Colunistas

Meu Rio

Por Carol Bensimon

Durante minha infância, em absolutamente todas as férias de julho, eu ia para o Rio de Janeiro com minha mãe. Meus avós tinham um apartamento na Barra, em uma parte simpática chamada Jardim Oceânico. Lá não havia a mínima tentativa de miamização, os prédios tinham no máximo quatro andares, a gente ia caminhando buscar sonho de creme na padaria, um papagaio se exibia numa sacada, e a enigmática Praça do Ó era puro areião. Meus avós fugiam do frio de Porto Alegre entre maio e setembro. Quase nunca iam à praia, embora estivessem a duas quadras dela. Quando nós chegávamos em julho, eles finalmente venciam os limites da Barra da Tijuca. Nós tínhamos um roteiro meio pronto e repetido à exaustão. Um dos programas era passar algumas horas no Shopping da Gávea, o que para mim queria dizer apenas uma coisa encantadora: Livraria Malasartes.

Naquela época, isto é, em meados dos anos noventa, não havia nenhuma livraria memorável em Porto Alegre, ou ao menos não uma que apelasse diretamente aos pequenos. Por isso eu ficava tão empolgada quando, no fim de outubro, com jacarandás florescendo na Praça da Alfândega e aquela coisa toda, eu e meus pais íamos fazer compras na Feira do Livro. Metade de minha biblioteca infantil e infantojuvenil deve ter vindo de lá. A outra metade tem a etiqueta da Livraria Malasartes.

A Livraria Malasartes era uma livraria especial para crianças. Era escura e apertadinha, com prateleiras de ferro, perdida num corredor do Shopping da Gávea. Eu acho que ela está lá ainda, mas não tenho certeza, minhas buscas no google remeteram a matérias e vídeos de 2005. Livros que eu nunca tinha visto na vida podiam ser encontrados naquele lugar. Coleção Vaga-lume, coleção Salve-se quem puder, livros grandes com ilustrações sensacionais, histórias de bichinhos se metendo em confusões, lendas gregas, amazônicas, da Idade Média, uma série de como era ser criança na Roma antiga, no século XVI, no império asteca, na Revolução Francesa. Essas duas últimas coleções me foram particularmente caras e particularmente manipuladas ao longo de muitos anos.

Eu lembro da senhorinha da Livraria Malasartes. Ela ficava atrás da caixa registradora enquanto eu espiava à vontade. Eu adoraria que os vendedores fossem assim hoje em dia, em vez de lhe abordarem assim que você dá um passo para dentro de uma loja. Outra coisa eu lembro muito bem: nessas andanças pelo Shopping da Gávea ou qualquer outro lugar parecido, eu sempre estava alguns passos atrás ou alguns passos à frente do resto da minha família. Eu era filha única. Eu criava mundos inteiros e histórias inteiras que ia fazendo avançar na minha cabeça. Quando eu estava sozinha, eu encenava as histórias em voz alta, mas, naquelas situações, envolta em mundo real, eu simplesmente ia dirigindo e acompanhando o filminho que rodava só para mim. A maioria desses mundos tinha se aberto pelas páginas de um livro. Naquela época, e ainda hoje, acho que não existia melhor maneira de conhecer outros lugares e se pôr na pele de outras pessoas.

Apelo: nunca deixem de dar livros para crianças.

* * * * *

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008, e no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Ela contribui para o blog com uma coluna quinzenal.
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Meu escritor brasileiro favorito (II): Reflexões sobre a existência da Bulgária

Por Juan Pablo Villalobos

Em 3 de setembro do ano passado publiquei aqui uma coluna na qual reclamava das dificuldades para responder de maneira adequada à pergunta “quem é seu escritor brasileiro favorito?”. Escrevi esse texto na semana anterior à publicação, na sexta-feira que a antecedia e, segundo a informação do arquivo de Open Office, foi em 31 de agosto, dois dias depois de meu aniversário (já falei que odeio a Microsoft?). Estas explicações são necessárias porque no sábado 1º de setembro aconteceu minha festa de aniversário e recebi de presente o primeiro livro que leria de meu escritor brasileiro favorito.

O livro foi presente de um amigo colombiano que mora no Brasil, doutor em literatura e talentoso escritor, a quem chamarei Rafael Gutiérrez, embora seja seu nombre verdadeiro (autor do maravilhoso El escritor de culto. Guía rápida, a ser publicado em breve no Brasil). Rafa conhece muito bem meus gostos e interesses literários, mas eu ainda não o sabia. Rafa me disse: “Es un raro brasileño”, porque sabia que os escritores raros são meu ponto fraco. Recebi o livro com a típica desconfiança dos leitores maníacos. Era uma edição de 1977 da Editora Codecri, com uma capa especialmente horrorosa. O título do livro: A lua vem da Ásia. O autor: Campos de Carvalho.

Nessa mesma noite ao acabar a festa, que foi um almoço, peguei a pilha de livros que tinha ganhado para fazer uma analise rápida. Estava meio bêbado. Ou simplesmente bêbado. Ou inclusive bêbado e meio. Fiz a separação nas três pilhas que eu faço sempre que ganho livros. 1) Livros que eu vou ler imediatamente: ficam na minha mesa de trabalho. 2) Livros que eu vou ler algum dia: vão para a prateleira. 3) Livros que eu não vou ler nunca: vão para umas caixas que estão no quarto de visitas, que é, para falar a verdade, o quarto das tralhas.

O título do primeiro capítulo de A lua vem da Ásia me fez graça, “Vida sexual dos perus”, peguei o livro e o levei comigo para a cama, onde eu tentaria me estabilizar (a existência bípede estava muito complicada). E o milagre aconteceu desde os primeiros parágrafos:

“Aos dezesseis anos matei meu professor de Lógica. Invocando a legítima defesa — e qual defesa seria mais legítima? — logrei ser absolvido por 5 votos contra 2, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris.

“Deixei crescer a barba em pensamento, comprei um par de óculos para míope, e passava as noites espiando o céu estrelado, um cigarro entre os dedos. Chamava-me então Adilson, mas logo mudei para Heitor, depois Ruy Barbo, depois finalmente Astrogildo, que é como me chamo ainda hoje, quando me chamo.”

Eu já tinha um escritor brasileiro favorito. Não consegui largar o livro, mesmo estando meio bêbado ou simplesmente bêbado ou inclusive bêbado e meio. Lia Campos de Carvalho às gargalhadas, encontrando a cumplicidade que só a literatura pode conquistar.

No dia seguinte, ainda sob o impacto da leitura, e ainda também sob o impacto do tequila (já falei que o tequila é macho?), comecei a me perguntar: como era possível que eu não conhecesse Campos de Carvalho? Fiz uma pesquisa rápida na internet e achei os títulos de outros três livros: O púcaro búlgaro, A chuva imóvel, Vaca de nariz sutil. E como as vacas são outra de minhas fraquezas lembrei de uma conversa sobre literatura e vacas com minha amiga Graça Ramos em Brasília, capital mundial dos raros, na que ela tinha me ordenado sem ambiguidades: “você tem que ler Campos de Carvalho”. E lembrei também do curso sobre escritores raros que eu ministrei no Instituto Cervantes de São Paulo, e fui buscar as notas do curso porque numa folha eu tinha anotado os nomes de escritores raros brasileiros que os alunos tinham me recomendado. E lá também estava Campos de Carvalho. Mesma coisa em um caderno que levei para Belo Horizonte (ou foi para Porto Alegre?). Dá para perceber o quanto eu sou distraído?

Encomendei os livros na minha livraria favorita e os exemplares, em edição recente da Editora José Olympio, chegaram duas semanas mais tarde. Coloquei-os na prateleira, ainda morrendo de vontade de lê-los imediatamente, porque estes livros pertenciam a uma quarta categoria: livros que eu devo dosificar ao longo da vida, livros para ocasiões urgentes, livros para recuperar a fé na literatura.

Meses depois chegou o convite para ir à Bulgária para fazer promoção do lançamento da versão local da Festa no covil. E pensei de imediato que sim, que eu iria à Bulgária para poder ler aí O púcaro búlgaro. No avião que me levava a Sofia na segunda semana de março li as primeiras linhas:

“Se a Bulgária existe, então a cidade de Sófia terá que fatalmente existir. Este é o único ponto no qual parecem assentir os que negam e os que defendem intransigentemente a existência daquele amorável país, desde os tempos antediluvianos até os dias pré-diluvianos de hoje.”

O púcaro búlgaro é a história de uma expedição para confirmar ou desmentir a existência do pequeno país europeu. A expedição nunca acontece e o que lemos são os absurdos prolegômenos da viagem. Passei três dias na Bulgária na companhia do Professor Radamés, do Expedito, do Pernacchio, do Ivo que viu a uva e dos jornalistas búlgaros, que pareciam de verdade personagens de Campos de Carvalho, capazes de fazer as perguntas mais esquisitas. O que será que ensinam nas faculdades de jornalismo da Bulgária? O que será que os jornalistas búlgaros comem?

Eu gostaria de contribuir à polêmica, mas nem mesmo tendo visitado Sofia e Plovdiv posso confirmar ou desmentir a existência da Bulgária. Eu fui, sim, e há fotos, entrevistas nos jornais, na rádio, até imagens da televisão. Mas nesses dias, caros amigos búlgaros, eu estava morando dentro de um livro. Um livro de meu escritor brasileiro favorito.

* * * * *

Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e atualmente mora no Brasil. Festa no covil é seu primeiro romance. Editado originalmente na Espanha, foi traduzido em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
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Piada

Por Tony Bellotto

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Acordei com vontade de ouvir uma piada.

Pedi a meu filho caçula, o humorista da família, que me contasse uma piada antes de sair para a escola.

“Olhe-se no espelho”, ele disse.

O escritor Kurt Vonnegut tem uma teoria (que se aplica a si mesmo) sobre os filhos caçulas serem os piadistas das famílias.

A teoria é relatada na primeira crônica do livro Um homem sem pátria. Segundo Vonnegut, a piada é o único jeito que o caçula tem de entrar numa conversa adulta. À mesa de jantar, seus pais e irmãos mais velhos não queriam saber de suas histórias bobas e infantis, mas das coisas realmente importantes que aconteciam na escola secundária, na universidade ou no trabalho. A única maneira que o pequeno Kurt tinha de entrar na conversa era dizer uma coisa engraçada.

Segui o conselho de meu filho piadista e olhei-me no espelho.

“Cadê aquela bichona mulata que preside a Comissão dos Direitos Humanos da Câmara?”, pensei.

Eu tentava criar uma frase de efeito.

“Se Mark Chapman é o emissário de Deus, deve haver algo de podre no reino dos céus”, pensei em seguida.

Eu continuava tentando criar uma frase de efeito.

Comecei a fazer a barba.

Pensei no que levava um homem a deixar crescer o bigode.

Pensei em homens díspares com bigodes parecidos: Stefan Zweig e Adolf Hitler. Joseph Stálin e Freddie Mercury.

Não consegui criar uma frase de efeito nem entender por que alguns homens cultivam bigodes.

Mas adorei a piada do meu filho caçula.

* * * * *

Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu novo livro, Machu Picchu, acaba de ser lançado.

Literatura cantada (ou A felicidade existe)

Por Luiz Schwarcz


Acho que já escrevi aqui sobre este assunto, mas se o fiz foi há tanto tempo que decidi correr o risco de me repetir e quem sabe agradar a um novo leitor, que saúdo com a história que abre este post.

Certa noite, há muito tempo, Lili, Marta Dora Grostein, Mario de Andrade e eu fomos ao show de Chico Buarque, no antigo Palace. Chico lançava na ocasião o longplay Francisco. Mário era na época o editor da Playboy brasileira. Homônimo do grande escritor, foi um grande amigo que perdi precocemente. No meio daquele espetáculo tão especial — os quatro, emocionados, sentindo o quanto aquelas canções representavam, em versão poética, décadas de nossa história —, Mário exclamou com seu entusiasmo tradicional:

— Luizinho, esse é o nosso poeta, o Manuel Bandeira de nossos dias. Você tem que editar um livro com as letras do Chico!

No dia seguinte, falando ao telefone com Rubem Fonseca, com quem na época eu conversava quase diariamente, contei do show, falei que Mário tinha tido uma ótima ideia, mas que eu não sabia como seria possível viabilizá-la. Rubem replicou:

— Luiz, eu sou co-sogro do Chico. O Zé Henrique está namorando a Silvinha, quer que eu marque uma conversa com ele?

Respondi que SIM, com ênfase equivalente a essas letras em caixa alta. Alguns dias depois eu voaria para o Rio, especialmente para ir, com Zé Rubem, até a casa do Chico, no alto da Gávea.

Enquanto esperava no terraço, apreciando a bela vista da floresta e da baía de Guanabara, eu temia o encontro que viria a ocorrer. Sentia um misto de vergonha e timidez que só aumentou ao descobrir o eco na timidez do Chico. Quando, após o tradicional cafezinho, balbuciei que gostaria de editar suas letras, contando como a ideia surgira por conta de um comentário efusivo do Mário, no meio do show, Chico fechou-se em silêncio .

Eu falava, olhando de vez em quando para a mesa, e no meu tom de voz meio grave, que a cada dia fica mais abafado e parecido com o do meu falecido pai. Chico rompeu o silêncio depois de um tempo, apenas para dizer que discordava totalmente do que Mário havia dito, que suas letras eram apenas letras, não as considerava poesia, de forma alguma. É curioso que esta é também a opinião de Caetano Veloso, de maneira ainda mais radical. Caetano diz que considera Chico um poeta, sim, mas que em seu próprio trabalho vê pouca originalidade. Embora a questão formal que separa as letras do gênero poético seja complexa, é fácil discordar da modéstia de nossos compositores.

Na reunião, no entanto, foi Rubem quem se ocupou de enfrentar o argumento de Chico Buarque, com quem se sentia totalmente à vontade, bradando com seu jeito expansivo:

— Nada disso, Chico. Não aceito! Você é poeta, sim. É poeta, caralho! Poeta, entendeu? E “Pedro pedreiro”, o que é?

E se pôs a recitar a letra, de cor, para desespero do Chico, e indiretamente meu também.

O encontro acabou com menos timidez de lado a lado, mas foi inconclusivo. Chico mudou o assunto para futebol, e depois de uma simpática conversa, na qual todos estavam mais à vontade, fomos embora. Passadas algumas semanas eu escrevi para o Chico, insistindo no assunto, mas terminei a carta dizendo que, caso ele não quisesse publicar nada conosco, eu me oferecia como goleiro do Polytheama, o time que ele ainda tem com alguns dos músicos que tocam com ele, seu produtor e empresário Vinicius França, e amigos. Disse com pouca modéstia futebolística que eu “catava bem e seria uma honra jogar umas peladas com ele”. A isca serviu e Chico respondeu logo. Como goleiro é sempre mão de obra rara, o compositor me convidou para encontrá-lo numa segunda, quinta ou sábado, para batermos uma bola — literalmente no campinho do Centro Recreativo Vinicius de Moraes, e depois, metaforicamente, para conversarmos sobre um possível livro de letras, em sua casa.

Assim nasceu o primeiro livro que publicamos de Chico Buarque, Letra e música , sobre o qual ainda terei várias histórias a contar no futuro.

Lembrei-me desta história, impactado, ao assistir Leonard Cohen, com a Lili, duas semanas atrás no Radio City Hall, em Nova York. Foi talvez o melhor show de rock que assisti na minha vida, ou talvez um dos melhores shows da minha vida e ponto final. Fiquei pensando na questão que abre este post, se as letras são poesia ou não. Os críticos literários em geral dizem que não, e talvez formalmente eles tenham razão. Mas não foi o que senti no show. Vi que, de certa forma, a literatura pode ser cantada, e recordei-me também do começo da minha vida de leitor.

Leonard Cohen entrou às 8h15 da noite e saiu do palco às 11h45. Eu controlei minha emoção algumas vezes, para não dar qualquer tipo de vexame. Recordei o que senti no show Francisco; ou quando vi João Gilberto cantar no Municipal; ou quando assisti Milagre dos peixes no mesmo teatro, com Milton Nascimento solfejando as músicas censuradas. Lembrei do show de Tom Jobim no Ibirapuera e de haver dito naquela ocasião, mesmo sendo agnóstico e talvez misturando idolatria com ironia: “Deus existe!”.

O que Leonard Cohen cantava — ajoelhando-se no palco reiteradamente, abraçando o microfone com as duas mãos em forma de concha, fechando os olhos, emocionado com suas próprias lembranças —, se não era poesia, era pura literatura cantada. A música de Cohen, em minha opinião, se parece com pequenos contos, mais do que com poesia, mesmo com o uso reiterado da rima.

Senti como gosto do que faço, como a literatura se tornou tão importante para mim — quem sabe através da música, que ocupou um lugar fundamental na minha vida antes mesmo dos livros. Será que virei editor por causa de Dylan e Cohen? Através dos Beatles, Caetano, Chico, Vinícius, Jobim ou mesmo Lou Reed? Não importa. Essa crônica é sobre Leonard Cohen, e não sobre quem a escreve. É sobre como suas músicas são importantes, como sendo tão tristes são também o caminho para a felicidade. Sobre como ele e seu grupo, quase todos usando o mesmo chapéu, tocaram com uma alegria indescritível, como ele ajoelhava e cantava para os músicos, como ele tirava o chapéu ouvindo um solo de bandolim, ou dos teclados, ou mesmo o solo vocal de uma cantora do pequeno coro que o acompanha. De joelhos, Leonard Cohen reverenciava a música tocada pelos músicos de sua banda, que por seu lado reverenciavam suas letras, sua literatura.

Assim — modificando um pouco o que eu havia dito sobre a música de Jobim, há tanto tempo atrás —, no fim do show de Leonard Cohen, após ouvir todas aquelas letras super melancólicas, abraçando a Lili eu disse: “A felicidade existe. A felicidade existe.”

[Leia, abaixo, duas letras de Leonard Cohen traduzidas por Caetano W. Galindo especialmente para o blog.]

Suzanne

Suzanne te leva para casa às margens do rio
Para ouvir os barcos vindo
E dormir ao lado dela
Você sabe que ela é doida
Mas é esse o teu motivo
E ela serve chá e laranjas
Que vieram lá da China
E bem quando você pensa
Que não tem amor por ela
Ela vem e te sintoniza
E o rio que te responda
Teu amor sempre foi dela
E você quer ir com ela
E quer ir sem enxergar
Sabe que ela confia em você
Pois você tocou com a mente o seu corpo perfeito.

E Jesus era marujo
Quando andava sobre as águas
E olhou por muito tempo
De sua torre de madeira
E quando soube, solitário,
Que só os náufragos o viam
Disse “Todos serão nautas
Até que o mar os liberte”
Mas ele mesmo estava exausto
Antes já de o céu se abrir
Abandonado, quase humano,
Afundou como pedra na tua sabedoria
E você quer ir com ele
E quer ir sem enxergar
Acha que talvez confie nele
Pois ele tocou com a mente o teu corpo perfeito.

Agora Suzanne te dá a mão
E te leva para o rio
Veste trapos, traja plumas
Do Exército da Salvação
E o sol recobre como mel
Nossa senhora do porto
Que te mostra onde olhar
Entre o lixo e entre as flores
Há heróis em meio às algas
Há crianças na manhã
Eles pendem para o amor
Vão pender assim para sempre
Enquanto ela estende o espelho
E você quer ir com ela
E quer ir sem enxergar
Sabe que confia nela
Pois ela tocou com a mente o teu corpo perfeito.

Escuridão

Eu peguei a escuridão
Que bebia em tua taça
Eu peguei a escuridão
Bebendo em tua taça
Pergunto “Bebo? Contagia?”
“Beba: simplesmente faça.”

Meus dias são poucos
Eu sei que não tenho futuro
Só me restam tarefas
O presente é um tanto duro
Achei que o passado ficava
Mas também caiu no escuro

Eu devia ter previsto
Estava na tua expressão
Mas eu tinha que arriscar
Você era jovem e era verão
Ganhar você foi fácil
Mas custou a escuridão.

Eu não fumo mais cigarros
Nem beber eu bebo mais
Não tive tanto amor
Mas você sempre foi capaz.
E eu até nem sinto falta,
Nada mais me satisfaz

Eu gostava do arco-íris
Adorava poder ver
Outro dia bem cedinho
E fingir que era você.
Mas peguei a escuridão
E foi pior do que em você.

Eu peguei a escuridão
Que bebia em tua taça
Eu peguei a escuridão
Bebendo em tua taça
Pergunto “Bebo? Contagia?”
“Beba: simplesmente faça.”

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

O tempo

Por Érico Assis


xkcd, você de novo. Depois de “Click and Drag”, que já era coisa de gênio, o autor Randall Munroe está numa nova experiência que só é possível em quadrinho na internet. Chama-se “Time”.

Quem viu a tira no dia 25 de março só encontrou o casal de bonequinhos-palito sentado na areia e olhando para o nada. A cada meia hora a imagem sofria pequenas alterações: os personagens se ajeitando na areia; um deles caminha até a beirada direita e coloca o pé na água; descobrimos que é uma praia; ele volta e os dois resolvem construir um castelinho de areia.

Passados 28 dias — agora com atualizações de hora em hora —, o casal já construiu vários castelos. Montaram uma estrutura que parece uma palafita, sobre a qual fazem mais castelinhos. Também trouxeram uma catapulta, para brincar de destruir os castelos. Já tiveram alguns diálogos, principalmente sobre a maré. A água realmente está subindo pela borda direita. Nesta segunda-feira, 600 e tantas horas após a estreia do primeiro quadro, a imagem já foi atualizada mais de 800 vezes.

Pode ser uma reflexão sobre o tempo, sobre a transitoriedade da vida e dos castelos de areia. Quem sabe uma brincadeira com a máxima “time and tide wait for no man”. Em toda xkcd há um alt-text, aquela legenda que aparece quando o mouse fica em cima da imagem. A de “Time” diz “Wait for it” (“aguarde”).

O grande feito de “Time” é ter gerado entre os leitores de xkcd algo que lembra um jogo. Começou com a discussão nos fóruns, onde o pessoal foi entendendo a lógica das atualizações. Depois, programadores tentaram desvendar o código que atualizava a imagem para capturar as imagens seguintes — só para descobrir que Munroe já havia previsto os interesseiros e montou um sistema de atualizações indecifrável.

Leitores devotos criaram sites que gravam cada imagem e deixam os leitores ver a progressão, ou rabiscam o que muda de uma imagem para outra. Sobre o trecho da catapulta, há um jogo de verdade para testar o resultado de jogar pedras sobre os castelos de areia da HQ, com direito a variações na gravidade planetária e composição do material arremessado.

O Explain XKCD, a enciclopédia gerada pelos fãs da webcomic, já registra toda a discussão que “Time” gerou. A tira, porém, ganhou seu próprio wiki, o XKCD Time Wiki, onde construiu-se uma espécie de culto religioso (inclusive com oração). É neste wiki que há páginas dedicadas a teorias sobre o desenvolvimento de “Time” (a maré vai subir e consumir tudo? A HQ será infinita?) e sobre seu significado (desde referência ao 11 de setembro até especulações lúgubres sobre um aborto no casal Munroe).

Da outra vez que falei de xkcd, foi para dizer que, mais do que querer ser literatura, os quadrinhos deviam almejar um grande propósito da boa literatura: gerar discussão entre gente inteligente. Com essa carga de interpretações, reinterpretações, obras inspiradas e até uma enciclopédia, “Time” só reforça a ideia. E, como vivemos nos nossos tempos, isso tudo acontece em menos de um mês.

Além disso, “Time” desafia a própria definição do que é uma história em quadrinhos. Parece um quadrinho, mas também poderia ser uma animação muito demorada. Se formos pela definição do Scott McCloud de “imagens pictóricas e outras justapostas em sequência deliberada”, “Time” fica devendo justamente na “justaposição”. A não ser que consideremos esta interação prolongada com os leitores — que voltam com frequência à página para ver as alterações — a tal da justaposição. Dá vontade de mudar a definição de quadrinhos só para incluir “Time”. xkcd mudou o paradigma.

* * * * *

Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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