Colunistas

Übersetzungen von Comics

Por Érico Assis

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Quadrinho do cartaz do congresso Übersetzungen und Adaptionen von Comics.

O diálogo é verídico:

— Então você vai na Alemanha para um congresso de tradutores?

— Hã, não é bem de tradutores, é de pesquisadores de tradução. Acadêmico e tal…

— Pesquisadores de tradução. Putz, mas é bem específico, né?

— Hã. Na verdade é só de pesquisadores de tradução de história em quadrinhos.

— …

— …

— Na Alemanha, é?

* * *

Hildesheim é uma cidade de médio porte que fica quase no meio do mapa alemão. Você chega no aeroporto de Hannover e pega o trem que leva precisos 67 minutos, contando os 11 de baldeação na Hannover Hauptbanhof, até a Hildesheim Hauptbanhof. A cidade tem 100 mil habitantes, já começou comemorações do 1200º aniversário (chupa, História do Brasil) e eu nunca tinha ouvido falar de sua existência.

A Universität Hildesheim, especificamente o Campus Bühler, fica no meio de um bairro residencial extra-arborizado, de ruas curvas com prediozinhos uniformes de três andares. Foi lá que aconteceu o Congresso Übersetzungen und Adaptionen von Comics, ou Tradução e Adaptação de Quadrinhos, entre 31 de outubro e 2 de novembro. Diziam os pesquisadores mais experientes que era o primeiro congresso do mundo especificamente com este tema. “O primeiro do universo!”, brincou a organizadora, Dra. Nathalie Mälzer.

Foi relativamente pequeno, com menos de 30 trabalhos. Fora eu e uma professora que veio de Penang, todos os congressistas eram de universidades europeias. Aceitava-se trabalhos em inglês, mas a grande maioria apresentava em alemão. Para quem só entende eins, zwei, drei  e apfelstrudel (meu caso), havia intérpretes que faziam chuchotage — interpretação sussurrada. Às vezes era só eu, às vezes era um grupinho de dois ou três em volta da intérprete, de ouvido voltado para ela e olhos no palestrante. O resto da sala, germano-parlante, nos olhava estranho. Numa das apresentações, uma senhora idosa veio reclamar que a intérprete estava sussurrando muito alto.

* * *

Mais tarde descobri que a reclamona também ia fazer uma apresentação: era Gudrun Penndorf, tradutora de Asterix e meio que sumidade da tradução (de quadrinhos) alemã. O nome dela só era menos citado que o de Erika Fuchs (1906-2005), tradutora e editora que passou décadas vertendo Pato Donald (em alemão: Donald Duck), carregando o gibi de referências literárias germânicas e criando neologismos que entraram no dicionário.

Apesar de arisca com minha chuchoteuse, Penndorf falou durante mais de uma hora e o público ria, ria muito. Eu não entendia nada. Nas apresentações que tratavam de tradução para o alemão, de soluções específicas que os tradutores nacionais encontraram ao verter do inglês, do francês, do italiano ou outros idiomas, as intérpretes se retiravam porque, de fato, seria quase intraduzível para quem não entende alemão. Mas o povo riu e bateu nas mesas.

(Tradição das universidades alemãs: ao invés de bater palmas, feche o punho e bata na mesa.)

* * *

Grande parte dos trabalhos tendia mais para Adaptação e menos para Tradução. As adaptações de literatura para os quadrinhos, por exemplo: adoravam citar uma HQ clássica do Mickey (em alemão: Micky Maus) que seguia A Divina Comédia com fidelidade incrível.

Em uma das apresentações, o pesquisador aventou que Joubert, o narrador do Gemma Bovery de Posy Simmonds — adaptação bastante livre do Madame Bovary de Flaubert — seria Simmonds criando uma perspectiva em abismo crítica ao ter ela, autora, trazendo um personagem masculino para narrar a vida de uma mulher, assim como a perspectiva do Flaubert homem sobre sua Bovary original. Duas meninas na minha frente se olharam com cara de tacho e, por baixo da mesa, fizeram o gesto universal da punheta filosófica.

 * * *

Descobri que a tradução alemã de Jimmy Corrigan (em alemão: Jimmy Corrigan) levou uns seis anos basicamente porque eles não tinham uma Lilian Mitsunaga. Descobri que existe uma tradutora em Berlim ligada no quadrinho brasileiro tentando vender os álbuns daqui para as editoras de lá. E descobri que o principal argumento da minha apresentação já tinha sido mais ou menos tratado por outro pesquisador, em livro, uns dez anos atrás.

Aliás, ouvi isso do próprio autor, Klaus Kaindl, que me informou do fato com a devida educação austríaca. Tentei virar o jogo dizendo que estava procurando orientador para meu sanduíche, e que ele era um dos mais indicados…

— Sim, mas eu estou em Viena, meu idioma é o alemão e você não fala alemão…

— Bom, então… eu aprendo alemão?

Ele riu.

— Érico, acaba teu doutorado. Depois você aprende alemão.

* * *

Agradecimentos ao Augusto Paim, hervorragend tradutor de HQs alemãs que estava lá em Hildesheim para me ajudar a decifrar cardápios, pegar ônibus e fugir das armadilhas de turista.

 * * * * *

Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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O projeto como pólen: sonhamos, portanto existimos

Por Ana Maria Bahiana

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Uma das imagens do documentário Jodorowsky’s Dune. 

Para onde vão os projetos que nunca são feitos? Que tipo de limbo entre-mundos acolhe essas ideias tantas vezes nutridas por intenso amor e  gestadas com o ardor das grandes paixões e que, por algum jogo de dados da Fortuna, jamais se manifestam plenamente?

Existe a Gaveta, a proverbial e eterna Gaveta. Todos nós temos a Gaveta, nem que ela seja uma caixa, uma pasta, uma cesta. Seria a Gaveta a estação terminal, então?

Eu acho que não. Acho que, como tudo na Natureza, toda energia se transforma em alguma outra coisa.

Vendo afinal o excelente documentário Jodorowsky’s Dune minhas suspeitas foram confirmadas.

Um pouco de pano de fundo: autor, ator, mímico, artista plástico, dramaturgo, cineasta, Alejandro Jodorowsky nasceu no Chile em  1929, numa família de judeus da Ucrânia, e foi um dos luminares da contracultura graças, principalmente, a dois filmes: o western psicodélico El Topo, de 1970, e a acid-trip filosófica-esotérica A Montanha Sagrada, de 1973. Dizer que Jodorowsky usa livre-associação, com um pé em Jung e outro no xamanismo-budismo, é empregar uma definição extremamente restrita. Melhor usar as próprias palavras dele, logo no começo do documentário: “Eu sempre quis criar a sensação de estar viajando de ácido. Não que a pessoa precise viajar de ácido para ver meus filmes, claro. Eu queria criar a sensação de viajar de ácido sem precisar tomar ácido”.

Em 1974 um grupo de produtores franceses adquiriram os direitos de Duna, o épico de ficção científica escrito por Frank Herbert. Publicado em 1965, Duna rapidamente tornou-se uma espécie de O Senhor dos Anéis da sci-fi, a versão interestelar de uma busca metafísica, um Flash Gordon guiado pelo Don Juan de Carlos Castañeda. Encantados com o sucesso de A Montanha Sagrada, que havia se tornado um arrasa quarteirão entre os midnight movies, os produtores ofereceram o projeto a Jodorowsky.

E é aí que a verdadeira saga começa.

Possuído pelo espírito “messiânico” de Duna, Jodorowski começou a arregimentar a equipe que realizaria sua visão. Em pouco tempo, havia ao seu redor um dos grupos mais talentosos e interessantes do final do século 20: Jean “Moebius” Giraud realizou os storyboards, efetivamente colocando no papel, tomada a tomada, a versão jodorowskiana de Duna; o artista plástico suíço H.R. Giger, que jamais havia trabalhado com cinema, ficou encarregado de conceber as naves espaciais, as vestimentas e os prédios; Chris Foss, artista plástico e capista das maiores obras de ficção científica, criou os esboços das paisagens e planetas; Dan O’Bannon, que até então fizera apenas um curta com John Carpenter, seria o supervisor de efeitos especiais; a trilha musical foi entregue ao Pink Floyd e ao grupo francês Magma (cujos integrantes também foram escalados para interpretar os vilões de Duna). O elenco, aliás, incluía, além do Magma, Salvador Dalí, Orson Welles, Mick Jagger e David Carradine.

As histórias de como Jodorowsky chegou a essa equipe e esse elenco são contadas em deliciosos detalhes no documentário, mas para mim o mais importante é o que vem logo depois: o terceiro ato do projeto, quando, num arroubo de otimismo, Jodorwosky e seus produtores tomam o rumo de Los Angeles armados de cópias do volumoso livro contendo as minuciosas storyboards de Moebius, certos de que encontrariam em Hollywood o financiamento que necessitavam.

Claro que não aconteceu coisa alguma.

O mais doloroso e o mais fantástico da visão de Jodorowsky para Duna é que ele estava absolutamente certo. Certo demais: o tempo para que ela fosse executada ainda não tinha chegado — um problema comum a visionários e místicos.

O que aconteceu com as vastas ideias que Jodorowsky e sua equipe acumularam durante o desenvolvimento do projeto confirma minha intuição de que projetos são essencialmente energia, pólen, sementes voadoras, capazes de renascer de muitos modos diferentes. A partir de Duna, Dan O’ Bannon e H.R.Giger escreveram e idealizaram visualmente Alien, o Oitavo Passageiro, de Ridley Scott. Um sem-número de ideias e conceitos de Moebius e Foss aparecem, inequivocamente, em personagens e cenas de Star Wars, Indiana Jones, Matrix e praticamente todos os filmes de sci-fi e super-herói a partir do final dos anos 1970. Jodorowsky e Moebius colaboraram numa série de graphic novels baseados em seus storyboards — o ciclo L’Incal — mas na verdade a mais ampla influência de sua obra pioneira e abortada está em praticamente todo o imaginário cinematográfico de fantasia: a confluência de orgânico e mecânico, a dimensão metafísica do espaço exterior, as possibilidades de percepções paralelas.

É uma constatação que assusta mas também conforta. Francis Ford Coppola me disse, certa vez, que todo criador é um pouco mago ou bruxa: ao focar sua energia, durante um longo tempo, sobre um conjunto de ideias, ele ou ela acaba contribuindo para que as ideias se manifestem no plano material, de uma forma ou de outra. Talvez não do modo como o criador planejou, mas esse é o risco da dança da criação: no final das contas, somos o que sonhamos.

* * * * *

Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Desapontamentos IV

Por Joca Reiners Terron

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1.
É impossível secar time alheio em plena temporada de chuva.

2.
Dica de escrita: uma volta no quarteirão seguida de dose de uísque resolve qualquer impasse narrativo. E o bom é que pintam vários impasses por dia.

3.
Durma-se com um silêncio desses.

4.
Para o míope, tomar banho e não lavar os óculos é o mesmo que continuar um pouco sujo.

5.
Quando criança eu achava que o cão pequinês de minha avó tinha esse nome porque era pequeno, e não porque sua raça vinha de Pequim.

6.
Para chamar o meu nome, minha mulher — assim como os esquimós ao gelo e os gatos à fome —, inventou cinquenta diferentes formas de cicios e sussurros.

7.
É muito ingênuo aquele que não acredita que os japoneses já inventaram o frango com doze corações e seis coxas.

8.
É complicado se autopremiar com um automóvel por uma vitória pessoal, pois automóveis vêm com defeito, quebram ou são roubados, enquanto a verdadeira vitória nunca tem defeito, quebra ou pode ser roubada.

9.
Tem noites de insônia em que me sinto um atum no convés de um pesqueiro japonês forrado de colchões para não me deixar hematomas.

10.
Lição de Política Atualizada: Esquerda e Direita se fundiram na Ambidestra.

11.
É impossível ler nas entrelinhas do Tuíter, no máximo dá pra ler nas entreletras.

12.
Todo aforismo que se leva a sério tem cheirinho de epitáfio. Como este aqui.

13.
Qual criança brasileira não temeu que um dia Zumbi dos Palmares lhe aparecesse e devorasse o cérebro?

14.
Um dicionário que cai da estante em nossa cabeça sempre nos deixa sem palavras.

15.
Onde foi parar a balconista? Não a moça ou a função, mas a palavra. Detrás do balcão é que não está. Terá fugido com o guarda-chaves?

16.
A cada encontro no banheiro com as exigências da fisiologia, dois ou três capítulos do Brás Cubas: esse é o ritmo do sábio.

17.
A grossura da unha do dedão do pé de um velho é a medida exata de sua teimosia, justamente a necessária para aparar a unha.

18.
Desafio contemporâneo: não se conformar ao Daltontrevisanismo semioculto e almejar a impossível Btravenidade em tempos de exposição total.

19.
Senhora do prédio me conta no elevador que passeando no bairro levou uma queda e se machucou. Quando levantou, foi assaltada. Que acontece?

20.
O fato é que Giordano Bruno está mais para prato grelhado do que para nome de dono de restaurante.

21.
Minha amiga Regina está de seis meses e trabalha doze horas por dia como garçonete. Seu primogênito acha que o irmão caçula já vai nascer cansado.

22.
Preferia o Tuíter ao Instagrã, pois sempre acreditou que cento e quarenta caracteres falam mais do que mil imagens.

23.
O toca-cd teve uma vida útil tão curta que não houve nem mesmo tempo para se criar um nome afetuoso para ele, como vitrola ou radiola.

24.
Só o cérebro consome quarenta por cento da energia do corpo. E ainda dizem que não custa nada sonhar.

25.
Piada ouvida em Belém: o prefeito ia receber uma comissão da OEA e tascou essa: “Como assim, ó é a? Pois lá na minha terra ó é ó e a é a…” E assim segue o baile da política.

26.
Há um grupo de cantores de ópera no hotel. Falam e se comportam como se o saguão fosse um palco. Batem palmas para tudo. As sopranos lembram focas. Os tenores, leões marinhos. Eu sou a sardinha espectadora.

27.
Aquele que hesita em passar adiante a nota de dez reais estalante de tão nova no fundo não acredita na existência de outras iguais.

28.
Não é no mínimo curioso criticar a acefalia política de São Paulo, uma cidade cujo padroeiro foi decapitado?

29.
Um homem é devorado por seus porcos nos EUA e todos estranham, menos os porcos. Estes só estranham quando são devorados pelo homem.

30.
Não é irônico que os grandes revisores ortográficos sempre se chamem Huendel ou Uílson?

* * *

Leia também os Desapontamentos I, II e III.

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Criaturas

Por Paulo Scott

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1.

Por iniciativa de dois jovens editores ingleses que publicaram no Reino Unido um dos meus romances, viajei para a Inglaterra em meados de agosto e retornei na segunda semana de outubro. Não pretendo relatar aqui a viagem e os seus cinquenta e três dias, o que aconteceu e o que não aconteceu, quero apenas registrar uma sensação específica, intimidante, que me acometeu lá pelo início da sexta semana, quando me dei conta — talvez pela significativa quantidade de horas e dias em que fiquei obliterado pelo ócio dentro de quartos de hotéis ou das residências que me acolheram, com tempo de sobra para pensar — da possibilidade de algo que escrevi se transformar, ao menos nos microcosmos dos leitores tocados pelo que escrevi, em algo maior e mais resistente do que eu.

Não importa o quão calorosas sejam as recepções nas embaixadas, nas universidades, nas livrarias, nos festivais literários, nos olhos dos leitores que conseguiram atravessar a história que você inventou, mais cedo ou mais tarde, você acaba percebendo que eles, aquelas pessoas, estão ali na sua frente esperando um autógrafo única e exclusivamente por causa do livro, da relação que desenvolveram com o livro. Então onde fica o seu novo lugar? Você não sabe, sobretudo porque na sua cabeça você está num inevitável processo migratório, num leve desespero, em busca de outra história, de outra narrativa, diversa daquela que conduziu você a recepções em embaixadas, universidades, livrarias, festivais literários, podendo até se sentir irritado com aquelas pessoas falando das personagens do livro, questionando sobre personagens de um livro que, na verdade, já morreu dentro de você, dentro da sua “manipulação suprema”, dentro da resistência que é seguir em frente, e agora é outra coisa, algo que renasce longe do seu domínio (e nem serve para sua vaidade, porque você não é mais criança e aprendeu a controlar sua vaidade).

Alguém já me disse que uma leitura dessas é problema de autoestima, que o livro é seu (a “glória” é sua) e será seu para sempre, porque afinal, diabos, você o escreveu. Mas não é essa a sensação que eu tenho. Os livros já escritos e publicados, por mais que restem o carinho e a lembrança quase epidérmica da insanidade que esteve presente na criação, acabam em papéis de outro tempo, de outro espaço, são outros países, são territórios para os quais você talvez até possa migrar, mas sem conseguir se livrar da impressão de ser mais um estrangeiro.

Há certos cuidados que devem ser tomados quando se pretende entrar num país que não é o seu e não lhe dá privilégios. No país que não é o seu país, o funcionário da imigração sempre pode lhe surpreender com alguma pergunta a mais, com alguma exigência para a qual você não esteja preparado (na internet, existem dúzias de páginas de dicas aconselhando como se portar diante do guichê de imigração, como se vestir, como usar o cabelo, como apresentar o passaporte aberto na página em que estão foto e dados de identificação, como preencher o formulário e entregá-lo junto com o registro do seu voo de retorno, reserva do hotel e o cartão do seu seguro-viagem), com uma longa entrevista numa sala reservada ou com um rompante que pode acabar na recusa da sua entrada no país que não é o seu país.

Imagino que o desaparecimento da ilusão de familiaridade seja algo que deva ser aceito.

É possível que um livro escrito por você não te aceite mais. É possível que um livro escrito por você não permita que haja outros livros tão significativos como ele, tão importantes quanto ele, e — se considerada a criação, o processo de criação em andamento, na qual o outro livro ainda é você — não permita que você produza como o produziu e não permita até mesmo que você exista. Um livro que você escreveu pode se revelar um grande inimigo.

Penso naqueles cineastas que produziram um grande filme e passaram o resto da vida atormentados por esse filme, o grande filme, que resistiu ao tempo e resistiu a todos os trabalhos posteriores daqueles mesmos cineastas. Há muitos tipos de morte para um criador (para os criadores em geral), suponho que essa seja uma delas; mas sei que tudo isso é relativo.

Essa viagem de quase dois meses, iniciada na Inglaterra e depois estendida a outros países, me deixou menor, não por causa do livro que foi traduzido e lançado por lá (um livro que, de certa maneira, dentro de mim já está morto), mas por causa dos pensamentos, de pensamentos muito parecidos com os pensamentos que tive em dois mil e oito quando fiquei um mês na Austrália buscando elementos para contar a história de afeto entre Narelle e Anna. O distanciamento é um mentor implacável. Para longe da história dos livros inimigos, nos pensamentos dessa viagem feita há pouco estavam os adensamentos de algumas escolhas importantes — preciso admitir — nem sempre tão conscientes, tão bem calculadas, e também a constatação de que já há o que avaliar, apesar da crescente consciência da passagem. A certa altura pareceu alagamento, sem delicadeza por certo a claridade, das dúvidas, em boa sorte, avizinhadas contra o nome, contra o capricho do gesso. Algo de novo para ser desconsiderado, com delicadeza, se o plano for mesmo o de seguir, de lidar com o eterno presente.

2.

No momento em que comecei a revisar o texto acima para mandar para o blog da editora, fiquei sabendo da morte do poeta Manoel de Barros.

Quando, em mil novecentos e noventa e um, ganhei de presente o seu Gramática expositiva do chão — poesia quase toda (Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira S.A., 1990), ele ainda não era o poeta festejado, aclamado, que acabou se tornando anos depois. Esse livro e os poemas desse livro foram de uma importância tremenda para mim. No recente Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo — e isso eu não tinha mencionado em lugar algum — há um critério de seleção dos poemas produzidos ao longo de oito anos que parte da intenção e da necessidade de diálogo com certa tradição poética e também com a produção mais recente. O diálogo (e sei que isso não será exatamente óbvio para os leitores) se estabelece em torno de alguns poemas fundamentais para minha condição de leitor de poesia, nove ou dez, possivelmente onze, como, por exemplo, o “Poema em linha reta”, do Fernando Pessoa, que na minha adolescência se tornou uma das igrejas, embora eu siga na luta para não me conformar a igrejas.

Dentre os poemas com os quais pretendi dialogar está um do Manoel de Barros; o poema se chama “O Palhaço”. Peço licença para reproduzir seus quatro versos aqui:

 

O Palhaço

Gostava só de lixeiros crianças e árvores

Arrastava na rua por uma corda uma estrela suja.

Vinha pingando oceano!

Todo estragado de azul

 

Esse poema, tão simples e despretensioso, se mantém na minha cabeça, na minha maneira de ler poesia, de me encantar e desconfiar da poesia. Essa é a magia.

Até uma próxima, Manoel; obrigado por tudo.

* * * * *

Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro(Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em 2013, e em 2014 lançou o livro de poemas Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.

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Em tradução (Graça Infinita)

Por Caetano Galindo

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Estamos a poucos dias. Mais duas semaninhas e o livro deve estar nas livrarias.

Estava, agora há pouco, dando uma entrevista sobre ele. Ok, lançamento de certa visibilidade sempre gera esse tipo de coisa. Na boa. A vingança do fofinho: a “celebridade” do anônimo: a voz do tradutor…

Mas, hmmmm, essa entrevista em particular era em inglês, feita pra sair lá fora. Pois uopa e iepa, ai peralá!

O que é que os gringos podem querer saber de uma tradução brasileira de um romance deles? E de um romance de quase vinte anos de idade?

No fundo é disso que eu queria falar aqui, hoje. Porque nem todo livro gera esse tipo de atenção, esse tipo de (quase) devoção de parte do público leitor (do original, nesse caso). Os leitores de Wallace quase formam um clube tão unido quanto, sei lá, o dos leitores de Harry Potter!

E eu sou um deles, não me estranhe… (um dos leitores de Wallace, que formam um clube quase tão unido quanto, sei lá, o dos leitores de Harry Potter, bem entendido, não um dos leitores de Harry Potter…) Mas esse tipo de amor, de ligação violenta com um romance de “alta literatura” não é uma coisa que a gente vê acontecendo todo dia.

Em grande medida, isso tem a ver com a própria inacessibilidade do livro. Não é qualquer leitor que fica sabendo dele, você precisa ter os amigos certos, ler os jornais ou blogues certos. Não é qualquer leitor que dá conta das mais de mil páginas às vezes pesadas do livro…. (Não se engane, o livro não é um Ulysses de complexidade e, página por página, é provavelmente mais divertido do que qualquer coisa que você já tenha lido, mas ele simplesmente não subestima a tua inteligência, e não se encolhe diante de temas doloridos, doídos, dolorosos… É um livro grande, de gente grande.)

E aí quem chegou ao fim sempre exulta quando encontra outros leitores.

E é por isso que os americanos podem estar interessados na gente (e, creio eu, morrendo de inveja da nossa capa! [não posso dar nomes, mas estou em contato com outros tradutores do livro, pra outras línguas, e essa inveja é generalizada!]). Eles estão vendo o seu pequeno clube aumentar. E querem saber de vocês.

De nossa parte (sei que falo por mim e pelo André, e imagino que fale por todo o pessoal envolvido com o projeto), essa é precisamente a razão que faz o lançamento de Graça Infinita ser um evento pessoalmente até mais “pesado” que o do Ulysses.

Joyce tem um século da mais sólida reputação. Mesmo que a minha tradução fosse uma merda, ele ia sobreviver. Di-rei-ti-nho.

Mas Wallace ainda está sendo gradualmente apresentado ao público brasileiro.

Trata-se de um escritor que não faz feio na comparação com o autor do Ulysses e este Graça Infinita é o seu maior cartão de visitas. E eu estou morrendo de curiosidade pra saber se vocês vão achar que eu fiz (e a gente fez) um bom serviço nisso de trazer, se tudo der certo, alguns milhares de leitores novos pro clube dos que tiveram sua vida alterada pela Graça Infinita.

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de Tom Stoppard, James Joyce e Thomas Pynchon, entre outros. Atualmente está revisando a tradução de Graça infinita, que tem lançamento previsto para 2014. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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