Colunistas

Seis Propostas para o Quadrinho Brasileiro

Por Érico Assis


Que não são propostas taxativas, nem exigências, nem garantias de um mercado melhor. Já escrevi aqui que ninguém sabe nada do mercado e que o quadrinista deve fazer o que bem entender. Não quero vir de diretrizes, nem receita de bolo, nem plano de governo. Também não entenda como reclamação. Se você quiser, pode chamar de Seis Coisas Que Eu Gostaria de Ver no Quadrinho Brasileiro, Mesmo Que Eu Já Goste do Quadrinho Brasileiro e Só Quero Mais Mais Mais.

Acima de tudo, eu gostaria mesmo é de mais gente gostando de ler quadrinho.

1) Primeiro histórias, depois quadrinhos. Puro experimento formal, ironia autorreferencial, piscadelas para os entendidos, metalinguagem, revolucionar a narrativa quadrinística. Tudo isso é muito legal, agrada os críticos e rende pontos entre os coleguinhas. Eu, é óbvio, curto muito. Mas um mercado em que as opções são majoritariamente estas é um mercado que fica fechado em si mesmo e que não dá pontos de entrada a quem quer começar por uma boa história. Uma boa história, antes de uma boa história em quadrinhos.

É questão de voltar ao feijão com arroz: premissa chamativa, personagem intrigante, trama clara e desenho foda. Com curry, com shoyu, com quiabo, com gelatina de caviar, enfim, a pirueta que se quiser. Mas sem esquecer o feijão com arroz.

Inclui-se aí vender (na capa, no título, no marketing) estas HQs antes como histórias, depois como “a nova obra do autor de”, “a HQ que mudou as HQs”, “um mestre do desenho em seu auge”, “impressa em papel acetinado por mãos virgens”. Ao invés disso: Qual é a história? O que você quer contar? Por que eu me interesso por esse personagem?

2) Que valha o quanto pesa. Me corrijam se eu estiver enganado, mas acho que a HQ brasileira com o maior número de páginas (e publicada originalmente nesse tamanho) é Cachalote, que tem 320. É possível que seja a única que passou das 300. Há poucas com mais de 200 e me parece que a média das gréfic nóvels estacionou aí pelas 100. A grandessíssima parte da produção brasileira ainda segue em histórias de 8 a 20 páginas, quando não em tiras.

Cadê as nossas HQs de 600 páginas? De 400? Ou mais exemplos na faixa dos 300? Cadê as HQs que tomam tanto tempo de leitura quanto um romance? Pelo menos tanto quanto um longa-metragem? É óbvio que soa mais como vaidade do que validade produzir um tijolão. A lista de contras é comprida: anos de produção, grana, gráfica, editora que se interesse. Nem temos as antologias para desovar capítulos, como têm outros países. Mas, seguindo a primeira proposta, envolver um leitor numa história tem a ver com manter sua atenção por um tempo considerável, o que nos quadrinhos significa ocupar mais espaço. Há HQs de 3 páginas tão profundas quanto as de 800, mas a petulância da de 800 fica mais na cara. Um pouco mais de petulância, de pretensão, de megalomania — atentando para a proposta 1.

3) Fale sobre as histórias, depois fale sobre quadrinhos. Quadrinhos não são, mas tendem a ser vistos como gênero literário. E pior, um gênero restrito, fechado, que só consegue ler quem vive lá desde criancinha, que faz bullying com quem não conhece o (impreciso) cânone. É um discurso que trava ou desmotiva novos leitores. Por melhor que seja a intenção do leitor que tenta evangelizar novos adeptos, geralmente o discurso fica no tom do leia-quadrinho-porque-quadrinho-é-massa.

Sim, quadrinho é massa, mas volto à primeira proposta: novos leitores tenderão para histórias, depois para quadrinhos. Se as primeiras propostas eram para quadrinistas e editores, esta é para você que os lê: fale das histórias. Fale da tragicomédia do cara que se apaixona pela enfermeira da mãe em Aos Cuidados de Rafaela, fale dos personagens da Salvador contemporânea em rota de colisão de Tungstênio, de quanta gente se encaixa no perfil do Terêncio Horto.

4) Consumismo. Compre mais quadrinhos. Para si (e se as estantes acabarem, distribua entre os amigos) ou para os outros (dê quadrinhos de presente). Se você gosta do autor ou da autora, seja generoso no Catarse ou micromecene-o(a) no Patreon. Pague ou doe o que achar justo por quadrinhos digitais.

5) Leia mais. Desistência do Azul, Cumbe, Yeshuah, Mesmo Delivery, Daytripper. Sabor Brasilis, Fim do Mundo, A Vida de Jonas. O Dom Quixote do Caco Galhardo, O Alienista de Moon e Bá, o Vestido de Noiva de Gabriel Góes, a Clara dos Anjos de Wander Antunes e Lélis. Ordinário, Muchacha, Diomedes, Guadalupe, Cachalote, A Máquina de Goldberg, Monstros! e Deus, Essa Gostosa. Robô Esmaga, Valente, Bear, Muzinga, Promessas de Amor a Desconhecidos Enquanto Espero o Fim do Mundo e Harmatã. Xampu, Bando de Dois, O Beijo Adolescente e Friquinique.

6) Categoria Quadrinhos no Jabuti. Demorou.

* * * * *

Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Eu e o delegado Espinosa — uma investigação afetiva

Por Raphael Montes


Tenho passado as últimas noites na companhia de Vicente, misterioso ex-professor universitário que protagoniza Um lugar perigoso, romance recém-publicado de Luiz Alfredo Garcia-Roza. É a décima primeira ficção policial do autor e a décima com participação do querido delegado Espinosa. O passeio pelas páginas do romance me fez empreender uma investigação afetiva de minha história com o personagem.

Conheci o delegado Espinosa lá pelos idos de 2003, quando comecei a me interessar por ficção policial brasileira. Eu tinha 13 anos. Nessa época, eu já havia investigado ao lado de Sherlock Holmes, me aventurado em casas vitorianas ao lado do belga Hercule Poirot e trancafiado criminosos ao lado do Inspetor Maigret. Descobri que havia histórias de detetive passadas no Rio de Janeiro escritas por um tal Luiz Alfredo, formado em psicologia e filosofia, professor da UFRJ que abandonou a carreira acadêmica para se dedicar à ficção policial. Fui conferir.

Comecei por O silêncio da chuva, o primeiro da série. O delegado Espinosa ainda era inspetor e ficava na 1ª DP, na Praça Mauá, centro do Rio de Janeiro, mas já desenhava traços da personalidade peculiar que eu conheceria profundamente nos demais livros: um sujeito com nome de filósofo, calmo, introspectivo, honesto, de hábitos simples, com gosto para boa música e boa literatura e de uma integridade pessoal inesperada para o leitor que traz no imaginário a truculência da polícia carioca.

A trama do livro era complexa e apaixonante: um executivo encontrado morto com um tiro, sentado ao volante de seu carro num prédio-garagem no centro do Rio. Trata-se de suicídio, mas a morte do homem leva a outras, o que prende o leitor nas páginas do romance. Em 2003, já havia quatro livros com Espinosa: além de O silêncio da chuvaAchados e perdidos, Vento sudoeste e Uma janela em Copacabana. Aventurei-me nestes também. Conheci Irene, a companheira com quem Espinosa mantém um relacionamento invejável (um dia, hei de ter um igual). Conheci os inspetores Welber e Ramiro. Conheci a torradeira defeituosa, a estante de livros feita só de livros (inclusive as prateleiras) e as comidas de microondas que habitam a rotina do delegado. Conheci até o filho dele, que volta do exterior para morar com o pai em Céu de origamis. Foi só mais tarde que conheci pessoalmente Luiz Alfredo Garcia-Roza.

Era 2008, fui a um evento literário ouvir o que o homem que havia criado meu amigo Espinosa tinha para dizer. Ao final da mesa, conversei pessoalmente com o autor, um sujeito alto, cabeleira branca, voz grave e sorriso simpático. Quase perguntei: Espinosa, é você? Em vez disso, parabenizei pelos livros e, no auge dos meus abusados dezessete anos, critiquei os finais — muito abertos, a meu ver — de alguns de seus livros. Ali, Garcia-Roza me apresentou sua teoria de romance policial:

“Existe quem é cartesiano, cerebralista, que acha que o romance policial é um tratado de matemática com certa ação. Essa é a perspectiva que vê no crime um problema a ser resolvido. Uma vez resolvido, é afastada a causa do crime e evidentemente o criminoso, é o ‘whodunit’. O outro tipo de narrativa policial é quando o crime não é um problema a ser resolvido, mas um enigma a ser decifrado. A diferença é enorme: no primeiro caso, uma vez o problema enunciado, ele está resolvido. É só uma questão de proceder lógico-dedutivamente. No enigma, não. O enigma não tem essa transparência, essa clareza, ele não é feito de ideias claras e distintas como o problema. O enigma tem uma parte da verdade que te revela, te insinua, e uma parte que ele oculta. A parte oculta do enigma é o que faz com que o enigma seja reinventado, ou redito, ou reeditado, em suma: o enigma é como o sonho. Você interpreta uma vez, outra vez, outra vez…”

Ô, Garcia-Roza, você me perdoa, eu estava aprendendo. Passei a entender — e a gostar — dos finais abertos que o autor costuma propor. E continuei a ser leitor fiel das aventuras do delegado Espinosa: Perseguido, Espinosa sem saída, Na multidão e Fantasma. Enquanto isso, avançava nas páginas de escrita do meu romance policial de estreia, Suicidas.

Moro em Copacabana há muitos anos, pertinho da 12ª DP, a delegacia de onde Espinosa investiga a maioria de seus casos. Espinosa almoça na Trattoria (um dos meus restaurantes favoritos), no árabe da Galeria Menescal e encontra corpos na Praça do Lido e em ruas sem saída a poucos minutos do meu apartamento. Se, enquanto leitor, esse cenário me fazia sentir em casa; como escritor, sempre me soou desafiador criar histórias policiais no bairro. Anos depois, numa entrevista a O Globo, brinquei: “Quase desisti de ser escritor policial. O Garcia-Roza chegou antes e dominou minha área.”

Acabei insistindo e publiquei Suicidas. Depois, Dias perfeitos. Ambos com muitos momentos em Copacabana, passeando por lugares semelhantes — mas meus personagens nunca tiveram a sorte de esbarrar com o delegado Espinosa nas ruas do bairro. Em fevereiro deste ano, o Flávio Moura, editor da Companhia, me contou que o Garcia-Roza havia lido meu livro e me mandou seu parecer: “A tensão interna, a fluência narrativa e a qualidade literária de Dias perfeitos capturam o leitor. Raphael Montes nos presenteia com um thriller digno de um veterano da cena do crime”. Imagina, fiquei todo bobo. A frase aparece na contracapa do livro. É como receber um aval do Conan Doyle brasileiro, o escritor que tem a mais sólida série policial já escrita no país.

Hoje à noite (22/10), acontece a noite de autógrafos do livro Um lugar perigoso na Livraria Travessa Ipanema, no Rio de Janeiro. Sem dúvida, irei dar um abraço no Luiz Alfredo Garcia-Roza. E aproveito para dar um abraço no delegado Espinosa se ele estiver por lá também.

* * * * *

Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Advogado e escritor, publicou contos em diversas antologias de mistério, inclusive na revista americana Ellery Queen Mystery MagazineSuicidas (ed. Saraiva), romance de estreia do autor, foi finalista do Prêmio Benvirá de Literatura 2010, do Prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do Prêmio São Paulo de Literatura 2013. Em 2014 lançou seu novo romance pela Companhia das Letras, Dias perfeitos. Atualmente, o autor realiza trabalhos editoriais, ministra palestras sobre processo criativo e escreve o projeto de uma série policial para TV.

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A questão dos superdotados

Por Joca Reiners Terron


A expressão ESSAS CRIANÇAS DE HOJE EM DIA…, que geralmente demarca o espanto de gente mais velha diante de um bom exemplo de esperteza infantil, tem encontrado eco nos livros de ficção. Uma verdadeira febre de narradores adolescentes superdotados tem afetado a literatura mundial. Esse espanto em relação à agilidade sináptica dos pimpolhos remonta a alguns espertinhos do passado, como as histórias de Pedro Malasartes, por exemplo, ou nosso Pedrinho do Sítio do Pica-pau Amarelo, de Monteiro Lobato. Na literatura de língua inglesa a ocorrência é ainda maior, do Tom Sawyer, de Mark Twain, ou Jim Hawkins, o protagonista de A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, ao Peter Pan, de J. M. Barrie.

Em livros mais recentes, entretanto, esses heróis adolescentes evoluíram de meramente espertinhos a verdadeiras sumidades intelectuais. Será um sinal dos tempos e da evolução da tecnologia e das ciências? Em O Último Samurai, da norte-americana Helen Dewitt, Ludo é um menino órfão de pai que aprende a ler aos 2 anos de idade; aos 4 ele já fala diversas línguas estrangeiras, entre elas japonês; por causa disso, desenvolve uma obsessão por Os sete samurais, filme de Kurosawa, e a partir daí segue uma peregrinação em busca do paradeiro de seu verdadeiro pai. Apesar de sua inteligência aguda, Ludo não passa de uma criança com todas as suas carências. Carência, porém, não é algo que exista no fabuloso livro de Hellen Dewitt, entre as grandes narradoras de língua inglesa da ficção contemporânea.

Em City, do italiano Alessandro Baricco, o garoto Gould, de 13 anos, está na universidade. Superdotado, ele constrói uma cidade onde pretende encenar um bangue bangue, gênero pelo qual é fissurado, e novamente — como acontece com Ludo — o cinema alimenta o cérebro do garoto. Aos poucos o leitor descobre (ou desconfia) que nenhum dos personagens malucos que atravessam a história “existem” de verdade, a não ser na poderosa imaginação de Gould, um menino solitário que preenche o vazio de sua existência com amigos imaginários.

Diário Absolutamente Verdadeiro de Um Índio de Meio Expediente, de Sherman Alexie, ganhou o National Book Award e conta a história de Arnold Spirit Junior, um menino de 14 anos que tem uma cabeça gigante, nasceu com 42 dentes e com água no cérebro e mesmo assim descobre ser um grande lutador. Nascido numa tribo spokane, ele lutará por uma educação melhor para si e para seus iguais. Arnold representa nesta seleção de supercérebros a variação que apresenta narradores adolescentes que sofrem de doenças raras, um outro fenômeno da ficção recente que também pode ser conferido em Afluentes do Rio Silencioso, de John Wray, que conta a história de William Heller, jovem esquizofrênico de 16 anos que desenvolve um fascínio pelos subterrâneos do metrô, onde se perde após um surto.

Já Oliver Tate, o narrador de Submarino, de Joe Dunthorne, é um típico representante da geração Google. Curioso e esperto, ele usa todas as suas habilidades aliadas à infinita curiosidade para investigar a depressão enfrentada pelo pai desde que sua mãe resolveu tomar aulas de surfe com um antigo namorado. Conhecedor de todos os becos possíveis e impossíveis da internet, Oliver descobre aos poucos os descaminhos da vida sentimental dos adultos.

Todos esses personagens ultraespertos e inteligentíssimos parecem ter se originado na figura de Holden Caulfield, o moleque boca suja criado por J.D. Salinger em O Apanhador no Campo de Centeio. Pioneiro em retratar um menino que enfrenta os dilemas do amadurecimento ao desenvolver sua singular visão de mundo, Salinger inaugurou uma tradição na ficção moderna que culminaria em Hal Incandenza, uma jovem promessa do tênis e herói de Graça Infinita, o clássico contemporâneo de David Foster Wallace (a ser lançado em novembro pela Companhia das Letras), ele próprio um escritor de capacidade mental trocentos mil pontos acima da média que se suicidou aos 43 anos de idade em 2008, após um forte período de depressão.

Sinal dos tempos ou não — afinal seguidas gerações foram saudadas com a espantada expressão ESSAS CRIANÇAS DE HOJE EM DIA… —, os narradores adolescentes de romances, por mais superdotados que sejam, uma hora ou outra são obrigados a enfrentar a realidade e seus dilemas. Nesse embate a inteligência é essencial, mas também é fácil perceber através desses destinos literários que não é a única arma de sobrevivência, além de nem sempre ser uma bênção.

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Livros, boates e gritaria

Por Paulo Scott


Tempo atrás escrevi que não gostava de futebol, que não compreendia como alguém que tivesse um mínimo de inteligência pudesse gostar de futebol — a assertiva, evidentemente, se tratava de uma provocação. Pessoas, independentemente do seu grau de inteligência ou de patetice, seja lá o que a hierarquização das inteligências ou patetices signifique, têm o direito de gostar de um esporte tão fascinante (o esporte que mais mobiliza hipsters e intelectuais de toda ordem nos Estados Unidos da América do Norte no momento é o futebol), minha provocação tinha outro alvo: esta grande máquina de enganar que é o esquema inventado e constantemente aprimorado pelos cartolas do futebol no Brasil e no Mundo.

Pessoas sofrem, gastam até o último centavo do seu dinheiro e até matam por algo que é escancaradamente manipulado por meia dúzia, que beneficia financeiramente apenas meia dúzia. Embora a paixão pelo Colorado prevaleça em momento e outro da minha medíocre existência (cheguei a comprar aquela camiseta da edição especial “Campeão de tudo”), faço o que posso para não perder um segundo do meu tempo com essa bobagem que é fazer do futebol uma religião e, quem sabe, no saldo geral, salvar minutos, horas, turnos, dias para empregá-los, por exemplo, na missão de reduzir a lista imensa de livros que pretendo ler antes que chegue ao fim minha participação por aqui — nesta “arena da vida”, diria alguém.

Algo que aprendi na “arena da vida” foi: não duvidar do poder do circo e da boate. Futebol é circo e também é boate (é o lúdico desesperado e é zorra total), uma ferramenta eficaz garantindo que um bando de gente consiga atravessar a semana e a derrocada psicológica que aguarda boa parte da humanidade nas tardes e nas noites de domingo. Pessoas precisam se apoiar em algo e fingir que tudo está bem — não dá para tapar o sol com peneira, pelo menos não o tempo todo. Por que não o futebol? Por que não a chance de sonhar com a vitória que, no final das contas, é um tipo de truque perfeito que faz o vitorioso imaginar que é mais especial do que o outro? Por que não o maniqueísmo irracional tão propício da disputa em perspectiva simplificada?

A Copa do mudo foi o grande turn point na narrativa deste ano — quem trabalha com roteiro de cinema sabe a razão de dividir a narrativa ao meio e encontrar os dois grandes pontos de virada, de saber tirar proveito disso —, e eu poderia continuar falando sobre as garantias fundamentais que mais uma vez foram completamente desrespeitadas em solo brasileiro (os jovens de pele escura das periferias chamam isso de constância). A novidade, uma das tantas, foi o alinhamento de governantes em todos os níveis de governo arquitetando um estado renovado de repressão. Pois é, ninguém escapa. O salvador da pátria não existe, nunca existiu. Ainda assim não resistimos ao conforto do papel de bons torcedores, ingênuos e esperançosos, apesar de todas as evidências — uma parte corre para um lado e o restante, quase na mesma proporção dos seus opostos, corre para o outro, e tudo bem se o resumo do chilique geral, de um lado e de outro, for só descabelamento e gritaria, porque depois será a segunda-feira e será o marasmo, de novo.

Na semana passada chegou às minhas mãos um exemplar bem castigado — benditos sejam os exemplares castigados — de um dos livros que mais influenciaram o meu modo de escrever, um livro do qual (tenho até vergonha de confessar) eu mal lembrava, é o Eu falo dos que não falam, uma seleção de poemas do alemão Hans Magnus Enzensberger, publicada no Brasil em mil novecentos e oitenta e cinco pela Editora Brasiliense. Graças à Morgana, que o conseguiu — a forma e a razão como o livro chegou até ela renderiam uma coluna à parte, acreditem — e perguntou se eu conhecia aquele poeta, aquele livro, eu tive a sorte de reler poemas que foram fundamentais para que eu chegasse à convicção, que é pura teimosia, sobre como escrever e o que escrever, não importando se o que resultar será apontado como agradável ou desagradável, cômodo ou incômodo, não importando qualquer rótulo que eventualmente o resultado possa receber.

No exemplar castigado do livro do Hans Magnus Enzensberger tem este poema:

 

Defesa dos lobos contra os cordeiros

Querem que o abutre coma miosótis?

O que exigem do chacal,

Do lobo, que mude de pele? Querem

que ele mesmo extraia seus dentes?

O que é que não apreciam

nos comissários políticos e nos papas,

por que olham, feito burros,

o vídeo mentiroso?

Quem costura a faixa de sangue

Nas calças do general? Quem

trincha, diante do agiota, o capão?

Quem pendura, orgulhoso, a cruz de lata

sobre o umbigo que ronca de fome? Quem

aceita a propina, a moeda de prata,

o centavo para calar-se? Há

muitos roubados, poucos ladrões; quem

os aplaude, quem

lhes põe insígnias no peito, quem

é sequioso de mentiras?

Olhem-se no espelho: covardes,

temendo a fadiga da verdade,

sem vontade de aprender, entregando

o pensar aos lobos

um anel no nariz como adorno preferido,

nenhuma ilusão burra o bastante, nenhum consolo

barato o suficiente, cada chantagem

ainda é clemente demais para vocês.

Ó cordeiros, irmãs

são as gralhas comparadas a vocês;

vocês se arrancam os olhos uns aos outros.

Fraternidade reina

entre os lobos:

andam em alcateias.

Louvados sejam os salteadores: vocês

convidam para o estupro

deitando-se no leito preguiçoso

da obediência. Mesmo gemendo

vocês mentem. Querem

ser devorados. Vocês

não mudam o mundo.


E também tem este outro (cuja coincidência com o romance que terminei em abril deste ano é assustadora):

 

Os Desaparecidos

Não foi a terra que os engoliu. Foi o ar?

Tão numerosos como a areia, mas não se tornaram

areia, e sim nada. Em massa

foram esquecidos. Muitas vezes, de mãos dadas,

como os minutos. Mais do que nós,

porém sem memória. Não registrados,

não decifráveis no pó, mas desaparecidos

seus nomes, colheres e solas.

Não nos fazem arrepender. Ninguém

os lembrará: nasceram,

fugiram, morreram? Sem vazios

é o mundo, porém seguro

pelos que não moram nele,

os desaparecidos. Eles estão em todas as partes.

Sem os ausentes não haveria nada.

Sem os fugitivos nada seria firme.

Sem os esquecidos nada seria certo.

Os desaparecidos são justos.

Assim também se vão os nossos.


Imagino que só exista um lugar para o escritor: o lugar o mais longe possível das aspirações dos políticos, dos governos, das sucessões familiares na política, do engajamento religioso — que no fundo, e no médio prazo, é sempre interesseiro e contabilístico — na política, do engajamento apaixonado como os dos torcedores de futebol (o suporte irascível da faceta do futebol que mencionei acima). Sempre haverá bandidos para todos os gostos, para todas as cegueiras, paixões, chiliques, para os dois lados do campo.

E a poesia — este é o momento cretino e gagá “temos de cuidar muito bem da poesia, meu querido” —, suponho, sempre dará um jeito de achar o leitor (bastam trezentas cópias de um bom livro de poesia, lembra?) e dar sinal de que a vida é uma só e sempre poderá ser mais do que a paisagem que eventualmente tremule diante dos nossos olhos e da nossa pressa. Há os detalhes, as pequenas investigações, os pequenos acertos, as pequenas cobranças, há, sobretudo, as pequenas coisas importantes, do nosso lado e do lado oposto, que nos acostumamos simplesmente a jogar fora.

Sempre fica repleto de heróis dentro das boates, a justiça (essa palavra que cabe na boca de qualquer um) é boutique, carteiraço e mão no popô dentro das boates. Todos são podres de tanta erradicação da pobreza — não importa se carenados de socialismo ou de mão invisível do mercado — dentro das boates e podres de total franqueza diante da vida dentro das boates. Bacana é pagar de passarela olha como eu sou especial e enxergo o que o resto não enxerga dentro das boates. Mas boates não são planos de voo, não são projetos de vida. Boates operam em modo apagar os detalhes.

Hoje, fico por aqui (um pouco mais perplexo do que antes); e, sim, leiam Hans Magnus Enzensberger se tiverem chance.

* * * * *

Paulo Scott nasceu em Porto Alegre, em 1966, e mora no Rio de Janeiro. É autor dos romances Voláteis (Objetiva) e Habitante irreal(Alfaguara), do volume de contos Ainda orangotangos (Bertrand Brasil) e do livro de poemas A timidez do monstro(Objetiva). Seu romance da coleção Amores Expressos, Ithaca Road, foi lançado em 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.

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Quando o trailer vira notícia

Por Ana Maria Bahiana


Uma das coisas que mais me intriga e, ao mesmo tempo, repele e atrai, é a narrativa do objeto cultural como produto de massa e da luta pelo poder e pelo controle dessa narrativa. É uma narrativa tão antiga quanto a existência dos sistemas de distribuição maciça de produtos culturais, embora se possa argumentar que Charles Dickens, Mozart, Chopin e Liszt foram verdadeiros popstars de seu tempo… (Deem uma conferida em O nosso segredo [The Invisible Woman, Ralph Fiennes, 2013] e Lisztomania [Ken Russell, 1975], por exemplo).

Quando cheguei aqui em Los Angeles, a chamada “era de ouro” dos estúdios já tinha terminado há muito tempo. A geração sexo-drogas-rock ‘n roll tinha posto o ponto final nessa história em meados da década de 1970, marcando de vez a transição para um sistema onde todo mundo é freelancer e o controle do produto final é fluido. As novas estéticas exigidas pela imensa nova geração de espectadores, os baby boomers nascidos depois da Segunda Guerra Mundial, eram apenas parte dessa transformação. A outra parte era estrutural: os altos custos da disputa de mercado com a televisão e com os sindicatos, principalmente.

Cheguei aqui no momento de glória dos intermediários: os agentes, os divulgadores, os porteiros de luxo que, na virada dos 1980 para os 1990, controlavam os acessos. Eram tempos caóticos, especialmente para uma recém chegada como eu. Mas ao mesmo tempo, as brechas eram suficientes para que fosse possível um real exercício da prática jornalística. Ainda era possível, por exemplo, negociar uma entrevista com um ator ou diretor e realizá-la sem supervisão, controle ou ingerência de terceiros. Era possível propor pautas independentes, fazer perguntas independentes e obter acesso a quem de fato interessava, com base apenas no currículo individual e no comportamento, preparo e seriedade de cada profissional.

Foi assim que entrevistei Robert Altman — que não queria ser entrevistado, no começo, e depois não queria parar de ser entrevistado. Foi assim que entrevistei James Cameron no set de O Exterminador do Futuro II. Foi assim que entrevistei Chuck Jones e a dupla Frank & Ollie, últimos representantes do grupo de artistas que criou a Disney, gigantes da animação. Foi assim que entrevistei Kathryn Bigelow quando ela ainda estava longe de ganhar um Oscar, mas estava virando a mesa para as mulheres atrás das câmeras; Francis Ford Coppola quando decidiu investir em vinhos; Bob Rafelson, Brian De Palma, Curtis Hanson, Ridley Scott, Johnny Depp, os escritores Bruce Wagner e Mike Davis… A lista é longa e boa. As entrevistas eram conversas reais sobre assuntos de substância, pautadas por curiosidades e oportunidades reais.

Eu pressentia e temia que isso não ia durar para sempre. Os mercados internacionais estavam crescendo rapidamente, novas praças estavam exigindo conteúdo e entretenimento, a internet avançava comendo as mídias tradicionais pelas bordas e criando um clima de competição histérica. Quando há mais demanda que oferta, a oferta sempre ganha.

Um telefonema inesperado, numa tarde de 1990, deu o sinal: era um estúdio me convidando para um fim de semana com tudo pago num hotel de luxo do deserto. Com a contrapartida: eu teria que entrevistar um bando de atores de pouco ou nenhuma consequência, para divulgar um filme de segunda divisão.

Era o começo da era do junket, que é exatamente o que descrevi acima, e que, hoje, não se aplica apenas a filmes, séries e outros produtos culturais de segunda divisão. Muito pelo contrário.

Não estou exagerando quando digo que hoje, como na “era de ouro” de Hollywood, o acesso ao produto cultural de massa está completamente controlado, regido e organizado pelos grandes produtores. Não há mais brechas, não há mais negociação. Duas décadas de oferta constante de, vamos chamar assim, “acesso premiado”, juntamente com o colapso financeiro das grandes empresas de mídia e a completa restrição a qualquer outro tipo de acesso transformou o que era um diálogo numa via de mão única. Os grande produtores criam, implementam e controlam a oferta de acesso e de material. Ao outro lado cabe apenas receber. De preferência, sem questionar.

Esse é o universo em que um trailer, que há não muito tempo atrás era apenas uma peça promocional, se torna algo que passa por notícia.

Eu tive a visão completa dessa mudança alguns anos atrás, quando eu ainda produzia um programa para um canal pago da TV brasileira e aguardava, com dezenas de outros jornalistas, minha vez de entrevistar o elenco de um filme que não tinha substância alguma, mas cujos atores eram até interessantes. Em circunstâncias normais alguns deles renderiam até ótimas conversas, mas agora eu teria rígidos cinco minutos de acesso, rigorosamente monitorados por um batalhão de funcionários do estúdio. O intenso perfume de ansiedade que flutuava no ar, o desespero pelo convite para o próximo junket, pelo melhor posicionamento na absurda fila de espera pelos três minutos monitorados eram difíceis de ignorar. Era muito parecido com uma prisão, ou pior. A disputa pelas migalhas. O temor de cair em desgraça com as autoridades. A completa falta da possibilidade de independência, autonomia e pensamento crítico.

Tinha acontecido: o controle, mais uma vez, tinha passado para o outro lado. Estávamos de novo em 1949, mas a máquina de criar ilusões era, agora, ainda mais toda-poderosa.

Não deixava de ser fascinante.

* * * * *

Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

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