Júlia Moritz Schwarcz

Rocambole

Por Júlia Moritz Schwarcz

Pessoal, acabei de participar de uma conversa na língua dos meus queridos colegas da produção, e — acho que contraí a gripe do blog — assim que ela começou a se desenrolar peguei um papel e uma caneta e me pus a anotar. Tudo começou com um convite para um rocambole. Desci na sala da Helen, grande responsável pela parte gráfica dos infantis e dos quadrinhos da Companhia, e resolvemos dar uma “repassada” na programação (checar título por título para discutir as pendências, ver prazos, essas coisas). Até que chegamos em O nascimento do dragão, um livro muito bonito e graficamente caprichado, sobre a lenda chinesa do dragão. A Helen, como sempre, queria uma capa especial, e o que segue é o diálogo que chamo de “Em busca de uma bossa para a capa do dragão”:

Olha, essa capa precisa de algum tchans. E se a gente usasse um hot-stamping? Ah, não dá, a ilustração passa pela lombada e aí pega o contra-vinco. E o dragão é uma área grande demais para hot-stamping. E o verniz uv? O verniz uv também passaria pelo contra-vinco, mesmo problema. Ah, então por que você não coloca um verniz uv fosco? Poderia até ser serigrafia. Você diz um laminado fosco? Ou com textura, um uv texturizado. Deixa eu ver o mostruário do peludinho [mais conhecido como mostruário de acabamento de cobertura]? Sou contra, essa textura de pelinho coça o nariz. Poderia ser esse verniz com textura de escama de dragão. Você diz essa textura de couro? Aí teria que ser invertido: em vez de fosco, brilhante. Ah, mas na laminação não tem como fazer aplicação, é sem reserva. E se a gente fizesse reserva só no preto? Ih, e esse verniz texturizado já tá descolando, será que eles garantem? E em laminado com reserva de brilho o verniz uv é fraco. E se fosse invertido: laminado brilhante com verniz texturizado? A gente tem alguma capa com hot-stamping preto aplicado? Porque assim daria pra colocar só no dragão. É, precisa ser com 50% de reserva, aí dá pra fazer um dragão escandalooooooooso. E relevo seco? Não rola, fica uma caca, nunca levanta muito. E se a gente usasse pantone metálico na parte branca com os traços pretos em overprint? O prateado em uma área muito grande em vez de chamar a atenção acaba diminuindo o contraste, acho que não funciona. Me passa o mostruário da gostosa mulher, fazendo favor?

O que acabou se decidindo desse papo de doido você vai saber daqui algumas semanas, quando mostraremos a capa final, com exclusividade.

(Ah, e os meus doidos queridos, protagonistas desse diálogo, são: Helen, Geane, Renan e Natália.)

[Clique aqui para ler sobre alguns dos tipos de acabamento mencionados.]

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Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.

Profissão: Editor

Por Júlia Moritz Schwarcz


(No estacionamento do prédio, às 9h20)

Bom dia.

Bom dia, Júlia. Foi pra praia? Seu rosto tá vermelho.

Não, comecei a passar um creme novo pra pele.

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(Na sala do editorial, dois minutos depois)

E aí, viu que o meu post no blog é o segundo mais lido?

Puxa, parabéns. (Ódio mortal)

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(Tem uma prova em cima da mesa, onde leio:)

O rei e a nuvem

— Ei, vocês aí! — o rei chamou as nuvens. — Já vão indo? Não tenho como convencer vocês a ficar? Meu reino é o mais belo de toda a região. Aqui, o verde é viçoso, temos lindos relvados e terra fértil. Nossas torres são tão altas como…

Mas as nuvens já haviam passado.

— Eu compreendo — disse o rei, baixinho.

E suspirou.

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(Um dos meus e-mails, com o título “Livros do exterior”)

NASCIMENTO DO DRAGÃO — Aguardando o contrato para efetuar o pagamento, só depois os arquivos vão ser liberados.

OS 3 FANTASMAS — Contrato está ok, mas ainda mas não chegou, a Paula já cobrou.

BAFINHACA — Os arquivos estão aqui.

THE ORCHARD BOOK OF AESOP’S FABLES — Contrato ok, mas eles ainda não mandaram de volta,  a Paula já cobrou.

CONTOS DO ARCO DA VELHA — Os arquivos estão ok.

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(Toca o telefone, 10h)

Oi, Ju, tudo bem? E o nosso Bocejo?

Chegaram dois bonecos e não ficaram nada bons, as dobras amassaram muito o livro. O pessoal da gráfica ficou de achar outra saída. Quem sabe não dá pra usar aquele papel de plástico.

Meu deus, não é possível não conseguirmos fazer o livro. E sabia que no Rio eles dizem “boneca”?

Eu sabia. Beijos, boneca.

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(10h30, e-mail novo)

amigos,

um e-mail da márcia esclarecendo o uso da pontuação quando há colchetes para marcar supressão de texto.

me ajudou, quem sabe ajuda vcs também.

bjs, bia

—– Original Message —–

From: XXX

To: YYY

Sent: Wednesday, June 12, 2010 6:11 PM

Subject: Re: dúvida – colchetes e pontuação

Bia,

Nesse caso, se no original não há ponto, costumo manter sem ponto, já que não sabemos se no trecho citado o ponto está antes ou depois de “pena”.

Ou seja, o [...] indica a supressão do ponto, também.

Nos casos em que há possibilidade de checar, aí sim costumo botar o ponto onde ele existe realmente.

E escreva quando quiser, não é incômodo nenhum; se eu puder te ajudar, será ótimo.

Beijo,

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(Um colaborador vem almoçar com um colega. Nos vimos uma vez só, mas trocamos muitos e-mails de trabalho)

Oi, Mariana. Quer dizer, Júlia! Desculpa, é que conheço uma Mariana que também é judia.

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(Entro no elevador com um companheiro de labuta, que reclama de seus atrasos; estou tentando acalmá-lo, sem perceber que a nossa diretora de produção adentrou o mesmo recinto)

Calma, André. A programação não é tão importante assim.

Ah tá, vou pensar assim também a partir de hoje. (Comentário da diretora, responsável por toda a logística da editora)

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(Começo de tarde, na sala dos meus colegas da produção, equipe Letrinhas)

O que você acha dessa capa?

Você clareou o laranja, né?

Não, na verdade ficou mais escuro, pra não confundir com o bege da cara do personagem.

Ué, mas olha essa prova aqui no computador, tá bem mais escuro aqui.

Esquece o monitor. Exercício de abstração, por favor!

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(No caminho de volta à minha mesa, 14h50)

Marie, tô escrevendo um texto sobre o meu dia aqui, estilo bastidores, pro blog. Se você lembrar de alguma história interessante…

Vixe, não lembro de nada, tenho nove livros em agosto. É só disso que eu lembro. (E imediatamente cola os olhos de volta na prova aberta à sua frente)

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(Toca o telefone, corro pra mesa)

Alô.

Alô, por favor, o setor de produção de livros infantis?

Sou eu.

Então, fiz um livrinho e meus filhos adoraram. Vai ser um sucesso. Mas preciso publicar em dois meses no máximo porque vou para os Estados Unidos no começo de setembro e pretendo divulgar o livro no programa da Oprah.

Puxa, sinto muito, mas infelizmente a edição de um livro infantil leva necessariamente mais de dois meses.

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(O Renan vem até a minha mesa)

Júlia, desculpa te encher, mas preciso urgente daquela frase sobre o jogo.

Mil desculpas, que tal: “Acompanha o livro tal e não pode ser vendido separadamente”?

Legal, me manda por arquivo eletrônico, por favor? Vou aplicar e te mostro. Obrigado.

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(Na sala da produção, às 15h30)

Fabi, precisamos encomendar um projeto gráfico novo para esta coleção. Quem sabe alguma coisa mais pro moderno, que associe os heróis gregos aos super-heróis.

Mas a gente comprou as ilustrações originais, já pagamos e até já recebemos.

P.q.p.! Que mancada a minha, esse projeto dos franceses não tem nada a ver com a gente. Tem que dar pra voltar atrás, vou lá na Ana agora.

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(Ainda na sala da produção, toca o telefone em uma das mesas)

Liga mais tarde, seu dom João, a Gisela não tá na mesa. (É o bisneto do d. João mesmo, também conhecido como d. Joãozinho)

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(Na sala do editorial, às 16h15)

Pessoal, é “a ponto” ou “ao ponto”?

É só trocar por “prestes a”. Lembra da seguinte frase que você não erra mais: “estive a ponto de me jogar, mas não ao ponto de me matar”.

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(Outro e-mail)

júlia

a geane me passou o pdf. já vi e está tudo mais que certo. acho que o errinho que eu tinha pegado da outra vez foi corrigido.

mas escrevo é pra agradecer esse tratamento que vocês deram pro meu livro. fiquei comovido — vocês foram adoráveis. muito obrigado.

e as ilustrações ficaram geniais! por favor, diga isso isso pra marcela. diga que da próxima vez tentarei escrever um livro à altura do trabalho dela.

um beijo,

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(Final de tarde, momento ideal para o “papinho”)

E aí, como foi a limpeza de pele?

Muito cara, mas ela passa milhões de cremes e produtos mil.

Ela te espremeu?

Muito, não tô parecendo um pijama de bolinhas?

Mas ela te colocou naquele bafinho?

Que bafinho?

É que antes de espremer ela coloca uma loção X e te deixa uns trinta minutos com um vapor na cara, assim shhhhhhhhhhhh.

Adoro trabalhar aqui. (Declaração do único colega do sexo masculino presente na sala no momento)

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Vou pra casa, enfrentar as tarefas familiares e — não, ainda não acabou a minha vida de editora — uma certa pilha no meu criado-mudo.

Boa noite e até a minha próxima segunda.

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Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.

O primo pobre

Por Júlia Moritz Schwarcz

(Foto por Joe Thorn)

“Conto histórias para meus filhos de noite e resolvi escrever um livrinho”, “Escrevi uma historinha bonitinha”, “Meu filho adora ler e eu o incentivei a escrever seu livrinho”, “Escrevi uma coisinha, acho que dá um livro pra crianças”… Quanto diminutivo dado à metonímia no mundo dos livros infantis!

Engraçado como as pessoas acreditam, mesmo sem perceber, que a literatura para crianças é o primo pobre, como se o importante mesmo fosse o conteúdo — uma história simplória, para que os pequenos a compreendam em sua totalidade, com algum ensinamento e uma bela moral, de preferência. A forma, ah isso é coisa do mundo das letras e passa longe. O importante é ter cuidado com a clareza, nada de palavras “complicadas”, que escapem ao universo infantil.

Pois não existe engano maior. Claro que carreguei nas tintas e assim fica fácil criticar esse tipo de visão ou postura, mas juro que, tirados os exageros, essa é uma visão corrente, com a qual lido o tempo inteiro no meu dia a dia. Mesmo pessoas que trabalham com livros acabam olhando para o setor infantojuvenil com um empenho menor, talvez porque por um lado as vendas ainda tenham uma escala inferior (apesar das mudanças que as compras estaduais e federais vêm trazendo e sobre as quais falo logo em seguida), mas também porque a enxergam como uma literatura de muito menos prestígio.

Janus Korjak tem uma frase boa, ele disse que a criança não é “um vir a ser”, ela já é — assim como os livros que gosta de ler. Se forem pautados pela falta, pelo menos, pelo pouco, não vingam. Ao contrário, não se engana o leitor mirim apenas deflacionando o argumento, o texto e o que mais for.

Essa é uma discussão que tem ganhado novo alento desde que o gênero se afirmou, primeiro fora e agora também no Brasil. Assim como a importância dos números dessa fatia do mercado editorial. Isso porque livro infantil sempre vendeu por aqui, sobretudo quando adotado por escolas, porém mais contemporaneamente a coisa ficou séria, com a consolidação dos planos de governo. Essa é praticamente uma novidade, uma vez que surgiu, entre nós, nos anos 1990, revolucionando a vida das editoras infantojuvenis (e também de suas linhas para adultos).

Mas isso é tema para outra coluna, queria mesmo era chamar a atenção para essa falta de cuidado com a forma, com o apuro estético dos textos produzidos para as crianças. Não basta ter uma ideia bonitinha nem mesmo uma historinha interessante, é preciso ser escritor para fazer um livro infantil. E, mesmo no caso dos autores já consagrados, se você for perguntar a eles, tenho certeza de que vão dizer que não é imediato ou mais simples escrever para leitores mirins. Temos tentado incentivar autores da Companhia a encarar livros para crianças, mas não só a reação é forte como demanda claro esforço. Em vez de encontrarem uma ponte natural, só se dá bem quem percebe que é necessário inventar uma nova linguagem e fugir dos modelos consagrados para a literatura de adultos.

Tatiana Belinky é, na minha opinião, um dos grandes exemplos de uma autora que escreve para as crianças e que as conhece e entende muito bem. Além de ser uma das pessoas mais cultas, inteligentes e de bom coração que já conheci. Ela sempre diz que é preciso respeitar a inteligência das crianças, enfatizando que elas não são nada bobinhas. Na verdade, como editora, percebo que tudo acontece mesmo ao contrário. Não raro sou alertada por um desses leitores sobre erros na ilustração, frases contraditórias, personagens fora do eixo. Por essas e por outras, Tatiana me serve de guia, assim como tantos outros autores, todos queridos, que me ensinam um pouco mais a cada livro.

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Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.

Como devorar um livro

Por Júlia Moritz Schwarcz


Dizem que filhos são bons para pensar; no meu caso, servem, ainda por cima, na hora em que tenho que escrever algum texto sobre literatura infantil para o blog da Companhia. Já estava me sentindo uma jornalista em crise de abstinência de pauta quando, milagre!, chego em casa e encontro a Alice — um ano de idade, minha mais nova — mastigando um livro. Nada que tenha me preocupado: na verdade ela adora comer papel higiênico, sabão nem se fala. Sem fazer alarde, peguei ela no colo e tasquei-lhe um beijo, feliz com a ideia que tive.

Pois um assunto com o qual tenho encasquetado no meu dia a dia como editora é o dos livros-brinquedo, questão inflacionada com a chegada dos e-books. Só este ano, já respondi a umas cinco entrevistas sobre os tais livros-brinquedo — aqueles que vêm com dobraduras que saltam das páginas, puxadores mágicos e botões sonoros —, o que não só me obrigou a formar uma opinião a respeito deles como me fez perceber o seu crescimento no mercado de livros infantis.

Se você tem filhos, sobrinhos, netos, etc. e costuma levá-los à livraria, sabe do que estou falando. Geralmente paramentados com capa dura, enfeites mil e em formato grande, esses volumes são vistosos e bonitos, levando jeito para enfeitar as alas infantis das livrarias, sempre lotadas deles. E claro que têm o seu mérito: talvez a interatividade que oferecem atraia mais diretamente as crianças.

De fato, o livro é um grande brinquedo na mão de um “leitor mirim”. Desde o primeiro ano de vida, as crianças se interessam e se entretêm com ilustrações coloridas, de bichos, pessoas, objetos ou formas, mesmo que a narrativa seja simples e praticamente guiada pelos desenhos. Os livros são por si só um objeto lúdico, seja por conterem os pop-ups e sons acionados por botões, seja por nos levarem para um mundo não-cotidiano, de histórias cheias de surpresas e imprevistos, que divertem, causam medo, emocionam.

Não sou contra essa relação lúdica e prazerosa que pode se estabelecer entre o pequeno leitor e seu livro, tenha ele a forma que for. Minhas filhas adoram os livros-brinquedo, leem, brincam e aprendem muito com eles. Mas uma coisa não me sai da cabeça: aquele velho truque de misturar a verdura no feijão, para que a criança coma sem perceber. Acho que, com a melhor das intenções, alguns pais podem muitas vezes se interessar prioritariamente por livros assim, com cara de brinquedo, e fazer com que as crianças acabem batendo na trave no momento em que estariam mantendo um primeiro contato com a literatura. O que preocupa é o lugar que esses livros estão tomando: o da literatura, dos livros de histórias, que vêm acompanhadas apenas de belas ilustrações e que não só priorizam a narrativa e apresentam a linguagem literária às crianças como, de certa maneira, estimulam mais livremente a imaginação.

Com os livros eletrônicos, então, que tendem a multiplicar as possibilidades de leitura mas podem muito bem transformar livros em joguinhos, fico um pouco encasquetada também. Não quero parecer ranzinza e arcaica — seria uma besteira completa pensar mal da interatividade oferecida pelo iPad, por exemplo — mas nada como o bom e velho papel, com cheiro, mancha e um gosto, para alguns, delicioso.

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Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.

É o amor

Por Júlia Moritz Schwarcz

Outro dia chego em casa e encontro a Filó e a Kelé, duas “filhas” da minha filha Maria Isabel, abraçadas, de nó de braço, num canto. Até aí tudo normal, em se tratando de um quarto de uma menininha de três anos. Preciso que me acompanhem em meus afazeres domésticos para entender o que de realmente novo e notável aconteceu na minha casa.

Enquanto eu preparava o jantar, vejo a Zizi (como é conhecida a Maria Isabel) rodopiando com as duas numa dança romântica — “liri, liri, isso é o amor” —, na saída do banho foi a hora dos beijos e abraços e, um pouco mais tarde, quando as badaladas marcaram o momento de ir dormir, as duas finalmente se casaram e ganharam a sua cama, muito aconchegante, preparada com os panos mais especiais da caixa de panos da minha filha: era a lua de mel. Não é que a Zizi tenha apenas bonecas do “sexo” feminino, estão lá o Palhaço, o André e o Tião para equilibrar a brincadeira, matar os dragões e também dançar balé e fazer comidinha.

Quando chegou a minha hora de tomar banho e jantar, me peguei matutando, feliz com a simplicidade do amor e das relações de gênero na vida da minha filha. Mas, se por um lado tudo pode ser mais simples por enquanto, é claro que, por outro, ela já se depara com as questões da vida real, sempre mais complicadas: por que as tias solteironas não acharam o seu príncipe encantado, por que os pais da minha amiga Clara não moram juntos e por que aquele menino tem dois pais e apenas uma mãe.

Não sou psicóloga nem pedagoga, mas confio no meu bom senso e… trabalho com livros infantis! Maravilha, nada como buscar neles um sinal dessa nova disposição social que vivemos, marcada por agrupamentos familiares que seriam bastante inusitados até pouco tempo. Para a minha sorte, um dia recebi um livro lindo, muito especial, sobre esse tema. E para a sorte de vocês, leitores, ele sai este mês.

Não se trata de fazer propaganda (apesar de parecer!), mas principalmente de falar de um tema que me parece presente tanto no dia a dia da minha filha quanto no mundo dos livros infantis — há bem mais de um título saído do forno sobre crianças e seus pais gays. Olívia tem dois papais narra um dia na vida dessa menina que, além de muito esperta — ligada em palavras, que ela sabe usar muito bem para conseguir o que quer —, vive com seus dois pais, Raul e Luís, que a adotaram pequenininha.

A casa da Olívia é uma casa como a minha, por exemplo, com pais que trabalham, cozinham e brincam com a filha, que por sua vez tem suas bonecas apaixonadas, que se abraçam e rodopiam de amor. Nada mais natural.

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Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.