Colunistas

Em tradução (Dublinenses)

Por Caetano Galindo

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Estou dando tratos razoavelmente finais à tradução de Dublinenses, único livro de contos de James Joyce, publicado em 1914, dois anos antes de Um retrato do artista quando jovem e oito anos antes do Ulysses.

Com a publicação do guia de leitura Sim, eu digo sim, no começo do ano, essa tradução encerra todo um projeto de dar ao leitor brasileiro a mais completa via de acesso ao Ulysses. Pois se o Retrato é a apresentação de Stephen Dedalus (e, em vários sentidos, pode ser considerado mesmo como a “primeira parte” do Ulysses), Dublinenses apresenta mais de TRINTA personagens que o leitor vai reencontrar no romance de 1922. E se em alguns casos se trata apenas de um nome que recorre, em outros acabamos tendo acesso a visões mais profundas e quase contraditórias, se comparadas ao que pudemos ver de cada um deles no Ulysses.

Tanto o Retrato quando esse Dublinenses devem sair com notas de leitura, pra facilitar o processo de se lidar com uma cultura cem anos e milhares de quilômetros distante, e também pra apontar essas conexões entre os livros. São ao todo mais de 400 notas, mais prefácios e “notas introdutórias” do tradutor. Quando os quatro livros estiverem nas livrarias, Ulysses, Guia, Retrato e Dublinenses, o nosso Kit-Joyce estará pronto. (E pensar no Finnegans Wake, pro futuro curto…?)

Mas, propagandas e autocongratulações à parte, lidar com os contos de Dublinenses me deixou pasmado. Como sempre.

Joyce gostava de correr riscos, e normalmente bancava os riscos e saía triunfante de cada experiência. O Retrato já é um livro arriscado: pense naquela primeira página, escrita toda no que seria o discurso indireto livre de uma criancinha, sem maiores explicações. Do Ulysses, nem preciso falar! Mas em Dublinenses, o que o leitor encontra é aquele que talvez seja o maior prosador da história da língua inglesa exercendo todo seu talento em chão e com regras muito mais firmes. É como se ele estivesse fazendo alongamentos pra saltar mais longe, testando suas forças, vendo o que é que poderia fazer na linguagem “tradicional” do conto tchekhoviano, flaubertiano.

Isso, claro, ainda tem que levar em conta que ele escreve os contos quase todos entre 1904 e 1906. Só “Os Mortos”, aquela pérola absurdamente linda, vem de 1907. E, veja bem, ele tinha 25 anos em 1907. Ele conseguiu escrever um conto incrível como “Eveline”, que envolve um mergulho sem freios na consciência de uma mulher, antes de completar 23 anos. Não é só de prosa que se fala aqui. É dessa capacidade de ser outras pessoas, de forçar os limites da empatia e, no fundo, os limites do “eu”. Daquilo que faz a grande literatura.

E é um prazer tremendo lidar com esse Joyce joalheiro, esse Joyce que, antes de se deliciar com uma estética de arestas, de riscos e furos, de excessos e faltas controladas, parece ter se dado o direito de ser perfeito.

Desculpa, parece chato, parece bobo, mas era só nisso que eu pensava enquanto traduzia. O que ele queria com esses contos era a “perfeição”. E conseguiu, com sobras, uma dúzia de vezes.

Fique aqui com uma amostra elegantíssima da abertura do conto “Uma Mãe”:

A srta. Devlin se tornou sra. Kearney por despeito. Tinha sido educada num convento de alto nível onde aprendeu francês e música. Como era por natureza pálida e de modos inflexíveis fez poucas amigas na escola. Quando chegou à idade de casar foi enviada a várias casas onde seu piano e seus modos ebúrneos foram muito admirados. Ficava sentada no centro do gélido círculo de seus talentos, esperando que algum pretendente tomasse coragem e lhe oferecesse uma vida luminosa. Mas os rapazes que encontrava eram comuns e ela não os encorajava, tentando consolar seus desejos românticos comendo não pouco manjar turco às escondidas. No entanto, quando foi chegando ao limite e suas amigas começaram a soltar a língua a respeito dela, ela as calou se casando com o sr. Kearney, que fabricava botas no Ormond Quay.

Era muito mais velho que ela. Sua conversa, que era séria, surgia esporadicamente de sua grande barba castanha. Depois do primeiro ano de casada a sra. Kearney percebeu que um homem desse tipo ia envelhecer melhor que uma pessoa romântica mas ela nunca deixou de lado suas ideias românticas. Ele era sóbrio, econômico e devoto; ia até o altar toda primeira sexta-feira do mês, às vezes com ela, mais normalmente sozinho. Mas ela nunca diminuiu sua religiosidade e era uma boa esposa para ele. Em alguma festa numa casa desconhecida quando ela erguia a sobrancelha só um tiquinho ele levantava para se despedir e, quando a tosse dele incomodava, ela colocava um acolchoado sobre seus pés e lhe fazia um ponche de rum bem forte.

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Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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Lendo Cidade em chamas

Por Carol Bensimon

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Foto: Logan Hicks

A minha maluquice é querer entender demais as coisas. Quando pego um livro para ler, óbvio que uma parte de mim está andando com a história, vivendo aquele lance que a gente chama de suspensão da descrença, mas outra certamente fica pensando em como é que a ficção está conseguindo tirar (ou não tirar) aquilo de mim; como é que, em resumo, a ficção está me deixando naquele estadinho emocional constrangedor. Normalmente dá pra entender o funcionamento de algumas engrenagens, porque a gente treina bastante para isso. Mas há mistérios insolúveis, lindos mistérios. Recentemente, os contos de Alice Munro. Eu não conseguiria nem falar sobre esses contos se quisesse, e a sensação de que eu perdi alguma coisa parece proporcional à minha atração por eles. Não dá para entender.

Cidade em chamas. Melhor não citar os fatos que costumam começar qualquer resenha ou matéria sobre o livro-de-mais-de-mil-páginas do norte-americano Garth Risk Hallberg. Eles não têm nada a ver com o romance de fato. São fofocas literárias e movimentos de mercado editorial. Estou na metade do livro, portanto leve isso em consideração se quiser, o fato de que ainda não terminei a leitura e estou me metendo a falar sobre ele sem ter lido, por exemplo, a parte que se passa durante o grande blecaute de 1977 em Nova York, uma das cenas mais impressionantes do romance de Hallberg, segundo dizem. Mas acho que vai ficar tudo bem. Minhas considerações têm mais a ver com linguagem do que propriamente com trama.

Aquele prólogo já deixava claro que vinha coisa boa. Pra mim, quer dizer. Eu me sinto muito seduzida por coisas do tipo apesar de ela [a geladeira] só conter uma barra mesozoica de manteiga que o pessoal que está me hospedando deixou para trás quando se mandou para a praia (…). A barra mesozoica de manteiga me pegou. Há um certo ritmo que também me pega. E coisas como: As sirenes e os ruídos do trânsito e dos rádios flutuam vindo das avenidas como lembranças de sirenes e ruídos de trânsito e de rádios. Por trás das janelas de outros apartamentos, TVs estão sendo ligadas, mas ninguém se dá ao trabalho de baixar as persianas. Dá para estar lá dentro, naquela Nova York dos setenta, com muita facilidade.

De fato, meu livro já está todo sublinhado. Há imagens muito bonitas, que vão do “cigarro fantasma” (o cigarro que vai virando cinza sem ninguém bater a porcaria do cigarro) a uma descrição detalhada de cheiros: Sam ainda lembrava do cheiro da mãe quando ela voltava ao sofá, chocolate em pó e marshmallow derretido, sim, mas também uma intrincada coisa meio florestal que dizia Califórnia, de onde ela tão improvavelmente viera. Por algum motivo, no entanto, a mesma coisa que me fascina acaba me parecendo um pouco cansativa.

E não é só uma questão de cansaço, mas de ter a impressão de que eu não estou entrando no tal do estadinho emocional constrangedor. Talvez o acúmulo de imagens espertas crie um efeito indesejável de distanciamento. Esperteza, aliás, é uma palavra bem adequada aqui; Cidade em chamas exala um tipo de inteligência malandra que, com frequência, deságua em um sorrisinho de canto de boca. É possível que isso tenha uma relação com os tais andaimes que Zadie Smith menciona em um de seus ensaios sobre escrever um romance, os andaimes necessários no processo, mas dos quais o escritor deve se livrar depois. Embora ela esteja falando provavelmente de montagem da trama, não parece ruim supor que o excesso de imagens-nunca-pensadas-antes acabe chamando muita atenção sobre si mesmo (como andaimes?), me jogando para fora da história. É claro que eu não quero propôr uma discussão forma x conteúdo aqui. Só estou tentando entender uma sensação de leitura.

Eu diria que a questão de fundo é a seguinte: há no narrador de Hallberg um palpável medo de se levar a sério. Talvez esse seja o medo de toda uma geração (a minha). Opiniões sobre isso, ou sobre qualquer aspecto de Cidade em chamas, são muito bem-vindas.

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Candy Says

Por Dw Ribatski

Lou Reed e Velvet Underground são dos meus artistas favoritos. Esta HQ é a letra de “Candy Says”, “traduzida” como todas as suas outras músicas por Christian Schwartz e pelo meu conterrâneo curitibano Caetano W. Galindo (que também traduziu Ulysses do Joyce, saque a responsa) no magnífico livro Atravessar o fogo, lançado pela Companhia das Letras em 2010, três anos antes de sua morte. Recomendo, obviamente, a audição da canção durante a leitura.

Lembrei por causa dessa letra de uma música do Clinic, quarteto de Liverpool (sim!), que começa com uma referência, a música se chama “Distortions” e trouxe também boas lembranças de outros tempos.

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DW Ribatski nasceu em Curitiba em 1982. É artista plástico, ilustrador e quadrinista. Já colaborou com diversas publicações, como o caderno Ilustríssima da Folha de S.Paulo e a revista Superinteressante, entre outras. Nas HQs, publicou Campo em branco (Quadrinhos na Cia., 2013), Como na quinta série (Balão Editorial, 2012), La naturalesa (coleção MIL, Cachalote/Barba Negra, 2011), Vigor Mortis (Quadrinhofilia/Zarabatana Books, 2011, com José Aguiar e Paulo Biscaia) e Dois (Roax Press, 2013). Contribui para o blog com uma coluna mensal de quadrinhos.
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É pau, é pedra, é o fim do caminho — ou romances e contos nem sempre acabam quando terminam

Por Luiz Schwarcz

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Ilustração: Alceu Chiesorin Nunes

livre42Se os editores sabem, por vezes, dizer se um livro é bom por sua abertura, é interessante também mencionar que um dos grandes desafios de um profissional da área é avaliar se um texto termina bem. Ressalto que a dificuldade é maior na ficção do que nos ensaios, devido ao grau de subjetividade que cerca as obras literárias. É mais fácil saber se uma obra de não ficção cobriu todos os aspectos do assunto central de um livro. Num romance ou coletânea de contos, essa avaliação é sempre um pouco mais nebulosa.

Sabemos que um romance pode começar sem grande impacto e crescer ao longo de suas páginas, mas o mesmo não deve ocorrer com o seu final. E é curioso como essa é a grande dificuldade de muitos escritores, principalmente os menos experientes, que por vezes procuram se livrar do livro antes do tempo.

A tarefa de escrever um romance é exaustiva. Exige do escritor uma convivência profunda consigo mesmo, com seus fantasmas, traumas e recalques. Eles com certeza aparecerão na tela ou na página branca. Todo esse esforço mental de criação, somado à angústia de ver muitas vezes o tempo passar sem nada de produtivo ocorrer, dão à escrita um componente psicológico extenuante. Assim, o desgaste de um dia de trabalho aparentemente vazio pode não parecer, mas é enorme. É bastante comum sentirmos que um dia produtivo de trabalho resulta em menos cansaço do que o contrário. Além disso, principalmente as civilizações ocidentais têm dificuldade de lidar com longos momentos de solidão, e é basicamente deles de que é feito o dia a dia do escritor.

A grande maioria dos autores atesta que depois das horas diárias tentando se transportar para a pele de seus personagens — vivendo tantas outras vidas nas quais certamente as deles próprios se projetam —, sentem-se exauridos, como se tivessem exercido um trabalho descomunal.

Cada escritor tem seu método. Alguns batem nas teclas ou rabiscam, deixando em primeira instância o fluxo de consciência livre. Já outros querem ver, mesmo no rascunho, apenas o texto limpo. Esse é o caso de Chico Buarque. Como ele, esse tipo de escritor passa horas até conseguir escrever uma linha sequer, mas ao vê-la projetada na página branca em sua frente sabe que ela já está próxima da versão final. E dessa maneira exaurem-se, até por guardar, por tanto tempo, frases e mais frases incompletas dentro de si. Lembremo-nos da sensação de um pensamento ou angústia que nos persegue por dias a fio e entenderemos o sentimento que assola esse tipo de autor.

Para os escritores que, ao contrário, deixam jorrar o fluxo de pensamento na tela, o cansaço pode parecer até menos sensível, uma vez que as páginas cheias denotam o fim de um dia aparentemente produtivo. Mas, no momento de revisar o texto, o desgaste acaba crescendo em progressão geométrica.

Se não me engano, foi Hemingway quem disse que “escrever é cortar e cortar”, sendo ele um exemplo típico dos que escreviam livremente, para depois buscar a expressão perfeita. Para os que gostam mais dos seus contos do que dos romances, aí pode estar a explicação. O “Papa”, como era chamado, apreciava e sabia cortar, o que, como veremos, é um dom absolutamente fundamental para um bom contista.

De qualquer forma, há no movimento literário, como em toda a arte, a busca de uma expressão perfeita, com a peculiaridade de que a maturação do trabalho do escritor é muito lenta. Como já vimos em outros posts, o livro começa muitas vezes bem antes do escritor iniciar propriamente sua escrita. Saramago passava meses planejando um livro sem pôr no papel uma só linha. Dá para imaginar o que sofrem as companheiras ou companheiros dos escritores nesses momentos em que a vida exterior deve ser tão menos absorvente do que o romance que se encontra em gestação.

Contribui para essa sensação de esgotamento o fato de a intuição contar muito pouco para um escritor. Se ela não for sucedida por um enorme tempo de desenvolvimento e por um mergulho profundo na alma humana, o retrato que resulta dos personagens será ralo. Uma frase próxima da perfeição não se encontra de cara, na primeira tentativa. Se isso não ocorre nem mesmo no caso de um relatório técnico, o que dizer na esfera afetiva de nossa vida? Se na vida real a mesma coisa pode ser dita de tantas formas, imaginemos o quanto a dificuldade aumenta se formos dar voz a um personagem criado do zero, um ser que não tem instintos próprios ou reações espontâneas, que depende da nossa psique para pensar e agir?

Por isso, a maior parte dos jovens escritores e editores já ouviu de seu primeiro publisher o chavão (aliás absolutamente correto) que diz que a escrita é feita de 95% de transpiração e de apenas 5% inspiração. Caio Graco me disse isso inúmeras vezes. Eu repito até hoje.

Se entendermos a natureza do tempo e do empenho necessários para a escrita de um romance, ficará mais fácil compreender a tendência a se livrar dele antes da hora. Um editor tarimbado consegue pressentir quando isso vai acontecer, antes mesmo de terminar o texto. Particularmente, depois de anos e anos de leitura, acho que consigo sentir o cansaço do escritor antes do ponto final. Perdi certamente a conta das vezes que sugeri mudanças nas últimas páginas de livros de ficção. O escritor deixa sinais de esgotamento pelo caminho, antes do fecho completo da obra, com passagens menos acabadas, que tendem a desembocar num final precipitado, como se ele tivesse chegado a um ponto em que seja difícil conviver tão obcecadamente com suas criaturas, alter egos, fantasmas ou projeções.

Durante o processo de escrita, é natural que os personagens tomem um espaço cada vez maior na vida do autor. É aí então que o amor pelos personagens transforma-se inúmeras vezes em ódio. Apesar de ser natural e necessário que personagens ganhem tamanha importância na vida de um ficcionista, a tendência é que este sinta que devota às suas criaturas um amor não correspondido.

Assim, são mais raros os casos de romances que passam do ponto, do que aqueles que acabam antes do momento em que deveriam se encerrar.

É nessa questão, a da forma e do tempo certo de acabar uma ficção, que se encontra, na minha opinião, a grande diferença entre os contos e os romances. Os primeiros precisam acabar antes do esperado; um bom conto dificilmente sobrevive se a sua história chegar ao fim. Quando isso ocorre, é possível que ele vire uma fábula e perca parte da sua força.

As generalizações em literatura são perigosas, mas na maioria dos casos o grande conto é o que termina inconcluso, que oferece quase que plenamente o final ao leitor. Nesse sentido, se toda ficção abre uma parceria entre o autor e o leitor, nos contos essa parceria se realiza com plenitude no que não foi dito. O contista entrega menos, tem a brevidade como desafio. Não consegue ter o leitor como parceiro tão completo, até por falta de espaço. Mas no final, sim, o escritor resolve abrir a porta e convida seu parceiro(a) a terminar a história consigo, ou a deixa aberta para sempre, sendo a dúvida a principal herança que entrega ao leitor.

Alguns escritores, como Rubem Fonseca, consideram que escrever contos é muito mais difícil do que dedicar-se a narrativas de longa extensão. Não sei se concordo. Cada gênero oferece dificuldades próprias. O conto exige um esforço supremo de condensação e procura a perfeição na falta. O romance almeja algum tipo de abrangência ou carrega a plenitude como parte de sua ambição. Dessa maneira, o editor de contos talvez acabe se ocupando mais dos textos que acabam depois do que deviam. O editor de romance, ao contrário, esbarra mais com casos em que o escritor tenta se livrar logo do texto, com o qual, como vimos, não conseguem mais conviver.

Nos romances o leitor se depara com aberturas a cada página, são como pequenas janelas abertas em todo o transcorrer da obra, em vez de uma grande porta final, como nos contos, com o infinito ainda a percorrer. No romance o infinito é oferecido ao leitor inúmeras vezes durante o percurso.

Dizemos que um romance não está redondo ou bem amarrado quando queremos mostrar, principalmente, que ele acabou cedo demais, mas também que o escritor não ofereceu algum tipo de completude para o leitor. Com isso não quero afirmar, de forma alguma, que muitos grandes romances não tenham sido bem-sucedidos terminando em aberto, ou que o escritor não deve deixar aberturas no final. Nos romances com tantas janelas abertas pelo caminho, o leitor tende a se irritar, com razão, se o final denotar pressa. Afinal, o romance foi confeccionado com prazo largo, assim como foi alongado o tempo de convivência entre autor e leitor que a narrativa propiciou.

Da mesma maneira como me referi no meu post anterior à abertura de Anna Kariênina — que poderia ser invertida e permanecer válida mesmo assim —, tudo o que eu disse a respeito de contos e romances talvez não faça sentido para o leitor deste blog, que pode preferir os romances inacabados e contos perfeitamente redondos, de aspecto mais fabular. Entenda, leitor, que essas são apenas impressões que recolhi ao longo da vida, e que deixo aqui, sem um grande final.

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Durante o mês de julho, a coluna Livre-Editar estará de férias. Luiz Schwarcz volta a publicar seus textos sobre o ofício do editor em agosto.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Escreve pra o blog uma coluna quinzenal.

Woody Allen, diretor de Tubarão

Por Érico Assis

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Foto: Ari Evergreen

Eu estava fazendo uma palestra sobre quadrinho nacional. Comparei a trama de uma HQ — acho que foi Aos cuidados de Rafaela, de Marcelo Saravá e Marco Oliveira — aos filmes do Woody Allen. Nenhum dos sete componentes da plateia (justificando: era uma palestra sobre quadrinho nacional) expressou reação facial. Na dúvida, perguntei:

— Woody Allen, diretor de cinema…?

Um garoto, aí pelos 18 anos:

— Ah, acho que eu sei. É o que dirigiu aquele filme velho, Tubarão, né?

Sem desculpas aos que se ofendem por tratar Tubarão como “filme velho”. Objetivamente, eu e o garoto somos mais novos que Tubarão, o que objetivamente faz ele entrar na categoria filme velho.

Em relação a Woody Allen ser diretor de Tubarão, compreendo a dificuldade dos entendedores em conectar a filmografia do Allen ao que é Tubarão. Mas eu me contive. Talvez tenha ficado um segundo de olhar fixo no garoto, tentando controlar o meu rosto e o sarcasmo borbulhante. Mas:

— Hã, não. O Woody Allen é um diretor que faz comédias, dramas, histórias mais intimistas. Ele estrelava muito os próprios filmes, um carinha mirrado de óculos. Agora ele está com mais de 80, não aparece tanto, mas continua fazendo filmes…

Me senti bem adulto.

Um amigo que estava na palestra, da minha idade, veio conversar comigo mais tarde. Ficamos inventando tramas de “Woody Allen’s Jaws”. Mas isso foi depois.

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O caso é que quando eu tinha os (supostos) 18 anos daquele garoto, acessei uma filmografia do Woody Allen via internet discada, fui à única locadora da cidade com busca em banco de dados por título estrangeiro (depois me disseram que tinha busca por diretor) e assisti à filmografia woodyallenesca. Em VHS.

Não é só o Snap, o PS4 e o catálogo do Netflix que desincentivam qualquer ser humano a fazer algo parecido hoje. Os gostos são muito fragmentados para chegar nessa idolatria — meio brega — de pesquisar e zerar filmografia de um diretor. Aliás, acho que a minha conclusão da experiência, naquela época, foi que eu não precisava nem devia ter visto todo Woody Allen.

Uma pessoa de 18 anos, mesmo levemente interessada por cultura pop — ei, o cara foi numa palestra sobre quadrinho nacional — tem opções demais, interesses demais e tempo de menos para se dar ao trabalho de saber quem é o Woody Allen. E outra: é uma coisa do tempo dos pais dele. O último Allen que eu acho genial, Descontruindo Harry, é de 1997: mais velho que o garoto.

Seria o caso de eu ter dito “Mas nem Zelig? Nem Manhattan? Nem o final do Memórias?” Oras, também ouvi coisas assim da geração acima da minha. Ou riram na minha cara. Algum velhão deve ter dito que eu precisava ler Hemingway para ser gente. Fui até o fim de Adeus às armas e minha vida não mudou. Embora eu tenha tido alegrias com as sugestões de velhões (Ardil 22, sim, mudou minha vida), o ponto é que nem todas as referências de uma geração cabem para a outra. Com sorte, devem haver pilhas de Woody Allens-youtubers na dieta cultural do garoto que eu nem conheço.

O ponto também é que estou velho e vou ter que começar a selecionar para quem cito Woody Allen como ponto de referência. Ou para contar piadas sobre “Woody Allen’s Jaws”.

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Érico Assis é jornalista, tradutor e doutorando. É o editor convidado de O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 (Editora Narval). Mora em Florianópolis e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Também escreve em seu site pessoal, A Pilha.