Por Luiz Schwarcz
O livro que inaugura a Editora Paralela já está nas lojas, e sua primeira resenha acaba de ser publicada. Sinto-me um pouco vencido pelo cansaço, afinal vivi semanas agitadas, com a ansiedade do novo lançamento consumindo muito da minha energia. Como os leitores deste blog já notaram, a ansiedade faz parte do meu dia a dia, assim como a dúvida e o medo de errar, que, se não estão presentes nas vésperas de todos os lançamentos da editora, tomam grande parte da cena nos momentos cruciais.
Não foram poucas as vezes em que saí pela cidade de madrugada, percorrendo as bancas de jornal, ansioso por conta de alguma resenha. Nos livros de autores muito próximos, como Rubem Fonseca — e aqui cito um que já não está na Companhia para não ter que escolher entre os filhos, ou melhor, entre amores atuais —, eu quase sempre sofria por antecedência. Inquieto, na antevéspera já começava a desconfiar de alguma reação menos favorável por parte da mídia. Isso porque durante muito tempo Rubem teve um tratamento um tanto esquizofrênico por parte dos jornais e revistas: era tratado como um verdadeiro mito e, simultaneamente, atacado nas matérias todas, como se a decisão sobre o espaço avantajado que suas obras recebiam fosse do autor e não da própria imprensa. Queriam que cada novo livro fosse uma repetição de O cobrador. A minha insônia nesses momentos era fatal. Enquanto não lesse as resenhas, não conseguia dormir. E depois de lê-las, se negativas, mesmo nos livros menos felizes, eu me revoltava e temia que o homem que dizia pouco se importar com as crítica, se chateasse.
Hoje é mais fácil para mim relevar as críticas a um livro sem me sentir responsável pela proteção aos escritores. No entanto, a ansiedade da véspera permanece, principalmente em casos como o de agora — em que lanço livros por novos selos da editora. O meu trabalho, que sempre foi compartilhado com a equipe, não tem mais uma marca centralizadora — sobretudo no caso da Paralela, que atuará numa área na qual, definitivamente, não me especializei. Mesmo assim, e talvez por isso mesmo, a ansiedade está novamente aí.
Talvez a noção de que entramos numa seara nova, que implica num esforço semelhante ao aprendizado de uma nova língua, justifique, neste caso, o retorno aos meus níveis mais elevados de ansiedade, como os da véspera do lançamento de Agosto, ou de Romance Negro. Não tenho mais que me preocupar com a proteção do autor amigo, possivelmente injustiçado na manhã seguinte, mas sim com a manutenção do nível de qualidade em edições de livros diversos dos que me acostumei a publicar. A noção de que há, nesta área, editores altamente profissionais, verdadeiros mestres, mesmo que jovens, traz emoção, mas tira o sono.
Estou certo, porém, de que este é o caminho correto: o da inclusão de novos leitores. Se não estivéssemos tomando esse rumo, a Companhia das Letras não estaria olhando para o Brasil; estaria se fechando num diálogo muito prazeroso, mas viciado. Conversa entre pares, namoro sem nada mais a descobrir.
E não é só aqui que os rumos editorias se abrem para várias linguagens. Recentemente, uma curiosa disputa editorial se travou nos EUA. O canto da sereia era uma série de livros eróticos femininos que havia explodido como fenômeno espontâneo, em edição digital independente. Muitas amigas editoras americanas que conheço leram os livros da trilogia Fifty shades of gray em seus Kindles ou iPads. Algumas, mais sofisticadas, torceram o nariz. Não sei de nenhuma, entretanto, que tenha parado a leitura no meio. Todas terminaram os três livros num único final de semana. Após o fenômeno na internet, a trilogia foi disputada em leilão no mundo inteiro, e o resultado por vezes surpreendeu. O editor que arrematou a obra para a língua inglesa foi o lendário Sonny Mehta, conhecido como o grande inovador do mundo dos livros, amigo de escritores de alta estirpe, e responsável pelos selos editorias mais prestigiosos da Random House, como a Knopf e a Vintage Books. No Brasil, o livro será lançado pela Intrínseca, cujo editor é um dos jovens mestres a que me referi anteriormente. A Paralela perdeu a parada nesse caso para um ótimo profissional do ramo, com quem ainda temos muito a aprender.
O exemplo serve para mostrar o espírito com o qual entramos neste novo cenário. Serve também para atestar como, nos dias de hoje, a comunicação entre a alta literatura e os livros de entretenimento encontra-se mais livre de preconceitos. E isso ocorre não só num país como o nosso, onde um novo público bate à porta do mundo dos livros.
Um detalhe curioso para terminar este meu post, que, como alguns dos últimos, tem pecado por excessos afirmativos, do tipo: escritores, não façam tantas confissões! Editores, abram seus horizontes para o novo país! Ao comentar sobre o lançamento de O sinal, minha scout, Maria Campbell, chamou atenção para um aspecto que sequer havia me ocorrido: o primeiro livro do novo selo é de temática cristã — distante de minha formação. Na Companhia das Letras as decisões nunca se pautam — nem nunca se pautaram— por escolhas políticas ou religiosas particulares; o começo do novo selo marca simbolicamente a disposição de um espírito ainda mais abrangentemente ecumênico, na vida da editora. Não há mérito nessa postura, apenas obrigação. Na minha opinião, não cabe a um bom editor usar os livros que publica para propagar exclusivamente esta ou aquela ideia política; esta ou aquela crença ou religião. Esse debate poderá render outro post.
Confesso que ao começar este texto achava que daria continuidade ao que escrevi na semana passada, sobre a minha secura criativa. Os dois assuntos ainda ocupam minha cabeça, disputam lugar nos meus diálogos imaginários com os leitores do blog. Mas antes de entediá-los com a mistura de dois assuntos para os quais pretendo voltar no futuro, sugiro que ouçam a música que dá título a este post. Ela é a trilha sonora privilegiada para o meu estado de espírito atual. Não é a primeira vez. Em tantas outras ocasiões me lembrei dela, usando as palavras de Paulinho da Viola, como se fossem minhas.
Especialmente seu belíssimo refrão.
* * * * *
Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.













