar.

Tienes que leer a Raduan Nassar.

 

Fragmento da tradução para o espanhol de Um copo de cólera:

EL BAÑO

Bajo la ducha yo dejaba que sus manos se escurrieran por mi cuerpo, y sus manos eran inagotables, y corrían escrutadoras con mucha espuma, e iban y venían incansablemente, y nuestros cuerpos mojados de vez en cuando se pegaban para que ellas alcanzaran la espalda en un abrazo, y a mí me parecía delicioso todo ese movimiento vacilante y sinuoso, que me provocaba súbitas y recónditas sacudidas, y viendo que aquellas manos ya invadían mis regiones más oscuras – explorando incluso las hilachas que acompañan el remiendo mal cosido de las ingles (sopesando astutas el paquete enjabonado de mi sexo) – le dije “lávame el pelo, me urge”, y entonces, sacándome del foco de la ducha, sus manos penetraron de inmediato en mi cabello, friccionando con firmeza los dedos, rayando mi cuero con las uñas, raspándome la nunca de una manera que me volvía loco en la médula, pero yo no decía nada y sólo me quedaba sintiendo la espuma que iría creciendo blanda allá arriba hasta que se desmoronara con alboroto por la cara, pinchándome los ojos en el descenso, haciéndome restregarlos desesperadamente con los nudillos de los dedos, aunque supiera que ellos, ardiendo, anunciaban francamente mi aseo, y ella no tardó en jalarme de nuevo bajo la ducha, y sus dedos comenzaron a tramar la cosa más deliciosa del mundo en mi cabello con la lluvia caliente que caía encima, y era entonces un plaft plaft de espuma gruesa y atropellada, estrellándose en la cerámica con el agua que corría ruidosamente hacia el desagüe, y ella reía y reía, y yo ahí, todo quieto y abandonado a sus cuidados, no movía ni siquiera un dedo para que ella cumpliera sola ese trabajo, y yo ya estaba bien enjuagado cuando ella, resbalando de los límites de la tarea, deslizó la boca mojada por mi piel de agua, pero yo, sujetando los frenos, hice de cuenta que nada perturbaba el ritual, y en cuanto ella cerró la llave me dejé conducir callado de la ducha al piso, y, conectado a una ligera corriente de escalofríos, me quedé esperando hasta que ella me tiró una amplia toalla sobre la cabeza, encargándose luego de secarme el pelo, en movimientos tan ágiles y precisos que agitaban mi memoria, y con los ojos escondidos vi por instantes, aunque pequeños y descalzos, que sus pies crecían metidos en sandalias, y sentí también que sus manos afiladas se transformaban en manos rústicas y pesadas, y eran manos minuciosas que se metían con los dedos por mis orejas, colmándome de caricias, haciéndome cosquillas, haciéndome reír bajito debajo de la toalla, y era extremadamente rico que ella se ocupara de mi cuerpo y me condujera enrollado al cuarto y me peinara delante del espejo y esbozara una reprimenda de ceño fingido y me hiciera pequeñas recomendaciones y me hiciera vestir pantalón y camisa y me hiciera acostarme de espaldas en la cama, inclinándose en seguida para cerrarme los botones, y me hiciera extender mis pesados zapatos en su regazo para que ella, doblándose llena de aplicación, pudiera amarrar las agujetas, yo sólo sé que me entregaba enteramente a sus manos para que fuera completo el uso que ella hiciera de mi cuerpo.

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Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e morou alguns anos no Brasil. É autor de Festa no covil, Se vivêssemos em um lugar normal e Te vendo um cachorropublicados pela Companhia das Letras e traduzidos em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
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Lembranças do Carnaval

Por Juan Pablo Villalobos

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Pros Moronitas

Vou começar com um depoimento anticlimático: eu nasci e cresci numa cidade do México onde não tem Carnaval. Minhas primeiras lembranças do Carnaval são as imagens na televisão dos carnavais de rua em Veracruz e Mazatlán, dois portos que ficam a mais de 600 quilômetros da minha cidadezinha. Além disso, também passava na TV o resumo do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro. Eram vinte ou trinta segundos no noticiário noturno. Vinte ou trinta segundos de bundas e peitos e mulherada pelada, para ser exato.

Só quando fui morar em Barcelona, com 30 anos, lá em 2003, tive o primeiro contato direto com o Carnaval, em Sitges, uma das capitais gays da Europa. Ir para o Carnaval de Sitges é, pros recém-chegados (os “nouvinguts”, em catalão), um rito de passagem. Para pular Carnaval em Sitges, primeiro você tem que conseguir pular no trem (lotadíssimo) e, depois, o rito exige que você passe frio (é inverno), aguente a chuva (sempre chove) e demore horas para arranjar uma cerveja choca (se você não tomou a providência de trazer sua bebida, e os “nouvinguts” ainda não têm essa proficiência). Depois de cumprir com o rito de passagem no meu primeiro fevereiro em Barcelona, eu decidi, feliz, botar o Carnaval na gaveta das coisas da vida que não têm nada a ver comigo, ali ao lado do críquete, das religiões evangélicas, da taxidermia ou do molho bechamel. Pronto, achei que tinha esquecido para sempre do Carnaval. Hahaha. Que inocente… Porque logo, logo, alguém abriu essa gaveta, pegou o Carnaval e o colocou bem no centro da minha vida. Adivinharam: eu conheci uma brasileira.

* * *

Mulher brasileira é assim: dez anos depois, em 2013, eu estava pulando Carnaval no Sambódromo de São Paulo com a escola Águia de Ouro. Juro. Carregando uma fantasia que pesava dez ou quinze quilos. E que tinha penas. E muitos enfeites brilhantes. E na cabeça eu trazia um capacete de operário amarelo (foi o mais perto que estive da classe trabalhadora na minha vida, vovô Marx estaria orgulhoso de mim). Eram seis horas da manhã do sábado e chovia, igualzinho em Sitges, enquanto a gente desfilava. Mas não vamos tão rápido, é preciso ir mais devagar (a verossimilhança tem suas regras).

* * *

O namoro com a brasileira ficou sério. Tivemos um filho colecionador de passaportes. Depois uma filha com o mesmo hobby. E a cada fevereiro, ganhei uma nova angústia existencial: os brasileiros estavam lá no verão, pulando Carnaval, e a gente estava nessa porra de frio, com chuva, e com a única possibilidade de ir para esse carnavalzinho fajuto de Sitges. A angústia, lógico não era minha. Era da minha brasileira. Os amigos dela eram cruéis e colocavam no Orkut fotos na praia, no Carnaval de salão, no bloco de rua, sempre com pouca roupa. Eu tinha em casa uma suicida em potencial.

* * *

Com a namorada brasileira eu arranjei, lógico, uma família brasileira. Sogra, sogro, cunhado, avós, tios, tudinho. Vinha no pacote. Uma famiglia italiana do estado de São Paulo. Era muito clichê. Mas eles estavam longe, ufa. Longe até a gente decidir ir morar no Brasil, lá em 2011. Aí eu senti de verdade que a bateria do Carnaval começava a bater bem nas portas do meu refúgio anticarnavalesco.

A minha família brasileira ia pro Carnaval de salão do clube chique da cidade. E, além do mais, tinha a matinê para as crianças. Naquela época, os colecionadores de passaportes já tinham 5 e 3 anos, respetivamente. Fofíssimos. Dava para fantasiá-los de piratas e princesas. De personagens da Disney. Até de mexicaninhos (o folclore é admitido). Mas o problema era que o pai gringo também tinha que se fantasiar. Eu peguei a verde-amarela que o sogrão deu de presente antes da Copa de 2010 (e que nunca tinha usado, lógico) e falei que gringo com camiseta do Brasil já pode se considerar fantasiado. Falei que era o Neymar. Claro que eu não usei o penteado do Neymar nem botei o número e o nome dele nas costas, mas o importante era a atitude. A ousadia. Tem ousadia maior que um mexicano de cidadezinha do interior encarar o Carnaval brasileiro?

* * *

Daí aconteceu uma coisa muito estranha. Esquisitíssima. Comecei a gostar do Carnaval. Da matinê das crianças e do Carnaval de rua com bloquinhos alternativos. Comecei a achar legal. E, depois, muito legal. Mas para isso foi preciso muita bebida. Essa cerveja gelada que só tem no Brasil. E cachaça. Muita. Quando eu falo muita, é muita. (Porra, eu bem que tomaria uma cachacinha agora, mas estou tomando antibiótico, por culpa de uma dor de dente.) Aliás, este parágrafo não é comercial da Brahma. Nem da Skol. Eu gosto mesmo é da Serra Malte. Mas não é publicidade, não. O que era que eu estava contando? Peraí (o antibiótico me deixa zonzo).

* * *

Morei três anos no Brasil e minha lembrança favorita do carnaval foi numa matinê, quando a minha princesinha, fantasiada de Frozen, me disse que estava com dor de barriga. Vamos pro banheiro, falei. Entramos na cabine da privada. Faz força, falei. E a minha princesinha peidou confete.

* * *

Para falar a verdade, provavelmente eu ainda não gostava tanto assim do Carnaval. Só tinha aprendido a lidar com ele. Ficava num cantinho com a bebida na mão, olhando com autêntico interesse antropológico. Quando alguém me convidava para dançar ou participar de alguma brincadeira, eu falava que era escritor, um cronista da realidade, e que eu queria era observar. Quem sabe um dia eu acabava escrevendo um textinho sobre o Carnaval. Adorava também assistir o desfile das escolas de samba na TV. Acho que é o espetáculo perfeito, porque você não tem que assistir. Você só tem que deixar a TV ligada e dar uma olhada de vez em quando. Vinte ou trinta segundos por hora.

Mas então chegou aquele dia de finais de 2012. Minha brasileira falou que o irmão e a namorada de uns amigos nossos (editores, aliás – ô raça!) iam desfilar com a Águia de Ouro e que, se quiséssemos, poderíamos participar. Fiquei atônito. Olhei seriamente para ela: ela tinha cara de “é uma prova de amor”. Não dava para dizer que não.

* * *

Cenas de uma noite de Carnaval:

1) Quatro pessoas demoram meia hora para entrar no carro depois de ensaiar inúmeras posições para não estragar as penas da fantasia.

2) Cinquenta pessoas fantasiadas iguais bebem cerveja num posto de gasolina às 2:30 da manhã.

3) Cinquenta pessoas demoram uma hora para entrar no ônibus da prefeitura que levará a nossa ala pro Sambódromo.

4) Aguardamos nossa vez no Sambódromo, seremos a última escola a desfilar. Às 5:45 começa a chover, observo as penas da fantasia molhadas, parecemos as Galinhas de Ouro.

5) Desfilamos sob a chuva, eu não sei de cor o enredo (é a segunda vez que o escuto), eu não sei a coreografia, aprendo tudo durante a hora do desfile, tomo bronca do diretor de nossa ala. Atrasamos um minuto do tempo permitido para terminar de cruzar o sambódromo. Porra.

* * *

Então, em 2014, a brasileira, os colecionadores de passaportes e eu voltamos para Barcelona. Ufa. De volta para as saudades do Carnaval, pensei. Mas minha brasileira tinha outros planos. Ela se candidatou para presidenta da Associação de Pais dos Brasileirinhos da Catalunha (que ela tinha ajudado a fundar, anos atrás), ganhou a eleição e eu virei primeiro-damo. Juro. E este sábado tem matinê lá na Associação. E eu não posso beber por culpa dessa porra de antibiótico. Quem sabe voltarei a não gostar do Carnaval. Quem sabe voltarei a ser parte da ala dos anticarnavalescos. Mas, por enquanto, já lavei minha camiseta do Neymar. Bom carnaval para vocês.

Tradução do portunhol para o português por Andreia Moroni.

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Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e morou alguns anos no Brasil. É autor de Festa no covil, Se vivêssemos em um lugar normal e Te vendo um cachorropublicados pela Companhia das Letras e traduzidos em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
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Falsa partida

Por Juan Pablo Villalobos

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Durante janeiro, o blog da Companhia das Letras recebe colaborações semanais de autores convidados a escreverem sobre as suas primeiras vezes: a primeira vez que leram seu autor favorito, primeira viagem, primeira vez que sentiram pertencer a um grupo e outras experiências marcantes. Na coluna de Juan Pablo Villalobos deste mês, o escritor fala de sua primeira oficina literária.

* * *

Éramos seis, um número perfeito para uma oficina literária. Cinco mais um. Ou seja, cinco opinando e um lendo. Um número ímpar de juízes é condição imprescindível para qualquer tribunal. Eu poderia mencionar os nomes reais de meus colegas de oficina, mas não sei se eles gostariam do jeito como vou retratá-los, reconhecendo minha tendência como narrador para a caricatura e o sarcasmo (eu me conheço).

Éramos cinco homens e uma mulher. Peço desculpas para os defensores da igualdade de gênero, mas tenho o imperativo de ser fiel à verdade. Ao que eu acredito ser a verdade. Às minhas lembranças, quero dizer. Fazendo uso de uma licença poética, digamos que meus colegas se chamavam Darkson, Liberalino, Grilo, Valdisnei e Confúcia. E havia eu, claro. Tínhamos entre 20 anos (Confúcia, que além de ser a única mulher do grupo era a mais nova) e 35 (Liberalino, que era copy numa agência de publicidade). Eu tinha 22 anos, o que quer dizer, se a matemática não falha, que isso aconteceu há quase 20 anos, em 1996, em Guadalajara, no México.

Quem tinha organizado a oficina era Darkson, amigo meu, de Liberalino e de Valdisnei. Eu havia convidado Grilo, um colega da faculdade, e Confúcia, a melhor amiga de minha namorada daquela época. Darkson era fã de Henry Miller; Liberalino, de Juan Rulfo; Grilo, como eu, de Jorge Ibargüengoitia; Valdisnei, de Paul Auster; e Confúcia lia poesia (gostava de Rilke). Para começar, não tínhamos muitas afinidades literárias. Mas estávamos empolgados. Muito empolgados. Todos queriam ser escritores. Pior ainda: todos tinham certeza que iam virar escritores. Quem sabe por quê. E, especialmente, para quê.

Eu escrevia desde os 14 anos. Contos, poemas, músicas para a banda de rock dos meus amigos da cidadezinha onde morei até a adolescência. Mas nunca tinha participado de uma oficina literária. De fato, minha “produção literária” tinha tido, até então, uns leitores sem nenhuma noção, interesse ou intenção crítica. A primeira vez que divulguei uma de minhas obras literárias foi quando, depois do jantar de Natal, li um conto para minha mãe e minha avó enquanto elas lavavam a louça. No conto, uma criança se suicidava. Era um conto de Natal, lógico. Quando terminei de ler, minha mãe e minha avó só assentiram, achando, tenho certeza, que eu precisava de um psiquiatra e não de um crítico literário. As vítimas de meus poemas, quer dizer, minhas leitoras, eram (quem mais?) minhas namoradas da adolescência. Para mostrar meu amor, eu acabava crucificado em meus poemas (minha cidadezinha é muito católica). Elas suspiravam. Não sei se por amor, tédio ou susto. Quanto à banda de rock, era mais simples: eu traduzia (mal) as músicas do The Cure e as arrumava para que rimassem. Os caras da banda, que se chamava Mentes Invertidas, ficavam sempre felizes (não sabiam inglês).

Então, para mim, a ideia da oficina literária era ao mesmo tempo fascinante e assustadora. Eu sabia que para melhorar a escrita eu precisava de ajuda, mas não sabia se estava pronto para escutar  e aceitar  outros aspirantes a escritores enunciando os defeitos dos meus textos. Por isso, me preparei cuidadosamente e decidi levar à primeira sessão da oficina aquele que considerava meu melhor (e único) conto. Quer dizer, o único verdadeiramente terminado. O único “redondo”. Se chamava “Salida en falso” (“Falsa partida”). Se chama, de fato. Li agora de novo, ele está guardado entre meus arquivos no seguinte endereço: Mis Documentos/j.p./Cuentos/Primer volumen. Que pretensioso, pelamordedeus! “Primeiro volume”. Como se eu já tivesse minhas “Obras completas”.

O conto tem uma frase boa, uma ideia boa, que eu poderia escrever hoje (talvez a plagie): “Por alguma razão incompreensível, as pessoas chegam à conclusão que quando você ganha você é feliz, que você nasceu para isso, que esse é o caminho que você deve seguir”. O conto é sobre um menino traumatizado pelo bullying na escola. O menino é selecionado para fazer atletismo e resulta que é muito bom correndo. Muito bom mesmo: um campeão. Mas nem assim ele consegue superar seu trauma, porque ele não percorre um caminho que leva ao sucesso, como as pessoas estruturadas que estabelecem objetivos na vida. Ele foge para o sucesso (ainda gosto dessa ideia). Uma confissão: esse conto tinha um pano de fundo autobiográfico, pois eu sofri bullying entre os 6 e os 8 anos, apesar de naquela época o conceito de bullying não existir  a gente chamava simplesmente de “ir pra escola”.

E agora, ou seja, naquela noite de 1996 (íamos começar às 20h, no apartamento de Darkson), eu tinha medo de sofrer um novo tipo de bullying, o pior de todos os bullyings conhecidos: o bullying literário. Tinha medo, especialmente, de Darkson e Liberalino. Eu sabia que Grilo e Confúcia seriam condescendentes. Valdisnei era, para mim, uma incógnita. Mas Darkson lia Kerouac e Bukowski, além de Henry Miller, bebia tequila do gargalo e podia ser despiedoso. Liberalino tinha 35 anos, 35 anos!, mais de 10 anos a mais de experiência de leitura e escrita!

No começo da sessão pedi, quase tremendo, para ser o último a ler. Ninguém se opôs, lógico: todos, exceto Confúcia, queriam ser os primeiros. Confúcia não queria ser nem a primeira nem a última. Falou que não tinha trazido nada para ler por enquanto. Falou a mesma coisa em todas as sessões da oficina, tornando-se assim a participante mais enigmática. A única coisa que ela fazia, às vezes, era nos contar alguma imagem para um poema, alguma cenografia para uma peça de teatro (era atriz), algum diálogo para um roteiro de cinema (estudava cinema). Era, de fato, a melhor de todos, a que tinha as melhores ideias: a escritora que não escrevia, quase uma artista conceitual.

Darkson foi o primeiro a ler, intercalando parágrafos com goles de tequila, imitando Bukowski (isso eu só fiquei sabendo mais tarde, ao assistir umas leituras de Bukowski no YouTube). Ninguém entendeu o que ele lia. Era meio incompreensível por estar mal escrito e meio incompreensível por ser misterioso. Como eu não sabia o que dizer, minha única sugestão foi trocar um ponto de lugar. Ele achou que isso era uma afronta pessoal e ficamos discutindo a sintaxe desse parágrafo por mais de vinte minutos. Achei que, pelo visto, o que eu tinha que fazer era beber mais cerveja, e mais rápido.

Grilo leu um conto que havia trabalhado em outra oficina literária: um conto triste em que imaginava o futuro medíocre de um colega da faculdade que a gente realmente odiava. Juan Carlos Onetti já escreveu esse conto mil vezes. E mil vezes melhor. Isso foi, de fato, o que Liberalino falou. Darkson reclamou que a prosa de Grilo era transparente, como se entender o que você leu fosse um defeito gravíssimo. Valdisnei apoiou Darkson, mas a interpretação dele era que a prosa de Grilo precisava de mais “intensidade poética”. Confúcia falou que gostava do conto. Eu também, exceto por um ponto e vírgula que sugeri trocar por um ponto. Grilo falou: “ok”.

Depois veio o desastre: as cinquenta páginas do fragmento de romance de Valdisnei. Um triângulo amoroso com intensidade poética demais, lido no tom monocórdico, persistente e teimoso de Valdisnei. Demorou mais de uma hora, que o resto de nós dedicou, além de escutar, a visitar a geladeira para pegar mais e mais cerveja. Quando terminou, todo mundo, exceto Valdisnei, estava bêbado. Daí Darkson, acostumado a manter a lucidez em estados etílicos, salvou a noite: falou que já era muito tarde e que seria melhor deixar os comentários do romance de Valdisnei para a próxima sessão. Liberalino disse, condescendente, como irmão mais velho, que era verdade e que, aliás, ia adiar a leitura dele para a próxima sessão também, para que pudéssemos dedicar tempo à minha leitura. Era isso, chegava minha vez.

Cof, cof. (Um gole de cerveja).

Li as 1971 palavras do conto (revisei o documento agora). Terminei. Todo mundo ficou em silêncio, mas era um silêncio confortável, que eu gostava. Eu gostava, na verdade, de olhar os rostos dos cinco. Um pouco surpresos. Um pouco eufóricos. Quase felizes. Cacete, falou Liberalino. Muito bom, falou Darkson. Arrasou, falou Grilo. Muito bom mesmo, falou Valdisnei. Parabéns, Pablito, falou Confúcia (ela me chamava de Pablito). Na verdade o conto não era tão bom (já falei que talvez só tivesse uma frase boa, uma ideia boa). Na verdade a gente estava muito bêbados. Na verdade a gente queria era parar com essa porra de oficina e começar a festa. Mas essa foi a primeira vez que eu senti que era escritor.

Tradução do portunhol para o português por Andreia Moroni.

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Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e morou alguns anos no Brasil. É autor de Festa no covil, Se vivêssemos em um lugar normal e Te vendo um cachorropublicados pela Companhia das Letras e traduzidos em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
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