Por Luiz Schwarcz

Passeata pelas Diretas Já. Abaixo: capa de uma das edições da Leia Livros.
Um dos segredos do sucesso da Brasiliense veio do ambiente que se formou em torno do jornal Leia livros. Por uma curiosa coincidência, a primeira reunião do jornal aconteceu no mesmo dia que tive minha primeira entrevista com o Caio Graco em busca de um estágio na editora. Caio me deixou esperando por umas duas ou três horas. Pensei em ir embora. Valeu a paciência. As desculpas foram efusivas; o novo jornal que tanto o entusiasmava era causa mais que justa.
O Leia, comandado por Cláudio Abramo, que pouco vinha à redação, e por Caio Túlio Costa, possuía um grupo de colaboradores fixos da mesma geração do Caio Túlio, entre os quais Matinas Suzuki Jr, Mario Sérgio Conti e Rodrigo Naves. O mesmo grupo, pouco tempo depois, assumiria postos importantes na Folha de S.Paulo e mudaria o jornalismo feito no Brasil, sob o comando de Otavio Frias Filho. Antes disto, esses mesmos rapazes destacaram-se como líderes no movimento estudantil que então se rebelava contra a ditadura, atuando no grupo conhecido como Libelu.
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Eu, de um perfil mais retraído, participei mais moderadamente do movimento estudantil na FGV. Minha simpatia em termos da política estudantil ficava com o grupo rival, Refazendo, que tinha tendência socialista, enquanto a Libelu era trotskista.
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Os dois grupos se uniram contra a ditadura e saíram juntos às ruas munidos de bolas de gude, para que os soldados da cavalaria não nos alcançassem. Alguns levaram bordoadas. Poucos foram presos. Acho que foi só. Mas a agitação política que surgiu a partir do movimento dos jovens estudantes foi significativa. Pode ser colocada ao lado de tantos outros movimentos sociais que contribuíram para a democratização do país. Caio Graco acompanhava de perto esse contexto, tirando dele ideias editorias, como a coleção Primeiros Passos, e ideias políticas, como o “use amarelo pelas Diretas”. Caio, pelo que sei, não foi um estudante promissor em seu tempo, mas tinha como projeto de vida manter-se ao lado dos jovens, o que conseguiu plenamente.
A atividade que desempenhei no centro acadêmico da FGV, organizando palestras e cursos, além do trabalho que exercia como monitor do departamento de ciências sociais, me aproximaram de Eduardo Suplicy — na época um professor carismático, que enfrentava a direção da mesma escola com sede no Rio, contrária a qualquer manifestação política por parte de alunos ou docentes. O próprio Suplicy acabaria me indicando a Caio Graco para um estágio na Brasiliense, como já contei em outro post.
Assim, aportar na rua Barão de Itapetininga em pleno dia de inauguração do Leia livros, e conviver com este grupo de ex “antagonistas” no movimento estudantil, teve um significado muito grande em minha formação profissional.
Já como estagiário na Brasiliense eu almoçava com Caio Túlio quase todos os dias, e com Matinas e Rodrigo quando os dois passavam por lá. Sabia quem resenharia os livros lançados por todas as editoras, e palpitava de vez em quando. Arrisquei algumas resenhas, das quais mal me lembro. É importante dizer que esses líderes da Libelu, além da participação muito mais significativa no movimento estudantil, tinham também uma formação intelectual muito sólida, bastante superior à minha. Eu os conhecia de nome, ou por atuação em jornais alternativos que lia com afinco. Na ocasião, era apenas um aluno aplicado da GV com discreta atuação no centro acadêmico da faculdade.
Conheci Matinas Suzuki na FGV, através de amigos em comum. O principal deles era Gilberto Vasconcelos, um proeminente sociólogo que estudava do Integralismo à Tropicália, com verve Glauber-Rochiana. Giba acabaria por se transformar em colunista da Folha, onde passaria a usar a mesma sintaxe do grande cineasta que o antecedera no espaço daquele jornal.
Lembro que, anos depois, Gilberto declarou numa entrevista, com seu tradicional ar de deboche, que os seus alunos prediletos, que com ele aprenderam as teorias da Escola de Frankfurt, haviam, com o tempo, assumido postos de direção na indústria cultural brasileira. Os alvos da crítica eram principalmente o Matinas e, em menor escala, este que vos fala. Matinas tinha se tornado editor-executivo da Folha de S. Paulo, sucedendo a Caio Túlio Costa. Todos eles haviam saído do Leia, passado pela Ilustrada e chegado à direção do jornal. Mário Sérgio e Rodrigo dirigiram o Folhetim, suplemento dominical super sofisticado, que causou espanto em intelectuais como Roberto Calasso. Mário Sergio, que na época dirigia o Folhetim, seguiu longa carreira na Veja e ajudou a fundar a Piauí. Rodrigo abandonou o jornalismo, transformando-se no mais importante crítico de arte do Brasil.
Foi no ambiente desta nova Brasiliense que surgiram as coleções de bolso, como a Primeiros Passos — sob a liderança visionária do Caio Graco. Maria Emília Bender e Marta Garcia, que são hoje respectivamente publisher e editora da Companhia das Letras, começaram a carreira também nesse contexto, sob minha liderança. Pelos anos de convivência comigo, e por terem me ajudado a fazer da Companhia da Letras uma boa editora, ela são verdadeiras santas à espera da merecida beatificação. As duas iniciaram suas carreiras na área da divulgação de imprensa e se tornaram editoras de destaque no panorama editorial brasileiro.
Noutra crônica, quem sabe na semana que vem, contarei um pouco mais sobre os saguões e corredores da Brasiliense; dos tipos que ali grassavam, e de como aprendi e sorvi tudo o que acontecia por lá, para tentar depois me aventurar na carreira de editor ao lado do Caio, e em carreira solo.
Hoje celebro com alegria o fato de Matinas Suzuki Jr. dirigir a Companhia das Letras, junto comigo e com meus outros colegas da diretoria. Convidado por mim para um trabalho de meio período, quando assinamos o contrato de parceria com a Penguin para a edição dos clássicos no Brasil, fomos ampliando a nossa parceria até que ele chegasse à direção executiva da editora.
Sempre que podemos saímos para almoçar com os jovens editores da Companhia, como Caio Graco fazia conosco. Nessas ocasiões, os entupimos de histórias dos bastidores da imprensa e do meio editorial nos anos 1970, 80 e 90, décadas do apogeu dessa nossa geração que começou no movimento estudantil — de maneiras e com intensidades diversas — e chegou a postos de direção no jornalismo, no mercado editorial e na vida intelectual e política do país.
Sem ter passado pelos corredores da Brasiliense, convivido com Caio Graco e, no caso dos jornalistas também com Cláudio Abramo, certamente a história teria sido outra. Além disso, seriam menos divertidas as nossas memórias, que exercitamos com uma certa nostalgia sempre que um jovem curioso senta-se ao nosso lado e conjuga um verbo no passado, seguido de um ponto de interrogação.
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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.












