Por Juan Pablo Villalobos

Em 3 de setembro do ano passado publiquei aqui uma coluna na qual reclamava das dificuldades para responder de maneira adequada à pergunta “quem é seu escritor brasileiro favorito?”. Escrevi esse texto na semana anterior à publicação, na sexta-feira que a antecedia e, segundo a informação do arquivo de Open Office, foi em 31 de agosto, dois dias depois de meu aniversário (já falei que odeio a Microsoft?). Estas explicações são necessárias porque no sábado 1º de setembro aconteceu minha festa de aniversário e recebi de presente o primeiro livro que leria de meu escritor brasileiro favorito.
O livro foi presente de um amigo colombiano que mora no Brasil, doutor em literatura e talentoso escritor, a quem chamarei Rafael Gutiérrez, embora seja seu nombre verdadeiro (autor do maravilhoso El escritor de culto. Guía rápida, a ser publicado em breve no Brasil). Rafa conhece muito bem meus gostos e interesses literários, mas eu ainda não o sabia. Rafa me disse: “Es un raro brasileño”, porque sabia que os escritores raros são meu ponto fraco. Recebi o livro com a típica desconfiança dos leitores maníacos. Era uma edição de 1977 da Editora Codecri, com uma capa especialmente horrorosa. O título do livro: A lua vem da Ásia. O autor: Campos de Carvalho.
Nessa mesma noite ao acabar a festa, que foi um almoço, peguei a pilha de livros que tinha ganhado para fazer uma analise rápida. Estava meio bêbado. Ou simplesmente bêbado. Ou inclusive bêbado e meio. Fiz a separação nas três pilhas que eu faço sempre que ganho livros. 1) Livros que eu vou ler imediatamente: ficam na minha mesa de trabalho. 2) Livros que eu vou ler algum dia: vão para a prateleira. 3) Livros que eu não vou ler nunca: vão para umas caixas que estão no quarto de visitas, que é, para falar a verdade, o quarto das tralhas.
O título do primeiro capítulo de A lua vem da Ásia me fez graça, “Vida sexual dos perus”, peguei o livro e o levei comigo para a cama, onde eu tentaria me estabilizar (a existência bípede estava muito complicada). E o milagre aconteceu desde os primeiros parágrafos:
“Aos dezesseis anos matei meu professor de Lógica. Invocando a legítima defesa — e qual defesa seria mais legítima? — logrei ser absolvido por 5 votos contra 2, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris.
“Deixei crescer a barba em pensamento, comprei um par de óculos para míope, e passava as noites espiando o céu estrelado, um cigarro entre os dedos. Chamava-me então Adilson, mas logo mudei para Heitor, depois Ruy Barbo, depois finalmente Astrogildo, que é como me chamo ainda hoje, quando me chamo.”
Eu já tinha um escritor brasileiro favorito. Não consegui largar o livro, mesmo estando meio bêbado ou simplesmente bêbado ou inclusive bêbado e meio. Lia Campos de Carvalho às gargalhadas, encontrando a cumplicidade que só a literatura pode conquistar.
No dia seguinte, ainda sob o impacto da leitura, e ainda também sob o impacto do tequila (já falei que o tequila é macho?), comecei a me perguntar: como era possível que eu não conhecesse Campos de Carvalho? Fiz uma pesquisa rápida na internet e achei os títulos de outros três livros: O púcaro búlgaro, A chuva imóvel, Vaca de nariz sutil. E como as vacas são outra de minhas fraquezas lembrei de uma conversa sobre literatura e vacas com minha amiga Graça Ramos em Brasília, capital mundial dos raros, na que ela tinha me ordenado sem ambiguidades: “você tem que ler Campos de Carvalho”. E lembrei também do curso sobre escritores raros que eu ministrei no Instituto Cervantes de São Paulo, e fui buscar as notas do curso porque numa folha eu tinha anotado os nomes de escritores raros brasileiros que os alunos tinham me recomendado. E lá também estava Campos de Carvalho. Mesma coisa em um caderno que levei para Belo Horizonte (ou foi para Porto Alegre?). Dá para perceber o quanto eu sou distraído?
Encomendei os livros na minha livraria favorita e os exemplares, em edição recente da Editora José Olympio, chegaram duas semanas mais tarde. Coloquei-os na prateleira, ainda morrendo de vontade de lê-los imediatamente, porque estes livros pertenciam a uma quarta categoria: livros que eu devo dosificar ao longo da vida, livros para ocasiões urgentes, livros para recuperar a fé na literatura.
Meses depois chegou o convite para ir à Bulgária para fazer promoção do lançamento da versão local da Festa no covil. E pensei de imediato que sim, que eu iria à Bulgária para poder ler aí O púcaro búlgaro. No avião que me levava a Sofia na segunda semana de março li as primeiras linhas:
“Se a Bulgária existe, então a cidade de Sófia terá que fatalmente existir. Este é o único ponto no qual parecem assentir os que negam e os que defendem intransigentemente a existência daquele amorável país, desde os tempos antediluvianos até os dias pré-diluvianos de hoje.”
O púcaro búlgaro é a história de uma expedição para confirmar ou desmentir a existência do pequeno país europeu. A expedição nunca acontece e o que lemos são os absurdos prolegômenos da viagem. Passei três dias na Bulgária na companhia do Professor Radamés, do Expedito, do Pernacchio, do Ivo que viu a uva e dos jornalistas búlgaros, que pareciam de verdade personagens de Campos de Carvalho, capazes de fazer as perguntas mais esquisitas. O que será que ensinam nas faculdades de jornalismo da Bulgária? O que será que os jornalistas búlgaros comem?
Eu gostaria de contribuir à polêmica, mas nem mesmo tendo visitado Sofia e Plovdiv posso confirmar ou desmentir a existência da Bulgária. Eu fui, sim, e há fotos, entrevistas nos jornais, na rádio, até imagens da televisão. Mas nesses dias, caros amigos búlgaros, eu estava morando dentro de um livro. Um livro de meu escritor brasileiro favorito.
* * * * *
Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e atualmente mora no Brasil. Festa no covil é seu primeiro romance. Editado originalmente na Espanha, foi traduzido em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
Site – Facebook


![[ the man of berlin ]](http://farm7.staticflickr.com/6226/6216866932_2a71c8b77d.jpg)









