Colunistas

No palco com os escritores — ou sobre a existência de blagues didáticas

Por Luiz Schwarcz

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Ilustração: Alceu Chiesorin Nunes

livre42Espero que meus leitores e leitoras percebam que não levo muito a sério a contraposição que tenho feito da literatura com os valores morais tidos como adequados pela sociedade. Faço isso com o intuito de mostrar como leio um livro, como entendo a literatura, e também para melhor tentar compreender a alma dos escritores. Com isso procuro compartilhar minha visão de mundo como editor e pensar na melhor forma de realizar o meu trabalho. Trata-se no fundo de uma espécie de blague didática. Mas será que uma blague pode ser didática? Acho que acabo de criar um oximoro, uma contradição em seus termos. Me desculpem, me entendam.

Já falei num texto anterior que uma das acusações mais frequentes aos escritores é a de que estes querem chamar a atenção para si o tempo todo. Muitos acham que os escritores têm mania de grandeza e que se acostumaram tanto a fingir e representar que, na vida real, exageram até ao pedir uma média na padaria da esquina. Para os que partilham desse ponto de vista, muitos escritores são mais influenciados por Humphrey Bogart do que por Machado de Assis. Infelizmente há casos desse tipo — por sorte são uma absoluta minoria.

Há histórias hilárias de escritores que foram grandes histriões e protagonizaram cenas dignas da melhor ficção; cenas que caberiam em seus roteiros, peças, romances, sem necessidade de revisão ou copidesque. Fizeram isso sem que seu trabalho literário perdesse a qualidade, com naturalidade. As frases do dia a dia saem ou saíam da boca desses autores já editadas, como se fossem destinadas a personagens, ou como se fossem ditas para irem direto para as páginas dos livros. Hemingway, por exemplo, transformou a parte final de sua vida em representação, e muitas de suas falas pareciam moldadas para serem epígrafes de seus livros.

Talvez o maior autor/histrião de quem ouvi falar foi Nelson Rodrigues. Gozava de seus colegas de redação, que batiam no teclado das máquinas de escrever com expressão séria no rosto, dizendo: “Não o perturbe, ele está escrevendo Os Maias”. (Nelson considerava o romance de Eça de Queirós a obra-prima da literatura de língua portuguesa.)

Nelson Rodrigues é um exemplo extremo e divertidíssimo, mas, mesmo assim, o vício da representação é um perigo na vida de um escritor. Ainda mais em tempos como os nossos, em que as editoras exigem que os escritores sejam os principais promotores de suas obras e cobram deles desempenho midiático e representação. Hoje em dia, nos Estados Unidos, um escritor que não tenha plataforma social para falar de seu trabalho talvez nem consiga ser publicado por uma grande editora. Se um autor tem aversão a entrevistas, pior ainda. E além do mais, para completar, tem que subir no palco dos festivais literários e representar, criar uma persona que combine com a sua obra e desempenhar como um verdadeiro ator de si mesmo.

Se a escrita é por natureza um teatro — como nos mostrou Thomas Bernhard –, a representação não para por aí. O sistema editorial hoje conta com o autor/ator e, com o ator/marketólogo. Com isso, alguns escritores representam tanto a si que esquecem dos outros, e sua obra se esvai. Ou até deixam de escrever para frequentar festivais, numa roda-viva quase sem fim.

Há poucos casos de autores cuja obra se sustenta voltada exclusivamente ao próprio umbigo. Nem mesmo com Bernhard que tanto citei (veja meu post intitulado Exagero, fingimento e mentira — ou a literatura não presta!) isso se torna possível. Ele olha para fora de si, com profundo desprezo, mas olha.

Tive um professor brilhante na faculdade que era simpatizante do anarquismo. Seu nome era Maurício Tragtenberg, e suas aulas marcaram a minha vida. Maurício possuía um repertório de blagues e frases de efeito incontável. Lembro de uma em particular: “Meus alunos, cuidado, o cargo faz o homem, nunca o contrário”.

Assim vale perguntar quanto do exibicionismo e do egocentrismo expressa o próprio ego dilatado do escritor ou faz parte do vício inerente à profissão de “dramaturgo social”. Além do mais é sempre bom entender o quanto o mercado editorial altamente competitivo cobra e exige dos autores — que simplesmente querem ver seus livros lidos pelo maior número de leitores possível.

Se deixarmos fora da discussão a pressão exercida pelas editoras, há de entender a sensação que fica naqueles que vivem de criar mundos paralelos, manipular vidas inteiras, dar à luz, fazer sofrer, gozar, matar. Quando se encerra a tarefa de escrever, como será a volta do escritor para seu dia a dia? Fora da sua escrivaninha, será que ele se despoja rapidamente, se esquece dos personagens e passa a cuidar de si, a conviver com os que vivem a seu redor — o cachorro, o porteiro, o cobrador, a família?

Para complicar um pouco mais nossa questão eu gostaria de mostrar como o exibicionismo dos escritores é um vício cuja origem vem da própria literatura, assim como a dissimulação. Tomo como exemplo um dos grandes livros que li nos últimos tempos: Vida e destino, de Vassili Grossman, editado no Brasil pela Alfaguara. Trata-se de um painel amplo da Rússia durante a Segunda Guerra Mundial, um retrato do stalinismo e também do nazismo. Mais que isso, Vida e destino é um tocante relato sobre a convivência com a morte nas ruas de várias cidades russas e nos campos de extermínio — tanto nazistas como os gulags. Tudo o que se pode dizer sobre esse livro é pouco. A gama de personagens e de cenários, a riqueza das descrições, a pureza de espírito do autor, tudo é maior no romance; a ponto de nos perguntarmos se fora da escrita e da arte o ser humano é capaz de momentos tão sublimes como os que a leitura de Vida e destino proporciona. É um desses livros que nos faz acreditar na literatura e no ser humano.

Pincei o livro de Vassili Grossman para mostrar que mesmo numa obra grandiosa como essa — cuja abrangência nos proporciona momentos de deleite, ilusão e crença no ser humano — encontramos, espalhadas, as características que usei em posts anteriores para compreender melhor o funcionamento da ficção e a alma dos escritores. Mesmo com um painel tão amplo de personagens, a literatura de Grossman em vários momentos fala de si, apresenta seus recursos e garras, mostra como o centro gravitacional da literatura é seguidamente ela própria. No fundo, o escritor sempre presta reverência ao seu ofício, quer queira ou não.

Apresento um exemplo tirado desse livro: Víktorov, um dos inúmeros personagens do romance, é um piloto de avião de guerra que se encontra numa floresta, caminhando, se não me falha a memória, depois de sua aeronave ter sido abatida. Lembra-se — talvez pensando na morte, da qual escapara por pouco — de um livro que lera havia muito tempo, no qual uma mulher é dada em matrimônio a um homem poderoso, sem tê-lo conhecido. Logo após o casamento forçado, o marido é preso e levado a um castelo distante. A esposa, em vez de fugir para uma vida livre, agora exercendo a sua escolha, passa a procurar o marido, ajoelhando-se diante de cada passante e perguntando sobre o paradeiro daquele que mal chegou a desposar. Descobre depois de certo tempo que o marido fora esquartejado. Caminha longamente na direção de um convento, onde faz os votos de castidade. A partir desse dia, consagra sua vida à religião, mas reluta muito a entregar sua aliança, da qual não queria se separar.

A fábula de amor, narrada em meio a um raro momento de calma na guerra — um instante breve na ficção dura, marcada pela morte de milhares de civis e combatentes –, serve em muitos sentidos ao escritor. Um deles certamente é o de mostrar que estamos no palco da literatura; é ela quem comanda as ações.

O autor sempre fala de si, de certa maneira, através de muitos de seus personagens, libera da mente seus sonhos, como disse Faulkner. Mas na literatura há uma força gravitacional, egocêntrica, que está sempre a afirmar: “estou aqui, veja como sou bela e poderosa, levo-os para onde quiser, da floresta russa da década de quarenta a um castelo supostamente imaginado por um outro escritor, onde um grande amor não se cumpriu”.

É o escritor que finge compulsivamente ou a literatura, seu ofício maior, que o puxa sempre para a representação? Ele pode ser um exibido por natureza, mas a sua arte é ainda mais.

Nessa pequena passagem pode-se notar como a prática da escrita leva, mesmo que dissimuladamente, à autoexibição. Do mesmo livro, tomo mais um pequeno exemplo, para mostrar sutilmente como os recursos da literatura permitem a manipulação. Muitas páginas à frente daquelas que aqui citei, o narrador, ao falar do cientista Viktor Chtrum, que está no centro da trama do livro — posto à prova constantemente pela censura do stalinismo –, conclui: “Enquanto percorria o longo trajeto de volta para casa não pensou em nada: nem nas lágrimas na escada, nem na conversa com Tcherpijin, nem na carta da mãe, que estava no bolso lateral do paletó”. Por acaso a tal carta no bolso do paletó do cientista é totalmente fundamentada em um aspecto crucial da biografia do próprio Grossman. Irineu Franco Perpetuo nos conta, em seu ótimo prefácio à edição brasileira, que a carta representaria a ficcionalização da missiva de despedida que Grossman gostaria de ter recebido de sua mãe, o que nunca aconteceu. A mãe do protagonista fora praticamente abandonada por ele em outra cidade. O escritor deu ouvidos nesse caso à vontade da esposa, deixando a mãe morar sozinha durante a guerra, e é provável que se arrependeu disso profundamente. Se Grossman fosse, ele próprio, o personagem de Vida e destino no lugar de Chtrum, e portasse a tal carta em seu paletó, nunca poderia dela se esquecer. Nós mesmos, leitores de Vida e destino, depois de lê-la, jamais a tiraremos da nossa memória.

Fica claro aqui como a literatura é capciosa, como seus recursos de exibição e manipulação são infinitos. Grossman diz que Chtrum não pensava em nada, mas tenta enumerar o que ele poderia ou deveria estar pensando. Mente a respeito da carta. Ou coloca em Chtrum a culpa pelo que ele mesmo fez com a mãe. Encontra companhia para a sua fraqueza em seus personagens. Faz com que pensemos no lugar de Chtrum e dele próprio — os dois se encontram exaustos após tantas provações. Grossman não conseguiu ver seu livro publicado em vida. Seu personagem Chtrum — um cientista também perseguido pelo regime soviético — recebeu a carta que a mãe de Grossman nunca lhe enviou. Assim, dela pode se esquecer, por um breve momento. O escritor — que não recebeu carta alguma na vida real — dela nunca teria se esquecido. Por isso, nos faz lembrar sempre de sua existência, enquanto afunda Chtrum no desespero e cansaço que certamente também vivenciou.

Com Grossman e com todos os bons escritores somos levados, sem perceber, para o centro do mundo da ficção, ou nos transformamos em personagens, agindo e pensando por eles, se assim o narrador o desejar.

O jogo da ficção é complexo. Tem idas e vindas simbólicas que nem mesmo o autor sabe explicar. Por isso é jogado simultaneamente em campos distintos: o íntimo e o público. Assim, quando a imaginação do autor precisa se materializar em uma performance e subir a palcos mais reais do que inventados, temos de nos perguntar: qual o preço a ser pago para se divulgar um livro?

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Escreve pra o blog uma coluna semanal sobre livros e o trabalho editorial.

Isabel

Por Luisa Geisler

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Começou com Raphael Montes sugerindo que eu era um pseudônimo, me comparou à Patrícia Melo. Em uma entrevista minha para o Estado de S.Paulo, ele sugeriu que fosse Antônio Xerxenesky. Ou até mesmo Rubem Fonseca.

Na mesma matéria, Joca Reiners Terron também suspeita que eu seja o Antônio.

O crítico Eder Alex diz estar quase chutando que eu seja o J.P. Cuenca.

Ora, obrigada.

Mas confesso estar um pouco decepcionada.

Meu primeiro texto para o blog da Companhia das Letras foi sobre Stephen King, a coisa toda. Uma das crônicas mais recentes tratava de por que gosto de escrever: por gostar de ser outras pessoas. Começo a viajar na entrevista falando de literatura e identidades. A escrita de meu livro atual está tomada por um “inexplicável” atraso.

É óbvio que eu sou Isabel Moustakas.

E vocês aí culpando um pobre doutorando que nem tem tempo para manter Facebook!

Confesso (de novo) que não ia abrir o jogo logo de cara. Estava me agradando a coisa toda do pseudônimo, de ser uma pessoa misteriosa, com foto misteriosa em preto e branco. Poder dar entrevista sem os ranços que já tenho (mesmo sendo pré-adolescente), poder lidar com zero expectativas. Nem me perguntaram como é ser jovem! Mas voltaram as expectativas e o jogo ficou chato de novo.

É claro que, se eu não fosse Isabel Moustakas, esse texto seria muito conveniente para a própria. E, se eu fosse Isabel Moustakas, esse texto seria mais conveniente ainda (para mim). Ora, olhem o tom jocoso, as piscadelas subentendidas, os risinhos só com os lábios. Se eu fosse Isabel Moustakas, a última coisa que faria seria sair por aí falando que sou. Não é verdade? (Aqui entraria uma piscadela subentendida). Mas se a última coisa que eu faria seria abrir o jogo, não aliviaria todas as suspeitas eu sair dizendo que sou?

Tipo quando a sua mãe pergunta quem é que quebrou o vaso da sala (você quebrou), e você olha para o seu irmão mais novo com uma cara feia e diz:

— Ah, é, fui eu.

Sabe qual a coisa menos incriminadora que pode acontecer durante um interrogatório em uma investigação de homicídio? Você dizer que se dava mal com a vítima, ou não gostava dela. Porque uma pessoa culpada vai tentar omitir isso, vai tentar parecer que tudo estava perfeito (aqui se nota a menção ao direito, formação de Isabel, e mais uma piscadela).

Então sou Isabel. E não sou também.

Se eu não soubesse que sou eu (e eu sei), eu chutaria a Elvira Vigna. Até porque é sabido como pago-pau pra Elvira e, no livro, tentei emular em parte o estilo dela. Mas se não fosse minha emulação, talvez fosse a Elvira original.

Não sei por quê, desejo que seja o Sérgio Sant’anna. Ou alguém inesperado para o gênero, tipo a Carol Bensimon. Depois dos problemas que a realidade tem com a autoficção do Ricardo Lísias, ele próprio seria uma escolha plausível, não? Um começo fresco, um nome que não pode ser processado por bobagem.

Ou o próprio felino do Antônio Xerxenesky, por quem ele jura na minha entrevista.

Acima de tudo, acho que Raphael Montes é Isabel. Como quando a J.K. Rowling criou Robert Galbraith. Montes, traduzido e bem vendido em trocentos idiomas, quis se desafiar um pouco. Já publica na Companhia das Letras, quis saber opiniões além das dos fãs de carteirinha. Saindo do carioca carismático rei das redes sociais, entra uma persona mais séria, mais contida (até textualmente), mais reservada: Isabel. E o próprio Raphael seguiu o meu plano original. Disse que leu o livro de Isabel, ainda fazendo críticas à autora, apesar de incluir uns elogios cá e lá, incitando curiosidade de leitores. Um gênio.

Mas isso tudo se eu não fosse Isabel Moustakas. E eu sou Isabel Moustakas. Podem enviar perguntas nos comentários, no Facebook, onde quiserem. Me desafiem, se quiserem. Isto é, se ninguém mais ousar se assumir como Isabel.

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Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira (finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

Os Eisners

Por Érico Assis

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Fábio Moon e Gabriel Bá estão concorrendo ao Prêmio Eisner. Anunciada na semana passada, a lista de indicados de 2016 inclui Dois irmãos — ou Two Brothers — na categoria “melhor adaptação de outra mídia”. Moon e Bá não são estranhos ao prêmio: já têm, cada um, três estatuetas. É a primeira vez, porém, que concorrem com um projeto que teve origem no Brasil.

Os Eisners são o Oscar dos quadrinhos: um prêmio de indústria, que cita destaques do ano que passou na vasta produção desta indústria e convida a própria indústria a votar nos melhores. A indústria, no caso, é a norte-americana. Se você pegar os números de faturamento dessa indústria, vai ver que mais de metade dela é focada em super-heróis. Nos Eisners, porém, super-heróis são minoria.

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Os líderes de indicações, por exemplo, são Bandette — HQ digital que segue o estilo das BDs europeias –, March — série de graphic novels que conta a luta pelos direitos civis nos EUA –, Hip-Hop Family Tree — a história do hip-hop na estética de HQs Marvel — e O Eternauta — a primeira tradução para o inglês da clássica HQ argentina dos anos 1950. Nenhuma destas é sucesso de vendas, mas consegue angariar seguidores dentro do segmentadíssimo público norte-americano.

As mais indicadas apontam tendências do prêmio. A primeira é o gosto pela HQ de aventura infanto-juvenil, gênero que vive mais de nostalgia do que de novos exemplos. Quando estes exemplos surgem, porém, invariavelmente acabam nas categorias do Eisner.

A segunda tendência, colada na primeira, é o foco na formação de leitores. Se as categorias “melhor publicação para primeiros leitores (até 8 anos)”, “melhor publicação para crianças (9-12 anos)” e “melhor publicação para adolescentes (13-17 anos)” já não deixam claro, as obras e autores que figuram nelas também costumam pipocar nas categorias mais prestigiadas, como “melhor roteirista” e “melhor desenhista”. É uma tendência prudente: a indústria só vai continuar existindo com a entrada de novos leitores, então que se estimule quem produz para eles.

A terceira tendência, talvez mais recente, é de internacionalização: embora Eternauta só concorra em categorias editoriais (edição de obra estrangeira, projeto editorial, design), o argentino Liniers aparece entre os concorrentes, assim como o belga Max de Radiguès, os franceses Riad Sattouf e Arthur de Pins, a chilena Claudia Dávila e, claro, os brasileiros — não só Moon e Bá, mas também o gaúcho Rafael Albuquerque. Diferente de um Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, porém, os autores precisam ter publicado por editora dos EUA, em inglês.

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Um dos marcos do ano é a quantidade de mulheres quadrinistas: 49, distribuídas por 61 indicações, pouco mais de 1/3 das vagas. Proposital ou não, é um contraste com o Prêmio do Festival d’Angoulême, francês, que este ano não indicou nem uma mulher ao seu Grand Prix — e soltou uma longa lista masculina.

Ainda em termos de diversidade, ninguém conhece as caras dos quadrinistas o suficiente para saber se ficaram só tons de leite — como os que geraram discussão no Oscar deste ano. Uma das indicadas a “melhor HQ digital ou webcomic”, porém, trata justamente da cor de pele dos heróis de HQ. (E pode ser lida aqui.)

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Assisti à entrega dos Eisners uma vez, em 2013. A cerimônia não é transmitida pela TV, não tem palco (só um palanque), nem apresentação musical. Nem mesmo é concorrida. É um jantar no salão de um hotel, ao qual se convida todos os indicados e mais umas figuras importantes. A atmosfera lembra encontro de Rotary Clube. Celebridades de TV passaram a entregar os troféus depois da morte de Will Eisner, em 2005. Antes, era o próprio Eisner quem entregava os Eisners.

Eu era um de meia dúzia de jornalistas cobrindo a cerimônia. Como ela acontece bem no meio da Comic Con de San Diego, uma megaconvenção de cultura pop, tem muita coisa interessante acontecendo fora daquele salão de hotel.

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Os indicados são escolhidos por um comitê que muda todo ano. A votação é aberta a quem for profissional da indústria. Assim como no Oscar, os votantes tendem a escolher o que encontram de mais famoso em cada categoria: é praticamente impossível você ter lido tudo. Two Brothers, fora ser uma ótima HQ, tem vantagem de vir de uma editora conhecida (Dark Horse) e de autores mais renomados que os concorrentes na categoria.

Já se inventaram fórmulas para medir o impacto do Oscar na bilheteria de um filme. No caso dos Eisners, essa fórmula não existe — e se imagina que a influência nas vendas seja baixa. Autores, porém, ostentam “vencedor do prêmio Eisner” junto ao nome por toda a carreira.

A lista completa de indicados ao Prêmio Eisner 2016 está aqui.

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Érico Assis é jornalista, tradutor e doutorando. Mora em Florianópolis e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Também escreve em seu site pessoal, A Pilha.

 

Carregando seu Cervantes

Por Juan Pablo Villalobos

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1. Em seu consultório médico, meu pai tinha um pesa-papéis de vidro piramidal com a figura do Quixote e o nome de um remédio gravados na base. Franzino. Barbadão. Montado num cavalo ainda mais magrela. O cara devia mesmo precisar do remédio. Numa das paredes da casa de um dos meus tios estava pendurado um quadrinho do Quixote, desta vez acompanhado de Sancho e sem o nome do remédio. Daí a tia Maria Cristina foi de férias às cidades coloniais e voltou com uma lembrancinha de Guanajuato para mim: uma estatuazinha do Quixote feita de arame. O calhamaço, lógico, adornava as prateleiras da casa dos meus pais e de todos os meus tios, respeitando um costume inquebrantável da classe média de todo o mundo hispânico. Para falar a verdade, eu nunca vi ninguém ler o Quixote, mas a lombada do livraço era um adorno muito lindo mesmo.

2. Depois eu fiz seis anos e fui atropelado por uma caminhonete enquanto ia comprar chiclete (a rima é involuntária — aliás, em espanhol não rima). Aquele foi o momento em que eu saí pela primeira vez do mundo de fantasia em que morava e entrei na realidade. Tudo para fazer uma grande descoberta: a realidade, certamente, machucava e doía. Igualzinho a Dom Quixote com os moinhos de vento, mas eu ainda não tinha lido o Quixote. Que pena ter perdido a ocasião de utilizar essa metáfora tão perfeita.

3. Logo chegou a adolescência, e na minha cidadezinha todo mundo queria ir pro Festival Cervantino em Guanajuato. Não, a gente não era muito culto: o tal Festival era, todo mundo sabia, a festa mais legal para se embebedar na rua e paquerar. Eu fui com minha turma e ficamos tomando cerveja e tequila nas escadas do Teatro Juárez. Segundo eu, meu olhar cativante estava fazendo o maior sucesso, mas logo acabei descobrindo que as meninas não tinham nem percebido minha presença. Igualzinho a Dom Quixote com Dulcineia, só que eu continuava sem ter lido o Quixote.

4. A primeira vez que eu viajei para Espanha, fiz questão de comprar a “melhor edição do Quixote”, a do Instituto Cervantes, anotada pelo Francisco Rico, papa e pope dos cervantistas. Eu estava na faculdade de letras espanholas e, no seguinte semestre, ia ter um curso dedicado ao Quixote. A edição constava de dois calhamaços com capa dura enfiados numa caixa rígida. Quatro, talvez cinco quilos. Comprei em Madri e carreguei na mochila durante dez dias por Toledo, Segóvia, Sevilha, Córdoba e Lisboa. O peso da tradição literária! (Mas essa piada eu já fiz no meu último romance, Te vendo um cachorro, justamente inspirada nesse episódio autobiográfico.)

5. Finalmente, eu li o Quixote. In-tei-ri-nho. Foram os quatro meses mais felizes de minha vida como leitor.

6. No ensaio que escrevi para passar no curso (uma dissertação sobre o sentido trágico e cômico no Quixote), coloquei o seguinte: “Dom Quixote é, antes de mais nada, antes de um cavaleiro, um escritor que está em processo de redigir seu próprio livro de aventuras. Dom Quixote é um estranho rei Midas que transforma em literatura tudo aquilo que ele toca (…) O que significa a irrupção de Alonso Quijano no final da história? A morte do personagem literário. Em suas últimas palavras, não é Dom Quixote quem fala, é Alonso Quijano, outro personagem literário, mas um personagem que não quer fazer literatura, que tem se deixado vencer pela realidade. A atroz condenação de Cervantes: morremos na realidade, na vida, abdicando da literatura.”

7. Sim, eu acredito que o Quixote é, sem a menor dúvida, o melhor livro de todos os tempos. Perdoem-me: eu sou mexicano, escritor, minha língua é o espanhol, minha pátria é minha língua, blá-blá-blá. Ou seja, a única oportunidade que eu tenho de me sentir de primeiro mundo, potência mundial, é falando de Cervantes. Eu sei que estou sendo vaidoso e pretensioso ao dizer que pertenço à tradição literária mais rica do mundo, mas porra, vamos fazer o que se é verdade?

8. Daí eu fui morar em Barcelona, a cidade onde Dom Quixote sofreu a derrota final, na praia da Barceloneta. Escrevi um conto: “Depois de almoçar fui para a praia, fiquei uns quarenta minutos porque ainda está bem frio. Eu estava deitado e a areia se enfiou em meus ouvidos e outra vez pensei em Cervantes, na crueldade de Cervantes. Na condenação de Cervantes. Na tristeza de caminhar pela praia da Barceloneta sabendo que é o lugar que Cervantes escolheu para que Dom Quixote fosse derrotado. Como poderia saber Cervantes que ele ia estragar meus passeios pela praia?”.

9. Depois eu fui morar no Brasil e um dia fui convidado para dar uma palestra sobre literatura mexicana no Colégio Cervantes de São Paulo. Os alunos me entregaram um presentinho: um pesa-papéis de vidro piramidal com a figura do Quixote.

10. Os cinco quilos da edição do Instituto Cervantes do Quixote já foram nas minhas mochilas e malas de Madri pro México, do México para Barcelona, de Barcelona para o Brasil e do Brasil de volta para Barcelona.

É o peso da tradição literária, sim.

Mas eu quero carregar.

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Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e morou alguns anos no Brasil. É autor de Festa no covil, Se vivêssemos em um lugar normal e Te vendo um cachorropublicados pela Companhia das Letras e traduzidos em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
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Literatura sem missão — ou os embates da escrita entre dois Millers: Arthur e Henry

Por Luiz Schwarcz

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Lee J. Cobb, Arthur Kennedy e Mildred Dunnock na montagem de A morte de um caixeiro-viajante, de Arthur Miller, em 1949. Crédito: Shields Collection.

livre42A frase “Escrever (ou o Teatro) vai salvar o mundo”, atribuída a Arthur Miller, não me sai da cabeça. No momento, estou lendo uma biografia de Miller para saber o contexto em que ela foi dita, e como, algum tempo depois, o grande teatrólogo americano a teria renegado, ou melhor, se mostrado mais descrente com relação a ela. Quem sabe ao chegar ao final desta crônica terei mais respostas, ou ao menos indícios.

Enquanto isso, lembro-me de outra questão, bem mais simples, que me foi colocada há muitos anos por um jornalista, do qual já não lembro mais o nome. O grande fenômeno editorial na ocasião eram os livros de autoajuda de Lair Ribeiro, autor que veio depois de Paulo Coelho e causou um novo estouro de vendas nas livrarias. Fui então selecionado pelo jornalista como a voz naturalmente contrária a esse tipo de livro na versão “made in Brazil”. Surpreendi meu entrevistador, porém, recusando-me a desempenhar tal papel.

Também não sou um defensor radical da frase de Monteiro Lobato que afirma “todo livro lido é um bom livro”. São compreensíveis as razões de Lobato, que a proferiu num contexto em que as editoras lutavam, ainda mais do que hoje, contra o analfabetismo e o desconhecimento da população com relação ao valor da leitura. No entanto, levada ao extremo, essa definição tira do leitor a capacidade de julgar, de não gostar do que leu, de contrapor suas ideias às do autor, de alocar sua fantasia no lugar de outra. Como disse são compreensíveis as razões de Lobato, mas a sua frase deve ser enunciada com cuidado, sem perder o senso crítico.

De toda maneira, ao ser perguntado se era contra livros de autoajuda, afirmei sem pestanejar, não! Emendei dizendo que, em minha opinião, todo livro é no fundo um livro de autoajuda. De Drummond a Lair Ribeiro, todos os livros lidos, mesmo que não necessariamente bons, são de autoajuda. Apenas possuem pretensões diferentes. Alguns desejam mudar o mundo e os seus leitores rapidamente, outros lentamente. E há os que nem pretendem mudar nada, mas talvez sejam os mais bem-sucedidos nesse quesito. Por vezes são os que têm maior influência no ser humano e na vida social — os textos escritos como se o escritor fosse um Jonas vivendo dentro da baleia, sem espectro ou pretensão de ação social possível.

A missão de um livro de autoajuda seria de muito mais curto prazo do que um livro de literatura sofisticada; a voz do autor desses livros vem imbuída de mais autoridade e pretensão. Mas isso não basta para caracterizar esses trabalhos como bons ou ruins, assim como a frase de Lobato tira do verdadeiro juiz seu poder de julgamento. Quem decide se um livro é bom ou ruim, em primeira e última instância, é o leitor; sendo o crítico literário apenas um leitor que em princípio milita na mesma área que o autor — estudou literatura ou jornalismo, e por isso atua em espaços públicos de leitura. Podemos opinar sobre a perenidade de um livro e assim qualificar como mais importantes aqueles que ficam em nossas mentes por um tempo maior, mas não julgar sua qualidade no lugar do leitor(a).

Quanto à literatura com missão política ou de engajamento, aquela que sai da cabeça do escritor com a vontade explícita de mudar o mundo a curto prazo, dedico a ela um bom punhado de dúvidas. Não creio que as grandes peças ou contos de Arthur Miller tenham sido escritos com esse fim imediato. A frase teria sido do começo de sua carreira, e traz um compromisso tanto social quanto moral. Segundo ele, o teatro teria mais capacidade de salvar a sociedade do que a medicina — uma vez que coloca questões morais fundamentais e, assim, promove futuras mudanças sociais. O teatrólogo americano, filho de imigrantes judeus, foi marxista e militante durante parte de sua carreira, mesmo sem ter se filiado a partidos políticos. No entanto, suas grandes obras não eram de puro proselitismo. Ultrapassavam em muito esse propósito. O pai de Arthur Miller era analfabeto e foi abandonado pela família na Europa dos pogroms, tendo chegado à América depois de todos os irmãos. Mesmo assim, conseguiu enriquecer, para depois perder tudo, com a grande depressão. Nunca leu sequer uma carta do filho. Talvez por isso Miller acreditava tanto na magia do palco, da interação entre o espectador e os atores. Dizia que “o peixe está na água, mas a água está no peixe” e devotava ao momento da representação uma crença tão forte quanto às mudanças que julgava ideais para a sociedade. Em uma entrevista dada à New Yorker em 1999, seis anos antes de falecer, num momento que já renegava ou relativizava a famosa frase que inicia esta crônica, ele relata que Willy Loman — o caixeiro-viajante que com o tempo não consegue vender mais nada e acaba se suicidando — não teria sido inspirado em um tio seu, ou em seu pai, como se costumava dizer. Mas é difícil de acreditar. Os dois perderam tudo com o crack da bolsa de Nova York e foram obrigados a se mudar de Manhattan para o Brooklyn, onde Miller passou parte da infância.

A obra de Miller sem dúvida foi muito afetada por sua relação com o pai, assim como pelos eventos familiares. Na entrevista Miller despista, dizendo que para criar Loman teria se baseado em um amigo, Manny Newman, um sonhador que sempre acabava perdendo, tendo seus “dedos constantemente pisados pela engrenagem social”. O amigo que acabou se suicidando pode ter feito parte do caldo que criou o personagem na cabeça de Miller, mas não foi sua única inspiração. Na mesma entrevista o escritor se lembra de um empresário da Filadélfia, Bernard Gimbel, que, tendo estado na estreia de A morte de um caixeiro-viajante, de lá saiu e, dias depois, proibiu que pessoas fossem demitidas de suas lojas em razão da idade.

Será que essa pequena atitude poderia contar a favor da frase que inicia meu texto? Teria Miller — já num período de descrença com a militância de esquerda — achado que por conta de atitudes como a de Gimbel, A morte de um caixeiro-viajante de fato teria mudado o mundo? O mundo de alguns, ao menos, mesmo que não o de todos?

Hoje me pergunto se a arte — por ter retratado a humanidade, com suas grandezas e suas vilanias, durante séculos — não poderia ser considerada como uma das mães dos movimentos sociais? Seria a luta de hoje por direitos humanos a mesma sem a representação que o ser humano fez de si próprio através dos tempos? Sem defender a pretensão revolucionária da arte, pergunto-me: de quantos encontros como o de Willy Loman com Bernard Gimbel se fez a história do teatro? A crença em si ou a vontade de mudar o mundo não prejudicam a literatura, desde que o autor não pense em resultados imediatos. Desde que a realização da obra ganhe total independência formal e de conteúdo em relação a propósitos políticos ou sociais. Boas intenções não resultam necessariamente em bons livros. Em muitos casos chegam a atrapalhar.

George Orwell, um escritor tão engajado quanto polêmico, tratou muito dessas questões em seus ensaios. Disse que toda arte é propaganda, que nunca sentou para escrever um livro sem que existisse, como fonte de inspiração, uma mentira que quisesse desvendar. No entanto, reafirmou que sem a experiência estética nada do que desejava fazer teria adquirido qualquer sentido. Orwell afirmou diversas vezes que ao escrever era obrigado a abandonar o foco inicial de seu trabalho e se alongar em assuntos politicamente irrelevantes. E que suas obras eram feitas em igual medida do que queria desvendar e dos aspectos menores que apareciam no meio do caminho.

O escritor de A revolução dos bichos realizou grandes ensaios, elogiando autores completamente diferentes dele. Admirava profundamente o primeiro livro de Henry Miller, Trópico de câncer, que teria sido escrito sem propósito político algum, apenas para retratar “parasitas americanos mendigando tragos no Quartier Latin”. Dizia que a força de Miller, ou de Joyce, vinha do não engajamento desses grandes narradores. Por conta disso é que os dois conseguiram retratar tão bem o homem comum. Henry Miller, segundo Orwell, era um pacifista radical, um militante do não engajamento. Foi um Jonas que se beneficiou por estar dentro da baleia. Aldous Huxley se queixava dos escritores e artistas que se refugiavam dessa forma. Achava a barriga da baleia um lugar triste e perigoso. Orwell, que optou sempre por lutar contra baleias invencíveis, argumentou que Joyce e Henry Miller fizeram obras maiores, claramente optando por não militar politicamente. São autores que, segundo Orwell, produziram sem medo. Um dado fundamental, segundo ele, para realizar um grande livro.

É curioso o sincero elogio de Orwell a escritores com ideais e princípios que ele mesmo considerava abomináveis. Para Orwell, Jonathan Swift, assim como Edgar Allan Poe em menor medida, seriam pessoas cujas visões de mundo podiam ser absurdas e falsas. Algumas narrativas de Poe, por exemplo, “poderiam muito bem ter sido escritas por um louco, (mas) não transmitem uma sensação de falsidade”. Ao manter os preceitos de seu mundo particular, os contos se assemelham, em sua integridade, a uma pintura japonesa, isto é, dentro de sua própria lógica, convencem. Para o autor de 1984, Swift era um pessimista reacionário que retratava a humanidade de forma deplorável. No entanto, apesar das ideias e intenções de seu autor, Viagens de Gulliver é um grande livro. A explicação de Orwell: Jonathan Swift pinçou um aspecto da verdade humana, um apenas, e o desenvolveu literariamente com dois componentes fundamentais, talento e convicção.

Alguns desses escritores mudaram o mundo? De forma definitiva, com certeza não. Mas a inutilidade de sua arte deve ter sido útil de alguma forma. Pela ousadia, pela qualidade estética e pela convicção com que suas obras foram escritas.

P.S. Este post se baseou, entre outros, nos ensaios de Orwell que fazem parte de Dentro da baleia; no prefácio de Otavio Frias Filho para a antologia de Arthur Miller, A morte de um caixeiro-viajante e outras 4 peças; e na entrevista de Nuccio Ordine a respeito de seu livro recém-publicado pela editora Zahar, A utilidade do inútil, cuja leitura ainda pretendo realizar.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Escreve pra o blog uma coluna semanal sobre livros e o trabalho editorial.