Colunistas

Quem é quem na Companhia das Letras

Nome: Francisco Dantas

Há quanto tempo trabalha na editora? 20 anos

Função: Trabalho como vendedor externo. Sou responsável em atender as livrarias e pontos alternativos de todo interior de SP. Atendo também os pontos de venda no litoral.

Um livro: Na verdade gostaria de mencionar três - Garoto no convés (John Boyne); Padre Cícero (Lira Neto) e O menino do pijama listrado (John Boyne).

Sua parte favorita do trabalho: Adoro viajar. O contato com os clientes é o que mais gosto. No interior o atendimento é bem diferente do que encontramos em outras praças. Os compradores, atendentes e gerentes são muito interessados em saber o que a editora está fazendo. Sinto que sempre estão atrás de informações sobre o catálogo e os lançamentos.

Por que você decidiu seguir essa carreira? Venho do interior de Rio Grande do Norte. Cheguei em  SP quando tinha 22 anos e logo consegui um emprego numa distribuidora de um amigo. A partir daí não larguei mais o livro. Já são quase 25 anos de mercado e sempre viajando. Já trabalhei nas praças do Rio de janeiro, Espírito Santo, Belo Horizonte, Curitiba e Santa Catarina, sem contar outros estados que nem me lembro mais.

Uma história que você se lembre da editora: Tem uma muito engraçada… Há muito tempo atrás, participamos do lançamento da coleção Castelo Rá-tim-bum. Todos os personagens estavam lá e o número de pessoas que foi ao evento foi bem maior do que poderíamos imaginar. Veio gente de outros estados, ônibus de escola, enfim uma confusão só. Pra evitar ainda mais o tumulto, fizemos um cordão de isolamento humano. Nisso apareceu um senhor com dois filhos no colo querendo entrar de qualquer jeito. Eu lá me segurando pra não deixar ninguém passar e avisando para esse pai que seria perigoso machucar as crianças se continuasse forçando sua entrada. Pra piorar esse pai colocou calmamente uma criança no chão e com a mesma calma me deu um belo tapa na cabeça. Não sabia o que fazer. Pensei que se eu soltasse minha mão do cordão todo mundo entraria. Então engoli seco e aguentei o desaforo.

Piratinhas

Por Érico Assis
DIY Comic Scanning Rig…

Na quarta-feira, foi só tocar na internet que os e-mails, RSSs e tuíters pululavam: The Sandman Overture #2 havia saído, e a internet viu que The Sandman Overture #2 era boa. Entre abrir outra aba do navegador, entrar no site, um clique para categoria, um clique no link, um clique no torrent, passaram 15 segundos. Voltei às minhas outras abas, mas o balãozinho do µTorrent não levou 20 segundos para pular: The_Sandman_-_Overture_002_(2014)_(3_covers)_(digital)_(Son_of_Ultron-Empire) has finished downloading. O iPad já estava conectado no computador, então bastou arrastar o arquivo e largar no iTunes. Mais três segundos, e abri The Sandman Overture #2 numa tela que seguro nas mãos da mesma forma que um gibi.

* * *

Faz pouco mais de dez anos que um passarinho de tapa-olho me anunciou que, sabendo procurar, todos os gibis que eu queria estavam na internet – se não para ter fisicamente, pelo menos para ler. Exigia um software meio arcano, endereços numéricos que não se localizavam no Google e ser aceito numa comunidade. Antes de meu quatro-oito-meia ter um HD que contasse gigas, os grandes nicks da comunidade anunciavam pastas de 10, 20, 100 GBs onde se encontrava – geralmente com organização impecável – Miracleman completo, a coleção de HQs do Grant Morrison por editora inglesa obscura, Akira colorido, Uncanny X-Men 1 a 442 e assim por diante. Era clicar e aguardar, às vezes alguns dias. Mas chegavam.

Levei um tempo para descobrir as pastas 0-day. Nem imaginava que fosse possível: os quadrinhos lançados nos Estados Unidos naquela semana. Já é tradição de muito tempo a quarta-feira ser dia de lançamento lá fora; pois bem: na quarta-feira à noite (nosso fuso horário), boa parte das 20 ou 30 novidades da semana que me interessavam já estava lá, scanneada, tratada, organizada em arquivos .cbr (comic book reader). Até a sexta-feira, todas estavam disponíveis.

Em dez anos, a precariedade do esquema quase desapareceu. Google, três cliques e uma conexão decente rende os gibis da semana em minutos – na mesma quarta-feira. Os sites de compartilhamento são aqueles com banners que piscam “ENCONTRE UMA MULHER! FALE COM UMA MULHER! FODA UMA MULHER!”. Sempre que vejo isso, lembro de uns vinte anos antes e eu andando por sebos/casas de jogo do bicho, que exibiam infinitas Playboy e EleEla na parede. Eu seguia diligente a procurar os números que me faltavam de Capitão América.

Aliás, minha última descoberta nesses sites é que outros interessados de tapa-olhos vêm scanneando coleções inteiras dos gibis da Editora Abril (COM os anúncios do Instituto Universal Brasileiro e dos Tênis Kimkol), incluindo as Capitão América que eu nunca encontrei. Há também outros seres de olho de vidro que já digitalizaram Circo, Animal, Piratas do Tietê, Fradim, a primeira tradução de Sandman…

Praticamente toda a história dos quadrinhos dos EUA já foi scanneada. Uma das brincadeiras mais recentes dos camaradas com perna de pau é organizar a cronologia da Marvel em ordem de leitura: as pastas têm umas 70-80 edições na ordem de lançamento do cânone, desde Fantastic Four #1, de 1961. Já são quase 150 pastas.

* * *

Existem livros inteiros para discutir a pirataria, e o assunto realmente é complexo. É melhor não me alongar, por isso fico em duas observações. Para os já adeptos baixantes-torrenteantes: é muito legal ter acesso a tudo, mas pense se o responsável pelo material que você gostou não merecia algum incentivo pecuniário. Há poucos dias, felizmente convenci um amigo de que a Sequart – um pequeno coletivo inglês que faz belos documentários sobre quadrinhos – merecia 10 dólares pelo download de cada filme, independente de estes filmes serem vendidos digitalmente e estarem disponíveis de graça.

E para os que veem a pirataria como cara de mau: minha Sandman Overture Deluxe Edition já está encomendada.

* * * * *

Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
Site – Twitter – Outros Quadrinhos

 

Teste de empatia para comentaristas de blogue

Por Joca Reiners Terron
Looking Back

Proponho aos leitores um teste em comemoração a este meu heptagésimo post. É uma data festiva, ao menos para mim (talvez só para mim), e faz-se mister festejar. O teste abaixo é utilizado pelo Instituto de Psiquiatria britânico para identificar psicopatas entre candidatos a cargos públicos. Com ligeiras alterações em alguns enunciados (duvido que as identifiquem), todas com fins mais que justificáveis em decorrência desta efeméride, deve ser respondido apenas com “sim” e “não”. As respostas podem ser mentais, porém tudo ok se quiserem enumerá-las na caixa de comentários. Serão muito bem-vindas. Aqueles que o fizerem receberão um beijo telepático do colunista. É desnecessário se preocupar com o resultado. Se der positivo para falta de empatia, por exemplo, ninguém será despertado com enfermeiros na porta. Ninguém será denunciado, podem ficar tranquilos. Certa vez, em entrevista a um documentário, J.G. Ballard respondeu a estas questões. Depois de fazê-lo, ressaltou que as perguntas diziam mais da mentalidade dos psiquiatras que as elaboraram do que as respostas revelavam dos entrevistados. Então não se preocupem. A mim o teste lembra aqueles formulários de imigração que do nada perguntam se você está carregando explosivos ou uma metralhadora. Por isso está tudo bem, basta ser sincero nas respostas para que a avaliação seja produtiva. Não haverá represálias. Expresse-se à vontade. Vamos, compartilhe seus sentimentos. Está tudo bem, relaxe. Enquanto isso, me diga: você está carregando uma metralhadora?

Questionário

1. Está certo de que tem o que fazer?

2. Costuma pensar nas coisas antes de fazê-las?

3. Sofre alterações de humor com frequência?

4. Alguma vez recebeu elogios por algo que sabia ter sido feito por outra pessoa?

5. Gosta de conversar?

6. Preocupa-se por estar em dívida com alguém?

7. Sentiu-se alguma vez “realmente infeliz” sem razão?

8. Considera que esteve alguma vez centrado em si mesmo mais do que devia?

9. Tem a precaução de fechar sua casa a chave toda noite?

10. É uma pessoa animada?

11. Incomoda-se muito ao ver uma criança ou um animal sofrer?

12. Preocupa-se com frequência por coisas que não deveria ter dito ou feito?

13. Alguma vez se sentiu incomodado com o teor deste ou de outros textos publicados na internet?

14. Se afirma que vai fazer algo mantém sempre a promessa, sem se importar com o incômodo que possa vir a ser?

15. Em geral você se deixa levar e consegue aproveitar uma festa animada?

16. Irrita-se facilmente?

17. Alguma vez culpou alguém por fazer algo que sabia ter sido culpa sua?

18. Gosta de conhecer gente nova?

19. Elogia algo aqui e depois fala mal no Facebook?

20. Acredita que planos de seguro são uma boa ideia?

21. É fácil ferir seus sentimentos?

22. Todos os seus hábitos são bons e agradáveis?

23. Você tende a se manter em segundo plano nas reuniões sociais?

24. Você conta até 10 antes de fazer um comentário em blogue?

25. Tomaria drogas que pudessem ter efeitos estranhos ou realmente perigosos?

26. Sente-se amargurado com frequência?

27. Alguma vez tomou algo que pertencia a outra pessoa?

28. Gosta muito de sair?

29. Desfruta fazendo mal às pessoas que quer bem?

30. É atormentado frequentemente pelo sentimento de culpa?

31. Costuma falar de coisas das quais não sabe absolutamente nada?

32. Prefere ler em vez de conhecer pessoas?

33. Tem inimigos que desejem lhe fazer mal?

34. Diria que é uma pessoa nervosa?

35. Tem muitos amigos?

36. Tem feito amor nos últimos tempos?

37. Sente prazer em fazer piadas pesadas, dessas que às vezes realmente fazem mal?

38. Acha que pornô grátis na internet pode salvar o mundo?

39. Você é do tipo que se preocupa com tudo?

40. Quando era criança era obrigado a fazer o que lhe mandavam de imediato e sem protestar?

41. Quando faz amor sua(seu) parceira(o) faz cara de quem está sentindo cócegas?

42. Se definiria como uma pessoa despreocupada?

43. Importa-se com os bons modos e a higiene pessoal?

44. Preocupa-se com coisas horríveis que possam vir a acontecer?

45. Alguma vez perdeu ou estragou algo que pertencia a outra pessoa?

46. É você quem habitualmente toma a iniciativa na hora de fazer novos amigos?

47. Considera-se alguém tenso ou irritável?

48. Em geral você é calado quando está com outras pessoas?

49. Na escola você sentava na frente ou no fundão?

50. Considera que o casamento está fora de moda e que deveriam acabar com ele?

51. Você consegue se animar facilmente em uma festa muito chata?

52. Gosta de se gabar de vez em quando?

53. Incomoda-se com pessoas que dirigem com cuidado?

54. Preocupa-se com sua saúde?

55. Tem hemorróidas?

56. Alguma vez disse algo ruim ou feio de alguém?

57. Gosta de contar piadas ou histórias divertidas aos amigos?

58. Passa mais tempo do que devia na internet?

59. A maioria das coisas têm o mesmo sabor para você?

60. Era atrevido com seus pais quando criança?

61. Gosta de se misturar com as pessoas?

62. Espiona antigos(as) namorados(as) nas redes sociais?

63. Preocupa-se ao descobrir erros em seu trabalho?

64. Sofre de insônia?

65. Lava sempre as mãos antes de comer?

66. É antissocial mas adora uma rede social?

67. Quase sempre tem uma “resposta pronta” quando alguém fala com você?

68. Gosta de chegar aos seus compromissos com tempo de sobra?

69. Sente-se apático e cansado com muita frequência?

70. Já trapaceou no jogo?

71. Gosta de estar em situações nas quais seja obrigado a agir rapidamente?

72. Sua mãe é (ou era) uma boa pessoa?

73. Sente com frequência que a vida é muito tediosa?

74. Alguma vez se aproveitou de alguém?

75. Costuma ter mais atividades do que seu tempo permite?

76. Considera a literatura brasileira contemporânea um lixo?

77. Há pessoas que tentam evitá-lo?

78. Preocupa-se muito com seu aspecto?

79. Acredita que as pessoas passam tempo demais se precavendo com poupanças e economias para o futuro?

80. Desejou alguma vez estar morto?

81. Evitaria pagar impostos se tivesse certeza de que nunca o descobririam?

82. Costuma ir a festas?

83. Procura não ser grosseiro com as pessoas?

84. Permanece preocupado durante muito tempo depois de um comentário vexaminoso num blogue?

85. Alguma vez insistiu em fazer as coisas de sua maneira?

86. Quando toma um trem costuma chegar no último minuto?

87. Sofre dos nervos?

88. Trata bem os atendentes de telemarketing?

89. Rompe facilmente suas amizades sem sentir culpa?

90. Sente-se sozinho com frequência?

91. Reclama muito da qualidade das companhias telefônicas?

92. Pratica sempre o que prega?

93. Já arremessou seu smartphone na privada ao ler esta coluna?

94. Gosta de atormentar animais de vez em quando?

95. Magoa-se facilmente com as pessoas que encontrem falhas em você ou no seu trabalho?

96. Alguma vez chegou tarde a um compromisso ou ao seu trabalho?

97. Gosta que haja muita agitação e alvoroço ao seu redor?

98. Já foi espancado por vizinhos?

99. Gosta que outras pessoas tenham medo de você?

100. Sente que às vezes transborda energia e outras vezes é muito preguiçoso?

101. De vez em quando deixa para amanhã o que deveria fazer hoje?

102. Acredita que as pessoas o achem animado?

103. Mentem muito para você?

104. Você é suscetível a determinadas coisas?

105. Está sempre disposto a reconhecer um erro que cometeu?

106. Sentiria muita pena de um animal que caiu em uma armadilha?

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu novo livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Poesia organizada

Por Leandro Sarmatz
Sem título

Dia desses cometi a loucura de polemizar com um velho poeta sobre alguns tópicos da lírica contemporânea. Digo loucura porque é isso aí mesmo, não há palavra melhor disponível no léxico: pois é preciso estar com alguns parafusos meio desajustados para entrar numa contenda – delicadíssima, teórica, gentil, aliás – com um velho e venerável vate.

O poeta (experiente, lidíssimo, embora um pouco inclinado a valorizar apenas uma lírica de teor mais clássico) argumentava que, tirando um e outro nome, o catálogo de poesia brasileira contemporânea da editora não era lá grande coisa. Ora, isso mexeu com meus brios, então me pus a discordar, elencando de forma mais ou menos generalizada algumas das qualidades mais gritantes (e também aquelas mais sutis) dos nossos poetas.

Trocamos alguns e-mails, formulamos, cada qual com seu a + b, nossos argumentos, e demos por encerrada a correspondência sem no entanto chegarmos a um consenso. Não brigamos, operamos tudo na maior delicadeza. Mas havia algo ali que não era apenas visões de mundo e de leitura diferentes, tampouco se tratava do abismo geracional entre dois leitores de poesia. Era todo um universo de critérios e valores diferentes em ação para tentar entender os mesmos versos.

Grande parte da argumentação do poeta era contra uma suposta “coesão” de alguns de nossos títulos recentes na coleção de poesia brasileira. Dizia que a grande lírica, feita no cotidiano disforme de todos nós, não precisava ser artificiosamente reajustada como um livro de não-ficção. Correto, pensei (ou respondi), mas também era preciso lembrar que alguns de nossos grandes, como Drummond e João Cabral, publicaram volumes de verso absolutamente organizados em torno de algumas ideias. Citei A rosa do povo e Claro enigma, do mineiro, e A educação pela pedra, do pernambucano. Livros “coesos”, como dizia depreciativamente o poeta.

Contemporâneos também fazem isso – e isso é possível atestar a partir de alguns dos livros mais fortes do catálogo de poesia brasileira aqui da editora. Confesso: como leitor, e eventualmente como editor de alguns dos títulos, tendo a organizar minha leitura em seções, e inclusive às vezes sugiro alguns arranjos para o autor. Não por didatismo ou espírito vulgar, mas porque às vezes uma – digamos – redistribuição dos poemas ao longo do livro ajuda o volume inteiro a fazer aquele tão sonhado “clic” na cabeça e no espírito do leitor.

Claro que isso não é uma receita universalmente válida para todo livro de poesia. Às vezes o que se quer é mesmo é multiplicidade, variedade, outras vozes. O poeta discordou (educadamente, como já disse) de toda essa conversa, mas lá pelas tantas citou com entusiasmo dois livros recentes, publicados aqui, que contrariavam toda a sua linha de raciocínio. Bom, nossa conversa estava bem civilizada, então moitei e não observei isso para o meu doce polemista. Não é preciso ganhar todas, ou se é, não se faz necessário soltar fogos de artifício. Barulho é inimigo da leitura.

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Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

 

A caixinha rosa

Por Carol Bensimon

1) Todo mundo já esteve em alguma confraternização em que, tão logo os convidados começam a preencher os espaços, observa-se uma orgânica e espontânea (?) divisão por gênero, isto é, pegando o churrasco de domingo como um exemplo extremo, teríamos: homens ao redor da churrasqueira (de pé), mulheres perto das saladas (sentadas). Os assuntos dos dois grupos, naturalmente (?), são distintos um do outro. Homens citam números enquanto mulheres citam regimes. Há uma grande chance da pergunta “qual é seu signo?” surgir no grupo das mulheres à guisa de explicação para certo traço de personalidade (“ah, eu tinha certeza, geminianas são assim”) mas nunca no dos homens. Mais que um churrasco de domingo, uma festinha do condomínio ou um amigo secreto da firma, isso é uma visão de mundo (e, no caso, a que está vencendo). Dentro dos limites bem estabelecidos dessa concepção, não existem assuntos de interesse comum, e todos os tópicos têm necessariamente uma filiação ao feminino ou ao masculino. Além disso, parte-se do princípio de que eu, mulher, tenho necessariamente mais afinidade com outra mulher (qualquer que seja) do que com um homem (além do cônjuge ou prospecção de cônjuge). E, assim, o Clube do Bolinha e o Clube da Luluzinha, não é preciso dizer, reforça o famoso mito da incompreensão entre os gêneros.

2) O universo ficcional de alguns escritores é exatamente essa festinha descrita no item 1. Se alguns protagonistas, na solidão e dureza deste mundo contemporâneo, conseguem estabelecer relações humanas, ainda que frágeis, elas geralmente são mais calorosas e verdadeiras na camaradagem da companhia masculina. As relações conjugais, por outro lado, parecem sempre fadadas ao fracasso, em parte porque as mulheres ficcionais são representadas como um tanto diabólicas e/ou imprevisíveis. Ao homem, portanto, resta ficar à mercê dos caprichos de sua amada.

3) Nunca há comunhão entre um homem e uma mulher nessas relações conjugais representadas, ou ao menos não no tempo presente da narrativa. Mas como poderia haver, se partimos da premissa de que não existe diálogo possível entre os gêneros?

4) Talvez uma saída à la Brokeback Mountain fosse algo legal de se ver. Mas vamos ficar bem sentadinhos esperando um protagonista gay em algum grande romance brasileiro.

5) Muitos poetas que louvam a mulher estão apenas encarando-a e descrevendo-a como um belo pôr-do-sol ou um barquinho ao sabor das ondas.

6) Certos cronistas tiram quase toda sua inspiração das supostas diferenças de gênero. Assim, suas sentenças, como era de se esperar, são bastante categóricas. O homem isso, a mulher aquilo. A mulher faz dieta assim, o homem assado. A mulher fala tal coisa quando está apaixonada, o homem tal outra. A mulher abre a porta fazendo pim, o homem fazendo blam. É claro que muitas mulheres ficam profundamente encantadas com tamanha sensibilidade (sic) do cronista. Mas o derretimento feminino por um homem que, enfim, “compreende as mulheres”, só mascara o velho problema das caixinhas dos gêneros. O cronista que ama amar as mulheres está na verdade apaixonado por si mesmo ou, melhor dizendo, por essa construção, alimentada semanalmente, de heartbreaker irresistível com escavador de almas femininas.

7) Como se o funcionamento das caixinhas não fosse redutor o suficiente, deixando de lado tanto o que nos une (como seres humanos) quanto o que nos separa (como indivíduos diferentes um do outro), ocorre que a caixinha rosa é muito mais apertada que a caixinha azul. Em um post de 2012, fiz algumas considerações sobre isso, evocando cenas do documentário La domination masculine (2009). Não sei se ainda concordo com todas as conclusões que esbocei na época, mas continuo acreditando que uma espiada numa loja de brinquedos nos ajuda a entender questões complexas como “por que há menos mulheres escritoras do que homens escritores?”. Primeiro, visitamos a seção para meninos, depois a seção para meninas. (…) Na seção dos meninos, há dinossauros, caubóis, astronautas, super-heróis, piratas, carrinhos. É bem comum – diz o vendedor – que os meninos misturem todos esses universos na mesma brincadeira. Na seção das meninas, há basicamente princesas e cozinhas em miniatura. Com variações sobre o tema, claro. Do tipo barbies e pequenas tábuas de passar. A menina brinca - diz o vendedor - com um universo bastante limitado, que com frequência é uma representação do universo materno. Então ele mostra as fantasias. Para os meninos, há todas aquelas coisas que citei ali em cima, e mais uma infinidade de “papéis” possíveis. Para as meninas, princesas, princesas, princesas.

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu novo livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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