Tony Bellotto

Doutor Jomatto e o Senhor Isconde

Por Tony Bellotto

O transtorno bipolar foi inicialmente descrito como depressão maníaca no final do século XIX. À mesma época Robert Louis Stevenson lançava o grande romance sobre o tema, Strange case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde, O médico e o monstro aqui no Brasil. Não conheço título que expresse melhor a ciclotimia crônica que se abate sobre escritores na penosa reta final da feitura de um livro. Pelo menos é o que acontece comigo.

Depois de quase dois anos trabalhando um texto, quando começo a perceber que ele está querendo chegar ao ponto final, entro num processo neurótico que intercala — às vezes com segundos de intervalo — a depreciação exasperada e a idolatria desmedida de mim mesmo. Quando leio e releio obsessivamente meus manuscritos inacabados, às vezes me sinto um digno postulante ao prêmio Nobel de Literatura, noutras uma horrenda aberração literária. Claro que há exagero nisso, mas é incrível como consigo, ao ler e reler a mesma página (quando não o mesmo parágrafo) que escrevi, ter, num intervalo de um dia ou dois, avaliações tão antagônicas e pouco objetivas do meu próprio trabalho. Isso acontece com todo mundo?

É interessante que, como leitor, esse tipo de coisa não aconteça. Logo que começo a ler um livro, depois de algumas páginas já sei o que acho daquele escritor, e daquele texto. Se o considero bem escrito ou não. Interessante, instigante ou meio chato. Mesmo que me decepcione um pouco com o final, ou que me surpreenda, o veredicto é assimilado sem maiores transtornos no princípio da leitura. Já quando escrevo, perco a noção. Um dia acho que escrevi páginas geniais, no outro teria vergonha de mostrá-las ao meu cachorro. Hoje, por exemplo, estou com vontade de enviar pelo correio o manuscrito de meu mais novo romance ao Reinaldo Moraes com orientações precisas de como ele deverá queimá-lo. Tá em casa, Reinaldão?

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu livro mais recente, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro de 2010.

Um atrapalho no trabalho

[A coluna de Michel Laub retorna em março.]

Por Tony Bellotto

“O jornalismo nunca atrapalhou um escritor desde que abandonado a tempo.” A frase, com algumas variações, é atribuída a Ernest Hemingway, um escritor que deve ao jornalismo — ou à forma de escrever urgente e objetiva do jornalismo — a descoberta da pedra filosofal da literatura do século XX, a prosa seca que lhe rendeu fama, Nobel, dinheiro e prestígio. A publicação de O verão perigoso pouco antes que se suicidasse, uma vasta reportagem sobre a temporada de touros de 1959 na Espanha, prova que nem o próprio Hemingway seguiu o vaticínio.

Nos umbrais do século XXI podemos afirmar que a literatura nunca atrapalhou um jornalista desde que abandonada, ou relegada, a tempo (a tempo de entregar a crônica). Repare como quase todos os escritores em atividade no Brasil escrevem na Imprensa. Até mesmo aqueles que supostamente poderiam prescindir de ganhos extras (sim, penso no Paulo Coelho). Isso sem contar os escritores, grandes escritores, que são jornalistas de carteira assinada, como o Veríssimo, o Ruy Castro, o Zuenir Ventura e o falecido Nelson Rodrigues, o genial dramaturgo com pinta de burocrata de redação.

Quando Hemingway proferiu sua frase — não descarto a possibilidade do escritor estar algumas doses além da tolerância do bafômetro — não existia ainda o que chamamos hoje de Jornalismo Literário, nem a prosa sem ficção (ou de não-ficção), inventada por Truman Capote com a publicação de A sangue frio em 1966, nem Norman Mailer tinha publicado A luta, sobre o histórico confronto entre Muhammad Ali e George Foreman no Zaire em 1974.

Por falar em bafômetro, é irônico que a chamada prosa seca tenha sido inventada por dois escritores que viviam encharcados, os beberrões Ernest Hemingway e Dashiell Hammett, embora, assim como Faulkner e Raymond Chandler, eles nunca escrevessem de porre. O que talvez explique o fato de Dashiell Hammett não ter escrito nada nos seus últimos trinta anos de vida.

O que me faz pensar numa frase: a bebida nunca atrapalhou um escritor desde que ingerida na hora certa.

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu livro mais recente, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro de 2010.

Dark Stuff

Por Tony Bellotto


Nick Kent (Foto por Andy Willsher)

A insuperável definição vem de ninguém menos que Frank Zappa, o aloprado e erudito roqueiro ítalo-americano, ele próprio a encarnação do Paradoxo Cantante: “Jornalismo de rock: gente que não sabe escrever escrevendo pra gente que não sabe ler sobre gente que não sabe ler nem escrever”.

Ou algo assim. Irretocável.

Críticos de rock (e de música pop em geral), conhecidos genericamente entre os músicos por “inimigo”, vítimas da Maldição de Memphis — que os condena eternamente à cova rasa dos “músicos frustrados” —, são muitas vezes confundidos com profetas rotos a pregar no deserto, babando ódio e exalando ressentimento e desinformação pelas ventas. E na maior parte das vezes eles são isso mesmo, ou pior. Mas há as exceções, e outro dia fui apresentado a uma delas justamente por um outro inimigo.

Bem, roqueiros no ocaso, como eu, desses que alguém poderia acusar de “crítico frustrado”— basta ler as besteiras que ando publicando por aí em blogs variados —, não se importam mais, por exemplo, em dividir raias de piscina com o inimigo, nem em ter um inimigo (ex-inimigo, vai. Hoje em dia ele não escreve mais sobre música) como amigo.

Enfim, meu amigo aquático, a que chamarei aqui de Ryff em homenagem aos fraseados de guitarra que tanto lhe agradam, companheiro de aulas de natação e com quem compartilho saborosos papos sobre música, jornalismo, política (o menos saboroso deles), literatura, meteorologia ou qualquer outro assunto trazido pela brisa de Ipanema, me apresentou à Nick Kent, que eu não conhecia.

Nick Kent é um crítico inglês que desde os 70 vem publicando fina prosa jornalística sobre rock. Só para não desmentir a regra, ele é sim um músico frustrado — tendo tocado guitarra numa formação embrionária do Sex Pistols! —, o que não desmerece a alta voltagem de sua escrita (pelo contrário, a eleva a níveis ensurdecedores).

O livro que me foi emprestado por Ryff (com um inimigo assim quem precisa de amigos?) é The dark stuff: Selected writings on rock music, publicado pela Da Capo Press com prefácio de Iggy Pop, o que vale por um selo de garantia. Um selo raro e meio raladão, diga-se. O encarquilhado Peter Pan do rock mundial, a Iguana Elétrica, confessa em seu prefácio que ao fim da leitura de cada capítulo do “nasty book”, ele sentia vontade de ouvir (ou ouvir de novo) a música dos artistas enfocados por Kent. Esse desejo singelo confirma para Iggy Pop a importância do “creepy book”, já que assuntos como indústria da música e jornalismo musical já não o interessam mais.

Nem a mim. E antes que terminasse de ler o primeiro capítulo, “The last Beach movie revisited: The life of Brian Wilson”, eu já estava ouvindo e re-ouvindo Pet Sounds obsessivamente.

The dark stuff é jornalismo literário da melhor qualidade.

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu livro mais recente, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro de 2010.

Lambendo livros

Por Tony Bellotto

Impactado pelo hilariante (para dizer o mínimo) “Cheirando livros”, da surpreendente (para dizer o mínimo) e sempre finamente humorada Vanessa Barbara, pego-me não apenas cheirando meus livros, mas lambendo-os (?).

Uma imagem vale por mil cheiradas, e a foto da impagável (para dizer o mínimo) Rachael Morrison cafungando um avantajado tomo azul (que porra de livro é aquele?) me infla de questões comezinhas, diametralmente afastadas das grandes questões literárias, aquelas que devem acometer os grandes escritores. O que são os olhinhos de Rachel na foto? O que acoberta entre as páginas do tomo azul a olfativa e sapeca bibliotecária? Uma linha de cocaína? Uma gota de Chanel número 5? Um filete de aliche? Uma pétala de jasmim? Um bumbum entreaberto?

Ponho-me a cheirar meus livros, aleatoriamente: Memórias alcoólicas, de Jack London, recende a um velho barril de carvalho…acho que o título me sugestionou, tentarei uma prova cega. Fecho os olhos e qual Jorge Luis Borges, tateio minha estante e pego um livro qualquer. Abro-o e cheiro-o (incrível que consiga acertar tantas ênclises de olhos fechados). Cheiro de armário antigo. Abro os olhos: A trilogia de Nova York, de Paul Auster. Isso quer dizer alguma coisa? Além do fato de minha estante estar repleta de autores norte-americanos e de todos os livros cheirarem a madeira? (agora cheiro o Nêmesis, de Philip Roth, e sinto cheiro de fórmica).

Como sou um escritor ainda em fase oral, o passo seguinte é previsível: começo a lamber os livros. Afinal, cheiramos as coisas só para saber se podemos em seguida abocanhá-las, certo? The collected tales and poems of Edgar Allan Poe (mais um norte-americano!) tem gosto de hóstia. Hum, faz sentido. Paratii, de Amyr Klink (enfim um brasileiro!), ao contrário do que eu esperava, não tem gosto de mar. Nem de areia. Tem gosto de…deixa eu ver…papel. Agora vou lamber Nazi literature in the Americas, tradução norte-americana do romance hilariante (para dizer o mínimo) de Bolaño. Fico por aqui. Confessem, vocês também estão lambendo livros…

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu livro mais recente, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro de 2010.

11 de novembro de 2011

Por Tony Bellotto

(Foto por Sphaerula)

Em Diário De Um Fescenino, de Rubem Fonseca, Rufus, o narrador, anota em 1º de janeiro de um ano indefinido: “O bom diarista”, disse Virgínia Wolf, “é aquele que escreve para si apenas ou para uma posteridade tão distante que pode sem risco ouvir qualquer segredo e corretamente avaliar cada motivo. Para esse público, não há necessidade de afetação ou restrição”.

Em 1º de janeiro de 1975, Juan García Madero, um dos poetas real-visceralistas de Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño, registra: Hoje percebo que o que escrevi ontem na verdade escrevi hoje: tudo que correspondia a 31 de dezembro escrevi no dia 1º de janeiro, isto é, hoje, e o que escrevi dia 30 de dezembro é o que escrevi dia 31, isto é, ontem. Na realidade, o que estou escrevendo hoje escrevo amanhã, que para mim será hoje e ontem, e também de certo modo amanhã: um dia invisível. Mas sem exagerar.

Em seu Diário de um ano ruim, J.M.Coetzee, em algum momento entre 12 de setembro de 2005 e 31 de maio de 2006, após a releitura atenta do quinto capítulo da segunda parte de Os irmãos Karamazov, confessa: E fica-se grato à Rússia também, à Mãe Rússia, por colocar diante de nós com uma certeza tão inquestionável o padrão ao qual todo romancista sério deve aspirar, mesmo sem a menor chance de chegar lá: o padrão do mestre Tolstói de um lado e o do mestre Dostoiévsky do outro.

Enrique Vila-Matas, na quarta parte de O mal de montano, denominada Diário de um homem enganado, escreve no dia 25 de setembro: Em princípios do século 21, como se meus passos tivessem o ritmo da história mais recente da literatura, achei-me solitário e sem rumo numa estrada perdida, ao entardecer, em marcha inexorável para a melancolia.

Na reunião dos diários de João Carlos Oliveira, o genial e maldito cronista e romancista capixoca (capixaba que se torna carioca), Diário selvagem, o diarista anota em 24 de julho de 1977, um domingo, às 17h: Gastrite outra vez. Solidão de tudo, carência de buceta, pra falar com clareza. Já em 12 de janeiro de 1981, ele afirma: É assim que quero este diário: tudo dito, nada retórico.

Anne Frank, talvez a mais célebre e trágica das diaristas, confidencia ao próprio diário em 12 de junho de 1942: Espero poder confiar inteiramente em você, como jamais confiei em alguém até hoje, e espero que você venha a ser um grande apoio e um grande conforto para mim.

Vasculho meus diários, encontro frases desprovidas de encanto e sentido: 10 de dezembro de 2004, não esquecer de ligar Beth Bradesco (aplicação). 9 de maio, sábado, inauguração do bar de Antônio Torres, Letras e Expressões do Leblon. 16 de maio, “Posso ser sincero?” “Não. Claro que não”. 15 de setembro, “Se você encontrar um advogado com raiva, fuja dele”, Dr. Dario.

Por onde andavam Tolstói e Dostoiévsky em 2004?

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu livro mais recente, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro de 2010.