Por Tony Bellotto

Ezequiel Neves (Reprodução O Globo)
Por ocasião da morte na semana passada do quintessencial crítico brasileiro de rock, o querido Ezequiel Neves (ou Zeca Jagger, ou Zeca Zimmerman), lembro da frase lapidar de Frank Zappa sobre jornalismo de rock: “gente que não sabe escrever escrevendo pra gente que não sabe ler sobre gente que não sabe ler nem escrever”. Irônico e cáustico que só ele, Zappa com certeza influenciou Zeca (não menos sarcástico) na decisão de abandonar o jornalismo e passar para o outro lado das barricadas ― o de cá ―, cantando, compondo e produzindo discos. Ou teria Zeca seguido o conselho de Hemingway, que afirmava que o jornalismo não atrapalha um escritor desde que abandonado a tempo? Qualquer que tenha sido o mentor da decisão, no mínimo o Ezequiel se divertiu muito mais participando do rock do que escrevendo sobre ele.
A provocação de Zappa pode também ser aplicada à literatura de rock. Literatura de rock? Existe tal Frankenstein? Por que alguém perderia tempo com isso? Tem gosto pra tudo. Tirando alguma poesia (Lou Reed, Arnaldo Antunes), crônicas (Dylan, John Lennon, David Byrne), romances (só me ocorre o Nick Cave), um pouco de literatura infantil (Rita Lee) e biografias variadas, pouco se encontra de ficção escrita por roqueiros ou sobre eles. Fausto Fawcett é um roqueiro que escreve bem, mas podemos encaixá-lo na ala das exceções (ok, eu também, obrigado pela lembrança). Pete Townshend, do The Who, já escreveu alguma coisa, mas nada que se compare à sua obra musical (aí incluídas as geniais óperas-rock Tommy e Quadrophenia). E Sam Shepard, que já deu suas baquetadas na juventude (e inclusive teve um relacionamento com Patti Smith, que lançou Just kids* no começo do ano), também arrisca alguns contos de ambiência, digamos, roqueira. Outros escritores já usaram o rock como tema, como Don DeLillo em Great Jones Street ― sobre um ídolo de rock em crise existencial ―, e Nick Hornby em vários contos e romances, Juliet nua e crua em especial, que aborda com ironia o tema das celebridades esquivas, embora o livro seja meio água com açúcar. Bukowski, apesar de não escrever sobre rock, sempre soou como um roqueiro genuíno soaria se escrevesse bem (um Keith Richards letrado, por exemplo). Repare que uso o termo soar. São poucos os escritores que conseguem soar e Buk com certeza é um deles. Há também William Burroughs, claro, ídolo literário de nove entre dez estrelas de rock (das que sabem ler, evidentemente) e responsável pela criação de termos incorporados ao jargão roqueiro pinçados diretamente de seus textos, como Heavy Metal ― que designa um gênero ― ou Soft Machine ― nome de uma banda inglesa em homenagem ao título de um livro de Bill. E há os casos clássicos de roqueiros inspirados por escritores: o Dylan que Robert Zimmerman assumiu como sobrenome artístico vem do poeta irlandês Dylan Thomas, assim como o Verlaine de Tom Verlaine ― guitarrista e compositor da mítica banda new wave americana Television ― também é herança artística, e não genética, do poeta francês. Tirando isso, não sobra muita coisa. Não que eu saiba.
Foi pensando nessas bobagens que comecei, há uns cinco anos mais ou menos, a escrever alguns contos sobre o tema. Escrevia sem intenção de reunir o material num livro ou de me tornar um pioneiro do gênero. Escrevia por escrever, que é como se escreve melhor, lembrando de muitas coisas que me aconteceram e vi acontecer nos quase trinta anos de carreira como roqueiro brasileiro (uma espécie de sambista esloveno). Esses contos se tornaram depois a semente ― ou para usar um termo mais Burroughiano, a viga-mestra ― de meu novo romance, No buraco. Aliás, que lugar seria mais adequado a uma viga-mestra ou a uma semente do que um buraco? Relendo os contos ― quase todos narrados em primeira pessoa ― há coisa de dois anos, percebi que o narrador era sempre o mesmo, embora eu não tenha me tocado disso enquanto escrevia. E ainda que ele não tivesse um nome, concluí que o personagem era e não era eu. Não à toa, esse personagem, batizado depois de Teo Zanquis, é um guitarrista escritor, por mais paradoxal que isso possa parecer (como coçar a cabeça e passar a mão em círculos pela barriga, escrever e tocar guitarra ao mesmo tempo é bastante complicado…).
No livro, lá pelas tantas, ao ser abordado por uma namorada ninfomaníaca ― a artista plástica Gina Kertz ― sobre os motivos que o levam a escrever sobre rock, Teo se explica: “É só um tema como outro qualquer. Como o Conrad escrevendo sobre a vida no mar”.
“Joseph Conrad? Que chique! Está comparando a tua vivência no rock com a vivência do Conrad no mar? Bonitinho.”
“Sem um pouco de pretensão ninguém faz nada.”
“Acho que você está exagerando um pouco. Vá com calma. Não alimente muitas expectativas”, alerta Gina, transbordando prudência e sabedoria.
* Just kids será publicado em 2011 pela Companhia das Letras.
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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu próximo livro, No buraco, será lançado pela Companhia das Letras em outubro.