Luiz Schwarcz

Meia lua inteira (parte 2)

Por Luiz Schwarcz

 

Em duas ocasiões fomos com José e Pilar à nossa casa no campo. A viagem era custosa para o José. Ficar três horas no carro, mesmo sendo a estrada bonita, parecia ser um grande esforço para ele. Em casa, em São Paulo, ele ficava por vezes sem fazer nada, sentado no sofá, de olhos fechados. Em outras ocasiões pedia para que eu colocasse um DVD, de preferência uma ópera de Mozart, ou um concerto de Beethoven ou Brahms, e lá ficava ele esperando o tempo passar — entre uma entrevista e outra, um lançamento, um debate, ou um almoço com seus amigos brasileiros. Os olhos fechados no carro, enquanto aguardava a chegada a um destino final, não lhe ofereciam o mesmo descanso, ou a mesma oportunidade de concentração. Creio que por essa razão não fomos mais vezes à Serra da Mantiqueira, da qual ele tanto gostou.

Saramago era sensível a grandes espetáculos da natureza, e foi justamente num desses pontos, no alto da Pedra do Baú, que resolvi ter com ele uma conversa pessoal, delicada, mas que senti que não poderia omitir.

Meses antes dessa viagem, numa manhã qualquer, fui surpreendido por um telefonema do meu pai, cedo de manhã, um horário incomum em se tratando dele. Já aposentado, meu pai prezava umas horas a mais de sono, pois dormia apenas depois de assistir a algum filme até bem tarde na TV, ou de sair com os amigos, em dias previamente marcados. Às quartas ele ia à sauna do clube; ficava até o seu fechamento e depois ia a uma pizzaria, sempre com o mesmo grupo de amigos. Às terças jantava com minha família na nossa casa. Às quintas alongava as noites numa mesa de carteado, regada de piadas e lembranças, contadas e cantadas em húngaro: essa língua super musical mas intransponível, falada por quase todos seus amigos mais próximos (e como ele sobreviventes da Segunda Guerra Mundial), que para cá vieram no final da década de quarenta, alguns deles até no mesmo navio.

Naquela manhã, meu pai acordou cedo e, quase chorando ao telefone, chamou minha atenção para uma declaração de Saramago publicada com destaque em vários jornais. Nela, o Prêmio Nobel de Literatura comparava Ramalah e os territórios ocupados por Israel, na Palestina, com o campo de concentração de Auschwitz. Meu pai não tinha muito senso crítico com relação às atitudes do governo israelense, e sobre isso discordávamos histórica e profundamente. Em muitos jantares, por ocasião das festas judaicas, a discussão chegava a pegar fogo. Naquelas ocasiões, eu não soube dar o devido desconto a meu pai, que tanto sofrera durante a Guerra — tendo escapado do trem que o levava, com meu avô, ao campo de Bergen Belsen. Ainda um garoto idealista, eu não consegui entender que para ele era mais difícil ser crítico ao governo israelense, tendo sobrevivido ao nazismo e perdido o pai para um inimigo que quis extinguir os judeus da face da terra.

– Eu pensei que ele era nosso amigo, Luiz. Ele mora na sua casa quando vem ao Brasil, eu nunca imaginei que ele diria uma coisa dessas!

Aos que me leem aqui a simplicidade das palavras de meu pai podem soar estranhas, mas para mim foi duro ouvi-las, e ainda mais duro explicar a ele que podíamos ter discordâncias com amigos próximos, e que nem por isso estes deixavam de ser nossos amigos. A crítica de Saramago a Israel aparecia com um enunciado extremamente infeliz, usando uma comparação equivocada, e que, ao contrário de sua intenção, não ajudava em nada a causa palestina.

A reação de escritores de esquerda — pacifistas e contrários à política do Estado de Israel — às declarações de José foi imediata. Amos Oz havia conhecido José em nossa casa e David Grossman admirava profundamente o escritor português. Mesmo assim acharam que deveriam se manifestar publicamente contra a declaração de Saramago. Eu falei a meu pai que um dia daria a minha opinião privadamente, mas que de forma alguma poderia questionar a liberdade de expressão e o respeito a posições contrárias às minhas.

Na serra, num dia anterior a um passeio à Pedra do Baú, avisei a Lili que tentaria falar com o José sobre o assunto que por tanto tempo guardara. Lili entendeu que deveria entreter a Pilar em algum momento do passeio, e sentados no Bauzinho, cujo acesso é mais fácil do que à própria Pedra, e de onde se vê a majestosa rocha e todo o imenso vale, me senti seguro e tranquilo para falar o que tinha que falar. Disse primeiro o quanto aquelas declarações tinham ferido meu pai e também o quanto eu achava que elas erravam no alvo, embora eu concordasse com várias críticas às atitudes militaristas de Israel. Disse que achava a ocupação dos territórios na faixa de Gaza cruel e injusta, mas que defendia a luta pela aceitação do Estado de Israel pelos palestinos, e acreditava que a única saída era a convivência pacífica dos dois povos, em dois estados nacionais vizinhos e respeitosos. O paralelo com um campo de extermínio perdia de vista a proporção dos fatos e esvaziava a intenção humanitária da crítica.

Num primeiro momento José estranhou, ou se surpreendeu, com o que eu disse. Argumentou a princípio, mas aos poucos me entendeu. Com o tempo, esta mesma conversa voltou, algumas vezes, e tanto ele quanto Pilar ressaltavam sempre que ele nunca havia dito aquela frase, e que o sentido de sua crítica fora deturpado por um jornalista que, presente na coletiva, estava em busca de um sensacionalismo qualquer.

Depois daquela conversa me senti aliviado. Olhando o enorme vale que se apresentava a nós, mostrei ao José uma pequena mancha alaranjada, onde, em meio àquele cenário grandioso, se podia vislumbrar o telhado de nossa casa. Achar a casa tão diminuta no meio de uma paisagem que parecia não ter fim, de algum jeito, correspondia ao que havíamos feito naquele fim de tarde. Ao encontrarmos o ponto para o qual logo mais iríamos voltar, Pilar e Lili juntaram-se a nós, e certamente intuíram que a conversa tinha andado bem.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

 

Meia lua inteira (parte 1)

Por Luiz Schwarcz


Pilar del Río com José Saramago na noite de entrega do prêmio Nobel. (Foto por Jan Collsioo)

Como editores, nem sempre privamos da intimidade dos autores. Estas eventualidades surgem nas bordas de uma atividade cujo fim é público, e o fazer, coletivo. Momentos de intimidade entre editor e autor podem ocorrer durante o processo de edição, ou nos bastidores do lançamento de um livro — e em alguns casos permanecem para além desse momento. Talvez vocês já estejam cansados de me ouvir falar que, mesmo com escritores altamente profissionais, a publicação de um livro é uma atividade de grande importância simbólica e psicológica para os envolvidos. O editor que desconhecer esse aspecto, e não souber lidar com os espaços íntimos que se criam nessas situações — com grandes chances de evoluir para uma situação embaraçosa —, poderá perder a confiança de seus autores, ou mesmo ter de encerrar a carreira precocemente. Nesse caso, não há receita que eu possa ensinar a um jovem profissional interessado no assunto, a não ser a de buscar em sua alma a mistura de uma boa dose de sensibilidade com outra igual de delicadeza, aliadas a um controle do próprio ego. São oportunidades raras que um ego dilatado pode destruir. O editor precisa sempre saber ouvir, mais do que falar. Não deve querer se sobressair, confrontar, ou mesmo posteriormente fazer uso público de momentos essencialmente privados.

Falo com conhecimento adquirido por conta de erros acumulados, como os citados acima. Quem sabe numa outra ocasião poderei falar de situações de confronto entre autor e editor; de erros que cometi ao superestimar a amizade que privava com certos escritores; de como me esqueci dos limites que surgem no cruzamento das relações profissionais com as pessoais.

Também não quero fazer falsas promessas. Parte do que ocorre no convívio com autores está fadado a permanecer em minha memória, e apenas lá. Assim os “contos” aqui são parciais em vários sentidos, são as minhas meias-luas inteiras — o que posso lhes oferecer.

Pois se houve um autor com quem posso falar que tive certa intimidade, foi José Saramago. Intimidade construída através de várias visitas às suas casas — em Lisboa, em Lanzarote e em Lisboa novamente —, de viagens comuns, quando ele recebia alguns de seus incontáveis títulos de Doutor Honoris Causa em universidades espalhadas pelo mundo, antes do prêmio Nobel, ao qual Lili e eu comparecemos, ela com um vestido longo que lhe era pouco usual, eu um verdadeiro ET num fraque alugado para as festividades. Nesta ocasião frequentamos a suíte presidencial do agraciado com o Nobel de literatura, que ficava em andar isolado, ao lado apenas de outra igual, em que se hospedava ao mesmo tempo o astro pop Bruce Springsteen. Subíamos a chamado de Pilar, para aprovar seus trajes antes das diversas solenidades, para fazer companhia ao casal junto com outros amigos próximos, sempre nas horas vagas, entre uma solenidade e outra, ou para compartilhar com alegria, logo cedo pela manhã, o grande destaque da primeira página do jornal local dado à Pilar, elegantérrima em seu vestido vermelho balão, acompanhando José na noite de Estocolmo. Foi o único Nobel ao qual compareci. Fiquei chateado posteriormente por não ter sido convidado à premiação de Orhan Pamuk, até compreender que, sendo editor do escolhido, o que meus colegas faziam era escrever diretamente à Academia Sueca que confere o prêmio e se inscrever para a mesa dos editores do premiado. No caso de José Saramago não foi preciso, pois entramos na lista dos amigos ou familiares do autor.

No entanto, o que conferiu maior intimidade da minha família com o grande escritor português foram as inúmeras viagens pelo Brasil, que fizemos acompanhando o crescimento de sua popularidade nacional, e, principalmente, o fato de que, avesso a hotéis, Saramago pediu, logo no começo de nossa amizade, que o hospedasse em minha casa sempre que viesse a São Paulo. E assim foi. Por vezes meus filhos tiveram que dormir no mesmo quarto para que José e Pilar ficassem hospedados no quarto do Pedro — questão resolvida quando a Júlia saiu de casa e seu quarto virou a sede dos Saramagos a cada novo lançamento de obras do José.

Assim acompanhamos o casal a Tiradentes, pouco depois que sua obra veio para a Companhia das Letras — muito antes do prêmio Camões e do Nobel —, quando o fato de Saramago ser reconhecido nas ruas de uma pequena cidade histórica em Minas Gerais ainda causava espanto a todos nós. Em Tiradentes, compartilhamos o gosto por uma deliciosa sopa de abóbora com gengibre, feita por um dos recepcionistas da pousada Solar da Ponte, apenas a pedidos de hóspedes que não desejavam jantar fora. Saborear uma sopa juntos numa noite fria em Minas Gerais, zombar dos gostos alimentares alheios, como faziam José e Lili — o primeiro detestava todos os pratos feitos com coco, e ela desde sempre uma apreciadora fervorosa dos doces brasileiros —, acabou por gerar uma empatia e conhecimento mútuo que muitas discussões literárias ou filosóficas nem sonhariam proporcionar. A “dialética do coco”, fantasiosa e interminável discussão caseira que ocorria entre os dois, desenvolvida a cada visita, valeu mais que tantas outras dialéticas sobre as quais possivelmente também falamos, em oportunidades menos bem humoradas.

Saramago sabia ser soturno, mas tinha um senso de humor impagável, como sua obra mesmo atesta. Nos seus livros o humor surge quando menos se espera, principalmente na exasperação da lógica absurda da linguagem literária. Os livros de Saramago devem tanto a Cervantes como a Ionesco. Neles, estão presentes traços de um Franz Kafka zombador. Assim também era José na intimidade. Sua risada, nem sempre pública, era franca e cheia de ternura. Gostava de quem lhe fazia sorrir. Sorria com quem compartilhava princípios, afinidades e gostos pessoais. Em situações difíceis, como após uma seção de acupuntura em casa, para tratar de um sério tombo ocorrido no banheiro do hotel no Rio — com todos nós esperando do lado de fora do quarto, temerosos com a possibilidade da contusão ter sido mais grave —, sentindo-se melhor graças aos bons tratos do jovem acupunturista Marcus Prada, José chamou-nos e disse sorrindo sem parar:

— Pilar, Lili, Luiz, descobri que Deus existe. Mas não contem a ninguém que eu disse isso. Deus existe!

Foram anos e anos da convivência mais rica, de uma profunda amizade, que se provou ainda mais real quando tivemos uma discordância, sobre a qual achei que eu não deveria calar.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

Literatura cantada (ou A felicidade existe)

Por Luiz Schwarcz


Acho que já escrevi aqui sobre este assunto, mas se o fiz foi há tanto tempo que decidi correr o risco de me repetir e quem sabe agradar a um novo leitor, que saúdo com a história que abre este post.

Certa noite, há muito tempo, Lili, Marta Dora Grostein, Mario de Andrade e eu fomos ao show de Chico Buarque, no antigo Palace. Chico lançava na ocasião o longplay Francisco. Mário era na época o editor da Playboy brasileira. Homônimo do grande escritor, foi um grande amigo que perdi precocemente. No meio daquele espetáculo tão especial — os quatro, emocionados, sentindo o quanto aquelas canções representavam, em versão poética, décadas de nossa história —, Mário exclamou com seu entusiasmo tradicional:

— Luizinho, esse é o nosso poeta, o Manuel Bandeira de nossos dias. Você tem que editar um livro com as letras do Chico!

No dia seguinte, falando ao telefone com Rubem Fonseca, com quem na época eu conversava quase diariamente, contei do show, falei que Mário tinha tido uma ótima ideia, mas que eu não sabia como seria possível viabilizá-la. Rubem replicou:

— Luiz, eu sou co-sogro do Chico. O Zé Henrique está namorando a Silvinha, quer que eu marque uma conversa com ele?

Respondi que SIM, com ênfase equivalente a essas letras em caixa alta. Alguns dias depois eu voaria para o Rio, especialmente para ir, com Zé Rubem, até a casa do Chico, no alto da Gávea.

Enquanto esperava no terraço, apreciando a bela vista da floresta e da baía de Guanabara, eu temia o encontro que viria a ocorrer. Sentia um misto de vergonha e timidez que só aumentou ao descobrir o eco na timidez do Chico. Quando, após o tradicional cafezinho, balbuciei que gostaria de editar suas letras, contando como a ideia surgira por conta de um comentário efusivo do Mário, no meio do show, Chico fechou-se em silêncio .

Eu falava, olhando de vez em quando para a mesa, e no meu tom de voz meio grave, que a cada dia fica mais abafado e parecido com o do meu falecido pai. Chico rompeu o silêncio depois de um tempo, apenas para dizer que discordava totalmente do que Mário havia dito, que suas letras eram apenas letras, não as considerava poesia, de forma alguma. É curioso que esta é também a opinião de Caetano Veloso, de maneira ainda mais radical. Caetano diz que considera Chico um poeta, sim, mas que em seu próprio trabalho vê pouca originalidade. Embora a questão formal que separa as letras do gênero poético seja complexa, é fácil discordar da modéstia de nossos compositores.

Na reunião, no entanto, foi Rubem quem se ocupou de enfrentar o argumento de Chico Buarque, com quem se sentia totalmente à vontade, bradando com seu jeito expansivo:

— Nada disso, Chico. Não aceito! Você é poeta, sim. É poeta, caralho! Poeta, entendeu? E “Pedro pedreiro”, o que é?

E se pôs a recitar a letra, de cor, para desespero do Chico, e indiretamente meu também.

O encontro acabou com menos timidez de lado a lado, mas foi inconclusivo. Chico mudou o assunto para futebol, e depois de uma simpática conversa, na qual todos estavam mais à vontade, fomos embora. Passadas algumas semanas eu escrevi para o Chico, insistindo no assunto, mas terminei a carta dizendo que, caso ele não quisesse publicar nada conosco, eu me oferecia como goleiro do Polytheama, o time que ele ainda tem com alguns dos músicos que tocam com ele, seu produtor e empresário Vinicius França, e amigos. Disse com pouca modéstia futebolística que eu “catava bem e seria uma honra jogar umas peladas com ele”. A isca serviu e Chico respondeu logo. Como goleiro é sempre mão de obra rara, o compositor me convidou para encontrá-lo numa segunda, quinta ou sábado, para batermos uma bola — literalmente no campinho do Centro Recreativo Vinicius de Moraes, e depois, metaforicamente, para conversarmos sobre um possível livro de letras, em sua casa.

Assim nasceu o primeiro livro que publicamos de Chico Buarque, Letra e música , sobre o qual ainda terei várias histórias a contar no futuro.

Lembrei-me desta história, impactado, ao assistir Leonard Cohen, com a Lili, duas semanas atrás no Radio City Hall, em Nova York. Foi talvez o melhor show de rock que assisti na minha vida, ou talvez um dos melhores shows da minha vida e ponto final. Fiquei pensando na questão que abre este post, se as letras são poesia ou não. Os críticos literários em geral dizem que não, e talvez formalmente eles tenham razão. Mas não foi o que senti no show. Vi que, de certa forma, a literatura pode ser cantada, e recordei-me também do começo da minha vida de leitor.

Leonard Cohen entrou às 8h15 da noite e saiu do palco às 11h45. Eu controlei minha emoção algumas vezes, para não dar qualquer tipo de vexame. Recordei o que senti no show Francisco; ou quando vi João Gilberto cantar no Municipal; ou quando assisti Milagre dos peixes no mesmo teatro, com Milton Nascimento solfejando as músicas censuradas. Lembrei do show de Tom Jobim no Ibirapuera e de haver dito naquela ocasião, mesmo sendo agnóstico e talvez misturando idolatria com ironia: “Deus existe!”.

O que Leonard Cohen cantava — ajoelhando-se no palco reiteradamente, abraçando o microfone com as duas mãos em forma de concha, fechando os olhos, emocionado com suas próprias lembranças —, se não era poesia, era pura literatura cantada. A música de Cohen, em minha opinião, se parece com pequenos contos, mais do que com poesia, mesmo com o uso reiterado da rima.

Senti como gosto do que faço, como a literatura se tornou tão importante para mim — quem sabe através da música, que ocupou um lugar fundamental na minha vida antes mesmo dos livros. Será que virei editor por causa de Dylan e Cohen? Através dos Beatles, Caetano, Chico, Vinícius, Jobim ou mesmo Lou Reed? Não importa. Essa crônica é sobre Leonard Cohen, e não sobre quem a escreve. É sobre como suas músicas são importantes, como sendo tão tristes são também o caminho para a felicidade. Sobre como ele e seu grupo, quase todos usando o mesmo chapéu, tocaram com uma alegria indescritível, como ele ajoelhava e cantava para os músicos, como ele tirava o chapéu ouvindo um solo de bandolim, ou dos teclados, ou mesmo o solo vocal de uma cantora do pequeno coro que o acompanha. De joelhos, Leonard Cohen reverenciava a música tocada pelos músicos de sua banda, que por seu lado reverenciavam suas letras, sua literatura.

Assim — modificando um pouco o que eu havia dito sobre a música de Jobim, há tanto tempo atrás —, no fim do show de Leonard Cohen, após ouvir todas aquelas letras super melancólicas, abraçando a Lili eu disse: “A felicidade existe. A felicidade existe.”

[Leia, abaixo, duas letras de Leonard Cohen traduzidas por Caetano W. Galindo especialmente para o blog.]

Suzanne

Suzanne te leva para casa às margens do rio
Para ouvir os barcos vindo
E dormir ao lado dela
Você sabe que ela é doida
Mas é esse o teu motivo
E ela serve chá e laranjas
Que vieram lá da China
E bem quando você pensa
Que não tem amor por ela
Ela vem e te sintoniza
E o rio que te responda
Teu amor sempre foi dela
E você quer ir com ela
E quer ir sem enxergar
Sabe que ela confia em você
Pois você tocou com a mente o seu corpo perfeito.

E Jesus era marujo
Quando andava sobre as águas
E olhou por muito tempo
De sua torre de madeira
E quando soube, solitário,
Que só os náufragos o viam
Disse “Todos serão nautas
Até que o mar os liberte”
Mas ele mesmo estava exausto
Antes já de o céu se abrir
Abandonado, quase humano,
Afundou como pedra na tua sabedoria
E você quer ir com ele
E quer ir sem enxergar
Acha que talvez confie nele
Pois ele tocou com a mente o teu corpo perfeito.

Agora Suzanne te dá a mão
E te leva para o rio
Veste trapos, traja plumas
Do Exército da Salvação
E o sol recobre como mel
Nossa senhora do porto
Que te mostra onde olhar
Entre o lixo e entre as flores
Há heróis em meio às algas
Há crianças na manhã
Eles pendem para o amor
Vão pender assim para sempre
Enquanto ela estende o espelho
E você quer ir com ela
E quer ir sem enxergar
Sabe que confia nela
Pois ela tocou com a mente o teu corpo perfeito.

Escuridão

Eu peguei a escuridão
Que bebia em tua taça
Eu peguei a escuridão
Bebendo em tua taça
Pergunto “Bebo? Contagia?”
“Beba: simplesmente faça.”

Meus dias são poucos
Eu sei que não tenho futuro
Só me restam tarefas
O presente é um tanto duro
Achei que o passado ficava
Mas também caiu no escuro

Eu devia ter previsto
Estava na tua expressão
Mas eu tinha que arriscar
Você era jovem e era verão
Ganhar você foi fácil
Mas custou a escuridão.

Eu não fumo mais cigarros
Nem beber eu bebo mais
Não tive tanto amor
Mas você sempre foi capaz.
E eu até nem sinto falta,
Nada mais me satisfaz

Eu gostava do arco-íris
Adorava poder ver
Outro dia bem cedinho
E fingir que era você.
Mas peguei a escuridão
E foi pior do que em você.

Eu peguei a escuridão
Que bebia em tua taça
Eu peguei a escuridão
Bebendo em tua taça
Pergunto “Bebo? Contagia?”
“Beba: simplesmente faça.”

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

Causas justas

Por Luiz Schwarcz



Sakineh Mohammadi Ashtiani

Foi num sábado de manhã que surpreendentemente recebi um telefonema de minha amiga Louise Dennys, editora da Knopf Canadá, com quem não falava há muito tempo. Um autor da Companhia das Letras, que trabalhava em Washington e havia conhecido o presidente Lula ao lançar seu livro no Brasil, disse a Louise que eu poderia ajudar a contatar o governo brasileiro, visando evitar o apedrejamento de Sakineh Mohammadi Ashtiani — a iraniana acusada de adultério e de cumplicidade no assassinato de seu marido.

— Luiz, eu coordeno um grupo que defende direitos humanos e me foi dito que só o governo brasileiro pode salvar Sakineh. A questão é premente, ela pode ser colocada no paredão do apedrejamento a qualquer momento. Você pode nos ajudar?

Na hora me ocorreram dois caminhos: tentar achar Marco Aurélio Garcia, que eu conhecera nos tempos em que trabalhei na Unicamp e que faria o assunto chegar ao presidente Lula, ou conversar com Alberto da Costa e Silva para que este me ajudasse a localizar o ministro Celso Amorim o quanto antes. Os dois caminhos se mostraram difíceis. Não encontrei nenhum contato que me levasse a Marco Aurélio rapidamente, e Alberto da Costa e Silva não encontrou prontamente o ministro Amorim. De qualquer forma, esperançoso, ele me passou um endereço eletrônico do Ministério das Relações Exteriores para onde podem ser encaminhadas mensagens do público.

— Pode mandar, meu filho, que no Itamaraty essas coisas costumam funcionar. Enquanto isso continuarei tentando encontrar o ministro Amorim.

Caprichei no teor do texto, para tentar chamar atenção de alguém relevante, bastante descrente no que Alberto me dissera.

Eu estava errado. Menos de um dia após enviar minha mensagem, recebi uma resposta de um assessor do Ministro, dizendo que já havia falado com Celso Amorim e que o governo brasileiro iria tentar ajudar, mas que era importante que o assunto não vazasse, para que o governo iraniano não soubesse do assunto pela imprensa.

Daí em diante uma correspondência ativa aconteceu entre o ministério, principalmente através do assessor do ministro, e o grupo ativista, passando por mim como mero intermediário. O resultado nós conhecemos: o assunto chegou ao presidente Lula, que ofereceu asilo para Sakineh. Suponho também que ocorreram prováveis gestões do ministro Amorim, que já havia se posicionado anteriormente contra casos semelhantes que aconteciam e ainda acontecem no Irã de Ahmadinejad. A mais que discutível política de aproximação do governo brasileiro com um governo autoritário e tirânico por vezes servia para causas nobres.

Em meio a esse evento, o tal assessor, de quem eu já ficara quase íntimo, um dia me fez a questão que mais temo, embora sua abordagem trouxesse uma delicadeza diplomática, e uma timidez com a qual me identifiquei. Perguntava-me se a Companhia das Letras ainda aceitava ler romances de escritores neófitos, e se apresentava como um deles.

Encaminhei o romance em questão para uma das nossas editoras, a Vanessa Ferrari, que vocês conhecem aqui do blog. Vanessa demorou um mês ou um pouco mais, e, corada como sempre, veio até a minha sala dizer que o livro era muito bom. Necessitava de trabalho, mas revelava um escritor de grande talento e potencial. Felizes, resolvemos bancar a aposta da Vanessa, mesmo sem a minha leitura.

Ela e Mauricio Lyrio começaram, desde então, a trabalhar juntos no livro. O autor aceitou inúmeras sugestões, fez várias versões, e depois de meses de idas e vindas, o original ficou pronto.

Memória da pedra seria um livro dos quais, de certa forma, eu me desincumbiria, num período especialmente atribulado de minha vida profissional. Entretanto, uma outra entusiasta do livro, Mariana Mendes, do departamento educacional da Companhia das Letras, inconformada, chamou minha atenção algumas semanas atrás dizendo:

— Luiz, você leu este livro? Tem que ler, é o máximo.

Hoje divido com a Vanessa, a Mariana e o Mauricio Lyrio meu entusiasmo por Mémoria da pedra, que li em uma sentada, com imenso prazer, há dois fins de semanas, em meu sítio. Fiquei encantado com um escritor que nasce muito maduro — desenvolvendo os personagens secundários com uma qualidade incomum, traço importante para avaliar o fôlego literário de um texto —, capaz de trechos belos como este que escolhi para encerrar o meu post. É uma alegria quando o acaso de uma causa humanitária tão justa leva a outra igualmente importante como a descoberta de um grande escritor.

P.S.: Procurei me informar agora sobre o que aconteceu afinal com Sakineh e não obtive nenhuma resposta assertiva. Minha amiga canadense, em resposta à minha questão, marcou um encontro pessoal comigo em Londres, que acontecerá na semana que vem. Enigma. Perguntei a uma amiga iraniana, cuja família ainda mora no Irã, e ela também não soube me dizer com certeza. Do que sei Sakineh continua presa, mas não foi apedrejada.

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Trecho de Memória da pedra, de Mauricio Lyrio:

A tristeza, a persistência das crises eram os sinais de que, ainda que ela o amasse, ele não seria capaz de tirá-la de seu estado. O amor era um costume, uma acomodação. Não adiantava amá-lo se ela mal podia tolerar sua presença. A figura dele representava, antes de tudo, a lembrança das dores dela, o testemunho de que, apesar de todo o charme e o brilho, era uma mulher no limite, cuja angústia era aliviada com a lâmina na perna, os dedos sobre o fogo, o golpe inesperado contra os cabelos. Era triste perceber a mudança súbita de tom e a repressão do sorriso, quando ela virava o rosto em direção à porta e descobria que não era a secretária ou um paciente que entrava em sua sala, mas ele, que decidira fazer uma visita sem avisar e via aquele rosto contrair-se como o corpo de um pequeno animal subterrâneo, como se precisasse reprimir os sinais de satisfação para que ele não se esquecesse de que era o principal responsável pela miséria estampada à sua frente.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

O mundo que não está nos livros cansa

Por Luiz Schwarcz

A Good Book

Na semana passada, procurei explicar um pouco do que acontece hoje em dia no mercado editorial como um todo, e, em particular, no caso de editoras de perfil literário como a Companhia das Letras. Em outro post já havia mostrado como não vejo com maus olhos a entrada de um novo público-leitor, que não conhece ou ainda não está à vontade para ler a boa literatura que há por aí.

Parece estranho, mas os leitores deste blog, assim como as pessoas que trabalham no mundo editorial, em sua maioria votam em partidos progressistas, defendem a democracia, mas em muitos casos, quando discutem valores culturais, parecem se considerar superiores e torcem o nariz para quem não priva dos mesmos gostos ou da mesma forma de entender o mundo literário.

Não tenho preconceito para com editoras de perfis diferentes, e autores que nunca quis publicar. Tento apenas entender o que resulta da combinação da preponderância mais acentuada dos livros populares no mercado, das circunstâncias em que se encontram as livrarias, e do aumento da concorrência para os títulos que chegam com a promessa de grandes vendas. Por outro lado, o preço para comprar os direitos de publicação de todos os tipos de romances, incluindo os de maior qualidade, em alguns casos chegou a decuplicar — jogando um risco exacerbado sobre livros que hoje encontram mais dificuldades aqui do que em outros países. O Brasil aparenta ser um mercado mais promissor do que muitos outros, de estabilidade e pujança tradicionais. Com a concorrência acirrada por títulos, por vezes pagamos adiantamentos mais altos que a Inglaterra ou a França, e nem sempre a venda, como é de praxe no negócio do livro, acompanha a expectativa inicial.

O importante é escapar ao tom de lamúria e entender essas mudanças como parte dos desafios atuais de um editor. A digitalização, o crescimento da leitura juvenil e a distribuição mais acentuada de renda no Brasil, nesses últimos quase vinte anos, modificaram a nossa lista de mais vendidos e tornaram a vida do jovem autor literário mais complicada. O mesmo vale, principalmente, para livros de literatura traduzidos, que não venham com grande bagagem de sucesso anterior… No entanto, nem preciso apontar aqui as vantagens de um país mais democrático e educado, além das benesses possíveis de um livro mais barato em formato digital.

Porque o país mudou, a tecnologia mudou, o mercado mundial de literatura mudou, é de se esperar que mudem também as editoras.

Também é importante ter paciência. O Brasil não vai virar digital da noite para o dia — o que também tem suas vantagens. Leitores que começam a se interessar por livros não mudarão suas escolhas repentinamente, e as editoras, em sua grande maioria, não vão querer perder o espaço conquistado, assim como outras, que nunca almejaram ou almejarão crescer, irão preferir permanecer enxutas.

Muitas perguntas equivocadas, respostas apressadas, insinuações e juízos preconceituosos têm circulado no mercado editorial para tentar dar conta de tantas mudanças. Sempre é mais fácil entender a realidade por um só ângulo, valorizar o pequeno em detrimento do grande, sem diferenciar o que há de bom e meritório em cada dimensão. Opinar sem conhecer como são tomadas as decisões numa editora, mitificar o passado e desconsiderar as transformações na sociedade em que vivemos é caminho tão fácil quanto enganoso.

Um dia ainda vou escrever sobre como acho que a Companhia das Letras deixou de ser “independente” quando emplacou, quase involuntariamente, seu primeiro livro na lista de mais vendidos — no caso, o justamente cultuado Rumo à estação Finlândia. E como agora, acredito, voltamos a ser independentes ao colocar em prática o velho plano de ampliar nosso público, com a criação da Paralela, Seguinte, Claro enigma e Boa Companhia — os selos através dos quais buscamos alargar nossos horizontes editorias. Mas antes disso, quero voltar a tratar de alguns livros que me surpreenderam, de discretas memórias pessoais e de algumas anedotas de editor. Entender o que está fora dos livros dá mais trabalho. Cansa.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.