Colunistas

Puxa-puxa

Por Leandro Sarmatz


Não é preciso ler Kant para sabermos — aproximadamente, pelo menos — por que gostamos daquilo que gostamos. De fato é um cadinho de coisas: nossa história, formação, ânimo, gostos que puxam outros e que fazem parte de uma mesma constelação de referências.

Tem algo de muito especial quando travamos o primeiro contato com algum autor forte. Porque a coisa nunca se esgota. É uma promessa muito íntima de felicidade. Lembro, muito tempo atrás, quando “descobri” Borges. Eu sabia que agora teria um oceano de leituras pela frente. Os livros do próprio autor de Ficções mas também — numa operação que não tardei a descobrir como muito borgeana — todos os autores que o influenciaram, assim como aqueles que vieram depois. Era como “Kafka e seus precursores”, o ensaio clássico do argentino, só que na prática. E, como acontece com leitores adolescentes (meu caso naquele tempo distante), num processo entre trancos e barrancos. (Sim, Borges é um caso extremo para a minha argumentação, mas ok, isso acontece com quase todo autor forte.)

E a coisa se repete de tempos em tempos. Esse círculo virtuoso de descoberta e leitura-que-puxa-leitura. Isso se deu em 2005, quando li Noturno do Chile, de Roberto Bolaño, e aí corri atrás de tudo o que o chileno tinha escrito ou lido. Ou antes, no início da década passada, quando comecei a ler Joseph Roth em edições espanholas. Ou em 2007, quando tracei toda a obra de Bruce Chatwin e depois fiquei — nômade literário — buscando todos os escritores-viajantes britânicos do século XX. Ou mesmo os poetas todos, em que o diálogo com a tradição e os pósteros parece ser ainda mais agudo, embora igualmente difícil (e fascinante) de escavar. Trata-se de um esporte obsessivo. É mesmo um tipo de adição.

Acho que isso deve acontecer com muitos leitores. Ou ouvintes de jazz, cinéfilos etc. É o que deve manter a curiosidade aguda e o élan para novas leituras. Sinto-me vazio, só casca e serragem, quando habito algum tipo de hiato entre essas descobertas e buscas incessantes. A vida (de leituras, pelo menos, ou a minha, se tanto) parece andar de fato quando isso está acontecendo. Um livro novo, uma penca de livros antigos, a expectativa por leituras futuras. O nome disso é alegria, ou alguma coisa muito parecida com ela.

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Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

 

O fim da infância

Por Joca Reiners Terron


A Seleção de 1982

Ah, época de Copa do Mundo é fogo… daqui a exatos dezenove dias muitos meninos e meninas em todo o mundo terão deixado de ser crianças antes da hora.

Copas do Mundo são especialistas nisso, em antecipar as coisas. Eu mesmo vi minha infância se escafeder num átimo: foi em 5 de julho de 1982. Quando Brasil e Itália começaram a jogar eu ainda era um moleque de 14 anos. No final da partida já havia nascido uma barba cerrada em minha cara, chegava quase ao peito. E enquanto minha infância entrava no túnel do vestiário e desaparecia para sempre junto de Zico, Sócrates e turma, eu arrancava o meu primeiro fio de cabelo branco.

O problema de ser jogado na vida adulta desse jeito, sem vaselina ou KY algum, é que a gente fica meio cético. Não só no referente ao futebol, mas em relação a tudo. Por exemplo, quando me casei e o padre perguntou à minha noiva se ela se casava por livre e espontânea vontade, ela disse que sim, mas eu, que sou vítima da Copa de 1982 e cético, não acreditei muito, e murmurei um “mas é SIM de verdade?” que arrancou risos dos padrinhos. E quando minha filha nasceu e a colocaram em minhas mãos pela primeira vez fiquei com um verdadeiro circo de pulgas atrás da orelha. Perguntei à enfermeira: “Tem certeza que é a minha filha mesmo, né? Não é possível que vocês tenham se enganado de bebê, não é mesmo?”.

Tudo culpa da Copa do Mundo.

E não é só comigo que é assim, não, mas com o Delei, com o Ary, com o Xandão, meus amigos do tempo do colégio: todos céticos de carteirinha que duvidam até da própria mãe. Absoluta e irrevogável culpa da Copa de 1982, tudo por conta de nossa infância surrupiada antes da hora.

Para você fazer ideia: quando hoje em dia ouvimos os comentários do Falcão naqueles jogos de futebol na TV, eu, o Delei, o Ary e o Xandão tapamos os ouvidos. E quando o Zico promete mundos e fundos dizendo que a seleção japonesa — que ele conhece bem — vai fazer barba e cabelo, sushi e sashimi hoje contra a Colômbia, eu, o Delei, o Ary e o Xandão pensamos que os japoneses deveriam mais é abrir os olhos, se pudessem. Promessas de Zico nunca mais, entoamos em coro. Daquela trupe de 82 o único que merece algum crédito ainda é o Arnaldo César Coelho. E somente porque ao apitar a final entre Itália e Alemanha ele nos deu um gostinho esquisito na boca que nós, ingênuos que éramos, confundimos com felicidade. Era só patriotada pré-Abertura política.

Por outro lado, a molecada de hoje em dia vê sua infância correr risco de extermínio bem antes da Copa do Mundo ter início. Sim, pois antigamente eram as crianças as encarregadas de decorar as ruas dos bairros, as calçadas, a pintar os muros com os nomes dos jogadores. Hoje em dia quem decora as ruas são os bancos e as operadoras de celular. Qual a necessidade de meninos e meninas decorarem a rua, pois se onde quer que olhemos há pôsteres e outdoors de Neymar e David Luiz? Hoje em dia as figurinhas dos álbuns são autocolantes, meu Deus! Não tenho mais certeza se a seleção brasileira é o time dos sonhos das crianças, mas dos publicitários certamente ela é. E que sonhos cheios de cifrões.

Pensando bem, até que tive uma infância legal. Foi curta e dolorida, mas foi feliz.

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Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu novo livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Maracanaço

Por Érico Assis


“My Travels with the Curse of Maracanã”, reportagem de Christoph Niemann para o The New York Times.

A recomendação veio do Scott McCloud e, por vir dele, virou aquela avalanche de likes e retweets e alarmes entre a (nossa) turma de seguidores: “My Travels with the Curse of Maracanã”, reportagem de Christoph Niemann no site do New York Times. Não uma reportagem qualquer do Times, mas uma reportagem em… uhm… ahm… quadrinhos? Powerpoint? Livro ilustrado digital?

Bom, é o seguinte: Niemann foi enviado ao Rio de Janeiro para trazer algo sobre “o espírito da Copa do Mundo”. Sua produção é uma sequência de (quadros? páginas? slides?) que usam fotos, desenhos, desenhos sobre fotos, desenhos animados, desenhos animados sobre fotos, trilha incidental, efeitos sonoros e dois trechinhos de vídeo em loop. E, sim, uma bela narrativa sobre o Maracanaço — o monstro da derrota na Copa de 1950 — e Moacir Barbosa — o goleiro da Seleção na época. Numa das primeiras (cenas? montagens? parágrafos?), Niemann fica trocando bola com o Cristo Redentor.

O Times chama Niemann de “colunista visual”. Seus textos, usando a definição ampla de texto, sempre baseiam-se em ilustração, animação, fotografia e algumas palavras. A última postagem de seu blog Abstract Sunday, por exemplo, traz um obituário de André Cassagnes, criador da Tela Mágica, numa sequência de desenhos feitos numa Tela Mágica vintage. No currículo, ele tem livros infantis ilustrados, livros ilustrados não-infantis e apps.

Mas o caso é que a recomendação veio do Scott McCloud, o cara que escreveu Desvendando os Quadrinhos e que abriu milhões de cabeças para a definição de uma história em quadrinhos — o que nos (me) deixa pensando se ele queria recomendar a reportagem de Niemann, independente de suas animações, áudio e vídeo, como história em quadrinhos.

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Aí que, sincronisticamente, no mesmo dia da matéria de Niemann, o Guardian publicava uma conversa com Alan Moore falando de seu novo projeto de quadrinhos para internet: o Electricomics. O esquema ainda deve levar um ano para entrar no ar, mas incluirá uma plataforma/ferramenta/app/engenhoca para os próprios usuários criarem webcomics, colaboração de outros nomes conhecidos dos quadrinhos e Moore em si roteirizando uma nova versão de Little Nemo.

Já no segundo parágrafo, Moore dispara que não acha que os quadrinhos precisem se reinventar para a internet. “Não tenho a mínima ideia [do que se tem feito] porque não tenho qualquer tipo de presença da internet, nenhum desses aparelhos, nenhum tablet e, para ser bem sincero, não me envolvo mais com a cena dos quadrinhos.”

Ok. Envolvido ou não, Moore resolve dar uma aulinha sobre o que (não) viu. A reportagem explica que ele cita uma página do Spirit de Will Eisner na qual o herói investiga uma casa vazia: “Tem-se um quadro da cozinha no escuro. Uma torneira no primeiro plano, e da boca da torneira sai uma gota d’água levemente prolongada. Fosse num quadrinho digital, você estaria tentado a deixar aquela gota pingar, quem sabe adicionar um efeito sonoro, ping-ping-ping. Mas a narrativa não ficaria melhor e você estragaria a elegância que há no original de Eisner, onde o esticar da gota nos diz que ela vai cair em questão de segundos, e outra gota vai se formar. [Os quadrinhos são uma tecnologia] que se apoia no hardware do cérebro, no software da mente. Os efeitos potenciais já estão criados lá. Evitar esses badulaques seria um dos primeiros princípios a que os quadrinhos digitais deveriam ater-se”.

Moore não está nem aí para as reportagens de Niemann serem ou não quadrinhos. Nem para o que McCloud já defendeu sobre potencialidades a explorar no quadrinho digital. Provavelmente nunca viu Thunderpaw. Nem When I Am King. Nem “Our Toyota Was Fantastic”, na qual Boulet lembra das viagens de infância e faz as luzes da estrada passarem sobre o carro, uma memória que é ao mesmo tempo estática e animada em loop. E por que não chamar isso de quadrinho?

Tudo bem que cada um faz seu gibi do jeito que quiser. Mas lançar-se num projeto novo de webcomics já ditando princípios e torneiras que não pingam soa como contrassenso.

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Outros já tentaram categorizar os trabalhos de Christoph Niemann. Steven Heller diz que “não é ilustração no seu sentido convencional, pois está mais para uma espécie de pensar visual tão racional quando a ciência e tão irracional quanto a arte. É divertido, peculiar, mas também uma perspectiva de vanguarda, que atrai os sentidos.”

Mike Wenthe, tratando justamente da pergunta “isso é quadrinho?”, diz que o trabalho de Niemann talvez não se encaixe nas definições formais de quadrinhos, “mas eu prefiro ver como algo que expande os recursos dos quadrinhos, assim como a poesia expande os recursos da língua, ao invés de algo que não se equipara a um padrão ortodoxo. Sem esquecer que: é divertida”.

E basta isso: “My Travels with the Curse of Maracanã” é divertida. Leia (/assista/acompanhe/clique/etc.).

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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O escritor viajante

Por Raphael Montes


Foto: CSB RJ

Desde o lançamento de Dias perfeitos, em abril, tenho viajado semanalmente para participar de eventos, feiras literárias, debates e bienais. Fiz noites de autógrafo no Rio e em São Paulo. Em maio, estive na II Bienal do Livro (Brasília), na Flipoços (Poços de Caldas) e na Bienal de Campos dos Goytacazes. Tive também oportunidade de ir ao Colégio de São Bento, onde estudei, conversar com os alunos de uniforme azul (foi lindo, emocionante). Junho não deixou por menos: eu, Tony Bellotto e John Simenon fizemos uma “Jornada Simenon” por ocasião do lançamento das obras de Georges Simenon pela Companhia das Letras. Pouco depois, estive ao lado do meu amigo Santiago Nazarian para o Sempre um Papo, um ótimo evento de literatura, com debates em Belo Horizonte e São Paulo. Nessas ocasiões, sempre que possível, aproveitei ainda para encontrar com livreiros. Esse contato é muito positivo não só para apresentar meu trabalho, mas para ouvir o outro lado, a experiência de quem vive o dia a dia das livrarias e tem contato direto com o público-leitor. Percebo que muita gente descobre literatura brasileira contemporânea através do boca a boca e através da indicação dos livreiros.

Em um desses eventos, um rapaz da plateia me perguntou se viajar para divulgação do livro é uma obrigação do escritor contemporâneo. Antes de tudo, é bom esclarecer que participar de eventos não tem nada a ver com literatura. Quero dizer, estar em debates não melhora em nada meu texto (e também não piora). Assim, se um escritor prefere não participar de eventos, não será um mau escritor por isso. Pessoalmente, participo de eventos porque acho o contato com o leitor uma troca gratificante, é o momento em que o escritor consegue ter o retorno imediato das impressões de seu público. Mais importante, é o momento em que o escritor atinge leitores que em outro contexto jamais chegariam ao livro.

Em Campos dos Goytacazes, por exemplo, conversei com turmas de jovens adolescentes, muitos sem costume de ler. Aproveitando a oportunidade de conhecer um escritor, vários acabaram comprando o livro. Depois, vieram me procurar no Facebook e pedir mais indicações de leitura, pois descobriram que gostavam de ler. Ou seja, descobriram um prazer que as leituras escolares não costumam provocar — me perdoem a sinceridade, mas José de Alencar não é para ser lido por jovens de catorze anos como leitura obrigatória. Nas mesas com o Santiago Nazarian, a experiência foi outra e rolou um intercâmbio incrível: leitores dele conheceram meu trabalho e vice-versa. No fim das contas, todos ganhamos novos leitores.

Não bastasse, participar de eventos sempre gera imprensa e cachê, o que é ótimo. Infelizmente, no Brasil, ainda impera certa noção de que ser comercial — efetivamente vender livros, estar na mídia — é sinônimo de má qualidade. Manter contato com leitores é visto com maus olhos; bom escritor deve viver recluso. Pensamento mesquinho, ultrapassado. No exterior, a turnê do escritor é regra, não exceção. Reitero: escrever bem ou mal não tem qualquer relação com disponibilidade ou popularidade.

Conheço muitos escritores que viajam para eventos e, ao mesmo tempo, escrevem seus próximos livros. Para mim, é impossível escrever enquanto aguardo o embarque do voo. Entre arrumações de malas e check-ins, comecei a rascunhar o próximo romance, mas sem pretensão de fazer algo sólido. Escrevi trechos avulsos, passagens que ainda precisam ser muito lapidadas. A Copa do Mundo chegou para me dar dois meses dedicado ao próximo livro — com descanso apenas para assistir aos jogos do Brasil. Em agosto, volto a pôr o pé na estrada (ou no aeroporto). Bienal de São Paulo, Paraty (Casa SESC), Araxá, Porto Alegre, Paraná… E assim vou descobrindo novas feiras literárias, vou conhecendo cidades, vou mantendo contato com leitores de todo esse Brasilzão. Ontem, um professor de literatura me procurou para dizer que seus alunos do primeiro e segundo ano do Ensino Médio escolheram ler Dias perfeitos como leitura do bimestre — um método bem melhor, não? — e me pediu para gravar um vídeo aos alunos. Aceitei, claro, e ofereci a possibilidade de ir à escola conversar com esses jovens. Sem dúvida, será uma troca riquíssima e deliciosa. Fazer eventos não me torna um escritor melhor, mas talvez me torne uma pessoa melhor. Tá valendo.

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Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Advogado e escritor, publicou contos em diversas antologias de mistério, inclusive na revista americana Ellery Queen Mystery MagazineSuicidas (ed. Saraiva), romance de estreia do autor, foi finalista do Prêmio Benvirá de Literatura 2010, do Prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do Prêmio São Paulo de Literatura 2013. Em 2014 lançou seu novo romance pela Companhia das Letras, Dias perfeitos. Atualmente, o autor realiza trabalhos editoriais, ministra palestras sobre processo criativo e escreve o projeto de uma série policial para TV.
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Qual a propriedade intelectual mais quente do momento? O livro

Por Ana Maria Bahiana


Cena do filme Uma longa queda.

Num debate recente, durante minha passagem pelo Brasil para o lançamento do Almanaque 1964, aprendi que, na terra onde nasci, literatura tem grande dificuldade em ser ao mesmo tempo respeitada e consumida.

A ideia me chocou e me fascinou — talvez porque, nos últimos meses, eu venha acompanhando de perto, por vários motivos, a fome insaciável da indústria audiovisual, aqui, por livros, livros a mancheia. Uso a expressão “indústria audiovisual” intencionalmente — faz tempo que cinema e TV, antes rivais pelos amores da platéia, estão de mãos dadas num caloroso romance. E compartilham, além de talentos, ideias e público, esse apetite pela criação literária.

E não, não estou falando exclusivamente de obras infanto-juvenis ou de auto-ajuda. “Eu diria que 99% do interesse de executivos e produtores, hoje, é voltado para livros”, me disse um agente especializado em representação literária numa das maiores agências de Los Angeles. “A era de supremacia do roteiro original parece cada vez mais distante. Hoje todos querem saber qual é o próximo grande livro”.

A estimativa do meu conhecido é mais do que correta. Pelos cálculos da revista Variety existem hoje mais de uma centena de obras literárias sendo adaptadas para cinema ou TV. Até meados do ano que vem, 36 deles terão sido lançados nos Estados Unidos e ao redor do mundo — eles vão de séries adolescentes como Jogos vorazes e Divergente a obras de  Joan Didion (A Book of Common Prayer), Thomas Hardy (Far From the Madding Crowd, que já foi adaptada  quatro vezes para telas grandes e pequenas), Nick Hornby (Uma longa queda), Elmore Leonard (The Switch) e Thomas Pynchon (Vício inerente).

Enquanto isso, na TV, Game of Thrones, baseado nos livros Uma Canção de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin, torna-se a série mais vista de toda a história da HBO, a Netflix emplaca a segunda temporada de Orange is The New Black, baseada no livro do mesmo nome de Piper Kerman e a Starz transforma a pesquisa histórica Washington’s Spies na série Turn. Isso sem falar em True Blood, baseada nos livros de Charlaine Harris, e na nova The Leftovers, adaptada do livro homônimo de Tom Perrota.

O roteiro original, a obra escrita expressamente para a tela, teve vários momentos de glória — o mais recente nos anos 1980 e 90, quando tanto o cinemão comercial quanto o cineminha independente procuravam o conceito perfeito, a ideia tão condensada, precisa e original que podia, sozinha, ancorar toda uma narrativa audiovisual. Duro de Matar num ônibus! (Velocidade Máxima); Quatro histórias de crime e castigo em Los Angeles! (Pulp Fiction).

Nesses tempos mais simples, uma única história servia para o gasto: para se pagar nas bilheterias, dar lucro, lançar carreiras.

Não vivemos mais nesses tempos singelos — as plateias da segunda década do século 21 são superestimuladas, inconstantes, desatentas. Narrativas, por si mesmas, não apetecem mais. São precisos mitos, mundos, uma tapeçaria de experiências diversas.

E isso o livro faz como ninguém.

Quando um produtor opta uma obra literária ele está comprando muito mais que uma trama ou um texto que já vem com todos os seus problemas estruturais resolvidos: está comprando o universo que o autor criou para seus personagens, o contexto que eles habitam (a famosa e tão difícil backstory dos roteiros), as indicações de novos possíveis caminhos paralelos a seguir. O livro tem o que o cinema ou a TV não podem, por desígnio, ter: todo o tempo do mundo, administrado de um lado por quem escreve, de outro por quem lê.

Além de tudo isso, o livro traz consigo um dos bens mais preciosos nesses tempos altamente competitivos: todos os seus leitores — ou seja, um bom naco de platéia — praticamente garantido.

Não exagero quando digo que, hoje, não existe propriedade intelectual mais quente para a industria audiovisual do que um bom livro. Talvez apenas uma boa história em quadrinhos ou graphic novel. Mas o princípio é o mesmo… A trama bem urdida e apresentada, seja em ficção ou não ficção, é, hoje, o sonho de qualquer produtor que sabe o que está fazendo.

O que deixa aos roteiristas a quase sempre ingrata tarefa de adaptar o texto literário, com sua calma espraiada por páginas e mais páginas, para o rigoroso tempo condensado da tela. Mas isso, mais uma vez, já é outra história…

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Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

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