Colunistas

Poesia organizada

Por Leandro Sarmatz
Sem título

Dia desses cometi a loucura de polemizar com um velho poeta sobre alguns tópicos da lírica contemporânea. Digo loucura porque é isso aí mesmo, não há palavra melhor disponível no léxico: pois é preciso estar com alguns parafusos meio desajustados para entrar numa contenda – delicadíssima, teórica, gentil, aliás – com um velho e venerável vate.

O poeta (experiente, lidíssimo, embora um pouco inclinado a valorizar apenas uma lírica de teor mais clássico) argumentava que, tirando um e outro nome, o catálogo de poesia brasileira contemporânea da editora não era lá grande coisa. Ora, isso mexeu com meus brios, então me pus a discordar, elencando de forma mais ou menos generalizada algumas das qualidades mais gritantes (e também aquelas mais sutis) dos nossos poetas.

Trocamos alguns e-mails, formulamos, cada qual com seu a + b, nossos argumentos, e demos por encerrada a correspondência sem no entanto chegarmos a um consenso. Não brigamos, operamos tudo na maior delicadeza. Mas havia algo ali que não era apenas visões de mundo e de leitura diferentes, tampouco se tratava do abismo geracional entre dois leitores de poesia. Era todo um universo de critérios e valores diferentes em ação para tentar entender os mesmos versos.

Grande parte da argumentação do poeta era contra uma suposta “coesão” de alguns de nossos títulos recentes na coleção de poesia brasileira. Dizia que a grande lírica, feita no cotidiano disforme de todos nós, não precisava ser artificiosamente reajustada como um livro de não-ficção. Correto, pensei (ou respondi), mas também era preciso lembrar que alguns de nossos grandes, como Drummond e João Cabral, publicaram volumes de verso absolutamente organizados em torno de algumas ideias. Citei A rosa do povo e Claro enigma, do mineiro, e A educação pela pedra, do pernambucano. Livros “coesos”, como dizia depreciativamente o poeta.

Contemporâneos também fazem isso – e isso é possível atestar a partir de alguns dos livros mais fortes do catálogo de poesia brasileira aqui da editora. Confesso: como leitor, e eventualmente como editor de alguns dos títulos, tendo a organizar minha leitura em seções, e inclusive às vezes sugiro alguns arranjos para o autor. Não por didatismo ou espírito vulgar, mas porque às vezes uma – digamos – redistribuição dos poemas ao longo do livro ajuda o volume inteiro a fazer aquele tão sonhado “clic” na cabeça e no espírito do leitor.

Claro que isso não é uma receita universalmente válida para todo livro de poesia. Às vezes o que se quer é mesmo é multiplicidade, variedade, outras vozes. O poeta discordou (educadamente, como já disse) de toda essa conversa, mas lá pelas tantas citou com entusiasmo dois livros recentes, publicados aqui, que contrariavam toda a sua linha de raciocínio. Bom, nossa conversa estava bem civilizada, então moitei e não observei isso para o meu doce polemista. Não é preciso ganhar todas, ou se é, não se faz necessário soltar fogos de artifício. Barulho é inimigo da leitura.

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Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

 

A caixinha rosa

Por Carol Bensimon

1) Todo mundo já esteve em alguma confraternização em que, tão logo os convidados começam a preencher os espaços, observa-se uma orgânica e espontânea (?) divisão por gênero, isto é, pegando o churrasco de domingo como um exemplo extremo, teríamos: homens ao redor da churrasqueira (de pé), mulheres perto das saladas (sentadas). Os assuntos dos dois grupos, naturalmente (?), são distintos um do outro. Homens citam números enquanto mulheres citam regimes. Há uma grande chance da pergunta “qual é seu signo?” surgir no grupo das mulheres à guisa de explicação para certo traço de personalidade (“ah, eu tinha certeza, geminianas são assim”) mas nunca no dos homens. Mais que um churrasco de domingo, uma festinha do condomínio ou um amigo secreto da firma, isso é uma visão de mundo (e, no caso, a que está vencendo). Dentro dos limites bem estabelecidos dessa concepção, não existem assuntos de interesse comum, e todos os tópicos têm necessariamente uma filiação ao feminino ou ao masculino. Além disso, parte-se do princípio de que eu, mulher, tenho necessariamente mais afinidade com outra mulher (qualquer que seja) do que com um homem (além do cônjuge ou prospecção de cônjuge). E, assim, o Clube do Bolinha e o Clube da Luluzinha, não é preciso dizer, reforça o famoso mito da incompreensão entre os gêneros.

2) O universo ficcional de alguns escritores é exatamente essa festinha descrita no item 1. Se alguns protagonistas, na solidão e dureza deste mundo contemporâneo, conseguem estabelecer relações humanas, ainda que frágeis, elas geralmente são mais calorosas e verdadeiras na camaradagem da companhia masculina. As relações conjugais, por outro lado, parecem sempre fadadas ao fracasso, em parte porque as mulheres ficcionais são representadas como um tanto diabólicas e/ou imprevisíveis. Ao homem, portanto, resta ficar à mercê dos caprichos de sua amada.

3) Nunca há comunhão entre um homem e uma mulher nessas relações conjugais representadas, ou ao menos não no tempo presente da narrativa. Mas como poderia haver, se partimos da premissa de que não existe diálogo possível entre os gêneros?

4) Talvez uma saída à la Brokeback Mountain fosse algo legal de se ver. Mas vamos ficar bem sentadinhos esperando um protagonista gay em algum grande romance brasileiro.

5) Muitos poetas que louvam a mulher estão apenas encarando-a e descrevendo-a como um belo pôr-do-sol ou um barquinho ao sabor das ondas.

6) Certos cronistas tiram quase toda sua inspiração das supostas diferenças de gênero. Assim, suas sentenças, como era de se esperar, são bastante categóricas. O homem isso, a mulher aquilo. A mulher faz dieta assim, o homem assado. A mulher fala tal coisa quando está apaixonada, o homem tal outra. A mulher abre a porta fazendo pim, o homem fazendo blam. É claro que muitas mulheres ficam profundamente encantadas com tamanha sensibilidade (sic) do cronista. Mas o derretimento feminino por um homem que, enfim, “compreende as mulheres”, só mascara o velho problema das caixinhas dos gêneros. O cronista que ama amar as mulheres está na verdade apaixonado por si mesmo ou, melhor dizendo, por essa construção, alimentada semanalmente, de heartbreaker irresistível com escavador de almas femininas.

7) Como se o funcionamento das caixinhas não fosse redutor o suficiente, deixando de lado tanto o que nos une (como seres humanos) quanto o que nos separa (como indivíduos diferentes um do outro), ocorre que a caixinha rosa é muito mais apertada que a caixinha azul. Em um post de 2012, fiz algumas considerações sobre isso, evocando cenas do documentário La domination masculine (2009). Não sei se ainda concordo com todas as conclusões que esbocei na época, mas continuo acreditando que uma espiada numa loja de brinquedos nos ajuda a entender questões complexas como “por que há menos mulheres escritoras do que homens escritores?”. Primeiro, visitamos a seção para meninos, depois a seção para meninas. (…) Na seção dos meninos, há dinossauros, caubóis, astronautas, super-heróis, piratas, carrinhos. É bem comum – diz o vendedor – que os meninos misturem todos esses universos na mesma brincadeira. Na seção das meninas, há basicamente princesas e cozinhas em miniatura. Com variações sobre o tema, claro. Do tipo barbies e pequenas tábuas de passar. A menina brinca - diz o vendedor - com um universo bastante limitado, que com frequência é uma representação do universo materno. Então ele mostra as fantasias. Para os meninos, há todas aquelas coisas que citei ali em cima, e mais uma infinidade de “papéis” possíveis. Para as meninas, princesas, princesas, princesas.

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu novo livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Quadrinhos que existem

Por Érico Assis

Dominion, a cidade maquete de Seth.

Existe Seth e existe Dominion. Dominion é uma cidade canadense da província de Ontário com belos prédios históricos e um passado rico em produção cultural que foi vítima da decadência econômica. Dominion existe no porão da casa de Seth: é uma maquete construída com papelão, tinta e cola. Também existe em vários cadernos de anotações de Seth, assim como serve de cenário a várias HQs que ele já publicou: Wimbledon Green, George Sprott, The Great Northern Brotherhood of Canadian Cartoonists.

Assim como existe Emmanuel Guibert, que, em 1994, estava caminhando pelas ruas da Ilha de Ré e pediu informações a um idoso. O idoso era um norte-americano chamado Alan Cope. A amizade entre os dois durou até a morte de Alan, cinco anos depois. Guibert dedicou boa parte de sua obra às memórias do amigo: três tomos de A Guerra de Alan (Cope serviu na Segunda Guerra) mais um de A Infância de Alan, possivelmente mais pela frente. “Produzo livros para provar que é possível uma pessoa ouvir outra com tanto cuidado que se descobrem coincidências de perspectiva, pois é fato que há certa lógica na vida”, diz.

Existe Anamorphosis, de Shintaro Kago. A história principal começa com um apresentador de TV que morre durante uma pegadinha na qual veste fantasia de monstro arrasando uma Tóquio-maquete. Um bilionário convida seis pessoas a reviver o momento do acidente, com direito a invocação do espírito do morto. Nas histórias secundárias, uma detetive adolescente investiga as forças eletromagnéticas que mataram uma mulher durante fantasia sexual; um cientista coleciona pessoas que fazem chover sempre que se excitam, para que procriem e gerem uma raça de bebês “chuventos” com benefícios à agricultura e potencial bélico (inundar países inimigos com tempestades); uma garota acorda com uma boca no lugar do mamilo e o médico lhe explica que é um fato corriqueiro como os bebês que trocam a boca pelo mamilo da mãe ao mamar, como as mãos que trocam de lugar com maçanetas, como os dedos que trocam de lugar com as teclas do computador; ela perdeu o mamilo durante uma noite de bebedeira e só vai reencontrá-lo 40 anos depois.

Existe uma HQ sobre namorados que param o tempo quando fazem sexo e decidem usar o poder para virar ladrões. Chama-se Sex Criminals e ficou em primeiro lugar na lista de melhores HQs de 2013 da Time. Existe Lastman, que tem quase todas as características de uma mangá — como lutas de mais de vinte páginas —, mas é co-criação de um dos maiores nomes do “quadrinho-arte” francês: Bastien Vivès. Como bom mangá, Vivès e parceiros — Balak e Michaël Sanlaville — já estão projetando a transição da série para videogame e animação. Existe Meanwhile, a HQ de Jason Shiga na qual você escolhe entre opções de desenvolvimento da história e tem 3856 possibilidades de trama — talvez de leitura mais fácil num app. Existe 3”, de Marc-Antoine Mathieu, que acompanha a trajetória de uma bala de espingarda por Paris durante três segundos em 72 páginas.

Existem 1h25 e Momon, as autobiografias em que a francesa Judith Forest relata problemas com os pais, com as drogas, com as aventuras sexuais e com o próprio sucesso, pois sua história acabou virando um dos destaques recentes do mercado franco-belga. Judith Forest, porém, não existe. Foi inventada por uma turma de quadrinistas que queriam discutir a gana do mercado editorial pelas HQs autobiográficas (“e se a ‘sinceridade’ não fosse mais que estratégia de marketing?”, perguntam). A mesma turma — comandada pelo editor Xavier Löwenthal — é responsável por Katz, um détournement de Maus onde os rostos de todos os personagens são substituídos pelos de gatos (independente se gatos, ratos, cachorros ou outro bicho no original). Katz não existe mais, juram eles: a tiragem foi completamente destruída em resposta a uma ameaça de processo da editora francesa de Maus. O que não os impediu de publicar Metakatz (assim como existe um Metamaus), livro de entrevistas e tributos que documenta todo o processo de Katz.

Conheci alguns dos exemplos acima no livro Comics Art, escrito pelo crítico, historiador e jornalista Paul Gravett a convite dos museus Tate — porque, sim, existe um livro sobre quadrinhos enquanto arte editado pelos museus Tate.

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Recentemente me perguntaram se muitos lançamentos em quadrinhos estrangeiros demoram para chegar ao Brasil. Respondi que sim: a esmagadora maioria. É óbvio que o mercado brasileiro não comporta nem precisaria comportar tudo que se edita lá fora, mas ainda há um problema de representatividade por aqui: há um percentual dessa esmagadora maioria que é composto por quadrinhos de temática diversificada, premissas atraentes e já imbuídos de certo renome no mercado de origem. Já fiz uma lista parecida e repito: eles existem.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Viajar sozinho

Por Paulo Scott
Walk
1.

A onda selfie – você sabe (depois da última edição da entrega do Oscar, todo mundo sabe) –, isso da pessoa se autofotografar, não é novidade alguma, apenas ficou superagravada pelas facilidades tecnológicas recentes e pela adesão eventual de celebridades em chamas, – transformando a maioria do mundo num grande funcionário do mês, na melhor das hipóteses, num colaborador não remunerado, do Instagram – como tudo na história da humanidade, deve ter surgido de uma necessidade.

Aqui nas minhas conjecturas, e já ficcionando sobre os primórdios dessa manifestação que se transformou em febre comportamental, imagino a figura do viajante solo em férias – resisto com todas as forças a rotulá-lo de viajante solitário. Porque o bom de viajar de férias (e férias sempre arrastam uma série de exigências) para um lugar bacana, todo mundo sabe, é poder mostrar depois que se viajou para um lugar bacana. Registros de imagem, eventualmente de ação, colocam-se como exigência capital, sobretudo nesta nossa atualidade que cobra de todos um comportamento solar.

Pessoas que viajam sozinhas são subgênero glamouroso do gênero pessoas que estão sozinhas, para o bem ou para o mal da própria sanidade, nesse subgênero estão os que conquistaram uma espécie de blindagem à La Mágico de Oz contra a solidão se reservando (reservando, no caso do viajante solo em férias, a própria imagem, ou ação, acompanhada por uma vista maravilhosa coadjuvante ao fundo e poses especiais, o clássico fazendo caras e bocas, ou não) para se mostrar depois a alguém que possivelmente recepcionará com interesse a imagem, ou ação, do momento, infungível graças ao peso afetivo depositado nele, vivido pelo viajante solar, a ponto de ser compartilhado e aplaudido, completando algo; sim, completando, fechando um círculo, justificando o estar aqui enchendo com pás e pás de carvão o motor do existir, pelo menos à La Mágico de Oz.

Já viajei sozinho pelo Brasil e pela Europa algumas vezes, já viajei acompanhado também. Em matéria de revista lida recentemente em sala de espera de dentista, alguém caracterizava os que viajam sozinhos de férias como sendo pessoas que optaram por se isolar dos problemas, por escapar – escapar no sentido gravitacional extremo do termo escapismo.  No texto dessa matéria estava enfatizado, e isso foi o que mais me soou engraçado, que, muitas vezes, ter companheiros de viagem é igual encomendar problemas. Penso que viajar sozinho para lugares bacanas é legal pelo ineditismo da experiência, pela sua eventualidade também, funciona uma vez, duas, três, no máximo, porque, na grande moldura ideal, o bacana é viajar para lugares bacanas com alguém bacana.

Afinal, de que vale o paraíso sem amor? Ou sem amizade? Ou pelo menos, sem alguém para beliscar gentilmente o seu bracinho e provar que você não está sonhando, nem virou Napoleão Bonaparte?

Prometo que daqui não passo.

2.

No próximo domingo viajo para Portugal, onde ficarei por quase quinze dias participando de encontros literários na Ilha da Madeira e em Lisboa.

A Ilha da Madeira é um lugar que eu sempre sonhei conhecer (nesse imaginário não deixa de ser uma Ithaca de onde eu nunca parti, embora, tendo eu sangue português correndo nas veias, talvez tenha partido de lá ou avistado sua geografia em algum trânsito antepassado perdido no tempo e nas motivações gerais da humanidade). Viajo com a certeza de que encontrarei amigos que prezo e será muito agradável, mas penso que voltar a encontrar Lisboa depois de tantos anos e pisar pela primeira vez em solo mítico da Ilha da Madeira seriam oportunidades que só estariam completas se Morgana viajasse comigo; por conta de nossas agendas de trabalho tão diversas no momento, ela não poderá ir. Não é difícil prever que a experiência em Portugal será maravilhosa, mas tenho certeza que restará pedindo completude em algum lugar da sua ocorrência.

A selfie de alguém, capturada com o fundo coadjuvante de um lugar bacana, ou não, pode ser um baita tesouro, como aquelas fotos três por quatro dos entes queridos que nossos pais ou avós carregavam na carteira, no ímã preso do painel do carro, no tempo em que os carros tinham painéis metálicos, naquela moldura onde estava escrito Não corra, papai – algo de uma potencialidade lúdica tremenda. A força dos objetos e das situações depende do valor que atribuímos a elas, no olhar estão as portas secretas para fora do corriqueiro.

Tempo atrás postei no meu perfil do Twitter uma selfie que Morgana fez em Frankfurt enquanto eu viajava de trem para Stuttgart para uma leitura de trechos do romance “Habitante irreal” na Biblioteca Pública de Stuttgart (considerada a mais moderna da Europa) no início de setembro do ano passado, uma foto que eu não canso de olhar. A solidão não é exatamente ruim quando se sabe, ou se supõe, que se está num atravessar a piscina por baixo da água, esperando enquanto se movimenta braços e pernas a chance de chegar ao outro extremo e voltar a respirar.

É bem possível que eu cometa uma selfie com a câmera do meu celular (às vezes é impossível resistir e não solar), mas a emoção de reencontrar Portugal depois de décadas é tanta que talvez eu só queira respirar Portugal e mais nada; como dizem belissimamente os portugueses: a ver.

Um dia é possível que haja um chip para ser implantado em nosso cérebro permitindo que compartilhemos em tempo real com a outra pessoa, a que se interessa pelas nossas banalidades de viajante solo, solar, as experiências maravilhosas vividas, e isso cause forte impressão de plenitude – veja-se o cataclismo recente provocado pelo filme Her, do Spike Jonze, veja-se aonde podemos chegar com tanta projeção –, e não haja mais tristeza, a que sempre vaza das entrelinhas de uma selfie (esqueça essa baboseira de selfie coletiva), que haja apenas esperança de Oz, quem sabe; mas ainda assim sempre faltará alguém para beliscar de leve o seu bracinho enquanto você atravessa a piscina, dizendo para si mesmo: cheguei até aqui, por baixo da água sem respirar.

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Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro (Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em maio deste ano. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.

 

 

Em Tradução (Joyce)

Por Caetano Galindo

Foto: Holiday Club


Volto a Joyce.

Quase exatamente dois anos depois da publicação do Ulysses e um ano depois do lançamento de Os mortos na coleção Grandes Amores, entrego mais uma obra do autor que me fez virar tradutor.

Se tudo der certo, deve estar na mão de todo mundo aí pelos dias do Bloomsday.

Se trata de Finn’s Hotel, e se você nunca ouviu falar dele, não se sinta só. Porque até a existência do livro merece uma explicadinha.

Há mais de vinte anos Danis Rose, um dos nomes mais conhecidos entre os editores dos manuscritos de Joyce, anunciou que tinha desentranhado da caótica pilha de papéis que Joyce produziu enquanto dava forma ao Finnegans Wake uma série de textos breves (Joyce se referia a eles como epiquetos), algo interconectados, que ele propunha estarem para o Wake mais ou menos como Giacomo Joyce estaria para o Ulysses.

Segundo Rose, esses manuscritos seriam uma obra independente (inacabada, no entanto) que Joyce usou como trampolim, como proveta, como ensaio para a criação dos personagens e da linguagem do Wake. A obra em questão levaria o nome do hotel onde Nora Barnacle, a futura senhora Joyce, trabalhava quando eles se conheceram em junho de 1904.

Ninguém discute muito os fatos brutos. Joyce escreveu esses dez fragmentos num mesmo período, que se encaixa entre a publicação do Ulysses e o trabalho mais consequente com o que viria a ser o Finnegans Wake. A discussão e as brigas, que atrasaram em vinte anos essa publicação, vinham mais da ideia de tratar as pecinhas como uma “obra”.

Eu, agora, depois de ler tudo inúmeras vezes, e tendo mandado para o grande scefigno André Conti a tradução do texto, do prefácio de Rose e da introdução de Seamus Deane (o texto sem qualquer nota: seria insensato tentar; mas prefácio e introdução devidamente anotados para localizar os não-joyceanos), só posso pré-ecoar o que vai mais extensamente dito na nota que escrevi para o livro.

Diante de um dos últimos quadros de J.M.W. Turner, um dos vários encontrados no seu ateliê depois da morte do pintor, em 1851, importa muito pouco saber se ele os concebia como rascunhos, obras prontas, estudos ou quadros incompletos. São algumas das coisas mais impactantes que um pintor já produziu.

As discussões editoriais sobre Finn’s Hotel provavelmente não vão acabar. Mas para mim, como tradutor, e para todos nós, como leitores, é uma felicidade imensa e um prazer sem fim presenciar as manobras desse Joyce que se reinventava mais uma vez, tocando nas bordas do Finnegans Wake sem no entanto ter ainda mergulhado numa densidade verbal que quase interdita a compreensão.

Finn’s Hotel é legível, é divertidíssimo, é tocante. É um livrinho precioso.

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Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de Tom Stoppard, James Joyce e Thomas Pynchon, entre outros. Atualmente está revisando a tradução de Infinite Jest, que tem lançamento previsto para 2014. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.