Colunistas

Saramago, Lipatti e Puccini: um romance, uma valsa e um dueto de amor

Por Luiz Schwarcz


A coluna de hoje é o discurso de Luiz Schwarcz para o lançamento de Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas, que acontece neste instante no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. O evento ainda conta com a presença do Professor António Sampaio da Nóvoa, do juiz Baltasar Garzón e do escritor Roberto Saviano, e marca a apresentação mundial do último romance escrito por José Saramago, inacabado com a sua morte.

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Quando me preparava para fazer as malas para esta viagem, e pensando que deveria falar umas palavras no evento de hoje, a pedido da Pilar, lembrei-me de um dos discos prediletos de minha coleção. Trata-se de O último recital, do pianista romeno Dinu Lipatti, onde está registrado o famoso recital de Besançon – o derradeiro, aquele que o grande pianista realizou três meses antes de sua morte. O disco, que ganhei de Susan Sontag, é um primor. Lipatti, que sofria de câncer linfático do tipo Hodgkin, foi desaconselhado por seus médicos e familiares a comparecer ao recital devido ao estado avançado de sua doença. Mesmo assim, resolveu tocar. No dia do concerto a febre estava altíssima, e o pianista teve que entrar no palco amparado. Não deixou o piano nos intervalos entre as peças, pois não conseguiria levantar, sentar, ir e vir do camarim. Tocou o programa completo, mas dizem que interrompeu no meio a última valsa de Chopin, prevista para encerrar a noite. Foi ainda uma vez aos bastidores, voltou e, em vez de terminar a valsa interrompida, tocou “Jesus alegria dos homens”, de Bach, a primeira peça de piano que o artista romeno havia apresentado em público no início de sua carreira.

Lipatti, como José, era um artista que não aceitava a morte. O pianista queria continuar tocando eternamente para seus fãs. José revoltava-se a cada momento em que sentia que não poderia mais escrever um novo livro. A morte, infelizmente, foi mais forte do que a vontade dos dois artistas, porém os discos de Lipatti e os livros de José Saramago ainda resistem teimosamente contra ela.

Também com Giacomo Puccini aconteceu o mesmo. Sua obra prima, “Turandot”, não chegou a ser composta integralmente. A derradeira ópera do compositor toscano trata da história de uma governante cruel, cujo coração aos poucos vai amolecendo, por obra do amor e, por que não, também pela própria música que sua história ensejou. Assolado pela depressão e pela angústia, tendo sabido recentemente que carregava um câncer na garganta, Puccini teria dito profeticamente: “Minha ópera será apresentada incompleta. Num dado momento alguém subirá no palco e dirá: neste ponto o compositor faleceu”.

Arturo Toscanini, o maestro responsável pela primeira apresentação de “Turandot”, deve ter ouvido as palavras de Puccini.

Mesmo assim, escolheu Franco Álfano, um talentoso aluno de Puccini, para que terminasse o dueto de amor e as duas cenas que restaram inconclusas em “Turandot”. No entanto, na estreia da ópera, no Teatro alla Scala, quando se aproximava da parte escrita por Álfano, Toscanini parou de reger, subiu ao palco e disse palavras muito semelhante às enunciadas premonitoriamente pelo compositor.

Hoje à noite, vivemos situação semelhante. Celebramos o lançamento do último e inacabado livro de um artista que não queria mesmo morrer. Podemos fazer como o maestro Toscanini. Fechar o livro e dizer: “Nesta hora o artista morreu”.

Estaremos, porém, incorrendo numa falsa verdade. Toda vez que um leitor qualquer, nas mais recônditas partes do planeta, ler um livro de Saramago, o escritor estará tocando a valsa que Dinu Lipatti não tocou, ou terminando o dueto de amor que Puccini não compôs. A literatura se renova a cada leitura. Por isso José ainda vive entre nós.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna mensal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

Tudo é ruim

Por Érico Assis


Dei uma entrevista e me perguntaram: você acha que essa avalanche de filmes de super-herói baseados em quadrinhos contribui para o que uma certa vertente de críticos chama de “idiotização do cinema atual”?

Respondi que não, que não vejo contribuição nem culpa dos quadrinhos diante do estado do cinema. Que o cinema tem seu mercado, seu funcionamento, sua estrutura financeira, e que tudo isso exige um tipo tal de produto que, no momento, serve-se muito de super-heróis de gibi. Pode muito bem servir-se de filme-catástrofe ou literatura policial ou virais-do-youtube-adaptados-pra-longa-metragem daqui a um ano ou dois, assim como os super-heróis são recentes. Não ponha a culpa nos meus gibis.

Só que, tão preocupado em defender os quadrinhos, esqueci de fazer um complemento… e acabei concordando com a tal da idiotização. Idiotização, logo nesses anos de Melancholia, Submarine, Aqui é o Meu Lugar, Azul é a Cor Mais Quente, Ela e o Wes Anderson em produção feroz.

A idiotização é uma generalização, e generalizações são bobas. Talvez mais bobas em consumo cultural, onde eu acredito que não se deveria aplicar nem estatística. Sim: eu, você e a tal vertente de críticos passamos ontem num multiplex vinte salas e não deu vontade de assistir nada. Sim: há uma quantidade monumental de Transformers. Daí a dizer que o multiplex vinte salas ou que Transformers representam o cinema é sacanagem retórica.

Principalmente porque eu, você e a vertente de críticos temos acesso a bem mais filmes — e filmes atuais — que a seleção do multiplex vinte salas. Tampouco somos obrigados a assistir Transformers. De VOD aos discos no tapetinho do camelô, o cardápio é bem vasto. E o cenário pode se repetir com seus próprios exemplos na música, na literatura, na televisão, nos quadrinhos. Se você vai numa banca (ou numa livraria, ou na internet) e não encontra uma pilha de gibis bons, o problema não é escassez, mas como montar a pilha de ouro.

Saber escolher é uma coisa eminentemente pessoal. Assim como eu coloquei a minha seleção do Melancholia aos Wes Andersons, você pode colocar a sua. Pode inclusive dizer que trocaria todos por Transformers. Perfeito. Concordamos que não somos a mesma pessoa. Não creio, porém, que alguém esteja desprovido de opções condizentes com seus gostos entre os 782 filmes lançados no ano. Nem com os 6497 livros, ou os 3459 gibis.

Claro que ler 3459 gibis para encontrar uma pilha boa não é a melhor forma de passar o tempo. Há formas de evitar o desgaste. Esperar a história peneirar o que há de melhor é um caminho – embora não seja meu predileto e você fique sujeito à nostalgia dos outros. Prefiro a crítica — e não venha com aquela outra generalização, de que todos os críticos são terríveis. Você é que ainda não encontrou o seu.

O caso é que os pregadores da “idiotização”, da “indústria está em crise criativa”, da “banalização”, do “estado lamentável” e do “tudo é ruim”, se realmente se levam a sério, me lembram a piada do cara que chega ao médico reclamando que sente dor quando toca os pés, o joelho, a barriga, o ombro, a cabeça, o ouvido. O problema, obviamente, está no dedo. Se você olha para tudo e tudo é idiota, pode ser que você esteja olhando no espelho recomendo que você vá ao médico.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Convite à viagem

Por Leandro Sarmatz


Leio um ensaiozinho sobre os primórdios dos guias de viagem, The portable Paradise: Baedeker, Murray and the Victorian Guidebook. O “inho” aqui serve para denotar afeição (opa) pelo assunto e também porque o texto relativamente breve (100 páginas), elegante e despretensioso de Jonathan Keates é um repositório de anedotas inteligentes e comentários atilados. Não esgota o assunto e nem tem essa pretensão. Se é para ler ensaio forte que margeia o tema (escritores viajantes ingleses), fiquemos como Abroad: Literary Traveling between the Wars, obra-prima de Paul Fussel. Aí sim a conversa é de gente grande.

O Baedeker, então, já foi uma glória. O primeiro grande guia de viagens, um clássico do gênero e — dizem — tão acurado que muitos de seus mapas compostos ainda antes da Primeira Guerra eram consultados por espiões e estrategistas militares durante a guerra de 39. Virou ícone cultural. Aparece às pencas em poemas (T. S. Eliot, Mina Loy), romances (A room with a view, de E. M. Foster), é referência para muita gente. Leio que Thomas Pynchon suga toda a informação que pode em velhos baedekers em busca de mais elementos para escrever sobre lugares em que nunca esteve.

Aliás, o jornalismo e os guias de viagens são contemporâneos da ascensão do romance. Os três gêneros se beneficiaram da mesma massa crítica: aumento da alfabetização nas cidades, popularização da imprensa, relativa estabilização das fronteiras geopolíticas, fixação dos idiomas nacionais, industrialização. O curioso, e isso aparece no fino volume de Keates, é que a própria mentalidade do viajante dos séculos XVIII e XIX (e aqui poderíamos trocar por leitor de jornais ou de romances) iria moldar a forma como se escreveria sobre os países visitados. Quem leu Orientalismo, de Edward Said, sabe do que se está falando: é nesse mesmo momento que o discurso sobre o “exotismo”, sobre o “outro” (geralmente visto com complacência ou desfaçatez) passa a ser construído, o que se tornaria inclusive traço constitutivo da produção artística de europeus (e depois norte-americanos) até, pelo menos, os anos 1960.

Assim, num caso que aqui seria “benigno”, uma nascente indústria de água mineral era anunciada para o viajante que se afastasse da civilização (ou seja, Londres), lembra Keates. O reclame mostra uma garrafa e várias frases de efeito e/ou ameaçadoras. O curioso é que muito dessa retórica se mantém (leia qualquer guia contemporâneo sobre lugares da África, da Ásia ou mesmo da América Latina), ainda que de fato existam lugares em que tomar água da bica seja a antessala das danações intestinais e das maiores pestilências.

A segunda metade do século XX não seria muito favorável a esses guias estilo Baedeker, que durante anos se mantiveram como referência. O mundo mudou muito rápido, e hoje um guia de viagem sobre Nova York (ou São Paulo, ou Maputo) de, digamos, 1999, é das coisas mais obsoletas que existem. Nada mais antigo que o passado recente, escreveu Nelson Rodrigues. E nada mais estimulante que o passado remoto, poderia dizer Jonathan Keates. Ou mesmo alguns de seus leitores.

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Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.


“A professora”, um conto da infância

Por Raphael Montes


Eu tinha 12 anos quando resolvi que seria escritor e comecei a rascunhar um conto nas últimas folhas de um caderno de português. Recentemente, arrumando tralhas, encontrei o tal caderno. Percebi dezenas de defeitos no texto, claro, mas resolvi transcrevê-lo com fidelidade, corrigindo apenas os erros de português, que eram muitos. A releitura do conto foi marcante para mim: não só me espantou a morbidez da história (que reitera minha teoria de que crianças têm lá sua dose de maldade) como notei que o conto visita temas explorados mais tarde em meu primeiro romance publicado, Suicidas (escrito aos 16). Enfim, achei pertinente — ao menos curioso, vai — compartilhar esse meu primeiro conto da infância com vocês. Nos comentários, me digam o que acharam!

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A professora

Ela já havia tentado o suicídio antes. Cinco vezes. Mas acabava desistindo. O revólver Magnum 608, oito tiros, devolvido à gaveta do esquecimento. Às vezes, ela sentia necessidade de pegá-lo novamente, de testar seu peso, o tato frio com o metal. Em momentos íntimos, levava o revólver à cabeça, o cano massageava a têmpora, sabendo que bastava puxar o gatilho para dar fim àquilo tudo.

Então, ela pensava em seus alunos. Ah, seus alunos! Como ela os amava! Eram a única coisa que realmente tinha de valioso: suas mentes infantis, abertas ao saber oferecido em cada lição. Deus!, era tão fácil encenar para eles! Sobre o tablado, mascarar sua vida deprimente com sorrisos de simpatia e uma felicidade sublimável. Eles a adoravam, a professora sabia. De certa forma, era isso que a mantinha viva, sem coragem de acionar o revólver no momento decisivo. Eles a chamavam de volta. Chamavam-na para a vida, para a aula no dia seguinte… E, nesses segundos, ela se sentia muito feliz e amada. Eles — seus alunos — não a julgavam. Ao contrário dos adultos com quem convivia, eles não a encaravam com desdém, um olhar reprovador, ou, pior, um olhar de piedade só porque ela era gorda.

Sim, ela era gorda! E Deus sabe como era difícil admitir isso… Tantas horas na academia, tantas dietas, tantos livros de autoajuda… Para quê? Ela continuava a suportar os comentários furtivos, as perguntas ofensivas — Onde está aquele seu namorado da última festa, querida? — e o jogo de aparências. Tinha certeza de que era o assunto principal nas rodas quando não estava presente; motivo de risinhos escondidos. Podia imaginá-los gargalhando dela, rindo a valer de cada parte de seu corpo; podia imaginá-los à mesa do café da manhã, comentando a noite anterior, comentando que ela engordara ainda mais e que, desse jeito, nunca conseguiria um marido e estaria fadada à solidão. Criariam alcunhas, comparações e apelidos… Tudo para se divertir na próxima vez em que a vissem.

Por isso, ela precisava da arma. Precisava tê-la ali, ao alcance das mãos. Quando a comprara, três anos antes, estava com medo de assaltos a residências do bairro. Era uma forma de se defender dos bandidos, caso invadissem sua casa. Agora, a arma tinha outra função. Servia para defendê-la do mundo, o mundo nocivo lá fora, o mundo que a desprezava por ser gorda, por não ter atrativos físicos, por não ser bonita. A arma era a fuga para quando ela se sentia sufocada. Bastava puxar o gatilho. Deixar para trás os amigos fofoqueiros, a preocupação com o corpo, a busca por um amor que nunca viria… Tão simples, tão fácil!

Naquela manhã, ela acordou com vontade de comer pão doce. E se condenou por isso. Ah, ela adorava pão doce! Mas não podia, não podia mesmo! Ficaria mais gorda, mais feia, mais, mais e mais. Para saciar-se, correu até a gaveta — sua gaveta mágica. Pegou a arma num resfolegar e se acalmou ao senti-la em suas mãos. Carregou o revólver com uma única bala e levou-o à cabeça, esperando a sensação passar. A adrenalina percorria suas veias, expelida pelos poros.

A professora esperou vinte minutos, mas a sensação não passou. Diferente das outras vezes, continuou lá, insistindo para que ela completasse o serviço. Em alguns momentos, ela chegou a pressionar levemente o gatilho; uma força um pouco maior explodiria sua cabeça. Mas o que viria depois? Teria um mundo melhor para viver? Nesse mundo, as pessoas não ligariam para o peso umas das outras? Lá, ela encontraria alguém que a amasse como seus alunos?

Seus alunos!

Viu no relógio da cozinha que estava atrasada. Dali a vinte minutos deveria estar na sala de aula, aplicando a prova bimestral para as crianças. Pensou em correr, vestir uma roupa qualquer, buscar o carro na garagem para chegar o mais rápido possível à escola, mas não se moveu. A sensação ainda era muito forte. Estava paralisada, a arma em punho.

Teve uma ideia; um flash que invadiu sua mente trazendo a solução exata. Como não tinha pensado nisso antes!? Era tão óbvio: levar seus alunos com ela! Matar alguns deles e depois cometer suicídio. A garantia de que continuaria a ser amada por eles onde quer que fossem depois da morte. Era perfeito! O revólver suportava oito balas. Uma para ela. O restante para sete alunos que ela escolheria na hora; alunos que adorariam morrer com ela porque a amavam!

Extasiada, a professora carregou o tambor com oito balas e se arrepiou ao ouvir o clique metálico da arma. Guardou-a na pasta, junto do envelope com as provas. Saiu de casa assoviando uma canção que inventou na hora.

 

“Desculpem o atraso, crianças. Tive alguns problemas antes de sair de casa.”

Entrou na sala, ofegante. O relógio acima do quadro-negro registrava os dez minutos de atraso.

“Vamos sentar! Vou começar a prova! Guardem os estojos, apenas lápis e caneta em cima da mesa!”

Todos obedeceram. Eram tão bonzinhos! Seria muito difícil escolher apenas sete. Distribuiu as provas e observou-os, com um sorriso. Tão dedicados e inteligentes! Nenhum deles viu quando a professora tirou a arma da bolsa. Não viram quando ela mirou o revólver em direção a suas cabecinhas, passando um por um.

Artur, Clara, Lucas, Bruno, Carol, Mário, Vera…

Todos tão queridos! Tão especiais!

Caminhou pela sala, o revólver escondido nas costas.

Parou ao lado de Caio. Os cabelos loiros caindo sobre a testa, os argutos olhinhos azuis que acompanhavam as explicações dela no quadro. Ele era adorável. Sem dúvida, seria um dos sete…

E Joana? Os cabelos ruivinhos encobrindo a prova sobre a carteira. A Joana a amava! Gostava dela como uma mãe… Trazia presentinhos e chocolates quase todo mês! Era hora de retribuir tanto carinho. Ah sim, ela também estava escolhida!

Anabela levantou o braço e a professora se aproximou. Pobre Anabela, bela apenas no nome. A menina tinha uma personalidade forte para seus onze anos, era comunicativa e talentosamente persuasiva. Daria uma ótima advogada. Ou, talvez, uma ótima professora. Assim como ela: uma mulher inteligente, profissional; mas feia. Feia e gorda. Acabaria exatamente como ela… Cometendo suicídio, percebendo que acabar com a própria vida é a melhor solução nesse mundo de pessoas magras.

Decidiu que também levaria Anabela. Não porque gostasse especialmente dela — preferia os alunos magros e bonitos —, mas para fazer um favor à menina. Poupá-la dos anos de tortura e recusa, poupá-la dos risinhos sacanas a suas costas, poupá-la da dor…

Encostou-se na parede do final da sala. Faltava pouco. Estudou as cabecinhas pensantes, inocentes, dedicadas a tirar uma nota dez para alegrar a mãe no fim do mês.

Escolheu os outros quatro sem muita dificuldade.

Sete alunos. Quatro meninos e três meninas.

Caio, Victor, Rafael, Pedro, Joana, Clara e Anabela.

Sete amigos que partiriam com ela.

Os tiros causariam grande alvoroço no colégio. Sem dúvida, poderiam ouvir os estampidos a quilômetros de distância. A polícia chegaria logo. Ela teria que agir depressa. Respirando fundo, mirou na cabeça de Anabela. Sem chances de erro.

Sentiu a alavanca do gatilho brincar com seu indicador, provocativa. Fechou os olhos ao puxar o gatilho, deixando que os gritos infantis lhe dessem respostas. Ouviu passos, o ranger das carteiras, correria… Eles estavam fugindo! Malditos! Estavam fugindo! Como podiam fazer isso com ela?!

Deu outro tiro ao léu.

Abriu os olhos e viu diante dela a menina Anabela, morta. A cabeça empapava de sangue a prova sobre a carteira. O corpo rechonchudo era um monte de carne fria e flácida. A sala estava vazia. Os outros a tinham abandonado. Traidores! Medrosos! Haviam optado por continuar nesse mundo de dietas. Apenas Anabela estava ao seu lado. Apenas Anabela não a havia traído. Tinha ficado ali, morta, sua imagem e semelhança quando criança. Gorducha e inteligente.

Eram como mãe e filha…

Teve vontade de chorar. Mas não havia tempo. Não lhe restava mais nem um segundo. Logo a polícia chegaria.

Caminhou pesadamente em direção ao tablado, seus quarenta e nove quilos dificultando cada passo. Ela era gorda. Sabia disso. E ninguém haveria de lhe dizer o contrário. O espelho não a deixava mentir. Bastava comparar com as mulheres esguias nas revistas, com as modelos na televisão… Era gorda. Deveria seguir seu destino junto de Anabela. Calar os comentários, as críticas e as piadinhas que faziam dela…

Lançou um último olhar a Anabela. Gorda e feia.

Então, puxou o gatilho.

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Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Advogado e escritor, publicou contos em diversas antologias de mistério, inclusive na revista americana Ellery Queen Mystery MagazineSuicidas (ed. Saraiva), romance de estreia do autor, foi finalista do Prêmio Benvirá de Literatura 2010, do Prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do Prêmio São Paulo de Literatura 2013. Em 2014 lançou seu novo romance pela Companhia das Letras, Dias perfeitos. Atualmente, o autor realiza trabalhos editoriais, ministra palestras sobre processo criativo e escreve o projeto de uma série policial para TV.

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Uma conversa sobre medo e criatividade com Stephen King

Por Ana Maria Bahiana


Foto: Steve Schofield

Quando, meses atrás, tive a oportunidade de conversar com Guillermo del Toro, uma boa parte do nosso papo envolveu Stephen King, que Del Toro considera o maior autor de ficção de terror da atualidade. Mal sabia eu que, não muito tempo depois, teria a oportunidade de encontrar Mr. King em pessoa.

Na verdade, esse não foi nosso primeiro encontro. Mas com certeza ele não vai se lembrar que, na plateia alegremente chorosa da formatura da turma de 2001 do prestigioso Vassar College, da qual ele era paraninfo, lá estava eu, no papel de mãe extática de um dos formandos. A conexão Stephen King-Vassar ia mais além: Owen, o caçula do casal de autores Stephen King & Tabitha Hill, foi colega do meu filho em várias disciplinas, e estava entre os formandos daquela amena tarde de maio de 2001. Profeticamente, King disse no seu discurso aos formandos que estava ali para imbuir neles a necessidade de “ter muito medo”: “Medo do futuro, que não é tão cor de rosa como todo mundo que em geral está aqui neste pódio diz a vocês.”

Fora a formatura, as esbarradas nas sempre aflitas visitas aos filhotes no campus da Vassar e as muitas horas dentro da minha cabeça graças aos livros que sempre devorei tão avidamente, este foi mesmo primeiro tête a tête com o homem que provavelmente mais pôs medo em gente pelo mundo afora.

E o que descubro? Que ele é um homem sem medos (fora o acidente que quase o matou em 1999, quando foi atropelado por um caminhão desgovernado numa estradinha rural do seu querido estado natal do Maine); que seu primeiro trabalho foi como comentarista de cultura pop no jornal da universidade; que o único filme que não aguentou ver até o final foi Transformers (“a coisa mais ridícula que vi na vida”); e que atualmente está passando por “uma fase Emile Zola. Nunca tinha lido antes. Peguei um livro por acaso e fiquei doido. Que coisa incrível”.

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De onde vêm suas ideias?
Do nada, aparentemente. Depois de todo esse tempo ainda não tenho uma explicação melhor do que essa. O máximo que consigo dizer é que vejo algo dentro de coisas, pessoas e situações. Por exemplo, eu estava num evento na França no final do ano passado, indo para o evento num SUV grande, bem alto e, quando paramos, ficamos quase na mesma altura de um ônibus que parou ao nosso lado. Eu olhei pela janela e dei de cara com um homem na janela do ônibus lendo um jornal. E aí eu pensei: que interessante, estamos a menos de 60 centímetros um do outro mas somos dois mundos diferentes, duas pessoas indo em direções diferentes e no entanto tão, tão próximos. E aí comecei a pensar… e se… e se não fosse um homem, fosse um casal, e na hora em que por acaso eu olho para a janela o homem corta a garganta da mulher e nós estamos ali pertinho, a menos de 60 centímetros de distância e seguimos em direções opostas… Essa é uma história que eu gostaria de contar. Não tenho uma metáfora boa para explicar, mas é meio como estar de patins e segurar no para-choque de um caminhão… você vai se deixando levar.

Você anota e guarda essas ideias? Woody Allen faz isso. Ele diz que nunca vai ficar sem ideias para filmes porque tem uma gaveta cheia de papeizinhos…
Não anoto mais não. Acredito que o tempo tem que dizer se uma ideia é boa ou ruim. Ter um caderno ou uma gaveta cheia de ideias não faz sentido para mim — eu com certeza ia gastar tempo e espaço anotando um monte de ideias ruins. Uma ideia ruim a gente esquece e é assim que deve ser. Uma boa ideia fica na sua cabeça até que você faça uso dela. Nem sempre foi assim — houve um tempo, quando eu era mais jovem, que eu tinha tantas ideias ao mesmo tempo que literalmente me sentia como se meu crânio fosse explodir. Nessa época eu odiava ter que trabalhar num livro porque isso queria dizer que eu não ia poder estar trabalhando em outro. Escrever um livro é como estar casado — você tem que ser fiel ao seu projeto, tem que ficar trabalhando nele e se uma ideia linda aparece, uma ideia maravilhosa, você não pode sair correndo atrás dela… Tem que ser fiel à sua esposa, ao seu projeto. Nessa época eu anotava ideias. Se você me encontrasse quando eu tinha 40 anos eu teria uma gaveta com ideias. Hoje eu conheço melhor como se dá esse processo. E tenho menos ideias. Mas são ideias melhores, acho.

Qual o seu processo de trabalho, de criação?
É difícil de explicar, porque não é uma coisa clara e verbal para mim, mas vou tentar. Quando eu começo a visualizar as pessoas, onde elas estão, o que estão fazendo, o que vão fazer, como elas falam, como se sentem, qual seu discurso interior, então elas se tornam reais e não tenho vontade de me levantar da cadeira, o que é ótimo mas também terrível, porque é uma coisa muito exigente e muito difícil e absolutamente retira você do mundo ao seu redor, do mundo das outras pessoas à sua volta… E eu não quero sair do mundo das pessoas sobre as quais estou escrevendo, não consigo usar a palavra “personagens”, eu quero ficar no mundo que está na minha cabeça, porque estou vendo com clareza o mundo na minha cabeça e mais nada tem a mesma importância. Deu pra entender? Isso explica alguma coisa?

Você está quase descrevendo um filme na sua cabeça…
Somos uma geração que cresceu com cinema e televisão. Ver com o olhar da câmera é segunda natureza para nós.

Por falar em cinema: você continua não gostando da adaptação de Stanley Kubrick para O Iluminado?
Continuo. Minha opinião não mudou. Não acho que seja um filme muito bom. É lindo de se ver, mas a mesma coisa pode ser dita de um Cadillac clássico que tenha sido bem tratado. É um filme frio. No livro, Jack Torrance, o protagonista, tem o arco narrativo de um herói trágico, ele está determinado a fazer o que for melhor para sua família e pouco a pouco ele é sugado, manipulado, indo e vindo, indo e vindo até que ele quebra completamente. Wendy Torrance, a esposa, é uma mulher bonita que tem uma enorme coragem, muita fibra, muito coração, é uma mulher notável. E Kubrick me dá um Jack Nicholson que parece que está sendo incorporado por um delinquente juvenil motoqueiro de um filme B dos anos 60 e uma Shelley Duval que é uma espécie de caricatura anti-feminista, uma máquina de gritos histéricos. Não é meu livro e não é um bom filme, pra mim. É todo estilo e nenhuma substância.

Do que você tem medo?
Não tenho muito medo não. Deve ser porque passo meus medos para os meus leitores (gargalhada). Eu durmo muito bem e tenho pouquíssimos pesadelos porque acho que já trabalhei todas essas coisas nos meus livros (nova gargalhada). Que ótimo negócio pra mim! Tive uma infância normal, tranquila. O que sempre tive foi uma grande, enorme imaginação. O que eu tive de medos e pesadelos foi consequência dessa imaginação. E criei um modo fantástico de me livrar deles: em vez de pagar a um analista 120 dólares a hora para ouvir meus medos e pesadelos, as pessoas me pagam para ler meus medos e pesadelos! (longa gargalhada) Se você quer saber meu grande segredo, é muito simples: eu amo, eu adoro fazer as pessoas se cagarem de medo!

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Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

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