Tony Bellotto

HAL 9000

Por Tony Bellotto

Morro de inveja de escritores que escrevem (ou dizem que escrevem) à mão, preenchendo cadernos e cadernos com letra fluente, antes de passar tudo para o computador. É como se o ato de escrever à mão tornasse a escrita mais genuína e o próprio ofício ganhasse gravidade e circunspecção com a prática. Qual de nós, em delírio, nunca se viu, como um reflexivo Tolstói, molhando o bico da pena na tinta negra?

Minha letra sempre foi péssima, e desisti de minha carreira de Tolstói ainda na infância. Não consigo até hoje entender o que escrevo à mão (não entendo também o que escrevo no computador, confesso). Na adolescência, morando em Assis, no interior de São Paulo, ganhei minha primeira máquina de escrever, e nela datilografei (catando milho) todas as páginas de meu primeiro romance, Róbino, o pássaro, um horrendo calhamaço de delírios adolescentes em forma de realismo mágico. Argh! Cheguei a inscrevê-lo num concurso da extinta revista Escrita, e peço desculpas aos jurados que tiveram de ler aquele amontoado de besteiras 34 anos atrás.

Anos depois comprei uma Olivetti elétrica e um novo mundo surgiu aos meus olhos. Por alguns anos fui uma espécie de Bukowski para mim mesmo, embora para os outros eu continuasse sendo o mesmo Tony de sempre, autor do clássico do realismo mágico caipira Róbino, o pássaro. No começo dos anos 90, quando catava na minha Olivetti os milhos que formariam meu primeiro romance publicado, Bellini e a esfinge, minha mulher me presenteou com um laptop e desde então não abandonei mais os computadores.

Durante minhas constantes viagens, costumo fazer correções à mão em textos em que estou trabalhando. Invariavelmente, ao voltar para casa, não entendo as anotações que fiz. O que prova que ainda não sou um Tolstói. O que é péssimo, pois tenho de vivenciar pesadelos que o escritor russo nunca conheceu. Por exemplo, minha última aquisição cibernética, um vistoso Mac de não sei quantas polegadas, qual um HAL 9000 ensandecido, insiste em mudar as palavras que escrevo, numa tentativa neurotic (escrevi neurótica! Juro!) e angustiante de anglicizá-las. Agora mesmo, quando digitei tentativa, ele escreveu tentative. Tenha a santa paciência! O que será isso? A maldição de Tolstói? Ou a vingança macabra de algum jurado que teve de ler Róbino, o pássaro na íntegra?

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu novo livro, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro de 2010.

Ser ou não ser

Por Tony Bellotto

A mulher senta-se ao meu lado no saguão do aeroporto. Tem um livro de Ken Follett no colo. “Você não escreve mais policiais?”, pergunta. A mulher se transfigura de repente numa esfinge de nariz quebrado com um sorriso maléfico de bruxa de Walt Disney: “Hein? E os policiais, Tony? Cadê?”. O sorriso se desfaz numa gargalhada de filme trash de terror, com direito a um eco tosco de Zé do Caixão: “Rá, rá, rá, rá, rá, rá…”.

A pergunta, e a visão que a sucede, lançam-me num buraco de Alice. Rodopio pela minha consciência: por que parei de escrever policiais? Algumas imagens surgem desconexas, como num trem fantasma: eu numa mesa literária na Bienal do Rio, acompanhado de um grupo de ilustres “escritores de policiais”. Divagamos sobre tramas policialescas. Horas perdidas em papos furados sobre crimes insípidos, como se escrever policiais se limitasse a um bom desempenho em inventar charadinhas surpreendentes. Outra imagem: eu manuseando libidinosamente um dicionário de termos técnicos de armas e munições. Foi para isso que li todos aqueles Hemingways, Machados e Bukowskis? Para me embrenhar babando por sinistras descrições do cão, do cartucho, da carabina e do carregador? Uma vez, quando escrevia Bellini e os espíritos, fui fazer pesquisa de campo junto a uma delegada numa delegacia do Bom Retiro. Queria informações sobre a máfia chinesa. A delegada me disse: “Acabei de prender um chinês suspeito de assassinato. Ele está na cela. Quer falar com ele? Detalhe: ele só fala mandarim”.

Não! Não quero falar com nenhum assassino que só fala mandarim! Tampouco acompanhar uma autópsia. Muito menos me informar sobre procedimentos jurídicos. Que saco. Eu só quero escrever. O Bellini, meu detetive, confesso, nunca foi um detetive.  Sim, o Bellini é um farsante. Vestiu-se de detetive pois assim lhe pareceu mais fácil ser aceito no grande baile da literatura. Depois ele até que gostou do babado, e hoje se orgulha de dividir uma estante com Pepe Carvalho, Matthew Scudder, Nero Wolfe, o rabino David Small, Espinosa, Continental Op e, mestre dos mestres, Philip Marlowe. Aliás, quem disse que Philip Marlowe é um detetive? Não acreditem em tudo que um escritor escreve.

“Hein?”, repete a mulher, o Ken Follett luzindo em seu colo. “Você não escreve mais policiais?”

“Escrevo sim. Estou começando a cultivar uma ideia para um novo Bellini.”

“Que ótimo”, o Ken Follett acusando um frêmito sutil no regaço de minha interlocutora.

“Mas tem uma coisa: eu não sou mais um escritor de policiais.”

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu novo livro, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro de 2010.

Malditos mesmo!!

Por Tony Bellotto

Outcast

Lendo aqui o sensacional — e já clássico — Amaldicionário da Literatura Brasileira (partes I, II e III), do colega Terron (também ele meio malditão), observo que vários malditos ali mencionados são escritores que não tiveram reconhecimento popular e de crítica equivalentes à força, qualidade e ousadia de suas literaturas. Tornam-se assim escritores de escritores, e seguem relativamente desconhecidos, embora altamente prestigiados em rodas de chegados. Quero falar agora de alguns escritores especialmente malditos, aqueles a quem nós, os outros escritores, maldizemos.

O pai de todos, o maldito dos malditos, é sem dúvida nenhuma Paulo Coelho (ok, ok, José Sarney é hors concours). Escritores (e leitores descolados) adoram dizer que Paulo Coelho escreve mal. Mas ninguém liga se um escritor escreve mal contanto que não venda bem. Portanto, conclui-se que o sucesso é capaz de piorar a escrita de qualquer um.

Eu, por exemplo, fui ao lançamento do livro de Martha Medeiros numa livraria aqui no Rio e, quando vi a fila de dar volta no quarteirão, pensei: hum…

Precursor de Paulo Coelho na imperdoável capacidade de vender livros, José Mauro de Vasconcelos, de Meu pé de laranja lima, fez escola: vendeu horrores nas décadas de 60 e 70 e hoje não existe mais.

Marcos Rey, grande escritor paulista (muito bem lembrado aqui na mais recente crônica da adorável Carol Bensimon), sofreu desconfiança da crítica (e de alguns companheiros de pena, que bem prefeririam depená-lo, desculpem o trocadalho infame) pela abjeta capacidade de agradar ao grande público, vender bem e ter livros adotados em escolas. Jamais será perdoado por isso.

Chico Buarque, embora ninguém ouse dizer publicamente que escreve mal, sofre críticas dissimuladas heavy metal por ganhar prêmios, como se seus olhos cor de orgasmósia ― e suas canções ― fossem sereias aos ouvidos dos jurados.

Escritores de humor em geral ― à exceção, talvez, do Veríssimo ― quase nunca são lembrados em papos cabeça e eventos literários (Millôr, Mário Prata, os caras do Casseta, Chico Anísio etc).

Teledramaturgos arrastam bolas de ferro pelos pés e têm de desviar de narizes torcidos em livrarias e feiras literárias. Como se Gilberto Braga, Cassiano Gabus Mendes e Janete Clair não tivessem nada a ensinar a quem quer botar um personagem em pé.

Bem, paro por aqui, pois já sinto as primeiras pedras. Ai!

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu novo livro, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro de 2010.

Crônica para um jovem escritor

Por Tony Bellotto


(Foto por protoflux)

Felipe me entrega o manuscrito e diz: não sei o que fazer com isso. Nunca sabemos, respondo. Sou um escritor estreante, completa. Sempre somos, emendo.

Depois, em casa, chego à conclusão de que também não sei o que fazer com o manuscrito de Felipe. Começo a ler, na falta de uso melhor para o calhamaço (Pepe Carvalho, o detetive desiludido de Barcelona, costuma jogar livros na lareira, mas não há lareiras em lares cariocas). Como em muitos manuscritos de escritores estreantes, percebo virtudes e defeitos na mesma proporção. E sem os defeitos, provavelmente as virtudes não fariam sentido (e vice-versa). Mas quem sou eu para achar qualquer coisa? Mal consigo equilibrar as virtudes e os defeitos dos meus próprios romances (consigo no entanto encontrar defeitos em clássicos e virtudes em má literatura, mas isso é assunto para outra crônica).

Dias depois, nos encontramos novamente. Confirmando uma regra de Ray Bradbury para o comportamento de escritores estreantes, Felipe está obcecado com a resposta a uma única pergunta: Eu sou um escritor? Eu sou um escritor? Todos somos, digo, sem esclarecer nada. Sinto um impulso de fazer a mesma pergunta, mas decido poupar-me do constrangimento.

Sugiro que Felipe reescreva o livro, e apelo ao lugar-comum: escrever é cortar palavras. Proponho que retorne depois, com um manuscrito menor. Aconselho Felipe a ler Truman Capote. Me pareceu a coisa certa a dizer. E que leia também Como funciona a ficção, do crítico James Wood. Você tem esse livro pra emprestar? Escritores nunca emprestam livros, respondo. Por quê?, questiona Felipe, ansioso como um jovem monge budista em busca da verdade. Por quê? Porque escritores nunca devolvem os livros que lhes são emprestados, concluo, como quem finaliza uma parábola.

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu novo livro, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro.

Último bilhete

Por Tony Bellotto


O suicida, tela de Édouard Manet.

Dalton Trevisan, depois de traçar uma coalhada (numa tigela de louça branca) na Confeitaria das Famílias, sai à rua XV de novembro de sua Curitiba imaginária e clama aos céus em voz inaudível: “Quem me dera o estilo do suicida em seu último bilhete!”.

A conferir: Ernest Hemingway não precisou deixar bilhete algum (como Sylvia Plath e Ana C). Seu “estilo” sempre foi o de um suicida, e o seu próprio suicídio fora ensaiado várias vezes, como bravata, durante bebedeiras com amigos. Não era uma manobra fácil, mas foi perfeitamente executada no dia 2 de julho de 1961 em Ketchum, Idaho: o cano da espingarda pressionando o céu da boca, e o gatilho disparado com o dedão do pé direito descalço.

Hunter Thompson também optou pelo tiro de espingarda na cabeça em 20 de fevereiro de 2005, em Woody Creek, Colorado (embora relutasse em admitir, sempre foi fã de Hemingway). Em seu último bilhete, reclamou de prosaicas dores na bacia.

Pedro Nava, o memorialista, saiu para um passeio pelo bairro da Glória, no Rio de Janeiro, na noite de 13 de maio de 1984. Matou-se com um tiro de revólver na cabeça (alvo preferencial dos escritores suicidas). Sem bilhetes, deixou como rastro apenas um misterioso telefonema recebido algumas horas antes.

Assis Valente, o compositor de “Brasil Pandeiro”, já havia tentado se suicidar duas vezes, sem sucesso: cortara os pulsos em fins da década de 30 e saltou do Corcovado em 13 de maio de 1941, mas teve a queda amortecida por algumas árvores que se interpuseram entre ele e a morte. Finalmente, em 6 de março de 1958, conseguiu se matar com ajuda de formicida misturado ao guaraná. No último bilhete, deixado no bolso, pedia ao amigo Ary Barroso que lhe pagasse alguns aluguéis atrasados. E concluiu: “Vou parar de escrever, pois estou chorando de saudade de todos, e de tudo”.

Torquato Neto, o poeta e letrista piauiense, suicidou-se no Rio de Janeiro na noite de 10 de novembro de 1972, após trancar-se no banheiro e abrir o gás (Sylvia Plath também se matou inalando gás. Ana C. jogou-se da janela do apartamento dos pais). Escreveu: “Pra mim, chega! Não sacudam demais o Thiago, que ele pode acordar”.  Thiago era o filho de dois anos, que dormia no quarto ao lado.

Virginia Woolf, pouco antes de encher os bolsos do casaco com pedras e jogar-se no rio Ouse, em 28 de marco de 1941, finalizou o último bilhete ao marido: “Não acredito que duas pessoas poderiam ter sido tão felizes quanto nós fomos”.

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Tony Bellotto, além de escritor, é compositor e guitarrista da banda de rock Titãs. Seu novo livro, No buraco, foi lançado pela Companhia das Letras em setembro.