Colunistas

Outra família

Por Juan Pablo Villalobos

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Foto: Guillermo A. Durán

O cachorro tinha chegado na primavera com dupla garantia de felicidade. Primeiro, porque era um presente de minha avó Elena e, segundo, porque o emissário que o trouxe de Guadalajara para Lagos de Moreno foi meu tio Rodolfo. Era 1983 e eu tinha nove anos, mas o filhote era para Uriel, que ia fazer cinco. Uriel era o quarto de cinco irmãos — eu era o segundo — e era míope, disléxico, tinha um amigo imaginário e, além da vida dele conosco, afirmava que vivia uma existência paralela com a que ele chamava de “minha outra família”. A outra família de meu irmãozinho vivia numa fazenda com ovelhas verdes e vacas vermelhas que em vez de leite davam Coca-Cola. Isso pode ser até engraçado, mas virava uma coisa terrífica algumas noites em que Uriel não parava de chorar porque queria ir dormir com a outra família dele. Por alguma razão que não consigo entender, meus pais acharam que um cachorro seria tão eficaz como um terapeuta. Pelo menos o cachorro seria uma conexão com a realidade real.

Naquela época, minha avó Elena era a pessoa que a gente mais gostava no universo. Meu tio Rodolfo era do norte do México, de Tecate. Falava aos gritos, contava três piadas por minuto, tinha um monte de histórias hilárias que enfeitava com milhões de palavrões. Nós festejávamos as visitas dele para a carola Lagos de Moreno como se fosse uma chuva de meteoritos. Se o cachorro era um presente de minha avó Elena que chegava das mãos do tio Rodolfo, o que podia dar errado?

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Meu irmão Ángel, o mais velho, escolheu um pomposo nome germânico: Káiser. O cachorro era um weimaraner, uma raça originária da Alemanha, pelo que achamos que o nome fazia sentido.

Ainda sem sabê-lo, nós havíamos coroado imperador o cachorro mais maluco de todos os tempos.

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É possível aplicar aos cachorros as categorias da moralidade humana? É possível dizer que um cachorro é mau?

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A primeira desgraça do Káiser foi a sarna. Depois ele pegou uma interminável lista de doenças às que sobreviveu impertérrito, entre elas o parvovírus, duas vezes. Ele parecia imortal. Porém, a sarna ele nunca venceu, nós nunca vencemos. Tentamos todos os remédios científicos e também os sugeridos pela tia Guadalupe. Quando eu lembro do Káiser, uma das imagens que vem à minha memória é a dele jogado no chão de costas, coçando desesperadamente a pele da barriga até descascar as garras.

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Lista das travessuras mais famosas do Káiser: fugir de casa; traumatizar os outros bichos de estimação da família (gatos paranoicos, maritacas histéricas, peixes insones); entrar na cozinha, abrir a geladeira e comer toda a comida (reincidente); assediar sexualmente as minhas primas; voar do segundo ao primeiro andar da casa para tentar entrar por uma janela aberta; comer colchão; montar nos convidados, especialmente nos mais refinados.

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O Káiser achava que tinha uma missão na vida: fugir de casa. Usava toda a inteligência (não era muita) fazendo planos para escapar. Ele passava o tempo todo colado às portas. Uma sensação permanente de minha infância: a tensão no momento de abrir cada porta, primeiro só um pouquinho para descobrir se o cachorro estava aguardando atrás. A estratégia preferida do Káiser era a força bruta, enfiava o focinho na fenda e empurrava, empurrava, empurrava e pum!, se metia e ia embora.

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Lista das atividades do Káiser na rua: roubar o açougueiro; assassinar as galinhas do vizinho do lado esquerdo; comer as iguarias da vizinha da direita; canibalismo (não perguntem, vocês não querem saber); perseguir cadelas no cio; perseguir cadelas que não estavam no cio; cagar dentro da igreja; se esfregar nas pernas dos passeantes; perseguir desconhecidos; derrubar cegos; latir histericamente aos motoristas; ser atropelado (reincidente).

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Quando meu pai fez cinquenta anos, houve um almoço em que veio toda a família. Toda. Até os membros proscritos, como aquele primo que tinha sido desterrado por plantar maconha na chácara de meu avô. Aquela tia solteirona, que tinha fama de puta. Meus dois primos que eram alérgicos à atmosfera. O maridão de uma das minhas tias, que era deputado.

Durante o aperitivo, enquanto um tio que se achava espertíssimo explicava como fazer para não pagar a conta de luz, de água e do telefone, o Káiser aproveitou que alguém tinha deixado a porta da cozinha entreaberta e comeu todos os frangos que íamos almoçar com mole.

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Com o passar dos anos e de alguns psicólogos, Uriel esqueceu a outra família dele. Na verdade, ele trocou essa fantasia pela aquisição clandestina de animais exóticos. A lista de bichos que meu irmão trouxe para casa inclui iguanas, salamandras, falcões, águias, cobras, linces. Numa ocasião ele trouxe porquinhos-da-índia. Eram vários, não lembro quantos. Aconteceu o mesmo de sempre: meu pai falou que Uriel tinha que devolvê-los em no máximo 24 horas. Apesar dos antecedentes, ninguém teve a previsão de imaginar que 24 horas eram horas demais para a convivência entre os roedores e o Káiser. Enquanto eu e meus irmãos estávamos na escola, o cachorro destripou todos os bichinhos e meus pais não perceberam. Ao voltar para casa, encontramos o jardim regado de sangue, coberto de tripas, vísceras, pedaços dos cadáveres: uma cabecinha aqui, umas patas lá, rabos, lombos, mais cabeças. (Ao lado do jardim estavam os psicólogos esfregando as mãos.)

Para fechar um ciclo perfeito, o presente que chegou em casa para resgatar meu irmão do delírio acabou se convertendo no trauma definitivo dele. Nunca mais ele trouxe um bicho para casa, nunca. Até então a gente tinha certeza de que ele seria veterinário, biólogo, zoólogo ou amansador de feras. O Káiser o transformou em músico. Uriel fez sua estreia na adolescência cantando num grupo dark chamado La espuma del gusano (A espuma do verme). Em algumas músicas, se você ficasse muito atento, podia ouvir o eco dos berros dos porquinhos-da-índia, o terror diante do focinho assassino do Káiser.

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A paciência de nossos vizinhos durou oito anos, até que num infausto dia o dono das galinhas jogou pela grade um monte de carne marinada com cacos finíssimos de vidro.

Morria o cachorro, mas nascia a lenda.

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Depois do Káiser nós tivemos outros cachorros, vários, todos irrelevantes: eram cachorros bonzinhos, obedientes, insossos. Nem lembro os nomes deles.

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A memória é assim, deixa tudo mais doce. O pior cachorro da história foi se transformando na fonte das melhores histórias familiares, aquelas que contávamos entre gargalhadas, curtindo o rosto de estupefação dos ouvintes. Mas isso não é o importante. A lição do tempo foi descobrir que o presente de minha avó Elena nos salvou como família e como indivíduos. Porque a verdadeira missão do Káiser era desviar para seu corpo sarnoso todas as iras e frustrações, todos os ódios e rancores, as tristezas e os medos.

Porra, Káiser!, gritava um. Maldito cachorro!, reclamava outro. A catarse familiar era um alarido histérico para repreender o cachorro.

O que teria acontecido se nós não o tivéssemos tido como desculpa?

Com certeza seríamos outra família.

Com certeza não teríamos sido tão felizes.

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Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e morou durante uns anos no Brasil. É autor de Festa no covil Se vivêssemos em um lugar normal, publicados pela Companhia das Letras e traduzidos em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal.
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Orgulho perdido

Por Luiz Schwarcz

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Recentemente, estive em Nova York por duas semanas, como contei no meu último post. Já escrevi sobre o mais importante que aconteceu por lá. Agora talvez seja a hora de falar da difícil volta.
Desde o plano Real, da estabilidade econômica do governo FHC, da esperança social trazida pelo governo Lula, e até mesmo dos primeiros anos com a tentativa desenvolvimentista de Dilma Rousseff, não esperava mais ter a sensação que tive ao chegar no Brasil. Não pensava que seria incapaz de reconhecer o chão em que piso, não imaginava que teria inveja dos meus colegas editores americanos, que vivem basicamente de seus erros e acertos — não dependem do cenário externo, não precisam pensar em que país se encontram a cada livro que compram ou decidem publicar. Meus colegas olham para o cenário externo para calibrar suas ideias, aferir se uma edição deve ser feita e como, sem ter de se preocupar com a cotação da moeda e as ações diárias do governo. Não precisam tocar suas editoras refletindo se há estabilidade suficiente para encarar o caminho que pretendem seguir. Numa crise econômica como a de 2008, o mercado editorial internacional se retraiu, mas a base de confiança nos alicerces da economia e da sociedade não deixaram os editores tão à mercê dos tempos. É bem mais fácil trabalhar com uma mercadoria que se realiza no futuro em sociedades nas quais mirar o horizonte é sempre um exercício possível.

Pois o Brasil mudou, os governos estão quebrados e o slogan da “Pátria educadora” ainda não começou a ser posto em prática. Há um novo ministro, advindo da universidade e admirador do mundo da cultura, o que nos traz alguma esperança. Porém, num post anterior, chamei a atenção para a paralisação das compras governamentais na área de livros paradidáticos, para o fato que — tanto em função da insolvência nas contas governamentais como pela falta de vontade política — nossos governantes estavam tirando momentaneamente a literatura, infantil e adulta, do horizonte das bibliotecas públicas e escolares. O problema, eu escrevia, se dava em todas as áreas: federal, estadual e municipal. Agora está claro, a questão afeta o orçamento do país como um todo. Por isso é preciso dizer que a questão das bibliotecas escolares é apenas uma pequena ponta de um contexto maior — que afetará nossas vidas em muitos outros aspectos, tão importantes como o mercado livreiro. No entanto, como sou profissional desta área, minha contribuição é falar do meu setor, sem perder de vista o que acontece no país.

Bem, se a dificuldade já era real enquanto existia a ilusão de um Brasil estável, imaginem agora, quando voltamos a ter que nos perguntar em que país vivemos.

Em seus quase trinta anos, a Companhia das Letras conheceu sete ou oito moedas diferentes, planos econômicos dos mais diversos, retenção de 80% do nosso caixa de um dia para o outro, mas confesso que não esperava — apesar dos alertas dos economistas sobre a condução perigosa da economia, nos últimos quatro anos — voltar a viver sem estabilidade econômica ou com estagflação. Não esperava mais, quando no exterior, não poder me orgulhar do meu país, ao ter que explicar que aqueles governos recordistas mundiais em formação de bibliotecas e divulgação de livros para as classes desfavorecidas não existem mais.

Preparo-me para a feira de livros de Londres, que começa agora em abril. Para lá vou com a sensação de orgulho perdido. Terei constrangimento ao dizer que investir em grandes obras da literatura brasileira é cada vez mais difícil, que talvez em alguns anos não verei mais novas gerações lutando para seguir lendo — afinal, elas não serão introduzidas ao livro nas escolas públicas, como aconteceu com as gerações das últimas duas décadas. Terei que contar que as livrarias estão começando a sofrer os primeiros sinais de recessão e que a cotação do dólar não para de subir. O Brasil será um país maduro quando suas iniciativas democráticas e educacionais forem transformadas em políticas de Estado, podendo o país depender principalmente de seus cidadãos: trabalhadores, empresários ou profissionais liberais. Quando os governantes e a oposição que temos não puderem mais estragar o país. Quando as instituições e a democracia forem maiores que os homens e mulheres que comandam a política nacional. Ainda não chegamos a este ponto. É o que a nossa crise econômica e política tem a nos dizer.

No momento em que este post for publicado, o leitor já saberá que a Companhia das Letras adquiriu 55% da editora Objetiva, formando um grupo coeso, com a mesma participação acionária previamente existente. Teremos dezenove selos diferentes e talvez o mais significativo catálogo de autores brasileiros já conhecido. Terei acertado em investir pessoalmente, mais e mais, acreditando num Brasil que quer ler? Só o tempo dirá.

No meu livro de contos, Linguagem de sinais (2010), criei dois personagens que andavam sempre olhando para o chão. Reconheciam o mundo pelo calçamento. Não conseguiam caminhar e olhar para o horizonte ao mesmo tempo. A literatura é sempre premonitória. Ano que vem faço sessenta anos, e minha editora completará trinta. Pensei que não voltaria a viver a instabilidade social que hoje avizinho.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna mensal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

Uma música pra tocar pra sempre

Por DW Ribatski

Em homenagem a Giorgio Moroder, Belchior, Henry Miller, Vince Clark e Andy Bell.

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DW Ribatski nasceu em Curitiba em 1982. É artista plástico, ilustrador e quadrinista. Já colaborou com diversas publicações, como o caderno Ilustríssima da Folha de S.Paulo e a revista Superinteressante, entre outras. Nas HQs, publicou Campo em branco (Quadrinhos na Cia., 2013), Como na quinta série (Balão Editorial, 2012), La naturalesa (coleção MIL, Cachalote/Barba Negra, 2011), Vigor Mortis (Quadrinhofilia/Zarabatana Books, 2011, com José Aguiar e Paulo Biscaia) e Dois (Roax Press, 2013). Contribui para o blog com uma coluna mensal de quadrinhos.
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O vigor do verso

Por Leandro Sarmatz

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Há uns dez anos, pouco mais, dois amigos fundaram uma revista de poesia, a Cacto. Publicações assim costumam ter vida breve, e não seria diferente com essa. Durou, se não me engano, uns três números. Dito assim não parece grande coisa: mas naquele momento e com o talento desses dois amigos para radiografar a boa poesia, a revista, embora de vida tão curta, deixou grande memória. Muitos dos poetas que apareceram em suas páginas hoje estão por aí, publicando, fazendo barulho, repercutindo.

Claro que já existiam editoras como a 7Letras, que nos últimos vinte anos trouxe boa parte da poesia brasileira, e mesmo grandes editoras publicavam alguma poesia — canônica ou nova, isso não importa. Fato é que quase sempre este gênero foi o das multidinhas: um público não muito grande, mas cativo, fiel e habitando uma espécie de “sistema paralelo” que independe de fogos de artifício para encontrar aquilo que deseja.

De lá pra cá, o cenário mudou. Há muitas outras editoras, grandes e pequenas, trazendo boa poesia, há sites, blogs, vídeos. A poesia produzida hoje no Brasil é das coisas mais fortes da nossa vida cultural. Sua energia parece ter ocupado inclusive o lugar que antes era o da canção, diferenças mercadológicas à parte. Poder contar hoje com nomes como Armando Freitas Filho, Chico Alvim, Paulo Henriques Britto, Angélica Freitas, Eucanaã Ferraz, Tarso de Melo, Ferreira Gullar, Fabricio Corsaletti, Carlito Azevedo, Paulo Scott, Diego Grando, Marília Garcia, Gregorio Duvivier, Fabio Weintraub, Laura Liuzzi, Arnaldo Antunes, Joca Reiners Terron, Eduardo Sterzi, Ana Martins Marques — todos vivos, atuantes, vibrantes — é privilégio de poucas culturas literárias. Há outros, claro, mas seria impossível colocar todos os nomes aqui. Prova de uma vitalidade que sempre existiu entre nós mas que antes, por diversos fatores (editoriais, econômicos, industriais), não conseguia encontrar tantos canais de escoamento.

Pensei nesse argumento rápido hoje depois de saber da morte (a segunda esta semana: no dia 23  morreu o grande Herberto Helder) de um imenso poeta, o sueco Tomas Tranströmer, de quem vamos em breve publicar uma antologia.

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Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

O futuro ainda não chegou

Por Érico Assis

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Capa de The Private Eye.

Na quinta-feira, dia 19, saiu a décima e última edição de The Private Eye. Foi a conclusão da trama sobre o detetive particular que, em 2176, descobre um plano terrorista para reativar a internet. Na futurologia dos autores, em algum momento deste século a Nuvem vai estourar e seus dados, senhas, fotos e histórico de navegação ficarão abertos para o mundo. O desligamento da internet será só o primeiro passo para remediar o caos. A seguir, a privacidade vai virar valor máximo, a ponto de as pessoas andarem na rua de máscara. Ironia ou não, já que ninguém se mete na vida dos outros e ninguém perde tempo em rede social, a sociedade é muito mais produtiva.

A premissa de The Private Eye contrasta com outra ironia: é uma HQ que só existe na internet. Os autores — o escritor Brian K. Vaughan e o desenhista Marcos Martin, ambos com renome considerável nos quadrinhos dos EUA — quiseram fazer uma experiência. Sem editora e sem intermediário algum, lançaram um gibi no estilo norte-americano, em capítulos mais ou menos mensais de vinte e poucas páginas, somente em formato digital aberto (pdfs e cbrs, copiáveis sem restrição) e cobraram segundo o modelo Radiohead: pague o quanto quiser. Você pode inclusive pagar zero dólares e baixar o arquivo no site da dupla, PanelSyndicate.com. Fica a sugestão de que, se você gostar da história, volte ao site e deixe uns caraminguás.

É praxe dos roteiristas de quadrinhos envolverem-se simultaneamente em diversos projetos. Vaughan, o escritor, não teve que largar a segunda série de maior sucesso entre os gibis autorais dos EUA, Saga, nem seu emprego de roteirista de TV para tocar The Private Eye. Martin, o desenhista, por sua vez largou serviço garantido na Marvel para se dedicar à experiência. Terceira ironia: Martin acreditava que a experiência ia dar certo; Vaughan, não.

Dois anos depois — comemorados na quinta-feira —, os dois estavam errados.

Primeiro porque, sim, o gibi rendeu. Mesmo com a opção de pagar nada, um bom número de leitores deu dois ou mais dólares para baixar o arquivo. Fizeram o mesmo na edição seguinte, na posterior e assim por diante. O Panel Syndicate divulgou apenas uma cifra: em um ano e meio, haviam arrecadado mais de 100 mil dólares. O que não é nada espetacular, mas não é trocado.

Em entrevistas, Vaughan diz que a grana sustenta Martin e a esposa Muntsa Vicente (colorista da série, que também não se dedica exclusivamente a Private Eye). Se tivessem seguido o modelo tradicional de gibi autoral impresso, porém, Vaughan acha que a renda seria maior — ele levanta seu próprio Saga como exemplo.

“O motivo pelo qual eu digo que o futuro [do modelo The Private Eye] ainda não chegou (…) é que a imensa maioria dos leitores de gibi impresso, de momento, tem pouco ou zero interesse em ler gibi no formato digital. Não interessa quantas vezes eu e o Marcos tenhamos repetido que não existe plano de lançar nada do Panel Syndicate impresso, a maioria dos meus leitores de gibi analógico, como Saga, diz que só vai conferir Private Eye quando sair em papel.” Vaughan releva que este público tradicionalista — do qual ele faz parte — está em diminuição natural e que o público que surge por vias digitais não vem com frescura arraigada. Além de estar em expansão.

Por outro lado, uma das críticas ao projeto é que os autores mandaram o cronograma mensal que haviam prometido para as cucuias: a espera entre as edições passou para dois, depois três meses. Numa editora tradicional, o cronograma imprevisível seria inadmissível.

A experiência de The Private Eye é muito instrutiva. A circulação do quadrinho de papel sempre foi um empecilho e virou uma situação mais complicada nas últimas décadas: impressão e distribuição ficam sempre mais caras, a segmentação do mercado prejudicou a renovação de leitores e há um universo inteiro de distrações por aí, muitas mais baratas. Já o quadrinho digital bate-se com a grande incógnita da boa vontade: como conseguir um bom número de pagantes por algo que existe de graça? The Private Eye não é um caminho pronto, mas dá indicativos do que autores podem montar e ajustar, e das expectativas que  podem ter.

Seja como for, Vaughan e Martin já anunciaram que farão um novo projeto nos mesmos moldes, embora não tenham dito se farão ajustes no modelo. Também disseram que convidaram “grandes nomes” dos quadrinhos para participar da iniciativa, incentivando outros a lançar seus próprios sites. “A distribuição autoral vai ser tão importante para os próximos 25 anos da indústria quanto a publicação autoral foi para os últimos 25.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu RetalhosHabibi, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
Site — Twitter — A Pilha