Colunistas

Tristeza não tem fim…

Por Luiz Schwarcz

Retrato de Alexandre Benois por Leon Bakst (1894) utilizado na capa de Demons, de Fiódor Dostoiévski, pela Penguin Classics.

Outro dia fiquei pensando por que há tanta tristeza nos bons livros. Há escritores com enorme senso de humor — James Joyce, Thomas Pynchon, José Saramago e Machado de Assis são alguns deles. Parte do humor vem da experimentação formal, principalmente no caso dos dois primeiros. Subverter a forma como falamos exige crítica, e crítica muitas vezes precisa de humor. Mesmo assim, pelo que sei, sem ter lido Ulysses até hoje, sua história no fundo não é nada alegre. Saramago é engraçado, em muitos casos, pelo absurdo de levar a literatura às suas últimas consequências. Ele explora a literalidade das palavras como se fosse um mestre do teatro do absurdo. É sem dúvida o Ionesco da prosa, e daí vem a sua graça. Mas o painel humano ou social que sai de seus livros é desolador.

Há livros tristes em que a graça está muito presente. Lembro-me de dois: Triste fim de Policarpo Quaresma, ou mesmo A vida como ela é, de Nelson Rodrigues. Nesses casos o humor emerge do drama, do cinismo crítico com que os dois escritores relatam o cotidiano ou descrevem seus personagens. Mesmo assim, os dois livros são tristíssimos. O nacionalismo exacerbado, quase jocoso, do personagem principal da obra-prima de Lima Barreto desemboca num drama existencial profundo. Acaba servindo como termômetro crítico dos nacionalismos em geral e como painel de uma sociedade muito rudimentar no acesso a real cidadania. Terminei o Triste fim às lágrimas. Nelson Rodrigues traz a tragédia grega para o subúrbio carioca. É nessa transposição que há tanta graça, antecedendo a dramas ancestrais. Há humor nos contos cruéis de Rubem Fonseca, mas se prestarmos atenção, no caso desse grande contista brasileiro contemporâneo, rimos pela surpresa da violência e pela incorreção política do escritor. Os sorrisos se transformam em susto, ou vice-versa.

Budapeste e Leite derramado, de Chico Buarque, são livros engraçados mas trágicos — principalmente o segundo. Esquecemos, graças à habilidade do escritor, que estamos lendo o relato de um narrador velho, desmemoriado e largado, cujo grande amor deixou um vazio irrecuperável em sua vida.

Claro que há escritores em que a comédia suplanta o drama, dando ao riso um papel mais central. Boccaccio, Evelyn Waugh, P.G. Wodehouse, são alguns nomes que me vêm direto à mente. Mas, de qualquer forma, a literatura que não flerta ou fica em débito com a tristeza me parece minoritária. Não digo com isso que os escritores são todos filhos da tragédia grega ou russa, que se inspiraram na melancolia do existencialismo francês, que ouviram as declarações de amor dos poetas provençais e que as repetem a seu modo.

O que me intriga é que na literatura há uma tendência, talvez maior que em outras artes, na direção da tristeza. Quase arrisco dizer que há uma melancolia imanente da qual alguns escritores conseguem fugir, em parte, a partir de seus experimentos formais. Talvez seja mais fácil transformar a tristeza em arte nos livros do que em manifestações que contam com uma representação mais realista por natureza, como o cinema e o teatro. Na literatura tudo passa antes pelo papel, ou pela tela, e depois pela nossa imaginação. A ópera, à sua maneira, também possui um artifício que permite um flerte mais fácil com a tragédia. O fato de lá tudo ser representado a partir de canções confere à arte de Verdi e Wagner uma mediação irrealista, que a diferencia imediatamente da vida comum. Ao assistirmos tragédias cantadas e não contadas através de diálogos reais, sabemos a cada momento que o compromisso com a representação é um princípio fundador. Assim é mais difícil esquecer que estamos sentados num teatro como espectadores, já que os atores cantam em vez de falar. Nos livros, relacionamo-nos, a partir de um objeto físico, diretamente com a nossa imaginação. A cara dos personagens quase depende mais de nós do que do autor.

Correndo o risco da repetição de outros textos aqui publicados, me pergunto se a forma solitária da criação literária é também algo que cria o ambiente ideal para a tristeza proliferar na literatura.

E por que gostamos ou precisamos tanto de nos mostrar tristes? Porque assim somos e ponto final?

Este post traz verdades frágeis e questões irrespondíveis. Seria possível escrever o oposto, dizer que a graça prevalece no mais triste dos escritores, como Dostoiévsky ou Thomas Bernhard. Em literatura, o momento da leitura influencia e muito no resultado final. Portanto, nem é preciso lembrar que o que em breve termina é apenas uma crônica, quiçá equivocada, influenciada por um estado de espírito passageiro, tentando entender o que tenho gostado de ler e o que agora escrevo. Santa melancolia!

P.S.: Parte das ideias sobre ópera contida neste post encontra-se no maravilhoso Uma História da ópera, de Carolyn Abbate e Roger Parker, que a Companhia das Letras vai publicar em março de 2015.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna mensal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

As boas intenções

Por Emilio Fraia


Dez de dezembro, do norte-americano George Saunders, está cheio de personagens bem-intencionados. Na primeira história, “No colo da vitória”, a jovem Alison Pope ama suas amigas de classe, e as garotas da escola, e os garotos, e os professores. “Todo mundo era tão bacana. Todos dando o melhor de si.” Na verdade, ela ama a cidade toda. A pastora Carol; o quitandeiro adorável, “borrifando suas alfaces!”; o carteiro gorducho, “acenando com seus envelopes-bolha!”. “Para fazer o bem você só precisa decidir fazer o bem. Ter coragem. Fazer o que é direito”, diz Alison, que “gostava de estar no comando de si própria. De seu corpo, de sua cabeça. De seus pensamentos, sua carreira, seu futuro”. Alison luta pelas vítimas e contra a opressão, dá comida a pobres imaginários e conversa com eles: “Há alguma coisa que eu possa fazer por vocês, pessoal?”. E eles respondem: “Você já fez muito, Alison, ao se dignar a falar conosco”. Ao que ela acrescenta: “Isso não é verdade! Vocês não entendem que todas as pessoas merecem respeito? Cada um de nós é um arco-íris”.

Às vésperas de seu aniversário de quinze anos, Alison está sozinha em casa (“Também amava sua casa. Do outro lado do riacho ficava a igreja russa. Tão étnica!”) quando alguém bate à porta. É um desconhecido, um sujeito enorme, num daqueles coletes dos homens que medem o consumo de luz e água.

De repente, o grandalhão segura Alison pelo pulso, saca uma faca.

Nesse ponto, George Saunders (mestre absoluto) nos leva a observar a história através dos olhos do vizinho da frente de Alison, o superprotegido Kyle Boot. Eles cresceram juntos, Alison e Kyle. Os pais de Kyle não o deixam fazer nada, estão sempre em cima, cobrando, exigindo, cuidando, proibindo. Querem, afinal, o bem dele. “Pense em todos os recursos que investimos em você, Amado Filho Único”, diz sua mãe. “Eu sei que às vezes parecemos rigorosos demais, mas você é tudo que temos”, diz seu pai. Saunders constrói Kyle como um personagem paralisado, abobalhado pela infinidade de regras a que é submetido. Kyle vê o que está acontecendo na casa em frente: o sujeito com a faca, carregando Alison (“como uma boneca de pano no santuário do jardim perfeito que o pai tinha feito para ela”). O coração de Kyle dispara. Sua boca fica seca.

Não vou contar o desfecho da história, claro. Mas sugeriria um salto até a terceira narrativa do livro, “Filhote”, em que uma mãe, Marie, parte com seus dois filhos pequenos, Josh e Abbie, numa “Missão Família”. Pegam seu Lexus (sedan da Toyota) e vão até um sítio, margeado por um milharal, a alguns quilômetros da cidade, onde pessoas estão doando um cachorrinho.

À primeira vista, Marie parece ter algo da Alison Pope do primeiro conto, uma visão otimista das coisas. Também possui total certeza de que é portadora do bem. Apesar disso, logo percebemos que o caminho pelo qual Saunders está nos levando aqui é outro. Marie teve uma infância dura, sem muitas alegrias (“Papai era tão casmurro, Mamãe tão envergonhada”), por isso agora, na sua família, “a risada era incentivada!”. “Ah, a risada em família era a melhor coisa do mundo!”, pensava, enquanto dirigia, com os filhos no banco de trás.

Tinha uma visão muito correta de si, “sentia que o mundo era bom e que ela tinha encontrado seu lugar nele”. Era, afinal, uma pessoa compreensiva, que sabia que os filhos eram “crias de si próprios”. Ela era meramente uma “zeladora”. “Eles não precisavam sentir o que ela sentia; tinham apenas que receber apoio naquilo que sentissem, fosse o que fosse” — Waldorf aprovaria.

Então, Saunders muda a perspectiva da narração. Passamos a acompanhar Callie, a mãe da família cujo cachorrinho vai ser doado. Eles moram num sítio. São gente simples. O cachorrinho é branco, tem uma mancha marrom num olho. Se não for doado, vai ter que ser sacrificado, e Callie não quer isso, não quer que seu marido, Jimmy, precise agir “como daquela outra vez, com os gatinhos”.

Callie tem um filho, Bo, que possui um tipo de deficiência — Saunders não nos diz exatamente do que se trata. Bo costuma ficar nervoso. Os remédios o fazem ranger os dentes, e subitamente “ele dava com o punho em cima de alguma coisa; tinha quebrado pratos daquele jeito, levado quatro pontos na mão até.” Mas naquele dia ele não precisava dos remédios porque estava em segurança no quintal, diz Callie, com seu taco, treinando arremessos, enchendo de pedrinhas seu capacete dos Yankees e atirando-as contra a árvore.

Marie chega com as crianças à casa de Callie e logo se depara com um mundo completamente distinto do seu, “a imundície, o cheiro de mofo, o aquário seco sustentando o volume único da enciclopédia”. “Por favor, não toquem em nada”, ela diz a Josh e Abbie, mas “só mentalmente, desejando dar às crianças uma oportunidade de observá-la sendo democrática e compreensiva”.

As crianças adoram o cachorrinho, ficam repetindo “mamãe, eu quero ele, eu quero ele!”. Tudo está indo bem, de maneira absolutamente ok. Até que Marie vai até a janela e, “afastando antropologicamente a persiana”, vê uma cena que, claro, eu não vou contar. Mas que a faz desistir de levar o cachorrinho, e que coloca em movimento um dos finais mais sensíveis que já li num conto.

O que dá para dizer sem dizer sobre os desfechos dessas duas histórias? — e é incrível que Dez de dezembro não tenha recebido uma única resenha ou crítica sequer até agora por aqui. Saunders vai nos dizer algo mais ou menos assim: 1) por mais ponderadas e pretensamente racionais que sejam as nossas escolhas, alguma coisa sempre pode sair do controle; 2) lutamos contra injustiças e criamos novas injustiças; 3) temos plena certeza de que somos razoáveis e bons — o bom-senso, que Descartes dizia ser a coisa mais bem distribuída do mundo, porque todos pensamos ter — e às vezes o que achamos, com convicção, que é o melhor a ser feito, acaba se mostrando cruel e desencadeando violência.

Num outro conto sensacional, “Exortação”, um chefe manda um e-mail a seus empregados. A história é a própria mensagem, um memorando DE: Todd Birnie, Diretor de Divisão. PARA: Equipe. RE: Estatísticas do Desempenho de Março. É um texto motivacional, a “exortação” do título. Tem aquele humor dos relatos de Kafka — nunca ficamos sabendo, por exemplo, o que é exatamente o trabalho que Todd e seus funcionários realizam. E a coisa, aos poucos, vai ficando pesada. “Estou dizendo que devemos tentar não esmiuçar cada mínima coisa que fazemos para saber se é boa/má/indiferente em última instância em termos morais”, escreve Todd. E vamos ficando horrorizados com a naturalização de comportamentos atrozes, com os auto-enganos que justificam as ações no ambiente corporativo. Ainda assim, o que sentimos é melancolia, uma sensação difusa, nunca raiva. A capacidade de afeição de Saunders por seus personagens impressiona. E isso se dá ao mesmo tempo em que o autor lança luz sobre aquele lado negro que, lendo seus textos, passamos a enxergar em tudo o que convencionamos chamar de bem e nossas mais nobres certezas e intenções.

* * * * *

Emilio Fraia nasceu em São Paulo, em 1982, é editor, jornalista e escritor. É autor da graphic novel Campo em branco (Quadrinhos na Cia., 2013, em parceria com DW Ribatski) e do romance O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, com Vanessa Barbara). Foi repórter das revistas Trip piauí, e editor de ficção da editora Cosac Naify. Contribui com uma coluna mensal para o blog.

Puxa-puxa

Por Leandro Sarmatz


Não é preciso ler Kant para sabermos — aproximadamente, pelo menos — por que gostamos daquilo que gostamos. De fato é um cadinho de coisas: nossa história, formação, ânimo, gostos que puxam outros e que fazem parte de uma mesma constelação de referências.

Tem algo de muito especial quando travamos o primeiro contato com algum autor forte. Porque a coisa nunca se esgota. É uma promessa muito íntima de felicidade. Lembro, muito tempo atrás, quando “descobri” Borges. Eu sabia que agora teria um oceano de leituras pela frente. Os livros do próprio autor de Ficções mas também — numa operação que não tardei a descobrir como muito borgeana — todos os autores que o influenciaram, assim como aqueles que vieram depois. Era como “Kafka e seus precursores”, o ensaio clássico do argentino, só que na prática. E, como acontece com leitores adolescentes (meu caso naquele tempo distante), num processo entre trancos e barrancos. (Sim, Borges é um caso extremo para a minha argumentação, mas ok, isso acontece com quase todo autor forte.)

E a coisa se repete de tempos em tempos. Esse círculo virtuoso de descoberta e leitura-que-puxa-leitura. Isso se deu em 2005, quando li Noturno do Chile, de Roberto Bolaño, e aí corri atrás de tudo o que o chileno tinha escrito ou lido. Ou antes, no início da década passada, quando comecei a ler Joseph Roth em edições espanholas. Ou em 2007, quando tracei toda a obra de Bruce Chatwin e depois fiquei — nômade literário — buscando todos os escritores-viajantes britânicos do século XX. Ou mesmo os poetas todos, em que o diálogo com a tradição e os pósteros parece ser ainda mais agudo, embora igualmente difícil (e fascinante) de escavar. Trata-se de um esporte obsessivo. É mesmo um tipo de adição.

Acho que isso deve acontecer com muitos leitores. Ou ouvintes de jazz, cinéfilos etc. É o que deve manter a curiosidade aguda e o élan para novas leituras. Sinto-me vazio, só casca e serragem, quando habito algum tipo de hiato entre essas descobertas e buscas incessantes. A vida (de leituras, pelo menos, ou a minha, se tanto) parece andar de fato quando isso está acontecendo. Um livro novo, uma penca de livros antigos, a expectativa por leituras futuras. O nome disso é alegria, ou alguma coisa muito parecida com ela.

* * * * *

Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

 

O fim da infância

Por Joca Reiners Terron


A Seleção de 1982

Ah, época de Copa do Mundo é fogo… daqui a exatos dezenove dias muitos meninos e meninas em todo o mundo terão deixado de ser crianças antes da hora.

Copas do Mundo são especialistas nisso, em antecipar as coisas. Eu mesmo vi minha infância se escafeder num átimo: foi em 5 de julho de 1982. Quando Brasil e Itália começaram a jogar eu ainda era um moleque de 14 anos. No final da partida já havia nascido uma barba cerrada em minha cara, chegava quase ao peito. E enquanto minha infância entrava no túnel do vestiário e desaparecia para sempre junto de Zico, Sócrates e turma, eu arrancava o meu primeiro fio de cabelo branco.

O problema de ser jogado na vida adulta desse jeito, sem vaselina ou KY algum, é que a gente fica meio cético. Não só no referente ao futebol, mas em relação a tudo. Por exemplo, quando me casei e o padre perguntou à minha noiva se ela se casava por livre e espontânea vontade, ela disse que sim, mas eu, que sou vítima da Copa de 1982 e cético, não acreditei muito, e murmurei um “mas é SIM de verdade?” que arrancou risos dos padrinhos. E quando minha filha nasceu e a colocaram em minhas mãos pela primeira vez fiquei com um verdadeiro circo de pulgas atrás da orelha. Perguntei à enfermeira: “Tem certeza que é a minha filha mesmo, né? Não é possível que vocês tenham se enganado de bebê, não é mesmo?”.

Tudo culpa da Copa do Mundo.

E não é só comigo que é assim, não, mas com o Delei, com o Ary, com o Xandão, meus amigos do tempo do colégio: todos céticos de carteirinha que duvidam até da própria mãe. Absoluta e irrevogável culpa da Copa de 1982, tudo por conta de nossa infância surrupiada antes da hora.

Para você fazer ideia: quando hoje em dia ouvimos os comentários do Falcão naqueles jogos de futebol na TV, eu, o Delei, o Ary e o Xandão tapamos os ouvidos. E quando o Zico promete mundos e fundos dizendo que a seleção japonesa — que ele conhece bem — vai fazer barba e cabelo, sushi e sashimi hoje contra a Colômbia, eu, o Delei, o Ary e o Xandão pensamos que os japoneses deveriam mais é abrir os olhos, se pudessem. Promessas de Zico nunca mais, entoamos em coro. Daquela trupe de 82 o único que merece algum crédito ainda é o Arnaldo César Coelho. E somente porque ao apitar a final entre Itália e Alemanha ele nos deu um gostinho esquisito na boca que nós, ingênuos que éramos, confundimos com felicidade. Era só patriotada pré-Abertura política.

Por outro lado, a molecada de hoje em dia vê sua infância correr risco de extermínio bem antes da Copa do Mundo ter início. Sim, pois antigamente eram as crianças as encarregadas de decorar as ruas dos bairros, as calçadas, a pintar os muros com os nomes dos jogadores. Hoje em dia quem decora as ruas são os bancos e as operadoras de celular. Qual a necessidade de meninos e meninas decorarem a rua, pois se onde quer que olhemos há pôsteres e outdoors de Neymar e David Luiz? Hoje em dia as figurinhas dos álbuns são autocolantes, meu Deus! Não tenho mais certeza se a seleção brasileira é o time dos sonhos das crianças, mas dos publicitários certamente ela é. E que sonhos cheios de cifrões.

Pensando bem, até que tive uma infância legal. Foi curta e dolorida, mas foi feliz.

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu novo livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
Site – Twitter – Facebook

 

Maracanaço

Por Érico Assis


“My Travels with the Curse of Maracanã”, reportagem de Christoph Niemann para o The New York Times.

A recomendação veio do Scott McCloud e, por vir dele, virou aquela avalanche de likes e retweets e alarmes entre a (nossa) turma de seguidores: “My Travels with the Curse of Maracanã”, reportagem de Christoph Niemann no site do New York Times. Não uma reportagem qualquer do Times, mas uma reportagem em… uhm… ahm… quadrinhos? Powerpoint? Livro ilustrado digital?

Bom, é o seguinte: Niemann foi enviado ao Rio de Janeiro para trazer algo sobre “o espírito da Copa do Mundo”. Sua produção é uma sequência de (quadros? páginas? slides?) que usam fotos, desenhos, desenhos sobre fotos, desenhos animados, desenhos animados sobre fotos, trilha incidental, efeitos sonoros e dois trechinhos de vídeo em loop. E, sim, uma bela narrativa sobre o Maracanaço — o monstro da derrota na Copa de 1950 — e Moacir Barbosa — o goleiro da Seleção na época. Numa das primeiras (cenas? montagens? parágrafos?), Niemann fica trocando bola com o Cristo Redentor.

O Times chama Niemann de “colunista visual”. Seus textos, usando a definição ampla de texto, sempre baseiam-se em ilustração, animação, fotografia e algumas palavras. A última postagem de seu blog Abstract Sunday, por exemplo, traz um obituário de André Cassagnes, criador da Tela Mágica, numa sequência de desenhos feitos numa Tela Mágica vintage. No currículo, ele tem livros infantis ilustrados, livros ilustrados não-infantis e apps.

Mas o caso é que a recomendação veio do Scott McCloud, o cara que escreveu Desvendando os Quadrinhos e que abriu milhões de cabeças para a definição de uma história em quadrinhos — o que nos (me) deixa pensando se ele queria recomendar a reportagem de Niemann, independente de suas animações, áudio e vídeo, como história em quadrinhos.

* * *

Aí que, sincronisticamente, no mesmo dia da matéria de Niemann, o Guardian publicava uma conversa com Alan Moore falando de seu novo projeto de quadrinhos para internet: o Electricomics. O esquema ainda deve levar um ano para entrar no ar, mas incluirá uma plataforma/ferramenta/app/engenhoca para os próprios usuários criarem webcomics, colaboração de outros nomes conhecidos dos quadrinhos e Moore em si roteirizando uma nova versão de Little Nemo.

Já no segundo parágrafo, Moore dispara que não acha que os quadrinhos precisem se reinventar para a internet. “Não tenho a mínima ideia [do que se tem feito] porque não tenho qualquer tipo de presença da internet, nenhum desses aparelhos, nenhum tablet e, para ser bem sincero, não me envolvo mais com a cena dos quadrinhos.”

Ok. Envolvido ou não, Moore resolve dar uma aulinha sobre o que (não) viu. A reportagem explica que ele cita uma página do Spirit de Will Eisner na qual o herói investiga uma casa vazia: “Tem-se um quadro da cozinha no escuro. Uma torneira no primeiro plano, e da boca da torneira sai uma gota d’água levemente prolongada. Fosse num quadrinho digital, você estaria tentado a deixar aquela gota pingar, quem sabe adicionar um efeito sonoro, ping-ping-ping. Mas a narrativa não ficaria melhor e você estragaria a elegância que há no original de Eisner, onde o esticar da gota nos diz que ela vai cair em questão de segundos, e outra gota vai se formar. [Os quadrinhos são uma tecnologia] que se apoia no hardware do cérebro, no software da mente. Os efeitos potenciais já estão criados lá. Evitar esses badulaques seria um dos primeiros princípios a que os quadrinhos digitais deveriam ater-se”.

Moore não está nem aí para as reportagens de Niemann serem ou não quadrinhos. Nem para o que McCloud já defendeu sobre potencialidades a explorar no quadrinho digital. Provavelmente nunca viu Thunderpaw. Nem When I Am King. Nem “Our Toyota Was Fantastic”, na qual Boulet lembra das viagens de infância e faz as luzes da estrada passarem sobre o carro, uma memória que é ao mesmo tempo estática e animada em loop. E por que não chamar isso de quadrinho?

Tudo bem que cada um faz seu gibi do jeito que quiser. Mas lançar-se num projeto novo de webcomics já ditando princípios e torneiras que não pingam soa como contrassenso.

* * *

Outros já tentaram categorizar os trabalhos de Christoph Niemann. Steven Heller diz que “não é ilustração no seu sentido convencional, pois está mais para uma espécie de pensar visual tão racional quando a ciência e tão irracional quanto a arte. É divertido, peculiar, mas também uma perspectiva de vanguarda, que atrai os sentidos.”

Mike Wenthe, tratando justamente da pergunta “isso é quadrinho?”, diz que o trabalho de Niemann talvez não se encaixe nas definições formais de quadrinhos, “mas eu prefiro ver como algo que expande os recursos dos quadrinhos, assim como a poesia expande os recursos da língua, ao invés de algo que não se equipara a um padrão ortodoxo. Sem esquecer que: é divertida”.

E basta isso: “My Travels with the Curse of Maracanã” é divertida. Leia (/assista/acompanhe/clique/etc.).

* * * * *

Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
Site — Twitter — Outros Quadrinhos