Colunistas

Os livros da escola

Por Carol Bensimon

9161132851_585361cbdd

Ontem eu fui falar em uma escola. Na primeira vez que isso aconteceu, eu tinha 26 anos e lembro de me sentir como se fosse aqueles adolescentes ontem. Claro que não fazia muito sentido. Eu já havia cursado uma faculdade inteira, tinha abandonado uma profissão, lançava agora um primeiro livro que, eu esperava, fosse abrir as portas para uma vida completamente diferente do que a que eu vinha levando. Mas, sei lá por que, não parecia haver tanta diferença assim entre nós quando eu fiquei de frente pra eles num auditório e decidi sentar no chão em vez de usar a cadeira. Ao menos eu tinha consciência de que essa sensação de proximidade era uma via única. Para eles, eu devia ser apenas uma versão levemente mais jovem da professora de literatura.

Ontem. 32 anos. Eu uso a cadeira. Agora sinto que há uma linha do tempo absurda de experiências, contas, viagens, amores, livros que nos separam. Ok, talvez não tão absurda. Mas parece que a cumplicidade adquiriu umas nuances meio maternais, ainda que em alguns momentos eu acredite que somos parte da mesma linhagem de gente estranha tentando se adaptar ao mundo e que muito pouca coisa mudou, e de repente alguém na fila de autógrafos diz Vaca amarela, e eu então Uou, vocês ainda falam isso? Sorrio.

Sempre tem uma coisa de tentar lembrar das leituras da época do colégio nessas ocasiões. O que me movia mesmo? Stephen King? Anne Rice? Conan Doyle? O último mamífero do Martinelli, do Marcos Rey? Aquela coleção chamada Para gostar de ler? Um livro sobre uma menina norueguesa cujo nome eu não lembro, comprado aleatoriamente na extinta livraria Curió do Rio de Janeiro? Minha querida Sputnik? Não acredito muito nas pessoas que dizem ter compreendido Machado de Assis aos 14 anos. Não é possível amar toda a literatura, e quanto mais em qualquer momento da vida. Não é feio não amar toda a literatura.

Depois, Caio Fernando Abreu e Julio Cortázar? Não me digam que esses dramas interiores fazem sentido antes dos quinze, dezesseis. No colégio, a obrigação do Lucíola ou Senhora. A escolha era essa, no Ensino Médio: ou Lucíola, ou Senhora. O que ficou disso? Umas questões do vestibular. Pra mim, fazia tanto sentido quanto trigonometria.

Querem ensinar a história da literatura ou querem mostrar que a literatura diz algo sobre a gente?

Nunca é fácil.

Eu e os colegas gostamos muito de O Continente do Érico, isso eu lembro. E Capitães da areia. Alguns colegas que podem ter gostado na época de O Continente e Capitães da areia não criaram, na vida adulta, o hábito de ler, o que é algo difícil de explicar mesmo, como pessoas que receberam estímulos parecidos acabam fazendo escolhas muito diferentes, mas ao mesmo tempo nos lembra que é totalmente injusto jogar toda a responsabilidade na escola e não levar em conta fatores como família, temperamento e alguma dose de aleatoriedade.

Sempre acabo falando, aliás, sobre essa alguma-dose-de-aleatoriedade. Não sei se tem a ver com essa coisa agora de se sentir meio maternal com aquelas carinhas me olhando, e lembrar de como era meio angustiante ser adolescente, lembrar de uma vizinha minha com idade para ser minha mãe me dizendo um dia no carro que eu era uma pessoa atormentada (olha aí, nada mudou), mas o fato é que acabo evocando, também um pouco direcionada pelas perguntas, a escolha que fiz no vestibular por Publicidade e Propaganda, muito baseada numa ideia vaga de que eu queria ter uma profissão criativa, fazer algo que não parecesse trabalho, e um dia calhou de a escola organizar uma feira das profissões, eu ouvir a fala de uma publicitária e: pareceu massa. Instantes depois, ela estava sorteando uma espécie de estágio de uma semana. E eu ganhei. Eu subi o morro Santa Teresa (quer dizer, fui levada pelo meu pai) de segunda a sexta em alguma semana de 1999 e tudo que eu lembro é que eu fiquei lá naquela agência que era um prédio inteiro procurando fotos em catálogos de bancos de imagem. Olhando para trás, parece difícil acreditar que isso tenha feito eu tomar uma decisão.

Então eu falo sobre isso porque fico imaginando que a escola, os pais, o mundo exerça uma pressão enorme sobre a escolha do vestibular, o fim do colégio e o que você deve decidir fazer para sempre. E eu só quero dizer: calma. Ouve teu Nirvana, chora por uma garota, vão existir contas a pagar lá na frente, mas tudo vai ficar bem, a gente ainda tem música, a gente ainda tem as garotas.

* * * * *

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Astral Facial

Por DW Ribatsk

Você já sonhou com lugares completos? Que noite após noite se repetem como se fosse um lugar que existisse mesmo? E agora? Você está dormindo ou acordado?

15_astralfacial_baixa

* * * * *

DW Ribatski nasceu em Curitiba em 1982. É artista plástico, ilustrador e quadrinista. Já colaborou com diversas publicações, como o caderno Ilustríssima da Folha de S.Paulo e a revista Superinteressante, entre outras. Nas HQs, publicou Campo em branco (Quadrinhos na Cia., 2013), Como na quinta série (Balão Editorial, 2012), La naturalesa (coleção MIL, Cachalote/Barba Negra, 2011), Vigor Mortis (Quadrinhofilia/Zarabatana Books, 2011, com José Aguiar e Paulo Biscaia) e Dois (Roax Press, 2013). Contribui para o blog com uma coluna mensal de quadrinhos.
Site – Facebook – Twitter

Despedida

7

imprima_se-menorQueridos leitores​, este velho editor se​ cansou e minha coluna tem refletido um pouco esse cansaço. Assim​, vou tirar​ férias do blog. Desimprimo-me por uns meses, deixando as primeiras ​quintas do mês livres para os novos colaboradores deste ​blog que tanto me orgulha.

Quando sentir que tenho o que dizer​,​ retornarei com um comentário ou uma crônica. Não terei frequência regular, a não ser a da vontade de compartilhar algo com vocês, leitores do blog. Retiro-me, mas estarei sempre pronto para mostrar a cara, quando o assunto justificar. Curtam comigo os novos escritores que aqui marcam presença. Qualquer hora eu apareço.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna mensal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

O romance pergunta: quanto vale seu voto?

José Luiz Passos

8540679576_2da71a8d5b

Enquanto o mestre Zé Amaro, seleiro às antigas, vai “perdendo o gosto pelo trabalho”, o capitão Vitorino Carneiro da Cunha, apelidado de Papa-Rabo, se considera um “homem de partido” e visita amigos e parentes, anunciando sua candidatura à chefia política da vila do Pilar. Ele acha que a longa dominação dos coronéis está com os dias contados. O próprio Vitorino é primo de dois coronéis: o catatônico Lula de Holanda, do engenho Santa Fé, e o enérgico José Paulino, do Santa Rosa. Mas, ao contrário dos primos, o velho Vitorino é pobre, monta uma mula esfalfada e se alimenta da grandiosidade moral dos próprios bordões, que cantam contra tudo que lhe pareça corrupção, maltrato ou desrespeito. No intervalo de suas andanças, Vitorino prefere a companhia do compadre Zé Amaro, cujo ressentimento para com os poderosos invoca, na simpatia pelo cangaceiro Antônio Silvino, mais outra forma de oposição aos desmandos da velha ordem.

José Lins do Rego publicou o romance Fogo morto em 1943. Num romance em que todos os personagens estão em movimento, buscando veementemente alguma coisa que já passou ou que ainda não existe, não se deve desprezar o fato de que tal trânsito passe quase sempre diante da casa do mestre seleiro Zé Amaro. Passa o velho cabriolé do coronel Lula, tilintando; passam os tangerinos com seus bichos; o cego Torquato, mensageiro secreto dos cangaceiros; passa o negro Passarinho, cantando romances de cavalaria, e também Floripes, o ex-moleque do Santa Fé, afilhado do coronel Lula, que, aliás, avisa ao mestre seleiro: “O capitão Vitorino anda dizendo que o mestre vai votar contra o coronel José Paulino, e o meu padrinho mandou falar com o senhor para tomar cuidado”. De suas mágoas profundas, o seleiro responde a Floripes que ele, Zé Amaro, não era “escravo de homem nenhum”. Seu ressentimento tem razão de ser. O mestre recebia o lembrete de um coronel para que ele votasse em outro coronel. E o lembrete vinha pela boca de um afilhado deles, sendo o suposto adversário político um terceiro membro da mesma família, ainda que pobre e moralmente rebelado… A força do romance de José Lins ganha sua densidade maior nesses instantes em que os opostos se tocam e as diferenças se confundem, promovendo curiosamente o esclarecimento das relações em questão.

Vitorino Carneiro da Cunha esbraveja contra os corruptos e é, ele próprio, catálogo do politicamente incorreto, sempre lembrando aos demais sua condição de homem branco, munido de sobrenome e de uma vara, que ele silva no ar contra seus agressores. Bem a propósito, os moleques da região passam pelo capitão, montado em sua burra, e sem falta gritam “Papa-Rabo!”, apenas para ouvirem de volta: “É a mãe!”. E lá vai Vitorino defender o coronel Lula de Holanda das ameaças de Antônio Silvino, e defender o cego Torquato e o negro Passarinho dos militares, e, afinal, amparar o próprio compadre Zé Amaro, já suposto por muitos ser lobisomem correndo à noite na trilha de sangue, em busca de reparação para alguma coisa que ninguém dali entendia. Até nisso o capitão e o mestre seleiro se irmanam, no desespero de quem imagina valores melhores para um mundo que os congela dentro de um mito de inocência pastoral.

Aliás, num romance em que “tudo se fora na enchente do tempo”, o recurso à fragilidade esplêndida dos “aluados” Vitorino e Zé Amaro restaura o nexo oracular que, em geral, atribuímos à sabedoria dos inocentes. A traição do inocente marca a divisão entre vivos e mortos; entre o antes e o depois. Tal transigência, tão onipresente neste romance, é motor de um estilo. Vitorino, consciência-limite desse mundo, enxerga a dependência entre opostos; torna visíveis os laços entre o cangaceiro e o coronel mais afluente de todos; entre o seleiro e o seu espoliador moral, o coronel mais pobre de todos. Sendo um romance sobre como votar, e sobre os muitos lados de um voto, Fogo morto é, também, denúncia de uma situação política ainda nossa contemporânea. Não o velho voto de cabresto, nem o coronelismo clássico, mas a transigência para com o compadrio, bem como a corrupção instituída, de cátedra, altissonante, politicamente correta. Ora, José Lins vivia no bojo desses mundos misturados, em que, por exemplo, o modernizador Agamenon Magalhães — ministro da Justiça de Getúlio Vargas e, também, seu interventor em Pernambuco — enfrenta o problema da centralização do fabrico de açúcar no Estado. Por incrível que pareça, num gesto a modo de Papa-Rabo, vingador de grandes e pequenos, José Lins, depois de publicar o romance, sai em defesa dos usineiros, de um usineiro em particular, enquanto em sua ficção as usinas representavam justamente o soçobro de um universo de valores senhoriais, pertencentes ao mundo do engenho, supostamente resistente à corrupção do trato.

Como disse, Fogo morto é de 1943. A crônica “Um caso de confisco”, de José Lins para O Globo, sobre a lei antitruste de Agamenon Magalhães — e cujo principal alvo era a usina Catende, onde nasci —, é do dia 16 de junho de 1945. Em outubro do mesmo ano, o próprio Getúlio Vargas é deposto pelo Exército que o apoiara. O industrial defendido por José Lins morre em 1950. Dois anos depois, o romancista — que havia acusado as usinas no mundo da ficção, mas defendido um usineiro na imprensa — tem seu pedido de visto aos Estados Unidos negado, possivelmente por pertencer ao Partido Socialista. A imaginação desse escritor ainda nos serve de antídoto contra a perversa ingenuidade do falso quixotismo, presente nas bocas de escritores, de críticos e de gestores da política; gente que alardeia o coro da certeza e a regra de mão única. Ao menos em literatura, nem sempre as opiniões mais corretas engendram os melhores frutos, ou os frutos mais críticos. Alguém já disse: um bom romance é bem mais inteligente que seu próprio autor. E se há uma grandeza em José Lins do Rego, ela reside precisamente na imensa teia de relações que vão da incorporação do dado histórico às torções míticas do mesmo dado. Seu romance é painel de interesses vivos, tornado atual e radicalmente político pela irônica denúncia que os “aluados” fazem de uma ruína compartilhada entre um seleiro e o seu senhor.

* * * * *

José Luiz Passos nasceu em Catende, Pernambuco, em 1971. Formado em sociologia, doutorou-se em letras nos Estados Unidos. É autor dos ensaios Ruínas de linhas puras(1998) — sobre as viagens de Macunaíma — e Romance com pessoas (originalmente publicado em 2007 e reeditado pela Alfaguara em 2014). Também pela Alfaguara, publicou em 2009 seu primeiro romance, Nosso grão mais fino, selecionado para o prêmio Zaffari & Bourbon de literatura, e, em 2012, O sonâmbulo amador, com o qual venceu o Grande Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa em 2013. É autor de uma peça de teatro e de contos publicados no Brasil e no exterior — inclusive na revistaGranta em português. Vive atualmente com a esposa e os dois filhos nos Estados Unidos, onde é professor titular na Universidade da Califórnia em Los Angeles.

Os dedos sujos

Por Juan Pablo Villalobos

38966649_d69f5231f9

Há umas duas semanas, a caneta-fetiche que eu utilizo para escrever começou a jorrar gotinhas de tinta que me deixavam os dedos polegar e indicador manchados. A minha primeira reação, óbvia, foi tentar arrumar a caneta: substituí o cartucho de tinta por um novo, mas o problema continuou. Limpei a caneta, tirei o cartucho e voltei a encaixá-lo. Estava nesse processo quando olhei pros meus dedos sujos e tive uma sensação maravilhosa: eu era um trabalhador das letras, um operário da literatura. Graças a minha caneta estragada, agora eu poderia ir buscar meus filhos na escola às cinco da tarde com o orgulho do mecânico. Eu tinha um trabalho de verdade, físico, uma atividade que deixava suas marcas nas minhas mãos, eu não era mais aquele cara que passava o dia no estúdio lendo, fofocando no Facebook, organizando a revolução no Twitter, assistindo documentários de extraterrestres no YouTube, verificando se tem um novo Porta dos Fundos e rabiscando frases em algum dos nove cadernos-fetiche da gaveta de minha escrivaninha.

As manchas de tinta nos meus dedos me fizeram chegar à conclusão de que foi por isso que eu passei a escrever a mão: para ter a sensação de que eu estava realizando um trabalho físico. Eu escrevi meu primeiro romance, a Festa no covil, no computador. Já o Se vivêssemos em um lugar normal e o Te vendo um cachorro escrevi a mão, utilizando a minha caneta-fetiche que agora pinga tinta. Eu virei um defensor fanático e fundamentalista da escrita a mão, que segue um processo intelectual e criativo bem diferente da escrita em computador. A escrita a mão, além do mais, exige uma primeira reescrita imediata, no momento de passar pro computador. E, ainda mais importante, numa boa jornada, uma de, digamos, quatro horas ininterruptas de escrita, no final do dia acontece um milagre: a mão, e até o braço, doem. Aí você pode dizer que está cansado, que foi um dia pesado no trabalho.

Também foi por isso que eu passei a escrever num estúdio fora de casa. Quando eu ficava em casa aguardando a visita das musas, a sensação de inutilidade era insuportável. Ir pro estúdio obriga a estabelecer um horário, a se deslocar, a levar e trazer os apetrechos da escrita. Estabelece uma rotina que cria a ilusão de que isso é como ir trabalhar.

Só que escrever não é exatamente um trabalho. Meu filho Mateo, que tem oito anos, sabe. Ele me acusa de passar o dia lendo. Eu me defendo argumentando que para escrever uma coisa interessante é preciso ler muito, conhecer a tradição literária, saber o que estão escrevendo os colegas de minha geração. “Só que ler não é um trabalho”, ele diz, “eu gosto de ler, ler é bacana, isso não é um trabalho, trabalho é chato”. Aí eu fico calado, porque gosto que ele brigue comigo só pra ser autorizado a ler uns minutos a mais antes de ser obrigado a apagar a luz e ir dormir.  Mas fico pensando…

Fico pensando que é por isso que os escritores falam que escrever muitas vezes é chato, especialmente diante da página em branco, oh, o grande sofrimento da criação literária. Falamos que escrever pode ser um tormento porque, na verdade, temos a necessidade de justificar as enormes lacunas, os oceanos Atlânticos de inatividade que a escrita de um romance precisa: todos esses momentos em que o romancista fica olhando pra parede, pensando, imaginando, procurando o romance que quer escrever.

Mas agora eu tenho a minha caneta estragada. Quando meu filho perguntar como foi meu dia de trabalho eu vou mostrar os dedos manchadíssimos de tinta. Ainda que eu tenha que ficar enchendo uma página com bolinhas e pauzinhos às dez pras cinco.

* * * * *

Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e morou durante uns anos no Brasil. É autor de Festa no covil Se vivêssemos em um lugar normal, publicados pela Companhia das Letras e traduzidos em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
Twitter