Da casa

Quem é quem na Companhia das Letras

Nome: Edely Mitestaines

Há quanto tempo trabalha na editora? Em março completei 21 anos.

Função: Sou vendedora da Companhia das Letras. Atendo as principais livrarias do mercado editorial, apresento os lançamentos, sugiro reposições, controlo o envio e o faturamento das consignações.

Um livro: A elegância do ouriço, de Muriel Barbery.

Uma história que você se lembre da editora: Em uma das visitas de José Saramago ao Brasil, por volta de 1997, o Luiz levou-o até o departamento comercial e apresentou a equipe de vendas. Ele me disse: “Minha filha, faça o possível para vender o meu livro, porque eu fiz o impossível para escrevê-lo”. Frase de efeito? Talvez… Mas, a partir daquele dia, dei maior importância a minha profissão. Mesmo o Maior Escritor conta com o vendedor de livros para ajudá-lo a vender seu melhor livro. Estou “me sentindo” até hoje…

Minhas memórias sobre “Memória da pedra”

Por Mariana Mendes

Oh... my God ...!!!             ...........DSCF4995110507

Li Memória da pedra no carnaval, antes de ser publicado, por causa da Vanessa Ferrari, amiga e editora da Companhia. Ela estava com o primeiro romance do carioca Mauricio Lyrio impresso em word e veio me perguntar, na surdina, se eu não queria ler. Na verdade não foi tão na surdina assim. Em geral, tenho acesso aos livros da editora e acho que eles são muito bem compartilhados internamente por seus editores. Ela veio com charme e sedução, que é o modo preferido dos editores quando querem a minha opinião para pensar estratégias de divulgação do livro para o seu potencial leitor. Perguntei quem era o escritor, como o livro tinha chegado. Quis saber para estar em pé de igualdade de informações com ela, a editora. Quem trabalha no meio editorial sabe que às vezes informações prévias pesam, às vezes, não. A única certeza é que não existe ciência exata em se tratando de livros.

Sempre que na editora me pedem para ler algo, sei o que está em jogo. Em um primeiro momento, é a minha experiência de quinze anos trabalhando no departamento de educação e na divulgação dos livros entre professores. É claro que o meu olhar é para tentar extrair eventuais potencialidades da obra para este público. E ter acesso ao livro antes é o pulo do gato. Combinei com a Van que faria meus comentários na quarta-feira de cinzas. Ela me avisou que no dia seguinte o Mauricio estaria na editora.

Quando li, veio a paixão. Minha expectativa para o carnaval era alta, tinha a ambição de ler cinco livros. Não deu. Enquanto lia não parei de dizer, à minha volta, que estava impressionada, como eu estava gostando do romance, que não larguei até chegar ao fim. Sabe quando você termina um livro e precisa dar um tempo antes de pensar no próximo? É um misto de não ter disposição para mais nada com querer ficar revivendo a história. Li de domingo para segunda, com paradas necessárias para respirar e me situar, recobrar o fôlego. Com ritmo ágil, múltiplas tramas que se sustentam sem depender de explicações a todo o momento, personagens intensas.

O livro conta a história de Eduardo, professor de filosofia de universidade pública no Rio. Quando sai para dar aula fica observando no caminho uma turma de meninos pedindo dinheiro na rua. De digressão em digressão a respeito do seu passado, vai sendo levado a investigar se a morte de seu pai teria sido realmente acidental. O leitor é seduzido desde as primeiras páginas e a vontade é seguir em frente, de preferência correndo. Ao terminar, a sensação nebulosa de não saber se o que havia passado por mim era um filme, ou um livro. E as imagens do Rio de Janeiro como coadjuvante foram inspiradoras. Eu e o Luiz, aliás, elegemos uma preferida (leia o trecho abaixo). Na quarta-feira de cinzas a notícia de que eu tinha amado o livro se espalhou pela editora. Mentira, não foi assim tão rápido. Contei pra Van da minha empolgação com o livro e até me esqueci de dizer sobre a questão das adoções. “É um p… livro!”. Quando o Mauricio apareceu no dia seguinte conversamos um pouco. Pude dizer o quanto tinha gostado e que, com relação aos professores, era uma questão menor, o livro estaria aí para quem quisesse se aventurar.

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Trecho que começa na página 80:

Ao longo da subida, Eduardo e Laura pararam algumas vezes para olhar para trás. Viam o automóvel desaparecer na distância, o ponto de luz da carrocinha como referência do começo. Era preciso adaptar o passo aos degraus curtos, um degrau por vez parecia pouco, dois, um pouco demais. A escada fora projetada para os corpos menores de um século anterior, para penitentes que se dobravam com os olhos na pedra. A meio caminho, chegaram a um platô, uma espécie de mirante, que se abria para um pátio, um pequeno coreto, outra igreja. Começavam a avistar a cidade, as luzes que se estendiam sem limites em direção ao norte e só se interrompiam à direita, com as águas da Baía de Guanabara. Retomaram a subida, aproximaram-se da senhora que avançava de joelhos, coberta de branco, com seus movimentos lentos e regulares. A vela na mão iluminava a pedra manchada de antigos círculos de cera. Na outra mão, carregava um terço. Tinha o contentamento dos que pagam e a fadiga nas linhas grossas do rosto. Cumprimentaram-na discretamente.

Flutuando no alto, iluminada nos contornos, nas linhas de portas e janelas, a igreja parecia um barco em romaria, desenhado por uma criança de bom humor. A fachada de trás, onde terminava a escada, tinha o aspecto de uma prefeitura de vilarejo, com sua simetria simples, de formas regulares. As pirâmides magras dos campanários da frente, que já se avistavam da escada, eram apêndices externos, uma ideia tardia. A lateral extensa, elegante com suas janelas e arcos, era baixa para a fachada principal, como um edifício de dimensões próprias, projetado por outro arquiteto, mais sóbrio. Romário e Gilberto esperavam sentados no último degrau da escadaria, com um ar de cobrança.

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Mariana Mendes é formada em Letras e trabalha no departamento de educação da Companhia das Letras desde 1998.

Quem é quem na Companhia das Letras

Nome: Flávio Moura

Há quanto tempo trabalha na editora? Dez meses.

Função: Somos vários editores e procuramos participar de todas as etapas de produção dos livros que nos são designados ou que sugerimos e conseguimos aprovar junto à direção — da leitura dos originais à oferta de direitos, do fechamento de texto ao projeto gráfico, da divulgação para imprensa aos eventos e marketing nas livrarias. Há profissionais responsáveis por essas áreas na editora, mas cabe ao editor, além de responder pelo texto final, acompanhar o processo em diálogo com cada uma das equipes, sob a supervisão do publisher e da direção editorial.

Um livro: Vida e época de Michael K, de J.M. Coetzee.

Uma citação ou passagem de livro: “Como toda manhã, em 3 de fevereiro de 1933 o general deixou seus aposentos na ala leste do Bendlerblock pontualmente às sete horas. Não tinha que andar muito até o gabinete, que ficava no andar de baixo. Ali, naquela mesma noite, deveria sentar-se para conversar com um certo Adolf Hitler.” — Hammerstein ou A obstinação: uma história alemã, de Hans Magnus Enzesberger (2009)

Sua parte favorita do trabalho: A leitura diária de textos de qualidade e de todos os tipos, ficção e não ficção, ciências humanas, jornalismo, poesia. A quantidade de informação nova que é preciso processar e atualizar. A agilidade com que as questões são resolvidas por todas as equipes. O diálogo com agentes literários, daqui e de fora. Os projetos em parceria com a Penguin americana e inglesa. O convívio com autores e colegas com quem se pode aprender. A possibilidade de contribuir para a melhoria dos livros. O espaço para pensar projetos novos.

Algumas ideias acerca da minha literatura

Por Agustín Fernández Mallo (Tradução de Eduardo Brandão)

A informação é importante. Hoje, a quantidade de informação emitida pela mídia, bem como sua fragmentação, faz com que o tempo para assimilar essa informação tenda ao infinito. Durante séculos, as ciências e as humanidades estudaram as coisas separadamente, agora se trata é de enxergar as relações que há entre elas e, para tanto, nos valemos de modelos de rede. Ciências e humanidades são a mesma coisa. Acaso a ciência não é feita pelos humanos? E acaso nas humanidades também não há pesquisa científica? Os modelos de rede, os Sistemas Complexos, incluem tanto as ciências como as humanidades, misturam-nas, colocam-nas em diálogo.

Uma coisa que creio caracterizar minha narrativa — Nocilla dream, Nocila experience, Nocilla lab, El hacedor (de Borges) remake, etc. — e minha poesia é a transversalidade do contemporâneo. Isto é, meus romances e poemas formam uma rede horizontal em que tanto a literatura clássica quanto os quadrinhos, o cinema, a música pop, um teorema científico ou um spot publicitário entram no texto no mesmo nível, sem hierarquias externas. Mas esses ingredientes entram de maneira real, quer dizer, não como simples referências ou pinceladas, mas como nós ativos e constitutivos da obra. Por exemplo, se creio que dentro de um romance é pertinente uma conexão metafórica entre um determinado spot publicitário e uma peça de J.S. Bach, estabeleço essa conexão sem nenhum preconceito acadêmico. Guio-me somente por critérios estéticos, poéticos, não por preconceitos de alta/baixa cultura. Essa maneira de conectar as coisas dentro dos romances corresponde a um modelo de rede, modelo pelo qual se organiza hoje em dia a sociedade. São os Sistemas Complexos. Acreditávamos que só a entropia podia levar à morte térmica do Universo, mas hoje em dia se sabe que ela também é condição indispensável do oposto: para que surja vida em zonas de fronteira, em lugares em que vários componentes distantes entram em contato. E é isso que, espontaneamente, creio que faço com minha literatura: pôr em contato zonas aparentemente muito distantes (ciências, publicidade, literatura, economia, música etc.) para criar uma literatura complexa. Mas isso ocorre de maneira espontânea, não é pensado nem calculado de antemão, simplesmente é a maneira como minha cabeça organiza o mundo. Na verdade, meus romances são complexos mas não complicados, ou seja, não maltratam o leitor. Explico-me: é complexo, por exemplo, um organismo, que é simples depois que você entende; ou uma equação matemática. Ao contrário, são complicados objetos ou romances desnecessariamente arrevesados e cuja leitura atenta não resulta numa maior compreensão da obra. Disso — creia-me — há que fugir como do demônio.

Às vezes dizem que minha literatura, tanto no romance como na poesia, é experimental, mas, em minha opinião, é exatamente o contrário: é realista. O verdadeiramente experimental hoje em dia seria fazer romances à maneira do romance oitocentista, já que ninguém pensa nem vive nem fala, hoje, dessa maneira. Também é verdade que só procurando no passado se pode entender o presente para lançá-lo em direção ao futuro. Reconheço em minhas influências autores como Jorge Luis Borges, Italo Calvino, Don DeLillo, David Foster Wallace, Giorgio Manganelli, Julio Cortázar e Juan Benet, entre muitos outros. Na literatura de todos eles percebo uma pesquisa poética do mundo ao mesmo tempo que um grande humor.

Quanto ao humor, poderíamos dizer que hoje em dia já descremos de qualquer discurso que não contenha uma paródia ou uma caricatura de si mesmo, porque faz tempo que não cremos em conceitos absolutos.

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Agustín Fernández Mallo nasceu em 1967 na Corunha, Espanha. Formado em física, publicou diversos livros de poesia, buscando estabelecer um diálogo entre arte e ciência e cunhando a expressão “Poesia pós-poética”. Nocilla Dream é sua primeira obra de ficção.

Quem é quem na Companhia das Letras

Nome: Camila Nishiyama

Há quanto tempo trabalha na editora? 11 meses

Função: Sou assistente de produção de livros infantis e quadrinhos, e trabalho junto com a Helen, a Geane, a Halinni e a Leika. Ajudo na administração e organização da produção dos livros, programo e confiro os prazos, entro em contato com ilustradores e autores, verifico arquivos, provas de cores, até a entrega dos arquivos para gráfica.

Um livro: Monstros! (Gustavo Duarte), Retalhos e Habibi (Craig Thompson) e coleção do Scott Pilgrim (Bryan Lee O’Malley).

Sua parte favorita do trabalho: Minha parte favorita é acompanhar o processo de criação das ilustrações, desde os rascunhos até a arte final.