Por Luiz Schwarcz

Lago de Lucerna (Foto por MaximeF)
Vim passar quatro dias em Lucerna para realizar um sonho: assistir um concerto da orquestra do festival da cidade — para mim, hoje a melhor do mundo. Pude ouvi-los tocando Mahler regidos por Claudio Abbado, meu maestro favorito. A sinfonia apresentada foi a número nove, aquela que Mahler escreveu pensando na morte. Abbado, hoje com setenta e sete anos, vem enfrentando há tempos um câncer que se originou no estômago. Eu achei que nunca teria uma oportunidade como esta, uma conjunção de fatores que leva à arte suprema. Troquei umas milhas que tinha em meu cartão e aqui estou eu. De fato, o que assisti foi inesquecível. Além disso, estou descansando um pouco, depois da tensão do lançamento do selo Penguin-Companhia e de Paraty, um festival que requer muito de toda a equipe da editora, e que para mim sempre traz sentimentos ambíguos.
Ao sair, falei à minha chefa no blog, a Juliana Vettore, que tiraria uma semana de férias, sem escrever. Ela generosamente concordou, mas eu já não cumpri o que prometera a mim mesmo: por quatro dias, só ouvir música, correr em volta do lago e ler livros já publicados.
Ao chegar a Lucerna, fui a uma loja de antiguidades que conhecia de outros festivais. Assim que me viu, a simpática madame Marie-Madeleine, dona da loja, me perguntou: “Luiz, o que você veio assistir desta vez?”.
Quando contei, ela pediu um minuto, foi aos fundos da loja, de onde trouxe uma enorme biografia recém-lançada de Mahler, que estava lendo. Mostrou-me o número da página onde interrompera a leitura, na parte em que o autor descrevia o encontro do compositor com Alma Mahler, que viria a ser sua mulher. Marie-Madeleine falou-me sobre a saúde de Claudio Abbado e desejou-me um bom concerto. Enquanto corria na manhã seguinte, lembrei-me desse encontro, que por sua vez me fez recordar do tempo em que, de terno e gravata, como um Quixote das biografias no Brasil, saí à cata de patrocínio para realizar uma série de trabalhos nessa área, em que nossa tradição editorial era tão pobre.
A Companhia das Letras tinha recém completado três anos e, no meu entender, tinha um papel a cumprir, quebrando o preconceito existente no mercado com relação às biografias. Por um lado, o mundo acadêmico via com maus olhos os estudos biográficos; vivíamos na era do tudo pelo social, não no sentido que falamos hoje, mas sim no da hegemonia da compreensão marxista da sociedade, em que o indivíduo era visto como mera consequência do contexto onde vivia. Os editores, por seu turno, achavam que as biografias vendiam mal, e, num círculo vicioso, a corrente do nada pelo pessoal só tendia a crescer.
Pois um belo dia eu achei que isso tinha que mudar. Porém, sediado nos fundos da gráfica do meu avô, não tinha recursos para entrar sozinho nessa causa, já que para realizar biografias de alto nível eu precisava de grandes jornalistas, todos muito bem pagos e ocupados, dirigindo jornais, revistas, ou realizando grandes reportagens. Não que esses jornalistas não tivessem o mesmo sonho: sair da redação e mergulhar no jornalismo literário, reinventando uma tradição perdida no Brasil.
Li poucos originais, deixei o escritório por alguns meses mais aos cuidados dos poucos comparsas que comigo trabalhavam, e parti para vender patrocínio, na época, através da lei Sarney. Fui bem recebido por parte dos empresários e banqueiros que visitei, mas também ouvi desaforos que não pretendo repetir. A lei era muito mal usada, servia em muitos casos como negócio quase escuso. E mais: a venda do patrocínio era um negócio em si. Nunca esquecerei de um famoso empresário paulista, o qual, achando que eu estava interessado na comissão e no superfaturamento do projeto, fez com que eu me levantasse e deixasse a reunião, enquanto ele insinuava más intenções.
Jurei nunca mais procurar patrocinadores, o que cumpri parcialmente. Ao menos pessoalmente nunca mais me ocupei da tarefa. Como resultado da minha caça por patrocinadores e biógrafos, anunciamos no final de 1989 o subsídio a nove livros. Depois de alguns meses, três dos escritores desistiram de seus projetos, um nunca entregou e foi substituído por outro colega mais cumpridor de seus compromissos. Dois livros mudaram de tema, e um patrocinador, tendo pago toda a bolsa, com receio de que a biografia fosse mais crítica do que o esperado, pediu que seu nome fosse retirado da publicação. Um autor faleceu tragicamente num acidente de automóvel, antes de concluir o trabalho. No entanto, desse primeiro projeto saíram biografias maravilhosas como as de Ruy Castro, Fernando Morais e Jorge Caldeira, das quais qualquer país pode se orgulhar. O livro-reportagem Cidade partida, de Zuenir Ventura, também nasceu do mesmo projeto, e marcou o jornalismo literário do país.
A música em Lucerna, além da volumosa biografia de Mahler que ensejou estas recordações, me trouxe à mente uma série de outras ideias. Vejamos se consigo concatená-las para aproveitar melhor este descanso, tão produtivo, quem sabe. Até a próxima corrida, ocasião na qual sempre penso no que escrever, ou até a volta, no post da semana que vem.
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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Minha vida de goleiro e Discurso sobre o capim, entre outros. Seu novo livro, Linguagem de sinais, será lançado pela editora em setembro. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.











