Colunistas

“As coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender”

Por Luiz Schwarcz

Market St. Newstand

O livro que inaugura a Editora Paralela já está nas lojas, e sua primeira resenha acaba de ser publicada. Sinto-me um pouco vencido pelo cansaço, afinal vivi semanas agitadas, com a ansiedade do novo lançamento consumindo muito da minha energia. Como os leitores deste blog já notaram, a ansiedade faz parte do meu dia a dia, assim como a dúvida e o medo de errar, que, se não estão presentes nas vésperas de todos os lançamentos da editora, tomam grande parte da cena nos momentos cruciais.

Não foram poucas as vezes em que saí pela cidade de madrugada, percorrendo as bancas de jornal, ansioso por conta de alguma resenha. Nos livros de autores muito próximos, como Rubem Fonseca — e aqui cito um que já não está na Companhia para não ter que escolher entre os filhos, ou melhor, entre amores atuais —, eu quase sempre sofria por antecedência. Inquieto, na antevéspera já começava a desconfiar de alguma reação menos favorável por parte da mídia. Isso porque durante muito tempo Rubem teve um tratamento um tanto esquizofrênico por parte dos jornais e revistas: era tratado como um verdadeiro mito e, simultaneamente, atacado nas matérias todas, como se a decisão sobre o espaço avantajado que suas obras recebiam fosse do autor e não da própria imprensa. Queriam que cada novo livro fosse uma repetição de O cobrador. A minha insônia nesses momentos era fatal. Enquanto não lesse as resenhas, não conseguia dormir. E depois de lê-las, se negativas, mesmo nos livros menos felizes, eu me revoltava e temia que o homem que dizia pouco se importar com as crítica, se chateasse.

Hoje é mais fácil para mim relevar as críticas a um livro sem me sentir responsável pela proteção aos escritores. No entanto, a ansiedade da véspera permanece, principalmente em casos como o de agora — em que lanço livros por novos selos da editora. O meu trabalho, que sempre foi compartilhado com a equipe, não tem mais uma marca centralizadora — sobretudo no caso da Paralela, que atuará numa área na qual, definitivamente, não me especializei. Mesmo assim, e talvez por isso mesmo, a ansiedade está novamente aí.

Talvez a noção de que entramos numa seara nova, que implica num esforço semelhante ao aprendizado de uma nova língua, justifique, neste caso, o retorno aos meus níveis mais elevados de ansiedade, como os da véspera do lançamento de Agosto, ou de Romance Negro. Não tenho mais que me preocupar com a proteção do autor amigo, possivelmente injustiçado na manhã seguinte, mas sim com a manutenção do nível de qualidade em edições de livros diversos dos que me acostumei a publicar. A noção de que há, nesta área, editores altamente profissionais, verdadeiros mestres, mesmo que jovens, traz emoção, mas tira o sono.

Estou certo, porém, de que este é o caminho correto: o da inclusão de novos leitores. Se não estivéssemos tomando esse rumo, a Companhia das Letras não estaria olhando para o Brasil; estaria se fechando num diálogo muito prazeroso, mas viciado. Conversa entre pares, namoro sem nada mais a descobrir.

E não é só aqui que os rumos editorias se abrem para várias linguagens. Recentemente, uma curiosa disputa editorial se travou nos EUA. O canto da sereia era uma série de livros eróticos femininos que havia explodido como fenômeno espontâneo, em edição digital independente. Muitas amigas editoras americanas que conheço leram os livros da trilogia Fifty shades of gray em seus Kindles ou iPads. Algumas, mais sofisticadas, torceram o nariz. Não sei de nenhuma, entretanto, que tenha parado a leitura no meio. Todas terminaram os três livros num único final de semana. Após o fenômeno na internet, a trilogia foi disputada em leilão no mundo inteiro, e o resultado por vezes surpreendeu. O editor que arrematou a obra para a língua inglesa foi o lendário Sonny Mehta, conhecido como o grande inovador do mundo dos livros, amigo de escritores de alta estirpe, e responsável pelos selos editorias mais prestigiosos da Random House, como a Knopf e a Vintage Books. No Brasil, o livro será lançado pela Intrínseca, cujo editor é um dos jovens mestres a que me referi anteriormente. A Paralela perdeu a parada nesse caso para um ótimo profissional do ramo, com quem ainda temos muito a aprender.

O exemplo serve para mostrar o espírito com o qual entramos neste novo cenário. Serve também para atestar como, nos dias de hoje, a comunicação entre a alta literatura e os livros de entretenimento encontra-se mais livre de preconceitos. E isso ocorre não só num país como o nosso, onde um novo público bate à porta do mundo dos livros.

Um detalhe curioso para terminar este meu post, que, como alguns dos últimos, tem pecado por excessos afirmativos, do tipo: escritores, não façam tantas confissões! Editores, abram seus horizontes para o novo país! Ao comentar sobre o lançamento de O sinal, minha scout, Maria Campbell, chamou atenção para um aspecto que sequer havia me ocorrido: o primeiro livro do novo selo é de temática cristã — distante de minha formação. Na Companhia das Letras as decisões nunca se pautam — nem nunca se pautaram— por escolhas políticas ou religiosas particulares; o começo do novo selo marca simbolicamente a disposição de um espírito ainda mais abrangentemente ecumênico, na vida da editora. Não há mérito nessa postura, apenas obrigação. Na minha opinião, não cabe a um bom editor usar os livros que publica para propagar exclusivamente esta ou aquela ideia política; esta ou aquela crença ou religião. Esse debate poderá render outro post.

Confesso que ao começar este texto achava que daria continuidade ao que escrevi na semana passada, sobre a minha secura criativa. Os dois assuntos ainda ocupam minha cabeça, disputam lugar nos meus diálogos imaginários com os leitores do blog. Mas antes de entediá-los com a mistura de dois assuntos para os quais pretendo voltar no futuro, sugiro que ouçam a música que dá título a este post. Ela é a trilha sonora privilegiada para o meu estado de espírito atual. Não é a primeira vez. Em tantas outras ocasiões me lembrei dela, usando as palavras de Paulinho da Viola, como se fossem minhas.

Especialmente seu belíssimo refrão.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

Biblioteca de lunáticos

Por Vanessa Barbara

Foto de Phineas P. Gage

“E se amanhã eu acordar e não for mais eu mesmo,
mas um besouro vira-bosta?” (Andrew Solomon)

Muitas vezes, ler sobre desequilíbrios, insânias e extravagâncias pode ser uma grande fonte de alívio para quem, como eu, tem medo de um dia acordar besouro. É terapêutico saber que há casos piores que o nosso, como o de Oliver Sanderson, que há mais de trinta anos pensa que é uma laranja, ou Phineas P. Gage, um operário de ferrovias que, após uma explosão, teve o crânio trespassado por uma barra de ferro de 6 kg. O comprido artefato entrou pela bochecha esquerda do rapaz, projetou seu globo ocular para fora, perfurou o lobo frontal e saiu pelo topo da cabeça. Ao dar entrada no hospital, caminhando, ele comentou ao médico: “Doutor, isso aqui vai dar um trabalhão”.

Além de catártica, esse tipo de leitura pode estabelecer uma conexão com outros mundos (autismo, esquizofrenia, depressão), do qual podemos sair a qualquer momento simplesmente desligando o abajur.

A seguir, uma lista das minhas leituras psiquiátricas preferidas (elaborada após o pedido de um Top 5 para o blog Meia Palavra). Lacunas imperdoáveis podem ser atribuídas a um lapso de memória e não devem ser consideradas sintomas. Para a infelicidade dos que sofrem de TOC, a lista não segue nenhuma ordem.

1) O demônio do meio-dia, de Andrew Solomon, ed. Objetiva. Melhor estudo sobre depressão já publicado. Com um estilo literário apurado, o jornalista expõe seu vínculo pessoal com a doença e faz uma investigação de sua incidência, manifestação, sintomas e tratamentos. É um mundo cinzento onde chove o tempo todo e até as estruturas mais fortes podem ser tomadas pela ferrugem. “Viver com depressão é como tentar manter o equilíbrio enquanto dança com um bode”, define.

O repórter da revista The New Yorker explica que a depressão começa do insípido, enevoa os dias num tom sépia e enfraquece ações ordinárias até que suas formas claras sejam obscurecidas pelo esforço que exigem, nos deixando cansados, entediados e obcecados em nós mesmos. Há uma bela passagem sobre a dificuldade que ele tem para se levantar da cama e ir tomar banho, antecipando cada passo e por fim desistindo da tarefa: “No mundo inteiro as pessoas tomam banho. Por que eu não podia ser uma delas?”.

Seu relato oscila magistralmente entre o registro jornalístico e o pessoal. A pesquisa durou cinco anos e é bem precisa em suas metáforas e definições: na depressão, o ar parece espesso e resistente, como que cheio de massa de pão. Tudo o que foi rápido é agora lento. A depressão, enfim, é a ausência de sentido vital de propósito e o embotamento de sensações — felicidade, tristeza, senso de humor e capacidade de amar.

A superação da doença é às vezes descrita com a simplicidade de quem decide sair para comprar um par de meias. Para alguns dos personagens deste livro, a salvação foi “fazer coisas com fios”, descascar pepinos, aprender sapateado e forçar-se a seguir em frente. “Pessoas que atravessaram uma depressão e estão estabilizadas frequentemente têm uma aguda consciência da alegria da existência cotidiana. Mostram-se capazes de uma espécie de êxtase imediato e de uma intensa apreciação por tudo que é bom em suas vidas. [...] Podem desenvolver uma profundidade moral que é um troféu no fundo de sua caixa de tristezas”, diz.

2) Um antropólogo em Marte: Sete histórias paradoxais, de Oliver Sacks, ed. Companhia das Letras. O renomado neurologista e escritor descreve alguns casos curiosos que encontrou durante a prática clínica: um pintor que enxerga tudo em preto e branco, um cirurgião com síndrome de Tourette, um massagista cego que recupera a visão.

Autor de onze livros, Sacks descreve em detalhes o histórico de vida dos pacientes. Seu estilo literário aproxima-se das chamadas “anedotas clínicas” do século XIX, com especial influência do neuropsicólogo A. R. Luria, frequentemente citado em seus artigos.

Um dos pontos altos da obra é a constatação de que as deficiências, distúrbios e doenças podem ter um papel paradoxal na vida das pessoas, revelando poderes latentes que talvez nunca fossem vistos na ausência desses males. Em Um antropólogo em Marte, o tema central é justamente o potencial criativo das doenças. Se, por um lado, os distúrbios de desenvolvimento destroem caminhos preciosos no cérebro, podem, por outro, forçar o sistema nervoso a buscar alternativas, levando-o a um inesperado crescimento ou evolução.

O próprio Sacks é portador de algumas afecções esquisitas: tem prosopagnosia congênita, que é a incapacidade de identificar rostos — inclusive o dele mesmo. Há dois anos, perdeu a visão estereoscópica (tridimensional) devido a um tumor maligno na retina, e não enxerga mais em profundidade. Em O olhar da mente, ele conta sua dificuldade de subir escadas, atravessar a rua e caminhar sem tropeçar ou trombar nos outros.

Outros grandes livros de Sacks são: Tempo de despertar (que deu origem ao filme), Alucinações musicais e O homem que confundiu sua mulher com um chapéu.

3) O segredo de Joe Gould, de Joseph Mitchell, ed. Companhia das Letras. Escrito por um dos maiores jornalistas da New Yorker, é o perfil de um mendigo excêntrico que pretende escrever a história oral do nosso tempo, um livro doze vezes maior do que a Bíblia. Gould era conhecido por falar com gaivotas e despejar na comida frascos inteiros de ketchup. Caótica e ambiciosa, sua obra possuía longos capítulos ensaísticos que tratavam de temas como a influência do tomate na vida da sociedade contemporânea, além de trechos narrativos, fartamente carregados de digressões, nos quais Gould reproduzia conversas ouvidas ao acaso.

“Trata-se, talvez, da obra inédita mais longa que existe: a História Oral e as notas ocupam 270 cadernos de linguagem, desses que as crianças usam na escola, todos rasgados, imundos, manchados de café, gordura e cerveja. Gould usa caneta-tinteiro e enche os dois lados de cada folha, sem deixar margem alguma, tem péssima caligrafia, e centenas de milhares de palavras são legíveis só para ele mesmo. Nenhum editor se interessou pelo trabalho.”

4) “O alienista”, de Machado de Assis, in: Papéis Avulsos, ed. Penguin-Companhia das Letras. Conto clássico sobre um médico que decide enveredar pelo campo da psiquiatria, abre um sanatório e se dedica ao estudo da loucura. “De todas as vilas e arraiais vizinhos afluíam loucos. Eram furiosos, eram mansos, eram monomaníacos, era toda a família dos deserdados de espírito.” Com o passar das páginas, sua definição de loucura se torna ligeiramente mais abrangente.

“Não imaginava a existência de tantos doidos no mundo, e menos ainda o inexplicável de alguns casos. Um, por exemplo, um rapaz bronco e vilão, que todos os dias, depois do almoço fazia regularmente um discurso acadêmico, ornado de tropos, de antíteses, de apóstrofes, com seus recamos de grego e latim, e suas borlas de Cícero, Apuléio e Tertuliano. O vigário não queria acabar de crer. Quê! Um rapaz que ele vira, três meses antes, jogando peteca na rua!” Esse era provavelmente um genuíno Louco de Palestra.

Entre os meus preferidos estão um rapaz que se supunha estrela-d’alva, abria os braços e alargava as pernas, para dar-lhes certa feição de raios, “e ficava assim horas esquecidas a perguntar se o sol já tinha saído para ele recolher-se”. Outro era um fazendeiro de Minas cuja mania era distribuir boiadas a toda gente: dava trezentas cabeças a um, seiscentas a outro, e não acabava mais. “Não falo dos casos de monomania religiosa; apenas citarei um sujeito que, chamando-se João de Deus, dizia agora ser o deus João, e prometia o reino dos céus a quem o adorasse”. Também destaco o licenciado Garcia, que não falava nada pois acreditava que, no dia em que chegasse a proferir uma só palavra, “todas as estrelas se desapegariam do céu e abrasariam a terra”.

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Gréfic nóvel

Por Érico Assis

Era 1970 e tantos quando Will Eisner ligou para Oscar Dystel, presidente da Bantam Books. Depois de quatro décadas, Eisner partiu para o ou-tudo-ou-nada na sua convicção de que os quadrinhos precisavam do mesmo respeito que a literatura. Escreveu e desenhou Um contrato com Deus, HQ de ousadias literário-romancescas, e queria que ela saísse por uma editora de respeito no âmbito literário-romancesco. A Bantam era uma boa opção, na época.

Se Eisner dissesse “quero lhe mostrar uma HQ”, Dystel ia desligar na sua cara. De improviso, soltou “é uma graphic novel”. Dystel marcou uma reunião, muito interessado.

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E o que vem a ser uma gréfic nóvel? A inspiração desta coluna está em dois textos recentes que ressuscitaram e discutiram em profundidade o termo: um artigo de Paulo Ramos e Diego Figueira, mais uma postagem do Daniel Werneck. O primeiro caminha mais por um conceituação em torno do marketing e da consagração do uso. O segundo faz comparações entre o tamanho de novels só de letrinhas e a quantidade de texto das graphic novels, entre outras. Ambos não conseguem fechar o sentido do que é a tal graphic novel. Mesmo porque não há como.

Eu considero o termo meio destrambelhado. Tudo bem, novel é a palavra que pegou na língua inglesa para a literatura ficcional extensa, o que nós e a maioria dos falantes de línguas latinas chamamos de “romance”. Mas graphic é uma salada. Por um sentido, qual livro não é um produto gráfico? Por outro, graphics são as figurinhas, as imagens, o que — nas gráficas de antigamente — fugia à composição usual só das letrinhas. Grafismos, ok. Em ainda outro sentido, graphic tem conotação de “explícito”: um livro, um filme é graphic se não tiver restrições quanto às imagens de sexo e/ou violência.

A tradução é uma salada. “Romance gráfico” diz a mesma coisa que “graphic novel”: nada. “Romance em imagens” consegue ser mais vago. Mesma coisa para “romance com figurinhas”. Misturando com o termo exclusivamente brasileiro “história em quadrinhos”, sai “romance em quadrinhos” — o que está na capa do hit Diário de um banana, que não é HQ, e sim prosa com intervenções de cartuns. Complicou. Por isso a maioria das editoras nacionais resolve falar mesmo gréfic nóvel.

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A história com Will Eisner não é a origem do termo graphic novel, mas é a mais famosa sobre os princípios das graphic novels. Eisner achou que estava neologizando, mas outras HQs haviam usado o pomposismo anos antes, nos EUA mesmo. Na França, a crítica já usara roman graphique para qualificar A balada do mar salgado no início dos anos setenta. Rodolph Töpffer, um dos pioneiros das HQs no século XIX, na Suíça, dizia que suas misturas de texto e imagem eram parentes dos romans.

Quando a imprensa dos EUA teve uma onda de matérias do estilo “Biff! Pow! Zam! Os quadrinhos ficaram adultos!”, há uns dez anos, graphic novel virou o termo para diferenciar esses gibis mais maduros, “mais livro”, tanto na imprensa quanto nos catálogos das editoras — bem na época em que todas as editoras começaram a publicar graphic novels. A coisa ficou mais confusa. Hoje a abertura de The Walking Dead identifica que o seriado baseia-se em graphic novels, embora nem autores nem mais ninguém chame The Walking Dead — uma revistinha mensal como a maioria dos gibis dos EUA — de graphic novel.

Se graphic novel estava na moda, os quadrinistas revoltadinhos torceram o nariz e disseram que o que fazem é gibi — comics. Art Spiegelman gracejava: graphic novel “é o gibi que você tem que ler com marcador de livro”. Minha síntese predileta é a do Joe Sacco: graphic novel é “um termo inventado para que os adultos não pensem que estão comprando gibi.”

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Que o termo é marqueteiro, não há dúvida. É sonoro e impreciso como o bom marquetês. O que interessa é que chamar o gibi de graphic novel não torna ele mais adulto, nem melhor que os gibis que só se identificam por gibis. É um termo pedestalizante. Mas se tudo que é gibi subir ali e se dizer “romance gráfico”, o pedestal não vale nada.

Enfim, não adianta se revoltar. O termo pegou, e protestar contra isso tem tanta validade quanto reclamar de filme dublado. Você vai passar por chato. Além disso, cobrar lógica das palavras e expressões que surgem numa língua não é algo muito são.

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O que pouca gente lembra é que, fosse gréfic nóvel ou não, Will Eisner não conseguiu convencer a Bantam a publicar Um contrato com Deus. Na reunião, Oscar Dystel folheou os originais e olhou sério nos olhos de Eisner: “isso aqui é gibi”. Eisner teve que procurar uma editora menor, a Baronet. Desde seus princípios, encher a boca pra dizer gréfic nóvel não garante nada a ninguém.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Jammin’

por Tony Bellotto

Prosseguindo meus diálogos musicais (ou seriam jam sessions literárias?) com o Luiz, ao ler aqui Eu Voltei, lembrei de uma história interessante a respeito da canção O Portão, de Roberto e Erasmo, de onde o Luiz tirou o título de sua crônica.

Em 2005 estávamos, os Titãs, preparando o repertório para a gravação do disco MTV Ao Vivo, que seria gravado na Fortaleza de São José da Ponta Grossa, em Florianópolis. Queríamos incluir Quero Que Vá Tudo Pro Inferno, mais um clássico, entre tantos outros, de Roberto e Erasmo Carlos, os gêmeos brilhantes do rock brasileiro. Já havíamos gravado da dupla É Preciso Saber Viver e Querem Acabar Comigo. Mas no caso de Quero Que Vá Tudo Pro Inferno pressentíamos um problema: como todo mundo sabe, Roberto tem uma dificuldade em lidar com termos como “inferno”, e a notícia que se tinha é de que a canção estava banida de seu repertório desde 1975. Sabíamos que seria uma empreitada difícil convencer o Roberto a liberar a música. Para se ter uma ideia, naquela época, quando nossa gravação de É Preciso Saber Viver, uma canção até então relativamente obscura do repertório da dupla, já era um enorme sucesso, Roberto ainda cantava os versos “se o bem e o mal existem” como “se o bem e o bem existem”, pois se recusava a pronunciar a palavra “mal”. Se ele tinha algo contra o mal, que dirá contra o inferno?

Decidimos em assembleia que seria eu o responsável por fazer o pedido pessoalmente ao Rei, por telefone (o tipo da “deferência” que os Titãs adoram me outorgar…).

Vocês podem imaginar que ligar para o Roberto Carlos não é um negócio simples, não? Além de todas as barreiras naturais – os assessores, os secretários, os empresários –, quando você chega no homem, você faz o quê? Começa a tremer? Chora de emoção? Pede um autógrafo? Diz que foi engano e desliga? E lembrem, eu tinha de pedir autorização para que ele liberasse Quero Que Vá Tudo Pro Inferno. Como você fala “inferno” para o Roberto Carlos?

Minha estratégia foi simples, eu chamaria a música de Quero Que Você Me Aqueça Nesse Inverno.

E foi o que fiz, provavelmente depois de um shot de Jack Daniel’s, quando Roberto me atendeu ao telefone, e eu, depois de superar os primeiros momentos de pânico generalizado, apoplexia nervosa e gagueira involuntária, disse que queríamos gravar “aquela do Quero Que Você Me Aqueça Nesse Inverno”.

Silêncio total do outro lado da linha.

Agora me digam, vocês fazem ideia do que é “ouvir” o silêncio de Roberto Carlos? Porque sua voz, maravilhosa, todos sabemos como soa. Mas e seu silêncio?

Soa infinito.

E então ele diz: “Agora você me pegou. Deixa eu sentar”. E depois de mais alguns segundos intermináveis: “Me peçam qualquer outra, menos essa”.

E foi o que fiz, pondo em prática um plano B já previamente decidido com meus companheiros de banda: “Podemos gravar O Portão?”.

Foi assim que a música entrou no disco, num arranjo de que gostamos muito. Não foi dessa vez que gravamos Quero Que Vá Tudo Pro Inferno, mas não desistimos da ideia. Roberto que se prepare pra me ouvir dizer qualquer hora dessas, na Urca: “Eu cheguei em frente ao portão, seu cachorro me sorriu latindo, minhas malas coloquei no chão, eu voltei…”.

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu livro mais recente, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro de 2010.

A literatura me deixou

por Luiz Schwarcz

Fico muito feliz quando meus leitores do blog veem alguma qualidade no que escrevo, ou no que escrevi, ainda mais quando acham que estas simples crônicas têm algum valor literário, ou melhor, flertam com a literatura. Agradeço a generosidade dizendo com franqueza: “são vossos bons olhos”. Muitos dos que entram neste blog já o fazem com a pré disposição de gostar. São leitores dos livros da Companhia das Letras, e atribuem os méritos dos autores desta casa a quem os acompanha. É claro que há qualidades importantes e necessárias para o ofício de editor, mas elas não são as mesmas do que aquelas consideradas fundamentais para escrever bem.

De qualquer forma, no meu caso, tenho que reconhecer uma alegria especial ao receber esse tipo de elogio, já que tentei, reincidentemente, virar também um escritor. Hoje sinto que a literatura me deixou, para usar uma expressão que ouvi algumas vezes de Chico Buarque, referindo-se alternadamente à musica ou à literatura, e que se explica pelo constante revezamento entre as formas de expressão artística, que conformam a sua vida.

No meu caso, não se trata de uma força de expressão relativa a um sentimento passageiro, mas um misto de conclusão madura com mania de grandeza — se é que essas duas coisas podem, de alguma forma, estar juntas.

Por um lado, creio que cheguei à conclusão de que sou muito melhor leitor do que escritor, e que não há demérito nisso. Acredito também, pensando agora, com serenidade, que nunca consegui dar o salto para a expressão artística, limitando minha expressão a uma enfadonha temática familiar e a narradores com entonação excessivamente juvenil. A solidão infantil do filho único e a relação com um pai triste marcam tediosamente tudo o que escrevi, ou o que pensei escrever, fazendo com que a simples apropriação da frase que ouvi do Chico seja fruto da mais absoluta mania de grandeza. Se a literatura nunca esteve em mim, como me deixaria?

De qualquer forma, o assunto é bom pretexto para pensar por que em todo o ato de escrever há um sentido de carência afetiva importante. Dos dois lados da mesa pude sentir como não há escritor que não queira, antes de mais nada, ser amado coletivamente. Publicar um livro é expor momentos de absoluta intimidade. É quebrar o silêncio. Nesse contexto, não há como não passar ao texto aspectos pessoais, mais ou menos conscientes, mais ou menos confidenciais. Assim, os romances, os contos e os poemas trazem sempre uma vontade de ser correspondido, por mais vanguardistas, pós modernos, ou herméticos que eles venham a ser. Já vi escritores que escrevem obras dificílimas angustiados por não serem lidos por um número significativo de leitores, como se a obra que realizaram não tivesse um outro tipo de valor e alcance. É comum a vanguarda olhar para a lista de best-sellers com um misto de desprezo e carência.

Não quero dizer que estão certos só os autores que escrevem em direta conexão com o público mais amplo. Pelo contrário, acredito que o diálogo do verdadeiro artista deve ser absolutamente solitário — se dá entre o escritor e sua arte. Só quis dizer que, por motivos obscuros, quando publicamos um livro nem sempre a razão predomina, e as contradições entre carência pessoal, desejo de ser correspondido e a necessidade de expressão artística podem gerar uma curiosa confusão.

Bem sucedidos são os autores que conseguem fazer de sua escrita uma confidência tão bem disfarçada que sua expressão se torna universal. É o que acontece quando lemos um livro e não percebemos o quão pessoal é tudo o que está no papel, ou, ainda, quando achamos que, na verdade, aquela história é mais nossa que do próprio escritor.

O texto que denota a necessidade de compaixão, que expõe incessantemente a solidão do autor — a tal carência que nos bons escritores gera criações fabulosas — tem mais validade como exercício de autoanálise ou de comiseração do que como peça literária. É isso que uma multidão de candidatos a escritor deveria entender. É o que, depois de alguns livros publicados — pela minha própria editora, diga-se de passagem —, eu compreendi.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.