Colunistas

Pérolas de um elefante voador

Por Júlia Moritz Schwarcz


Ilustração de Cocô no trono, de Benoit Charlat.

Outro dia, estava conversando com a minha filha mais velha no carro, na volta pra casa, e caí numa daquelas conversas sobre a vida e a origem do homem — no caso, a origem da pequena Zizi mesmo.

Estava contando sobre uma massagem que fazia antes dela existir, e com ela na barriga também, e contei que a moça me lambuzava (a Zizi tinha visto a avó “lambuzada” naquele dia, daí a conversa) onde hoje está o quarto dela, que láááá naquela época funcionava como escritório. Claro que ela não gostou dessa história toda, a começar pela parte do quarto, que, como assim, tinha mesa, cadeira e computador?! Tentei explicar que tudo aquilo aconteceu antes dela estar por aqui — o que só complicou as coisas.

“E onde é que eu estava?”, (não existir não era uma possibilidade). Pensei em dizer a verdade, até me dar conta de que não existia uma verdade. E percebi que era hora de recorrer à ficção, peloamordedeus. Com medo de falar alguma besteira, passei a bola pra criancinha: “onde você acha que estava?”. “No céu.” Xi, pensei, alguém já enfiou Deus na cachola da moça. “Então você era um anjinho? Um passarinho? Uma nuvem? Um avião?”, tentei expandir as possibilidades. “Não, mamãe, eu era uma sementinha.” “Então choveu e você caiu, com os pingos, na minha barriga?”, olha a anta tentando dar um sentido pra coisa. “Nada disso, um elefante voador me comeu, fez cocô na terra, e ali nasceu uma planta”, foi a explicação. “Você era a planta, Zizi?” “Não, mamãe!”, ela estava ficando impaciente com a minha total falta de noção das coisas. “Sou ser humano! Eu só vim comer uma frutinha da planta, que era rosa e estava deliciosa.”

As histórias nascem de muitas conversas, às vezes de algumas necessidades, se misturam, se transformam, e viram coisas malucas e incríveis. Acho que elas são fundamentais para todo mundo, e totalmente naturais para as crianças, que pensam em forma de fantasia e entendem o mundo através dela. Não dá para existir sem.

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Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.

Um dia na vida

Por Tony Bellotto


(Foto por Nattu)

Terça-feira, dia 7 de setembro de 2010.

Chego de madrugada em casa após um show em Santos Dumont, Minas Gerais. Acordo cedo. Acordo? Mal dormi. Dou uma entrevista sobre o No buraco para um repórter da Revista do Globo. Ele ficou sabendo do livro pelo Blog da Companhia, quando leu o post de Marta Garcia, minha querida editora. O repórter me pergunta o quanto de verdade tem o livro. Eu respondo citando a frase de abertura do romance Matadouro 5, de Kurt Vonnegut, não por acaso a epígrafe (ou epitáfio?) do meu Buraco: “Tudo isto aconteceu, mais ou menos”.

Ernest Hemingway diz que se um escritor escreve uma frase verdadeira por dia, pode se dar por satisfeito. “I can get no satisfaction”, diz Mick Jagger, cuja voz supera a de Hemingway no meu iPod. O repórter foi o primeiro jornalista a ler o livro, portanto uma certa apreensão pode ser percebida no fundo de meus olhos vermelhos: e aí, gostou? “É o seu melhor livro”, vaticina o repórter, agora já convertido num grande amigo.

O dia guarda outros vaticínios (e gratas surpresas). Após a entrevista, vou jogar tênis com a Malu e Titi, uma amiga. Ganho uns games, perco outros. Um dia na vida. O feriado flui tranquilo pela lagoa Rodrigo de Freitas. Depois do tênis, paramos para beber coco na barraca do Pedro, que tem o coco mais doce de Ipanema (ou seja, do mundo). O celular da Malu toca entre vozes e ruídos de propaganda eleitoral. Ela atende, abre um sorriso e dá um grito. “Você vai ser avô!”, me sussurra uma garça em pleno voo. Minha filha Nina avisa que está grávida. E as palavras todas deixam de fazer sentido de repente.

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu próximo livro, No buraco, será lançado pela Companhia das Letras em setembro.

O romancista que não sou

Por Luiz Schwarcz


Carimbos humorísticos sobre recusa de manuscritos.

Recusar um livro é das situações mais delicadas na vida de um editor. Mas infelizmente é bastante comum. Quando se trata de autor desconhecido, cujo texto foi enviado espontaneamente à editora, é um pouco menos difícil. As editoras recebem um número grande de originais, e têm que enfrentar a crença comum de que todos já nascemos autores, poetas, romancistas — é só achar um tempinho em meio a nossos afazeres e escrever. Entre nós grassa a maldita ideia de que literatura é feita basicamente de inspiração — e não de trabalho, muito trabalho.

No começo da Companhia das Letras, eu mesmo lia todos os textos enviados à editora. Naquela época, o volume de autores que nos procurava não era muito grande. Aos poucos as editoras estão sendo obrigadas a desistir dessa tarefa, e receber apenas originais que já tenham sido lidos e recomendados. É pena. Há também a noção de que os editores devem prestar um serviço de auxílio a jovens autores, o que em tese seria muito simpático, porém se mostra inviável. Num mercado como o dos Estados Unidos, as editoras só recebem livros enviados por agentes literários, que fazem o filtro que nós, editores, em meio a tantos originais, não conseguimos realizar por nossa conta.

No caso de autores conhecidos, jovens ou consagrados, de quem já publicamos outros livros, o momento da recusa de um novo trabalho é ainda mais sensível. No entanto faz parte da profissão e aprendemos a fazê-lo com a delicadeza necessária. O editor deve, na verdade, preservar a carreira do escritor, lutar por um casamento duradouro, no qual o parceiro cresça sempre, um casamento desequilibrado propositalmente, onde o destaque está sempre voltado para o autor. No entanto, nos momentos em que algo está muito errado, o editor deve dizer não, ser franco e firme. A situação extrema é pouco comum. Na maior parte dos casos, as sugestões do editor não implicam em recusa, mas em dizer “siga outro caminho, assim não dá”.

Durante minha experiência na Brasiliense, com livros encomendados às pencas para as coleções de bolso, aprendi que a interferência do editor é fundamental. O Caio Graco tinha muita facilidade em falar o que achava sobre os livros, e sofria pouco ao ter que recusar, na lata, algo que encomendara. Eu era bem jovem, e pelo meu temperamento mais pacato sofria muito.

No caso de trabalhos literários, dos autores com quem vim a conviver mais intimamente na Companhia das Letras, as sugestões e recusas sempre foram um pouco mais pesarosas do que nos textos de divulgação que eu costumava encomendar na Brasiliense. Ainda lá, a cada dia que passava, maior era o número de autores com quem eu trabalhava, escritores que começaram a me ver como o editor que acompanharia seus livros futuros. Ao mesmo tempo,  a literatura de qualidade ganhara espaço em meio a tantas coleções. As salas da Barão de Itapetininga e depois da rua General Jardim foram uma boa escola para mim, mas quando tive, já na minha editora, que recusar um livro de um autor de obra vasta, que eu admirava, e com quem tinha relação íntima, passei várias noites insone.

Ele morava longe. Fui à sua casa relendo as minhas sugestões e anotações, presentes em quase todas as páginas do original. O fato de termos marcado a conversa fora da editora, aliado à certeza de que o escritor nunca tinha vivenciado nada parecido, agravava a situação. Foi constrangedor, mas alguns dias depois ele me ligou agradecendo. Não desistiu do livro, como eu propusera, mas melhorou o que pôde, após meses de trabalho.

Sabendo que uma carreira é feita de acertos e erros, aceitei a nova versão, como se nada houvesse acontecido, e editei o livro da melhor maneira que pude. Era um momento menor na carreira do escritor, mas meu papel passara a ser o de defender o seu romance, com unhas e dentes, sabendo que era o melhor que ele pudera fazer, naquele momento.

Passei por essa situação muitas vezes. Na maior parte delas, contava com a vantagem de já ter ganhado a confiança do autor, o que facilitava a minha tarefa. Alguns livros nunca saíram, outros foram publicados com muitas modificações, e poucos foram os que procuraram outras editoras para publicá-los, sem edição.

Vivi essa experiência recentemente, do outro lado da mesa. O livro que acabo de publicar, Linguagem de sinais, foi inicialmente recusado em coro pelos editores da Companhia. Como no caso de Discurso sobre o capim, Linguagem de sinais nasceu como romance. Só que diferentemente do primeiro livro, neste caso eu fui em frente e não percebi que estava equivocado antes de entregá-lo à leitura dos meus colegas. Depois de quase quatro anos de trabalho, achei que tinha feito um bom livro, de cento e vinte páginas, onde havia um bocado de erudição, informações biográficas sobre meninos selvagens e seres que viveram em isolamento, como Joseph Merrick — o Homem elefante —, Kaspar Hauser, Alexander Selkirk — o marinheiro que foi achado depois de viver isolado numa ilha por quatro anos, e cuja história originou o clássico de Daniel Defoe, Robinson Crusoé. Eu estava errado. Sofri do mesmo mal que diagnostiquei tantas vezes em outros escritores: o fascínio exagerado pelo tema do romance. A fluência entre ficção e não ficção, que na verdade deveria ser a força do livro, não ocorria como o planejado, e era na verdade o ponto fraco do finado romance.

Não cheguei a deletar o texto integralmente, graças à minha mulher Lilia e minha filha Júlia, que acreditavam que eu poderia refazê-lo. Em Discurso sobre o capim, das mais de cem páginas do romance, sobreviveram apenas onze linhas. No novo livro restaram mais, umas trinta a quarenta páginas, completamente modificadas.

A versão que vingou de Linguagem de sinais resulta numa forma narrativa mista. Sob o formato de contos, seis narrativas possuem um mesmo narrador, fazem parte da mesma história (o tal romance). Os outros cinco capítulos, intercalados com os anteriores,  são de fato contos, mas mantêm uma estranha semelhança com o resto. Sem a crítica severa de Maria Emília, Marta, Thyago, Heloísa, André e Paula, no lugar da sensação de alívio que hoje sinto, depois de mais de cinco anos de idas e vindas, de revisões ininterruptas, eu provavelmente sentiria uma preocupação difusa, e me recriminaria por, mais uma vez, tentar ser o romancista que não sou.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor do recém-lançado Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna semanal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.

O silêncio da splash page (2)

Por Erico Assis


Páginas de Lobo Solitário, de Kazuo Koike e Goseki Kojima.

[Leia a primeira parte do texto sobre splash pages]

Livros de arte. Aqueles livros de arte caros, grandões, capa dura, pesados, Taschen e cia. Em vários deles você encontra, da folha de guarda até a página introdutória, uma sequência de imagens sem legenda que funciona como sequência de introdução ao espetáculo que é o livro. Queiram os mais eruditos ou não, esta sequência é uma história em quadrinhos. De splash pages.

Um dos nomes mais celebrados do design de livros (de arte ou não) na última década, Chip Kidd, é fã confesso de HQ. Em Peanuts: the art of Charles M. Schulz, dedicado ao criador de Snoopy e Charlie Brown, ele deixou sete páginas de esboços, ilustrações ampliadas que estouram o ponto da impressão e reproduções de jornal até chegar à página dupla com o título do livro. Pode não haver sequência lógica entre as splashes, mas uma narrativa se constrói na mente do leitor. Já é quadrinho.

Assim como atribui-se muito da linguagem visual do cinema a Orson Welles e seu Cidadão Kane, costuma-se ver em Will Eisner a criação de várias técnicas narrativas nos quadrinhos. Foi possivelmente nas histórias do Spirit, na década de 1940, que surgiram as splashes. Toda história abria com uma imagem de página inteira; às vezes para situar a cena, às vezes somente para propor o clima da HQ. (Também ficou famoso o jeito de Eisner brincar com o título da história: “The Spirit” e o título apareciam sempre escritos como parte de prédios, em meio à névoa ou de alguma outra forma que estivesse integrada ao cenário.)

Jack Kirby ajudou a popularizar as splashes nos quadrinhos de super-herói — adorava desenhar grandes e elaboradas máquinas, que ficam mais majestosas em páginas inteiras. Mas foi Frank Miller que reinventou o uso da página inteira, misturando Eisner e Kirby e um terceiro elemento: mangá, a HQ japonesa. Ele percebeu em Lobo Solitário como o quadrinho americano era desnecessariamente verborrágico e preocupado em encher cada página de ação, quando uma imagem singular, e grande, podia ter impacto ainda maior. Tinha a ver também com o ritmo de produção do mangá: as histórias estendem-se literalmente por milhares de páginas, portanto não há receio de desperdiçar espaço.

Em seu primeiro trabalho autoral, Ronin, Miller extrapolou: na última edição, o leitor descobria uma página-pôster, que tinha que ser desdobrada para formar um quadro de, na prática, quatro páginas. Em Cavaleiro das Trevas, há várias imagens icônicas de Batman em splashes silenciosos. Mas Miller só conseguiu explorá-las — e talvez re-reinventá-las — em Sin City. Sua primeira história já abre com três splashes. O motivo: ele não tinha limitação de número de páginas.

No verbete sobre linguagem dos quadrinhos, a Wikipédia (em inglês) diz que uma HQ costuma ter no máximo duas splash pages. Menciona também exceções, como a edição da morte do Superman, na década de 90: toda composta por splash pages. A referência, porém, está restrita ao quadrinho tradicional, mainstream. Como aconteceu com Miller, outros quadrinistas só puderam explorar a splash page quando livraram-se das restrições comerciais de 22, 32, ou 48 páginas por edição. Uma graphic novel tem quantas páginas for necessário — como qualquer livro.

A splash que mais se prendeu à minha memória nos últimos anos de quadrinhos está em La guerre d’Alan, de Emmanuel Guibert. Guerre consiste nas memórias de Alan Cope, um militar norte-americano que serviu na Segunda Guerra Mundial e tem uma vida carregada de histórias. Nas três páginas de encerramento, Guibert reproduz algumas falas de Alan enquanto mostra seis cenas da pequena fazenda deste, vazia. O último quadro toma a página final: uma mesa, em frente à janela e a porta que dá para o pomar. Uma única linha de texto: “ok, é isso.” Sobre essa imagem e essa frase pesam as trezentas páginas anteriores da narrativa. É um último e prolongado suspiro.

Talvez a splash page só se compare a isto: os raros suspiros da nossa vida, real, que parecem fazer o tempo e o mundo pararem ao nosso redor.

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Erico Assis lê quadrinhos há 25 anos, escreve sobre quadrinhos há 12 anos e traduz quadrinhos há 3 anos. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley.
Em breve terá um garçoniere para guardar a coleção, pois sua esposa não admite mais uma página de gibi em casa. http://www.ericoassis.com.br/
Erico contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.

Ajoelho-me diante da beleza!

Por Tony Bellotto


Ana Carolina, Maria Gadú e Negra Li cantam em homenagem aos Titãs. (Foto por Samuel Kobayashi)

Recebemos, os Titãs, uma homenagem no Prêmio Multishow na semana passada. Essas homenagens são ótimas, pena que signifiquem, na prática, o último degrau antes do precipício do esquecimento. Tudo bem, há os que são atirados ao precipício sem sequer galgar os degraus das homenagens. Houve época em que faturávamos todos esses prêmios. Agora só nos resta o consolo das homenagens. As bandas novas, as que ganham os prêmios atualmente, me parecem bandas alienígenas, garotos normais dos subúrbios das metrópoles de Marte e Saturno, cantando sobre os problemas comuns de adolescentes de Marte e Saturno. A sensação deve ter algo a ver com o fato de eu já estar nos meus 50, ainda hoje uma idade relativamente provecta para um roqueiro.

A homenagem foi linda, emocionante e inesquecível, como deve ser o canto de velhos cisnes ou o réquiem para piratas desaparecidos em combate: para compensar o excesso de testosterona da banda — homens convivendo num vestiário permanente e móvel por 30 anos seguidos —, formou-se um grupo só de garotas, e cinco canções emblemáticas de nossa carreira foram cantadas por Maria Gadú, Negra Li e Ana Carolina. Ou seja, homenagem pra roqueiro nenhum botar defeito.

Uma das figuras que roubaram a cena na premiação foi o folclórico roqueiro Serguei. Figura um tanto patética, Serguei é uma lenda viva, mais por ter supostamente namorado Janis Joplin quando da passagem da cantora pelo Rio, na década de 60, do que propriamente por sua música. No entanto, durante a premiação, alguma coisa me incomodou naquelas imagens de Serguei entrevistando os convidados nos camarins. Me pareceu meio obscena a presença do velho roqueiro na festa, uma figura trágica e meio demente, como aqueles velhos loucos das aldeias, dos quais as crianças zombam e em quem atiram pedras. Cheguei a ter pena do Serguei (estaria vislumbrando um espelho no futuro?). Pra que expor o pobre homem ao ridículo?, pensei. Mas, de repente, ao adentrar o camarim do jovem Fiuk, o filho de Fábio Júnior — o Júnior do Júnior —, Serguei é acometido por uma epifania e transforma-se num personagem denso e literário. Ele se ajoelha diante de Fiuk e declara, épico, melancólico e resignado: “ajoelho-me diante da beleza!”. Qual um Gustav von Aschenbach prostrado diante da exuberância de Tadzio, saído diretamente das páginas de Morte em Veneza, Serguei nos deu um exemplo da grandeza dos personagens desesperados.

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu próximo livro, No buraco, será lançado pela Companhia das Letras em setembro.