Vanessa Barbara

Não li e não gostei*

Por Vanessa Barbara

Na coluna anterior, falei de Pierre Bayard e da importância de poder escolher suas leituras, protestando contra a obrigatoriedade imposta pelas escolas.

Diz o autor francês que “a leitura é antes de mais nada a não leitura e, mesmo para os grandes leitores que lhe dedicam a existência, o gesto de tomar e abrir um livro esconde sempre um gesto inverso e simultâneo que escapa à sua atenção: aquele, involuntário, de abandonar e de cerrar todos os livros que, em uma diferente organização do mundo,  poderiam ter sido escolhidos no lugar do feliz eleito”.

É por se tratar de escolhas que defendo a liberdade de poder ignorar certos títulos e antipatizar de antemão com alguns autores por motivos nada objetivos, praticando o mais feroz preconceito sem manifestar sombra de culpa.

Um exemplo: não gosto de ler autores brasileiros contemporâneos, a menos que algo da trama me chame a atenção, como aconteceu com Nada a dizer, de Elvira Vigna. Antes que me persigam neste blog com tochas e tridentes por desdenhar da nossa valorosa produção literária atual, explico: não gosto de ter conhecido pessoalmente os autores. Mais que isso, odeio ter conhecido pessoalmente o mau-caráter de muitos deles e me reservo o direito de não levar em conta a mera existência de tais elementos sobre a face da Terra, quanto menos de ler o que eles escrevem.

Como a minha lista de desafetos não é pequena, vivo orgulhosamente por fora da produção brasileira atual — e, de forma sintomática, quanto mais me afasto dela, mais aumenta o meu gosto pela literatura. Adoro poder ler o que me dá na telha, sobretudo autores há muito mortos pelos quais ninguém se interessa, com acentos diferenciais e preocupações arcaicas. Gosto de entrar em mundos nada parecidos com o meu, de não ter de me esforçar para gostar de alguém só por amizade ou interesse. Gosto de não ler aquilo que todos estão devorando na atualidade, esperando alguns anos antes de pegar carona numa obra — ou decidindo ignorá-la por completo porque não gostei da cor da capa.

É ótimo não ter que expressar opiniões profundas sobre as obras e a produção de um determinado autor que esteja na moda (David Foster Wallace consta dessa lista, bem como J.M. Coetzee). Acho graça na pretensão existencialista dos escritores, sempre ansiosos por demonstrar erudição e conhecimento clássico como se um dia fossem prestar contas no Juízo Final da Literatura.

Costumo arremessar um livro longe quando algo me cansa ou um detalhe me irrita — em Os enamoramentos, de Javier Marías, fiquei nervosa com o fato de ninguém ter levado em conta o mendigo. Em A trama do casamento, achei a protagonista criada por Eugenides uma tonta, que só podia ser fruto de uma mente masculina. Gosto de abandonar um livro no começo, bem como aprecio as vezes em que insisto e acabo me afeiçoando à trama. Adoro criticar personagens como se fossem meus vizinhos e defender Charles Bovary como o faria com um tio distante.

Gosto de poder ler A trilogia de Nova York e não entender absolutamente nada. Da mesma forma, gosto de poder apreciar certas unanimidades, de eleger os meus preferidos e de não pertencer a uma patota que pré-aprove as minhas opiniões, fugindo como da peste dessa cansativa mentalidade de horda que aclama ou desautoriza autores, e que é praticada pela maioria dos nossos valorosos luminares da literatura brasileira contemporânea.

Bom mesmo é poder agir como um personagem de Graciliano Ramos, que, quando lhe perguntam: “Fulano é bom escritor?”, responde sempre:

“É uma besta.”

*A Companhia das Letras discorda do teor do texto, mas respeita a liberdade dos colunistas deste blog de expressarem suas opiniões.

 

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Vanessa Barbara nasceu em 1982, é jornalista e escritora. É colunista do International New York Times e da Folha de S.Paulo. Publicou o romance Noites de alface (Alfaguara, 2013), a graphic novel A máquina de Goldberg (Quadrinhos na Cia., 2012, em parceria com Fido Nesti), o livro-reportagem O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), o romance O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É também tradutora e preparadora da Companhia das Letras. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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O que o autor quis dizer

Por Vanessa Barbara

Não há dúvida de que o conceito de leitura obrigatória é um dos grandes males da sociedade contemporânea, perdendo apenas para a violência, o totalitarismo, a ganância e as sobremesas com café — pois que se propõem a se passar por chocolate quando estão longe disso. É desonesto.

Sobretudo na época escolar, quando nos obrigam a ler Senhora, de José de Alencar, ou Primo Basílio, de Eça de Queirós, ou Eurico, o Presbítero (que eu chamava de Eurico, o Burrico), a compulsoriedade da leitura geralmente tem como efeito o ódio extremo a essas obras, sobretudo as mais clássicas, ainda que sejam boas ou contenham elementos interessantes para aquela faixa etária.

O problema é sempre a obrigação: se no ensino fundamental me mandassem ler O Gênio do Crime ou qualquer coisa do Pedro Bandeira, só o fato de consistir num dever já tiraria a graça da atividade. E geraria todo tipo de revolta não só ao título em questão, mas à leitura em geral.

Sempre gostei de ler e me esforçava para tirar alguma coisa de útil das tarefas que me impunham, mas ficava frustrada por arruinarem uma atividade que devia ser tranquila e saltitante. Por isso encarava os trabalhos de leitura como obrigações que se deviam cumprir sem demora, a fim de poder me dedicar às coisas que realmente importavam: ler livros da minha escolha quando eu quisesse, se eu quisesse e por nenhum motivo senão a curiosidade. Ou uma capa bonita. Ou uma fonte com serifas especialmente sedutoras. Ou porque alguém disse que tinha um personagem que morria de tanto beber água.

A consequente profissionalização e setorização das tarefas escolares para maior eficiência coletiva segundo os interesses de cada membro da turma foi uma decorrência natural dessa obtusa lógica didática, e ocorreu muito cedo, quando passamos a repartir entre os colegas os trabalhos em grupo com vistas a maximizar o aproveitamento do nosso tempo livre — que podia ser gasto na internet, no vôlei, na socialização generalizada ou na leitura de títulos proibidos pelo conselho docente.

Desde o ensino médio, fiquei responsável pelos trabalhos de pesquisa do grupo, enquanto uma amiga cuidava das tarefas matemáticas e outra redigia resumos burocráticos das matérias da semana. Havia ainda uma especialista em fazer relatórios das experiências em laboratório e outra que resolvia fórmulas de física.

Lembro também de quando um professor de filosofia nos mandou ler O mundo de Sofia e fazer um resumo dos capítulos. No máximo cinco pessoas da classe de fato leram o livro, três delas pulando as páginas e sublinhando aleatoriamente trechos que lhe pareciam relevantes. Uma delas pediu para a irmã executar a tarefa, em troca de favores domésticos. A grande maioria copiou resenhas da internet, trocando os verbos e a ordem das frases. Alguns se tornaram especialistas em simulação intelectual, embromação estilística e de fato aprenderam lições importantes de como sobreviver neste mundo. Só eu e a Alessandra lemos o livro inteiro, e devo confessar que fui eu que redigi sete dos trinta trabalhos individuais da minha classe, cobrando caro para tanto. Tirei dez em quase todos, inclusive no meu, que foi o mais caprichado. Minha popularidade aumentou de forma notável. A Alessandra também aceitou encomendas, acho, mas não se dedicou com tanto afinco à empreitada.

Gostei bastante do livro, mas não importa. O fato é que, como disse Pierre Bayard, autor de Como falar de livros que não lemos, “é justamente essa obrigação de ter que ler que nos impede de chegar aos livros. Sacralizamos tanto os livros, o fato de ler e ter que guardar todas as informações e detalhes dos textos, que acabamos morrendo de medo das palavras e, então […] não lemos. Prefiro evitar todo tipo de ‘dever’ ou ‘obrigação’ sobre esse assunto. A leitura é um ato de liberdade. Não há como impor regras a ela”.

Na obra, Bayard ensina algo que minha mãe aprendeu desde cedo: como burlar a obrigatoriedade da leitura sem perder muito tempo lendo livros que não nos interessam — o oposto do meu método nerd de realmente fazer tudo o que os outros mandam. A técnica tem grandes méritos próprios: exige criatividade, intuição e esforço de síntese. Meu irmão também era bom nisso e adivinhava com maestria o que o professor gostaria de ler na prova; quanto a mim, jamais consegui atingir verdadeira excelência no método, que realmente requer treino constante e habilidade acima da média.

Na Flip de 2008, Bayard inclusive sugeriu o uso de técnicas de leitura que as escolas não ensinam e que professores e críticos literários cansam de usar para poupar tempo com livros que merecem apenas ser folheados. “O crescimento da exigência da leitura tem feito mais vítimas que grandes leitores”, explica.

Muitos podem argumentar que ter disciplina é importante, que a vida é dura e devemos aprender desde cedo a fazer coisas de que não gostamos, já que, no futuro, teremos muitas vezes que nos submeter a elas. Mas parte da graça de ser adulto é ter escolhas, poder partir para um novo emprego ou uma profissão diferente — ou, no mínimo, trabalhar para que no futuro isso seja possível. Outra habilidade essencial para um adulto é saber identificar prioridades e dispensar as coisas que não são relevantes, sendo, portanto, seletivo.

Poder escolher suas leituras é essencial. Mesmo que os professores julguem saber quais livros são apropriados para os alunos, nunca devem limitar as opções. O fato de haver na minha escola uma “lista negra” com livros proibidos para a minha faixa etária (romances policiais sanguinolentos, livros com cenas picantes e coisas para as quais ainda “não estávamos prontos”) apenas aumentou minha vontade de lê-los, ao passo que a existência de uma lista obrigatória acabou relegando os títulos recomendados a uma categoria enfadonha e nada atrativa.

Bayard é defensor da descoberta pessoal de títulos, sem quaisquer restrições e imposição de critérios. “Nos Estados Unidos, ao contrário da França, as bibliotecas permitem que o usuário circule entre os livros, levando-o a títulos que não pretendia tomar emprestado. A curiosidade ainda é o melhor incentivo que um leitor pode ter”, afirmou.

O livro de Bayard, por exemplo, eu não li. Por nenhum motivo em especial. Contudo, depois de conferir algumas resenhas, acabo de ceder à vontade — contanto que não me peçam para resenhá-lo.

(Se me proibirem de lê-lo, aí é que o título sobe direto para o topo da lista de prioridades.)

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Vanessa Barbara nasceu em 1982, é jornalista e escritora. É autora da graphic novel A máquina de Goldberg (Quadrinhos na Cia., 2012, em parceria com Fido Nesti), O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo(Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e do infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Como organizar uma biblioteca pública

Por Vanessa Barbara


Perigo: é proibido ingerir comida ou bebida nas proximidades deste computador, sob pena de incitar a fúria do diretor da biblioteca.

O texto a seguir é a tradução de um artigo de Umberto Eco publicado no livro How to Travel with a Salmon & Other Essays. Foi escrito em 1981 e sugerido por uma leitora deste blog.

Lembramos aos presentes que se trata de um artigo bem-humorado e crítico sobre os vícios na administração das bibliotecas públicas escrito por um usuário frequente destas, não um libelo antibiblioteca ou uma tentativa de exterminar todos os profissionais da área e trocá-los por vendedores de livrarias, favorecendo assim a sanha capitalista em detrimento do processo de equalização social das bibliotecas públicas e renegando os valores elementares de acesso à leitura e melhoramento da humanidade, a fim de perpetrar a estratificação social e impedir a ilustração de todos os setores da sociedade etc. etc.

(Por favor, não me excomunguem do cadastro unificado do Sistema Municipal de Bibliotecas.)

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Como organizar uma biblioteca pública
por Umberto Eco (tradução de Vanessa Barbara)

1. Os diversos catálogos devem ser alocados com o máximo possível de separação entre si. É preciso apartar adequadamente o catálogo de livros do catálogo de periódicos, e ambos do catálogo por assunto; da mesma forma, as aquisições recentes devem ser mantidas bem distantes do acervo antigo. Se possível, a grafia adotada nos dois catálogos (aquisições e acervo) deve ser diferente. No caso das aquisições, por exemplo, assovio deve ser grafado com v, e no acervo deve constar assobio com b. Um Chaikovskii da área de lançamentos irá seguir a classificação da Biblioteca do Congresso; no acervo o nome será grafado à moda antiga, com Tch.

2. A classificação por assunto deve ser determinada pelo bibliotecário. Na folha de rosto com os dados para catalogação não deve haver nenhuma indicação do assunto sob o qual o livro poderá ser listado.

3. Os códigos de catalogação devem ser incompreensíveis e, se possível, extremamente complexos, a fim de que não haja espaço na papeleta de solicitação de livros para incluir os últimos numerais, que portanto seriam descartados como irrelevantes. Então o atendente pode devolver o papel com uma advertência para o usuário preenchê-lo de forma adequada.

4. O tempo decorrido entre o pedido e a entrega do livro deve ser o mais longo possível.

5. Deve-se liberar apenas um volume por vez.

6. Assim que o pedido de consulta for corretamente preenchido, os livros cedidos pelo atendente não podem ser transportados à seção de obras de referência, forçando assim os pesquisadores a cindirem sua vida profissional em dois aspectos fundamentais: de um lado, ler, e do outro, consultar referências. A biblioteca deve desencorajar, mencionando os perigos do estrabismo, quaisquer tendências multidisciplinares ou tentativas de leitura de vários livros ao mesmo tempo.

7. Na medida do possível, não deve haver máquinas de xerox disponíveis; se tal máquina existir, o acesso a ela precisa ser necessariamente demorado e cansativo, as taxas devem ser bem mais altas do que as praticadas nas copiadoras da região e o número máximo de páginas reproduzidas não pode exceder dois ou três.

8. O bibliotecário deve tratar o leitor como um inimigo, um perfeito desocupado (caso contrário estaria trabalhando) e um ladrão em potencial.

9. A sala do bibliotecário-chefe deve ser inexpugnável.

10. Empréstimos devem ser desencorajados.

11. Empréstimos entre bibliotecas devem ser inexequíveis ou, no mínimo, demandar vários meses para se concretizarem. Em todo caso, o ideal é garantir a impossibilidade de consultar o acervo das outras bibliotecas.

12. Devido a essa política, o roubo se torna bastante fácil.

13. O horário de funcionamento deve coincidir precisamente com o horário comercial, determinado em reuniões prévias com os sindicalistas locais e a Câmara do Comércio; o não funcionamento aos sábados e domingos, à noite e no horário de almoço é uma prerrogativa óbvia. O maior inimigo da biblioteca é o estudante que trabalha; seu melhor amigo é Thomas Jefferson, que possuía uma enorme biblioteca privada e portanto não precisava frequentar bibliotecas públicas (às quais ainda assim legou seus livros como herança).

14. Deve ser proibido consumir qualquer tipo de lanche no interior da biblioteca; tampouco permitido sair desta para alimentar-se em outro lugar sem antes devolver todos os livros em utilização, obrigando assim o estudante a preencher novas solicitações depois de tomar um mísero café.

15. Deve ser impossível encontrar, no dia seguinte, o livro consultado na tarde anterior.

16. Deve ser impossível descobrir quem está na posse de um volume atualmente em empréstimo.

17. Se possível, não manter nenhum banheiro público disponível.

18. Idealmente o leitor deve ser impedido de entrar na biblioteca. Se por acaso conseguir fazê-lo, usufruindo com tediosa insistência de um direito garantido nos princípios de 1789, porém jamais assimilado pela sensibilidade coletiva, ele nunca, mas nunca mesmo — com exceção a rápidas visitas às seções de referência — deve ter acesso ao templo sagrado das estantes.

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Meus acréscimos:

19. Quarenta minutos antes do fechamento da biblioteca, é necessário fazer soar um alarme estridente e dúbio, a fim de inquietar os usuários e incutir-lhes a dúvida de incêndio.

20. Meia hora antes do fechamento da biblioteca, deve-se acionar uma buzina e um aviso ao microfone anunciando que o estabelecimento está para encerrar suas atividades. Solicitações de empréstimo não serão mais aceitas, assim como devoluções — sobretudo as de última hora. Recomenda-se que a buzina esteja sempre com defeito e funcione por aproximadamente dez minutos ininterruptos, sem que ninguém faça caso disso.

21. É sempre mais importante terminar a leitura do catálogo de cosméticos antes de atender os usuários. O mesmo vale para sessões vigorosas de lixamento de unhas e telefonemas pessoais.

22. O real fechamento da biblioteca deverá ocorrer quinze minutos antes do fechamento oficial, acelerado por rondas insistentes de funcionários que começarão a varrer o chão e empilhar as cadeiras.

23. O processo de apagar as luzes e trancar as portas deve levar exatos quinze minutos, e não por desejo de cumprir o expediente: é que deve haver funcionários para balançar a cabeça em negativa quando um leitor fatalmente aparecer atrasado para devolver um livro.

24. Convém se queixar o tempo todo do aumento no índice de furtos e da lamentável depredação ao patrimônio emprestado, dando a entender que o povo não merece um serviço gratuito e de qualidade.

25. O estatuto administrativo deve se sobrepor a toda e qualquer noção de bom-senso no atendimento. Donde: é proibido trazer lanche para prevenir as manchas de molho de tomate na página e a proliferação de insetos alados no ambiente da biblioteca; é proibido espiar a lombada de um livro e empurrá-lo de volta porque assim se pode arruinar todo o sistema de catalogação e condenar determinada obra a um vórtice temporal; é proibido entrar com bolsas e mochilas para não incentivar meliantes; é proibido se emocionar com um romance porque as lágrimas podem apodrecer o papel; é proibido, enfim, o que quer que você esteja arquitetando ao olhar para essa estante de forma duvidosa e com as mãos para trás. Movimentos suspeitos serão punidos e a multa para atraso na devolução deverá ser maior do que a de tráfico de drogas. O roubo de livros será julgado por uma corte marcial e até crianças poderão ser condenadas à prisão.

26. Na dúvida, dificulte.

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Vanessa Barbara nasceu em 1982, é jornalista e escritora. É autora da graphic novel A máquina de Goldberg (Quadrinhos na Cia., 2012, em parceria com Fido Nesti), O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo(Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e do infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Ode ao ebook

Por Vanessa Barbara


Sou fã do cheiro dos livros, da maciez das lombadas, das manchas de café nas páginas, das dobras no alto das folhas e do volume físico que você pode morder, arremessar e brandir para matar baratas. Mas também sou entusiasta do livro eletrônico.

Quando ganhei um e-reader de presente no ano passado (um Kindle, da Amazon), agradeci polidamente e julguei que nunca iria usá-lo, como se fosse uma incômoda pipoqueira ou uma panela elétrica de fazer arroz.

O primeiro livro eletrônico que comprei foi a biografia do Steve Jobs, por motivos puramente práticos: faltavam menos de 100 páginas para terminá-lo e eu não queria ter que levar para a França um livro de 935 gramas. Rasgar os últimos capítulos não me parecia uma opção adequada. Então decidi concluir a leitura no aparelho.

Naquela temporada, que se estendeu por cinco meses, fui mandando de volta para casa todos os livros já lidos e fiquei com apenas um: aquela engenhoca acinzentada, sem cheiro nem peso, mas que podia conter as obras completas de todos os romancistas deprimidos, poetas suicidas e jornalistas bêbados que eu desejasse.

Foi assim que os acionistas da Amazon.com.br tiveram o melhor Natal de todos os tempos: sim, a culpa foi minha. Passei a comprar compulsivamente os últimos lançamentos em literatura estrangeira, as obras de referência em luto, os manuais práticos para cuidar de quelônios e tudo o que me parecia remotamente interessante (ou barato demais para ser dispensado). Tive acesso a livros que demorariam meses para chegar ao Brasil, a preços razoáveis. Passei a ler três vezes mais do que antes, sobretudo no ônibus, onde é sempre penoso portar volumes pesados. Comprei por engano um título sobre o desenvolvimento macroeconômico dos tigres asiáticos (maldito “Compre agora com 1-Clique”) e fui prontamente reembolsada.

Meses atrás, antes de passar 28 horas no avião, fui às compras e empilhei treze novos títulos na minha biblioteca portátil, diversificando os gêneros: de romances duvidosos a thrillers da moda, passando por tratados sobre a psicologia da rejeição, clássicos da literatura, guias de Hong Kong e contos completos do Conan Doyle. Fui alternando as leituras conforme meu estado de espírito, e na volta precisei comprar mais.

O Kindle básico custa R$299, possui capacidade para até 1400 livros, pesa 170 gramas e sua bateria aguenta 15 horas de leitura ininterrupta. O Kobo custa R$ 259, armazena até 1000 livros e sua bateria dura até um mês. Para quem passa muito tempo no transporte coletivo, é um item de extrema necessidade. É bom também para desdenhar das revistas ruins nas salas de espera dos consultórios médicos.

A oferta de livros em português ainda é muito baixa e os preços não são tão convidativos quanto poderiam, mas este cenário está mudando.

Para quem adora destacar trechos das obras que lê (www.hortifruti.org), os leitores de livros eletrônicos são bem práticos e agrupam todas as marcas num só arquivo, com a nota bibliográfica pertinente (título, autor, página).

Desde que aderi ao leitor de e-books, melhorei da lordose típica de quem carrega livros pesados. Minha mala de viagens também ficou mais leve, embora eu ainda insista em empacotar, junto com a escova de dentes, alguns tomos antigos de valor sentimental ou que não possuem versão eletrônica. (Confesso: a mala para esta Flip não continha um só livro “de verdade” e voltei com apenas dois, o que deve ser uma espécie de recorde às avessas. Por outro lado, a lista de futuras compras eletrônicas só aumenta.)

E a geringonça é discreta: você pode ler as coisas mais vergonhosas sem que ninguém o identifique como fã de Dashiel Hammett, de Agatha Christie ou de livros de zumbis do espaço.

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Vanessa Barbara nasceu em 1982, é jornalista e escritora. É autora da graphic novel A máquina de Goldberg (Quadrinhos na Cia., 2012, em parceria com Fido Nesti), O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo(Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e do infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista daFolha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Gatsby for dummies

Por Vanessa Barbara


De pouco ou nada adiantou fazer pensamento positivo, acender uma vela aos deuses do cinema ou rezar uma novena pelo discernimento espiritual de Baz Luhrmann: a mais recente adaptação de O grande Gatsby, que estreou nesta sexta-feira, é mais deprimente do que Zelda em dia de cabelo ruim.

A crítica americana foi quase unânime em destroçar o filme. Numa resenha para a revista New Yorker, o jornalista David Denby afirmou que Luhrmann não é um cineasta, mas um diretor de videoclipes com recursos infinitos e uma impressionante ausência de bom gosto.

Peter Travers, da Rolling Stone, pediu silêncio aos leitores para ouvir F. Scott Fitzgerald revirando-se no túmulo. “O filme é tão rígido e morto quanto uma vitrine de butique de luxo”, declarou. Já Rex Reed, do New York Observer, disse que a adaptação tem a força narrativa de uma água de torneira. O New York Times classificou a obra de rasteira e agudamente inautêntica; no Wall Street Journal, Joe Morgenstern a acusou de elefantíase artística. Todos reprovaram o excesso, a superficialidade e a vulgaridade desta superprodução que custou 150 milhões de dólares.

Luhrmann, que assina o roteiro com Craig Pearce (ambos de Moulin Rouge), transformou o texto sutil, denso e complexo de Fitzgerald numa orgia visual e hiperativa com dançarinas seminuas, zebras infláveis, plumas, pérolas, mafiosos de fraque, trapezistas, palhaços, acrobatas e uma orquestra no meio da piscina, como “um baile de formatura à fantasia invadido pelo Cirque du Soleil”, comparou Reed.

A cena mais infeliz é a da primeira aparição de Jay Gatsby. No livro, a apresentação é feita casualmente durante uma festa na mansão. Nick conversa com um desconhecido que, no fim, se identifica como o anfitrião, desculpando-se pela falta de modos. No cinema, a câmera dá um close grosseiro em Leonardo DiCaprio, que exclama: “Eu sou Jay Gatsby!” ao som de Rhapsody in Blue, de Gershwin, e emoldurado pelo espocar de fogos de artifício.

(Há tantos closes em O grande Gatsby que o crítico Rex Reed o chama de “um filme sobre orelhas”.)

O pior de tudo, porém, é o roteiro. Por motivos didáticos, recorreu-se a um sofrível recurso de framing device que sustenta o enredo: Nick está internado num sanatório e conta seus dissabores a um psiquiatra, que o aconselha a transformá-los em livro. As falas em off são mal escritas, soporíferas e redundantes, atribuindo a Nick uma personalidade rasa. Muitas vezes, ele narra uma cena e então a repete em forma de diálogo, enquanto na tela pipocam as palavras datilografadas — em 3D, ainda por cima. (Não há nenhum motivo terreno que explique a adoção desse formato.)

Outra prova de que o diretor esforçou-se para legar às massas um verniz do romance: a expressão old sport (meu velho) é repetida não menos do que 55 vezes, provavelmente para quem é surdo de um ouvido. No momento em que Nick descreve a sensação de estar “dentro e fora” das situações, Luhrmann acha cabível mostrar o narrador materializando-se na cena e depois fora dela, o que me lembrou vivamente um episódio dos Teletubbies.

No livro, o relato da reunião no apartamento de Myrtle é soturno, esquisito e incoerente, cheio de lacunas. A embriaguez de Nick é mais um estado letárgico do que uma frenética orgia regada a ecstasy, porém esta parece ter sido (como sempre) a opção de Luhrmann.

Já a tensão psicológica entre os personagens indiferentes e descuidados (até o narrador tem defeitos de caráter) dá lugar, no filme, a um bacanal espalhafatoso e violento, anulando as nuances do livro numa barulhenta sucessão de festas e futilidade. Não há espaço para ambiguidades nem delicadeza.

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O ponto forte desta adaptação é a fotografia. Por meio de reconstituições computadorizadas de Nova York nos anos 20, veem-se impressionantes cenas panorâmicas de Long Island que situam até o espectador mais perdido; uma belíssima tomada aérea do carro amarelo atravessando o Vale das Cinzas em direção a Manhattan; vistas detalhadas das duas penínsulas separadas pela baía; travellings da ponte Queensboro; a imponência da mansão dos Buchanan e a extravagância do palácio de Gatsby. É certo que, às vezes, Nova York fica parecendo a Hong Kong de Batman: O Cavaleiro das Trevas, mas isso é o de menos. Gostei do expressionismo dos trabalhadores do Vale das Cinzas, das janelas dos apartamentos em Manhattan e do saxofonista solitário.

Por outro lado, a trilha sonora é de supurar o apêndice. Em vez de swing jazz, charleston e foxtrote temos hip-hop, Beyoncé e André 3000 comandados pelo rapper Jay-Z, que assina a catastrófica trilha. Em vez de lindy hop, shimmy e vaudeville, temos uma dança estilo rave totalmente fora de contexto. “Nada como o hip-hop para acrescentar relevância a um clássico”, ironiza Peter Travers.

Se a ideia era mesclar a estética e os ritmos dos anos 20 com a atualidade, o único acerto foi a versão jazzística para Crazy in Love, de Beyoncé, executada pela Bryan Ferry Orchestra. Podia ter seguido essa lógica nas outras faixas.

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Rebatendo as críticas, Baz Luhrmann diz que o romance de Fitzgerald também foi mal recebido na época, e que os resultados da bilheteria é que irão julgar a qualidade do filme.

Talvez a intenção do diretor tenha sido mimetizar Jay Gatsby, um “homem saído da própria concepção platônica de si mesmo”, que, reinventando-se, esvaziou-se de substância e verdade. Um galã de anúncio feito para agradar. Como observa o Homem dos Olhos de Coruja, os livros de Gatsby são absolutamente verdadeiros, mas suas páginas nunca foram cortadas.

O filme de Luhrmann é como a biblioteca do protagonista: uma suntuosa parede de encadernações verdadeiras, mas jamais lidas. Uma ilusão que só vai até certo ponto, não passando das aparências. “Mas o que vocês queriam? O que esperavam?”, conclui o Homem dos Olhos de Coruja.

Nesse sentido, Luhrmann nos deu uma interpretação perfeita de O grande Gatsby.

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Extras: Leia aqui uma análise das adaptações anteriores de O grande Gatsby para o cinema.

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Vanessa Barbara nasceu em 1982, é jornalista e escritora. É autora da graphic novel A máquina de Goldberg (Quadrinhos na Cia., 2012, em parceria com Fido Nesti), O livro amarelo do terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e do infantil Endrigo, o escavador de umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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