Colunistas

Convite à viagem

Por Leandro Sarmatz


Leio um ensaiozinho sobre os primórdios dos guias de viagem, The portable Paradise: Baedeker, Murray and the Victorian Guidebook. O “inho” aqui serve para denotar afeição (opa) pelo assunto e também porque o texto relativamente breve (100 páginas), elegante e despretensioso de Jonathan Keates é um repositório de anedotas inteligentes e comentários atilados. Não esgota o assunto e nem tem essa pretensão. Se é para ler ensaio forte que margeia o tema (escritores viajantes ingleses), fiquemos como Abroad: Literary Traveling between the Wars, obra-prima de Paul Fussel. Aí sim a conversa é de gente grande.

O Baedeker, então, já foi uma glória. O primeiro grande guia de viagens, um clássico do gênero e — dizem — tão acurado que muitos de seus mapas compostos ainda antes da Primeira Guerra eram consultados por espiões e estrategistas militares durante a guerra de 39. Virou ícone cultural. Aparece às pencas em poemas (T. S. Eliot, Mina Loy), romances (A room with a view, de E. M. Foster), é referência para muita gente. Leio que Thomas Pynchon suga toda a informação que pode em velhos baedekers em busca de mais elementos para escrever sobre lugares em que nunca esteve.

Aliás, o jornalismo e os guias de viagens são contemporâneos da ascensão do romance. Os três gêneros se beneficiaram da mesma massa crítica: aumento da alfabetização nas cidades, popularização da imprensa, relativa estabilização das fronteiras geopolíticas, fixação dos idiomas nacionais, industrialização. O curioso, e isso aparece no fino volume de Keates, é que a própria mentalidade do viajante dos séculos XVIII e XIX (e aqui poderíamos trocar por leitor de jornais ou de romances) iria moldar a forma como se escreveria sobre os países visitados. Quem leu Orientalismo, de Edward Said, sabe do que se está falando: é nesse mesmo momento que o discurso sobre o “exotismo”, sobre o “outro” (geralmente visto com complacência ou desfaçatez) passa a ser construído, o que se tornaria inclusive traço constitutivo da produção artística de europeus (e depois norte-americanos) até, pelo menos, os anos 1960.

Assim, num caso que aqui seria “benigno”, uma nascente indústria de água mineral era anunciada para o viajante que se afastasse da civilização (ou seja, Londres), lembra Keates. O reclame mostra uma garrafa e várias frases de efeito e/ou ameaçadoras. O curioso é que muito dessa retórica se mantém (leia qualquer guia contemporâneo sobre lugares da África, da Ásia ou mesmo da América Latina), ainda que de fato existam lugares em que tomar água da bica seja a antessala das danações intestinais e das maiores pestilências.

A segunda metade do século XX não seria muito favorável a esses guias estilo Baedeker, que durante anos se mantiveram como referência. O mundo mudou muito rápido, e hoje um guia de viagem sobre Nova York (ou São Paulo, ou Maputo) de, digamos, 1999, é das coisas mais obsoletas que existem. Nada mais antigo que o passado recente, escreveu Nelson Rodrigues. E nada mais estimulante que o passado remoto, poderia dizer Jonathan Keates. Ou mesmo alguns de seus leitores.

* * * * *

Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.


“A professora”, um conto da infância

Por Raphael Montes


Eu tinha 12 anos quando resolvi que seria escritor e comecei a rascunhar um conto nas últimas folhas de um caderno de português. Recentemente, arrumando tralhas, encontrei o tal caderno. Percebi dezenas de defeitos no texto, claro, mas resolvi transcrevê-lo com fidelidade, corrigindo apenas os erros de português, que eram muitos. A releitura do conto foi marcante para mim: não só me espantou a morbidez da história (que reitera minha teoria de que crianças têm lá sua dose de maldade) como notei que o conto visita temas explorados mais tarde em meu primeiro romance publicado, Suicidas (escrito aos 16). Enfim, achei pertinente — ao menos curioso, vai — compartilhar esse meu primeiro conto da infância com vocês. Nos comentários, me digam o que acharam!

* * *

A professora

Ela já havia tentado o suicídio antes. Cinco vezes. Mas acabava desistindo. O revólver Magnum 608, oito tiros, devolvido à gaveta do esquecimento. Às vezes, ela sentia necessidade de pegá-lo novamente, de testar seu peso, o tato frio com o metal. Em momentos íntimos, levava o revólver à cabeça, o cano massageava a têmpora, sabendo que bastava puxar o gatilho para dar fim àquilo tudo.

Então, ela pensava em seus alunos. Ah, seus alunos! Como ela os amava! Eram a única coisa que realmente tinha de valioso: suas mentes infantis, abertas ao saber oferecido em cada lição. Deus!, era tão fácil encenar para eles! Sobre o tablado, mascarar sua vida deprimente com sorrisos de simpatia e uma felicidade sublimável. Eles a adoravam, a professora sabia. De certa forma, era isso que a mantinha viva, sem coragem de acionar o revólver no momento decisivo. Eles a chamavam de volta. Chamavam-na para a vida, para a aula no dia seguinte… E, nesses segundos, ela se sentia muito feliz e amada. Eles — seus alunos — não a julgavam. Ao contrário dos adultos com quem convivia, eles não a encaravam com desdém, um olhar reprovador, ou, pior, um olhar de piedade só porque ela era gorda.

Sim, ela era gorda! E Deus sabe como era difícil admitir isso… Tantas horas na academia, tantas dietas, tantos livros de autoajuda… Para quê? Ela continuava a suportar os comentários furtivos, as perguntas ofensivas — Onde está aquele seu namorado da última festa, querida? — e o jogo de aparências. Tinha certeza de que era o assunto principal nas rodas quando não estava presente; motivo de risinhos escondidos. Podia imaginá-los gargalhando dela, rindo a valer de cada parte de seu corpo; podia imaginá-los à mesa do café da manhã, comentando a noite anterior, comentando que ela engordara ainda mais e que, desse jeito, nunca conseguiria um marido e estaria fadada à solidão. Criariam alcunhas, comparações e apelidos… Tudo para se divertir na próxima vez em que a vissem.

Por isso, ela precisava da arma. Precisava tê-la ali, ao alcance das mãos. Quando a comprara, três anos antes, estava com medo de assaltos a residências do bairro. Era uma forma de se defender dos bandidos, caso invadissem sua casa. Agora, a arma tinha outra função. Servia para defendê-la do mundo, o mundo nocivo lá fora, o mundo que a desprezava por ser gorda, por não ter atrativos físicos, por não ser bonita. A arma era a fuga para quando ela se sentia sufocada. Bastava puxar o gatilho. Deixar para trás os amigos fofoqueiros, a preocupação com o corpo, a busca por um amor que nunca viria… Tão simples, tão fácil!

Naquela manhã, ela acordou com vontade de comer pão doce. E se condenou por isso. Ah, ela adorava pão doce! Mas não podia, não podia mesmo! Ficaria mais gorda, mais feia, mais, mais e mais. Para saciar-se, correu até a gaveta — sua gaveta mágica. Pegou a arma num resfolegar e se acalmou ao senti-la em suas mãos. Carregou o revólver com uma única bala e levou-o à cabeça, esperando a sensação passar. A adrenalina percorria suas veias, expelida pelos poros.

A professora esperou vinte minutos, mas a sensação não passou. Diferente das outras vezes, continuou lá, insistindo para que ela completasse o serviço. Em alguns momentos, ela chegou a pressionar levemente o gatilho; uma força um pouco maior explodiria sua cabeça. Mas o que viria depois? Teria um mundo melhor para viver? Nesse mundo, as pessoas não ligariam para o peso umas das outras? Lá, ela encontraria alguém que a amasse como seus alunos?

Seus alunos!

Viu no relógio da cozinha que estava atrasada. Dali a vinte minutos deveria estar na sala de aula, aplicando a prova bimestral para as crianças. Pensou em correr, vestir uma roupa qualquer, buscar o carro na garagem para chegar o mais rápido possível à escola, mas não se moveu. A sensação ainda era muito forte. Estava paralisada, a arma em punho.

Teve uma ideia; um flash que invadiu sua mente trazendo a solução exata. Como não tinha pensado nisso antes!? Era tão óbvio: levar seus alunos com ela! Matar alguns deles e depois cometer suicídio. A garantia de que continuaria a ser amada por eles onde quer que fossem depois da morte. Era perfeito! O revólver suportava oito balas. Uma para ela. O restante para sete alunos que ela escolheria na hora; alunos que adorariam morrer com ela porque a amavam!

Extasiada, a professora carregou o tambor com oito balas e se arrepiou ao ouvir o clique metálico da arma. Guardou-a na pasta, junto do envelope com as provas. Saiu de casa assoviando uma canção que inventou na hora.

 

“Desculpem o atraso, crianças. Tive alguns problemas antes de sair de casa.”

Entrou na sala, ofegante. O relógio acima do quadro-negro registrava os dez minutos de atraso.

“Vamos sentar! Vou começar a prova! Guardem os estojos, apenas lápis e caneta em cima da mesa!”

Todos obedeceram. Eram tão bonzinhos! Seria muito difícil escolher apenas sete. Distribuiu as provas e observou-os, com um sorriso. Tão dedicados e inteligentes! Nenhum deles viu quando a professora tirou a arma da bolsa. Não viram quando ela mirou o revólver em direção a suas cabecinhas, passando um por um.

Artur, Clara, Lucas, Bruno, Carol, Mário, Vera…

Todos tão queridos! Tão especiais!

Caminhou pela sala, o revólver escondido nas costas.

Parou ao lado de Caio. Os cabelos loiros caindo sobre a testa, os argutos olhinhos azuis que acompanhavam as explicações dela no quadro. Ele era adorável. Sem dúvida, seria um dos sete…

E Joana? Os cabelos ruivinhos encobrindo a prova sobre a carteira. A Joana a amava! Gostava dela como uma mãe… Trazia presentinhos e chocolates quase todo mês! Era hora de retribuir tanto carinho. Ah sim, ela também estava escolhida!

Anabela levantou o braço e a professora se aproximou. Pobre Anabela, bela apenas no nome. A menina tinha uma personalidade forte para seus onze anos, era comunicativa e talentosamente persuasiva. Daria uma ótima advogada. Ou, talvez, uma ótima professora. Assim como ela: uma mulher inteligente, profissional; mas feia. Feia e gorda. Acabaria exatamente como ela… Cometendo suicídio, percebendo que acabar com a própria vida é a melhor solução nesse mundo de pessoas magras.

Decidiu que também levaria Anabela. Não porque gostasse especialmente dela — preferia os alunos magros e bonitos —, mas para fazer um favor à menina. Poupá-la dos anos de tortura e recusa, poupá-la dos risinhos sacanas a suas costas, poupá-la da dor…

Encostou-se na parede do final da sala. Faltava pouco. Estudou as cabecinhas pensantes, inocentes, dedicadas a tirar uma nota dez para alegrar a mãe no fim do mês.

Escolheu os outros quatro sem muita dificuldade.

Sete alunos. Quatro meninos e três meninas.

Caio, Victor, Rafael, Pedro, Joana, Clara e Anabela.

Sete amigos que partiriam com ela.

Os tiros causariam grande alvoroço no colégio. Sem dúvida, poderiam ouvir os estampidos a quilômetros de distância. A polícia chegaria logo. Ela teria que agir depressa. Respirando fundo, mirou na cabeça de Anabela. Sem chances de erro.

Sentiu a alavanca do gatilho brincar com seu indicador, provocativa. Fechou os olhos ao puxar o gatilho, deixando que os gritos infantis lhe dessem respostas. Ouviu passos, o ranger das carteiras, correria… Eles estavam fugindo! Malditos! Estavam fugindo! Como podiam fazer isso com ela?!

Deu outro tiro ao léu.

Abriu os olhos e viu diante dela a menina Anabela, morta. A cabeça empapava de sangue a prova sobre a carteira. O corpo rechonchudo era um monte de carne fria e flácida. A sala estava vazia. Os outros a tinham abandonado. Traidores! Medrosos! Haviam optado por continuar nesse mundo de dietas. Apenas Anabela estava ao seu lado. Apenas Anabela não a havia traído. Tinha ficado ali, morta, sua imagem e semelhança quando criança. Gorducha e inteligente.

Eram como mãe e filha…

Teve vontade de chorar. Mas não havia tempo. Não lhe restava mais nem um segundo. Logo a polícia chegaria.

Caminhou pesadamente em direção ao tablado, seus quarenta e nove quilos dificultando cada passo. Ela era gorda. Sabia disso. E ninguém haveria de lhe dizer o contrário. O espelho não a deixava mentir. Bastava comparar com as mulheres esguias nas revistas, com as modelos na televisão… Era gorda. Deveria seguir seu destino junto de Anabela. Calar os comentários, as críticas e as piadinhas que faziam dela…

Lançou um último olhar a Anabela. Gorda e feia.

Então, puxou o gatilho.

* * * * *

Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Advogado e escritor, publicou contos em diversas antologias de mistério, inclusive na revista americana Ellery Queen Mystery MagazineSuicidas (ed. Saraiva), romance de estreia do autor, foi finalista do Prêmio Benvirá de Literatura 2010, do Prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do Prêmio São Paulo de Literatura 2013. Em 2014 lançou seu novo romance pela Companhia das Letras, Dias perfeitos. Atualmente, o autor realiza trabalhos editoriais, ministra palestras sobre processo criativo e escreve o projeto de uma série policial para TV.

Site — Facebook — Twitter

Uma conversa sobre medo e criatividade com Stephen King

Por Ana Maria Bahiana


Foto: Steve Schofield

Quando, meses atrás, tive a oportunidade de conversar com Guillermo del Toro, uma boa parte do nosso papo envolveu Stephen King, que Del Toro considera o maior autor de ficção de terror da atualidade. Mal sabia eu que, não muito tempo depois, teria a oportunidade de encontrar Mr. King em pessoa.

Na verdade, esse não foi nosso primeiro encontro. Mas com certeza ele não vai se lembrar que, na plateia alegremente chorosa da formatura da turma de 2001 do prestigioso Vassar College, da qual ele era paraninfo, lá estava eu, no papel de mãe extática de um dos formandos. A conexão Stephen King-Vassar ia mais além: Owen, o caçula do casal de autores Stephen King & Tabitha Hill, foi colega do meu filho em várias disciplinas, e estava entre os formandos daquela amena tarde de maio de 2001. Profeticamente, King disse no seu discurso aos formandos que estava ali para imbuir neles a necessidade de “ter muito medo”: “Medo do futuro, que não é tão cor de rosa como todo mundo que em geral está aqui neste pódio diz a vocês.”

Fora a formatura, as esbarradas nas sempre aflitas visitas aos filhotes no campus da Vassar e as muitas horas dentro da minha cabeça graças aos livros que sempre devorei tão avidamente, este foi mesmo primeiro tête a tête com o homem que provavelmente mais pôs medo em gente pelo mundo afora.

E o que descubro? Que ele é um homem sem medos (fora o acidente que quase o matou em 1999, quando foi atropelado por um caminhão desgovernado numa estradinha rural do seu querido estado natal do Maine); que seu primeiro trabalho foi como comentarista de cultura pop no jornal da universidade; que o único filme que não aguentou ver até o final foi Transformers (“a coisa mais ridícula que vi na vida”); e que atualmente está passando por “uma fase Emile Zola. Nunca tinha lido antes. Peguei um livro por acaso e fiquei doido. Que coisa incrível”.

* * *

De onde vêm suas ideias?
Do nada, aparentemente. Depois de todo esse tempo ainda não tenho uma explicação melhor do que essa. O máximo que consigo dizer é que vejo algo dentro de coisas, pessoas e situações. Por exemplo, eu estava num evento na França no final do ano passado, indo para o evento num SUV grande, bem alto e, quando paramos, ficamos quase na mesma altura de um ônibus que parou ao nosso lado. Eu olhei pela janela e dei de cara com um homem na janela do ônibus lendo um jornal. E aí eu pensei: que interessante, estamos a menos de 60 centímetros um do outro mas somos dois mundos diferentes, duas pessoas indo em direções diferentes e no entanto tão, tão próximos. E aí comecei a pensar… e se… e se não fosse um homem, fosse um casal, e na hora em que por acaso eu olho para a janela o homem corta a garganta da mulher e nós estamos ali pertinho, a menos de 60 centímetros de distância e seguimos em direções opostas… Essa é uma história que eu gostaria de contar. Não tenho uma metáfora boa para explicar, mas é meio como estar de patins e segurar no para-choque de um caminhão… você vai se deixando levar.

Você anota e guarda essas ideias? Woody Allen faz isso. Ele diz que nunca vai ficar sem ideias para filmes porque tem uma gaveta cheia de papeizinhos…
Não anoto mais não. Acredito que o tempo tem que dizer se uma ideia é boa ou ruim. Ter um caderno ou uma gaveta cheia de ideias não faz sentido para mim — eu com certeza ia gastar tempo e espaço anotando um monte de ideias ruins. Uma ideia ruim a gente esquece e é assim que deve ser. Uma boa ideia fica na sua cabeça até que você faça uso dela. Nem sempre foi assim — houve um tempo, quando eu era mais jovem, que eu tinha tantas ideias ao mesmo tempo que literalmente me sentia como se meu crânio fosse explodir. Nessa época eu odiava ter que trabalhar num livro porque isso queria dizer que eu não ia poder estar trabalhando em outro. Escrever um livro é como estar casado — você tem que ser fiel ao seu projeto, tem que ficar trabalhando nele e se uma ideia linda aparece, uma ideia maravilhosa, você não pode sair correndo atrás dela… Tem que ser fiel à sua esposa, ao seu projeto. Nessa época eu anotava ideias. Se você me encontrasse quando eu tinha 40 anos eu teria uma gaveta com ideias. Hoje eu conheço melhor como se dá esse processo. E tenho menos ideias. Mas são ideias melhores, acho.

Qual o seu processo de trabalho, de criação?
É difícil de explicar, porque não é uma coisa clara e verbal para mim, mas vou tentar. Quando eu começo a visualizar as pessoas, onde elas estão, o que estão fazendo, o que vão fazer, como elas falam, como se sentem, qual seu discurso interior, então elas se tornam reais e não tenho vontade de me levantar da cadeira, o que é ótimo mas também terrível, porque é uma coisa muito exigente e muito difícil e absolutamente retira você do mundo ao seu redor, do mundo das outras pessoas à sua volta… E eu não quero sair do mundo das pessoas sobre as quais estou escrevendo, não consigo usar a palavra “personagens”, eu quero ficar no mundo que está na minha cabeça, porque estou vendo com clareza o mundo na minha cabeça e mais nada tem a mesma importância. Deu pra entender? Isso explica alguma coisa?

Você está quase descrevendo um filme na sua cabeça…
Somos uma geração que cresceu com cinema e televisão. Ver com o olhar da câmera é segunda natureza para nós.

Por falar em cinema: você continua não gostando da adaptação de Stanley Kubrick para O Iluminado?
Continuo. Minha opinião não mudou. Não acho que seja um filme muito bom. É lindo de se ver, mas a mesma coisa pode ser dita de um Cadillac clássico que tenha sido bem tratado. É um filme frio. No livro, Jack Torrance, o protagonista, tem o arco narrativo de um herói trágico, ele está determinado a fazer o que for melhor para sua família e pouco a pouco ele é sugado, manipulado, indo e vindo, indo e vindo até que ele quebra completamente. Wendy Torrance, a esposa, é uma mulher bonita que tem uma enorme coragem, muita fibra, muito coração, é uma mulher notável. E Kubrick me dá um Jack Nicholson que parece que está sendo incorporado por um delinquente juvenil motoqueiro de um filme B dos anos 60 e uma Shelley Duval que é uma espécie de caricatura anti-feminista, uma máquina de gritos histéricos. Não é meu livro e não é um bom filme, pra mim. É todo estilo e nenhuma substância.

Do que você tem medo?
Não tenho muito medo não. Deve ser porque passo meus medos para os meus leitores (gargalhada). Eu durmo muito bem e tenho pouquíssimos pesadelos porque acho que já trabalhei todas essas coisas nos meus livros (nova gargalhada). Que ótimo negócio pra mim! Tive uma infância normal, tranquila. O que sempre tive foi uma grande, enorme imaginação. O que eu tive de medos e pesadelos foi consequência dessa imaginação. E criei um modo fantástico de me livrar deles: em vez de pagar a um analista 120 dólares a hora para ouvir meus medos e pesadelos, as pessoas me pagam para ler meus medos e pesadelos! (longa gargalhada) Se você quer saber meu grande segredo, é muito simples: eu amo, eu adoro fazer as pessoas se cagarem de medo!

* * * * *

Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Twitter — Facebook — Blog

A questão do Snoopy

Por Joca Reiners Terron


Muitos escritores devem ter sido inspirados na infância por um certo cão beagle que finge ser um ás combatente da Primeira Guerra que trava batalhas aéreas encarapitado no teto de sua casinha de cachorro. Snoopy é o único cão escritor do mundo. Talvez por isso também seja o único personagem a suplantar a realidade e seus problemas em Peanuts, cartum criado por Charles Schulz em 1950 e publicado até a morte do autor, em 13 de fevereiro de 2000, véspera da publicação da última tira.

Peanuts é a série de tiras de jornal mais longa da história. Inteiramente escrita, desenhada e letreirada por Schulz sem qualquer ajuda de assistentes, foi publicada ao longo de cinquenta anos em 2600 jornais de todo o mundo, atingindo mais de 350 milhões de leitores. Com números tão expressivos, Schulz criou o modelo tira de jornal como é conhecido e explorado hoje por filhos diletos como Calvin & Haroldo ou Garfield.

Schulz conseguiu traduzir a ambivalência do comportamento humano por meio de seus personagens desde a tira inaugural, publicada em 2 de outubro de 1950. Nela, dois garotinhos no meio-fio festejam a aproximação do “velho e bom Charlie Brown”. Todavia, quando Charlie Brown cruza sem lhes dar atenção, passa imediatamente a ser odiado. Várias qualidades do trabalho de Schulz já se faziam notar nessa primeira tira, como o caráter realista de bonequinhos infantis somente na aparência e o domínio da progressão temporal em apenas quatro quadrinhos.

Como observou o quadrinista Art Spiegelman, “Schulz separou diferentes aspectos de sua própria personalidade em vários personagens e passou o resto de sua vida permitindo que eles se chocassem uns contra os outros”. Assim, o fantasioso Snoopy, o preocupado Charlie Brown, o filosófico Linus e a mandona Lucy, entre outros personagens, tipificaram comportamentos com os quais pessoas de todo o mundo se identificaram.

Com Peanuts, pela primeira vez na história dos quadrinhos os leitores se preocupavam com pequenas crianças feitas de papel e tinta como se elas fossem de verdade. A longevidade da série criada por Charles Schulz levou esse envolvimento a um paroxismo: muita gente começou a acompanhar as aventuras de Charlie Brown e companhia na infância e fez isso até a maturidade, crescendo ao mesmo tempo que eles. Diagnosticado com uma doença que o impediu de continuar a criar em 1999, Schulz caía em lágrimas todas as vezes que era obrigado a falar de seus personagens.

Se o bom e velho Charlie Brown é o garotinho que mais se parecia com seu criador, inclusive fisicamente, o cão beagle Snoopy é a perfeita tradução da imaginação criadora de Charles Schulz. Ao travar batalhas aéreas matutinas contra o Barão Vermelho e ao batucar lentamente suas histórias numa máquina de escrever, Snoopy divertiu e demonstrou a importância da vida secreta das fantasias para a preservação da lucidez na vida real. Com isto, inspirou muitos escritores. Eu, muito humildemente, sou apenas um deles.

[Em novembro, a Companhia das Letrinhas vai publicar quatro livros infantis de Snoopy e sua turma: É hora da escola, Charlie Brown; Charlie Brown e a Grande Abóbora de Halloween; Largue o cobertor, Linus e O dia dos namorados de Charlie Brown.]

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
Site – Twitter – Facebook

 

Remoções

Por Paulo Scott*


Foto: Paulo Scott

Enquanto serve mais um pouco da coca-cola nos nossos copos, o investigado diz que hoje à noite o bicho vai pegar. Falo que ele precisa tomar cuidado, que não é legal ficar o tempo todo tão exposto, que o segredo da coisa é avançar e depois recuar, que é deixar pra fazer o que tem que fazer quando for o momento certo. Ele diz que nunca sentiu tanta adrenalina, que não é tão fácil de controlar a adrenalina. Pergunto quantos mais vão estar por lá no final de tarde. Ele diz que não sabe, que sabe tanto quanto eu, que deixa pra ver o que pega quando o bicho pega. Digo que não quero correr riscos desnecessários. Ele diz que é divertido, que pra ele não passa de diversão. Digo que faço porque quero que as coisas melhorem no país, que não é possível que os que já têm muita grana fiquem ainda com mais grana enquanto a classe média e os trabalhadores só se ferram. Ele me encara com um olhar de quem está entendendo o que eu digo, mas que considera o que eu digo algo sem muita importância, diz que nada é mais foda do que quebrar vidraça de banco, que os bancos têm mais é que sumirem do mapa. Digo que concordo com ele, que se tem alguma coisa que eu vou quebrar certo esta noite é vidraça de banco. Ele ri. Ele não é muito de falar, isso não facilita o meu trabalho, mas aos poucos eu chego lá. Ele pergunta se eu não topo tomar uma cerveja. Digo que é um pouco cedo pra mim. Ele diz que pra um cara de trinta anos que está desempregado há meses eu pareço conformado demais com a vida. Esqueço de responder, fico olhando o movimento dos carros na Rio Branco. Quando trabalho meses disfarçado preciso disto, destes momentos em que digo pra mim mesmo que não importa o que vai acontecer a seguir. Ele diz que sou estranho, mas que sou legal. Respondo que estamos juntos nesta. Ele pega o cardápio do bar, que é uma folha A4 plastificada com a lista de sanduíches e aperitivos que eles preparam ali, diz que está com um pouco de fome. Digo que estou com um pouco de fome também. [...] É a primeira vez que saímos os dois juntos do prédio. Fico um pouco nervosa, mas, droga de paranoia, quem é que vai descobrir? Ele toma a dianteira, vai na direção da Cinelândia. Fico parada em frente ao prédio por um instante mexendo no meu celular. Quando percebo que ele já está a uma distância de cem metros, começo a caminhar na mesma direção. Sei que hoje ele vai me dar um presente, não tenho certeza do que vai ser, mas sei que em algum bolso do blazer ou da calça tem algo que ele comprou pra me dar. Aniversário de seis meses. Seis meses transando duas vezes por semana à tarde no escritório do primo que está na Argentina. Os caras na rua me olham. É bom ser olhada aqui, muito diferente de ser olhada na praia. Perco ele de vista, melhor assim: ele ganha tempo pra pegar o elevador, chegar no escritório, ajeitar as coisas e pensar em uma forma bem show de me entregar o presente. Passo por um cara interessante. Ele faz uma careta engraçada, fofa, e fala pra mim uma frase que não consigo entender. Não seguro o riso. Aqui é bem melhor do que na praia. Espero que isso da gente ter saído junto do prédio não tenha sido um erro. Seis meses. Maneiro demais. Só não dá pra se descuidar. Da próxima vez espero cinco minutos ou mais. Seria uma burrice pôr tudo a perder por bobeira. [...] O passageiro me dá uma nota de cem reais. Digo que não tenho troco pra cem reais. Ele diz que é por isso que o Brasil não vai pra frente e insiste: como é que você não tem troco pra cem? Explico que pra uma corrida de dezoito reais, não ter troco pra uma nota de cem, considerando que peguei no trabalho há menos de meia hora, não é algo tão absurdo. Ele pede pra eu esperar ali, que ele vai dar um jeito de trocar em algum lugar, afinal estamos na Rio Branco. Não há o que eu possa fazer. Digo que por mim está tudo bem. Ele diz que eu deveria ficar mais esperto com esse detalhe do troco, que sair atrás de troco só vai ferrar com a vida dele, que quando alguém pega um táxi é porque quer agilidade, rapidez. Eu fico calado. Ele sai do táxi, bate a porta e desaparece na multidão que circula pela calçada. De longe, uma dupla de fiscais do trânsito me observa. [...] Ela já devia ter saído desta porra de livraria, não deve estar se controlando, deve estar pegando mais livros do que consegue esconder na bolsa. Caraca, maluco, o que essa louca tá pensando? Vai querer furtar a coleção do Deleuze inteira? Não acredito, não acredito, não acredito. Eu que não vou ficar segurando livro quando ela cansar de ficar segurando a bolsa durante a passeata. Se demorar mais um minuto pra sair por aquela porta, juro que vou embora. Um minuto a partir de agora. De repente vou ali, na farmácia, e volto, ou fico cuidando de lá. É, fico olhando de lá. Caralho, essa garota me paga. [...] A contadora insiste que prestou toda a assessoria que o nosso contrato previa. Digo que ela está enganada, que estou fazendo tudo sozinho, que nem sequer das certidões negativas que a Funarte está solicitando ela se encarregou de providenciar. As pessoas que vêm no contrafluxo da calçada são em número maior do que as que estão indo, por vezes eu e ela precisamos nos distanciar para em seguida ficar um ao lado do outro de novo. Ela diz que eu sou um arrogante, que é impossível conversar comigo. Deixo que ela fale à vontade e na esquina da Rio Branco com a Rua do Ouvidor eu paro, digo que entrarei ali. Ela diz que eu sou terrível, diz que se dependesse dela tudo se ajeitaria. Respondo que se a Funarte recusar a prestação de contas do projeto eu vou processá-la, que estou profundamente arrependido de um dia tê-la contatado, que ela é uma tremenda Um Sete Um, uma tremenda incompetente. Ela ameaça me dar uma bolsada, mas eu me afasto. Meu telefone toca. Viro de costas para ela, atendo. É o meu sócio no projeto perguntando como foi minha conversa com a contadora. Olho por cima do ombro para saber se a vaca ficou ou foi embora. Foi embora. Respondo que teremos de contratar outro contador e depois vamos ter de processar a vagabunda. Ele diz que não teremos dinheiro para contratar outro contador. Explico que darei um jeito. Uma ruiva toda montada de executiva passa e me dá uma olhada. Faço uma careta engraça e aponto para o celular falando sem emitir som: estou falando com a sua futura sogra. Ela ri. Faço sinal para ela esperar. Ela dá uma paradinha, mas segue adiante. Peço ao meu sócio que não se preocupe, proponho de nos encontrarmos no café da Livraria Travessa ali da Rio Branco daqui a duas horas. Ele diz que não está nos seus planos ficar pelo Centro mais do que o necessário. Peço que ele me ligue quando já tiver se liberado. Passam duas mulatas estonteantes. Aceno para a que está mais próxima. Ela acena de volta. Meu sócio diz que vai tentar, mas que não está mesmo disposto a ficar pelo Centro mais tempo do que o necessário. [...] Desembarcamos do metrô na estação Cinelândia, saímos na esquina do Cinema Odeon. Processando impassível a quantidade brutal de informações a que o estou expondo desde que saímos do meu apartamento em Ipanema, o menino segura minha mão. Digo que ali é o centro do Rio de Janeiro (ele me olha com certa devoção, talvez me olhe dessa forma por conta das boas maneiras que sua mãe lhe ensinou, porque talvez tenha enfatizado que ele precisa ser obediente e atencioso, principalmente com os velhos, principalmente comigo, ainda assim percebo o quanto ele está concentrado operando a máquina moedora que existe dentro da sua mente e na mente de qualquer criança sadia como ele, uma esponja insaciável que absorve tudo sem diferenciar normalidade e anormalidade, um estado constante que ficará lá até algum momento da sua adolescência e depois enfraquecerá). Caminhamos até a frente da Biblioteca Nacional, digo que atrás daquele prédio bonito existia um morro bem grande, onde os meus bisavós compraram uma casa quando se mudaram para o Rio, que o nome do morro era Morro do Castelo e que foi desmanchado no início do século passado. Pergunto se ele sabe o que significa a palavra século. Ele volta a me olhar, sem perder seu jeito inquietante, inquietante ao menos para mim, faz cara de quem interrompeu o funcionamento da máquina moedora de informações por um instante e está procurando no seu fichário mental de palavras em português e também em norueguês – porque mora na Noruega e, mesmo que sua mãe fale em português com ele em casa, na casa da Noruega, e o esteja alfabetizando também em português, é com a língua norueguesa que ele se sente mais confortável nas conversações –, responde que um século são cem anos e se volta na direção do Teatro Municipal. Pergunta se eu já entrei dentro daquele lugar. Respondo que sim, muitas vezes, inclusive com a sua mãe quando ela tinha quase a idade dele. Se fosse mais velho talvez perambulássemos pelas ruas secundárias, mas como fazer uma criança de oito anos que nunca esteve no centro desta cidade lembrar para o resto da vida da primeira, e talvez única, vez em que esteve com o seu bisavô no centro desta cidade se não andar pela principal avenida do centro desta cidade de extremo a extremo. Seguimos até a esquina com a Almirante Barroso. Quando o sinal abre para os pedestres, eu o pego nos braços, ele não se surpreende, que criança maravilhosa. Pela faixa de segurança, vamos até onde ele possa perceber a reta que deverá acabar na Praça Mauá. Aponto na direção da Praça Mauá, pergunto se consegue ir caminhando até a outra ponta. Ele sorri, balança a cabeça, diz uma palavra em norueguês, uma palavra com uma sonoridade maravilhosa, tão maravilhosa quanto ele, uma palavra que eu não faço a menor ideia do que significa. [...] Reclamo por quase termos sido atropelados só porque do nada ele gritou o nome de Getúlio Vargas e, desconsiderando por completo o fato de que não tenho menor simpatia pela figura do Getúlio Vargas, me puxando pelo braço, saiu correndo feito um destemperado na direção do obelisco onde os gaúchos amarraram os cavalos na Revolução de mil novecentos e trinta. Ele retruca afirmando que de nada valeria estar de férias no Rio de Janeiro pela primeira vez juntos se não tirássemos uma foto naquele monumento tão emblemático para a história dos gaúchos e do Brasil. Pergunto se ele não poderia ter esperado o sinal fechar. Concentrado na operação de tirar sua maldita máquina fotográfica do estojo, ele não responde, apenas sorri da maneira artificial de quem está usando óculos de sol que lhe cobrem quase todo o rosto. Aviso que não vou tirar foto alguma com ele naquele lugar. O sorriso desaparece. Ele argumenta que seria uma foto importante. Não sei o que dizer sem que acabe perdendo de vez o pouco de paciência que me resta. O mais acertado talvez fosse contar que pretendo me separar dele quando voltarmos a Santa Maria, pegar um táxi e voltar ao hotel, deixando que ele vá sozinho até a loja masculina onde seu pai costuma comprar as tais camisas sociais de linho duma tal camisaria da zona norte do Rio que está à beira da falência há anos, mas que fabrica as melhores camisas de linho que se possa encontrar no Brasil, deixando que se entretenha à vontade com as lojas da Rio Branco. Pego a máquina da sua mão, digo que farei uma foto bem bacana. Resignado com a minha recusa, ele diz que é melhor eu colocar no automático. Obedeço. Ele pede que eu tente um ângulo em que apareça a torre onde está o relógio da antiga Mesbla. Obedeço. Pede que eu me afaste mais um pouco, mesmo que esse eu me afastar mais um pouco me leve a alguns passos fora do calçamento me deixando à mercê dos carros que estão passando. Obedeço. [...] Tentando não ser o único a ficar dizendo que tem alguma coisa estranha nisso do motor do barco ter parado de funcionar da maneira como funcionou, o único a insistir com o dono do barco pra que ele baixasse a âncora enquanto resolvia o problema do motor e, principalmente, fazendo de tudo pra não pegar o caminho fácil, que seria começar a beber cerveja e, pior do que beber cerveja, a beber no mesmo ritmo dos outros caras convidados da festa, daquela festa de homens jovens e sarados vestindo apenas sungas que ele inventou porque estava entediado, resolvo parar de fazer perguntas sobre qual seria o plano B se o motor não voltasse a funcionar e dar descanso ao dono do barco que neste momento está às voltas com a maquinaria tentando compreender o que aconteceu com aquele motor a diesel nada agradável de se olhar porque está visivelmente sem a conservação adequada. Subo até a cabine do condutor, pego o binóculo sobre o tampo do lado direito do timão, me acomodo longe da muvuca que ele e os seus convidados estão promovendo, como se não houvesse motivo algum para se preocupar. Coloco os fones de ouvido, programo o álbum da Adriana Calcanhoto pra rodar no iphone, pelo binóculo, olho na direção do centro do Rio e relaxo. O barco está de frente pra Avenida Rio Branco, consigo ver o corredor de prédios que se estende em linha reta, uma reta perfeita, até o outro lado do Centro, o resultado do que a terra firme é capaz de proporcionar e a altura que só a terra firme pode proporcionar. Um dos caras de sunga vem falar comigo, a voz delicada da Calcanhoto está suficientemente alta pra que eu não entenda uma palavra do que ele está dizendo. Então ele faz sinal pra que eu tire ao menos um dos fones e o escute. Opto por colocar a reprodução no silencioso, pergunto se está tudo bem. Ele me dá uma piscada, que é claramente uma forma de afirmar que não podia estar melhor, e pergunta se está tudo bem. Respondo que sim. Ele explica que o meu amigo, o dono da festa, pediu pra ele vir perguntar o que eu estou pensando. Respondo que estou só olhando a Rio Branco e pergunto se ele não acha engraçado que o nosso barco ancorado esteja coincidindo com o alinhamento da Rio Branco. Ele diz que a Rio Branco faz ele se lembrar do carnaval, dos blocos, principalmente do bloco Cacique de Ramos. Eu digo pra ele que ela me faz lembrar trabalho, conto que quando saí da casa dos meus pais aos dezesseis anos trabalhei por quase dois anos numa daquelas lanchonetes de calçada e que as lembranças daquele lugar não são as melhores. Ele pergunta se eu já fui alguma vez nos desfiles de carnaval que acontecem lá. Digo que não sou muito fã de carnaval e que, na verdade, nem gosto muito de circular pelo centro do Rio, mas que precisava admitir: a Rio Branco tinha a sua energia. Da mesma forma que sentou ao meu lado ele se levanta, diz que ficou contente de ver que eu não estou triste, que só estou admirando a cidade. Não digo nada. Ele retorna à muvuca dos caras só de sungas. Tiro a música do iphone do silencioso. A tarde está linda, fico mais tranquilo ao me dar conta de que a tarde está linda e a terra firme não está tão longe, não sou bom de natação, mas com um dos coletes salva-vidas do barco, ainda mais estando sóbrio como estou, tenho certeza de que consigo me virar se for mesmo necessário. Meu Jesus do Céu, que tarde linda. Não importa o que de pior aconteça por aqui, pelo menos ali, na terra firme, não vai ter o que tire a graça e a tranquilidade desta tarde linda, linda, linda.

*Este conto foi escrito para um projeto artístico que deverá ser veiculado até o final do ano. Por razões que não vêm ao caso explicar neste momento, teve de ser modificado, adaptado e reduzido. Aproveito tudo que está em jogo neste período pré-eleitoral para lembrar (ainda tentando entender toda sua riqueza) o que aconteceu em junho do ano passado não só no Rio de Janeiro, mas no Brasil inteiro. Literatura e política são dimensões culturais muito distintas, mas são consequências relevantes da vida; o que sei é que uma dessas duas dimensões jamais chegará tão perto da alma brasileira e da sua inquietude única como a outra. Na próxima edição, prometo, retomo o estado normal da coluna. Até lá.

* * * * *

Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal (Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro(Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em 2013, e em 2014 lançou o livro de poemas Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.

Twitter