Colunistas

Em tradução (recomendações)

Por Caetano Galindo

4295793608_5453bf3151

Pois não é que numa das últimas colunas do ano passado uma leitora, Cíntia G., meio que me botou na parede? Da melhor maneira possível, reconheçamos (neguinho LÊ essas colunas!!)…

Emparedados pois sejades todos vós!

O negócio é que no texto eu mencionava que Graça infinita originalmente era um livro daqueles de que, na época pelo menos, se você não tivesse os amigos certos e tal, arriscava nem ficar sabendo. E ela me perguntou se eu tinha outros desses na manga.

Quer saber? Claro que sim.

Sempre lembro do personagem do Nanni Moretti (em Aprile, me informa o brodinho, que é quem tem memória cá na dupla…) que, ao descobrir as maravilhas que a anestesia peridural fez pela sua mulher na hora do parto, sai colando cartazes pelos corredores do hospital porque, pra ele, todos precisam saber!

Acho que todo leitor tem lá seus livros peridurais. Como é que esse mundão de meu deus não lê mais Ali Smith! É uma das coisas que eu mais me pergunto… E Lydia Davis! Putz! E Lydia Davis!!!

Delas não se trata nem de livros. São as obras. São coisas monstruosas!

Agora, o primeiro livro que eu li e fiquei com a sensação de ter sido injustiçado porque ninguém me avisou antes (tipo eu descobri a peridural depois de dúzias de partos infelizes) foi The Recognitions, de William Gaddis, nunca traduzido por aqui (Hel-lo-ooo). É um livro atordoante. Uma pancada, uma coisa incrível que possibilitou muito do Pynchon e muito do Wallace.

E esse Henry Green que o Britto me recomendou ainda mês passado. Que PUTA escritor diferente, sô!

E o P.G.Wodehouse, delícia das delícias!

E Wittgenstein’s Mistress, do David Markson, que eu fui conhecer justamente com o Wallace dizendo que era desmerecidamente ignorado?

E o megamestre que era o Wilkie Collins, que normalmente é só citado como “o cupincha do Dickens”… The Woman in White é brilhante!

E essa Kate Atkinson (Life After Life) que eu li ainda semana passada e que a Celina Portocarrero me diz que deu mais trabalho traduzir do que Proust! Eita livro diferente, sô… fico enternecidinho e empolgado só de pensar no bicho…

E já que estamos no assunto (filme pode?), como é que TODO MUNDO não conhece a sequencinha Caro Diario e Aprile: dois dos momentos mais encantadores do cinema.

Mas só livro de língua inglesa, Caetano. Não. Não necessariamente, né?

E Os Ratos, do seu Dyonelio Machado? E os romances do Diogo Mainardi, que agora que todo mundo rotulou como capetossauro da direita acha que não vale um merréis de mel coado, mas que produziu pelo menos dois grandes romances nos anos 90, com O polígono das secas e Contra o Brasil.

E o Trevisan, inteiro gênio, que vai aqui representando todos os contistas do mundo, eternos sub-lidos, eternos desconsiderados…

Enfim… lógico que eu vou mandar esse texto pra Taize e vou imediatamente começar a lembrar de tudo de fundamental que eu esqueci. Lógico que isso é mais ilustração, Cíntia, que enumeração definitiva. É um exemplo. Desculpa.

Mas obrigado por perguntar. E, please, cartas para a redação!

(Ah! e a Emily Dickinson! Hmmmmm! E o G.M.Hopkins!)

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
Twitter

A literatura universal

Por Juan Pablo Villalobos

13699156885_6c100eb498

Eu ia escrever uma crônica magnífica para vocês para começar o ano: era um dos meus propósitos para este 2015. Ia ser um texto sobre a vocação de escritor, sobre como foi que eu virei escritor, e ia falar de minha adolescência numa cidadezinha do México, uma cidadezinha do interior bem parecida com qualquer cidadezinha do interior de São Paulo, vamos dizer, ou do Paraná, ou de Minas Gerais até.

Na minha crônica, quer dizer, na minha adolescência, havia um professor de espanhol chamado Juan Luján, que incluía, dentro do programa de espanhol do segundo ano da “secundária” (equivalente à oitava série no Brasil), algumas aulas de “Literatura Universal”. Sempre gostei do fato de os humanos usarem o adjetivo “universal” sem nenhuma vergonha, não porque achasse que os terrícolas eram os únicos seres inteligentes do universo (e olha lá), se não porque eu acreditava que, no caso da literatura, isso significava que a gente ia agregar a literatura de outros planetas assim que os extraterrestres chegarem à Terra e trouxerem os romances e poemas deles. Se algum dos leitores desta crônica, que ia a ser magnífica, não acredita na existência de vida alienígena, com certeza é porque não cresceu numa cidadezinha do interior de Jalisco, da Bahia ou de Tocantins até.

O método de ensino de Literatura Universal do professor Juan Luján era verdadeiramente estapafúrdio. Consistia na pronúncia, em voz tonante, de movimentos literários e autores. Romantismo! Realismo! Naturalismo! Vitor Hugo! Goethe! Balzac! Flaubert! Dickens! Zola! Etc! Ele ditava e a gente escrevia. Listas. Ora, ler literatura a gente não lia, a gente só ficava na pronúncia. Tolstoi! Gogol! Logo, na hora da prova as perguntas eram: 1) Mencione três movimentos literários europeus do século XIX; 2) Cite três autores realistas; 3) Etc. Aliás, outro dos meus propósitos para o 2015 era escrever a palavra “estapafúrdio” numa crônica magnífica, e até engraçada, que ia ser esta.

O que eu mais gostava das aulas de Literatura Universal era quando o professor Juan Luján pronunciava o nome do Dostoiévski. Ele dizia, com voz tonante: Fiódor Mikhailovich Dostoiévski! Daí começava um rumor na aula. O quê? Como? E o professor Juan Luján tinha que ir na lousa para escrever o nome. A gente copiava o nome. Demorava, no mínimo, cinco minutos (tinha um pessoal lá que vou te contar). Enquanto os mais lerdos ficavam abismados na escrita da “k” e da “h” de Mikhailovich e se negavam a admitir que daí saísse o som da “j” em espanhol, eu repetia o nome do escritor russo dentro de minha cabeça. O sobrenome Dostoiévski criava a mesma fascinação que a possível existência dos extraterrestres. No final das contas, as duas coisas eram muito distantes e tinham o poder de me tirar daquela cidadezinha e me transportar a uma realidade mais excitante, ou pelo menos bem menos tediosa. Eu não tinha sido um grande leitor durante a infância, a literatura para mim não significava nada especial e ainda ia demorar alguns anos até eu virar um leitor compulsivo e chegar a ler Crime e Castigo (e ainda alguns anos mais até eu ter um gosto literário definido e saber que na minha lista de escritores favoritos não estaria Dostoiévski, e sim Gogol e Bulgákov).

Na crônica que eu ia escrever, e que ia ser magnífica, eu pensava descrever a escola (uma escola católica), a classe (cheirava a peido permanentemente), ia fazer uma lista de apelidos dos colegas (“El Huevo”, “El Mascafierros”, “Tabú”, “Porky”), dos professores (“El Espagueti”, “El Peluquín”, “El Mesié”), e ia até ser indiscreto e contar uma fofoca sobre o futuro do professor de Literatura Universal Juan Luján. Sobre o futuro, quer dizer, desde a perspectiva daqueles anos da oitava série, o que hoje é um passado bem distante (mais de 25 anos!). Porque ele ia acabar casando com uma das minhas coleguinhas, a mais bonita, aliás, assim que ela fez 18 anos (Romantismo), e iam ter um filho (Naturalismo), e logo iam se separar (Realismo).

Até aqui a ideia para minha crônica magnífica estava sob controle. Mas então havia um problema: eu não sei explicar que é que tem a ver a pronúncia das listas de escritores da Literatura Universal com a minha vocação de escritor. Sei que isso explica o fato de eu ter virado escritor, mas não sei como. Eu poderia arriscar que eram um tipo de ladainha, que aqueles nomes eram um chamado, mas isso tem um cheiro a religião que hoje eu não posso aceitar (traumas daquela escola e daquela cidadezinha que me fizeram agnóstico). Ou poderia dizer, como já disse, de fato, que esses nomes representavam outra vida possível, longe daquela cidadezinha e daquela escola, outra vida onde eu seria outra pessoa e não esse carinha careta, ingênuo, cheio de medos e preconceitos. Sei lá. A verdade é que não sei explicar e assim é impossível escrever uma crônica magnífica. Os escritores magníficos tem explicações magníficas sobre a vocação de escrever. Histórias de doenças na infância que os recluíram e os condenaram a ler um livro após outro. Histórias de traumas, violência ou injustiças contra as quais a literatura virou um arma de rebeldia. Histórias de famílias de artistas e intelectuais onde ser encanador ou engenheiro é considerado uma traição à linhagem. A minha história, porém, só tem o inexplicável efeito premonitório das listas de escritores da Literatura Universal.

Fica, ainda, uma pergunta mais intrigante: por que eu não virei ufologista em vez de escritor?

Os extraterrestres, aliás, que eu saiba, não chegaram à Terra até hoje e a Literatura Universal continua a ser, por enquanto, só a nossa literatura.

* * * * *

Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e morou durante uns anos no Brasil. É autor de Festa no covil Se vivêssemos em um lugar normal, publicados pela Companhia das Letras e traduzidos em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.

A Sony, o inimigo invisível e as entranhas da vaca sagrada

Por Ana Maria Bahiana

a entrevista

Cartaz de A entrevista, que teve sua estreia cancelada esta semana depois de ameaças. 

Prólogo: numa madrugada fria e chuvosa em dezembro de 2012, eu estava com um pequeno mas brilhante time de repórteres e gente de TI numa sala nada charmosa do hotel Beverly Hilton, em Beverly Hills. Depois de vários testes e ensaios, estávamos pondo no ar o anúncio dos indicados ao Globo de Ouro de 2013.

Era um momento especial, a primeira vez na história da Associação de Correspondentes Estrangeiros em Hollywood que o anúncio era feito simultaneamente no mundo todo, pela internet. Tudo começou bem, sinal forte. Na marca de um minuto e 30 segundos, o streaming congelou. Dez segundos depois, o sinal desapareceu.

Estávamos sendo atacados por uma rede de inimigos invisíveis e de motivação misteriosa. Nosso webmaster e os técnicos da Amazon responsáveis por nossa rede rapidamente localizaram a origem do ataque: uma cidade dos Territórios Palestinos. Em minutos, outros pontos se ligaram ao primeiro hack: China, Tailândia, Amsterdã e, finalmente, Londres.

O ataque durou quatro horas e inutilizou todas as nossas plataformas. Até hoje não sabemos quem o orquestrou ou por quê. Imagino que tenha sido como o Everest: simplesmente porque estávamos lá.

Quando, na manhã de 24 de novembro deste ano, começaram a circular as notícias de um hack maciço na rede dos estúdios da Sony, pensei imediatamente em duas coisas: no meu contato imediato (e não-provocado) com os inimigos ocultos, dois anos atrás; e nos amigos que tenho na Sony, e como suas vidas seriam afetadas.

Um mês depois, o ataque à Sony fez muito mais do que simplesmente (e nunca é “simplesmente”…) inutilizar a rede de um dos maiores estúdios da indústria audiovisual e roubar TODOS os seus arquivos. No momento em que escrevo isto, o debate, aqui, está focado num ponto sagrado da visão norte-americana do mundo: a liberdade de expressão. O modo como uma nação governada por uma ditadura pode, à distância e sem disparar um tiro, ameaçar, limitar e finalmente impedir completamente o compartilhamento de uma forma de expressão — no caso, a comédia A Entrevista, que, com sua história em torno do assassinato de Kim Jon-Un, líder supremo da Coréia do Norte, tornou-se o pivô do ataque.

Mas vejo tantas, tantas outras implicações nesse ataque. Na escala micro da vida na bolha de Hollywood, o hack trouxe à tona uma enorme nuvem tóxica de fofocas e disse-me-disse, para delícia dos blogueiros. Muito mais interessante, contudo, foi a revelação dos processos internos do fazer cinema em larga escala nos dias de hoje: de onde vem o dinheiro (de fundos internacionais de investimento, principalmente na Ásia), para onde vai o dinheiro (para altos executivos e estrelas do sexo masculino, prioritariamente), como as decisões são tomadas (por pressões e alianças pessoais, quase sempre). Ao explodir as pastas de e-mail da Sony, os hackers fizeram um pouco como os oráculos da Grécia antiga, colocando as tripas da vaca sagrada para todo mundo ver presente e futuro.

As implicações macro são sinistras, e não apenas pela questão da liberdade de expressão (que já é enorme). Um ataque a um estúdio do porte da Sony, com seus milhares de funcionários, prestadores de serviços e fornecedores, espirala rapidamente do impacto na vida pessoal (números de documentos, endereços domiciliares, dados da família, contas bancárias) para a esfera da vida financeira e econômica da cidade, do estado e do país. Produções de cinema e TV estão paradas porque o estúdio perdeu a capacidade de gerar pagamentos (e isso envolve não apenas as pessoas “da indústria” como fornecedores de eletricidade, transporte, comunicação, alimentação, vestuário…). Números de social security — o CPF norte-americano — terão que ser substituídos, processo demorado e complicado, da esfera federal. Vários grupos de funcionários e seus sindicatos estão armando processos contra o estúdio por perdas e danos.

E, é claro, ficou óbvia a brecha de segurança não apenas na Sony como em toda a rede norte-americana. A Sony tinha, sabidamente, um dos sistemas mais fracos (senão o mais fraco) entre todos os grandes estúdios. Em 2011 a rede de games da PlayStation foi hackeada. Na investigação que se seguiu, ficou claro que o sistema da Sony estava vazando dados diariamente, por vários pontos fracos. Passou-se uma fita adesiva virtual para tapar os buracos, o CEO Kazuo Hirai disse que os reparos eram “satisfatórios” e pronto.

Neste momento fala-se na criação de uma comissão do Senado para levantar as brechas na macro-estrutura cibernética de todo o país. Os Estados Unidos já tiveram medo dos mísseis soviéticos e das sapatadas de Kruchev. Agora, o inimigo não tem rosto, nem nome, nem armas visíveis, e pode, num par de semanas, ditar o que pode ou não ser criado e compartilhado.

As entranhas foram expostas, e o oráculo é sinistro.

* * * * *

Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

RL

Por Érico Assis

rl

Capa de RL

as piradices que te ocorrem quando você vai desenhar a cena em que sua filha morre.

a- não usar a palavra “morrer”. deixe em branco e depois você cola as letras de outra parte da página

2- desenhe só alguns quadros — o quadro em que você toca nas costas dela para acordar, de manhã —  desenhe em outra folha e depois você cola. se você desenhar na prancha mesmo pode ser que aconteça

3- trabalhe em camadas e torça que depois elas fechem

4- faça tudo que for possível para não ser literal. faça tudo ter mais de um sentido. se tiver que ficar um rabisco só é porque você está no caminho certo. porque aí de repente sempre dá pra voltar atrás

5-deixar o lápis no arquivo do photoshop. Se precisar…

* * *

Tom Hart e Leela Corman são um casal de quadrinistas. Ele apareceu na cena independente dos EUA no início dos anos 1990 e ficou conhecido principalmente pelo personagem Hutch Owen. É um quadrinista para quadrinistas — Craig Thompson, de Retalhos e Habibi, é grande fã —  e durante alguns anos foi professor de quadrinhos em Nova York. Corman, que se identifica “ilustradora, cartunista e dançarina estilo Oriente Médio”, lançou uma graphic novel bem comentada em 2012, Unterzakhn, sobre garotas judias crescendo na Nova York de cem anos atrás. Seus trabalhos atuais tendem para o documental: a história da dança do ventre, o Egito pós-revolução, músicos viajantes na Europa medieval.

Hart e Corman estavam morando em Nova York, e cansando de Nova York, quando a economia mundial veio abaixo. Em meio aos planos de mudar para a Flórida, onde haviam se conhecido, tiveram uma filha: Rosalie Lightning. O primeiro nome veio de uma música de Brian Eno. “Lightning”, relâmpago, porque ela era filha de quadrinistas.

Eles mudaram-se para a Flórida. Estavam tentando vender o apartamento em Nova York, mas nada dava certo. O dinheiro estava curto. O carro deles pifou. Estavam com trabalho atrasado. Tentavam distrair Rosalie com a nova casa, a nova vizinhança, os novos brinquedos. Enfim: vida, como é pra quase todo mundo.

Só que, um dia, Rosalie não acordou.

* * *

Não sabemos por que escolheram essa vida pra gente, e com certeza nem sei se essas são as palavras que se usa para quem somos e o que fazemos. Tem muita coisa que não sabemos.

* * *

Tenho uma filha que está com três anos. Quando a Olivia tinha um ano, talvez antes, doutrinei ela a gostar de Meu Amigo Totoro. Antes de falar direito, a Olivia imitava os personagens levantando os braços naquela cena em que eles fazem as sementinhas virarem uma árvore gigante.

RL, a HQ autobiográfica de Tom Hart, começa com esta cena. Rosalie Lightning adorava Totoro e também ficava levantando os braços junto a Totoro, Satsuki, Mei e os mini-Totorinhos. Ela também ficava juntando acorns, as bolotas que caem das árvores, lembrando do filme.

* * *

Faz poucos dias que perdemos Rosalie. Parece que uma bomba explodiu. “Explodiu no meu coração”, diz Leela.

Caminhamos.

Caminhamos em círculos no bairro do meu amigo Travis. Faz sol.

Assombramos as ruas.

Juntamos bolotas.

Nos escondemos. Choramos. Desabamos.

* * *

Não ouso, de forma alguma, comparar o que eu sinto ao “desabar” de Hart. Mas RL me amassa por dentro. Não é pela coincidência do Totoro, mas com certeza é por ter uma filha e, como todo pai (ou não?), viver nessa iminência de que a coisa mais importante que você ajudou a criar pode sumir de um dia para o outro. Ou melhor: viver tentando não pensar nessa iminência.

RL é uma das HQs mais lindas que já li. Mas fico pensando se ela tem algum significado para quem não tem filhos, ou quem não encara a paternidade como eu. Ou como eu leria RL se ela existisse quatro anos atrás, antes da Olivia. Nossas histórias preferidas têm algo a ver com a nossa experiência pessoal, não tenho dúvida. Mas será que isso não invalida toda crítica, no sentido de a crítica propor a outros formas de ler algo — como estou fazendo agora — que eu só consigo ler assim porque eu sou eu?

* * *

A gente diz “saudade dela” como outros casais se dizem “te amo”.

* * *

RL deve virar uma graphic novel nos próximos anos. Por enquanto, Hart publicou dois capítulos em versão digital, aqui. Descobri a história lendo o Best American Comics 2014. Depois tive algumas horas de insônia — que usei para me amassar um pouco mais lendo o Tumblr e o blog de Hart.

Ele e Corman tiveram uma segunda filha em 2013. Ela se chama Molly Rose.

* * * * *

Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
Site — Twitter — Outros Quadrinhos

A questão do controle

Por Joca Reiners Terron

tumblr_ku8z5g3izj1qzh19go1_500

Este foi o ano do centenário de William S. Burroughs (1914-1997), embora a efeméride pouco tenha repercutido no Brasil, na exata proporção em que sua obra mal é difundida e reconhecida entre nós. De sua vasta bibliografia, foram traduzidos apenas Junky, Almoço Nu, Cartas do Yage (com Allen Ginsberg), Cidades da Noite Escarlate, O Gato por Dentro e Os Hipopótamos foram Cozidos em seus Tanques (com Jack Kerouac).

Mas ninguém deve ser recriminado pelo lapso, pois a produção do escritor norte-americano é informe, no sentido de que lhe falta aparência reconhecível que satisfaça a maioria dos editores e o leitor tradicional (sempre tão afeitos ao familiar), resultando em leituras descontínuas e difíceis. Remetendo às cenas do Coiote com focinho chamuscado nos desenhos do Papa-Léguas, os livros de WSB são experimentos artísticos que invariavelmente explodem na cara do leitor, mas o fato de explodirem significa que o experimento deu certo, não o contrário.

Os textos de Burroughs não chegam a ser contos, nem poemas, e seus romances se estruturam (não creio que o termo se aplique ao resultado final) sobre uma alta frequência de justaposições. Almoço Nu, por exemplo, foi escrito em cartas enviadas a Ginsberg quando Burroughs vivia em Tânger nos anos 50, e batizado por Kerouac, suscitando anos depois em Martin Amis a crítica burlona de que WSB não passava de “um autor de bons trechos” (ou de boas passagens). De parágrafo a parágrafo de Almoço Nu, o leitor (como se o lesse sentado em um touro mecânico) quica dos antros de Interzona ao espaço sideral com uma mera quebra de linha.

(“Um escritor só consegue escrever sobre uma única coisa: aquilo que se apresenta aos seus sentidos no momento da escrita… Sou um instrumento de registro… Não tenho intenção alguma de impor ‘história’ ‘enredo’ ‘continuidade’… Na medida em que for bem-sucedido no registro Direto de certas áreas do processo psíquico, ainda posso desempenhar alguma função limitada… Não estou aqui para oferecer entretenimento…”, Almoço Nu, pg. 227, trad. Daniel Pellizzari.)

A paranoia junky de Burroughs e suas leituras de filosofia aliadas às ficções baratas que devorou em revistas pulp, mais dois anos de estudos de medicina em Viena o levaram a criar (assim que conseguiu se livrar da heroína) uma literatura de alta voltagem política e satírica: WSB compreendia a linguagem como um mecanismo de controle, desconfiava dela (Nietzsche embebido em morfina), e com sua técnica de colagem e montagem (o cut-up aprendido com Brion Gysin), para além de procurar desmontar essa bomba, inventou uma realidade.

(“Para viajar no espaço temos que deixar para trás o velho lixo verbal: Deus, pátria, família, amor, partido. Liberar-se por completo do condicionamento do passado é estar no espaço”, WSB.)

Daí que a forma literária em Burroughs se dá melhor com a miscelânea, pois seus romances se assemelham a panfletos anárquicos com ritmo e compasso ditados pelo combate ao inimigo (os fascistas, os comunistas, a direita, a esquerda, a mulher, o homem, o gay, o hétero, Deus e o Diabo, aliens e terráqueos, os viciados, os traficantes, a polícia, os bandidos). Algumas dessas melhores antologias (The Job, The Burroughs File, The Adding Machine) devem ser lidas como manuais de guerrilha escritos com “uma voz dura, zombeteira, inventiva, livre, cômica, grave, poética, inequivocamente americana, uma voz na qual é possível ouvir rádios transistorizados e filmes antigos e todos os clichês e todas as teorias conspiratórias e todos os jornais, um otimismo todo peculiar, o fracasso completo”, segundo Joan Didion.

(“Reparem no estado de coisas — investiguem do estado até o autor — Quem monopolizou o Amor, o Sexo e o Sonho? — Quem tirou o que é de vocês? — Alguma vez eles deram alguma coisa a troco de nada? — Não voltaram a se apossar daquilo que haviam dado a cada vez que foi possível e sempre o foi? — Ouçam: o Jardim das Delícias que lhes prometem é uma cloaca”, WSB.)

Grande admirador de Burroughs, J.G. Ballard afirmou que “ele via o mundo como uma perigosa conspiração dos grandes conglomerados de mídia, dos grandes establishments políticos de sua época, da medicina corrupta, na qual enxergava uma grande conspiração. Ele compreendia a maioria das profissões, a jurídica em particular, mas também a submissão da lei, tudo fazendo parte de uma enorme conspiração para nos manter sob controle, para nos manter para baixo. E os livros dele são uma tentativa de explodir com essa cômoda conspiração, de permitir que vejamos o que está na ponta do garfo.”

A propósito, um de seus ensaios mais provocadores se chama Control (está em The Job) e procura compreender como a antiga civilização Maia através de sacerdotes utilizou seu calendário como um eficaz método de manipulação das castas agrárias da sociedade utilizando-se de policiamento mínimo. Por meio da comparação da psicologia pavloviana com os métodos da Mente Reativa postulados por L. Ron Hubbard, o criador da Cientologia, WSB promove um arrazoado contra esta religião, além de estender os fundamentos do controle exercidos pelo calendário maia para a atualidade das grandes corporações midiáticas dos anos 70, onde os períodos cíclicos de colheitas e festivais maias (“Todos os sistemas de controle se baseiam no binômio castigo-recompensa”) são substituídos pelo complexo sistema de emissão de notícias ou ordens subliminares (“Do ponto de vista de um sistema de controle, a finalidade destas ordens é limitar e confinar”) compreendidos pelo jogo de mostra-esconde do processo editorial dos jornais e da publicidade.

Não é difícil imaginar para que alvo Burroughs apontaria seu rifle, se vivo fosse nos dias de hoje: com a derrocada de circulação da imprensa tradicional, o sistema de controle se transfere para novos setores mais aptos a praticar o jogo de castigo-recompensa, a internet e suas mídias sociais como forma de reclusão espacial e cadeias de previsibilidade, enquanto simultaneamente disfarça-se sob a promessa de liberdade temporal (pois, afinal, o computador pessoal é um aparelho que reúne em si ferramentas de trabalho e dispositivos de entretenimento, como professou Nicholas Negroponte).

Tomada por sua paranoia, a obra de William S. Burroughs é oracular. Nela, demonstrou que a pandemia da droga não é um problema policial, mas de saúde, e a Álgebra da Necessidade (outro de seus conceitos essenciais) que promove seu uso desenfreado é a mesma que nos conduz pelos caminhos do vício generalizado: em trabalho, informação, consumo, sexo e poder. A droga estaria no centro político de toda a sociedade, sendo o núcleo do verdadeiro sistema que controla este mundo. Nos anos 50, ao viver no caótico México, WSB percebeu a farsa social do American Way of Life. Lá, permaneceu encarcerado apenas 14 dias após meter uma bala no cérebro de sua mulher, Joan Vollmer. Para perceber como sua visão é acertada, basta-nos observar o papel aparentemente inextricável que Estado, políticos, polícia e narcotraficantes cumprem nos 43 assassinatos dos estudantes de Ayotzinapa em setembro de 2014.

(“Depois de uma só olhada neste planeta, qualquer visitante do espaço sideral diria: QUERO FALAR COM O GERENTE”, WSB.)

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
Site – Twitter – Facebook