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Meu começo favorito — ou um contrato a ser rompido parágrafos depois

Por Luiz Schwarcz

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Ilustração: Alceu Chiesorin Nunes

livre42Aquela era mais uma tarde de calor escaldante, e a pilha de originais, que deveria diminuir ou até sumir — para depois voltar a crescer, com a chegada cotidiana de novos pacotes pelo correio —, dava a impressão de permanecer sempre do mesmo tamanho. Efeito do calor ou do cansaço com a tarefa de ler mais e mais manuscritos que nunca paravam de chegar? O editor em sua pequena sala, que ficava nos fundos da gráfica fundada pelo avô, lia o primeiro parágrafo dos livros e passava o lenço na testa. O primeiro parágrafo lhe bastava. Sabia se devia continuar a leitura simplesmente a partir da análise daquelas primeiras linhas. Um parágrafo e o livro em questão podia ser descartado, como o suor que ele extirpava da testa.

O parágrafo acima poderia ser o começo de um romance. Minha primeira tentativa de escrever uma narrativa ficcional longa — frustrada, como todas que se seguiram — começava mais ou menos assim. Ou melhor, abria citando uma série de começos de romances fictícios que o suposto editor recebia e rejeitava depois de ler apenas um parágrafo. Talvez nem seja preciso dizer que o romance pretendia ser uma sátira ao mundo editorial. Seu enredo chegaria até a Feira de Frankfurt, para onde o editor desencantado levaria excertos de um falso romance de sua lavra, com resenhas inventadas, listas de mais vendidos fajutas e todo o tipo de lorota — fruto do seu desgosto com os rumos de sua vida profissional. O trote dava certo: o livro fajuto, idealizado a partir do que estava na moda no mercado editorial da época, era vendido para uma dezena de países, e a partir daí o narrador/editor se via em apuros. Tinha que voltar ao Brasil e de fato escrever um livro, do qual só possuía a ideia e os trechos utilizados para vender os direitos no templo do comércio editorial. E, além do mais, ele era um simples editor, cansado da profissão, e não um escritor de talento.

Esse romance, por graça do meu senso crítico, nunca foi em frente. Mas ao menos serviu de abertura para esta crônica, na qual pretendo falar do começo dos livros, de um punhado de primeiros parágrafos exemplares, que na minha ficção frustrada tentei ironizar.

Já usei este espaço para tratar das páginas em branco e do que viria antes da abertura dos livros (Narrar é tomar decisões — ou uma nova frase para Descartes); ou seja, dos escritores que tentam pensar todo o livro previamente e dos que começam a imaginar o livro só ao escrever. Para qualquer um deles a abertura do livro é vital. Como “antes de qualquer começo há sempre a ideia de começar” — como diz Edward Said em seu denso e belíssimo livro Beginnings (Columbia University Press, publicado no Brasil pela Ediouro com o título E a história começa) —, a abertura de um livro pode ser considerada sempre um recomeço, o momento através do qual, a partir de laços adquiridos previamente e comuns ao leitor e ao autor, se estabelecem a voz do narrador e sua autoridade.

Amós Oz, em um livro também sem edição brasileira, intitulado The Story Begins, explica que o primeiro parágrafo é onde se instala um contrato entre autor e leitor. Contrato que poderá ser desrespeitado — e isso acontece em boa parte dos casos — durante a confecção do texto ou no transcorrer da sua leitura.

Oz diz que a página que receberá as primeiras linhas de um livro é para o escritor como um muro branco sem portas ou janelas. Para ele, começar a contar uma história é como “passar uma cantada numa pessoa desconhecida, que vemos pela primeira vez, sozinha num bar”.

O início de um livro é tão importante que a minha ficção frustrada sobre um editor infeliz tinha de fato alguma base real. Sem dúvida um profissional tarimbado principia avaliando um livro por seu parágrafo de abertura, e é, em muitos casos, capaz de intuir a partir dali se deve continuar. É verdade que alguns inícios podem estar muito aquém do conteúdo total do livro (justificando, aliás, o teor sarcástico que eu pretendia dar à minha ficção). Oz cita o caso de Noites brancas, um conto de Dostoiévski que possui um começo banal ou até sentimental. Ele se pergunta então: será por que a tarefa de começar um livro é tão difícil que alguns autores desistem no meio do esforço? Será por isso que iniciam seus livros sem um parágrafo realmente significativo? “Só Deus sabe”, ele diz, “quantos rascunhos e mais rascunhos vieram antes da frase inicial, tendo sido destruídos, abandonados, rabiscados, amassados, jogados no fogo, na privada, até que finalmente ficou decidido que é isso, agora vai.

Mas a questão não é tão simples assim. Segundo o escritor israelense temos que ficar atentos: em Noites brancas a narração em primeira pessoa se constrói a partir do ponto de vista de um personagem sentimental, e o começo simplório pode ter sido premeditado, isto é, propositalmente banal, para estabelecer o tom da narrativa.

Nesse sentido, a ideia do contrato entre autor e leitor permanece de pé. A metamorfose, de Kafka, por exemplo, pede um acordo imediato com o narrador, para que entremos no mundo fantástico do autor. Na tradução de Modesto Carone, lemos: “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas, no topo do qual a coberta, prestes a deslizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos”. Trata-se de um dos começos de livro mais emblemáticos de todos os tempos. Nele, o acordo não se romperá até o final. O escritor checo sempre nos convida para um mundo do qual não podemos sair. Só no ponto final. Mesmo assim, aposto que os leitores dessa fábula fantástica demoraram para deixar o livro e voltar para o seu cotidiano, ou então, ao retornar, não eram mais os mesmos.

Cada um de nós tem guardado na memória os começos de livros que mais nos marcaram. Oz cita vários de sua predileção, mas menciona muito especialmente o parágrafo inicial de A divina comédia, de Dante, que considera a abertura exemplar para todos os livros, ou mesmo a metáfora perfeita para a situação em que se encontra o escritor ao começar a escrever sua obra. “No meio do caminho desta vida me vi perdido numa selva escura, solitário, sem sol e sem saída.”*

Ao pensar nesta crônica, tentei voltar às aberturas de romances que mais me impressionaram, e de cara lembrei de como Albert Camus inicia um dos livros favoritos da minha adolescência: “Hoje minha mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: ‘Sua mãe falecida. Enterro amanhã, Sentidos pêsames’. Isso não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem”.**

O contrato (existencialista) entre autor e leitor de O estrangeiro se delineia já aí. Nada do passado importa, só o presente!

Meursault, o personagem narrador de Camus, entrou de forma tão impactante em minha vida quanto Gregor Samsa. No entanto, seguindo o raciocínio de Amós Oz, também o contrato proposto nas linhas iniciais dessa obra-prima se quebrará no transcorrer do livro. O passado conta, sim, e a morte da mãe não passa incólume, como o descaso do primeiro parágrafo ou a falta de lágrimas de Meursault no enterro procuravam deixar entrever. Ao parágrafo inicial sucede a descrição do velório e do féretro da falecida, marcando também a presença de um personagem que será importantíssimo no livro: o sol, ou melhor, o incômodo causado pelo calor do sol. Assim, por meio desse laço tênue, que une o enterro (e, por conseguinte, a morte) da mãe ao crime que Meursault irá cometer páginas adiante, o leitor virá a entender que a perda da mãe não é desimportante, como quis mostrar o narrador no parágrafo inicial do livro. É o mesmo calor insuportável do enterro que ofusca a visão e incomoda Meursault na hora do crime. O contrato entre autor e leitor ficará mais claro e será refeito de certa forma perto do final do livro, quando entendemos de onde fala o narrador, ou em que lugar se constrói a narrativa que acabamos de ler. Na situação em que se encontra Meursault, o passado não vale mais nada, e o parágrafo inicial volta a fazer sentido.

Dessa forma, é bom prestar atenção nas aberturas dos livros, como o fazem, para o bem e para o mal, os editores. O começo genial de Anna Kariênina, lembrado por Oz, é também bem interessante. Sem se aprofundar no porquê, o escritor israelense diz que Tolstói contradiz, durante o livro, a frase com que inicia seu romance: “Todas as famílias felizes se parecem entre si, todas as infelizes são infelizes à sua própria maneira”. Esse contrato, que ele chama de filosófico, quebra-se com o andamento do livro.

Entendo que o que Oz quis dizer é que o romance de Tolstói é tão rico que prova que nem na felicidade somos todos iguais. Ou até que a frase poderia ser invertida e iniciar o mesmo romance com a afirmação de que somos iguais na infelicidade e singulares na alegria. Quem sabe?

A mim agradam os começos que já desautorizam ou relativizam o poder do narrador, como o fazem de forma genial Cervantes, Machado de Assis e Laurence Sterne, em Dom Quixote, A vida e as opiniões do cavalheiro Tristram Shandy e Memórias póstumas de Brás Cubas. Neles, o leitor já é avisado que o contrato firmado não é dos mais confiáveis, ou está sendo assinado por um narrador pouco confiável, por diferentes motivos, de quem não compraríamos nem uma caixa de fósforos! Será quebrado na próxima linha, ou até mesmo poucos parágrafos depois. Além dos romances já citados acima, o início de livro que mais marcou minha vida de leitor talvez tenha sido o de O jogo da amarelinha, de Julio Cortázar:

“Encontraria a Maga? Tantas vezes, bastara-me chegar, vindo pela rue de Seine, ao arco que dá para o Quai de Conti, e mal a luz cinza e esverdeada que flutua sobre o rio deixava-me entrever as formas, já sua delgada silhueta se inscrevia no Pont des Arts, por vezes andando de um lado para o outro da ponte, outras vezes imóvel, debruçada sobre o parapeito de ferro, olhando a água. E, então, era muito natural atravessar a rua, subir as escadas da ponte, dar mais alguns passos e aproximar-me da Maga, que sorria sempre, sem surpresa, convencida, como eu também o estava, de que um encontro casual era o menos casual em nossas vidas e de que as pessoas que marcam encontros exatos são as mesmas que precisam de papel com linhas para escrever ou aquelas que começam a apertar pela parte de baixo o tubo de pasta dentifrícia”.***

É assim que o autor argentino começa um romance no qual propõe que o leitor escolha duas ordens possíveis para seguir os capítulos. É quase um convite explícito para encontrar a história de surpresa, sem hora ou lugar marcado, como o faziam, nas ruas de Paris, o narrador Horácio Oliveira e sua misteriosa amiga Maga. Afinal, não é este tipo de encontro, ao acaso, que procuramos ao iniciar qualquer livro?

Notas

* Tradução de Augusto de Campos.

** Tradução de Antônio Quadros (editora Abril Cultural).

*** Tradução de Fernando Castro Ferro (editora Civilização Brasileira).

Ps.: Se vocês, leitores, lembram de outros inícios de livros marcantes que não foram citados neste post, compartilhem conosco aqui nos comentários.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Escreve pra o blog uma coluna quinzenal.

Míseros 25 livros

Por Carol Bensimon

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Foto: Marco Hamersma

Gosto de comprar revistas quando estou no aeroporto. A última que comprei foi a edição de junho da Galileu, editada pela amiga Cristine Kist, que aparentemente está fazendo uma pequena revolução lá dentro. O editorial da Cris, aliás, menciona que a revista vai mexer em alguns lugares-comuns do jornalismo, como um que determina que “enquanto os entrevistados homens são tratados pelo sobrenome, as mulheres são citadas sempre pelo primeiro nome”. Acho bem estranho mesmo me chamarem de Carol em resenhas, não de Bensimon. Fica a dica. Obrigada, Kist.

Mas o que eu queria dizer é que, na página 18, alguns dados sobre livros no Brasil, comparados a dados de outros países, me chamaram atenção enquanto eu estava indo rumo a Cachoeiro do Itapemirim para um evento literário, com o ilustre José Eduardo Agualusa no banco de trás. Mostrei os infográficos para ele, inclusive, despertando-o de um devaneio e fazendo-o tirar seus fones de ouvido (o que Agualusa estava escutando nas estradas do Espírito Santo?). Um deles dizia respeito ao preço médio do livro no Brasil, França, Itália, Reino Unido, Estados Unidos e Rússia. Os dados mostram que a ideia muito difundida de que, no Brasil, o livro é caro, está parcialmente (chegaremos lá) equivocada: Na França, um livro custa em média R$ 36. Itália: R$ 24. Reino Unido: R$ 34. EUA: R$ 32. Rússia: R$ 17. Brasil: R$ 35.

Esse dado, se isolado, diz mesmo muito pouco. Na França, um país com um índice de leitura elevado, o livro custa em média o que custa no Brasil, onde qualquer dado que envolva venda de livros e índice de leitura por habitante precisa ser inflado com livros religiosos e livros de colorir para que a gente fique menos deprimido. A questão está quando se combina esse dado (preço médio) com outros dados: valor de salário mínimo e quantidade de livros que um salário consegue comprar. Um salário mínimo compra 238 livros no Reino Unido. EUA: 176 livros. Itália: 167 livros. França: 163 livros. Brasil: 25 livros. Rússia: 18 livros.

A questão, portanto, é que o livro é sim caro no Brasil, se considerarmos o poder de compra da maioria da população. Nesse sentido, seria importante que as cidades brasileiras pudessem contar com uma boa rede de bibliotecas públicas, acessíveis e atualizadas, o que não é exatamente o que se vê por aí, salvo honrosas exceções (alguns meses atrás, em outra feira literária, um ilustrador convidado impressionava-se com o fato de que a biblioteca da cidade tinha sido montada apenas com doações. Seu acervo era, em resumo, o refugo da casa dos outros).

A dificuldade em combater o analfabetismo, segundo a Galileu, explica também o “atraso do desenvolvimento da literatura brasileira”: em 1876, 78,11% da população do Brasil era analfabeta, um número brutal se comparado aos 14% de norte-americanos que não sabiam ler e escrever em 1870.

Chocante, triste, desalentador. Mas imperdoável é a elite que não lê. Nesse caso, o acesso ao livro ou a taxa de analfabetismo não explicam tanto quanto a quase completa falta de valor simbólico da literatura no Brasil. Para tornar o cenário mais dantesco, as últimas semanas mostram como uma parcela da população está pronta para demonizar o artista, rotulá-lo de vagabundo, aproveitador ou de, no mínimo, inútil.

No voo entre Vitória e Rio de Janeiro, sentei ao lado de uma mulher mais ou menos da minha idade e muito disposta a conversar. Enfiando de tempos em tempos a mão de unhas vermelhas perfeitas em um saco de pipoca doce, ela me contou que atualmente mora em Santa Catarina, entre Jurerê Internacional e a serra, onde administra um frigorífico. Perguntou-se em seguida com o que eu trabalhava, o que eu tinha ido fazer no Espírito Santo, etc. Pareceu empolgada com o fato de que eu era escritora para, então, logo dizer: “daqui a pouco tu tá na tevê escrevendo novelas”. Como se fosse algo que, evidentemente, eu deveria almejar.

* * * * *

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

História da vida privada

Por DW Ribatski

Novamente um texto que assusta por sua semelhança com nossa realidade mesmo se passando há milênios atrás.

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Quadrinização de História da vida privada — Vol. 1.

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DW Ribatski nasceu em Curitiba em 1982. É artista plástico, ilustrador e quadrinista. Já colaborou com diversas publicações, como o caderno Ilustríssima da Folha de S.Paulo e a revista Superinteressante, entre outras. Nas HQs, publicou Campo em branco (Quadrinhos na Cia., 2013), Como na quinta série (Balão Editorial, 2012), La naturalesa (coleção MIL, Cachalote/Barba Negra, 2011), Vigor Mortis (Quadrinhofilia/Zarabatana Books, 2011, com José Aguiar e Paulo Biscaia) e Dois (Roax Press, 2013). Contribui para o blog com uma coluna mensal de quadrinhos.
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Em tradução (O Livro de Aron)

Por Caetano Galindo

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Como eu tinha mencionado antes, esse O livro de Aron, de Jim Shepard, que deve sair daqui a pouco, além dos problemas previsíveis da tradução de uma narrativa em primeira pessoa, feita por um adolescente do gueto de Varsóvia (tipo representar uma voz virgem de literaturices, marcada diacronicamente por esses 70 anos de distância, sem ao mesmo tempo alienar os leitores mais jovens que são parte relevante do público aqui… e sem também apelar pra algum tipo de “populismo” discursivo), foi o texto que me apresentou ao drama da tradução (ou não tradução!) de um trocadilho multilíngue de língua incerta e não sabida!

What…?

Pois é. Isso mesmo.

A questão é a seguinte, e pode ser um belo exemplo não só das diversões da tradução literária, mas também do tipo de cabelo em ovo que os tradutores são meio que condicionados a enxergar: num dado momento da história, o narrador (o Aron do título: aliás, altas discussões entre este que vos bloga, o scefigno André Conti e a santa Ciça Caropreso, que preparou o texto, pra definir se traduzíamos o nome do rapaz e se aportuguesávamos seu apelido hebraico, Shemaiá…) diz que um outro personagem vivia o tempo todo repetindo uma oração que, por causa da sua sonoridade, lhe gerou o apelido de cheap fish.

Parece simples, né? A gente traduz tudo, inclusive o “peixe barato”. E pronto.

Mas começa que se tratava de “sonoridades”. E NADA que neste mundo soe como cheap fish soa a algum outro ouvido como “peixe barato”. E, pra te falar a verdade, tem mais aqui nessa peixaria: porque você vai ler o livro em português, eu estava lendo em inglês, mas a convenção da narração nos faz supor que a realidade linguística daquelas pessoas era em polonês… Mas, além de tudo, eles eram judeus…

Então de repente a coisinha fácil (fui conferir: até o google tradutor verte tranquilinho cheap fish por peixe barato) está agora nestes termos: a oração do rapaz (que ele pronuncia em iídiche? em hebraico? em polonês?) soa como “peixe barato”, ou cheap fish, ou tanie ryby?

(Aliás, essa última, a polonesa, me VEIO do google tradutor: eu, como todo xadrezófilo [por causa de um programa de computador famoso] até sei que RYB é o radical eslavo de peixe, mas…)

Deu pra sacar?

Algo, dito em uma de três línguas possíveis soa como algo dito em uma de duas. O que o autor quer? Quebrar a quarta parede e se referir aos sons do inglês quando aquele povo não teria bases pra fazer trocadilho na língua de Shakespeare? E, se sim, isso me autoriza a fazer a mesma coisa e buscar os sons no português? Aí o apelido do cara ia ser “tipo fixe”? (Brincadeira…)

Ou ele quer dizer que a oração soava como tanie ryby, e aí eu, como ele, só traduzo, e o apelido do cabra é mesmo Peixe Barato. (Lembrando ainda que o som final podia ser o do iídiche, bilik fish….)

E a curiosidade, agora? Como fica?

Escrevo pro autor?

Mas era meio que a única dúvida que ainda me irritava… E tem uma coisa de orgulho profissional…

Então vamos fuçar.

O que eu soneguei até aqui é que o autor menciona (de novo, em tradução? Isso não aparece nas traduções inglesas da bíblia ou dos textos hebraicos… eu fui ver…) a tal oração do rapaz. Ela seria ‘let our days be multiplied’… ‘que se multipliquem nossos dias’.

Então vamos aos alfarrábios digitais.

Fuça que fuça e eu (bronco irreligioso) topei com o Deuteronômio 11: 21 (‘para que se multipliquem vossos dias’) que numa edição hebraica transliterada em alfabeto romano (porque eu não sei ler hebraico) me deu justo uma palavra que lembrava aquele radical RYB, de peixe…

E o Deuteronômio, claro, além de ser livro canônico entre os cristãos, também faz parte do Tanach, da Torá, entre os judeus.

Tá bom pra vocês?

Pra uma piadinha, um detalhe do livro?

Me satisfiz que o tal trocadilho era entre hebraico e polonês, e que o autor estava “traduzindo” o polonês tanie ryby por cheap fish.

Se lá traduzia ele, pois traduzo eu cá.

“Peixe barato” ficou.

Porque, claro, agora as legiões de leitores que quiserem ir a fundo vão poder encontrar aquele versículo do Deuteronômio…

:)

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Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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O mundo assombrado pelos best-sellers — ou me perdoe a pressa, é a alma dos nossos negócios

Por Luiz Schwarcz

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Ilustração: Alceu Chiesorin Nunes

livre42Os primeiros profissionais do livro não foram os autores nem os livreiros, muito menos os editores — foram os escrivães. Na Antiguidade e mesmo durante boa parte da Idade Média, a ideia de que alguém era criador singular de algo, ou dono de propriedade autoral, não existia. Os livros — transcritos em placas de pedra, em rolos de pergaminho ou em folhas de papiro soltas e envoltas em diversos tipos de encadernação — ainda pertenciam a Deus ou aos soberanos.

Tem-se notícia de algum tipo de comércio que fazia com que os livros chegassem a bibliotecas particulares, ou aos mosteiros. No entanto, grande parte dessas coleções era composta principalmente por doações. O surgimento dos vários profissionais do livro, como o autor, o editor, o livreiro e o gráfico, acompanha as mudanças que vão surgindo com a criação das universidades, e que se acentuam com o final da Idade Média, quando Gutenberg inventa a prensa. Só então surgirão as edições em tiragens um pouco maiores, e os livros serão formatados a partir de um padrão comum, inicialmente com tipos ainda móveis e capitulares pintadas à mão. As mudanças que levaram ao objeto livro com as características que hoje conhecemos se darão no âmbito do crescimento do comércio e com os valores burgueses ocupando o centro da vida social. Assim, o livro de autor só existe quando o fascínio da sociedade pelos deuses diminui, e quando os soberanos passam a exercer outras formas de dominação, nas quais os indivíduos começam a ter mais voz, mesmo que incipiente. É nesse caldo cultural que os escritores passam a assinar suas ideias e ficções e a intervir como agentes sociais singulares.

Por isso, é possível afirmar que o livro, em tiragens que alcançam centenas ou mesmo milhares de exemplares, nasce conjuntamente com o “mercado”, e, mesmo sendo uma das expressões mais puras da individualidade, sempre dependeu do comércio livre para “crescer e se multiplicar”.

Olhando dessa perspectiva, o clamor contra o aspecto comercial do livro é ingênuo, não só nos dias de hoje, mas mesmo se pensado historicamente. Ainda assim, os leitores deste blog veem que, vez ou outra, mantenho vivo certo idealismo, presente desde o dia em que optei por trabalhar com livros. Muitos profissionais do livro no Brasil decidiram por essa profissão se não para interferir na vida cultural do país, ao menos porque gostavam mais do ambiente cultural, ou preferiam se envolver com o comércio dos bens culturais, em vez de atuarem em outros campos talvez mais distantes de seus interesses pessoais, nos quais a remuneração em geral é mais significativa. Trata-se de um tipo de idealismo relativo, ou então do reconhecimento de uma vocação profissional minoritária. Justifico assim, relativizando logo de cara, o meu clamor ou angústia intermitentes pela comercialização exacerbada do ambiente cultural em que vivo. Sei que tenho alguma razão e muita ingenuidade. O mercado editorial sempre foi mercado, e sempre será. No entanto, a percepção de que tudo caminha para a comercialização total das relações editoriais ainda me choca, e sinto a necessidade, mesmo que quixotesca, de me manifestar.

Se o mercado editorial sempre equilibrou valores individuais e singulares — como a geração de ideias e a criação artística — com o lado público, onde entram as regras de comercialização e de distribuição, fundamentais para a divulgação do trabalho autoral, nunca a competitividade foi tão selvagem como nos dias de hoje e os valores comerciais tão preponderantes. O mundo editorial atual tem como principais personagens — além de autores, editores, livreiros — as grandes corporações (e minha empresa tem como sócia uma das maiores delas) e também os agentes literários. Esses últimos atuam representando os interesses dos autores frente a editoras ou a grandes corporações. Além desses existem também os scouts, representantes contratados pelas editoras e que atuam nos principais mercados procurando novos títulos. Eles existem para que seus clientes, as editoras, cheguem com rapidez às novidades, possuam informação antecipada para a compra de direitos. A maioria das grandes editoras possui scouts, principalmente nos Estados Unidos e na Inglaterra. Saber de um livro antes dos outros vale ouro.

Já os agentes literários surgiram para que os escritores pudessem se dedicar a escrever, e também pela costumeira falta de habilidade dos artistas e intelectuais em geral para com os negócios. O fortalecimento das editoras em corporações de grande dimensão acentuou a necessidade de representação e defesa dos interesses autorais, em busca de equilíbrio nas negociações no mundo dos livros. No entanto, a aglutinação das editoras em mercados fortes e o crescimento do poder dos agentes literários levaram a mudanças no perfil das relações entre autor e editor. Ao ganhar mediação necessária, a natureza dos laços entre importantes produtores de conhecimento e entretenimento mudou, por vezes beneficiando o aspecto comercial em detrimento de outros. Nesses casos, ocorreram perdas significativas, e o elo mais prejudicado foi o pessoal, incluindo aí o valor artístico da criação autoral, ou mesmo os laços de lealdade, de cunho quase familiar, que uniam os envolvidos na produção dos livros. Isso não quer dizer que não existam editores com sensibilidade trabalhando em grandes empresas ou que todos os agentes ignorem a densidade intelectual e pessoal presentes no mundo da cultura. As generalizações são sempre perigosas, e é bom dizer que há muitas exceções que não só comprovam a regra, como honram a profissão.

Diante disso, me arrisco a dizer que, com as mudanças aceleradas das engrenagens do sistema, passa a ser cada vez mais raro encontrar o velho espírito artesanal e amoroso muitas vezes presente no universo dos livros de outrora.

Jogo jogado, como se diz, faço parte desse mundo, não me isento de responsabilidade e não tenho nada a reclamar dos valores comerciais que regem minha profissão. Creio que as técnicas mercadológicas ou empresariais são um dado do mundo em que vivemos, e não há como escapar delas, se quisermos sobreviver e até mesmo criar. Há brechas e incentivos que o próprio crescimento industrial traz, e para o bem. Mas quando a competição toma conta das relações de forma totalitária, apaga sentidos e tradições importantes, principalmente no que se refere a laços que envolvem pessoalidade e individualidade e são parte fundamental na produção de um livro. É uma pena. O que vivemos hoje é a contaminação majoritária, ou a disputa entre ambientes produtivos (ainda fundados em relações de intimidade familiar ou amorosa) e a vontade hegemônica de valores exclusivamente comerciais.

Na minha opinião, o livro não reage bem a procedimentos absolutamente padronizados, a estratégias cheias de generalidades e sem espaço para surpresas. Dessa forma, muitos valores têm se perdido num ambiente que caminha para a bestselerização absoluta das estantes das livrarias. Com o crescimento desmesurado da disputa por novos títulos, todos perdem. Some o livro de permanência, sem espaço nos catálogos das editoras e nas vitrines das lojas, que por sua vez precisam do giro rápido para poderem sobreviver. Crescem os adiantamentos para livros que propõem o sucesso rápido, sendo que os autores que se dedicam à criação menos comercial perdem lugar. Se beneficiam aparentemente:

1) os editores que acertam no milhar e que hoje compram na maioria dos casos com base no relatório dos scouts, sem ler com calma os livros que publicarão. Com isso, comprar direitos virou, em certo sentido, um jogo de tabuleiro ou de azar. A leitura conta menos que a intuição ou o tino comercial;

2) os agentes que intermedeiam essas vendas milionárias. Uma parte das compras de direitos se efetua em leilões onde pouco vale o trabalho pregresso das editoras, equiparadas na interrogação de “quem dá mais?”;

3) os autores que têm um livro incensado pelos scouts e que veem seu adiantamento crescer até chegar às alturas, por conta da competição entre os editores, ávidos pela descoberta de um novo best-seller;

4) o livreiro que expõe os livros de sucesso, mas antes cobra pelo espaço diferenciado que a eles dedicará em suas livrarias.

Nessa cadeia, os mesmos beneficiários talvez esqueçam de que estão apagando de sua vida o que os sustentou durante séculos: a venda constante de livros bons, mas sem propensão para a lista de mais vendidos. Fica olvidada a transmissão de um conhecimento e uma forma de criação artística que moldou tantos seres humanos através dos tempos. Será que um novo Nietzsche ou um novo Drummond vão conseguir aparecer, se seus ensinamentos ou a criatividade não vierem embalados no formato de um best-seller? Será que um livro que vende sempre não vale tanto para a cadeia comercial quanto um que vende muito, mas por pouco tempo? Ou que promete retorno fácil e entrega uma decepção de largas proporções?

Alguns anos atrás, fui convidado a um encontro de publishers organizado pela Penguin. Era minha estreia num grupo de editores que se reunia anualmente para discutir questões ligadas ao mercado de livros. As discussões foram interessantíssimas, e aprendi muito. Mas o enfoque mercadológico e financeiro foi tão preponderante que, ao final, quando os organizadores do evento pediram sugestões para a próxima reunião, mesmo com a timidez de quem participa pela primeira vez, levantei a mão e disse:

— Será que no ano que vem podemos falar também sobre livros?

A riqueza do mundo da edição advém da diversidade. Cada tipo de livro tem sua própria personalidade. Por alguns, nos apaixonamos rapidamente. Outros nos ganham com o tempo. Uns vivem ao nosso lado para sempre, outros geram uma atração tão forte que deles não podemos largar. Mas nem todos, sobretudo dessa última categoria, desejaremos reencontrar no futuro. Cada qual tem seu tempo e pretensão. Não há livros superiores ou inferiores. Vender mais não é necessariamente mérito ou demérito. No entanto, a homogeneização pode ser cruel para o mercado de livros, ou para a cultura como um todo. Não há culpados isolados nesse processo. É uma combinação de fatores, que procurei descrever, que leva à bestselerização dos catálogos editoriais e dos balcões das livrarias.

Os editores ou as empresas para as quais trabalham não são necessariamente vilões, como não são também os agentes literários ou os autores que praticam gêneros literários de fácil absorção. Tampouco é o caso de culpar as livrarias que usam todos os recursos que estão ao seu alcance para sobreviver e competir com os grandes atacadistas. Elas acabam abandonando o critério editorial na organização do espaço da venda e expõem os livros que dispõem de verba de marketing para a compra de áreas nobres de exposição. De modo geral, esses livros são os mesmos nos quais investimos adiantamentos altíssimos, somas vultosas que precisamos fazer retornar. Naquelas horas que antecedem à abertura das lojas, os livreiros de um modo geral são obrigados a dispor de seus balcões expondo as grandes apostas de sucesso, não podendo arrumar a casa levando em conta o gosto de seus clientes.

No mundo ideal deveria haver espaço para todo tipo de amor aos livros, seguindo a velha canção que dizia “qualquer maneira de amor vale a pena”.

Num mundo que luta pela aceitação da diversidade, onde ficam os livros fora da norma, os livros cujo tempo é lento, mas que tanto têm a nos dar? De toda forma este é um caso complexo, por estarmos pensando num produto, num comércio, no qual as discussões se dão no âmbito do mundo dos negócios e não em fóruns políticos e sociais. As regras são ditadas pelo mercado, onde todos temos cada vez mais pressa, e a pressa, me permitam o trocadilho, é a inimiga da edição.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Escreve pra o blog uma coluna quinzenal.