Vanessa Barbara

Levanta-te e grifa

Por Vanessa Barbara

Desde janeiro de 2002, sou a feliz editora de um almanaque eletrônico de periodicidade aleatória, A Hortaliça (www.hortifruti.org), que depende da ativa colaboração de leitores desocupados e da anuência de autores mortos — não os psicografados, entenda-se — para compor um periódico só de citações despropositadas, textos alheios tirados do contexto e textos próprios sem razão de ser.

Vivendo sobretudo à custa de citações, tenho que lidar pacientemente com os paradoxos da marcação livresca, essa grave ciência que trata do realce de trechos para posterior análise e transcrição, a fim de que não se percam para sempre num oceano de páginas intocadas pela experiência humana. Ou num canto escuro da memória onde jazem as senhas do ICQ, o sobrenome daquele japonesinho da quinta série, a área do triângulo-retângulo e o enredo do último filme do 007.

O que nos leva a uma questão absolutamente anterior a essa: marcar os livros, sublinhar parágrafos, fazer orelhas nas páginas, realçá-las com marca-texto, ceder a anotações ininteligíveis nas bordas — vandalismo ou apropriação lícita do texto escrito? Sou da segunda opinião, embora às vezes hesite em macular um volume especialmente novo e cheiroso, sendo meu fervor pró-marcação diretamente proporcional ao matiz amarelado das páginas, às onipresentes mordidas de traça, à mancha primordial de café na página 33 e ao carimbo do sebo de procedência, onde teria custado a bagatela de vinte cruzados novos.

De início, adquiri o hábito de anotar as partes mais pitorescas assim que elas surgiam. Além de impraticável em livros como Tristram Shandy ou Alice no país das maravilhas, que demandariam a transcrição completa no meu caderno espiral, esse método provou-se exaustivo e desanimador: a cada trecho promissor, lá ia a pobre alma que vos escreve apanhar o lápis e o papel, levantando-se pesadamente da cama só para registrar o texto. Interrompia-se a leitura e torcia-se para que o resto do livro fosse uma droga, só para não ter que se esforçar mais vezes. Em nenhum momento cogitou-se usar um bom e velho marcador de livros, que se destina tão exclusivamente a demarcar o andamento da leitura, ou sua utilização seria conspurcada para todo o sempre.

Mais à frente, resolvi anotar apenas o número das páginas que continham o trecho desejado, a ser copiado mais tarde. O sistema durou um bom tempo, até que passei a confundir irremediavelmente as notas, registradas em pedaços de papel na minha cabeceira — a página 116 anotada seria de Alex no país dos números, Sobre a morte e o morrer ou A conspiração franciscana, que estive lendo ao mesmo tempo? E mais: às vezes a tal página continha duas citações interessantes, de modo que uma delas passaria lamentavelmente despercebida, a menos que eu lesse de novo a folha inteira. Embora algumas passagens fossem de identificação gritante — a tal página 116 pertencia a Ensaios de amor, de Alain de Botton, e falava de um homem que pensava ser um ovo frito —, muitas eram tão obscuras ou circunstanciais que era preciso ler a página inteira várias vezes só para concluir que o número havia sido anotado em um momento de grande confusão mental e não correspondia a nada de lógico neste mundo.

Da notação numérica passei, portanto, ao método de grifar a lápis no próprio livro, apontando a localização e extensão do trecho por meio de pequenos colchetes. Às vezes também circulava o número da página só para facilitar a varredura posterior, folha a folha, quando então as marcas seriam apagadas. Esse método não prevê a costumeira ausência de material esferográfico nas redondezas e a preguiça de folhear mais tarde o livro à cata dos trechos.

Seguiu-se a adoção de um método mais limpinho e socialmente invejável — os “post-it flags”, que são aquelas tirinhas estreitas e coloridas que você pode colar e descolar facilmente das páginas, e até preencher com anotações classificatórias. De minha parte, hesito em aderir de corpo e alma ao procedimento pelos mesmos motivos da marcação a lápis, ou seja, ignora-se o dispêndio de energia necessário para apanhar o material e a possível falta deste à mão. Também acho as etiquetas demasiadamente jeitosas e acabo racionando a quantidade de trechos só para não gastá-las demais.

Outra alternativa infeliz foi fazer um vinco com a unha ao lado do trecho desejado, na esperança de que os olhos pudessem depois identificar as marcas, o que só ocorreria em casos de visão biônica. Sem falar no inconveniente de haver edições naturalmente vincadas, o que pode levar um editor à loucura em poucos dias.

A alternativa que por enquanto me parece a mais simples, mais honesta e menos trabalhosa é dobrar a ponta das páginas e entregar a vida ao Altíssimo. A marcação leva menos de cinco segundos (com o necessário calcamento e recalcamento digital, a fim de que a dobra não se desfaça) e pode ser facilmente rastreada olhando-se a borda do livro fechado. O ruim é que aqui em casa acabei ocupando uma gaveta inteira só de livros “a legumar”, o que dá aquela sensação ruim de trabalho infinito e acaba desestimulando a copista. Além disso, pode-se entrar em crise quando há necessidade de marcar um trecho na frente da folha e outro no verso.

A questão da marcação necessária ainda carece de resolução, e nem me venham falar em Kindle, que é leve e prático demais para causar transtorno. Esta coluna se baseia no corolário básico de que livro que é livro tem mesmo é de causar transtorno.

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Há alguns anos, comprei num sebo virtual Traçando Paris, de Luis Fernando Verissimo e Joaquim da Fonseca. A foto que ilustra este post dá uma ideia do tamanho da loucura com que me deparei. Em quase todas as linhas de absolutamente todas as páginas, uma certa Maria Solange Corrêa de Barros Oliveira, residente à rua Mostardeiro, n° 1035, Porto Alegre, se pôs a sublinhar, rasurar, realçar, rabiscar e escrever sandices como: “Eu estou com 56 anos et tenho dito. Assim seja. Amém”. Havia ilustrações esparsas de um certo Solar das Amigas, que não tem nenhuma relação com o livro, e alguns devaneios com a língua francesa, como quando ela anota, no sumário, que “quem pegar este cahier (caderno) vai receber um pito”. Escreve que “demi” é “chopinho” e garante que “genre” é “genro” em francês. Afirma, em letra de mão rebuscada: “Cannes fica no Canadá”.

Ela não sublinha apenas os trechos, mas também os créditos autorais, a ficha bibliográfica, a legenda das fotos, a minibiografia da orelha e algumas ruas do mapa de Paris. Há menções religiosas por toda parte e a palavra “diabo” é tachada em vermelho com tanta fúria que sai do outro lado.

O melhor comentário ao livro está bastante apagado e foi feito em lápis cor de laranja: “Marie Solange Olivier Corrêa: vá para a direita e volte para a esquerda. Assim seja. Amém”.

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Vanessa Barbara tem 29 anos, é jornalista e escritora. Publicou O Livro Amarelo do Terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O Verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o Escavador de Umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Eu sou Moby Dick

Por Vanessa Barbara

Baseado no romance homônimo de Ray Bradbury, o filme Fahrenheit 451 (1966, François Truffaut) fala de um futuro opressivo onde os livros são proibidos e incendiados. “É um trabalho como outro qualquer”, diz o protagonista Guy Montag, um bombeiro designado para apreender e tostar os objetos ilegais. “Às segundas, queimamos Miller; às terças, Tolstói; às quartas, Walt Whitman; às sextas, Faulkner; e aos sábados e domingos, Schopenhauer e Sartre. Queimamos até virar cinzas e depois queimamos as cinzas. É o nosso lema oficial.”

Certo dia, levado pela curiosidade, ele decide trazer pra casa alguns dos livros que confiscou. O primeiro que lê às escondidas é David Copperfield, de Charles Dickens. Daí pra frente passa a ler de tudo, com destaque para o verbete “rinoceronte” da enciclopédia.

Por fim, Montag é denunciado, mas foge e acaba encontrando um foco clandestino de resistência, formado por Pessoas-Livro (Book People). É gente que se propôs a decorar um volume inteiro de sua preferência, com vistas a salvá-lo do extermínio. “Guardamos os livros aqui dentro, onde ninguém consegue encontrá-los”, explica o líder, apontando para a cabeça. “Por fora, somos vagabundos. Por dentro, bibliotecas”, diz.

Uma moça se aproxima do forasteiro e pergunta: “Você se interessa pela República de Platão? Bem, eu sou a República de Platão. Posso me recitar pra você quando quiser”. O líder se apresenta como A vida de Henri Brulard, autobiografia de Stendhal, e aponta para os amigos: “Lá está O Morro dos ventos uivantes, de Emily Brontë. E aqui O corsário, de Byron. Aquele sujeito magrinho é Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. E onde está Alice através do espelho hoje? Deve andar por ali.”

Outros residentes: uma alegoria cristã de John Bunyan chamada O progresso do peregrino (o sujeito comeu o livro para que não pudessem queimá-lo), a peça Esperando Godot, de Samuel Beckett, As crônicas marcianas, de Ray Bradbury, as Memórias de Saint-Simon e As aventuras do sr. Pickwick, de Charles Dickens. Quando o recém-chegado diz conhecer o autor inglês, pois já lera David Copperfield, o interlocutor responde: “Oh! Nós temos um David Copperfield conosco. Ele está com outro grupo, mais ao sul” — o que provavelmente deve ter entristecido Montag, que bem podia querer ser ele mesmo tal obra. Ao protagonista, porém, cabe saber de cor Histórias de mistério e imaginação, de Edgar Allan Poe, que, se não é o seu preferido, pelo menos não é tão grande quanto o primeiro.

O príncipe, de Maquiavel, é um gordinho careca de jaqueta surrada e meia azul, que postula: “Como você vê, não se pode julgar um livro pela capa”. Orgulho e preconceito, de Jane Austen, recém-editado pela Penguin-Companhia, são dois irmãos gêmeos, cada qual com seu tomo. “Costumamos chamar um deles de ‘Orgulho’ e o outro de ‘Preconceito’. Acho que eles não gostam muito”, informa A vida de Henri Brulard.

Ou seja, trata-se de uma biblioteca incongruente, na qual romances clássicos se misturam a livros de poemas, teoria, biografia e teatro, numa barafunda editorial que me incomoda um bocado. Nada é disposto em ordem cronológica ou alfabética, e não há uma coerência entre os títulos — podia existir, por exemplo, um foco de resistência só de literatura francesa, ou de ensaios em latim, ou de ficção contemporânea. Aos mais velhos, reservar-se-iam os escritos mais antigos, e aos mais novos só os romances com uma quantidade moderada de mesóclises.

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Entre outros méritos, a história de Ray Bradbury dá novo significado à frase de Gustave Flaubert, “Madame Bovary sou eu”. Ninguém reparou, mas naquele momento ele anunciava sua opção, aludindo também ao fato de ter reescrito o livro demasiadas vezes. A má notícia aos que pretendem ser Pessoas-Livro vai para os fãs de Dostoiévski, obrigados a convocar esforços externos só para memorizar o glossário de nomes próprios de Os irmãos Karamazov, além de terem de se apresentar da seguinte forma: “Muito prazer, eu sou O idiota”.

Tudo isso pra anunciar que, diante da cervicalgia galopante e do recente colapso do espaço nas estantes (ver colunas anteriores acerca de feijões e prateleiras), decidi fazer como o povo da resistência e descentralizar mentalmente a minha biblioteca. À diferença da seleção de Fahrenheit 451, ela seria enxuta e criteriosa — mais criteriosa do que enxuta —, abrigando só ficção de estirpe, com ênfase nos clássicos, e alguma coisa de jornalismo literário e não ficção. Embora eu infelizmente não possa decorar livros que nunca li, espero que haja alguém disposto a memorizar o Mahabharata para quando eu tiver vontade de ouvi-lo.

Também darei preferência aos amigos com comprovada habilidade mnemônica, com exceção feita à minha mãe, que bem que gostaria de ser um épico como O senhor dos anéis ou Exodus, mas vai acabar tendo de se contentar com um soneto rimado, como este do Alphonsus de Guimaraens:

Hão de chorar por ela os cinamomos,
Murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.

Se bem que sua memória não é lá essas coisas nem para as trovinhas e haicais, de modo que “cinamomos” logo serão substituídos por “reis Momos”, assim como “amor” sempre acaba virando “avô”, arruinando por completo os anseios de precisão do projeto, ainda que agregando criatividade ao conjunto. Em questão de semanas, A terra devastada se transformaria numa ode indefinida às tesourinhas de unha e supercomputadores, ao passo que A outra volta do parafuso, de Henry James, seria enriquecido com uma longa descrição de um pesadelo que ela teve outro dia, sendo Flora “aquela loirinha que fala engraçado” e a governanta impiedosamente cortada da versão final.

Ainda não sei qual livro pretendo me tornar (O grande Gatsby está na disputa, assim como Moby Dick e Tristram Shandy), mas sei que gostaria de conhecer Bouvard e Pécuchet, de Flaubert, e Da pequena toupeira que queria saber quem tinha feito cocô na cabeça dela, de Werner Holzwarth.

E você, que livro quer ser?

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Vanessa Barbara tem 29 anos, é jornalista e escritora. Publicou O Livro Amarelo do Terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O Verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o Escavador de Umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

O feijão necessário

Por Vanessa Barbara

Por muito tempo, houve no meu armário um saco de feijão de 1kg, intocável, que só podia ser devidamente cozido quando o responsável se comprometesse a substituí-lo por um de igual tamanho e conteúdo. De preferência, antes do dito cozimento.

Vejam: eu gosto de feijão. E a recíproca é verdadeira. Mas preciso do feijão ensacado (e portanto não comido) para poder ler meus livros, sobretudo os mais extensos e difíceis de manejar — dia desses, descobri que o saco de tal leguminosa é o melhor suporte de livro aberto que se pode ter em casa. Por exemplo: gosto de ler durante as refeições. Mas é preciso ter as duas mãos livres para o garfo e a faca, ou mesmo para segurar o pão e se sujar de manteiga, e nada disso é possível quando se decide ler a biografia do Hitler recém-lançada pela Companhia das Letras (Ian Kershaw, 1060 pp.), que não fica aberta sozinha nem se você ficar incansavelmente soprando a folha de seu interesse. Ou ligar um ventilador cenográfico.

A questão toda é manter o livro aberto enquanto se manuseia outra coisa, e isso só é possível obter no caso daqueles livros dos anos 70, amarelados e mal costurados, que se pode inclusive levar na bolsa em fascículos e escancará-los a cada página virada — embora nunca mais voltem ao normal por si mesmos.

Pois bem: aos que ainda não sabem, o feijão é uma vagem das mais literárias. Arranjados confortavelmente dentro da embalagem fechada, seus grãos se prestam à moldagem generosa sobre o manuscrito, sem serem lenientes às páginas — quando ainda estamos iniciando uma leitura, convém transferir a maior parte dos grãos para a metade direita do volume, ainda inédita, mantendo um aglomerado modesto sobre as páginas recém lidas, suficiente apenas para não fechar o livro. E vice-versa. Os feijões ganham o direito de se espalhar de maneira uniforme quando chegamos ao miolo da trama, como na foto acima, na qual utilizei um pujante exemplar da marca Kicaldo.

Já tentei sacos de arroz (material pouco robusto), café (inútil), vasos (nada moldáveis), pesos de porta (alguns são bons), a quina do próprio prato (não serve para livros grandes e só funciona mediante o peso da comida) e o meu próprio cotovelo, o que evidentemente gerou uma série de acidentes envolvendo molho de tomate e gordura.

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Um dilema parecido pode acometer aqueles que leem com calma, sentados ou deitados, e decidem reservar um momento exclusivo só para a apreciação do volume impresso. É tão difícil quanto. Primeiro: ler deitado é aviltante à coluna cervical (e lombar), não bastando trocar de lado a cada dez minutos ou tentar se concentrar só nas páginas ímpares (quando se deita sobre o lado esquerdo), ou sustentar os braços com o livro acima da cabeça, ou botar um apoio para erguer levemente o tronco, ou ler de barriga pra baixo com uma almofada no queixo.

Já pensei em confeccionar um dispositivo transparente que servisse como capacete de sustentação de livros abertos a uma distância média de 20 centímetros, com um clipe móvel, talvez de aço inox, talvez de plástico, permitindo ao leitor deitar, levantar e andar, sem perder o fio da meada. Seria um andaime móvel de leitura (a sigla, AMOLE, traria embutida a mensagem de não perturbar o usuário).

Em geral, ler sentado também pode ser sinônimo de cervicalgia, dependendo da altura da mesa, do design da cadeira e do grau de proficiência ocular do leitor. É preciso ter coragem e um bom alongamento prévio. Lembrando sempre que cochilar durante o ato numa poltrona macia demais é o mesmo que ir de encontro a um poste numa corrida de patins — ou seja, meses de fisioterapia, torcicolo e Salompas.

Há também a opção menos mambembe de adquirir um leitoril — em madeira ou plástico translúcido, pronto ou feito sob medida, é um objeto que dá suporte vertical ao livro aberto e prende suas páginas no lugar. É ótimo para tradutores, copistas e usuários de colar cervical que só podem olhar para a frente. Um exemplo intrincado de leitoril lusitano pode ser visto neste link. Tal objeto também pode ser chamado de “atril”, embora esse termo seja mais específico para um móvel do tipo púlpito onde se pode ler de pé, como nas igrejas.

Outra opção para evitar o lumbago é trazer sempre consigo os livros de cor, sobretudo os poemas, de modo que podem furar nossos olhos e nos condenar à eterna fisioterapia que continuaremos relendo. Fica uma sugestão:

When you are old and grey and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;

How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim Soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;

And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face amid a crowd of stars.

*[Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;

Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;

Inclinada sobre o ferro incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.]

W. B. Yeats, tradução de José Agostinho Baptista

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Vanessa Barbara tem 28 anos, é jornalista e escritora. Publicou O Livro Amarelo do Terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O Verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o Escavador de Umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

A questão das estantes

Por Vanessa Barbara

Sem querer desmerecer assuntos de interesse mais amplo, como o aquecimento global, a expansão inevitável do Universo, o fato de nascermos e morrermos sozinhos e a falta generalizada de sentido na vida, há que se refletir sobre um problema pouco discutido que atinge dez entre dez leitores destituídos do sobrenome Mindlin: a questão das estantes. É certo que o tópico perdeu parte de sua relevância com a popularização dos tablets,* mas não se pode negar que a falta de espaço para os livros continua a aterrorizar os patrícios, moradores de apartamentos com apenas dois dígitos de metros quadrados, e por vezes nem tão quadrados assim — há quinas arredondadas que prejudicam ainda mais a catalogação e organização dos itens domésticos.

É algo que ninguém leva em consideração ao desposar um editor da Companhia das Letras, mas que devia constar do contrato pré-nupcial: como conciliar duas bibliotecas ambiciosas e prever um espaço extra para acomodar cerca de 25 lançamentos por mês, sendo que só em abril tivemos uma biografia do Borges com 672 páginas, um romance de Martin Amis com 528, um estudo sobre Rousseau de 600 e uma brochura sobre matemática de três centímetros de espessura, num total inacreditável de 7.628 páginas impressas. Em termos de espaço, são mais de 45 centímetros a serem liberados nas prateleiras. Isso sem contar as coletâneas do Don Martin e do Sherlock Holmes que chegam pelo correio, como se fôssemos um casal de latifundiários das estantes, sócios acionistas da Tok&Stok, zeladores da Biblioteca Nacional.

Diante desse impasse imemorial, muita gente cai em desespero e toma medidas drásticas. O casal de tradutores-professores Caetano Galindo e Sandra Stroparo deixou de ler o romance 2666, de Roberto Bolaño, simplesmente porque não cabia dentro da casa. Embora eles tenham recorrido a novas prateleiras instaladas no quarto de dormir, bem em cima da cama, ela admite que o esquema não vai durar muito: “Há duas semanas comprei o livro do Huizinga. Veja só. Eu não presto mesmo.”

O também tradutor Alexandre Barbosa de Souza é outra vítima do excesso de livros numa escassez de paredes. Após render-se à incômoda lógica da fila dupla — e até tripla, relegando a maioria dos livros ao ostracismo tátil e visual —, ele encontrou um jeito de se ater à fila única. Decidiu fixar um número médio entre 1.500 e 2 mil volumes (já chegou a ter 4 mil), que mantém através de um espartano sistema de “entra um e sai outro”. Por exemplo: um lançamento do Gay Talese só encontraria lugar na biblioteca se um Lehane ou um Nabokov saísse. “Mas há critérios”, ele expõe, gravemente. “Uma Aguilar ou Pléiade, por exemplo, exclui os volumes avulsos do autor; em suma, uma edição mais completa substitui uma mais singela. Mas, claro, tenho coisas que nunca sairão em novas edições e a maioria dos meus livros vem de sebo mesmo.”

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Talvez com a maturidade venha a coragem de adotar o sistema de exclusão, mas por enquanto o que vigora aqui em casa é o Deus-nos-acuda. Toda vez que chega uma leva de lançamentos — as caixas heroicamente trazidas com a ajuda de gente de fibra como o Arthur, do atendimento ao professor —, há uma operação de estica-e-empurra que demora alguns dias.

Depois de muita deliberação, decidimos adotar um sistema peculiar e duvidoso. Aproveitamos as estantes de ferro que já ocupavam as paredes do escritório para eleger nelas a chamada “Estante A”, só com títulos de autores de estirpe, as obras de que mais gostamos ou que, por algum motivo, consultamos e relemos com mais frequência. Ali se encontra a seção Marx (Groucho e Karl), os ficcionistas de nossa predileção e os dicionários.

Junto ao teto do escritório, nosso intrépido marceneiro Ulisses (não estou inventando) instalou duas compridas prateleiras que dão toda a volta no aposento, tornando viável o sonho da “Estante B”. Nela armazenamos os autores raramente lidos, os livros de que menos gostamos ou que consultamos só de vez em quando. Embora o critério pareça definitivo, é passível de discussões. Não raro, rotulamos uma obra por pura birra e despeito — por exemplo, Saramago um dia foi parar na Estante B. Não que desgostemos de sua escrita, muito pelo contrário — mas é que, na hora da arrumação, julgamos que ele já estava acostumado com honrarias e que sua presença na Estante A poderia torná-lo arrogante. Autores temporariamente de castigo também vão para a estante B, a fim de refletir sobre o que andam fazendo e talvez mudar os rumos de sua produção artística.

Ambas as estantes seguem uma rigorosa, porém sofrida, ordem alfabética por sobrenome do autor, e quando digo “sofrida”, refiro-me à fileira que compreende Schnitzler, Schneiderman, Schwarcz, Schwarz. Outra dificuldade envolve os livros meramente afetivos, como o infantil Tungo-Tungo, consagrado na letra T, entre Tucídides e Turguêniev. E o que dizer de Mario Vargas Llosa? No V ou no L?

Nos últimos tempos, tivemos que retirar os livros de arte das estantes oficiais e encaixotá-los no quarto dos fundos, diante da crise doméstica do fim de ano, quando os editores tradicionalmente fazem uma limpeza de suas mesas e trazem todo tipo de papel para casa. Há que se mencionar que temos uma estante na sala só de quadrinhos, que também já sofreu reveses com a superpopulação.

Isso traz graves implicações no mundo literário. Sinto informá-los, por exemplo, que não temos mais espaço para autores com o sobrenome iniciado pela letra C. É lamentável, mas recomendamos ao sr. Coetzee que mude de nome, adote um pseudônimo diferente de Costello ou desista da literatura. João Paulo Cuenca e André Czarnobai já foram informados. Assim como o dono da casa, que se viu repentinamente impedido de publicar um romance. Na letra C não cabe nem mais um haicai.

Por outro lado, o sobrenome S ainda tem vagas, sobretudo pelo downgrade do Saramago. E atenção, jovens romancistas: ainda não ocupamos a cozinha e a geladeira. Há esperanças.

*Uma ressalva deve ser feita com relação ao menino que tentou imprimir toda a internet — Cody Darnell, de 9 anos, apostou 50 dólares com o primo, dizendo que conseguiria imprimir todo o conteúdo da Rede Mundial de Computadores. Estamos com você, Cody.

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Vanessa Barbara tem 28 anos, é jornalista e escritora, casada com o editor André Conti. Publicou O Livro Amarelo do Terminal (Cosac Naify, 2008, Prêmio Jabuti de Reportagem), O Verão do Chibo (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil Endrigo, o Escavador de Umbigo (Ed. 34, 2011). É tradutora e preparadora da Companhia das Letras, cronista da Folha de S.Paulo e colaboradora da revista piauí. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

O preparador, esse desconhecido

Por Vanessa Barbara

Se houvesse bom-senso no mundo, “preparador de texto” seria uma afecção mental categorizada pelo CID-10 (Classificação Internacional de Doenças e de Problemas Relacionados a Saúde, Décima Revisão).

Nas editoras, o preparador é aquela pobre alma responsável pela primeira revisão de um livro, ainda no arquivo de Word. É a mais trabalhosa, que busca limpar o texto, corrigi-lo e aperfeiçoá-lo. O trabalho de preparação consiste em adequar o original às normas editoriais, seguindo um gigantesco manual de padronização que dispõe sobre citações, versaletes, colocação pronominal, pontuação, galicismos, siglas, topônimos estrangeiros e coisas como o singular de “gnocchi”, que é “gnocco” e não pode ser aportuguesado para “inhoco”.

Trata-se de uma leitura atenta, escorada por vasto material de apoio e dicionários vernáculos. Inúmeros detalhes devem ser considerados — itens como sintaxe, coerência, ortografia, ambiguidade, repetição desnecessária, vícios de linguagem, ecos de língua estrangeira, falsos cognatos, ritmos frasais e outras questões de cunho literário. O texto deve fluir bem, sem engasgos.

É obrigação do preparador formatar o arquivo original e bater todos os parágrafos (verificando se o tradutor não pulou nenhum trecho). Essa é uma tarefa particularmente apreciada pelos mais neuróticos, que ajeitam quebras de página e formatam títulos com o entusiasmo de quem toma Berlim.

Um bom preparador é caso psiquiátrico. Convém que ele sofra de um leve transtorno obsessivo-compulsivo e seja persistente, perfeccionista e incansável. É preciso gostar de pesquisar minúcias como a composição química do tricofitobezoar, interessar-se por dispositivos bélicos da Segunda Guerra, especializar-se em generais bizantinos, possuir um dicionário de gírias de milicos e ler tudo sobre a moda seiscentista só para checar se a infanta Margarida usava calcinhas de elástico.

O preparador de originais é um xiita vocabular. Em Ser feliz, de Will Ferguson, há uma frase que resume a categoria: “O preparador de texto enlouqueceu”, exclama May. A personagem é editora de livros e até entende que o preparador é pago para ser minucioso, conferir gramática, pontuação e uso do idioma. “Mas esse sujeito passou das medidas. Passou mesmo. Ele assinalou a frase ‘manuscrito escrito à mão’, disse que era redundância, que a raiz em latim é manus, que significa ‘mão’.”

Tem todo o meu apoio.

O preparador é aquele sujeito que chega a sacrificar uma lagartixa só para ver se ela escorre pela parede ou desaba de uma vez no chão. Minha mãe quase chegou a esse ponto — sim, pois a preparação é um ofício que passa de geração em geração, só que ao contrário. Minha avó será a próxima.

Tem alma de preparador aquele que desconfia de tudo e se gaba publicamente ao encontrar algum erro gritante no original, como passagens bíblicas equivocadas num livro sobre São Francisco de Assis ou um tradutor que topou com a expressão “coolie-hating” e, distraído, salpicou um desvairado “ódio aos cães da raça collie”.

Corre a lenda sobre um profissional que achou uma incongruência no enredo de A invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares. Desde já, um mito entre seus pares.

Quando o distinto Paulo Werneck (ex-editor da Companhia e hoje no caderno Ilustríssima, da Folha de S.Paulo) me convidou para trabalhar para a editora, resgatando-me de um deprimente cargo de revisora num site de fofocas, ele revelou a principal qualidade do preparador: a desconfiança. Duvidar de tudo, até da grafia de Shakespeare, Tolstói e Getulio Vargas. (Sobre essa última, a lendária preparadora Márcia Copola deu a palavra final: após pesquisar documentos da época, viu que o Pai dos Pobres não acentuava o nome ao assinar, e assim ficou estabelecido).

Em termos de mania, a inverossimilhança e a impossibilidade física fazem salivar qualquer preparador. Uma frase pronta para a intervenção: “Com os cotovelos apoiados no ombro, ele se sentou correndo sobre a panturrilha esquerda, movendo o cenho na direção oposta”. (A não ser que o livro tenha motivos circenses. Nesse caso, convém ter à mão o telefone do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Picadeiro para esclarecer eventuais dúvidas.)

Como último e derradeiro sintoma da moléstia, o preparador de texto deve sofrer de dupla personalidade, pois precisa se mostrar respeitoso e arrogante a um só tempo. Respeitoso com o estilo do autor e com as soluções do tradutor, mas arrogante o suficiente para passar a tesoura e reformular os trechos que julgue necessário.

Um bom preparador se constrói com muito tempo, experiência e calmantes. Embora eu já demonstrasse pendor para a atividade em meus tempos de revisora de fofocas — títulos de minha lavra: “Gatuno rouba peruca de Jennifer Lopez” e “Julio Iglesias tira o sapato em cadeia nacional” —, minha consagração na área de copy-editing veio mesmo na Companhia das Letras, onde exasperei editores com meus comentários longos, engraçadinhos e desnecessários, e causei poderosas enxaquecas em tradutores renomados com minhas dúvidas e anseios estilísticos.

Nas palavras de FERGUSON 2002, pp. 71-2: “Preparadores de texto, ah! Todos malucos. Malucos, estou te dizendo!”.

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Vanessa Barbara é jornalista e tradutora. Entre as suas preparações mais ilustres, destacam-se Os dentes falsos de George Washington (Robert Darnton), Anos do Condor (John Dinges), Nova York (Will Eisner), 71 contos (Primo Levi), Quebrando a banca (Ben Mezrich) e Histórias extraordinárias (Poe), além de livros de autores como Moacyr Scliar, Zé Miguel Wisnik e Shakespeare.

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