Por Luiz Schwarcz

Muitos autores que me conhecem caçoam da minha excessiva preocupação. Bem, excessiva preocupação é modo de dizer! O nome certo é paranoia mesmo. Um grande amigo, jornalista e autor já disse que fazemos uma dupla quase perfeita: ele sempre com mania de grandeza e eu o paranoico non-stop. Numa passagem da minha fala no SESC, por ocasião da comemoração dos 25 anos da Companhia das Letras em outubro de 2011, agradeci minha mãe, a mais judia de todas, pelos excessos de atenção e carinho que engendraram o ser absolutamente paranoico que acabei me tornando.
Mas vocês podem se perguntar no que a paranoia contribui para o ofício editorial. E a minha resposta imediata é: eles têm tudo a ver.
Acordo muitas vezes à noite com medo de perder autores, e desenvolvo fantasias terríveis de rejeição.
Com o Jô foi um pouco assim. Tentei, durante os últimos anos, incentivá-lo a voltar à literatura. Mas ele estava muito mais ocupado com o talk show e com atividades de tradutor e diretor de teatro. Toda vez que eu ligava, e o Jô alongava nossos planos, eu tinha certeza que ele iria me abandonar. Se um editor aparecia em seu programa acompanhando um autor entrevistado, eu me culpava por alguma possível desatenção. Até que ele começou a falar do livro em andamento, da ideia, e de sua confecção. Eu insistia para que conversássemos sobre o contrato, mas ele dizia que só faria isso ao terminar. Imaginem os temores que tal atitude causou em mim!
Porém, é na confecção dos livros que a paranoia é minha melhor companheira. Lembrar de um detalhe qualquer da edição, um detalhe aparentemente sem importância, é o mais comum dos meus atos. Enquanto lia a nova biografia de Getúlio, de Lira Neto, ou um livro sobre as origens do cristianismo, parei um sem-número de vezes ao lembrar, por exemplo, que ainda não sabíamos quantas entrevistas o autor da biografia do câncer — O imperador de todos males, que lançaremos no mês que vem como um dos nossos livros fortes do semestre — concederia à imprensa brasileira.
Hoje, por exemplo, amanheci com a preocupação de que a carta para convidar Patricia Cornwell para vir ao Brasil ainda não havia sido mandada. Uma visita sua seria muito importante para conquistar novos leitores para seus livros no país.
Esses detalhes aparentemente insignificantes não saem da minha mente. E as fantasias de que serei abandonado, de que fiz algo errado como editor, de que não atendi a todos os anseios dos autores, são tão frequentes quanto uma coçadinha nas costas quando a pele está queimada de sol, uma piscada de olho quando há muita claridade, um franzir da testa em resposta a alguma preocupação.
Que fazer? Nem Lênin saberia a resposta. Talvez, quem sabe, Freud. Ou um bom analista, que, sentado em sua confortável bergère, sem que eu o visse, do outro lado do divã, disfarçando a vontade de gargalhar diria secamente:
— Nada!
* * * * *
Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.












