Colunistas

Entendendo a América para o Negro Não Americano: Reflexões sobre o Amigo Branco Especial

Por Ifemelu


Raceteenth ou Observações diversas sobre negros americanos (antigamente conhecidos como crioulos) feitas por uma negra não americana.

 

8. Viajar sendo negro

O amigo de uma amiga, um Negro Americano moderno e cheio da grana, está escrevendo um livro chamado Viajar sendo negro. Não só negro, diz ele, mas visivelmente negro, porque existe todo tipo de negro e, com todo respeito, ele não está falando daqueles que parecem ser porto-riquenhos ou brasileiros ou sei lá o quê, está falando de quem é visivelmente negro. Porque o mundo trata você de um jeito diferente. Nas palavras dele: “Tive a ideia de fazer o livro no Egito. Cheguei ao Cairo e um árabe egípcio me chamou de bárbaro negro. Eu pensei: ‘Ei, achei que eu estava na África!’. Então comecei a pensar em outras partes do mundo e em como seria viajar para lá quando se é negro. Tenho a pele bastante escura. Os brancos do sul de hoje, se me vissem, me chamariam de negão. Os guias de viagem dizem o que você deve esperar se for gay ou mulher. Precisam fazer isso com quem é visivelmente negro. Expliquem para os negros que viajam como são as coisas. Não é que alguém vai atirar em você nem nada, mas é muito bom saber os lugares em que vão te olhar com espanto. Na Floresta Negra, na Alemanha, é um olhar de espanto bastante hostil. Em Tóquio e Istambul, ninguém ligou para minha aparência. Em Shanghai, os olhares foram intensos; em Delhi, raivosos. Eu pensei: ‘Ei, nós não estamos meio que juntos nesse barco? Tipo, pessoas de cor?’. Eu tinha lido que o Brasil é a meca das raças, mas, quando fui ao Rio, ninguém que estava nos restaurantes e hotéis caros se parecia comigo. As pessoas reagem de forma estranha quando eu vou para a fila da primeira classe no aeroporto. É uma reação de simpatia, como quem diz você está cometendo um erro, não pode ter essa aparência e viajar de primeira classe. Fui ao México, e eles ficaram me olhando. Não foi nem um pouco hostil, mas faz você se dar conta de que chama atenção, é como se gostassem de você, mas mesmo assim você é o King Kong”. Nesse ponto, meu Professor Bonitão disse: “A América Latina como um todo tem um relacionamento muito complicado com a negritude, que é ofuscada por toda aquela história de ‘somos todos mestiços’ que eles contam para si mesmos. O México não é tão ruim quanto lugares como a Guatemala e o Peru, onde os privilégios dos brancos são tão mais óbvios, mas esses países têm uma população negra muito maior”. E então outro amigo disse: “Os negros nativos são sempre tratados de maneira pior do que os de outros países em todo lugar do mundo. Minha amiga, que tem pais togoleses e nasceu e foi criada na França, finge ser anglófona quando vai às compras em Paris, pois as vendedoras são mais simpáticas com os negros que não falam francês. Assim como os negros americanos são bastante respeitados nos países africanos”. O que vocês acham? Contem suas histórias de viagem nos comentários.

 

9. O que os acadêmicos querem dizer quando falam em privilégio dos brancos, ou Sim, é um saco ser pobre e branco, mas experimente ser pobre e não ser branco

Bom, um cara falou para o Professor Bonitão: “Essa história de privilégio dos brancos é besteira. Como posso ser privilegiado? Passei uma infância pobre pra cacete em West Virgínia. Sou um caipira dos Apalaches. Minha família recebe ajuda do governo”. Tudo bem. Mas o privilégio é sempre comparado a outra coisa. Agora imagine alguém como ele, alguém que seja tão pobre e fodido quanto ele, só que negro. Se ambos fossem presos por, digamos, posse de drogas, seria mais provável que o cara branco fosse mandado para um tratamento e mais provável que o cara negro fosse mandado para a cadeia. Todo o resto é igual, exceto a raça. Veja as estatísticas. O cara que é caipira dos Apalaches é um fodido, o que não é legal, mas, se ele fosse negro, ia ser fodido ao quadrado. Ele também disse para o Professor Bonitão: “Por que a gente sempre tem de falar em raça, aliás? Não podemos simplesmente ser humanos?”. E o Professor Bonitão respondeu: “É exatamente isso que é o privilégio dos brancos, o fato de você poder dizer isso. A raça não existe realmente para você, pois nunca foi uma barreira. Os negros não têm essa escolha. O negro que mora em Nova York não quer pensar em raça, até que tenta chamar um táxi, e não quer pensar em raça quando está dirigindo sua Mercedes dentro do limite de velocidade, até que um policial o manda parar. Por isso, o caipira dos Apalaches não tem privilégio de classe, mas tem privilégio de raça com certeza”. O que você acha? Dê sua opinião, leitor, e compartilhe sua experiência, principalmente se não for negro.

P.S. O Professor Bonitão sugeriu que eu postasse isso, é um teste para ver se você tem o privilégio dos brancos, inventado por uma mulher muito legal chamada Peggy McIntosh. Se você responder não para a maioria das perguntas, então parabéns, você tem o privilégio dos brancos. Quer saber para que serve isso? Quer saber a verdade? Não tenho ideia. Acho que é bom saber, só isso. Para você poder se gabar de tempos em tempos, para melhorar seu ânimo quando estiver deprimido, esse tipo de coisa. Aí vai:

Quando você quer entrar para um clube exclusivo, se pergunta se sua raça vai dificultar a entrada?

Quando você vai fazer compras sozinho numa loja cara, tem medo de ser seguido ou assediado?

Quando você liga numa emissora de televisão importante ou abre um jornal importante, encontra pessoas que são, em sua maioria, de outra raça?

Você se preocupa com o fato de que seus filhos não vão ter livros e material escolar que falem de pessoas da raça deles?

Quando você pede um empréstimo no banco, teme que, por causa de sua raça, vá ser considerado pouco confiável financeiramente?

Quando você xinga alguém ou se veste com roupas velhas, acha que as pessoas talvez digam que fez isso por causa da falta de moral, da pobreza ou da ignorância de sua raça?

Quando você se sai bem em alguma situação, espera que considerem uma honra para sua raça? Ou ser descrito como “diferente” da maioria das pessoas da sua raça?

Se você critica o governo, teme ser visto como um marginal cultural?

Ou teme que alguém te diga para “voltar para X”, X sendo um lugar fora dos Estados Unidos?

Se você é mal atendido numa loja cara e pede para ver um gerente, espera que essa pessoa seja de outra raça que não a sua?

Se um policial de trânsito manda você parar seu carro, você se pergunta se é por causa de sua raça?

Se você aceitar um emprego numa empresa que tenha uma cota de vagas para pessoas de cor, teme que seus colegas pensem que não é qualificado e que foi contratado apenas por causa de sua raça?

Se você quer se mudar para um bairro caro, teme não ser bem recebido por causa de sua raça?

Se precisar de ajuda legal ou médica, teme que sua raça possa prejudicá-lo?

Quando vê roupa de baixo ou curativos “cor da pele”, já sabe que eles não vão ser da cor da sua pele?

 

10. Entendendo a América para o Negro Não Americano: Reflexões sobre o Amigo Branco Especial

Uma grande dádiva para o Negro Enrustido é o Amigo Branco Que Entende a Situação. Infelizmente, isso não é tão comum quanto deveria ser, mas alguns têm a sorte de ter esse amigo branco para quem não é preciso explicar nada. Por favor, ponha esse amigo para trabalhar. Esses amigos não só entendem como têm um ótimo radar para hipocrisia e por isso sabem que podem dizer coisas que você não pode. A questão é que existe, em grande parte dos Estados Unidos, uma ideia dissimulada no coração de muita gente: a de que os brancos conseguiram emprego e vaga em escolas e universidades por mérito, enquanto os negros entraram porque eram negros. Mas a verdade é que, desde o início, os brancos têm conseguido empregos porque são brancos. Muitos brancos com as mesmas qualificações, mas com pele negra, não teriam o emprego que têm. Mas nunca diga isso publicamente. Deixe que seu amigo branco o faça. Se você cometer o erro de dizer isso, vai ser acusado de uma coisa curiosa que é “jogar a carta da raça”. Ninguém sabe exatamente o que isso significa.

Na época em que meu pai estava no colégio em meu país de negros não americanos, muitos negros americanos não podiam votar ou estudar em escolas boas. O motivo? A cor de sua pele. A cor da pele era o único problema. Hoje, muitos americanos dizem que a cor da pele não pode ser parte da solução. Se for, isso é chamado de um nome curioso que é “racismo invertido”. Peça para seu amigo branco comentar que a situação do Negro Americano é mais ou menos como se alguém ficasse preso injustamente durante muitos anos, mas aí de repente fosse solto, mas sem receber o valor da passagem de ônibus para voltar para casa. E, aliás, o ex-preso e o cara que o prendeu agora são automaticamente iguais. Se alguém mencionar que “a escravidão aconteceu há tanto tempo”, peça para seu amigo branco dizer que muitos brancos ainda estão herdando o dinheiro que suas famílias ganharam há cem anos. Portanto, se esse legado continua, por que não o legado da escravidão? E peça para seu amigo branco dizer como é engraçado quando as pessoas dos institutos de pesquisa americanos perguntam aos brancos e negros se o racismo acabou. Os brancos em geral dizem que sim e os negros em geral dizem que não. Engraçado mesmo. Mais sugestões sobre o que você deve pedir para seu amigo branco dizer? Por favor, coloquem nos comentários. E um brinde a todos os amigos brancos que entendem a situação.

* * * * *

Ifemelu é uma blogueira aclamada nos Estados Unidos e protagonista de Americanah, novo romance de Chimamanda Ngozi Adichie. Nos anos 1990, em busca de alternativas às universidades nacionais, paralisadas por sucessivas greves, a jovem Ifemelu muda-se para os Estados Unidos, deixando para trás sua família e Obinze, seu primeiro namorado. Ao mesmo tempo em que se destaca no meio acadêmico, ela se depara pela primeira vez com a questão racial e com as agruras da vida de imigrante, mulher e negra. O sucesso que obteve quinze anos depois, contudo, não atenuou o apego à sua terra natal, tampouco anulou sua ligação com Obinze. Quando ela volta para a Nigéria, terá de encontrar seu lugar num país muito diferente do que deixou e na vida de seu companheiro de adolescência.

Americanah foi o romance vencedor do National Book Critics Circle Award e eleito um dos 10 melhores livros do ano pela New York Times Book Review. O livro já está em pré-venda e chega nas livrarias no começo de setembro.

John em Estocolmo, Michael na Lua

Por Joca Reiners Terron


1. John em Estocolmo

John Lennon afastou a cortina para conferir se os malucos continuavam do outro lado da rua. Lá estavam, claro. “Eu devo ter atirado pedra na cruz de Barrabás e acertado no cocuruto de Jesus… Esses malucos não saem do meu pé desde 1963… Mas até aqui em Estocolmo?! Como é possível?”

— Sir Lennon, aquelas pessoas não são seus fãs, mas paparazzi…

— E qual é a diferença, mr. Eggman?

— O senhor não poderia me chamar pelo nome certo ao menos uma vez?

— E qual é o seu nome, mr. Postman?

— Chapman, sir Lennon, CHAPman!

— Ok, procurarei me lembrar. Agora traga o chá e os jornais, mr. Milkman. E não esqueça do leite!

Yes, sir Lennon…

Jornais, chá e um baseado. Algumas coisas se mantêm sempre iguais nas manhãs de um beatle mesmo aos sessenta e cinco, um ano depois de superados os melhores prognósticos daquela canção escrita pelo Paul.

— Notícias e mais notícias! Há vinte e cinco anos que são as mesmas: o Oriente continua médio, os americanos medíocres e a Terra e Paul McCartney permanecem uns chatos, mr. Policeman! Olha só, depois de assombrar a ópera, o bochechudo agora deu de escrever livro pra criança! Isto sim é que eu chamo de atentado terrorista, mr. Breadman! Traga os brioches!

— Sir Lennon, o alfaiate está aí fora. Veio trazer o fraque para o senhor provar…

— Fraque? Eu não sou um pinguim qualquer, mr. Fireman! I‘m the Walrus! Meio banguela à esta altura, claro, mas ainda dou minhas dentadas. E os sexagenários têm duplo sex appeal, sacou o trocadilho?

— Não, senhor.

— Mas claro que não, mr. Garbageman, o senhor entende tudo ao pé da letra! Não é assim que fica por aí lendo aquele panaca do Salinger?

— Graças ao Apanhador no Campo de Centeio consegui este emprego de mordomo há vinte e cinco anos, sir. Foi diante do prédio Dakota, onde o sr. vivia em Nova York.

— É mesmo, mr. Batman?

— Batman?

— Prefere Robin?

— Naquele dia o sr. autografou a cópia do livro que tenho até hoje. Era casado com madame Yoko, lembra-se?

— Não me lembro! Não me lembro! Como pude ter sido casado com uma mulher sem bunda por tanto tempo, mr. Repairman? Bundas são acessórios indispensáveis às mulheres! Bem, graças ao Mick conheci uma brasileira…

— O sr. se refere à dona Luciana?

— Que bunda, mr. Nowhereman! Ela não é lá muito boa das ideias, mas que bunda!

— Sir Lennon, há duas visitas esperando aí fora, mr. Bono Vox e mr. Bob Geldof…

— Diga a esses imitadores baratos que me escafedi num submarino amarelo pra Nowhere Land, mr. Honktonkman! Não quero saber de ninguém, quero ficar sozinho!

— Mas sir Lennon, será uma noite memorável, a dupla cerimônia de entrega do prêmio…

— Não quero saber, mr. Hiphiphurraman! Não tô nem aí com a academia sueca, com paz no Iraque, marcianos, beatles ou mulheres. Nem céus com diamantes me tirariam hoje deste hotel, mr. Forhe‘sajollygoodfellowman!

— Mas, sir Lennon! Nenhuma pessoa mereceu a honraria de receber o Nobel em duas categorias distintas numa só cerimônia…

— Eu não zelo pela paz tem muito tempo, mr. Fuckmei‘msickman! E a única coisa boa em literatura que fiz foi plagiar Lewis Carroll!

— Pela última vez, sir Lennon, me chame pelo nome certo!

— Mas… O que você está fazendo com esse revólver na mão, mr. Killerman? Deixa disso, mr. Markchapman!

 

2. Michael na Lua

Michael Jackson acordou disposto na manhã de seu aniversário de oitenta anos. O timbre mavioso de Diana Ross do robô varou a penumbra, despertando-o às seis. O clima no interior da cápsula espacial fora programado para mantê-lo de bom humor até de noite. Tudo estava tranquilo.

— Bom dia, Jacko, dormiu bem? — disse a Diana Ross robô. — Feliz aniversário! Oitenta anos, nossa, quem diria.

— Bom dia, suprema — respondeu Michael. Sua voz continuava tão aguda quanto nos tempos em que gravara “Ben”. — Mas me poupe desse lance de oitenta anos, tá certo? — ele prosseguiu. — Setenta e oito e nem mais um minuto. Você sabe que eu não conto aqueles dois anos em que fiquei hibernando.

Após verificar a ponta reluzente de seu dedão do pé e calçar o chinelo, Michael olhou de relance a chuva de meteoros lá fora e lembrou como foi difícil acordar naquela câmara hiperbárica em 2011. Tanto tempo naquela merda. Suas costas ainda doíam.

— Tá bem — disse Diana Ross. — Mas níver é níver, né? Tem que comemorar. Além disso, hoje é o grande dia.

— É — resmungou Michael. — O grande dia.

Nesse momento apareceu um robozinho flutuante em formato de bandeja carregando o breakfast: — Oi, cara, feliz aniversário! — disse a bandeja com voz de Brooke Shields. — Que tal um chá?

— Não, valeu, Brooke — disse Michael. — Quero ficar sozinho um instante.

Então os robôs sumiram e Michael flutuou até a escotilha. Quando encostou o nariz no vidro frio, viu a Lua imensa tomando toda a janela e sorriu na quietude. Horas se passaram e ele ficou ali, observando nuvens de gás se metamorfoseando em amigos do passado. “Olha”, pensou, “aquela de óculos escuros parece o Stevie.”

Um estalo zuniu e o sistema de circulação de ar exalou um perfume suave reconhecido de imediato. Surgiu a voz de Elizabeth Taylor.

— Chegou a hora, querido — disse a voz de Liz. Seu perfume era almiscarado. — Quanto tempo a gente esperou por este momento!

— É verdade — disse Michael. — Mas agora que chegou, não sei se tô pronto.

A superfície lunar então assomou pela janela. Dava para ver que eram milhões, talvez bilhões, as pessoas que o esperavam lá embaixo, sob o vidro da redoma que envolvia a Lua. A nave começou a pousar ao som de “Billie Jean”. Todos aplaudiram.

— Viu só? — disse Liz. — Estão te esperando.

— É isso aí — disse Michael. — Vamos nessa.

Então a porta da cápsula se abriu e ele flutuou para fora. A luz do Sol atravessou seu corpo transparente e irradiou os rostos felizes de todos que o aguardavam. Michael Jackson deu um moonwalk sobre o Mar da Tranquilidade envidraçado e transformou-se para sempre em uma estrela do céu.

* * *

[O primeiro conto foi publicado originalmente na Folha de S. Paulo em 07/12/2005 em comemoração aos 20 anos da morte de John Lennon; o segundo saiu no mesmo jornal em 25/06/2010, aniversário de Michael Jackson, morto um ano antes]

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
Site – Twitter – Facebook

 

Você vai passar o resto da vida tentando me encontrar

Por Érico Assis


Desenho original da capa de
It Never Happened Again

O livro se chama It Never Happened Again: Two Stories by Sam Alden. Saiu faz pouco pela Uncivilized Books. É o primeiro livro-livro-livro-mesmo de Alden, que já tinha se autopublicado em minicomics e, claro, na internet. Postagens no Tumblr viajam mais do que livros, mas livros — os de papel, daqueles que você tem que pegar a página com dois dedos e virar — ainda têm motivo. E não é só saudosismo ou o cheirinho de gráfica. São coisas de linguagem.

* * *

“Hawaii 1997”, primeira história de It Never Happened, está no Tumblr de Alden há mais de um ano. As entrevistas que o chamam de um dos-talentos-mais-promissores-desta-geração costumam abrir com o link de “Hawaii 1997”.

Há muitos motivos, o maior sendo tudo que ele consegue fazer numa HQ que se lê em 3 minutos e que dá a impressão de ter sido desenhada em menos tempo. Ou isso ou aquele momento final, em que a menina nos olha de perfil, nos dá as costas e diz “você vai passar o resto da vida tentando me encontrar”.

* * *

O caso é que “Hawaii 1997” parece feita para ser lida em livro, e não nos jpegs empilhados do Tumblr. Nas quatro páginas em que vemos a menina, de costas, correndo entre as árvores — seguidas de mais quatro do menino correndo —, o ato de passar o indicador por trás da folha para puxar a próxima página parece necessário. Como se a progressão daquela corrida precisasse de um ato físico e, no caso, rumo à direita. Dá o ritmo certo.

Pausar o olho em cada quadro, microssegundo que seja, sem muitas distrações ao redor que não mais três, quatro quadros da mesma página e da contígua, também é outra jogada que faz parte da narrativa. Assim como fazer a página anterior sumir quando você coloca uma nova por cima. Exagerando só um pouquinho, o lápis de Alden também pede papel — você passa o dedo por cima para ver se sente o grafite.

Comandar as setinhas do teclado ou o mouse, desculpe, não é a mesma coisa.

* * *

Me sinto um velho ranzinza vindo aqui falar das vantagens de “passar o indicador por trás da folha”. Parece a mesma manha dos que vêm dizer que livro de papel não fica sem bateria. Então, só para constar: leio mais, muito mais, em telinhas do que em papel. A comodidade do digital (no acesso, no preço, na portabilidade, em dizer onde eu parei) ganha do papel em 90% das vezes. 99%.

Também posso dar um exemplo inverso: “His Face All Red”, uma HQ sensacional da Emily Carroll feita para a web, foi lançada em livro este ano e perdeu o que tinha de melhor nas suas “viradas de página” digitais. É questão de linguagem, enfim.

* * *

E é só no digital que você faz isso (de outra HQ de Alden, “Hollow”):

(Crédito)

* * *

Sam Alden tem 25 anos. Nasceu e mora em Portland, Oregon, cidade com provável maior concentração de bons quadrinistas nos EUA. Desistiu de concluir uma graphic novel depois de desenhar 200 páginas. “Tenho preferido escrever mais na hora que me ocorre. É tipo pregar uma cobra no chão: você começa pelo rabo e vai subindo até a cabeça, que não para de sacudir. Ela continua viva, se debatendo. Cacete, que metáfora bizarra” (daqui). Prefere publicar suas HQs no Tumblr, e imagina-se que várias delas ainda vão entrar em livro.

* * *

Não sei se é a intenção, mas, para quem leu e tem coração, acho que o título do livro responde o que aconteceu quanto à promessa da menina.

* * * * *

Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
Site — Twitter — Outros Quadrinhos


O “outro” Roth

Por Leandro Sarmatz


Há 120 anos, num dia 2 de setembro, nascia Joseph Roth, um dos maiorais da literatura de língua alemã. A reputação literária é um cassino. Roth, que elegeu para se expressar — como Kafka, como Nabokov, como Beckett — num idioma que não era, no seu caso, o iídiche falado em casa, sofreu ao longo do último século as oscilações da bolsa literária. Fez sucesso em vida, como prosador e jornalista estrelado da imprensa alemã, e depois ficou um tempo meio esquecido, um camafeu dos velhos tempos da valsa e dos cafés vienenses. Autores como Claudio Magris (que escreveu um ensaio incontornável sobre ele) ajudaram numa certa reabilitação. Hoje Roth figura, ao lado de uns poucos, como um dos mestres da modernidade. Está no seu lugar, enfim.

Roth nasceu sob a sombra dos vastos domínios do Império Austro-Húngaro, e muitos de seus textos evocam, com nostalgia, esse tempo e esse espaço que foram pras cucuias com o advento da Primeira Guerra. Escrevia fácil, rápido, era absolutamente profissional, parecia não enjeitar trabalho. Como repórter, tinha olhos e ouvidos apurados. Suas reportagens sobre Berlim, a grande metrópole que foi a esquina do mundo no entreguerras, são primorosas na recuperação do turbilhão da cidade. Judeu, fronteiriço, abraçando uma profissão da modernidade — o jornalismo —, Roth tinha especial pendor para observar as classes menos favorecidas, aqueles que viviam à margem.

Seus textos de ficção trazem esses predicados todos, além de uma linguagem que, mesmo em traduções, exibe a mão leve do autor para conduzir suas narrativas. Livros como , A Marcha Radetzky ou A lenda do santo beberrão (meu favorito) encantam por diversos motivos. A linguagem algo crepuscular (no limite do poético), o gosto pela construção de personagens absolutamente críveis, o despudor de, quando preciso, avançar sobre terreno sentimental sem medo de pisar no jardim.

Roth era pinguço, bebia hectolitros — conhaque, vinho, aguardentes várias, o que houvesse à mão em matéria de destilados —, era um desses alcoólatras produtivos. Macilento, rosto de pizza amanhecida, com tremores na Paris de 1939 (porque a essa altura a Alemanha já não era uma opção para homens como ele), ainda terminou A lenda do santo beberrão, a poética narrativa de um clochard às voltas com uma dívida. Foi seu testamento. Morreu em maio de 39. Poucos meses depois, Hitler começaria a marcha que sepultaria, para sempre, aquela Europa que Joseph Roth um dia conhecera.

* * * * *

Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

 

Ofertas de emprego nos Estados Unidos — a principal maneira nacional de decidir “quem é racista”

Por Ifemelu

Raceteenth ou Observações diversas sobre negros americanos (antigamente conhecidos como crioulos) feitas por uma negra não americana.

6. Ofertas de emprego nos Estados Unidos — a principal maneira nacional de decidir “quem é racista”

Nos Estados Unidos, o racismo existe, mas os racistas desapareceram. Os racistas pertencem ao passado. Os racistas são os brancos malvados de lábios finos que aparecem nos filmes sobre a era dos direitos civis. Esta é a questão: a maneira como o racismo se manifesta mudou, mas a linguagem, não. Então, se você nunca linchou ninguém, não pode ser chamado de racista. Se não for um monstro sugador de sangue, não pode ser chamado de racista. Alguém tem de poder dizer que racistas não são monstros. São pessoas com família que o amam, pessoas normais que pagam impostos.

Alguém tem de ter a função de decidir quem é racista e quem não é. Ou talvez esteja na hora de esquecer a palavra “racista”. Encontrar uma nova. Como Síndrome do Distúrbio Racial. E podemos ter categorias diferentes para quem sofre dessa síndrome: leve, mediana e aguda.

7.
Querido Americano Não Negro, caso um Americano Negro estiver te falando sobre a experiência de ser negro, por favor, não se anime e dê exemplos de sua própria vida. Não diga: “É igualzinho a quando eu…”. Você já sofreu. Todos no mundo já sofreram. Mas você não sofreu especificamente por ser um Negro Americano. Não se apresse em encontrar explicações alternativas para o que aconteceu. Não diga: “Ah, na verdade não é uma questão de raça, mas de classe. Ah, não é uma questão de raça, mas de gênero. Ah, não é uma questão de raça, é o bicho-papão”. Entenda, os Negros Americanos na verdade não querem que seja uma questão de raça. Para eles, seria melhor se merdas racistas não acontecessem. Portanto, quando dizem que algo é uma questão de raça, talvez seja porque é mesmo, não? Não diga: “Eu não vejo cor”, porque, se você não vê cor, tem de ir ao médico, e isso significa que, quando um homem negro aparece na televisão e eles dizem que ele é suspeito de um crime, você só vê uma figura desfocada,meio roxa, meio cinza e meio cremosa. Não diga: “Estamos cansados de falar sobre raça” ou “A única raça é a raça humana”. Os Negros Americanos também estão cansados de falar sobre raça. Eles prefeririam não ter de fazer isso. Mas merdas continuam acontecendo. Não inicie sua reação com a frase “Um dos meus melhores amigos é negro”, porque isso não faz diferença, ninguém liga para isso, e você pode ter um melhor amigo negro e ainda fazer merda racista. Além do mais provavelmente não é verdade, não a parte de você ter um amigo negro, mas a de ele ser um de seus “melhores” amigos. Não diga que seu avô era mexicano e que por isso você não pode ser racista (por favor, clique aqui para ler sobre o fato de que Não há uma Liga Unida dos Oprimidos). Não mencione o sofrimento de seus bisavós irlandeses. É claro que eles aturaram muita merda de quem já estava estabelecido nos Estados Unidos. Assim como os italianos. Assim como as pessoas do Leste Europeu. Mas havia uma hierarquia. Há cem anos, as etnias brancas odiavam ser odiadas, mas era meio que tolerável, porque pelo menos os negros estavam abaixo deles. Não diga que seu avô era um servo na Rússia na época da escravidão, porque o que importa é que você é americano agora e ser americano significa que você leva tudo de bom e de ruim. Os bens dos Estados Unidos e suas dívidas, sendo que o tratamento dado aos negros é uma dívida imensa. Não diga que é a mesma coisa que o antissemitismo. Não é. No ódio aos judeus, também há a possibilidade da inveja — eles são tão espertos, esses judeus, eles controlam tudo, esses judeus —, e nós temos de admitir que certo respeito, ainda que de má vontade, acompanha essa inveja. No ódio aos Negros Americanos, não há inveja— eles são tão preguiçosos, esses negros, são tão burros, esses negros.

Não diga: “Ah, o racismo acabou, a escravidão aconteceu há tanto tempo”. Nós estamos falando de problemas dos anos 1960, não de 1860. Se você conhecer um negro idoso do Alabama, ele provavelmente se lembra da época em que tinha de sair da calçada porque um branco estava passando. Outro dia, comprei um vestido de um brechó no eBay que é da década de sessenta. Ele estava em perfeito estado e eu o uso bastante. Quando a dona original usava, os negros americanos não podiam votar por serem negros. (E talvez a dona original fosse uma daquelas mulheres que se vê nas famosas fotos em tom sépia que ficavam do lado de fora das escolas em hordas, gritando “Macaco!” para as crianças negras pequenas porque não queriam que elas fossem à escola com seus filhos brancos. Onde estão essas mulheres agora? Será que elas dormem bem? Será que pensam sobre quando gritaram “Macaco”?) Finalmente, não use aquele tom de Vamos Ser Justos e diga: “Mas os negros são racistas também”. Porque é claro que todos nós temos preconceitos (não suporto nem alguns dos meus parentes de sangue, uma gente ávida e egoísta), mas o racismo tem a ver com o poder de um grupo de pessoas e, nos Estados Unidos, são os brancos que têm esse poder. Como? Bem, os brancos não são tratados como merda nos bairros afro-americanos de classe alta, não veem os bancos lhes recusarem empréstimos ou hipotecas precisamente por serem brancos, os júris negros não dão penas mais longas para criminosos brancos do que para os negros que cometeram o mesmo crime, os policiais negros não param os brancos apenas por estarem dirigindo um carro, as empresas negras não escolhem não contratar alguém porque seu nome soa como de uma pessoa branca, os professores negros não dizem às crianças brancas que elas não são inteligentes o suficiente para serem médicas, os políticos negros não tentam fazer alguns truques para reduzir o poder de veto dos brancos através da manipulação dos distritos eleitorais e as agências publicitárias não dizem que não podem usar modelos brancas para anunciar produtos glamorosos porque elas não são consideradas “aspiracionais” pelo “mainstream”.

Então, depois dessa lista do que não fazer, o que se deve fazer? Não tenho certeza. Tente escutar, talvez. Ouça o que está sendo dito. E lembre-se de que não é uma acusação pessoal. Os Negros Americanos não estão dizendo que a culpa é sua. Só estão dizendo como é. Se você não entende, faça perguntas. Se tem vergonha de fazer perguntas, diga que tem vergonha de fazer perguntas e faça assim mesmo. É fácil perceber quando uma pergunta está sendo feita de coração. Depois, escute mais um pouco. Às vezes, as pessoas só querem ser ouvidas. Um brinde às possibilidades de amizade, de elos e de compreensão.

* * * * *

Ifemelu é uma blogueira aclamada nos Estados Unidos e protagonista de Americanah, novo romance de Chimamanda Ngozi Adichie. Nos anos 1990, em busca de alternativas às universidades nacionais, paralisadas por sucessivas greves, a jovem Ifemelu muda-se para os Estados Unidos, deixando para trás sua família e Obinze, seu primeiro namorado. Ao mesmo tempo em que se destaca no meio acadêmico, ela se depara pela primeira vez com a questão racial e com as agruras da vida de imigrante, mulher e negra. O sucesso que obteve quinze anos depois, contudo, não atenuou o apego à sua terra natal, tampouco anulou sua ligação com Obinze. Quando ela volta para a Nigéria, terá de encontrar seu lugar num país muito diferente do que deixou e na vida de seu companheiro de adolescência.

Americanah foi o romance vencedor do National Book Critics Circle Award e eleito um dos 10 melhores livros do ano pela New York Times Book Review. O livro já está em pré-venda e chega nas livrarias no começo de setembro.