Colunistas

A maior sorte de todos os tempos

Por DW Ribatski

Amor e sorte. Encontrar alguém que representa sua idealização, na aparência, modo de ver e viver a vida, uma paixão animal pela parte física, uma admiração intensa pelo sucesso a partir das escolhas mentais, o brilho sem explicação que todos procuram: perder o controle da razão sem se perder no processo. No processo desleal da vida, a ironia do jogo. Eu te vejo nessa curva dessa forma ideal.

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DW Ribatski nasceu em Curitiba em 1982. É artista plástico, ilustrador e quadrinista. Já colaborou com diversas publicações, como o caderno Ilustríssima da Folha de S.Paulo e a revista Superinteressante, entre outras. Nas HQs, publicou Campo em branco(Quadrinhos na Cia., 2013), Como na quinta série (Balão Editorial, 2012), La naturalesa (coleção MIL, Cachalote/Barba Negra, 2011), Vigor Mortis (Quadrinhofilia/Zarabatana Books, 2011, com José Aguiar e Paulo Biscaia) e Dois (Roax Press, 2013). Contribui para o blog com uma coluna mensal de quadrinhos.
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A geração perdida?

Por Luiz Schwarcz

Kiera Cass, autora da série A Seleção, na Bienal do Livro de São Paulo.

Há muitas bienais não sentia emoção semelhante a essa que senti ao visitar a feira que se encerrou no domingo passado. A culpa era toda minha, ou nossa. A Companhia das Letras tardou demais para reconhecer como seu um público emergente no mundo dos livros. Durante certo tempo quase viramos as costas para este novo Brasil. Sabíamos que o país mudava, mas demoramos para dar passos concretos no sentido de conversar com outras classes, publicar para outros gostos que não os nossos. Foi quando a Penguin entrou como sócia da Companhia que tivemos a coragem de encarar de uma vez por todas esse novo público. Junto com o grupo inglês sentimos que poderíamos aprender a editar livros mais acessíveis, populares e comerciais. Sem preconceito. Precisamos dos estrangeiros para virarmos mais brasileiros.

O mercado de livros hoje é povoado principalmente pelas várias classes que ascenderam nos últimos anos, fruto da distribuição de renda que começou no governo Fernando Henrique e se aprofundou nos mandatos de Lula. Além disso, o mercado reflete o investimento em educação que os últimos governos fizeram, municiando bibliotecas escolares e distribuindo livros para as classes mais pobres. Assim, o público que se vê nos corredores da Bienal é diferente daquele que conheci há trinta e sete anos, quando comecei a trabalhar na Brasiliense e me emocionei na minha primeira Bienal, ainda no parque do Ibirapuera. É diferente, também, do público que fez da Companhia das Letras um sucesso de vendas muito maior do que o esperado no início da editora, quase vinte e oito anos atrás.

Hoje, com os novos selos — Paralela e, principalmente, Seguinte —, a Companhia fala com o novo Brasil, e o mal-estar de ver a Bienal crescer nos outros estandes, e não no nosso, passou. O curioso é que esse passo, o de criar selos populares, foi duramente criticado por certos intelectuais e autores da editora — alguns paradoxalmente mantêm fortes vínculos com o PT — e mesmo questionado internamente, por parte dos funcionários, eleitores dos partidos mais à esquerda. Cheguei a convidar um desses autores — ao saber que dizia que a “Companhia das Letras não é mais a mesma” — a visitar a editora e conhecer nossos novos selos e o trabalho social que fazemos voluntariamente, patrocinando grupos de leitura nos presídios femininos e em orfanatos. A visita ainda não aconteceu, mas quem sabe, assim como a ficha demorou para cair para mim, a Bienal de São Paulo sirva de gatilho para que os críticos mais elitistas se rendam à nova realidade do país, pela qual tanto lutamos, juntos e por tanto tempo. A Companhia das Letras, mantendo a qualidade do seu selo original intacta, hoje é mais brasileira não só pela publicação de maior número de autores nacionais, cuja maioria é de jovens talentosos, mas também por falar com mais gente, com um novo país de leitores, que certamente irá longe.

Junto da emoção de ver grupos de jovens gritando por seus autores — como nos tempos da Beatlemania —, lutando por senhas, revelando serem os livros objetos de sonho, surgem também algumas indagações. A principal delas é entender que outros fatores, além dos econômicos e do resultado do progresso social, nos fizeram chegar à atual realidade do mercado editorial brasileiro. Um fator extra-econômico e exclusivamente literário se chama Harry Potter. Grande parte do público que lota as bienais é filho de J. K. Rowling. Ou seja, adquiriu o prazer da leitura com o herói de óculos redondo, assim como a minha geração o adquiriu com Lobato ou com o Tesouro da Juventude. Escritores que sabem seduzir os jovens são desbravadores. Eles são os bons fantasmas que estão escondidos nos corredores da Bienal, e explicam muita coisa.

O outro fator, já mencionado anteriormente, é o investimento governamental em educação e em políticas que tornaram o livro mais popular. A sala de aula, os bons professores, os educadores e as bibliotecas são grandes motivadores de leitura, responsáveis por um enriquecimento intelectual inestimável. E sobre este ponto, hoje, infelizmente, pairam dúvidas tão inesperadas como preocupantes.

Vamos lá: os editores esperavam que a Copa trouxesse grandes dificuldades para o mercado editorial no ano de 2014. Isso não aconteceu, ou aconteceu em escala bem menor do que o aguardado. O público jovem foi o grande motor de superação da possível dormência de um país iludido pela Copa do Mundo. Os jovens não pararam de ler John Green, Kiera Cass, Veronica Roth, George R. R. Martin, Cassandra Clare etc. A crise está mais embaixo, justamente onde a bonança começou. As dificuldades políticas e o baixo crescimento do país afetaram justamente o investimento governamental em livros.

Grandes compradores, como as prefeituras de São Paulo e Rio, pararam quase totalmente de adquirir livros. O atual prefeito de São Paulo foi dos melhores Ministros da Educação do país. Seu secretário de educação e a equipe da secretaria são das mais qualificadas que já tivemos. Mas a consequência da não aprovação de um IPTU mais alto para os ricos recaiu sobre os alunos de menor renda. As bibliotecas pagaram parte da conta e seus acervos não foram renovados nos últimos dois anos. É injusto, incorreto e, no mínimo, surpreendente.

A secretaria de educação do Estado de São Paulo e a FDE (Fundação para o Desenvolvimento da Educação) foram os responsáveis por programas extensíssimos de compras de clássicos brasileiros, distribuídos a alunos e professores em larga escala. Os atrasos na operação de distribuição dos livros comprados e dúvidas sobre um programa tão bem-sucedido paralisaram as atividades governamentais no último ano da gestão de Geraldo Alckmin. Há rumores de que parte do secretariado prefere redestinar as verbas para programas voltados para crianças mais novas, considerando a geração dos jovens de hoje como perdida. Investir desde a idade mais baixa é correto, mas imaginem o efeito de bons livros clássicos da literatura brasileira nas mãos de leitores já fisgados pela boa literatura de entretenimento. Teria o efeito de uma bomba propagadora de bons livros, um salto de qualidade absolutamente fundamental. Me pergunto se os responsáveis do governo foram aos corredores da Bienal e viram que a geração não está perdida de forma alguma, que foi ganha por méritos dos bons programas desenvolvidos por eles próprios, pela FDE, cujos profissionais se mostram ávidos para dar continuidade às políticas desenvolvidas no passado recente. Não há nenhum sinal de avanço na escolha de novos livros para 2015, tendo este ano passado em branco, nas principais áreas de investimento da secretaria. A prefeitura do Rio de Janeiro, também tradicional investidora em bibliotecas escolares, claramente não segue mais a mesma linha.

No âmbito federal as coisas andam, mas com uma maior morosidade. Um programa inovador como o que prevê a compra de livros que tematizam questões sociais, raciais e de gênero teve seus livros selecionados, mas o processo de aquisição encontra-se parado. As negociações são mais morosas e o ministro José Henrique Paim, também um homem com vocação para a educação através dos livros, talvez não tenha tido força suficiente para vencer a crise geral do Estado brasileiro. Parece que é preciso vontade política dobrada para que o Brasil continue a crescer na literatura, agora com os maus ventos econômicos que têm soprado de uma maneira geral sobre o país.

O importante é olhar para os corredores da Bienal, para a Flip e para os festivais literários espalhados pelo Brasil e sentir orgulho. Saber que estes corredores devem tanto a grandes autores que souberam incluir os jovens no mundo das letras, como a grandes chefes de governo e a ótimos ministros e secretários de educação. É preciso cobrar continuidade aos governantes que, na área da educação, justamente deram um passo tão importante para mudar o país. Os leitores estão aí. Geração perdida? Uma ova!

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna mensal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

Instruções para escrever um romance corrupto

Por Juan Pablo Villalobos


O escritor está pronto para escrever um romance corrupto, um romance que será um espelho do estado de corrupção geral do país dele, que se chama, vamos dizer, México ou Brasil. Mas não quer escrever um romance sobre a corrupção, não, isso não teria nada de original ou provocante. O que quer é escrever um romance de um jeito corrupto, tentando imitar a corrupção que prevalece no país dele. Então, antes de pegar a caneta, ou antes de ligar o computador, antes até de dar à luz uma ideia que possa virar um romance, precisa de tranquilidade para escrever o romance, precisa de um salário para não ter que se preocupar com uma coisa tão banal como o dinheiro enquanto escreve a obra-prima dele, o romance corrupto. E, lógico, o escritor não pode ter um emprego, não. Senão quando vai escrever o romance corrupto tendo que cumprir expediente das nove da manhã às cinco da tarde? Aqui é onde começa o romance corrupto: no momento em que o escritor procura o tio dele (pode ser o pai dele, um primo, um compadre, um amigo da escolinha), que trabalha em um ministério (na verdade, pode ser qualquer órgão público), para pedir pra ser registrado, sem trabalhar, claro. Ou seja, o escritor vira funcionário fantasma. Ótimo: agora o escritor tem um salário sem ter que trabalhar e pode se dedicar ao que é verdadeiramente importante, a escrever o romance corrupto. Mas, ixi, tem um problema, ele acaba de perceber: o computador dele é velho, e não é um Mac! E não tem impressora! Não dá para escrever um romance, nem corrupto nem não corrupto, desse jeito. Então ele liga para o tio dele (ou primo, compadre etc.) e, com um passe de mágica, ganha um Mac e uma HP colorida direto do orçamento da nação. Beleza, agora sim dá para escrever, agora sim dá para pensar na estrutura do romance, que para ser corrupto tem que se submeter ao princípio da máxima eficiência econômica. Finalmente aparece a primeira questão filosófica, que exige do escritor um exercício intelectual de alta complexidade: como ganhar uma grana preta com o romance corrupto? O escritor não está pensando nas vendas dos exemplares do romance, ainda não. Isso é mais para frente. Ele está pensando em como ganhar dinheiro com o conteúdo do romance. Qual deveria ser o assunto do romance corrupto? O escritor tem duas opções bem óbvias: a extorsão e a publicidade (que são, na verdade, quase a mesma coisa). Achar um assunto que possa incomodar uma pessoa ou empresa e extorqui-la com a promessa de não escrever esse romance. Ou se oferecer a um personagem ou empresa para escrever um romance que funcione como publicidade encoberta, como propaganda. Mas o escritor não é um criminoso, não, porque ser funcionário fantasma ou ganhar presentes do orçamento da nação não é crime, não. O escritor, então, descarta a extorsão e, finalmente, põe mãos à obra: ele vende o projeto de escrever o romance ao governo de um Estado do centro do país (pode ser do norte ou até do sul). Será um grandioso romance corrupto sobre as grandiosas conquistas do governador do Estado. Mas o escritor não leu os clássicos gregos e, pior ainda: o escritor do romance corrupto nem sabe redigir. Além do mais, ele não tem tempo para escrever, está muito ocupado gastando: a) a grana do salário de funcionário fantasma, b) o bônus por atingir os objetivos trimestrais, e c) o adiantamento pago pelo governador. Então o escritor contrata um estagiário, um garotão empolgadíssimo que fez oitocentas oficinas literárias. É uma estratégia magistral, o romance corrupto só pode ser escrito por um escritor fantasma. O escritor faz uma pausa e avalia a situação: será que com tanto fantasma corre o risco de o romance virar um romance fantástico e não um romance corrupto? Mas o estagiário é muito barato! E que preguiça escrever o romance! Vai ter que correr o risco. Enquanto o escritor fantasma escreve o romance, o escritor tem que se preocupar com as coisas verdadeiramente importantes, falando em romances corruptos: a publicação e venda massiva de exemplares. Quem publicará o romance corrupto? Simples. Isso é coisa do governador protagonista do romance corrupto, que suborna o proprietário de uma editora para publicar o livro. Pronto. O suborno nem é em grana, não, é só uma promessa, mas que bela promessa: a promessa é que o Estado, através do sistema de escolas públicas, da rede de bibliotecas e dos programas de incentivo à leitura, comprará milhares de exemplares do romance corrupto. O círculo se fecha quando milhares de prateleiras em todo o país são abarrotadas com os exemplares do romance corrupto. Agora é quando o escritor revelará a verdadeira história do romance corrupto, a gênese e a evolução, explicará para todo mundo que o romance corrupto é, na verdade, uma performance para tirar a máscara dos corruptos e mostrar o estado de corrupção geral que vive o país. Mas quando ele está prestes a fazer isso, bem quando vai publicar a história no blog dele (e no Twitter e Facebook), recebe a oferta de um suborno maiúsculo se ficar com o bico fechado (e se não aceitar vai ter que sofrer as consequências). E o escritor, que no decurso da escrita do romance corrupto se converteu à corrupção, o escritor que agora é um escritor corrupto, recebe o suborno e cala.

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Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e atualmente mora no Brasil. Festa no covil, seu romance de estreia, foi publicado em quinze países. Em setembro a Companhia das Letras publicou seu segundo romance, Se vivêssemos em um lugar normal. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.

Rotas do Labirinto

Por Tony Bellotto


O personagem Remo Bellini nasceu no dia em que uma correspondência — uma conta de luz — foi colocada por engano sob minha porta. A conta era endereçada a um certo Bellini (não me lembro do primeiro nome) que supostamente morava no apartamento 91. Eu morava no 92. Munido da conta, fui até o apartamento ao lado e conheci Bellini, meu jovem vizinho, que, fiquei sabendo naquele momento, era também o síndico do prédio.

Estávamos em 1989 e fazia algum tempo eu buscava um nome para um personagem que estava criando, um alter ego juvenil. Naquela época eu tentava escrever histórias sobre minha adolescência no interior de São Paulo nos moldes das histórias de Nick Adams, de Ernest Hemingway, que retratam as aventuras à la Huckleberry Finn do jovem Nick — caçadas, pescarias — pelos bosques de Illinois. Outro personagem que muito me fascinava naqueles dias era o adolescente megalômano Arturo Bandini, o alter ego de John Fante. Portanto, quando a correspondência chegou ao meu apartamento — e antes que eu a entregasse ao seu verdadeiro destinatário — meu alter ego já tinha um nome: Bellini, a improvável mistura de Bellotto e Bandini que eu há tanto perseguia.

As histórias do adolescente Bellini em aventuras pelas linhas de ferro da Sorocabana nunca foram escritas. Mas em 1993, quando completei 33 anos — a enigmática “idade de Cristo” — decidi escrever um romance policial, pois me pareceu a forma mais fácil de resolver o enigma do romance de estreia — bastavam-me apenas um crime e um detetive para decifrá-lo. O crime foi fácil: um parricídio, o crime fundamental, o crime de Édipo. O detetive já estava escolhido, ou pelo menos o seu nome: Remo Bellini. Para “rechear” o nome, juntei algumas características de três de meus detetives prediletos: Philip Marlowe, Mandrake e Archie Goodwin — o fiel escudeiro de Nero Wolfe — que, junto com Bandini e Nick Adams, formam o código genético literário do Bellini.

Em 1995 publiquei Bellini e a Esfinge. O romance já tinha sido aprovado pela editora Brasiliense quando uma amiga, a escritora Patrícia Melo, encaminhou-o à Companhia das Letras, que decidiu publicá-lo, para minha imensa satisfação. Eu era fã, e sou até hoje, da coleção de policiais da Companhia. Em 1997, lancei Bellini e o Demônio, e a partir daí, inspirado por Georges Simenon, decidi que alternaria sempre os Bellinis com outros livros, para não ficar refém de um personagem só.

A coisa funcionou até o ano de 2007, quando lancei Os Insones. Pela lógica simenoniana, eu deveria ter lançado um outro Bellini em seguida (já publicara Bellini e os Espíritos em 2005). Mas algo aconteceu nesse período, e talvez tenha a ver com a proximidade da crise dos 50 anos — estava com 47 —, quando vislumbramos pela primeira vez com alguma clareza aquele muro sombrio a que chamam “finitude da vida”. Essa mirada costuma se seguir de uma guinada do pescoço, em que olhamos em retrocesso o que fizemos de nossas vidas até ali.

Lembro exatamente onde se deu esse insight: eu estava numa mesa em que se discutia literatura policial numa Bienal do Livro no Rio de Janeiro. Ao perceber que os colegas escritores policiais em torno discutiam tipos de veneno e formas criativas de assassinatos que não deixam pistas, entendi que não era àquela mesa que eu pertencia. Eu não queria ser percebido como um escritor policial, mas como um escritor simplesmente.

Sei que soa meio bobo, mas crises existenciais costumam ser assim, previsíveis e desprovidas de encanto. Seguiram-se No Buraco e Machu Picchu, romances em que tentei — e consegui — deixar a literatura policial de lado. Foi justamente no processo de acabamento de Machu Picchu que o André Conti, brilhante editor da casa, me sugeriu escrever uma HQ com o Bellini como personagem. O quadrinista Pedro Franz seria meu parceiro na empreitada. Melhor de tudo, o André tinha uma ideia para a história, um caso do Bellini em algum momento do futuro, já velho e um tanto acabado. Achei a ideia boa, e assim nasceu Bellini e o Corvo, a HQ que sai no próximo ano, comemorando os vinte anos de existência pública do detetive. Logo que finalizei o argumento de Bellini e o Corvo e o enviei ao Pedro Franz, comecei a escrever Bellini e o Labirinto e só parei seis meses depois. Quando teclei o ponto final, tive certeza de reencontrara meu personagem.

Sobre o estado atual do Bellini, deixo que ele o defina em suas próprias palavras: “Privado da visão, tive a impressão de que meus outros sentidos estavam mais aguçados e uma dor difusa se espalhava pelo meu corpo como corrente elétrica. Winston Churchill, no mais famoso de seus discursos, prometera sangue, suor e lágrimas para tentar conduzir a participação inglesa na guerra a um final vitorioso. Sangue e suor já me escorriam pelo rosto. As lágrimas ainda não”.

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BELLINI E O LABIRINTO
Sinopse:
Depois de quase dez anos da publicação de Bellini e os espíritos, Tony Bellotto volta à sua criação máxima, o áspero (e ocasionalmente sensível) investigador que é fã de blues, de mulheres e de uma boa dose de ação. O tempo passou, mas Bellini ainda mora sozinho num apartamento na região da avenida Paulista, coração de São Paulo. O crime para o qual será atraído, no entanto, não tem nada de comum. Depois de receber um telefonema de Marlon, parte da famosíssima dupla sertaneja Marlon & Brandão, Bellini terá de sair da sua conhecida São Paulo e viajar ao coração de Goiânia, onde se verá embrenhado num universo de música sertaneja, césio-137, intriga e pelo menos uma dama fatal.

 

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Criador do detetive Remo Bellini, seu novo livro, Bellini e o Labirinto, já está nas livrarias.

Um livro é um livro, um filme é um filme

Por Ana Maria Bahiana

Mais uma rodada do meu curso “Como Ver um Filme” neste mês de agosto! Desta vez, em três cidades — Ribeirão Preto, São Paulo e Recife —, 200 pessoas das mais variadas idades, gostos e inclinações estéticas acompanharam com entusiasmo e avidez minha proposta de uma jornada pelos bastidores do ofício de fazer filmes (e séries de TV, o novo cinema independente), para, dessa forma, aproveitar melhor o diálogo que a narrativa audiovisual propõe.

O duradouro sucesso desse curso, que começou como um laboratório para testar o conceito de um livro, me enche sempre de renovada alegria: ao longo dos sete anos em que estou na estrada, de Porto Alegre a Fortaleza, de Caxias do Sul a Ribeirão Preto, mais de três mil pessoas já fizeram essa viagem comigo, e nenhuma experiência é igual à anterior. São sempre perspectivas novas, curiosidades novas, diversos pontos de vista, diversas indagações que me lembram sempre o quão profundo e incomparável é o poder da imagem em movimento, tão parecida com o sonho sem ser inteiramente sonho.

Uma pergunta, contudo, permanece a mesma ao longo desses anos todos, intocada pela imensa diversidade dos meus alunos: por que os filmes baseados em livros são tão ruins se comparados com as obras originais?

Em geral, eu tento argumentar que nem todos os filmes adaptados de livros são necessariamente piores do que o original — o trabalho de Peter Jackson, Fran Walsh e Philippa Boyens na trilogia O senhor dos Anéis é impecável. Eu entendo a frustração das pessoas. Livros são experiências muito íntimas — os que amamos se tornam mais constantes e importantes em nossas vidas do que muitos de nossos amigos e namorados. Ver aquilo que amamos tão profundamente transformado em algo diferente, que bruscamente elimina ou muda os detalhes tão familiares, muitos deles quiçá os responsáveis por nosso coup de foudre, pode ser uma experiência brutal, quase uma violação.

Mesmo correndo o risco de não apaziguar inteiramente o descontentamento das leitoras e leitores, procuro explicar como é delicada e complicada a alquimia de transformar um texto literário numa narrativa audiovisual. Conheço esse quebra-cabeça de perto — há não muito tempo, ousei roteirizar Vento Sudoeste, de Luiz Alfredo Garcia-Roza, para um filme que acabou não se realizando (até o presente momento…). Eis o que aprendi, e que compartilho com quem me faz a pergunta:

Um livro é um livro, um filme é um filme. São tão parecidos entre si quanto uma melancia e um cacho de uvas, embora ambos sejam frutas. O livro tem a seu favor o dom inestimável do tempo, colocado aqui nas mãos da leitora ou leitor. O tempo do livro é o tempo de quem lê: um dia, uma noite, um fim de semana, seis meses, um ano. Reler. Pular páginas. Voltar atrás. Ler o fim antes de terminar. Repetir e repetir a leitura de um parágrafo, de um diálogo, de uma frase.

A autora ou autor propõe a jornada, mas quem comanda o ritmo, e quem cria o filme do livro — seu imaginário, a ciranda de imagens que dá carne aos personagens e detalhes às paisagens e emoções — é a leitora ou leitor.

Uma narrativa audiovisual não tem esse luxo. Um filme tem, em média, entre 90 e 120 minutos para fazer o que um livro faz ao longo de quanto tempo for preciso. Uma série ou minissérie de TV é mais generosa, mas, mesmo assim, cada episódio precisa compactar em seus três atos o oceano do livro, ou de parte do livro. Daí a necessidade de condensar personagens, podar tramas subalternas, eliminar lugares, detalhes, coisas que — vá saber! — podem ser absolutamente preciosas para quem leu a obra em questão.

Mas não é só isso. No tempo da tela o filme tem que substituir à altura (ou pelo menos tentar) o filme que leitoras e leitores fizeram em suas cabeças ao longo dos meses e anos de convivência com o texto. São os atores que não se parecem com os personagens como os vimos mentalmente enquanto líamos. São as paisagens e locais que ou desapareceram ou são mostrados de um modo como não imaginamos.

E tudo isso ainda não é o x da questão. O x da questão é que um livro narra com palavras, e um filme narra com imagens. É virar prata em ouro e vice-versa. É substituir dois parágrafos de descrição ou meditação por dois minutos de impressão luminosa. É dar todo o mundo interior de um personagem em um olhar, um gesto, um movimento.

Não é a toa que roteirista adora matar personagens. É muita transmutação para um caldeirão só.

O que aprendi tanto com minha experiência pessoal quanto com a observação de dezenas de outros trabalhos de pessoas infinitamente mais capacitadas é que a única solução possível é encarar as duas criaturas — o texto e a narrativa audiovisual — como as coisas diversas que são. É mergulhar fundo na própria essência do texto, no seu coração, no seu tema mesmo e se perguntar: como posso manifestar isso em imagens?

É pauleira. Felizmente, tem gente que consegue.

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Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

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