Por Luiz Schwarcz
Em duas ocasiões fomos com José e Pilar à nossa casa no campo. A viagem era custosa para o José. Ficar três horas no carro, mesmo sendo a estrada bonita, parecia ser um grande esforço para ele. Em casa, em São Paulo, ele ficava por vezes sem fazer nada, sentado no sofá, de olhos fechados. Em outras ocasiões pedia para que eu colocasse um DVD, de preferência uma ópera de Mozart, ou um concerto de Beethoven ou Brahms, e lá ficava ele esperando o tempo passar — entre uma entrevista e outra, um lançamento, um debate, ou um almoço com seus amigos brasileiros. Os olhos fechados no carro, enquanto aguardava a chegada a um destino final, não lhe ofereciam o mesmo descanso, ou a mesma oportunidade de concentração. Creio que por essa razão não fomos mais vezes à Serra da Mantiqueira, da qual ele tanto gostou.
Saramago era sensível a grandes espetáculos da natureza, e foi justamente num desses pontos, no alto da Pedra do Baú, que resolvi ter com ele uma conversa pessoal, delicada, mas que senti que não poderia omitir.
Meses antes dessa viagem, numa manhã qualquer, fui surpreendido por um telefonema do meu pai, cedo de manhã, um horário incomum em se tratando dele. Já aposentado, meu pai prezava umas horas a mais de sono, pois dormia apenas depois de assistir a algum filme até bem tarde na TV, ou de sair com os amigos, em dias previamente marcados. Às quartas ele ia à sauna do clube; ficava até o seu fechamento e depois ia a uma pizzaria, sempre com o mesmo grupo de amigos. Às terças jantava com minha família na nossa casa. Às quintas alongava as noites numa mesa de carteado, regada de piadas e lembranças, contadas e cantadas em húngaro: essa língua super musical mas intransponível, falada por quase todos seus amigos mais próximos (e como ele sobreviventes da Segunda Guerra Mundial), que para cá vieram no final da década de quarenta, alguns deles até no mesmo navio.
Naquela manhã, meu pai acordou cedo e, quase chorando ao telefone, chamou minha atenção para uma declaração de Saramago publicada com destaque em vários jornais. Nela, o Prêmio Nobel de Literatura comparava Ramalah e os territórios ocupados por Israel, na Palestina, com o campo de concentração de Auschwitz. Meu pai não tinha muito senso crítico com relação às atitudes do governo israelense, e sobre isso discordávamos histórica e profundamente. Em muitos jantares, por ocasião das festas judaicas, a discussão chegava a pegar fogo. Naquelas ocasiões, eu não soube dar o devido desconto a meu pai, que tanto sofrera durante a Guerra — tendo escapado do trem que o levava, com meu avô, ao campo de Bergen Belsen. Ainda um garoto idealista, eu não consegui entender que para ele era mais difícil ser crítico ao governo israelense, tendo sobrevivido ao nazismo e perdido o pai para um inimigo que quis extinguir os judeus da face da terra.
– Eu pensei que ele era nosso amigo, Luiz. Ele mora na sua casa quando vem ao Brasil, eu nunca imaginei que ele diria uma coisa dessas!
Aos que me leem aqui a simplicidade das palavras de meu pai podem soar estranhas, mas para mim foi duro ouvi-las, e ainda mais duro explicar a ele que podíamos ter discordâncias com amigos próximos, e que nem por isso estes deixavam de ser nossos amigos. A crítica de Saramago a Israel aparecia com um enunciado extremamente infeliz, usando uma comparação equivocada, e que, ao contrário de sua intenção, não ajudava em nada a causa palestina.
A reação de escritores de esquerda — pacifistas e contrários à política do Estado de Israel — às declarações de José foi imediata. Amos Oz havia conhecido José em nossa casa e David Grossman admirava profundamente o escritor português. Mesmo assim acharam que deveriam se manifestar publicamente contra a declaração de Saramago. Eu falei a meu pai que um dia daria a minha opinião privadamente, mas que de forma alguma poderia questionar a liberdade de expressão e o respeito a posições contrárias às minhas.
Na serra, num dia anterior a um passeio à Pedra do Baú, avisei a Lili que tentaria falar com o José sobre o assunto que por tanto tempo guardara. Lili entendeu que deveria entreter a Pilar em algum momento do passeio, e sentados no Bauzinho, cujo acesso é mais fácil do que à própria Pedra, e de onde se vê a majestosa rocha e todo o imenso vale, me senti seguro e tranquilo para falar o que tinha que falar. Disse primeiro o quanto aquelas declarações tinham ferido meu pai e também o quanto eu achava que elas erravam no alvo, embora eu concordasse com várias críticas às atitudes militaristas de Israel. Disse que achava a ocupação dos territórios na faixa de Gaza cruel e injusta, mas que defendia a luta pela aceitação do Estado de Israel pelos palestinos, e acreditava que a única saída era a convivência pacífica dos dois povos, em dois estados nacionais vizinhos e respeitosos. O paralelo com um campo de extermínio perdia de vista a proporção dos fatos e esvaziava a intenção humanitária da crítica.
Num primeiro momento José estranhou, ou se surpreendeu, com o que eu disse. Argumentou a princípio, mas aos poucos me entendeu. Com o tempo, esta mesma conversa voltou, algumas vezes, e tanto ele quanto Pilar ressaltavam sempre que ele nunca havia dito aquela frase, e que o sentido de sua crítica fora deturpado por um jornalista que, presente na coletiva, estava em busca de um sensacionalismo qualquer.
Depois daquela conversa me senti aliviado. Olhando o enorme vale que se apresentava a nós, mostrei ao José uma pequena mancha alaranjada, onde, em meio àquele cenário grandioso, se podia vislumbrar o telhado de nossa casa. Achar a casa tão diminuta no meio de uma paisagem que parecia não ter fim, de algum jeito, correspondia ao que havíamos feito naquele fim de tarde. Ao encontrarmos o ponto para o qual logo mais iríamos voltar, Pilar e Lili juntaram-se a nós, e certamente intuíram que a conversa tinha andado bem.
* * * * *
Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.






A tristeza, a persistência das crises eram os sinais de que, ainda que ela o amasse, ele não seria capaz de tirá-la de seu estado. O amor era um costume, uma acomodação. Não adiantava amá-lo se ela mal podia tolerar sua presença. A figura dele representava, antes de tudo, a lembrança das dores dela, o testemunho de que, apesar de todo o charme e o brilho, era uma mulher no limite, cuja angústia era aliviada com a lâmina na perna, os dedos sobre o fogo, o golpe inesperado contra os cabelos. Era triste perceber a mudança súbita de tom e a repressão do sorriso, quando ela virava o rosto em direção à porta e descobria que não era a secretária ou um paciente que entrava em sua sala, mas ele, que decidira fazer uma visita sem avisar e via aquele rosto contrair-se como o corpo de um pequeno animal subterrâneo, como se precisasse reprimir os sinais de satisfação para que ele não se esquecesse de que era o principal responsável pela miséria estampada à sua frente.






