Colunistas

O zepelim, a Netflix e o Biscoito Globo: a poderosa alquimia da memória

Por Ana Maria Bahiana

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Tudo começou quando li um excelente texto do arqueólogo, egiptólogo e empreendedor britânico Tobias Stone sobre o papel da memória na narrativa histórica. Mais que na narrativa — na história em si. Por que a humanidade repete incessantemente os mesmos ciclos? Por que temos iterações periódicas dos mesmos arquétipos: as guerras religiosas e étnicas; os expurgos; as expansões imperiais; a ascensão de ditadores e tiranos? Stone, com sua formação embasada no estudo do antigo, oferece uma resposta intrigante: porque não nos lembramos. Sim, existe o registro. Mas emocionalmente, fisicamente, visceralmente não nos lembramos mais. “Minha teoria é que a perspectiva histórica da maioria das pessoas é limitada à experiência compartilhada por seus pais e avós, ou seja, uma média entre 50 e 100 anos”, Stone escreve.

É uma perspectiva fascinante, que sugere uma ideia ainda mais desafiadora: a de que apenas os relatos, o registro da história, não valem quase nada se não vierem acompanhados da memória afetiva e emocional que lhes dá contornos claros, quase palpáveis, quase uma realidade virtual. O que nossos antepassados imediatos nos contam a partir de suas experiências têm mais peso de verdade do que o que aprendemos na escola, nos livros, nos registros oficiais, porque formam um arcabouço que envolve outros elementos, com a carga emocional da experiência vivida.

Por isso, Stone continua, é perfeitamente possível encontrar, hoje, pessoas que duvidam, por exemplo, que o Holocausto se deu, ou que acreditam que Donald Trump e outras figuras da direita populista oferecem propostas inteiramente novas e válidas, nem um pouquinho semelhantes às de tiranos fascistas do século 20. Entre outras coisas.

Sempre fui fascinada pelo papel da memória, por seus processos, pelo modo como o que lembramos se constrói. Ver meu pai — memorialista nato, colecionador apaixonado, excepcional fotógrafo amador — sucumbir ao mal de Alzheimer foi ao mesmo tempo um horror e uma lição sobre o poder, a delicada alquimia da memória. Da presumida escuridão total das etapas finais da doença emergiam narrativas inteiras, intactas, tão vivas como da primeira vez que foram contadas. Seria o peso do afeto, a superposição com alguma outra energia mais sutil que guardaram até o fim a imagem do Zepelim flutuando sobre a praia de Copacabana? Será por esse mesmo motivo que me lembro do cheiro e da textura de uma determinada boneca, mas tenho a clara impressão de que nunca, realmente, brinquei de boneca?

Os produtores de entretenimento de massa conhecem muito bem esse poder da memória afetiva. “Nada apavora mais um executivo do que uma ideia inteiramente original”, um produtor independente me disse, uma vez. E é a pura verdade. A ideia original abre uma nova etapa e, portanto, não tem alicerce. Mas ah! Que coisa mais certeira do que aquilo que já foi visto e assimilado emocionalmente! Aquilo que já compôs sua própria narrativa na nossa cabeça e no nosso coração, que já está ancorado na nossa memória afetiva, só precisa dos botões certos, das espoletas que vão nos levar a, imediatamente, ver e apreciar como se estivéssemos lembrando. Como se estivéssemos vivendo de novo algo que pode ou não ter sido vivido desse modo — mas que é lembrado e, portanto, vale.

Stranger Things, a série da Netflix, sabe disso tudo muito bem. Seu imenso sucesso está em fornecer todas as espoletas certas, recriando o universo de memórias afetivas da geração que hoje tem entre 30 e 45 anos e cresceu vendo o cinema pop/fantástico da geração de Steven Spielberg, John Carpenter e George Lucas — que, por sua vez, estavam reciclando as suas próprias memórias afetivas dos anos 1950 e 1960. É um ciclo que, com o devido incentivo pecuniário, não termina tão cedo.

Fiquei pensando também se esse mesmo poder não explica a divertida controvérsia do Biscoito Globo. Como tantos outros cariocas, eu cresci comendo Biscoito Globo. Não saberia sequer descrever seu sabor com palavras exatas, mas sei muito bem o que ele é: praia, mate gelado, o som de “croc”, o farelo pelo corpo, o mergulho, o cheiro da maresia, a areia nos pés, a conversa com os amigos. Em termos de experiências meramente gustativas, jamais colocaria o Biscoito Globo no topo da lista. O que ele é é a minha infância, a minha adolescência, a liberdade, a alegria e os simples e poderosos prazeres de estar naqueles momentos, naquelas praias. É parte do que faz de mim o que sou — uma carioca de Ipanema, que se lembra afetivamente de tudo do seu bairro e, no entanto, talvez não seja capaz de recordar o que fez em determinada data.

Pobre rapaz do New York Times! Que memórias ele terá? Saltwater taffy em Coney Island? Eu provei uma vez. Achei um horror. Mas não era minha história.

* * * * *

Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964(Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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A metamorfose ambulante da Union Square — ou o grande caçador de prêmios Nobel e suas echarpes coloridas

Por Luiz Schwarcz

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Ilustração: Alceu Chiesorin Nunes

livre42Já tratei aqui de alguns tipos diferentes de editor. Num dos extremos está Max Perkins, que se debruçava minuciosamente sobre o conteúdo dos livros. No lado oposto, Allen Lane, que inventou novos caminhos e formatos para as edições, mas que jamais lia um livro até o fim.

Hoje gostaria de tratar de outro tipo de profissional: aquele editor que não é também necessariamente um grande leitor, mas que, ao mesmo tempo, está tão consciente de que deve ser o principal aliado dos autores, que acaba absorvendo a cultura que o cerca, tornando-se fundamental para a vida daqueles que auxilia e representa. Não sei se a melhor comparação é com o cômico camaleão de Woody Allen, ou com a profunda metamorfose retratada por Kafka. Talvez melhor mesmo seja apenas usar a expressão mais prosaica de Raul Seixas: esse tipo de profissional do livro é alguém que apenas escolheu ou precisa ser uma metamorfose ambulante.

Um editor nunca se transforma completamente em autor, como faz um verdadeiro camaleão, mas o compreende tão bem que chega a absorver suas ideias, tiques, necessidades, e até mesmo suas qualidades e defeitos. Sabe agir e falar como representante legítimo dos escritores, ser a voz dos autores em ocasiões em que estes não estão ou nem devem estar presentes.

O melhor exemplo que conheci dessa categoria de profissionais no mercado editorial — ao longo dos meus quase quarenta anos de atividade — é o de Roger Straus, com quem tive a sorte de me encontrar em várias feiras e visitas ao seu “quartel-general” na Union Square, em Nova York. O mais curioso é que o conheci porque ele defendeu por tantos anos e tão propriamente o grande crítico literário norte-americano Edmund Wilson — um dos autores símbolos de sua editora — que virou o executor de seu espólio, e por conta disso quis saber quem era o editor que iniciara uma editora nos trópicos justamente com Rumo à estação Finlândia. Passarei aqui a chamá-lo de Roger, não para afetar uma intimidade que não tive, mas porque era assim que todos o chamavam.

Filho de uma família rica — a mãe de Roger quando solteira portava o sobrenome Guggenheim —, ele se casou com Dorothea Liebmann, de origem ainda mais abonada que o marido. Roger nunca foi um homem especialmente culto. No começo da vida profissional fazia edições encomendadas ou representava soldados que queriam escrever suas memórias, coletando-as em antologias ou vendendo seus textos para revistas. Ao associar-se com John Farrar teve em seu primeiro sócio um editor de verdade. Mas talvez será só com a entrada de Robert Giroux — com a editora já mais que estabelecida e depois do terceiro nome da firma mudar seguidamente durante anos — que a Farrar, Straus & Giroux passará a ter um editor verdadeiramente culto, nos moldes de Max Perkins. Giroux já tinha carreira reconhecida, numa das concorrentes mais notáveis da Farrar, Straus — a Harcourt Brace Jovanovich.

A dupla Roger Straus e Robert Giroux chegará a se completar tão integralmente que pode se dizer, de certa forma, que eles dominavam a cena literária americana, como o faziam Ginger Rogers e Fred Astaire nos tablados imaginários de um filme musical. Por outro lado, é verdade que o apelido de Ginger e Fred foi certas vezes aplicado a Roger e sua esposa Dorothea — graças às famosas festas que organizavam em seu apartamento na cidade de Nova York, e que serão, como veremos, parte fundamental da atividade profissional do marido. Certa vez foi perguntado a Roger Straus sobre qual seria a forma mais eficaz de promover um livro: conseguindo uma resenha na capa do suplemento de livros do NYT, ou com uma festa em seu apartamento, contando com a presença de figuras importantes dos círculos literários? Sem pestanejar, ele escolheu a segunda alternativa.

Depois de Giroux, o poeta e tradutor Jonathan Galassi desempenhará o papel do editor/leitor que Roger nunca pretendeu assumir. Roger, após muitos anos de trabalho comum e muitas desavenças profissionais com seu filho, elegeu Jonathan como seu sucessor profissional. Preparou tudo para deixar a editora nas mãos do tradutor de Eugenio Montale, que, aliás, cuida brilhantemente da FSG até hoje.

O curioso é que na primeira formação da editora, Roger era o responsável apenas pelas edições mais comerciais. Com o transcorrer do tempo, porém, e por obra dos vários encontros e acasos que moldam uma vida profissional, ocorreu uma metamorfose total que acabou por transformar completamente esse charmoso herdeiro de uma rica família judaica nova-iorquina. O mesmo Roger que nos primórdios da Farrar só pensava em livros de venda fácil com o tempo torcerá o nariz para algumas obras mais comerciais, que seriam presença rara no catálogo da FSG. Dizem que seu filho, cujo apelido era Rog, e Jonathan Galassi tiveram que praticamente esconder a contratação de um romance de suspense de tribunal, por meio do qual um jovem escritor chamado Scott Turrow faria a sua estrondosa estreia no mercado editorial. A publicação de Presumed Innocent acabou contando com o beneplácito de Roger. No entanto, conta-se que após ter aprovado a aposta da dupla de jovens editores, quando voltava de mais uma viagem à Feira de Frankfurt, Straus demonstrou contrariedade ou fingiu que o assunto não lhe dizia respeito. No final, certamente ficou satisfeito com os recursos que o sucesso comercial do livro de Turrow acabou trazendo para a sua editora.

O que teria feito um editor como Roger, com a cabeça inicialmente voltada mais para os livros comerciais — e que por conta disso chegava a chamar seu concorrente e colega mais ilustre, Alfred Knopf, de esnobe —, transformar-se num dos defensores mais ardorosos da alta literatura e num dos críticos mais ferozes da comercialização do mercado de livros? A resposta está em vários encontros fundamentais com escritores; o primeiro deles com Edmund Wilson, um autor tido como impossível, rabugento e brigão. Ao assumir a obra do importante crítico literário, Roger não só conseguiu dar um upgrade nas festas que promovia em sua penthouse nova-iorquina — contando com o lustro significativo que a presença constante de Wilson garantia —, como também passou a entender melhor um mundo que até então não lhe dizia respeito. Com isso, começou a contar com uma rede de escritores que durante as festas ou mesmo nos almoços — realizados por décadas na mesma mesa do Union Square Cafe — supria-o de opiniões e dicas, fundamentais para a formação de um catálogo. Com a isca alçada, Roger apostou certeiramente na estratégia de que um autor traria outro, que traria outro mais… todos querendo estar na casa de edições onde estava Edmund Wilson e outros nomes de peso.

Tecer uma ampla rede de relações e explorar conexões a partir delas era o que Roger Straus, um homem extremamente sedutor, de fato, melhor sabia fazer. Tirava informações e ideias das mais diferentes fontes e as absorvia praticamente como se tivessem sido originalmente suas.

Um editor que se transformava camaleonicamente na voz de seus diversos autores, ou uma metamorfose ambulante que mudava de discurso de acordo com quem estivesse acompanhando — era dessa maneira que Roger desempenhava seu papel socialmente. E é isso um pouco o que somos, nós editores. Conseguir admiti-lo é uma lição importante para os jovens que entram no mercado, principalmente os que chegam com a ilusão de querer se igualar ou até mesmo superar seus autores.

Roger era tão hábil nesse aspecto que a primeira rede de informantes que criou contou até com agentes da CIA trabalhando para a Farrar, Straus. A história é hilária e vale a pena de ser contada. No pós-guerra, por conta de sua breve passagem como burocrata militar, durante o conflito mundial, e por causa de suas conexões como editor de textos de soldados, a CIA contatou Roger. Pediram que ele permitisse que dois de seus emissários na Itália dissessem que trabalhavam como scouts da editora americana. Seria um disfarce perfeito para a atividade real de espiões na Europa do pós-guerra. Straus não teve como negar. No entanto, soube explorar o contato com estes senhores e acabou transformando os espiões em verdadeiros scouts literários. Através de um deles, a Farrar chegou, por exemplo, a Leonardo Sciascia! Sua habilidade em obter informações era tal que nem a CIA saiu ilesa da sua busca por bons autores. Anos depois, porém, quando a mesma CIA quis acesso privilegiado a um original de Alexander Soljenítsin, o editor negou peremptoriamente.

A rede de Roger Straus não parou por aí, agregando alguns anos depois os autores que Robert Giroux viria a trazer da Harcourt Brace, de onde saíra, segundo ele próprio, por não lhe ter sido permitido comprar os direitos de O apanhador no campo de centeio, de J.D. Salinger. Talvez não tenha sido esta a verdadeira razão da saída de Giroux da Harcourt, mas é certo que com ele vieram para a FSG Robert Lowell e, mais tarde, T.S. Eliot e Elizabeth Bishop, entre muitos outros.

Já na rede de Roger iriam cair futuramente uma jovem promissora chamada Susan Sontag e um escritor mexicano pouco conhecido, oriundo do boom latino-americano, chamado Carlos Fuentes. Por meio de informações da trinca Wilson-Sontag-Fuentes, e de tantos outros intelectuais, a Farrar, Straus & Giroux irá formar um dos maiores catálogos de prêmios Nobel de todos os tempos, a ponto de até ser criticada por isso: Jason Epstein, o lendário editor da Random House, dizia que Roger Straus “só quer saber de prêmios Nobel”, de certa forma insinuando que este seria um jeito fácil de ganhar dinheiro apenas com livros de qualidade.

De fato, o acúmulo de apostas certas fará com que a editora, que só recentemente deixou a Union Square, colecionasse acertos seguidos de futuros ganhadores do Nobel, como Juan Ramón Jiménez, Alexander Soljenítsin, Pablo Neruda, Isaac Bashevis Singer, Camilo José Cela, Seamus Heaney, Joseph Brodsky, Derek Walcott, Czeslaw Milosz, William Golding e Elias Canetti, entre outros.

Com Wilson, Sontag e Fuentes a seu lado, Roger gradualmente se transformará no grande defensor da alta literatura, sem vergonha nenhuma de ser um caçador de prêmios Nobel, e com isso não precisar apelar para as finanças familiares para cobrir o déficit de caixa da editora, como teve de fazer no início da carreira. Assim, Straus resistirá por longo tempo às propostas das grandes corporações que tentavam insistentemente comprar a FSG. Decidiu vendê-la mais no fim da vida, apenas quando ficou totalmente claro para ele que a sucessão familiar seria impossível. Procurou então o milionário alemão Dieter von Holtzbrinck, proprietário da editora Henry Holt e da Scientific American, e num telefonema perguntou:

“Dieter, você quer comprar minha editora?”

“Por quanto?”, respondeu Dieter.

“Aproximadamente 30 milhões de dólares.”

“Negócio fechado, Roger.”

Roger continuará no comando da empresa por mais algum tempo e será surpreendido por um pedido de John Sargent, CEO do grupo que assumiu a FSG:

“Roger, de agora em diante não fica bem você dar tapinha na bunda das funcionárias na frente de todos, o.k.?”

Bastante acostumado com a incorreção política na forma de se expressar, e impregnado por seu espírito galanteador, Straus chegou a cultivar até três amantes simultaneamente dentre as funcionárias de sua editora. Duas delas guardavam em suas casas roupões e pijamas para a soneca do editor, após o almoço e o exercício amoroso.

Boris Kachka, em Hothouse: The Art of Survival and the Survival of Art at America’s Most Celebrated Publishing House, Farrar, Straus and Giroux — uma verdadeira biografia da mitológica editora da Union Square, e que me serviu de principal fonte para este post –, conta vários episódios nos quais Roger se expressou ou agiu com modos que hoje seriam reprovados e vistos como totalmente incorretos. O editor, conhecido por suas echarpes coloridas e por seu sorriso largo, definitivamente não se adaptaria aos dias de hoje. Adorava o papel de conquistador, mulherengo, e falava o que lhe vinha à mente, com total liberdade e sem preocupação com o que dele se pensaria. O clima sexualizado da empresa era tal que Kachka conta que uma funcionária chegou a se deprimir por certos dias com a falta de alusões sensuais de Roger. Acalmou-se quando, numa reunião editorial bastante frequentada, ele mencionou os avantajados seios da funcionária, supostamente mal-acostumada com seus elogios e cantadas. É difícil, porém, julgá-lo com os olhos de hoje. Pelo menos ao fazê-lo é preciso entender que os tempos eram outros. Este tipo de comportamento ou de liberdade com colegas de trabalho não era exclusivo da editora de Wilson e Sontag, embora Roger Straus deva ter sido dos exemplos mais radicais de despojamento nesse sentido.

Com essa personalidade exuberante, fica fácil entender como Roger Straus foi pioneiro ao utilizar a Feira de Frankfurt para consolidar sua rede de informantes, agora não mais composta por agentes da CIA, mas por grandes autores e editores internacionais. Assim ele passará a ser um dos reis de Frankfurt, para onde viajava sempre acompanhado de sua inseparável secretária Peggy Miller. Agiam como um casal, elegantíssimo, Roger sempre com suas tradicionais echarpes de seda, e Peggy com tailleurs que lembravam as esguias super-secretárias das agências de publicidade da Madison Avenue, retratadas tão bem na série Mad Men.

Em Nova York seguia todas as manhãs para seu escritório dirigindo uma Mercedes, não esquecendo de sempre fazer uma parada na casa de Peggy para levá-la consigo.

Na verdade, Roger — apesar do sobrenome quase igual ao da atriz Ginger Rogers, que formou a famosa dupla com Fred Astaire — foi Fred com muitas Gingers, e não apenas no sentido amoroso ou sexual. Roger/Fred bailou com Dorothea nas festas em seu lar, fez dupla com Peggy no trabalho e nas viagens, com Robert Giroux, seu mais completo sócio, e com Jonathan Galassi nas decisões editoriais, até o fim da vida. Foi o Fred da Ginger/Sontag, com quem aparentemente também teve um caso.

Como nas danças da grande dupla de Hollywood, para que a coreografia funcionasse perfeitamente, era preciso que a dupla se entendesse com total naturalidade. Fred precisava, assim, automaticamente adivinhar para onde Ginger desejava ir. Ao mesmo tempo, era necessário antecipar a direção para onde a dançarina/atriz queria levar seu parceiro, ou ser por este levada. Foi também assim com Roger Straus, o homem que compreendeu totalmente os desejos de seus autores, bailou com eles ou pensou como eles para possibilitar a concretização de seus ideais literários.

Pensar no autor o tempo todo, representá-lo, oferecer-lhe uma dança ou mesmo funcionar como uma segunda voz dos seus escritores — nisso Roger Straus foi quase inigualável, e por isso certamente foi um herói do mundo editorial americano: excêntrico, polêmico, complexo e inesquecível.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Escreve pra o blog uma coluna quinzenal.

Grande digressão sobre a prateleira hipotética

Por Luisa Geisler

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Ano passado precisei fazer uma cirurgia que envolvia internação que poderia ser de cinco a dez dias, conforme recuperação, blablablá. Mas levei dez livros. Se eu sabia que não leria todos? Sabia. Mas levei livros? Não só levei dez como levei o Uma vida pequena que lia na época, de 720 páginas. (Digressão: sim, operei, deu tudo certo.)

Agora me preparo para algo bem mais grave do que uma mera anestesia geral e médicos fuçando minhas entranhas. Agora me preparo para um mestrado no exterior. Em literatura. (Digressão: na verdade, em Creative Process com ênfase em Creative Writing, mas todo mundo entendeu.) Tecnicamente, as probabilidades de morrer durante um procedimento cirúrgico e durante um procedimento acadêmico são as mesmas.

Mas a fonte da minha maior ansiedade não tem tanto a ver com ter que estudar e ler — em Dublin, com coleguinhas irlandeses, no original em inglês —, James Joyce na University College Dublin, que é a alma mater do homem. (Digressão: antes que digam que estou tranquila com essa situação, deixo claro: não é minha maior ansiedade. Mas tenho muita capacidade de ansiedade.)

Minha maior ansiedade se resume a duas malas com limite de peso de trinta e dois quilos.

Italo Calvino tem um ensaio* sobre a ideia de uma prateleira hipotética, uma prateleira onde o escritor imagina estar ao escrever um livro. Um exemplo dele é justamente um livreiro que sabe vender ao dizer “Você gostou desse autor? Vai gostar desse daqui também”. O ensaio vai além dessa metáfora inicial, mas traz a discussão de quais ideias entre livros são afins de fato, quem é o “leitor ideal”, onde um livro fica numa estante e por que ali?  (Digressão: beijos a todos os livreiros.)

A questão toda é que, ao organizar quais livros levar em uma viagem bastante permanente, me peguei pensando nesse ensaio. Porque não basta levar livros de teoria literária, levar Ulysses traduzido pelo maravilhoso Caetano Galindo, o guia de leitura escrito pelo maravilhoso Caetano Galindo, levar uns Machados de Assis pra abraçar ao dormir.

Acontece que eu não estava planejando me lembrar desse ensaio — portanto, precisar do livro — semana passada. Mas como resumir anos de influências literárias de coisas nada-a-ver? Desde uma palavra em alemão que gostei até uma piadinha que o Stephen King fez num conto em que nem lembro o que acontece. E se isso me acontece na Irlanda? (Digressão: beijos Leidenschaftianos a todos os fãs de piadas internas.)

Como resumir anos de estante hipotética? Esse me parece ser o problema da estante não-hipotética. Da estante real. Argumento ainda que um mestrado em literatura tem o problema de que vou precisar de literaturas. E aí imagine você encomendar um livro da Elvira Vigna lá da ilhota do outro lado do Atlântico só por uma citação.

Sim, é claro que existem e-books. E meu Kobo no momento está sob mais pressão do que eu. Mas jogue a primeira pedra quem não preferiria riscar o Calvino de lápis mesmo.

Quando fui internada, sabia que não leria meus dez livros. Eu sabia que dormiria muito, que estaria sob o efeito de drogas, que iria me ocupar com essas atividades pós-operatórias. Mas eu queria um quarto hospitalar com livros. Uma mesinha de cabeceira que não fosse só remédios.

E talvez agora eu saiba que nem vou folhear o Thesaurus que está separado, que não vou me lembrar de outro ensaio aleatório, que eu não preciso de uma versão física de um livro que tenho um PDF. Mas se estou levando fotos da minha família, minha família literária pode vir junto. Meu quarto irlandês precisa de uma estante, hipotética e não-hipotética.

* * *

* CALVINO, Ítalo. Para quem se escreve? (A prateleira hipotética). In: Assunto encerrado — Discursos sobre literatura e sociedade. Companhia das Letras, 2009, 1ª ed. [Una pietra sopra. Discorsi de letteratura e società, 1980]. Tradução: Roberta Barni. **

** Peço fortes desculpas pelo academicismo, mas estou morrendo de medo do meu futuro mestrado. Obrigada pela compreensão.

* * * * *

Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira(finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

Em tradução (Joyce)

Por Caetano Galindo

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Recentemente eu li o belíssimo romance The Crimson Petal and the White, de Michel Faber. Na semana anterior eu tinha lido The Book of Strange New Things, que me deixou encantado. Aí li correndo Under the Skin e depois encarei o romanção histórico. Sabe como, né? Quando você quer ler tudo de um autor.

Depois de terminar o Crimson Petal, eu descobri que ele tinha escrito alguns contos, de início pra aquietar os leitores que queriam um “volume dois”. São contos com personagens do romance, às vezes em momentos anteriores, às vezes depois da ação descrita ali. Até o destino da personagem principal, a prostituta Sugar, fica mais ou menos iluminado.

Me deu vontade de sair recomendando pra tudo quanto é autor bom esse negócio de reaproveitar as personagens.

Claro que Balzac meio que inventou o jogo, nem que pra isso tivesse, como teve, que mudar o nome de personagens de obras já publicadas anteriormente. Claro que Shakespeare (Henrique, Falstaff) tinha feito isso antes. Claro que Conan Doyle fez Sherlock Holmes virar grife. Claro que, no Brasil, Rubem Fonseca já brincou disso, Dalton Trevisan e, mais recentemente, Cristovão Tezza com a sua Beatriz, que já esteve em dois livros (um romance e um de contos) e deve voltar em novo romance este ano.

E em todos esses casos me parece que a gente encontra uma maneira bem poderosa (talvez precisamente por ser “fraturada”) de conhecer mais a fundo aquelas personagens… Uma maneira que, no nosso tempo obcecado por séries de televisão, me parece ter alguma coisa a ver com a dinâmica da “longa duração” dessas narrativas que duram 5, 7 anos…

Curiosamente, Joyce também participou da brincadeira.

Claro que ele foi diferentão, e fez a coisa ao contrário. Se tivesse escrito o Ulysses e aí saído reaproveitando as personagens, tudo bem, a gente estaria em casa. Mas o que ele fez foi escrever seu grande romance usando como protagonista o herói de seu romance anterior, Um retrato do artista quando jovem, e usando como figurantes, ou pessoas mencionadas de passagem, cerca de trinta personagens de seu livro de contos, Dublinenses.

Os três livros foram publicados num intervalo de oito anos. Para o leitor de hoje, no entanto, que pode ter os três à mão ao mesmo tempo (aguardem a minha tradução de Dublinenses!), eles podem funcionar em qualquer ordem.

Como os dois livros menores são em alguma medida “mais simples”, é normal recomendar que eles sejam lidos antes. Mas a experiência de usar os dois como “consolo” depois do fim do Ulysses, mais ou menos como eu fiz com os contos do Faber, também é muito interessante…

No caso de Um retrato… que será lançado este mês aqui na Penguin-Companhia, o que rola é uma verdadeira explosão das ideias que o leitor elabora a respeito de Stephen Dedalus durante o Ulysses. Como eu acho que já disse aqui, depois de traduzir e anotar o Retrato, depois dessa leitura “funda” que é a tradução, cada vez menos me parece que ele seja um livro que “prepara” o Ulysses: ele é efetivamente a primeira parte do Ulysses, que, na medida em que seja possível, fica “mais perfeito” se lido junto com seu irmão “menor”.

Menor?

Bom… não é crime ser menor que o Ulysses.

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Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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O Cara do Norte

Por Carol Bensimon 

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Dá pra dizer que eu conheci esse cara através de uma lesma chamada banana slug. Ele devia estar com insônia um dia, lá sozinho numa propriedade no norte da Califórnia, pegando uma rádio distante numa caixinha de som meio fodida enquanto os pinheiros descansavam em pé. Ele tinha que levantar junto com o sol, mas não conseguia dormir, então ligou o gerador (não havia luz na propriedade) e ficou olhando uns sites. Como ele andava pensando naquelas lesmas que parecem bananas — elas meio que estavam por tudo, empenhadas em decompor folhas e restos de pequenos animais no grande tapete que era a floresta — ele acabou topando com as fotografias de um cara chamado Hans. Hans morava umas três horas mais ao sul, em Albion. Ele também tinha fotografado a lesma amarela.

Uma mensagem minha, provavelmente cheia de erros de inglês, estava no mural do site de Hans. Ele era algum tipo de artista que aparentemente ganhara algum dinheiro, embora não estivesse claro se isso tinha relação com sua arte ou se ele era apenas um herdeiro com pendores criativos. O fato é que ele comprara uns sei lá quantos hectares de terra onde antigamente havia um comunidade hippie chamada Little Creek Farm. E ele estava a fim de deixar aquilo tudo tinindo de novo, as cabanas com formatos estranhos que se erguiam respeitosamente no meio do mato. Dizia que aquele seria um lugar para artistas. Eu queria escrever meu próximo livro lá.

Hans não me deixou ficar em Little Creek Farm, mas eu acabei conhecendo o Cara do Norte — tudo por causa do banana slug. O Cara do Norte amava o Brasil. Quando fui para a Califórnia, a gente se encontrou em uma cidade chamada Arcata. Tanto eu quando ele dirigíamos carros velhos de cores improváveis. Demos um tempo em Arcata e depois ele disse para eu desligar o GPS e seguir o carro dele. Andamos por um bom tempo entre as montanhas. Eu jamais conseguiria chegar àquele lugar de novo, sabia disso. Acho que em vinte minutos paramos na frente de uma cerca de madeira sem vãos, exatamente igual a de todas as propriedades dos arredores. O Cara do Norte colocou o carro para dentro e sinalizou para que eu deixasse o meu ali fora. Era um trambolho que eu tinha alugado de um amigo. Eu acabei me afeiçoando a ele. Uns meses depois, meu amigo vendeu o carro para uns mariachis de Los Angeles.

Difícil dizer quantos pés de maconha havia lá dentro. 500? 600? Cada um deles era mais alto que eu. Ele me mostrou uma tirolesa que usava para ir de um lugar pro outro. Eu não quis usar a tirolesa. Havia umas pedras empilhadas em uma clareira, num equilíbrio meio mágico. Parece que aquilo era algum tipo de prática zen. Nós jantamos comida pronta de um supermercado orgânico enquanto o sol se punha sobre as plantas. Ele disse que tinha uma arma. Precisava ter. Lembro de mostrar pra ele uma banda americana que eu gostava e, coincidentemente, a primeira faixa do disco tinha o nome da cidade natal dele, um lugar não muito importante lá do Meio Oeste. Ele me deu um monte de camarõezinhos das suas plantas em um velho pote de geleia.

Isso não é ficção. Isso é o que acontece no meio do mato no norte da Califórnia.

O Cara do Norte me contou duas histórias que eu guardei. Ele disse, andando pelas ruas de Arcata, que alguém uma vez tinha feito um experimento com minhocas da Austrália. Levaram as minhocas para outro continente e, monitorando as minhocas, descobriram que elas entravam debaixo da terra e tentavam encontrar o caminho para a Austrália. E elas estavam certas. Estavam indo na direção da Austrália mesmo, embora não soubessem que havia todo um oceano para cruzar. Ele chamou aquilo de “earthworm antenna”. O instinto de encontrar o caminho de casa. O Cara do Norte achava que as pessoas tinham uma coisa daquelas também.

A outra história era sobre redwoods, as sequoias avermelhadas da região. Ele disse que uma árvore nunca tocava na outra; que elas respeitavam suas irmãs, era só eu reparar, os galhos nunca se tocavam, o que devia servir de lição para todos nós, etc. Por aqueles meses, eu fiquei cuidando isso cada vez que estava na floresta e olhava para cima. Parecia fazer sentido mesmo. Mas nunca achei sequer uma informação sobre o GPS interno das minhocas ou o imenso respeito das redwoods pelas suas iguais. Gostei das histórias mesmo assim. No fim da viagem, dei aquele pote de geleia quase cheio para uma menina desconhecida em um estacionamento de San Francisco. Era noite de Halloween e foi bonita a cara que ela fez, como se houvesse algo de milagroso naquele meu gesto.

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.