Colunistas

A questão dos superdotados

Por Joca Reiners Terron


A expressão ESSAS CRIANÇAS DE HOJE EM DIA…, que geralmente demarca o espanto de gente mais velha diante de um bom exemplo de esperteza infantil, tem encontrado eco nos livros de ficção. Uma verdadeira febre de narradores adolescentes superdotados tem afetado a literatura mundial. Esse espanto em relação à agilidade sináptica dos pimpolhos remonta a alguns espertinhos do passado, como as histórias de Pedro Malasartes, por exemplo, ou nosso Pedrinho do Sítio do Pica-pau Amarelo, de Monteiro Lobato. Na literatura de língua inglesa a ocorrência é ainda maior, do Tom Sawyer, de Mark Twain, ou Jim Hawkins, o protagonista de A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, ao Peter Pan, de J. M. Barrie.

Em livros mais recentes, entretanto, esses heróis adolescentes evoluíram de meramente espertinhos a verdadeiras sumidades intelectuais. Será um sinal dos tempos e da evolução da tecnologia e das ciências? Em O Último Samurai, da norte-americana Helen Dewitt, Ludo é um menino órfão de pai que aprende a ler aos 2 anos de idade; aos 4 ele já fala diversas línguas estrangeiras, entre elas japonês; por causa disso, desenvolve uma obsessão por Os sete samurais, filme de Kurosawa, e a partir daí segue uma peregrinação em busca do paradeiro de seu verdadeiro pai. Apesar de sua inteligência aguda, Ludo não passa de uma criança com todas as suas carências. Carência, porém, não é algo que exista no fabuloso livro de Hellen Dewitt, entre as grandes narradoras de língua inglesa da ficção contemporânea.

Em City, do italiano Alessandro Baricco, o garoto Gould, de 13 anos, está na universidade. Superdotado, ele constrói uma cidade onde pretende encenar um bangue bangue, gênero pelo qual é fissurado, e novamente — como acontece com Ludo — o cinema alimenta o cérebro do garoto. Aos poucos o leitor descobre (ou desconfia) que nenhum dos personagens malucos que atravessam a história “existem” de verdade, a não ser na poderosa imaginação de Gould, um menino solitário que preenche o vazio de sua existência com amigos imaginários.

Diário Absolutamente Verdadeiro de Um Índio de Meio Expediente, de Sherman Alexie, ganhou o National Book Award e conta a história de Arnold Spirit Junior, um menino de 14 anos que tem uma cabeça gigante, nasceu com 42 dentes e com água no cérebro e mesmo assim descobre ser um grande lutador. Nascido numa tribo spokane, ele lutará por uma educação melhor para si e para seus iguais. Arnold representa nesta seleção de supercérebros a variação que apresenta narradores adolescentes que sofrem de doenças raras, um outro fenômeno da ficção recente que também pode ser conferido em Afluentes do Rio Silencioso, de John Wray, que conta a história de William Heller, jovem esquizofrênico de 16 anos que desenvolve um fascínio pelos subterrâneos do metrô, onde se perde após um surto.

Já Oliver Tate, o narrador de Submarino, de Joe Dunthorne, é um típico representante da geração Google. Curioso e esperto, ele usa todas as suas habilidades aliadas à infinita curiosidade para investigar a depressão enfrentada pelo pai desde que sua mãe resolveu tomar aulas de surfe com um antigo namorado. Conhecedor de todos os becos possíveis e impossíveis da internet, Oliver descobre aos poucos os descaminhos da vida sentimental dos adultos.

Todos esses personagens ultraespertos e inteligentíssimos parecem ter se originado na figura de Holden Caulfield, o moleque boca suja criado por J.D. Salinger em O Apanhador no Campo de Centeio. Pioneiro em retratar um menino que enfrenta os dilemas do amadurecimento ao desenvolver sua singular visão de mundo, Salinger inaugurou uma tradição na ficção moderna que culminaria em Hal Incandenza, uma jovem promessa do tênis e herói de Graça Infinita, o clássico contemporâneo de David Foster Wallace (a ser lançado em novembro pela Companhia das Letras), ele próprio um escritor de capacidade mental trocentos mil pontos acima da média que se suicidou aos 43 anos de idade em 2008, após um forte período de depressão.

Sinal dos tempos ou não — afinal seguidas gerações foram saudadas com a espantada expressão ESSAS CRIANÇAS DE HOJE EM DIA… —, os narradores adolescentes de romances, por mais superdotados que sejam, uma hora ou outra são obrigados a enfrentar a realidade e seus dilemas. Nesse embate a inteligência é essencial, mas também é fácil perceber através desses destinos literários que não é a única arma de sobrevivência, além de nem sempre ser uma bênção.

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Livros, boates e gritaria

Por Paulo Scott


Tempo atrás escrevi que não gostava de futebol, que não compreendia como alguém que tivesse um mínimo de inteligência pudesse gostar de futebol — a assertiva, evidentemente, se tratava de uma provocação. Pessoas, independentemente do seu grau de inteligência ou de patetice, seja lá o que a hierarquização das inteligências ou patetices signifique, têm o direito de gostar de um esporte tão fascinante (o esporte que mais mobiliza hipsters e intelectuais de toda ordem nos Estados Unidos da América do Norte no momento é o futebol), minha provocação tinha outro alvo: esta grande máquina de enganar que é o esquema inventado e constantemente aprimorado pelos cartolas do futebol no Brasil e no Mundo.

Pessoas sofrem, gastam até o último centavo do seu dinheiro e até matam por algo que é escancaradamente manipulado por meia dúzia, que beneficia financeiramente apenas meia dúzia. Embora a paixão pelo Colorado prevaleça em momento e outro da minha medíocre existência (cheguei a comprar aquela camiseta da edição especial “Campeão de tudo”), faço o que posso para não perder um segundo do meu tempo com essa bobagem que é fazer do futebol uma religião e, quem sabe, no saldo geral, salvar minutos, horas, turnos, dias para empregá-los, por exemplo, na missão de reduzir a lista imensa de livros que pretendo ler antes que chegue ao fim minha participação por aqui — nesta “arena da vida”, diria alguém.

Algo que aprendi na “arena da vida” foi: não duvidar do poder do circo e da boate. Futebol é circo e também é boate (é o lúdico desesperado e é zorra total), uma ferramenta eficaz garantindo que um bando de gente consiga atravessar a semana e a derrocada psicológica que aguarda boa parte da humanidade nas tardes e nas noites de domingo. Pessoas precisam se apoiar em algo e fingir que tudo está bem — não dá para tapar o sol com peneira, pelo menos não o tempo todo. Por que não o futebol? Por que não a chance de sonhar com a vitória que, no final das contas, é um tipo de truque perfeito que faz o vitorioso imaginar que é mais especial do que o outro? Por que não o maniqueísmo irracional tão propício da disputa em perspectiva simplificada?

A Copa do mudo foi o grande turn point na narrativa deste ano — quem trabalha com roteiro de cinema sabe a razão de dividir a narrativa ao meio e encontrar os dois grandes pontos de virada, de saber tirar proveito disso —, e eu poderia continuar falando sobre as garantias fundamentais que mais uma vez foram completamente desrespeitadas em solo brasileiro (os jovens de pele escura das periferias chamam isso de constância). A novidade, uma das tantas, foi o alinhamento de governantes em todos os níveis de governo arquitetando um estado renovado de repressão. Pois é, ninguém escapa. O salvador da pátria não existe, nunca existiu. Ainda assim não resistimos ao conforto do papel de bons torcedores, ingênuos e esperançosos, apesar de todas as evidências — uma parte corre para um lado e o restante, quase na mesma proporção dos seus opostos, corre para o outro, e tudo bem se o resumo do chilique geral, de um lado e de outro, for só descabelamento e gritaria, porque depois será a segunda-feira e será o marasmo, de novo.

Na semana passada chegou às minhas mãos um exemplar bem castigado — benditos sejam os exemplares castigados — de um dos livros que mais influenciaram o meu modo de escrever, um livro do qual (tenho até vergonha de confessar) eu mal lembrava, é o Eu falo dos que não falam, uma seleção de poemas do alemão Hans Magnus Enzensberger, publicada no Brasil em mil novecentos e oitenta e cinco pela Editora Brasiliense. Graças à Morgana, que o conseguiu — a forma e a razão como o livro chegou até ela renderiam uma coluna à parte, acreditem — e perguntou se eu conhecia aquele poeta, aquele livro, eu tive a sorte de reler poemas que foram fundamentais para que eu chegasse à convicção, que é pura teimosia, sobre como escrever e o que escrever, não importando se o que resultar será apontado como agradável ou desagradável, cômodo ou incômodo, não importando qualquer rótulo que eventualmente o resultado possa receber.

No exemplar castigado do livro do Hans Magnus Enzensberger tem este poema:

 

Defesa dos lobos contra os cordeiros

Querem que o abutre coma miosótis?

O que exigem do chacal,

Do lobo, que mude de pele? Querem

que ele mesmo extraia seus dentes?

O que é que não apreciam

nos comissários políticos e nos papas,

por que olham, feito burros,

o vídeo mentiroso?

Quem costura a faixa de sangue

Nas calças do general? Quem

trincha, diante do agiota, o capão?

Quem pendura, orgulhoso, a cruz de lata

sobre o umbigo que ronca de fome? Quem

aceita a propina, a moeda de prata,

o centavo para calar-se? Há

muitos roubados, poucos ladrões; quem

os aplaude, quem

lhes põe insígnias no peito, quem

é sequioso de mentiras?

Olhem-se no espelho: covardes,

temendo a fadiga da verdade,

sem vontade de aprender, entregando

o pensar aos lobos

um anel no nariz como adorno preferido,

nenhuma ilusão burra o bastante, nenhum consolo

barato o suficiente, cada chantagem

ainda é clemente demais para vocês.

Ó cordeiros, irmãs

são as gralhas comparadas a vocês;

vocês se arrancam os olhos uns aos outros.

Fraternidade reina

entre os lobos:

andam em alcateias.

Louvados sejam os salteadores: vocês

convidam para o estupro

deitando-se no leito preguiçoso

da obediência. Mesmo gemendo

vocês mentem. Querem

ser devorados. Vocês

não mudam o mundo.


E também tem este outro (cuja coincidência com o romance que terminei em abril deste ano é assustadora):

 

Os Desaparecidos

Não foi a terra que os engoliu. Foi o ar?

Tão numerosos como a areia, mas não se tornaram

areia, e sim nada. Em massa

foram esquecidos. Muitas vezes, de mãos dadas,

como os minutos. Mais do que nós,

porém sem memória. Não registrados,

não decifráveis no pó, mas desaparecidos

seus nomes, colheres e solas.

Não nos fazem arrepender. Ninguém

os lembrará: nasceram,

fugiram, morreram? Sem vazios

é o mundo, porém seguro

pelos que não moram nele,

os desaparecidos. Eles estão em todas as partes.

Sem os ausentes não haveria nada.

Sem os fugitivos nada seria firme.

Sem os esquecidos nada seria certo.

Os desaparecidos são justos.

Assim também se vão os nossos.


Imagino que só exista um lugar para o escritor: o lugar o mais longe possível das aspirações dos políticos, dos governos, das sucessões familiares na política, do engajamento religioso — que no fundo, e no médio prazo, é sempre interesseiro e contabilístico — na política, do engajamento apaixonado como os dos torcedores de futebol (o suporte irascível da faceta do futebol que mencionei acima). Sempre haverá bandidos para todos os gostos, para todas as cegueiras, paixões, chiliques, para os dois lados do campo.

E a poesia — este é o momento cretino e gagá “temos de cuidar muito bem da poesia, meu querido” —, suponho, sempre dará um jeito de achar o leitor (bastam trezentas cópias de um bom livro de poesia, lembra?) e dar sinal de que a vida é uma só e sempre poderá ser mais do que a paisagem que eventualmente tremule diante dos nossos olhos e da nossa pressa. Há os detalhes, as pequenas investigações, os pequenos acertos, as pequenas cobranças, há, sobretudo, as pequenas coisas importantes, do nosso lado e do lado oposto, que nos acostumamos simplesmente a jogar fora.

Sempre fica repleto de heróis dentro das boates, a justiça (essa palavra que cabe na boca de qualquer um) é boutique, carteiraço e mão no popô dentro das boates. Todos são podres de tanta erradicação da pobreza — não importa se carenados de socialismo ou de mão invisível do mercado — dentro das boates e podres de total franqueza diante da vida dentro das boates. Bacana é pagar de passarela olha como eu sou especial e enxergo o que o resto não enxerga dentro das boates. Mas boates não são planos de voo, não são projetos de vida. Boates operam em modo apagar os detalhes.

Hoje, fico por aqui (um pouco mais perplexo do que antes); e, sim, leiam Hans Magnus Enzensberger se tiverem chance.

* * * * *

Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal(Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro(Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.

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Quando o trailer vira notícia

Por Ana Maria Bahiana


Uma das coisas que mais me intriga e, ao mesmo tempo, repele e atrai, é a narrativa do objeto cultural como produto de massa e da luta pelo poder e pelo controle dessa narrativa. É uma narrativa tão antiga quanto a existência dos sistemas de distribuição maciça de produtos culturais, embora se possa argumentar que Charles Dickens, Mozart, Chopin e Liszt foram verdadeiros popstars de seu tempo… (Deem uma conferida em O nosso segredo [The Invisible Woman, Ralph Fiennes, 2013] e Lisztomania [Ken Russell, 1975], por exemplo).

Quando cheguei aqui em Los Angeles, a chamada “era de ouro” dos estúdios já tinha terminado há muito tempo. A geração sexo-drogas-rock ‘n roll tinha posto o ponto final nessa história em meados da década de 1970, marcando de vez a transição para um sistema onde todo mundo é freelancer e o controle do produto final é fluido. As novas estéticas exigidas pela imensa nova geração de espectadores, os baby boomers nascidos depois da Segunda Guerra Mundial, eram apenas parte dessa transformação. A outra parte era estrutural: os altos custos da disputa de mercado com a televisão e com os sindicatos, principalmente.

Cheguei aqui no momento de glória dos intermediários: os agentes, os divulgadores, os porteiros de luxo que, na virada dos 1980 para os 1990, controlavam os acessos. Eram tempos caóticos, especialmente para uma recém chegada como eu. Mas ao mesmo tempo, as brechas eram suficientes para que fosse possível um real exercício da prática jornalística. Ainda era possível, por exemplo, negociar uma entrevista com um ator ou diretor e realizá-la sem supervisão, controle ou ingerência de terceiros. Era possível propor pautas independentes, fazer perguntas independentes e obter acesso a quem de fato interessava, com base apenas no currículo individual e no comportamento, preparo e seriedade de cada profissional.

Foi assim que entrevistei Robert Altman — que não queria ser entrevistado, no começo, e depois não queria parar de ser entrevistado. Foi assim que entrevistei James Cameron no set de O Exterminador do Futuro II. Foi assim que entrevistei Chuck Jones e a dupla Frank & Ollie, últimos representantes do grupo de artistas que criou a Disney, gigantes da animação. Foi assim que entrevistei Kathryn Bigelow quando ela ainda estava longe de ganhar um Oscar, mas estava virando a mesa para as mulheres atrás das câmeras; Francis Ford Coppola quando decidiu investir em vinhos; Bob Rafelson, Brian De Palma, Curtis Hanson, Ridley Scott, Johnny Depp, os escritores Bruce Wagner e Mike Davis… A lista é longa e boa. As entrevistas eram conversas reais sobre assuntos de substância, pautadas por curiosidades e oportunidades reais.

Eu pressentia e temia que isso não ia durar para sempre. Os mercados internacionais estavam crescendo rapidamente, novas praças estavam exigindo conteúdo e entretenimento, a internet avançava comendo as mídias tradicionais pelas bordas e criando um clima de competição histérica. Quando há mais demanda que oferta, a oferta sempre ganha.

Um telefonema inesperado, numa tarde de 1990, deu o sinal: era um estúdio me convidando para um fim de semana com tudo pago num hotel de luxo do deserto. Com a contrapartida: eu teria que entrevistar um bando de atores de pouco ou nenhuma consequência, para divulgar um filme de segunda divisão.

Era o começo da era do junket, que é exatamente o que descrevi acima, e que, hoje, não se aplica apenas a filmes, séries e outros produtos culturais de segunda divisão. Muito pelo contrário.

Não estou exagerando quando digo que hoje, como na “era de ouro” de Hollywood, o acesso ao produto cultural de massa está completamente controlado, regido e organizado pelos grandes produtores. Não há mais brechas, não há mais negociação. Duas décadas de oferta constante de, vamos chamar assim, “acesso premiado”, juntamente com o colapso financeiro das grandes empresas de mídia e a completa restrição a qualquer outro tipo de acesso transformou o que era um diálogo numa via de mão única. Os grande produtores criam, implementam e controlam a oferta de acesso e de material. Ao outro lado cabe apenas receber. De preferência, sem questionar.

Esse é o universo em que um trailer, que há não muito tempo atrás era apenas uma peça promocional, se torna algo que passa por notícia.

Eu tive a visão completa dessa mudança alguns anos atrás, quando eu ainda produzia um programa para um canal pago da TV brasileira e aguardava, com dezenas de outros jornalistas, minha vez de entrevistar o elenco de um filme que não tinha substância alguma, mas cujos atores eram até interessantes. Em circunstâncias normais alguns deles renderiam até ótimas conversas, mas agora eu teria rígidos cinco minutos de acesso, rigorosamente monitorados por um batalhão de funcionários do estúdio. O intenso perfume de ansiedade que flutuava no ar, o desespero pelo convite para o próximo junket, pelo melhor posicionamento na absurda fila de espera pelos três minutos monitorados eram difíceis de ignorar. Era muito parecido com uma prisão, ou pior. A disputa pelas migalhas. O temor de cair em desgraça com as autoridades. A completa falta da possibilidade de independência, autonomia e pensamento crítico.

Tinha acontecido: o controle, mais uma vez, tinha passado para o outro lado. Estávamos de novo em 1949, mas a máquina de criar ilusões era, agora, ainda mais toda-poderosa.

Não deixava de ser fascinante.

* * * * *

Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

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Foi assim, mais ou menos, ou nunca aconteceu?

Por Carol Bensimon


Não estou falando nada de novo se eu disser que alguns escritores tiram o grosso de sua literatura da vida real, outros nem tanto. Para os primeiros, os acontecimentos da vida viram as pedras fundamentais de uma futura obra: enredo, personagens, conflitos, quase tudo já está ali. Ok, Wittgenstein disse que não é mais realidade no momento em que você muda a cor da parede na descrição de uma cena (ou isso é alguém tentando me explicar Wittgenstein?) e, de qualquer forma, a própria transposição para a linguagem escrita seria o suficiente para ficcionalizar os fatos. Mas admitamos ao menos que existem vários graus de ficcionalização? Que Karl Ove Knausgård é uma coisa e Jeffrey Eugenides provavelmente outra? E não custa esclarecer: não estou fazendo aqui um julgamento de valor, mas apenas comparando métodos criativos distintos. Adoro Knausgård e adoro Eugenides.

O que fiquei me perguntando durante toda a semana foi: o que faz com que escolhamos um jeito de criar, e não outro? Ainda estou falando do quanto nos apropriamos das coisas vividas (se totalmente, se nada, ou em qualquer nível entre esses dois extremos). Talvez uns tenham talento nato para uma coisa, outros pra outra, o que corre o risco de ser também a mais ingênua das explicações. Outra hipótese é que a escolha seja orientada pelo prazer do ato criativo. Em outras palavras: para determinado escritor, o prazer pode estar em levar esses episódios vividos para dentro do livro, em um processo que muitas vezes é psiquicamente libertador; o mundo fechado da literatura dá sentido a algo que, na origem, era confuso. Para outros, a graça está justamente em tomar distância da própria vida, “viver”, pela via da criação, outras situações, épocas, e ainda com outro corpo, gênero, idade, temperamento etc. Acrescenta-se a isso o prazer da pesquisa: enquanto os do primeiro grupo tendem a cavoucar a própria memória, os do segundo têm prazer em descobrir fatos do mundo concreto — mas apartado deles — para então poderem fazer uso disso em um romance. Estou falando em estudar um episódio histórico, a filosofia hippie, ciclos lunares, o funcionamento de estruturas acadêmicas ou de uma cafeteira francesa, a moda dos anos oitenta etc. etc.

A última razão para um escritor optar por tal jeito de criar, e não outro, me parece a mais imensurável, e tem relação com o quanto você está disposto a comprometer da sua vida real em nome da arte. Em todo o caso, é muito difícil saber se você não escreve sobre sua família porque isso já toma espaço demais na vida real (só faltava ainda escrever sobre isso!), ou se aí entram os pudores de não querer expôr aqueles que você ama.

Mas será que essa precisa ser uma escolha entre arte e vida? Tem aquela pergunta recorrente (e meio babaca): se a casa está pegando fogo, você salva o gato ou a tela do Rembrandt?

Alguns episódios da minha vida dos últimos meses teriam rendido bons contos. Tentei escrever sobre eles, mas foi um desastre completo; digamos que o ato serviu pra dar vazão a um certo impulso de colocar coisas no papel, mas, depois de uma página e meia daquilo, eu estava de saco cheio. Não era uma questão das histórias não serem boas o suficiente, ao contrário, elas estavam cheias de conflitos, lugares e personagens interessantes, mas havia algo que me impedia de ir adiante. Ética pessoal? Ou apenas eu não via nenhuma graça em pegar histórias tão prontas? Provavelmente as duas coisas.

Avance alguns dias. Começo a ler uma porção de livros sobre o que provavelmente vai ser o pano de fundo do meu próximo romance. Não é algo que está diretamente relacionado à minha vida; vou estudar feito louca, depois vou ao encontro do lugar/tema, e finalmente teremos um romance sendo escrito (ao menos essa é a ideia). Isso me deixou bem mais entusiasmada do que a perspectiva de jogar minhas memórias no papel com aqueles contos (o problema é o confronto entre conto e romance, e minha predileção pelo segundo? Bem, isso fica para outro texto). Não é que minha vida seja um tédio, pelo contrário. Mas, pelo jeito, em caso de incêndio, coloco o gato debaixo do braço e a tela do Rembrandt debaixo do outro. É possível que todos acabem queimados. Mas, ei: eu só quero ter o direito de não escolher.

* * * * *

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Em tradução (contagem regressiva)

Por Caetano Galindo


Falta pouco.

Quando a minha próxima coluna aparecer aqui, o nosso Graça Infinita já deve estar nas livrarias.

Eu li o livro em 2004/5 e, te juro, já li com um pedaço do HD matutando possíveis soluções de tradução. De lá pra cá, como já disse por aí, li praticamente tudo que o Wallace escreveu.

Logo quando sentei pra traduzir Graça Infinita (depois da proposta irrecusabilíssima do grande scefigno André Conti), eu estava mais preparado do que em qualquer outro projeto que já encarei. Eu vinha ensaiando a tradução do livro há anos. Intensamente.

Na minha trajetória, o livro do Wallace se imbrica com o Ulysses de vários jeitos. Primeiro, porque, depois de ler os comentários do grande Cassiano Elek Machado na extinta coluna Entre Linhas da Ilustrada, eu decidi dar uma chance ao romance porque, sério, naquele momento, ninguém mais me aguentava dizendo que o Ulysses era insuperável e que toda a prosa pós-Ulysses era tipo uma mosca tísica morta na sola da bota rangente de Leopold Bloom…

Sério.

Eu estava insuportável.

E decidi ver o que se andava fazendo de mais impactante. E qual não foi o meu susto! E com que felicidade…

Mais ainda, o convite pra fazer a tradução do Graça veio justo em cima do lançamento do Ulysses. Ou seja, saí de um e mergulhei quase direto no outro…

Na verdade, no Bloomsday de 2012 eu já tinha um documento aberto na pasta wallace da minha pasta etalii da minha pasta trabalho da minha pasta documentos

A história das idas e vindas, de como caminhou, desandou e se encaminhou a tradução, ora, isso essa coluna já conta desde aquele ano de 2012. Agora é esperar pelo livro.

Mas não me custa aproveitar pra agradecer à Ciça Caropreso pelo trabalho dedicado, rápido e perfeito na preparação do original; ao Alceu Chiesorin pelo projeto gráfico mais incrível (minha opinião, ok?) que essa editora já fez; ao André, como sempre, por iniciar tudo; aos revisores e a todos os envolvidos no projeto.

E não me custa também te dizer uma coisinha. Que não sou só eu, por esses motivos meio pessoais não, tá? A crítica e os leitores por aí vivem invocando o Ulysses como termo de comparação pro Graça Infinita.

Aqui, agora, eu não me pronuncio.

Só te digo o seguinte: Graça Infinita tem uma tradução melhor no Brasil, quando menos porque, quando eu cheguei ao Wallace, Joyce (e o mestre Britto) já tinha me ensinado muita coisa.

Boa leitura.

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de Tom Stoppard, James Joyce e Thomas Pynchon, entre outros. Atualmente está revisando a tradução de Graça infinita, que tem lançamento previsto para 2014. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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