Luiz Schwarcz

O lago de Lucerna

Por Luiz Schwarcz


Lago de Lucerna (Foto por MaximeF)

Vim passar quatro dias em Lucerna para realizar um sonho: assistir um concerto da orquestra do festival da cidade — para mim, hoje a melhor do mundo. Pude ouvi-los tocando Mahler regidos por Claudio Abbado, meu maestro favorito. A sinfonia apresentada foi a número nove, aquela que Mahler escreveu pensando na morte. Abbado, hoje com setenta e sete anos, vem enfrentando há tempos um câncer que se originou no estômago. Eu achei que nunca teria uma oportunidade como esta, uma conjunção de fatores que leva à arte suprema. Troquei umas milhas que tinha em meu cartão e aqui estou eu. De fato, o que assisti foi inesquecível. Além disso, estou descansando um pouco, depois da tensão do lançamento do selo Penguin-Companhia e de Paraty, um festival que requer muito de toda a equipe da editora, e que para mim sempre traz sentimentos ambíguos.

Ao sair, falei à minha chefa no blog, a Juliana Vettore, que tiraria uma semana de férias, sem escrever. Ela generosamente concordou, mas eu já não cumpri o que prometera a mim mesmo: por quatro dias, só ouvir música, correr em volta do lago e ler livros já publicados.

Ao chegar a Lucerna, fui a uma loja de antiguidades que conhecia de outros festivais. Assim que me viu, a simpática madame Marie-Madeleine, dona da loja, me perguntou: “Luiz, o que você veio assistir desta vez?”.

Quando contei, ela pediu um minuto, foi aos fundos da loja, de onde trouxe uma enorme biografia recém-lançada de Mahler, que estava lendo. Mostrou-me o número da página onde interrompera a leitura, na parte em que o autor descrevia o encontro do compositor com Alma Mahler, que viria a ser sua mulher. Marie-Madeleine falou-me sobre a saúde de Claudio Abbado e desejou-me um bom concerto. Enquanto corria na manhã seguinte, lembrei-me desse encontro, que por sua vez me fez recordar do tempo em que, de terno e gravata, como um Quixote das biografias no Brasil, saí à cata de patrocínio para realizar uma série de trabalhos nessa área, em que nossa tradição editorial era tão pobre.

A Companhia das Letras tinha recém completado três anos e, no meu entender, tinha um papel a cumprir, quebrando o preconceito existente no mercado com relação às biografias. Por um lado, o mundo acadêmico via com maus olhos os estudos biográficos; vivíamos na era do tudo pelo social, não no sentido que falamos hoje, mas sim no da hegemonia da compreensão marxista da sociedade, em que o indivíduo era visto como mera consequência do contexto onde vivia. Os editores, por seu turno, achavam que as biografias vendiam mal, e, num círculo vicioso, a corrente do nada pelo pessoal só tendia a crescer.

Pois um belo dia eu achei que isso tinha que mudar. Porém, sediado nos fundos da gráfica do meu avô, não tinha recursos para entrar sozinho nessa causa, já que para realizar biografias de alto nível eu precisava de grandes jornalistas, todos muito bem pagos e ocupados, dirigindo jornais, revistas, ou realizando grandes reportagens. Não que esses jornalistas não tivessem o mesmo sonho: sair da redação e mergulhar no jornalismo literário, reinventando uma tradição perdida no Brasil.

Li poucos originais, deixei o escritório por alguns meses mais aos cuidados dos poucos comparsas que comigo trabalhavam, e parti para vender patrocínio, na época, através da lei Sarney. Fui bem recebido por parte dos empresários e banqueiros que visitei, mas também ouvi desaforos que não pretendo repetir. A lei era muito mal usada, servia em muitos casos como negócio quase escuso. E mais: a venda do patrocínio era um negócio em si. Nunca esquecerei de um famoso empresário paulista, o qual, achando que eu estava interessado na comissão e no superfaturamento do projeto, fez com que eu me levantasse e deixasse a reunião, enquanto ele insinuava más intenções.

Jurei nunca mais procurar patrocinadores, o que cumpri parcialmente. Ao menos pessoalmente nunca mais me ocupei da tarefa. Como resultado da minha caça por patrocinadores e biógrafos, anunciamos no final de 1989 o subsídio a nove livros. Depois de alguns meses, três dos escritores desistiram de seus projetos, um nunca entregou e foi substituído por outro colega mais cumpridor de seus compromissos. Dois livros mudaram de tema, e um patrocinador, tendo pago toda a bolsa, com receio de que a biografia fosse mais crítica do que o esperado, pediu que seu nome fosse retirado da publicação. Um autor faleceu tragicamente num acidente de automóvel, antes de concluir o trabalho. No entanto, desse primeiro projeto saíram biografias maravilhosas como as de Ruy Castro, Fernando Morais e Jorge Caldeira, das quais qualquer país pode se orgulhar. O livro-reportagem Cidade partida, de Zuenir Ventura, também nasceu do mesmo projeto, e marcou o jornalismo literário do país.

A música em Lucerna, além da volumosa biografia de Mahler que ensejou estas recordações, me trouxe à mente uma série de outras ideias. Vejamos se consigo concatená-las para aproveitar melhor este descanso, tão produtivo, quem sabe. Até a próxima corrida, ocasião na qual sempre penso no que escrever, ou até a volta, no post da semana que vem.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Minha vida de goleiroDiscurso sobre o capim, entre outros. Seu novo livro, Linguagem de sinais, será lançado pela editora em setembro. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

Do outro lado da mesa

Por Luiz Schwarcz


Editores e agentes negociam direitos de livros na Feira de Frankfurt. (Acervo Frankfurt Book Fair)

A primeira vez que senti vontade de escrever, foi para escapar da depressão. Na época, estava com trinta e quatro anos, a Companhia das Letras existia havia quatro, e eu conhecera o sabor do sucesso, tanto no Brasil como em Frankfurt.

Em agosto de 89, eu havia publicado o romance de uma jovem escritora, Ana Miranda, chamado Boca do Inferno, indicado para a editora, na ocasião com grande discrição, por Rubem Fonseca, que apenas me enviara o livro dizendo:

— Luiz, acho que você vai gostar. Eu recebo muitos originais de jovens escritores, não te incomodo com eles, mas este vale a pena você ler e ver se interessa para a Companhia das Letras.

Rubem era bem amigo de Ana, nada me falou sobre isso, mas o livro era mesmo muito especial e marcava a estréia de um promissor talento da literatura brasileira. No lançamento, vários jornalistas compararam Boca do Inferno com O nome da Rosa de Umberto Eco, Memórias de Adriano de Margerith, entre outros romances históricos, em voga na época. Preparei então algo que não se fazia com autores brasileiros: encomendei tradução de trechos do romance e das resenhas para o inglês, reproduzimos as listas de mais vendidos e enviamos a Ray-Gude Mertin, agente que representava vários autores brasileiros na Europa. Falei a Ray que achava que poderíamos emplacar o livro na Feira de Frankfurt, e foi o que aconteceu.

O estande coletivo brasileiro, tradicionalmente organizado pela Câmara Brasileira do Livro, nunca havia recebido tantos e tão importantes editores estrangeiros como viria a receber naquele ano, todos atrás de um editor com o sobrenome alemão (meu pai era, no entanto, de origem húngara) e um livro escrito numa língua pouquíssimo traduzida.

Todos corriam atrás do thriller envolvendo o poeta barroco Gregório de Matos, em plena Bahia colonial, sobre o qual apenas haviam ouvido falar nos corredores da Feira. Estava em ação a maluca espiral de rumores que informalmente ocorre em Frankfurt, onde milhares de editores se fecham por cinco dias, à cata de novos livros, mas desta vez o romance premiado era nosso. A estratégia dera mais certo do que eu poderia sonhar. Com a agenda lotada de encontros para a compra de direitos de livros estrangeiros, eu tinha que voltar às pressas ao nosso estande, para encontrar bilhetes de editores da Gallimard, da Surkhamp, da Viking, da Mondadori… todos querendo comprar no escuro, apenas a partir da leitura dos pareceres das editoras alemãs, ou do boca a boca que se criara na Feira, o “romance da tal Companhia das Letras”.

Os editores que me encontravam por acaso, debaixo das cafonas samambaias do estande brasileiro, faziam o que chamávamos de blind-offers. Outros deixavam bilhetes sedutores e voltavam n vezes à minha procura. A todos eu dizia que não aceitaria ofertas sem que o livro fosse lido, e que não escolheria a editora apenas pelo critério financeiro. Assegurava que enviaria os originais de Boca do Inferno logo que chegasse ao Brasil, para que fosse avaliado com calma; até porque havia planejado uma viagem à Itália após a Feira, para descansar uns dias com a Lili.

Em Veneza hospedamo-nos num minúsculo hotel, que havia comprado sua primeira máquina de fax naquela semana. Se os donos do local desejavam testar o novo aparelho, eu proporcionei a eles mais do que desejavam. O fax não parou desde que coloquei os pés no hotel. No entanto, quanto mais eu dizia que não aceitava blind offers, mais elas chegavam, e em valor cada vez maior: “ele não aceita, é, então dobramos!”. Era assim que os melhores editores do mundo reagiam, para meu espanto.

Enquanto isso, no Brasil, meu avô materno, então doente, com um mapa na mão, acompanhava o que deveria ser meu percurso pelo Norte da Itália. Fora ele que me fizera manter a viagem a Frankfurt e depois à Itália, apesar do meu receio com sua saúde. Depois de dois dias em Veneza, tive um mau pressentimento ao ouvir a voz de minha mãe ao telefone e resolvi cancelar o resto da viagem, voltando rapidamente ao Brasil, para encontrar meu avô ainda com o mapa da Itália na cabeceira da cama, mas prestes a ser levado ao hospital, onde viria a falecer três dias depois. No primeiro dia das rezas que caracterizam o luto judaico, e que duram uma semana, o telefone tocou. Era um editor inglês que descobrira o número da casa de minha avó, e ligava para aumentar sua oferta.

Alguns meses depois dessa experiência, tive uma séria fratura na perna e precisei ser operado. Em fase de recuperação, resolvi ir à ABA (era assim que se chamava a feira de livros dos livreiros americanos, que na época eu costumava frequentar). Em Nova York fazia um calor infernal. Bastante deprimido por conta da morte do meu avô, com quem tinha uma relação fortíssima, e pelos resquícios da operação, eu andava com dificuldade, com a perna ainda mais inchada devido às altas temperaturas.

Marquei um almoço com minha amiga Carol Janeway, da editora Knopf, uma das únicas que acabou não ofertando para Boca do Inferno. No caminho para o restaurante, suando em bicas, eu pensava no que havia ocorrido com esse livro, no comportamento dos melhores editores do mundo, que acabaram comprando o título por valores altíssimos, motivados pela competição que se iniciara em Frankfurt.

Durante o almoço, Carol me elogiou, achando que eu recusara as ofertas de propósito para aumentar o valor dos adiantamentos. Disse que achava que o livro não iria vender o suficiente, na Europa e nos Estados Unidos, para pagar os polpudos valores oferecidos, mas que minha estratégia tinha sido ótima.

— Que estratégia, Carol? Eu apenas não quis vender um livro no escuro, o que para mim é inaceitável.

Carol riu como quem não acredita, e eu acrescentei:

— Ok, você não acredita, então façamos o seguinte: no ano que vem, eu e você levamos para Frankfurt um livro inexistente,  preparamos uma capa, orelha, press release, resenhas, lista de mais vendidos, tudo inventado, e aí tentamos vendê-lo juntos para ver no que dá.

Carol deu uma boa gargalhada e mudamos de assunto.

Ao chegar ao Brasil, deprimido, tive minha primeira crise com a profissão de editor. Acho que sublimava a perda do meu querido avô, justamente com dúvidas sobre a profissão que escolhi, em detrimento da que o velho Giuseppe desejava para mim, como herdeiro da gráfica que ele criara.

Foi nessa ocasião que resolvi escrever o que deveria ser o meu primeiro livro de ficção, uma história que tinha como narrador um editor desiludido, que inventava um romance inexistente e o levava a Frankfurt para ser apresentado aos melhores editores do mundo. O tema do falso romance era a busca por um manuscrito perdido de uma sinfonia de Berlioz, baseada (sic) numa obra também inédita de Shakespeare, o teatrólogo que o compositor francês de fato idolatrava. O livro fajuto estourava na Feira da Alemanha, e o editor em apuros voltava ao Brasil, largava sua pequena editora, de uma hora para outra, nas mãos da sua pobre namorada, e se refugiava em Atibaia, a fim de escrever a obra que vendera para mais de uma dezena países. O enredo do tal romance tinha mais umas tantas besteiras que me envergonho até de lembrar. É claro que nunca o escrevi.

Depois de alguns anos, mais uma vez voltando de Frankfurt, parei por Budapeste, cidade onde meu pai passou sua infância durante a Segunda Guerra. Fui visitar o prédio onde sua família viveu. Só pude ver a sacada do pequeno apartamento do meu outro avô, o tapeceiro, em que se realizavam durante a guerra cultos religiosos clandestinos, e de onde ele e meu pai foram levados para o campo de concentração — lá meu avô paterno veio a falecer. Chorei por quase uma hora, no pequeno quintal do prédio, sem saber o porquê, e resolvi, pela segunda vez, que escreveria um livro.

Seria sobre um menino que não conhecia bem o passado do pai, e ficava (nos capítulos ímpares) imaginando-o na pele de vários super heróis, personagens de ópera, quadrinhos, filmes, enquanto nos capítulos pares era narrada a sua história, centrada principalmente na sobrevivência heróica durante a guerra.

De fato, eu pouco sabia sobre o passado do meu pai, sobre o qual ele falara apenas uma vez, quando eu tinha dezessete anos, e nunca mais.

Esse livro também nunca passou para o papel, ou melhor, acabou se transformando em Minha vida de goleiro, um livro para crianças ou jovens e sem nenhum conteúdo ficcional.

Às vésperas de lançar mais um livro, lembro-me desses dois que nunca escrevi, desta vez para sublimar a ansiedade que acomete a maioria dos autores antes da publicação. Como editor experiente, eu não imaginava vivenciar este tipo de sentimento. No entanto, tenho que confessar que, pelo contrário, eu talvez sinta tudo isso de maneira ainda mais acentuada do que os demais autores que conheci do outro lado da mesa.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Minha vida de goleiroDiscurso sobre o capim, entre outros. Seu novo livro, Linguagem de sinais, será lançado pela editora em setembro. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

O quintal da minha casa

Por Luiz Schwarcz

Nesta segunda-feira tive que fazer um pequeno discurso para a cerimônia de lançamento do selo Penguin-Companhia das Letras no Brasil. Como sempre, preparei algumas linhas na última hora e resolvi lê-las em vez de simplesmente falar, como prefiro (e que talvez teria sido melhor).

Ao sentar para rabiscar o que iria dizer, a primeira imagem que me veio à mente foi a do quintal de casa, lugar em que fica a biblioteca e escritório da Lili, onde estão meus discos e a TV maior, na qual assistimos a filmes e jogos da seleção. Foi lá que a Companhia das Letras começou, ou melhor, nesse lugar trabalhei no primeiro mês, antes de me mudar para os fundos da gráfica do meu avô.

Foi lá também que comemorei por ter conseguido finalmente conversar com o Caio, quando decidi que queria sair da Brasiliense.

A minha relação com ele se deteriorara, por culpa dos dois. Tive que me ausentar da editora por quase um mês, logo após o nascimento do meu filho Pedro: um parto complicado, de risco para os dois, mãe e filho, seguido de uma cirurgia à qual a Lili teve de se submeter. Eu simplesmente não conseguia sair do hospital, naquele que foi um período sobre o qual eu não admitia nem ouvir falar durante anos.

A condução do dia a dia da Brasiliense estava muito na minha mão, e, ao voltar à editora, soube que o Caio desejava que eu me dedicasse mais à área administrativa — porta pela qual eu havia entrado na empresa — e fosse largando a direção editorial. Havia uma clara disputa entre nós dois pelo controle da editora, apesar da amizade que permanecia inalterada. A rivalidade foi crescendo dos dois lados, sem que nenhum de nós tocasse no assunto. Cada vez mais eu me sentia um editor preparado e tentava levar adiante meu projeto para a Brasiliense, esquecendo que a editora era do Caio Graco e não minha. Um conflito de lealdades se formou entre nós, ele desejando permanecer fiel a um público de dezesseis a vinte e quatro anos, e eu devotando minha fidelidade ao público que com essa idade começara a ler a coleção Primeiros Passos, mas que crescia e amadurecia. Eu forçava a linha editorial para outros focos que não a coleção com a qual a grande mudança começara. Além disso, à minha ego trip — fotos nos jornais, entrevistas, convites a festas etc. —, Caio respondia com a voz da experiência, e com certo e justificado ciúme. A amizade era tão forte e havia tal gratidão mútua que o ambiente entre nós dois permanecia bom. No entanto, dentro de mim eu notava que um sentimento ruim crescia e que o próximo passo (desculpem o trocadilho) seria perigoso.

Era difícil deixar a Brasiliense. Afinal, eu me sentia um pouco pai daqueles livros todos, e tinha muito orgulho do caminho trilhado. A editora se profissionalizara em muitos sentidos, e eu havia sido parcialmente responsável pelo momento feliz que vivíamos na rua General Jardim, um endereço sem o charme da Barão de Itapetininga, mas que continuava a atrair muitos autores, interessados no debate cultural que emanava das páginas da Leia livros, e das novas coleções que publicávamos.

Esperei alguns meses até a Lili escrever e apresentar sua tese de mestrado, realizada em meio a uma situação de saúde adversa, e no dia seguinte pedi para falar com o Caio, que de forma alguma esperava por aquela conversa. Eu não sabia o que faria, sonhava com uma editora própria, esboçara o que se chama um business plan para amigos que haviam me convidado para uma aventura editorial, mas nada havia saído do papel até aquele momento.

A decisão de sair da editora acabou se precipitando, mesmo que eu ainda não tivesse um plano claro do que fazer. Caio ouviu com generosidade minha voz embargada, levou um susto, abriu um garrafa de whisky que guardava em sua sala, e na qual eu nunca vira ele tocar, e me ofereceu sociedade na Brasiliense. Pediu que eu pensasse por um mês, considerasse melhor, e aí voltássemos a falar.

Aceitei o pedido e voltei para casa aliviado por ter tido a coragem de conversar sobre o tema; posto para fora o que guardara por tantos meses, em respeito ao momento pessoal da minha mulher. Cheguei no quintal, coloquei o último long play dos Rolling Stones, Dirty work, na faixa “Harlem shuffle”, tirei a roupa e dancei sem parar. Dois meses depois eu começaria a escrever uma carta aos autores e amigos comunicando a abertura da nova editora. O nome surgiu de uma conversa com o querido amigo José Paulo Paes, que acompanhara todo esse processo com interesse e carinho paternal. Zé Paulo, a quem fui pedir todo o tipo de conselho, sugeriu que a editora se chamasse Letras & Companhia. Eu inverti a sugestão e pensei numa caravela como logotipo ideal. A viagem estava por começar.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Minha vida de goleiro e Discurso sobre o capim, entre outros. Seu novo livro, Linguagem de sinais, será lançado pela editora ainda este ano. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

Uns e outros na primeira Flip

Por Luiz Schwarcz

Eric Hobsbawn durante a 1ª Flip (Acervo Associação Casa Azul)

Colocar a Flip em pé, de sonho pós-Hay a realidade em Paraty, foi muito mais difícil do que o previsto. As ideias começaram a jorrar, a mais maluca de todas era do Mauro — da qual eu virei o mais ferrenho defensor, mesmo quando seu mentor já percebera que se tratava da mais deslavada loucura —, de que os eventos deveriam ocorrer numa plataforma flutuante, no Rio de Paraty, ao lado da Praça da Matriz. Mas como livre pensar é só pensar, maluquices como essa apareceram desde o primeiro momento, logo no início de nossos trabalhos, em pleno jardim de Lord Charles.

No entanto, a montagem da estrutura, ou melhor, da falta de estrutura, para a primeira festa, a captação dos recursos e a cooptação dos editores brasileiros para a causa deu pano pra manga, e que manga!

Vamos por partes. Sem patrocínio, a estrutura viável era nula. Mauro e sua mulher Belita, incumbidos da captação, batalhavam, mas só conseguiam, inicialmente, meras promessas. Enquanto isso, eu procurava meus colegas editores para falar do projeto e pedir que ajudassem, trazendo alguns autores.  De cara imaginamos que a direção deveria contar com um editor paulista e um carioca. Sugeri o nome do Roberto Feith, com quem sempre tive ótimas relações. Roberto topou a princípio, mas depois julgou que a função conflitava com seu papel na Bienal do Rio. Começava assim o que eu julgo ter sido um grande mal entendido entre a Flip e os editores cariocas, e que durou alguns anos.

A Bienal do Rio, na época do início da Flip, já era um evento extremamente importante, e tocado com muito mais dinamismo e competência que a mesma feira em São Paulo. No entanto, nas reuniões com colegas cariocas, acabei sendo mal sucedido ao tentar mostrar que a festa literária não representava ameaça alguma à Bienal do Rio. Argumentei que eram eventos de natureza diversa e que, além do mais, a Flip ocorreria depois da Bienal. Um acordo se fez possível quando a Flip assumiu que sua programação só seria divulgada a partir da Bienal do Rio, ou melhor, dentro dela. Outras exigências foram feitas, entre elas a de que um tempo mínimo entre os eventos fosse respeitado. Apesar disso, o apoio à vinda de autores só ocorreu por parte da Companhia das Letras, que bancou as passagens internacionais de seus três autores e  acompanhantes. Eram eles: Don DeLillo, Eric Hobsbawn e Hanif Kureishi (além de Daniel Mason, que se encontrava no Brasil). A versão de que Peter Florence, diretor do Hay Festival, foi responsável pela vinda de Hobsbawn não é verdadeira.

Uma semana antes do anúncio, que conforme o combinado se daria em plena Bienal do Rio, os dois patrocinadores do evento — uma empresa de televisores e uma estatal — retiraram o apoio acordado, motivados por mais uma crise econômica que assolava o país. A empresa de televisores se comprometeu, ao menos, a doar produtos no mesmo valor que oferecera em dinheiro.

Liz resolveu cancelar a feira, e eu bati o pé:

— Se fizermos isso agora, nunca mais sonhe em promover um festival literário no Brasil. Vamos dar um jeito, anunciamos como previsto e depois vemos o que é possível.

E assim foi. No dia seguinte à Bienal saímos — Mauro, Belita e eu — a vender televisores e a passar o chapéu entre amigos, com o objetivo de pagar o resto das passagens, a mínima estrutura para a venda de ingressos, o show de abertura e todos os detalhes para a viabilização da Flip. Consegui contribuições de familiares e de outros amigos que se tornaram parceiros da Flip até hoje. Sugeri o nome de Flávio Pinheiro para diretor de programação. A família Marinho, entusiasta de Paraty, cedeu a Casa de Cultura, gerida pelas Fundação Roberto Marinho, em cujo salão improvisamos um auditório para pouco mais de cem pessoas.

A programação ficou a cargo do Flávio Pinheiro, que também apresentava os autores e mediava os eventos. Liz se incumbia de recepcionar seus convidados e assistia aos eventos com Louis na primeira fila. Enquanto isso, Belita, Mauro e eu nos virávamos fazendo de tudo. Fui bilheteiro, carreguei cadeiras e apresentei os autores brasileiros a um grupo importante de editores estrangeiros que vieram ao evento, alguns a meu convite, outros a convite da Liz.

A cobertura de imprensa ao evento foi espetacular, várias equipes da Rede Globo se deslocaram para Paraty, os jornais noticiaram todas as mesas. Embora no público estivessem poucos editores, Paulo Rocco foi a exceção — o então presidente do SNEL assistiu a todas as mesas da primeira Flip.

Eric Hobsbawn talvez tenha sido a grande estrela da festa. A fila de autógrafos de seus livros parecia interminável, e o já idoso autor, incansável, atendeu a quase todos. Em determinado momento, falei a Eric que ele parecia o Mick Jagger da Flip. Um dia depois, perseguido por fãs nas ruas de Paraty, ele me disse:

— Luiz, I am tired of this Mick Jaggering thing.*

Após os autógrafos, Eric, Don DeLillo e esposa e um grupo da Companhia das Letras jantavam no centro da cidade, quando notamos que um casal discutia vivamente na mesa ao lado. Em seguida a moça foi ao banheiro, contrariada. A editora Maria Emília Bender foi atrás e perguntou:

— O que houve, por que você está chorando?

— Meu marido quer se separar de mim. Por minha causa, atrasamos e ele perdeu a seção de autógrafos de Eric Hobsbawn.

Maria respondeu:

— Separe-se! Ele  está te tratando muito mal. Mas, antes disto, eu te consigo um autógrafo.

Poucos minutos depois, agradecido, com seu livro devidamente assinado, o marido em questão presenteou o velho comunista com uma medalha de Lênin, que trazia no bolso e que pertencera a seu pai. O sorriso de Hobsbawn e de seu leitor naquela noite eu nunca esquecerei.

No final da festa e nos balanços de 2003, a Flip foi celebrada em todos os jornais. O Globo, além disso, dedicou o prêmio de “Mico do Ano” aos que não acreditaram na Festa Literária de Paraty. Na ocasião, Flávio, Belita, Mauro e eu já trabalhávamos para profissionalizar a Flip, que teria que crescer sensivelmente no ano seguinte, devido a esse sucesso inicial.

Pedro Moreira Salles, meu sócio na Companhia das Letras, que assistira entusiasmado à primeira Festa, decidiu, por iniciativa própria, encaminhar ao Unibanco a proposta de patrocínio da segunda Flip. O entusiasmo do jornal O Globo continuou rendendo frutos e eu fui agraciado com um prêmio, entre outras razões, por ter acreditado e me dedicado à Flip.

Flávio saiu à luta para falar com os outros editores. Estávamos certos de que desta vez conseguiríamos o apoio necessário. Ao chegar na sede de uma importante editora, no entanto, ele foi recebido pelo editor em questão com o jornal que noticiava o meu prêmio nas mãos, e um pedido de explicações.

* Estou cansado dessa vida de Mick Jagger.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Minha vida de goleiro e Discurso sobre o capim, entre outros. Seu novo livro, Linguagem de sinais, será lançado pela editora ainda este ano. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

Lord Charles, o patrono desconhecido da Flip

Por Luiz Schwarcz

Atendentes durante um dos intervalos do Hay on Wye, festival que serviu de inspiração para a FLIP. (Foto por siansparkles)

Encontrei com Liz Calder pela primeira vez quando me tornei, por acaso, um editor conhecido de muitos editores estrangeiros na feira de Frankfurt de 1989. Naquele ano, todos corriam ao modesto stand brasileiro, atrás de um jovem editor tupiniquim que editara o livro que, segundo os boatos da Feira, viria a ser o novo best-seller mundial: Boca do Inferno, escrito pela também jovem e desconhecida Ana Miranda. Esse episódio, típico da Feira de Frankfurt, o qual contarei em detalhes no futuro, aproximou-me da elite dos editores internacionais, um grupo pouco familiar aos editores brasileiros, que, com raríssimas exceções, até então, estavam mais acostumados a lidar com os chefes do departamento de foreign rights do que diretamente com os editores das grandes companhias europeias e americanas.

Liz não ganhou a disputa pelo livro de Ana Miranda, mas ficamos amigos, e ela, que já havia morado no Brasil antes de se tornar editora na Inglaterra, falou-me, nos corredores da Feira, que desejava voltar ao país que não visitava havia décadas. Quatro anos depois, Liz aportou em pleno carnaval carioca, onde foi ciceroneada por mim, pela própria Ana Miranda e por Rubem Fonseca, habitués do sambódromo, para o qual o escritor se dirigiu escondido debaixo de um boné verde literalmente afundado em sua lustrosa careca. Sem grandes motivos, além da minha vontade de escapar do Rio nos últimos dias de Carnaval, mas no fundo pensando que seria interessante apresentar Liz a Amyr Klink, autor que eu tinha acabado de publicar, propus que fôssemos passar alguns dias em Paraty, após os desfiles. Lá dormimos, os dois casais e meus filhos, no chão da casa da mãe de Thomas Mann — na verdade um antigo moinho de cana —, arrendada por Amyr, aguentando qualquer desconforto pelos bons fluidos literários que daquele assoalho deveriam emanar diretamente para os nossos ossos, para a alma, sei lá. (Ou então é mais provável que, sedentos por um descanso após dois dias sob o som das baterias das escolas de samba, qualquer chão, de nobres origens literárias ou não, servia.)

Liz apaixonou-se por Paraty, pela obra de Amyr Klink, de Rubem Fonseca e, mais tarde, de Patrícia Melo, Chico Buarque e Milton Hatoum. Sua editora, a Bloomsbury, passou a traduzir mais autores brasileiros do que todas as editoras britânicas juntas, nos anos que antecederam a vinda de Liz ao Brasil. Decidiu também que  parte da sua aposentadoria se daria por aqui, mais especificamente em Paraty. Foi a partir desse encontro fortuito em Paraty que começou o namoro de Liz com a literatura brasileira e também, de certa maneira, a FLIP, que foi primeiramente sonhada por ela, mas formatada em diálogos com Mauro Munhoz (arquiteto que conhecemos juntos em Paraty através de Amyr Klink) e comigo. As conversas mais concretas, no entanto, passaram a acontecer a partir de 1997, quando, para promover os autores que editara, Liz organizou, em conjunto com o serviço cultural da embaixada brasileira, e com a minha ajuda, um convescote literário brasileiro em Hay on Wye, a mais importante festa literária do mundo anglo saxão. Para lá foram Rubem, Patrícia, Chico Buarque, João Gilberto Noll e os acompanhantes, Mauro Munhoz e eu. A viagem foi hilária. Depois de alguns dias hospedados no Groucho Club no coração do Soho, em Londres, partimos para Hay em dois carros: uma van para os escritores, um representante da embaixada e eu, e um carro onde foram Liz e Mauro. De Londres às Black Montains, no país de Gales, onde fica a simpática cidade com a maior concentração de antiquários e sebos por metro quadrado do mundo, é uma longa jornada. Certamente mais longa do que Liz imaginava, ou nos informou. Foram mais de quatro horas non-stop, com direito a apenas um pipizinho à beira da estrada. Durante esse tempo, para esquecer que morríamos de fome, resolvemos morrer de rir. João Gilberto Noll e o nobre embaixador sentados no banco de trás embarcaram num papo-cabeça: Nietzsche para cá, Walter Benjamim para lá, enquanto nós falávamos de mulheres, futebol e outros temas menos profundos e certamente politicamente incorretos. Num determinado momento, Chico e Rubem resolveram mesclar as conversas do carro e perguntaram ao João para que time ele torcia no Rio de Janeiro.

— Não tenho time no Rio — foi a resposta.

— Não tem time no Rio! Como assim, porra? — disse o Rubem. —Então a partir de hoje você é Vasco, time do Drummond, do Noel Rosa e meu!

Foi quando Chico, indignado, pulou do assento e começou a elencar razões literárias para que João escolhesse o seu Fluminense. Encerrou a argumentação descrevendo longamente uma visita que fizera com Vinicius de Moraes a Clarice Lispector (visita esta que de fato ocorreu e sobre a qual circula volumoso folclore):

— Chegamos ao apartamento de Clarice, e qual não foi nosso espanto ao ver que ela nos esperava com o uniforme completo do Flu, camisa e meias listradas, calção branco e calçando chuteiras. A Clarice estava de meião tricolor, eu juro, de meião verde, vermelho e branco! Agora não venha me dizer que depois dessa não é Flú desde criancinha, Gei Ji? (Chico chamava Noll pelas inicias do seu nome em inglês, como havia feito algum nativo em Londres, o que foi o suficiente para que cunhássemos esse apelido carinhoso ao nosso amigo durante a viagem).

Assim esperávamos as horas passarem, rindo à toa, até que, famintos, chegamos ao lindo hotel reservado por Liz: uma casa normanda rodeada por montanhas exuberantes, que ficava a uma hora de Hay, e onde dormiríamos na noite que antecedia o primeiro evento brasileiro na festa literária bretã.

Na chegada ao hotel, ocorreu outro momento memorável, quando, no papel de editor, fui me incumbindo das malas e consequentemente da gorjeta, que dei sem cerimônia para o senhor de trajes rurais que cuidava do jardim, e que nos ajudou com as bagagens. Afinal acabei dando gorjeta ao dono do palacete normando, que, em um  macacão surrado, na verdade exercia um de seu hobbies — tratava do belo jardim de seu casarão. Rubem, Chico e Patrícia não me perdoaram, gargalharam, ainda ébrios de fome, dizendo uma centena de vezes e apontando em minha direção:

— Hahaha, Luiz tipped Lord Charles, hahha, he tipped Lord Charles.*

Sem mágoa pela gorjeta inesperada, mas lamentando o fato de sua cozinha estar fechada entre o almoço e o jantar, “Lord Charles” (que certamente não era Lord nem Charles) serviu-nos o que pôde: um enorme queijo furado, com o qual nos deliciamos, no jardim rodeado pelas montanhas, enquanto, a cada pedaço, um de nós brindava aos colegas que ainda não haviam chegado, ou que descansavam em seus aposentos, enquanto o queijo suíço minguava até acabar:

— Este pedaço eu dedico com amor para a Liz.

— Este vai para o Gei Ji!

— Para o Mauro, saúde!

— Longa vida para o embaixador, quaquaquá!!!

No dia seguinte, o evento correu bem, a embriaguês de risadas havia sido superada, ou quase. Entre uma fala e outra, nós quatro piscávamos e sorríamos, lembrando da viagem e da chegada a Hay on Wye, sem comprometer a reputação da literatura brasileira no mundo britânico.

Celebrando o sucesso, agora todos juntos de volta ao hotel, e com merecidas taças de champagne nas mãos, Liz mencionou novamente o plano de realizar algo semelhante no Brasil, em Paraty.

Sete anos depois subiam ao palco, na Praça da Igreja da Matriz, Chico Buarque, Adriana Calcanhoto e Gilberto Gil, cantando e recitando poemas de Vinicius de Moraes, em homenagem dirigida por Susana de Moraes. Tinha início a primeira FLIP. Para chegar a ela o percurso não foi nada fácil. Quem leu as entrevistas de Liz Calder aos jornais brasileiros, do começo da FLIP até os dias de hoje, poderá notar que minhas lembranças do início do festival diferem das dela. Acontece.

* Hahaha Luiz gratificou o Lord Charles, ele gratificou Lord Charles.

[Excepcionalmente, a coluna desta semana de Luiz Schwarcz foi dividida em duas partes. A próxima parte entrará no blog amanhã.]

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Minha vida de goleiro e Discurso sobre o capim, entre outros. Seu novo livro, Linguagem de sinais, será lançado pela editora ainda este ano. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.