Colunistas

O Deus das coincidências

Por Luiz Schwarcz

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A vida é feita de coincidências. Foi o que tentei dizer em um conto que está no meu primeiro probecito, que é como chamo meus livros de contos. São as coincidências que marcam nossos momentos de felicidade, que provam que não antecipamos o que há de melhor na vida e tampouco conseguimos prever totalmente o que iremos escrever, especialmente quando a matéria-prima é a ficção. Não programamos os nossos sentimentos, assim como não programamos o que irá acontecer ao lermos um livro. As maiores alegrias são quase sempre as inesperadas, que vêm de surpresa, ou as que superam as nossas expectativas.

Outro dia eu disse para um amigo, que reencontrei por coincidência, uma frase quase exagerada, mas que tem muito de verdade e de como enxergo a vida. A frase revela que entendo o lado bom da nossa existência como uma sucessão de encontros não planejados, como os que ocorrem entre o escritor, o leitor e os personagens num bom livro de ficção.

A coincidência de que falo aqui, e que celebrei com Marcelo Rubens Paiva, foi a de — após uma operação longa e trabalhosíssima, que resultou na compra da Objetiva pela Companhia das Letras — eu me tornar novamente editor de um livro deste autor que marcou o começo da minha carreira na Brasiliense.

Brinquei com Marcelo e, em tom de blague, lhe disse:

— Hoje me dou conta de que acho que comprei a Objetiva para me tornar seu editor novamente.

O que quis dizer é que, pela reaproximação com ele (e com Reinaldo Moraes e Roberto Pompeu de Toledo, de quem a Objetiva acaba de publicar o ótimo A capital da vertigem), a compra da editora já teria valido a pena.

Em agosto a Alfaguara publicará Ainda estou aqui, um livro que fará, em minha opinião, carreira tão emblemática quanto a de Feliz Ano Velho. Nele, Marcelo pega o fio da vida de sua mãe, Eunice Paiva, para contar a história da sua família, num perfeito retrato dos anos da repressão e da superação da dor, causada pela ditadura. No texto estão tanto o que aconteceu com os Paiva, após o trágico evento do assassinato do ex-deputado Rubens Paiva, pai de Marcelo (não o desaparecimento, que é um termo que se presta a ambiguidades), quanto a história que tem que ser construída a partir dessa morte, do vazio.

Se alguns livros marcaram minha vida de editor, Feliz Ano Velho está entre eles. Ainda estou aqui é de certa forma uma sequência daquele primeiro livro, com a mesma força, a ponto de justificar a blague acima, típica de um editor afeito às coincidências.

Lembro muito bem quando Caio Graco chegou ao escritório e relatou o acidente que deixou Marcelo tetraplégico. Caio e seu amigo Rubens eram até parecidos, no sentido de juntar em suas vidas boemia e revolução. Caio ficou abaladíssimo com o salto num lago raso que tirou o controle de alguns movimentos físicos do Marcelo para sempre. Passou a visitá-lo no hospital. Numa dessas visitas teve a ideia e sugeriu que escrevesse um livro. Caio era um homem intuitivo e com grandes e incompreendidas sacadas, que só se revelariam como acertos um bom tempo depois. Quando Caio falava do livro de Marcelo Paiva, nós, que não conhecíamos o futuro escritor, achávamos que se tratava de um relato convencional de superação. — “Mais um caso verdade”, dizíamos, comparando o livro, que estava somente na cabeça do Caio e do Marcelo, com um programa banal de televisão.

Só o Caio sabia então que o Marcelo poderia ser porta-voz de uma geração que se abria naquela época para novos prazeres, para novas reivindicações.

Vivíamos tempos em que a superação ainda era esperada mais no campo coletivo: quem superaria a opressão seria a revolução, quem redimiria o homem e traria a alegria seria uma classe, o proletariado, em nome de todos nós. Apesar da cabeça aberta do Caio, a geração que chegava ao poder na editora Brasiliense, justamente com a abertura que ele nos dera, ainda via com preconceito os relatos de superação individual.

Sem conhecer o Marcelo, não nos dávamos conta de como o trágico acidente poderia se transformar tão bem em livro, em literatura, em retrato da nossa geração e dos novos desejos, de como a política e a vida social teriam que se integrar entre nossas futuras bandeiras.

Sim, eu estava lá na hora em que o texto chegou. Provavelmente fiquei de queixo caído pelo acerto do Caio e do Marcelo, pela força do livro, pela surpresa, pelo meu erro de previsão.

Estava lá para trabalhar na capa e na edição, para promover o livro com o sistema de divulgação da Brasiliense, do qual me orgulho até hoje, talvez o primeiro departamento verdadeiramente profissional de imprensa, que montei com a Maria Emília Bender no começo dos anos 1980.

Sim, eu estava lá quando, por um erro terrível, o livro já impresso foi confundido com outra remessa, na Biblioteca do Sesc Pompeia, na noite do lançamento, e tivemos de abrir o depósito para trazer os exemplares com uma hora e meia de atraso, enquanto uma fila constrangedora nos olhava com recriminação.

Estava lá quando a Brasiliense incluiu o livro na série Cantadas literárias, que ajudei a batizar e criar com meu saudoso chefe, que hoje seria chamado em e-mails de CG. Mas talvez Caio Graco não aguentasse abreviações, como MRP também não aguenta.

O primeiro era um editor intuitivo. Um destrambelhado do bem. Um visionário dos livros e do Brasil democrático — que ameaçava dar seus primeiros passos junto com a revolução jovem, que o país vivenciou plenamente alguns anos depois. O segundo era um escritor criado pela tragédia pessoal. Mas que só pôde ser criado porque nele já havia essa substância, no fundo de seu coração. O Marcelo que conhecemos não é só fruto das duas tragédias, ele existia como um sujeito muito especial antes delas, e o Caio sabia disso, nós não.

Se fosse só para editar Ainda estou aqui, o projeto ambicioso em que me meti ao comprar a Objetiva já teria valido a pena. Era isso o que eu queria dizer ao Marcelo, aos meus leitores e a um Deus dos ateus como eu, o Deus das coincidências, a quem reverencio todos os dias: obrigado, sim, senhor!

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna mensal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

A informação é o novo personagem

Por Carol Bensimon

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Em um ensaio publicado em 2000 sobre Dentes brancos, romance de estreia de Zadie Smith, o crítico norte-americano James Wood cunhou o termo “realismo histérico” para definir o tipo de prosa que Zadie praticava. Segundo Wood, ela não estava sozinha; medalhões como Salman Rushdie, Don DeLillo e David Foster Wallace também haviam criado tijolescos romances cujas tramas cheias de fatos, reviravoltas e informação teriam a intenção de criar um retrato sociocultural do mundo contemporâneo (muitas vezes fazendo uso de um certo verniz cômico). Essas tramas, que giravam em torno de alguns “temas”, ainda segundo Wood, acabariam derrapando na verossimilhança (culpa do excesso) e seriam incapazes de dar vida a personagens complexos e que emocionassem o leitor. O crítico parece sugerir que há (havia?), ao menos na literatura norte-americana, uma crise de representação de personagem em curso. “A informação tornou-se o novo personagem”, sentenciava.

Ok, o assunto pode estar velho (aparentemente no mundo de hoje nada pode ser pior do que retomar a polêmica da semana passada; que dirá uma de quinze anos atrás). Ainda assim, me peguei pensando sobre “realismo histérico” esta semana enquanto lia Americanah.

Não tenho certeza do que James Wood diria sobre o livro de Adichie. A verossimilhança não parece ser sacrificada por uma trama em que percebemos um acúmulo de coisas extraordinárias, como no caso de Dentes brancos, então talvez o rótulo não se aplique nesse caso. Há, no entanto, alguns pontos de contato, porque ambos são romanções no sentido mais tradicional do termo: narração em terceira pessoa, retrato apurado de certo(s) segmento(s) da sociedade, longo período de tempo da vida dos protagonistas, etc.

Creio que um romance que pertence também à mesma linhagem é Telegraph Avenue, do Michael Chabon. A frase do Wood, “a informação tornou-se o novo personagem”, fica pulsando na minha cabeça quando me deparo com esse tipo de livro. Nessas narrativas, a vontade obsessiva em discutir questões da vida contemporânea acaba muitas vezes transformando os personagens em caricaturas postas em cena para mostrar as contradições da elite intelectual americana, a onda vegana, o terrorismo, o racismo velado. Esses não são definitivamente livros de “clima” (estou fazendo uma classificação bem pessoal, veja bem), como Uma casa no fim do mundo ou Barba ensopada de sangue. São, ao contrário, livros em que você tem certeza que nenhuma cena irá emocioná-lo. Não estou dizendo que por isso se tornam ruins, apenas que são essa outra coisa, uma coisa oposta ao que chamo de romances de “clima” (os que normalmente ganham meu coraçãozinho, desculpa).

Em resumo, parece que falta calor humano. E a falha não está exatamente na pretensão totalizante (isso existe desde que surgiu o romance, não?). Karl Ove Knausgård também tem essa pretensão, mas o resultado é diferente, para dizer o mínimo. Ele com certeza escolhe outro caminho e por isso chega em outro lugar. O caminho é transformar o desimportante em sublime, coisa das mais difíceis de se fazer. Então, em vez de uma conversa sobre a candidatura de Obama à presidência dos Estados Unidos, temos uma reflexão sobre o cereal matinal. Não estou dizendo com isso que há qualquer problema em falar sobre Obama. Americanah é um ótimo livro, e eu saboreei cada questão sobre política, racismo, imigração, Nigéria. Mas acho que faltou um pouco de “nada”. Um pouco de detalhe, de banalidade. Se os personagens falassem besteira enquanto derretiam sob a umidade nigeriana, se fumassem um cigarro em silêncio, envoltos em conflitos internos ou obsessões corriqueiras, talvez pudessem ser algo mais do que meros relatores dos grandes temas de uma época.

* * * * *

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Rascunhos para uma autobiografia política

Por Juan Pablo Villalobos

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1.

Quando eu era criança, o palavrão favorito da minha família vinha precedido por um berro desafinado: “Não peguem água, chingada!”. Chingada, em espanhol do México, e neste contexto, seria o mesmo que gritar, dependendo da intensidade e do tom do rugido, “caralho”, “cacete” ou “porra”. A gente proferia a frase desgraçada tiritando no chuveiro, ensaboado ou, pior, com os olhos cheios de xampú. O grande problema da história de minha família: a falta d’água em casa. Era produto de uma cadeia de pequenos desastres. Uma cisterna mal construída. Uma caixa d’água altíssima (nossa casa tinha três andares). Uma bomba de baixa potência. Um empresário fraudulento que vendeu lotes sem água potável suficiente. Um prefeito que concedeu as licenças. Um pai que quis acreditar na boa fé da humanidade: meu pai.

O resultado foi um sistema precário, bastava que alguém abrisse uma torneira para cortar de uma vez a água do chuveiro. De segunda a sexta a rotina imposta por minha mãe estabelecia uma ordem rígida, que funcionava quase bem. Nos finais de semana, ou nas férias, tomar banho era uma façanha. Numa família de sete integrantes, tomar banho precisava de publicidade e consenso. Vou entrar. Posso entrar? Vou entrar. Vou entrar. Seis vezes, negociando. Sim. Não. É minha vez. Tem que aguardar, a máquina de lavar roupa está ligada. Eu tenho que sair de casa primeiro. Se você me deixa entrar primeiro eu te empresto minha raquete. Nossas relações políticas.

Às vezes faltava água por vários dias e meu pai mandava trazer um caminhão cisterna. Com uma mangueira enorme enchiam a cisterna. A água descia com muita potência, removendo a terra que cobria as paredes e o fundo da cisterna. Tínhamos que aguardar até a água e a terra se assentarem. Por volta de uma hora. Ninguém estava autorizado a abrir uma torneira. Depois meu pai falava: “Vão ver se a água já está clarinha”. Eu e meus irmãos descíamos, levantávamos a tampa metálica e enfiávamos a cabeça na cisterna. Na escuridão total. Impossível saber qualquer coisa, se a água era verde, se aí morava um monstro marinho.

A gente subia de volta.

Falava mentiras.

Tomávamos banho com um pouquinho de água suja.

2.

A meu pai uma vez lhe ofereceram ser candidato à prefeitura. Ele contou para a gente durante o jantar entre risadas sardônicas. Dois caras que ele nem conhecia bem tinham aparecido no consultório médico dele para fazer, de um jeito cerimonioso, o oferecimento. Não lembro o partido que representavam, eu era pequeno para reter siglas impronunciáveis, mas suponho que seriam de algum desses que surgem do nada e somem depois de chupar os fundos outorgados pelo Instituto Eleitoral.

Eles falaram para meu pai que ele seria o candidato perfeito, já que todo mundo o conhecia e era uma pessoa honesta. Nunca esqueci a resposta de meu pai: “Olha só que engraçado, exatamente por isso é que eu não sirvo”.

Aquele dia o jantar foi uma festa. Todo mundo imaginando meu pai de prefeito, entre gargalhadas. Quando governasse, cada multa viria acompanhada de um tapa. Ele não abriria mão do dinheiro dos subsídios, os pecuaristas teriam que pedir pelo menos vinte vezes, implorando, como a gente tinha que fazer para receber o “domingo” (a grana que, teoricamente, ele dava para a gente cada semana). Por favor, poderia me dar o subsídio? Não. Estamos precisando muito, as vacas estão morrendo por causa da seca. Pode ser? Não. É urgente! Não. O melhor seriam seus discursos incendiários.

Este episódio ficou sem graça muito rápido. Meu pai recebeu outra visita no consultório. Inspetores de impostos. Falaram que ele estava contabilizando despesas que não correspondiam com a atividade econômica dele. A gasolina do carro, por exemplo. Meu pai quis se defender argumentando que tinha que visitar doentes graves e, além do mais, como é que ele ia se transportar da casa para o consultório? A resposta foi que ele não era transportador ou mensageiro.

A multa foi estratosférica.

E ainda por cima, a candidatura de meu pai foi concedida ao proprietário de uma loja de pinturas que diluía as tintas com água.

3.

Foi em 1986, durante a Copa do Mundo no México. Uma tarde o vizinho bateu na nossa porta e perguntou por mim. Falou que tinha comprado um Atari para os filhos dele e que não conseguia instalá-lo. Será que eu poderia ajudar?, quis saber. Quando entrei na casa dele descobri que na verdade o Atari já estava instalado. O que ele queria era companhia pra jogar. Space Invaders.

A tragédia era que os filhos dele não gostavam do Atari. Eles eram hiperativos. Gostavam de ir para o morro para espancar bichos. Entrar em casas em construção ou abandonadas para roubar. Jogar beisebol, queimada, esconde-esconde, futebol americano. As coisas que eles faziam com meus irmãos menores.

Na tarde seguinte, e na seguinte, a na seguinte, o vizinho voltou a bater na nossa porta para me convidar para jogar: “comprei um jogo novo”, dizia, como se fosse necessário me convencer. Ele me dava um refrigerante. A gente não falava de nada. Os filhos dele faziam bagunça por aí, custodiados por uma babá. A maioria das vezes a esposa dele não estava em casa, acho que ela estaria jogando buraco com as amigas, indo para a missa, participando de alguma obra de beneficência. Quando a esposa dele voltava eu ia embora. Ela sempre dizia o mesmo: “Vocês têm água? Manda um beijo para sua mãe”.

Tudo isso acabou quando o vizinho foi designado prefeito provisório. Na cidade tinha havido uma revolta para derrubar o prefeito que havia sido eleito de maneira fraudulenta (não era o dono da loja de pinturas, que não chegou nem a 1% dos votos). O vizinho nem era político. Ele era diretor numa fábrica de laticínios. Uma fábrica propriedade da família que controlava a vida política da cidade.

Difícil de entender aos 13 anos, mas era o que vinha acontecendo em nossa cidadezinha desde os tempos da Colônia.

4.

Passaram dois anos e o prefeito provisório foi ficando porque não houve novas eleições (havia um risco importante de que o partido no poder perdesse de novo e tivesse que fazer fraude de novo). E então um dia o milagre aconteceu: a água deixou de ser um problema em casa. Nosso vizinho cumpriu sua promessa conjugal. Só depois ficamos sabendo que a esposa dele tinha aceito que fosse prefeito só se ele prometesse construir uma nova caixa d’água para nosso bairro.

Rapidamente, meu pai se encarregou de nos fazer sentir culpados: “essa água está suja”, ele falava para nós, “é água corrupta”.

Continuamos tomando banho com um pouquinho de água suja.

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Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e morou durante uns anos no Brasil. É autor de Festa no covil Se vivêssemos em um lugar normal, publicados pela Companhia das Letras e traduzidos em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
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Cidade grande

Por DW Ribatski

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DW Ribatski nasceu em Curitiba em 1982. É artista plástico, ilustrador e quadrinista. Já colaborou com diversas publicações, como o caderno Ilustríssima da Folha de S.Paulo e a revista Superinteressante, entre outras. Nas HQs, publicou Campo em branco (Quadrinhos na Cia., 2013), Como na quinta série (Balão Editorial, 2012), La naturalesa (coleção MIL, Cachalote/Barba Negra, 2011), Vigor Mortis (Quadrinhofilia/Zarabatana Books, 2011, com José Aguiar e Paulo Biscaia) e Dois (Roax Press, 2013). Contribui para o blog com uma coluna mensal de quadrinhos.
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O paralelo do visitante perfeito

Por José Luiz Passos

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Ilustração: “A Nondescript”, gravura de I.W. Lowry a partir de um desenho de T.H. Foljambe, publicada emWanderings in South America (Londres, 1825), de Charles Waterton.

1.

Berkeley criou a cátedra de engenharia de viagens faz pouco mais de um ano. “A colheita foi feita, o verão passou e ainda não fomos salvos” (Jeremias, capítulo 8, versículo 20). Essa foi a epígrafe que doutor Kalfayan, pai de Hani, amiga minha, escolheu para a conferência de inauguração.

Ele defendeu a criação da cátedra numa palestra no teatro do campus. Mas na hora de começar não estava presente. Em vez de doutor Kalfayan, baixou uma tela entre a boca de cena e os primeiros assentos. Ele tinha partido às 20h20 da estação El Pueblo de Los Angeles, onde há um mural pintado por Diego Rivera, e, usando um telefone celular, da cabine do trem-bala transmitiu a palestra quase toda, com as vinhetas e suas sensações. Antes de projetar um holograma no vão do teatro, doutor Kalfayan entrou pela porta principal, por trás da plateia, e desceu o corredor entre as fileiras, até o palco. Tinha feito o trajeto de Los Angeles a Berkeley em quarenta minutos, de porta a porta, sem voar, sem filas nem espera, andando, falando, comentando as sensações com centenas de pessoas que esperavam por ele sentadas. A mesma viagem, de carro pela antiga Highway 1, margeando o Pacífico, podia levar nove horas. Kalfayan encerrou sua fala pontualmente às 21h.

A última vinheta que mostrou foi a imagem azul fosforescente de um busto cabeludo, em 3-D, que ora parecia um homem colonial, ora um macaco de olhar tristonho, meio volto, num perfil a três quartos. A legenda embaixo da figura, flutuando acima das nossas cabeças, dizia apenas: A Nondescript. Um indefinível.

2.

Engenharia de viagens é um título que dá a ideia errada da teoria do pai de Hani. Na palestra ele explicou que “Um indefinível” era o busto de um macaco empalhado pelo naturalista Charles Waterton, em 1818, para se parecer a um lorde das primeiras eras ou um cavaleiro arturiano. Na volta da América do Sul, de posse do macaco, Waterton ficou preso na aduana de Liverpool sem conseguir explicar a coleção bizarra dentro dos seus baús.

Doutor Kalfayan falou que numa visita uma coisa tenta se parecer outra, o sucesso está na imitação do conviva. Quem se senta à mesa, usa os talheres como o seu anfitrião. Viaja para fora, quer saber aonde os dali vão. Em Roma como os romanos, doutor Kalfayan disse, a visita é uma arte da cópia. Um brinde deve ser prontamente acompanhado. Apertos de mão, tom de voz e risos pedem reciprocidade. Qualquer um quer ser bem-sucedido no trato e causar boa impressão. Sucesso é controle, e controle é uma boa reprodução, com toda a consciência de ser reprodução. Imitar não seria a forma ideal de se trair?

No começo, o pai de Hani não era considerado um cientista sério. Mas seus algoritmos davam resultados mais próximos à intenção dos usuários. Digite urso de pelúcia e receba de volta links, banners e vídeos com sugestões a seu gosto. Perfil, língua, localização, histórico, quem busca nas redes se torna passível de cópia cada vez mais perfeita. Uma agência do governo contratou Kalfayan para desenvolver um protocolo de contato entre estranhos. Dois diplomatas adversários, soldados inimigos, um homem e um organismo não identificado, o industrial e seu operário rebelde, as diferenças podem ser incomensuráveis, Kalfayan disse. E pensei no velho Brasil, tão longe e sempre aí, tão perto. Se um ladrão viesse me forçar, e eu falasse usando o sotaque dele e mostrasse que gostava do que ele gosta, tudo ficaria bem: A foe at home is no longer a foe. Ele pensaria que, estranhamente, já éramos conhecidos. Nessa igualdade está a força de uma constante. E essa foi a contribuição dele, k, conhecida apenas como a constante Kalfayan. O pai de Hani encerrou a palestra com o tal indefinível: “Attention, ele disse. A maior arma de todas não é um foguete, mas a aparência de uma completa semelhança. Por isso, o verdadeiro amigo deve ser nosso mais perfeito oposto.

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José Luiz Passos nasceu em Catende, Pernambuco, em 1971. Formado em sociologia, doutorou-se em letras nos Estados Unidos. É autor dos ensaios Ruínas de linhas puras(1998) — sobre as viagens de Macunaíma — e Romance com pessoas (originalmente publicado em 2007 e reeditado pela Alfaguara em 2014). Também pela Alfaguara, publicou em 2009 seu primeiro romance, Nosso grão mais fino, selecionado para o prêmio Zaffari & Bourbon de literatura, e, em 2012, O sonâmbulo amador, com o qual venceu o Grande Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa em 2013. É autor de uma peça de teatro e de contos publicados no Brasil e no exterior — inclusive na revistaGranta em português. Vive atualmente com a esposa e os dois filhos nos Estados Unidos, onde é professor titular na Universidade da Califórnia em Los Angeles.