Colunistas

Sobre livros “prejudiciais”, Star Wars e empolgação infantil

Por Luisa Geisler

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Lydia Davis, numa entrevista ao New York Times, comenta que começou a ler a série Harry Potter ao mesmo tempo em que seu filho lia e não aguentou chegar ao final do primeiro livro. Detestou desde a forma da escrita até os personagens. Harold Bloom, famoso crítico literário, é outro que chega a dizer que Harry Potter é prejudicial ao leitor.

Antes de continuar, vou resumir minha relação com Harry Potter. Os anos escolares de Harry progrediram junto com meus, então eu li o sétimo livro, sétimo ano escolar de Harry, durante minhas aulas na sétima série. Acho que fica claro que xingar Harry Potter é, em algum nível, xingar minha formação como leitora.

O problema é que não me lembro da série Harry Potter. Eu me lembro de ler, de ter apegos a personagens específicos, do universo imenso que foram (e são) as fanfics, de tentar achar outros autores parecidos no meio tempo de lançamentos, de ler durante a aula, almoçar e voltar a ler. Mas não me lembro muito bem das histórias. Qual dos gêmeos morre mesmo? Inclusive, acabei de checar na Wikipédia que os livros não saíam anualmente, de maneira que eu teria que repetir um ano escolar para estar na quinta série em 2003 e na sexta em 2005.

Foi nessa época que li Sobre a escrita, do Stephen King. Não vou comentar mais sobre fanfics do que o socialmente aceitável, mas vamos apenas dizer que um pessoal em um fórum tinha o PDF (é importante ouvir essa última frase em um tom misterioso, como o estereótipo do traficante de órgãos de um filme ruim). Baixei o livro. Li o livro no meu inglês ainda capenga.

Na época, eu escrevia fanfics e redações escolares. Mas o livro me fez repensar muito o que escrever, como escrever, especialmente o “como”. Por que usar uma voz passiva ou ativa? Por que cada advérbio era necessário (ou não)? Qualquer pessoa acostumada com escrever ou revisar não se impressiona com essas ideias. Mas eu era uma criança de doze anos, que tinha a sensação de ter cometido um crime ao baixar um livro pela internet em segredo dos meus pais que nem entendiam nada disso. E tudo isso era a minha revolução particular.

De novo, me lembro melhor da minha revolução particular do que do livro em si. Ao saber que o livro vai ser lançado aqui no Brasil pela Suma de Letras, fucei a internet pra tentar me lembrar dos conselhos. Tem trechos úteis, exemplos com os quais concordo e não sei se aprendi exatamente nesse livro. Ao mesmo tempo, eu acrescentaria “mas depende…” em diversas frases.

No caso de Harry Potter, não sei. Me esforcei para não reler o livro e preservar a imagem que tinha. Assim como hoje não gosto de tazos de Pokémon, talvez a idade vá afetar a leitura do livro. E sei que os livros que me marcam hoje vão mudar nas próximas leituras.

Um amigo meu usa a mesma teoria para explicar por que fãs “verdadeiros” de Star Wars não “podem” gostar dos episódios I, II e III. Esses fãs assistiram aos episódios IV, V e VI quando crianças, e nenhum efeito especial no mundo superaria a empolgação infantil frente a guerras intergalácticas numa tela gigante. Em geral, crianças gostam dos episódios I, II e III. A empolgação é uma parte essencial do processo (aliás, um documentário sobre essa possibilidade é The People vs. George Lucas).

Eu não me lembro do que está escrito em Harry Potter e me recordo de algumas partes de Sobre a escrita. Mas me lembro de querer ler mais, querer escrever mais. Essas motivações até hoje ficam em mim, mais do que a memória do texto em si. E, talvez, ter uma conexão forte com livros seja a coisa mais essencial para a formação de um leitor (ou escritor).

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Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira (finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

Tradutor, escritor, palavrinhas, quadrinhos

Por Érico Assis

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Esses dias o Caetano Galindo esteve por aqui dizendo que considera um livro que traduz como “um livro de Thomas Pynchon/Ali Smith/James Joyce/etc. escrito por Caetano Galindo”. Não foi a primeira vez que o Galindo falou nisso, nem ele é o primeiro a dizer que traduzir é escrever. Mas dizer esse tipo de coisa, ainda mais quando vem de um tradutor, provoca reações inflamadas. E provocou de novo: olha lá na seção de comentários: “Para mim, tradutor bom é tradutor que some no texto do escritor. Aquele que não fica nem subentendido, afinal, a função dele não é adaptar ou reescrever. Perdão, Galindo, mas acho que dizer que você escreveu um livro é prepotência, pois não o fez. Você traduziu.”

Para dizer que traduzir é escrever, não é necessário abrir nem um livrinho de teoria da tradução. É uma questão da Física. Se Éric Sentadeau escreveu “je t’aime” e eu traduzi por “eu te amo”, quem escreveu “eu te amo” não foi Sentadeau. Fui eu. A frase dele começa com “j”, a minha começa com “e”. A dele tem um apóstrofo, a minha não. Sentadeau nunca aprendeu uma palavrinha de português e seus dedos não formariam “eu te amo” no teclado nem por acaso. “Eu te amo” saiu do meu teclado.

Graça infinita, segundo a lombada do livro, é de David Foster Wallace. Muito embora Wallace nunca tenha escrito Graça infinita, e sim Infinite Jest. Quem leu ou está lendo ( \o ) Graça Infinita lê palavrinhas encadeadas no computador do Caetano Galindo, conforme a capacidade criativa de encadeamento de palavrinhas do Caetano Galindo e as referências do Caetano Galindo, sendo que uma destas referências — vamos dizer que neste caso foi a principal — é um livro escrito em inglês por David Foster Wallace chamado Infinite Jest.

Repito: é Física. Se você quiser entrar nas teorias arcanas da tradução, aí vai dar umas voltas por contratos de leitura, que a gente ficciona que existe um autor por trás da tradução, que as ideias são de outro, que só é tradução porque existe um texto de base e…

Digamos que você andava por aí lendo Vício inerente e contou para todo mundo que estava lendo Thomas Pynchon. Vocês foram vistos juntos no café, vocês dividiram a cama, você contou pras amigas que trocou altas ideias com o Thomas Pynchon. Desculpe, era ilusão. Se você leu Vício inerente e não Inherent Vice, você foi ao café, dividiu a cama e trocou altas ideias com sr. Caetano Waldrigues Galindo. Ele só estava usando uma capa de Thomas Pynchon.

No fim das contas, a conclusão das teorias arcanas é a mesma: tradução é escrever (no máximo dos máximos reescrever, que ainda é escrever). E não tente trocar o “escrever” por “criar”, “inventar”, “elaborar”, “estruturar” etc. querendo justificar uma função maior do escritor do texto de partida. Tradutor também cria, inventa, elabora, estrutura etc.

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Aí parei pra pensar de novo na tradução de quadrinhos. O texto dos quadrinhos, grosso modo, é a articulação entre palavrinhas e figurinhas. Tradutores de quadrinhos geralmente só podem mexer nas palavrinhas. As figurinhas geralmente ficam intactas. Porque, né, ai do metido que quiser redesenhar o Moebius, o Paul Pope, o John Romita, o Katsuhiro Otomo.

Mas… e se não fosse assim? E se traduzir um quadrinho fosse mexer nas palavrinhas e nas figurinhas? E se os tradutores fossem desenhistas que se embasam em um quadrinho estrangeiro e refazem aquele quadrinho no seu traço, nas suas cores, no seu ritmo?

Teríamos quadrinhos do Mike Mignola traduzidos pelo Gabriel Bá. Do Frank Miller traduzidos pelo Diego Gerlach. O Rafael Grampá seria um tradutor especializado em Geof Darrow, quem sabe também em Frank Quitely. Akira Toriyama traduzido pelo Vitor Cafaggi. Crumb traduzido pelo Allan Sieber. Quantas retraduções do Eisner já teriam saído? Tiago Elcerdo traduzindo Christophe Blain. John Buscema por Danilo Beyruth. Novas traduções dos Peanuts no traço do Odyr.

Seriam, tipo, remakes? Será que ficariam como as dublagens? Timbre, entonação e ritmo de um James Spader ou de uma Judi Dench no timbre, entonação e ritmo de um ator carioca? Seriam traduções? Sim, seriam, pelo menos, traduções. Seriam boas traduções? Talvez sim, talvez não. Seriam novos quadrinhos? Seriam também.

E sim, seria uma ideia estapafúrdia, mas deixa eu me divertir com a ficção. Era só para chegar a esse ponto: pense que a tradução de prosa é uma história em quadrinhos redesenhada. Nada do que o autor original pensou para manchar a página aparece na tradução. As palavras são outras. Os parágrafos são outros. A contagem de páginas é outra. A capa, mesmo que traga o nome do autor original e que seja até aprovada por este, muitas vezes é outra. O livro traduzido é outro e foi escrito pelo tradutor.

Faz um tempo, terminei a tradução de uma HQ de Jules Feiffer. Feiffer é autor das palavrinhas e dos desenhos. Por um lado, não toquei (e provavelmente ninguém mais tocou) nos desenhos do Feiffer. Por outro, quem ler Mate minha mãe não vai ler uma palavra do que o Feiffer escreveu. Me sinto um pouco prepotente, de fato, como apontou o crítico do Galindo naquele comentário, mas o que você tem que entender ao ver meu crédito de tradutor é o seguinte: “uma HQ de Jules Feiffer com palavrinhas de Érico Assis.” Questão de física.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Pessoas

Por Leandro Sarmatz

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Em novembro, vamos lembrar dos 80 anos da morte de Fernando Pessoa (1888-1935). Pessoa é um dos titãs da poesia de língua portuguesa no século XX. O outro é coisa nossa, é o brasileiro Carlos Drummond de Andrade. O mineiro ainda está para entrar completamente no grande circuito universal, e uma tradução norte-americana que sai no próximo mês de junho promete fazer um bom serviço: a seleção é criteriosa, a tradução — a cargo do grande Richard Zenith, que também verteu Pessoa, olha só — equilibra-se com talento entre o espírito e a letra. Agora vai.

O lisboeta já é bastante difundido em outros idiomas, principalmente no continente da língua inglesa, esse império. Harold Bloom o incluiu em seu O cânone ocidental, George Steiner — que, por sinal, comemorou 86 anos ontem — escreveu um ensaio decisivo, em que o compara a outros grandes mestres da invenção na literatura modernista, como Beckett e Borges. Aliás, Steiner acha a concepção dos heterônimos pessoanos uma criação mais engenhosa do que a ficção borgeana, com seus espelhamentos. Mas não entremos neste fla-flu. Há uma afinidade muito particular entre o alfacinha e o portenho. Matéria para outro comentário, em breve.

O certo é que, sem Fernando Pessoa e suas criações, suas vozes, a poesia do século XX seria bem mais pobre. Pessoa, leitor dos clássicos latinos e de Whitman, adestrado (como Borges, aliás) na melhor literatura de língua inglesa, levando uma existência prosaica, renovou temática e estilisticamente a poesia. E inaugurou o futuro da literatura de língua portuguesa. Mesmo que muitas vezes sob uma pátina aparentemente tradicional (ou mesmo passadista: Mensagem é um exemplo disso), sua poesia exibe uma audácia até hoje inigualada. Ter esses vários poetas em torno de si, compor essa obra tão rica e com esquinas tão diversas, é um triunfo supremo da imaginação humana.

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Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

A questão do escritor

Por Joca Reiners Terron

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O cúmulo da ambição de um leitor é desejar todos os livros publicados em todas as línguas existentes, inclusive aquelas ainda por aprender e as que nunca aprenderá, embora saiba que uma vida inteira não seja suficiente para ler a totalidade dos livros publicados em sua língua materna e naquelas que por ventura venha a conhecer.

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No entanto, dentre os maiores leitores da História, Montaigne afirmou ter uma biblioteca de não mais de cem exemplares. Tal economia de recursos não o impediu de ser quem foi. Lembro-me também de uma reportagem com o poeta Décio Pignatari na qual, após sua mudança do sítio onde viveu na região de Jundiaí para um apartamento menor em Curitiba, foi obrigado a se livrar de grande parte de sua biblioteca. Concluía a conversa afirmando que a biblioteca ideal não deve abrigar mais do que oitocentos volumes.

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O conto “A viagem de inverno”, de Georges Perec, relata a descoberta de um livro impossível. Em um final de semana entediante no campo, o professor de letras Vincent Degraël lê ao acaso um volume retirado da biblioteca de seus anfitriões. No livro desconhecido, identifica frases e versos idênticos aos de alguns dos clássicos modernos franceses. Qual sua surpresa, porém, ao descobrir que o livro que tinha em mãos era anterior a todos aqueles clássicos. Aquelas páginas minguadas teriam originado tudo o que havia de essencial na literatura francesa? Então vem a guerra, e a biblioteca da casa de campo é destruída em um bombardeio. Degraël passa a vida a buscar outro exemplar de “A viagem de inverno”, sem nunca encontrá-lo, até morrer em um hospital psiquiátrico.

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Desfecho mais comum entre aqueles marcados pela sina da leitura, a ambição desmedida de um leitor pode ser frustrada logo de início, ao não se encontrar um livro muito desejado, um título que foi traduzido em sua língua, e que em tese estaria ao alcance, dependendo apenas dos talentos de um bom livreiro. No entanto, uma vida inteira pode ser desperdiçada na caça a um volume impossível de ser encontrado, como a do pobre Degraël, e tamanha frustração, além de minar o ânimo de um leitor, pode destruí-lo.

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Ao final do conto de Perec, após a morte de Degraël, seus alunos descobrem o caderno que reunia as informações relativas ao livro “A viagem de inverno”: “as oito primeiras páginas descreviam a história de suas pesquisas frustradas; as outras trezentas e noventa e duas estavam em branco”.

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Interpreto o conto de Perec — um dos mais perfeitos que já li — como uma alegoria do nascimento do impulso criador. É, sem dúvida, uma metáfora de duplo corte, pois ao mesmo tempo que prefigura a faísca da invenção literária, sugere o fracasso que vem embutido em toda criação.

De todo modo, eis o que vem a ser um escritor: o leitor mais ambicioso que, ciente da impossibilidade de ler todos os livros, decide escrever aquele único que lhe falta, aquele único que não pode lhe faltar, preenchendo o espaço vazio da prateleira de sua estante com algo que não desapareça, que não precise ser procurado até o fim do mundo ou o limite de sua sanidade. Se vai conseguir, são outros quinhentos.

Essa busca é a própria atividade do escritor, a sua missão.

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Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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“Sem título” ou “Do pesadelo de dar nome às histórias”

Por Raphael Montes

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Escolher o título de uma história (seja um conto, um romance ou um longa) sempre foi, para mim, um pesadelo. Como este pesadelo me atingiu em cheio nos últimos dias, resolvi escrever um texto sobre o assunto. Ao final, quem sabe eu consiga dormir em paz.

Pessoalmente, tenho predileção por títulos curtos, fáceis de memorizar, genéricos, que tragam o espírito da história sem entregar muita coisa. Sempre que possível, acho interessante que o título contenha alguma ironia ou mensagem subliminar. Aos doze, quando comecei a escrever, tinha a regra de só desenvolver uma história quando já tivesse um título para ela. Levava isso muito a sério e cheguei a desistir de algumas narrativas apenas porque não tinha um título.

Após Suicidas, meu romance de estreia, comecei a escrever um chamado Rua dos Crimes, um policial-enigma clássico, bem ao estilo Agatha Christie. Havia chegado à metade do livro quando comentei a história com uma amiga e ela retrucou: “Legal, mas é juvenil, né? Rua dos Crimes é nome de livro juvenil”. Pronto, não consegui mais mexer no arquivo. O título não me convencia e eu não conseguia avançar sem saber que nome dar para aquela história.

Felizmente, essa mania doida é passado. Hoje consigo escrever sem ter um título. Mas sempre que me pego deitado na cama, distraído, estou pensando: “caramba, que título vou dar para essa história?”. Um bom título é importantíssimo. Além de cumprir a difícil missão de apresentar o livro, deixar entrever seu conteúdo, o título é responsável por cativar, atrair alguém que nunca tenha ouvido falar dele, o livro, ou de você, o escritor. Numa consideração comercial, o título — junto com a capa — convence o potencial leitor a comprar o livro: é a primeira impressão que ele tem do seu trabalho.

Com o tempo, a gente aprende algumas coisas. Se escrevesse Suicidas hoje, acho que eu mudaria o título. Optaria, talvez, por algo mais abstrato: “A reunião”, “O porão” ou ainda “Roleta russa”. Gosto do nome que escolhi, sei que resume bem o livro e chama atenção de alguns, mas também sei que muita gente torceu o nariz e deixou de ler o livro apenas porque se chama Suicidas.

Em Dias perfeitos foi diferente. Enquanto escrevia, todos meus leitores-beta reclamavam do título: era muito vago, muito simples, parecia história de amor. Eu bem sabia que era um título arriscado — dependia de uma boa capa para passar sua ironia. Ainda assim, fui em frente. Agora, publicado, quase todos os dias recebo e-mails ou inboxs de pessoas que compraram o livro iludidas pelo título (“achava que era um livro fofo”) e se surpreenderam positivamente com o conteúdo. Pessoas que nunca leram um livro de suspense acabaram lendo o livro por causa do título “romântico” e descobriram os prazeres da literatura policial e de mistério. Quer coisa mais legal? Além disso, em todas as traduções, o título original tem sido mantido. Sinal de que funcionou, a meu ver.

Agora escrevo meu terceiro romance adulto. Quando tive a ideia, o título era Cortes exóticos. No Programa do Jô, incentivado a antecipar a notícia, disse que o título provisório era Jantar no matadouro. Já passei por diversas opções: “Carne de caça”, “Mesa para dez”, “A delicadeza do corte” e “Anatomia de um jantar”. Atualmente, encolhi: o livro se chama apenas Jantar. Até a publicação, só Deus sabe.

Nesses momentos de conflito interno, sempre me lembro de uma história que o Marçal Aquino costuma contar. Na época, ele escrevia Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios e todo mundo dizia que era um título ruim, longo demais. Em uma Flip, o mediador soube do título do original nos bastidores e, durante a mesa, insistiu que Marçal revelasse ao público. Ele disse: “Olha, é provisório… Nenhum editor vai querer publicar um livro com esse nome”. Quando Marçal revelou o título, Luiz Schwarcz chamou da primeira fileira: “eu publico!”. Hoje, Eu receberia… é um dos títulos que mais elogiam na literatura brasileira contemporânea, além de ser um livraço.

Ainda atormentado por pesadelos com títulos, lanço a pergunta a vocês: escritores, como escolhem os títulos de seus trabalhos? Leitores, quais seus títulos favoritos? Além disso, claro, se alguma alma caridosa quiser palpitar nos títulos possíveis do meu terceiro romance, aceito de bom grado. Daqui, continuo pensando e escrevendo. Enquanto isso, não durmo.

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Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Advogado e escritor, publicou contos em diversas antologias de mistério, inclusive na revista americana Ellery Queen Mystery MagazineSuicidas (ed. Saraiva), romance de estreia do autor, foi finalista do Prêmio Benvirá de Literatura 2010, do Prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do Prêmio São Paulo de Literatura 2013. Em 2014 lançou seu novo romance pela Companhia das Letras, Dias perfeitos. Atualmente, o autor realiza trabalhos editoriais, ministra palestras sobre processo criativo e escreve o projeto de uma série policial para TV.
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