Luiz Schwarcz

Os corredores da Brasiliense

Por Luiz Schwarcz


Passeata pelas Diretas Já. Abaixo: capa de uma das edições da Leia Livros.

Um dos segredos do sucesso da Brasiliense veio do ambiente que se formou em torno do jornal Leia livros. Por uma curiosa coincidência, a primeira reunião do jornal aconteceu no mesmo dia que tive minha primeira entrevista com o Caio Graco em busca de um estágio na editora. Caio me deixou esperando por umas duas ou três horas. Pensei em ir embora. Valeu a paciência. As desculpas foram efusivas; o novo jornal que tanto o entusiasmava era causa mais que justa.

O Leia, comandado por Cláudio Abramo, que pouco vinha à redação, e por Caio Túlio Costa, possuía um grupo de colaboradores fixos da mesma geração do Caio Túlio, entre os quais Matinas Suzuki Jr, Mario Sérgio Conti e Rodrigo Naves. O mesmo grupo, pouco tempo depois, assumiria postos importantes na Folha de S.Paulo e mudaria o jornalismo feito no Brasil, sob o comando de Otavio Frias Filho. Antes disto, esses mesmos rapazes destacaram-se como líderes no movimento estudantil que então se rebelava contra a ditadura, atuando no grupo conhecido como Libelu.
.
Eu, de um perfil mais retraído, participei mais moderadamente do movimento estudantil na FGV. Minha simpatia em termos da política estudantil ficava com o grupo rival, Refazendo, que tinha tendência socialista, enquanto a Libelu era trotskista.
.
Os dois grupos se uniram contra a ditadura e saíram juntos às ruas munidos de bolas de gude, para que os soldados da cavalaria não nos alcançassem. Alguns levaram bordoadas. Poucos foram presos. Acho que foi só. Mas a agitação política que surgiu a partir do movimento dos jovens estudantes foi significativa. Pode ser colocada ao lado de tantos outros movimentos sociais que contribuíram para a democratização do país. Caio Graco acompanhava de perto esse contexto, tirando dele ideias editorias, como a coleção Primeiros Passos, e ideias políticas, como o “use amarelo pelas Diretas”. Caio, pelo que sei, não foi um estudante promissor em seu tempo, mas tinha como projeto de vida manter-se ao lado dos jovens, o que conseguiu plenamente.

A atividade que desempenhei no centro acadêmico da FGV, organizando palestras e cursos, além do trabalho que exercia como monitor do departamento de ciências sociais, me aproximaram de Eduardo Suplicy — na época um professor carismático, que enfrentava a direção da mesma escola com sede no Rio, contrária a qualquer manifestação política por parte de alunos ou docentes. O próprio Suplicy acabaria me indicando a Caio Graco para um estágio na Brasiliense, como já contei em outro post.

Assim, aportar na rua Barão de Itapetininga em pleno dia de inauguração do Leia livros, e conviver com este grupo de ex “antagonistas” no movimento estudantil, teve um significado muito grande em minha formação profissional.

Já como estagiário na Brasiliense eu almoçava com Caio Túlio quase todos os dias, e com Matinas e Rodrigo quando os dois passavam por lá. Sabia quem resenharia os livros lançados por todas as editoras, e palpitava de vez em quando. Arrisquei algumas resenhas, das quais mal me lembro. É importante dizer que esses líderes da Libelu, além da participação muito mais significativa no movimento estudantil, tinham também uma formação intelectual muito sólida, bastante superior à minha. Eu os conhecia de nome, ou por atuação em jornais alternativos que lia com afinco. Na ocasião, era apenas um aluno aplicado da GV com discreta atuação no centro acadêmico da faculdade.

Conheci Matinas Suzuki na FGV, através de amigos em comum. O principal deles era Gilberto Vasconcelos, um proeminente sociólogo que estudava do Integralismo à Tropicália, com verve Glauber-Rochiana. Giba acabaria por se transformar em colunista da Folha, onde passaria a usar a mesma sintaxe do grande cineasta que o antecedera no espaço daquele jornal.

Lembro que, anos depois, Gilberto declarou numa entrevista, com seu tradicional ar de deboche, que os seus alunos prediletos, que com ele aprenderam as teorias da Escola de Frankfurt, haviam, com o tempo, assumido postos de direção na indústria cultural brasileira. Os alvos da crítica eram principalmente o Matinas e, em menor escala, este que vos fala. Matinas  tinha se tornado editor-executivo da Folha de S. Paulo, sucedendo a Caio Túlio Costa. Todos eles haviam saído do Leia, passado pela Ilustrada e chegado à direção do jornal. Mário Sérgio e Rodrigo dirigiram o Folhetim, suplemento dominical super sofisticado, que causou espanto em intelectuais como Roberto Calasso. Mário Sergio, que na época dirigia o Folhetim, seguiu longa carreira na Veja e ajudou a fundar a Piauí. Rodrigo abandonou o jornalismo, transformando-se no mais importante crítico de arte do Brasil.

Foi no ambiente desta nova Brasiliense que surgiram as coleções de bolso, como a Primeiros Passos — sob a liderança visionária do Caio Graco. Maria Emília Bender e Marta Garcia, que são hoje respectivamente publisher e editora da Companhia das Letras, começaram a carreira também nesse contexto, sob minha liderança. Pelos anos de convivência comigo, e por terem me ajudado a fazer da Companhia da Letras uma boa editora, ela são verdadeiras santas à espera da merecida beatificação. As duas iniciaram suas carreiras na área da divulgação de imprensa e se tornaram editoras de destaque no panorama editorial brasileiro.

Noutra crônica, quem sabe na semana que vem, contarei um pouco mais sobre os saguões e corredores da Brasiliense; dos tipos que ali grassavam, e de como aprendi e sorvi tudo o que acontecia por lá, para tentar depois me aventurar na carreira de editor ao lado do Caio, e em carreira solo.

Hoje celebro com alegria o fato de Matinas Suzuki Jr. dirigir a Companhia das Letras, junto comigo e com meus outros colegas da diretoria. Convidado por mim para um trabalho de meio período, quando assinamos o contrato de parceria com a Penguin para a edição dos clássicos no Brasil, fomos ampliando a nossa parceria até que ele chegasse à direção executiva da editora.

Sempre que podemos saímos para almoçar com os jovens editores da Companhia, como Caio Graco fazia conosco. Nessas ocasiões, os entupimos de histórias dos bastidores da imprensa e do meio editorial nos anos 1970, 80 e 90,  décadas do apogeu dessa nossa geração que começou no movimento estudantil — de maneiras e com intensidades diversas — e chegou a postos de direção no jornalismo, no mercado editorial e na vida intelectual e política do país.

Sem ter passado pelos corredores da Brasiliense, convivido com Caio Graco e, no caso dos jornalistas também com Cláudio Abramo, certamente a história teria sido outra. Além disso, seriam menos divertidas as nossas memórias, que exercitamos com uma certa nostalgia sempre que um jovem curioso senta-se ao nosso lado e conjuga um verbo no passado, seguido de um ponto de interrogação.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

O mapa astral

Por Luiz Schwarcz

Há mais de vinte e cinco anos, não sei por que cargas d’água, resolvi consultar uma astróloga. Já era moda fazer o próprio mapa astral, e eu, por sugestão do Caio Graco, apesar de totalmente incrédulo, fui perscrutar o futuro que os astros reservavam para mim. Entendi que no pacote a especialista incluiria um breve painel sobre a minha personalidade, sem precisar me conhecer, apenas com a informação do dia e horário em que nasci, que deveria ser enviada previamente.

Na época, eu era fanático pelo meu trabalho na Brasiliense, chegava em casa com a cabeça nos livros que começava a editar, e muitas vezes, enquanto os outros conversavam comigo, eu tentava dar conta de dois assuntos ao mesmo tempo: o falado e o que ocupava a minha mente. Estava sempre preocupado com as minhas obrigações profissionais e com os próximos passos da carreira que se abriam à minha frente. Eu não gostava de viajar, a não ser para as mesmas cidades — de preferência onde havia muitas livrarias, e concertos de todos os tipos: rock, jazz e música clássica. Londres e Nova York eram meus destinos favoritos, principalmente porque eu falava inglês com certa fluência, mesmo que cometendo os erros gramaticais típicos de um filho de húngaro. A inabilidade para aprender línguas é mais típica dos cidadãos da Hungria do que o goulash ou a música cigana, e certamente é hereditária.

Pois bem, a verdade é que a minha consulta não durou muito. Logo depois de feitas as apresentações, confirmado o dia e horário em que nasci, e tecidas algumas considerações iniciais, a dita cuja astróloga se saiu com a seguinte pérola, que nunca pude esquecer:

— Os astros me dizem que você, Luiz, é uma pessoa que só se realiza quando está viajando.

A frase foi suficiente para que eu não me sentisse obrigado a seguir o ritual até o final. Com a impaciência que a juventude me franqueava, levantei-me na hora, agradeci a oportunidade de conhecer a digníssima senhora, paguei a sessão e saí do recinto sem mais delongas. De fato, nada parecia mais inadequado para definir minha personalidade naquele momento do que tal informação. Eram tempos em que eu costumava dizer, na cara dura, que não tinha o menor interesse por conhecer cidades, que me satisfazia plenamente em ir apenas aos lugares para onde era levado por conta dos livros e discos. Na detestável terminologia das companhias áreas eu era um frequent flyer, mas só de roteiros literários, musicais ou mesmo intelectuais. Que vergonha! Não que não seja válido alguém ter esse tipo de preferência por trajetos imaginários. Mas a forma com que isso se elaborava dentro de mim era auto-centrada, auto-suficiente e arrogante ao extremo — como só um garoto numa tremenda ego-trip poderia se permitir.

Alguns anos se passaram e as coisas, por sorte, mudaram. Como temos que ir para Frankfurt todo ano, em outubro, Lili e eu criamos o costume de tirar uma semana de férias logo em seguida — escolhendo sempre um destino desconhecido e diferente. Com isso, aliávamos o necessário respiro mental após dias de trabalho tão intensos, ao prazer de ficarmos longe de tudo e de todos. Comecei a tomar gosto, e com os filhos crescidos passei a viajar mais e mais, incluindo a Júlia e o Pedro em longas férias de verão, em geral no Brasil mas também no exterior. Minhas temporadas fora do escritório eram compridas, e em todas elas eu me sentia cheio de felicidade. Conseguia me desligar da editora e mesmo assim me realizar plenamente.

Numa dessas viagens lembrei-me com boa dose de autocrítica da minha saída intempestiva do consultório da astróloga. Mesmo assim não passei a acreditar muito em mapas astrais, mas o remorso de minha atitude arrogante aumentava a cada viagem que realizava com imenso prazer. Algum tempo depois, numa conversa com minha mãe, soube por acaso que eu informara a hora errada de meu nascimento para a pobre profissional. Passei a achar que a  astróloga era na verdade uma vidente e tanto, capaz de antever um traço da minha personalidade ainda inexistente, ou uma cientista de primeira, que fora apenas mal informada pelo jovem impaciente que a consultou.

Lembro dessa história sem muita importância ao finalizar mais uma exaustiva viagem de trabalho. Fui à feira de Londres, e depois a Nova York, saindo por uns dias para um congresso de editores da Penguin em Charleston, onde mal tive tempo de conhecer essa cidade histórica, na qual a guerra civil americana teve início. Foram três dias de discussões sobre livros digitais, tendências do mercado, técnicas de marketing editorial, sensibilidade do consumidor frente à mudança de preços — enfim, sobre os mais diferentes temas ligados à produção e à comercialização de livros.

Nesses dias pensei, com melancolia, que, depois de anos em que aproveitei com grande alegria qualquer oportunidade para conhecer uma nova localidade e sua cultura, voltei novamente ao meu costume original: tenho viajado basicamente por motivos profissionais. Ano passado bati todos os recordes. Durante minhas negociações com a Penguin, fiz inúmeras viagens em que ficava mais no avião do que no meu destino final.

Sinto falta dos dias de descanso depois de Frankfurt, já que recentemente, mesmo nos anos em que pude me ausentar do trabalho, passei a usar meu tempo vago buscando perscrutar maestros para a Osesp — um dos afazeres mais complexos da minha vida, ao qual fui levado por uma série de fatores inesperados e infelizes.

Com a maestrina Marin Alsop escolhida pelo grupo de trabalho que coordenei, não preciso mais encaminhar minhas viagens para o lado musical. Mesmo assim, ainda não voltei a me soltar como turista. Foi isso que me veio à mente ao passear pelas ruas de Charleston, nas duas horas livres que tive, durante os três dias em que estive por lá. Senti saudades dos tempos em que me dispunha a conhecer cidades novas, com espaço mental e tempo relaxado para o exercício de tal privilégio.

Tenho certeza de que a música e os livros continuarão sendo meus grandes guias turísticos. Mas preciso ir a lugares em que meus referenciais se diluam em meio a uma nova paisagem, para os quais eu vá sem nenhuma meta fixa além do prazer da descoberta.

Assim espero que minha próxima viagem seja digna das conclusões da saudosa astróloga, a quem, sem lembrar do nome ou das feições, presto uma pequena homenagem com essa crônica, dedicando a ela a expressão final: Oxalá!

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

O palco das diferenças

Por Luiz Schwarcz


Sanatório abandonado nos Alpes suíços (Foto por Felix Schönberg)

No ano passado, nesta mesma época, escrevi daqui de Londres um texto  indignado, contra as feiras de livro. Aquele post continua válido — a urgência em comprar direitos de novos títulos e a pressão para tomar as decisões quase sem ler os originais só se agravam com o tempo. No entanto, num aspecto curioso, essa feira foi para mim um pouco diferente.

Ao contrário de Frankfurt, aqui no pavilhão de Earls Court os espaços são curtos, e as reuniões se dão, em sua maioria, num grande salão onde ficam os agentes internacionais. Não é necessário correr de um lado para o outro a cada encontro, usualmente de meia hora. Como eu não suporto ouvir descrições de livros, especialmente de ficção —  já que, na literatura, o que mais importa é a forma de narrar e não necessariamente o enredo —, inúmeras vezes minhas reuniões com alguns agentes ocupam apenas metade dos trinta minutos disponíveis. O tédio que sinto quando alguém tenta me vender um livro é tão patente que cheguei à conclusão de que, muitas vezes, minha atuação nas feiras  chega a ser contraproducente para a editora. Neste ano vim acompanhado da Ana Paula* e do Matinas**, deixando com eles os agentes mais vendedores. Ficaram comigo os menos tagarelas e os editores mais amigos. Hoje, minha disposição também é outra. Sinto-me menos cansado dos aspectos mais irritantes da profissão, venho cheio de novidades para contar e mais disposto a ouvir e aprender. Assim, dessa vez, minhas reuniões não acabaram tão rápido e não fiquei andando a esmo pelos corredores, ou sentado nos cantos do salão esperando passarem os outros quinze minutos que costumeiramente sobram.

Esse pequeno detalhe, do tempo que tarda a ficar para trás, me fez lembrar de uma passagem de A montanha mágica, de Thomas Mann, um dos livros que mais marcou minha vida. Escrevo sem acesso ao texto, assim peço que relevem se a memória tiver colhido as frases e as guardado com a imprecisão que me é costumeira…

Logo no início do livro,  Mann inverte o ditado popular que diz que o tempo, quando vazio, parece custar a passar, e que as coisas boas, ao contrário, escapam da nossa percepção tão rapidamente que parecem mal ter acontecido. Para o autor, se me lembro bem, o tempo, quando transformado em memória, funciona de maneira oposta. Uma vida plena, emocionante, deixa a impressão de ter demorado a passar. Cada momento vivido ganha um significado, ocupa um espaço. O mesmo não vale para uma vida vazia, que, na lembrança, parece  ter corrido sem deixar vestígios… A passagem onde essa reflexão aparece é um primor. Não consigo, obviamente, reproduzir sua beleza com minhas próprias palavras.

Seduzido pela qualidade da escritura, pensei, por anos a fio, que concordava com a percepção de Mann ou de seu narrador. Curiosamente, ao escrever essa crônica, sinto que as ideias do escritor funcionam mais por seu valor estético do que por outro motivo qualquer. Ou, talvez, elas sejam válidas para Hans Castorp e não mais para mim.

Cada um tem as madeleines que merece, e as minhas, agora, não são doces nem amargas, são impalpáveis como os quinze minutos que não sobraram mais este ano, como as reuniões que não custaram tanto a passar.

Na faculdade tive um excelente professor, chamado Laymert Garcia dos Santos, que contribuiu para mudar minha forma de ser e pensar. Com ele aprendi a juntar razão com liberdade. Suas aulas versavam, entre outras coisas, sobre o papel do tempo. Desenvolvemos uma amizade duradoura e frequentamos juntos um grupo de leitura de O capital, comandado por outro professor da FGV, Yoshiaki Nakano.

Nas aulas do Laymert, fascinado, eu misturava o filósofo Paul Virilio com o escritor Thomas Mann. Não tenho mais o envolvimento e a argúcia intelectual que aquelas leituras e discussões despertavam em mim. Só me pergunto hoje por que sempre dei tanta importância a este tema — nas aulas do meu admirado mestre sobre teorias tão sofisticadas, ou com a feira de Londres encerrada, ao perceber que, dessa vez, o tempo voou.

Arrisco uma explicação saltando da Feira do Livro para as aulas da FGV e agora para minha infância. Quando pequeno, eu passava horas olhando pela janela, observando os meninos da rua que jogavam futebol descalços, chutando uma bola velha que ia perdendo seus surrados gomos de couro a cada partida. Por vezes notava que o jogo seguia com uma bola de meia — sinal de que o último gomo se esvaíra de vez. Envergonhado por conta da diferença social que nos afastava, eu não tinha coragem de descer. Pouco importava que fosse até bom de bola — eu só sabia jogar calçando meus melhores tênis de couro. Olhava para o terreno baldio que ficava do lado do meu prédio e atirava bombons para interromper as partidas, me escondendo em seguida, por trás das cortinas. De lá, via os meninos da rua olharem para os céus, tentando entender de onde caíam aqueles bombons voadores. É claro que tudo o que eu mais queria era estar lá embaixo, junto dos amigos que, sem conhecer, idealizava.

Transformei tudo isso num conto, que faz parte do meu livro Discurso sobre o capim. Me fez um bem danado quando consegui escrever sobre aquelas tardes à janela. Elas eram tão vazias que até hoje sinto o quanto custavam para acabar. Por isso, talvez, o tempo ainda me atrai como tema, nunca tendo sido para mim — nem mesmo quando transformado em memória — parecido com a descrição de Thomas Mann.

Quer isso dizer que vida e literatura nem sempre andam juntas? Ou que o narrador de Thomas Mann está enganado? Não necessariamente. A passagem do tempo é algo difícil de apreender. Entendo melhor suas marcas tendo lido A montanha mágica. A ficção, entre tantas artes, é palco privilegiado para o exercício das diferenças. No entanto, tendemos a achar que um texto é bom quando concordamos com ele, ou quando nos identificamos com seu narrador. Na realidade, tanto melhor é A montanha mágica quanto mais diferente de Hans Canstorp nos sentirmos. Pensamos como ele, e depois depuramos e voltamos para as nossas ideias. Na voz de uma personagem não há certezas. Além disso, não há ditado popular ou verdade tão arraigada que resista plenamente a um bom escritor.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

Saudades de Susan Sontag

Por Luiz Schwarcz

A minha semana foi marcada por dois fatos aparentemente desconexos: a polêmica de Roberto Schwarz e Caetano Veloso, e a visita ao Brasil de David Rieff, o filho de Susan Sontag, que nunca havia tido a oportunidade de encontrar.

Martinha versus Lucrécia, o livro de ensaios de Roberto Schwarz que acabamos de lançar, contém um ensaio sobre o livro de memórias de Caetano, Verdade tropical, publicado também por nós em 1997. O texto de Schwarz valoriza literariamente a obra de Caetano, dedicando ao livro enorme esforço crítico. No entanto, suas divergências com relação ao papel do tropicalismo durante o regime militar, transpostas agora para a análise das memórias do compositor, são substanciais. O atual debate entre as ideias de Caetano e Schwarz dá prosseguimento à posturas opostas, surgidas no calor da hora, no final da década de 1960. Nesse caso, os anos parecem tê-las aprofundado ainda mais.

Escrevo este post no sábado, novamente no aeroporto, sem ter lido parte da discussão, que deverá ser publicada no caderno Ilustríssima da Folha de S.Paulo, neste domingo. Caetano, em entrevista para O Globo, reagiu com muita sobriedade, respondendo firme mas elegantemente — mantendo o mesmo tom do ensaio de Schwarz — a respeito de sua obra. Para mim foi um alívio. Em outras ocasiões em que autores amigos travaram polêmica, a conversa foi muito mais agressiva, e eu, tradicionalmente de boa paz, me senti no pior dos mundos. Sempre deixei claro que a editora não se prestaria a publicar ataques pessoais a outros autores da casa, mas que estava sempre aberta ao debate — de bom nível — de ideias. No entanto, nossa postura nem sempre foi compreendida, seja por quem teve livros recusados, seja por autores que estiveram no alvo de textos críticos, esperando de mim algum tipo de posicionamento mais pessoal.

* * * * *

Conhecer o filho de Susan Sontag foi uma emoção. Logo no primeiro momento, identifiquei em David Rieff muitos traços de sua mãe: o amor pela literatura internacional, a vontade de conhecer mundos novos, o prazer gastronômico. Logo que nos encontramos, em vez de deixá-lo falar sobre os motivos que o trouxeram a São Paulo, fui logo contando histórias de Sontag no Brasil. Emendei comentando meus poucos encontros com ela em Nova York, tentando lembrar dos seus lugares favoritos — como um restaurante de Soba no Village, cujo dono fazia arranjos florais sublimes para as mesas. Contei a David que tentei voltar ao local, depois da morte de Susan, mas o restaurante havia fechado. Talvez tenha sido melhor assim, pois guardo na memória aquelas flores brancas e a massa deliciosa, feita artesanalmente, associadas às lembranças de minha amiga. David sabia da amizade que eu tinha com sua mãe, mas não fazia ideia de que ela planejara viver em São Paulo, por seis meses, para dirigir o Parsifal de Wagner, no Teatro Municipal. Também não conhecia detalhes curiosos da estada de Susan no Brasil, parte dos quais relatei num dos primeiros textos deste blog.

Levei David e sua namorada, com a Lili, para jantar num dos melhores restaurantes japoneses de São Paulo. Em sua temporada paulista, Susan gostou muito da comida japonesa local — segundo ela, a melhor que provou, depois da de Tóquio. Em seguida fomos a um concerto da Osesp. Todo o programa seguia um ritual para matar as saudades de Susan Sontag, e a música clássica sempre havia sido uma das grandes paixões da autora de O amante do vulcão. Antes de começar o primeiro acorde do concerto de violoncelo de Dvorak , segurei no braço de David e disse:

— Que emoção trazê-lo para assistir a essa orquestra. Me dediquei um pouco a ela nos últimos anos. Sinto como se estivesse trazendo sua mãe para assistir ao concerto comigo.

No intervalo, contei a David sobre a polêmica entre os autores da Companhia das Letras e lembrei que justamente as duas pessoas que Sontag quis conhecer no Brasil foram Caetano Veloso e Roberto Schwarz.

Foi então que David me perguntou se eu sabia que o último espetáculo a que sua mãe assistiu foi um show de Caetano, em New Jersey. Os médicos já haviam diagnosticado a volta do câncer de Susan, e os prognósticos eram os piores. Naquelas condições, com baixíssima imunidade, ela não poderia sair, principalmente ir a eventos públicos, onde a chance de contaminação seria grande.

Susan insistiu com seu filho e disse:

— Nem que esse seja meu último concerto ou passeio, eu vou.

Em meio a uma troca de e-mails com Caetano, por conta dos episódios desta semana, mencionei que David estava no Brasil, e que me contara a história da ida de sua mãe ao espetáculo em New Jersey. Fui discreto, procurando não incomodar, e não propus um encontro entre os dois. Caetano reagiu prontamente. Sabia que Susan estava bem doente quando a viu pela última vez, e comentou com excessiva modéstia:

—É, ela estava muito mal quando foi ao show e ao jantar que se seguiu. Não sei por que, mas ela gostava de mim.

Em seguida, por iniciativa própria, me pediu para que David o procurasse no Rio.

Pelo visto, Caetano também sente saudades de Susan Sontag.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

A morte do pai

Por Luiz Schwarcz


André Schwarcz em sua festa de 70 anos.

Éramos quatro: Lili, eu e dois agentes literários muito amigos nossos: Raffaela de Angelis e Bill Clegg. Havíamos saído de um teatro na região do Times Square — vimos uma peça de Arthur Miller, A view from the bridge, com Scarlett Johansson — e ido jantar num pequeno restaurante italiano chamado Orso.

Ao entrarmos no pequeno salão notei que, numa mesa um pouco atrás da que nos indicaram, estava Phillip Roth, acompanhado de uma moça algumas décadas mais jovem do que ele. Mantenho contato pessoal com muitos dos autores que publico, mas nunca estive com Phillip Roth. Alimento um tipo de temor ou respeito redobrado pelo escritor de Homem comum, de maneira que jamais propus ao agente dele um encontro pessoal, algo que, de fato, nunca me passou pela cabeça. Sempre pensei que, cara a cara com Philip Roth, não saberia o que dizer. Agiria como uma fã dos Beatles ou Rolling Stones, em plenos anos 60, nos bastidores de um show. Juntaria os cotovelos ao meu quadril, numa contração de prazer, levantaria uma perna e gritaria de emoção, chacoalhando a cabeça. Só isso, talvez! Que vergonha!

Com um olhar apontei, discretamente, na direção daquele senhor careca, sentado tão perto de nós, sugerindo discretamente que meus amigos verificassem se eu não estava vendo uma miragem, e me garantissem que aquele era mesmo quem eu imaginava. Todos concordaram: tratava-se do autor de O complexo de Portnoy. Em seguida passamos a discutir se eu deveria ou não me apresentar e interromper a agradável conversa que Philip Roth entabulava com sua companheira de mesa. Eu relutava em ir falar com um autor que tanto reverencio e cuja reclusão sempre respeitei.

Lembrei-me de uma feira de Frankfurt quando, ainda como editor da Brasiliense, saí do coquetel da prestigiosa Editions du Seuil com Severo Sarduy — grande escritor e exilado cubano que coordenava uma coleção nessa editora — para ir a uma recepção da empresa alemã Bertelsmann, apenas para ver a Patricia Highsmith. Logo me perdi do meu colega naquela enorme recepção, e pouco depois, caminhando sozinho pelo salão, onde deviam estar bem mais de uma centena de pessoas, deparei-me com uma velhinha, também solitária, que andava curvada, de um lado para o outro, bufando sem parar. Animado por alguns coquetéis a mais, ingeridos de festa em festa, tomei coragem e me apresentei, sem a timidez habitual:

— Mrs. Highsmith, my name is Luiz Schwarcz, I am your brazilian publisher.

O resultado não poderia ter sido pior. Além de bufar, a velha senhora esticou os braços para o alto e, esbravejando, grunhiu na minha direção, encarando-me para que não houvesse dúvida de que o som que acompanhava aquele olhar profundo era dedicado à minha pessoa:

— Baaaahhhhh! — Um grunhido bem pouco literário foi o que ouvi da criadora de Ripley, um herói tão claramente sem caráter quanto a sugestão de sua autora de que eu zarpasse da sua frente naquele momento, antes que acontecesse algo ainda pior.

Em Nova York era diferente. Havíamos saído de uma peça e estávamos na região da Broadway, num dos pontos mais tradicionais da cidade para se jantar — o contexto perfeito para que eu me apresentasse ao mais americano de todos os escritores. Bill, Raffa e Lili insistiram para que eu fosse em frente, e afinal, Bill, o mais enfático, disse:

— Luiz, você vem editando a obra deste senhor consistentemente, ele não vai agir como Patricia Highsmith. Além de tudo, estamos num restaurante pequeno, nada parecido com a festa da Bertelsmann em Frankfurt. Num lugar público como este, uma admoestação daria capa do New York Times.

E lá fui eu, super sem jeito, temendo o pior, que não ocorreu. Philip foi simpático — afinal, ganhou pontos com sua acompanhante, que achou extremamente exótico ter sido interrompida, em pleno Times Square, por um reverente editor tupiniquim. Delicado, ele aparentemente demonstrou lembrar-se da minha existência, ou melhor, de que tinha um editor no Brasil, que agora passara a conhecer pessoalmente. Não entabulei mais conversa alguma, deixando o casal terminar tranquilamente seu jantar. Cumprimentamo-nos e, um pouco mais tarde, ao sair, Philip Roth acenou a todos da nossa mesa, gentilmente. Isso foi tudo. Não precisava de nada mais.

Lembrei-me desse episódio pois estou lendo Patrimônio, um livro de Roth publicado originalmente em 1991, e que acabamos de editar, em nova, e excelente, tradução de Jorio Dauster. Trata-se de uma obra prima. Literatura de não-ficção sobre Herman Roth, o pai do escritor, mais focada em seus últimos anos de vida; ou melhor, no seu caminho para a morte.

Ao ler Patrimônio lembrei muito de A invenção da solidão, um dos meus livros prediletos de Paul Auster, em que ele também traça um retrato do pai, a partir da sua morte repentina. Em contraposição ao pai de Roth, Samuel Auster, chamado no livro de “homem invisível”, marcou sua vida pela distância. Ele sempre foi um homem isolado, afastado dos filhos e da mulher, de quem se divorciou quando o escritor tinha apenas sete anos. Paul acaba descobrindo muito do passado de Samuel ao visitar o enorme casarão onde ele viveu, isolado, por mais de quinze anos. Os dois escritores conhecem seus pais, de fato, ao escreverem sobre eles, confrontados com a morte e a ausência. (Leia aqui dois trechos selecionados por mim.)

Na verdade, nunca imaginei que seria tão difícil aceitar a morte de meu pai, ocorrida há mais de cinco anos. Penso nele quase todos os dias. Conversamos mais agora na minha imaginação do que durante boa parte de nossa vida em comum. Com saudade, lamento cada momento que não vivi com ele. A alegria que não consegui lhe proporcionar plenamente, cada conversa que não tivemos, as bisnetas que ele não conheceu, o progresso da minha empresa, a maturidade que, acho, enfim adquiri. Por isso creio que no meu livro Linguagem de sinais a presença mais forte seja a dele. No conto “Pai” — onde, sem lembrar conscientemente de ter lido A invenção da solidão, e ainda sem ter lido Patrimônio — relatei, quase sem a ajuda da ficção, como foram os últimos dias da vida de André Schwarcz: como entendi tardiamente sua religiosidade e tentei cantar como ele na sinagoga, mesmo sem encontrar em mim o mesmo sentimento religioso que lhe era tão central.

Acho que meu último livro de contos tem meu pai em cada entrelinha. Seu silêncio perpassa todo o livro. André não se expressava muito bem, não era um homem culto. Os olhos falavam por ele, e era comum vê-los embargados: de alegria na festa de oitenta anos em minha casa, um ano antes de morrer, cantando canções ciganas húngaras; de tristeza e melancolia por fracassos em sua vida pessoal, ou pela culpa que sentia com relação à morte do seu pai. Meu avô Láios, de quem herdei o nome, morreu sozinho no campo de concentração depois de ter salvo André com um empurrão, fazendo-o saltar do trem e fugir de volta para Budapeste.

Disfarçadamente ou não, muito da minha parca literatura versa sobre meu pai, que pouco me falou de sua vida. E na última ideia que tive para um conto ele também estava presente.

Um dos costumes que surpreendentemente desenvolvi, após a morte de André, foi o de visitar o cemitério todos os anos, no dia de seu aniversário. Nunca imaginei que o faria, que precisaria ver seu túmulo anualmente, cantar-lhe o Kadish, e falar com ele quase cerimonialmente nessa data. Percebendo a importância que a visita tinha para mim, meus filhos e a Lili passaram a me acompanhar nas idas ao cemitério sempre que podem.

Num ano em que encontramos as portas fechadas bem no dia vinte de maio por conta de um feriado religioso, fiquei fulo, quase irascível, e ameacei pular o muro às escondidas dos seguranças. Fui dissuadido por meus filhos, munidos de toda a razão. Joguei então pedras para o alto, na direção do túmulo, uma vez que não pude seguir a tradição de colocá-las sob a lápide, como fazem os judeus ao visitar seus mortos. Na última vez em que lá estivemos, no ano passado, ao chegarmos no local encontramos três pedras já colocadas sobre a túmulo do André. Júlia, Pedro e eu trocamos olhares, compartilhando uma indagação comum: quem teria visitado meu pai antes de nós? Toda uma história imaginária sobre o passado do homem que pouco falava, e cuja história de vida acho que conheci apenas superficialmente, passou pela minha cabeça, enquanto meus filhos olhavam para mim e a Júlia dizia:

— Isso parece um conto seu, pai.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.