Da casa

Indicações de fim de ano (1ª parte)

Final de ano é época tanto de escolher presentes para os amigos e a família quanto de escolher suas leituras de férias. Pensando nisso, pedimos para os funcionários da editora sugerirem alguns títulos para os nossos leitores aqui do blog.

Nessa primeira parte, você conhece os livros indicados pelo departamento editorial:

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O quarto volume das Histórias à Brasileira, A donzela guerreira e outras, de Ana Maria Machado: dez histórias do folclore narradas com aquele toque caloroso da oralidade.
Passageiro do fim do dia, de Rubens Figueiredo: uma viagem de ônibus, do centro à periferia, em uma narrativa precisa e atenta às nossas contradições cotidianas.
- Ana Maria Alvares, editora assistente

Do fundo do poço se vê a lua e Método prático da guerrilha: dois livros tão diferentes quanto surpreendentes. No primeiro, Egito, mistério, troca de sexo e muitos pacotes de bala Soft. No segundo, os últimos dias de um revolucionário, descritos por um narrador nada confiável.
- André Conti, editor

Indico Não há silêncio que não termine, de Ingrid Betancourt. A autora relata seu sequestro, suas tentativas de fuga, tudo o que passou no cativeiro durante mais de seis anos em poder das Farc.
- Cintia Lublanski, assistente editorial

Todos os homens são mentirosos, de Alberto Manguel — uma bela ficção que trata da ditadura militar argentina e de como podemos nos enganar profundamente sobre as pessoas.
Vergonha, de Salman Rushdie — como diz o próprio autor, é uma espécie de “conto de fadas” sobre um suposto país (Paquistão) onde convivem os sentimentos de muita vergonha e a total falta dela. Os personagens são bem alegóricos, como a mulher que chega a queimar os outros de tanto corar, e o homem obeso e pândego (filho de três mães histéricas), sem o menor escrúpulo. Um dos primeiros livros de Rushdie, é realmente muito bom.
- Julia Bussius, editora assistente

O palhaço é engraçado, o macaco faz macaquice, o passarinho voa — o que deve ser uma delícia —, mas escrever poesia para crianças, isso é com o Eucanaã Ferraz. Indico Palhaço, macaco, passarinho.
Outro livro que acho um presentão é O rei e o mar: 21 mini-histórias sobre um rei que quer fazer valer a própria vontade, até frente à natureza, e só pensa em mandar, mandar e mandar — alguma semelhança com as crianças e seu rei na barriga não é mera coincidência.
- Júlia Moritz Schwarcz, editora

É um livro (Lane Smith): no ano em que só se falou de e-book, uma homenagem aos nossos livrinhos de papel.
Esquimó (Fabrício Corsaletti): o frescor da poesia jovem, permeada de delicadeza e melancolia.
- Lígia Azevedo, editora assistente

O alufá Rufino. Um livro de história com sabor de ficção. Junto com o protagonista entendemos os meandros do comércio negreiro da África ao Brasil e vice-versa.
Recordações do escrivão Isaías Caminha. Romance de estreia do escritor Lima Barreto, a narrativa já traz todos os elementos de uma obra em tudo original: a crítica à ciência e ao jornalismo (considerado por ele o 4º poder da república); a denúncia da política discriminatória; a condenação à modernização artificial; a denúncia da violência urbana e das práticas veladas mas eficazes de racismo, e uma profunda identificação com os despossuídos e com a vida de subúrbio.
- Lilia Moritz Schwarcz, diretora-presidente

Boas pedidas para este Natal são A sociedade da neve, que reúne pela primeira vez os relatos emocionantes dos sobreviventes do famoso desastre aéreo dos Andes, e Uma solidão ruidosa, romance curto e delicioso sobre um operário de uma prensa apaixonado por literatura.
- Lucila Lombardi, editora assistente

Eu recomendo Em outros quartos, outras surpresas, de Daniyal Mueenuddin, um livro de contos singelamente interligados, e Recordações do escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto, um dos meus escritores favoritos, em bonita edição da Penguin-Companhia.
- Luiz Schwarcz, diretor-presidente

Sugiro Nada me faltará, do Lourenço Mutarelli, pela história que inquieta o leitor ao mesmo tempo que oferece o prazer da escrita econômica e absolutamente clara.
E Solar, porque é do Ian McEwan e muito engraçado.
- Márcia Copola, editora de texto

Nada a dizer, de Elvira Vigna: adultério + humor + dor.
Outras cores, de Orhan Pamuk: ensaios sobre literatura e memórias, escritos com sensibilidade e clareza.
- Maria Emília Bender, diretora editorial

Passageiro do fim do dia, de Rubens Figueiredo: um romance primoroso que reafirma o lugar de destaque de Rubens Figueiredo na literatura brasileira contemporânea. O livro narra uma viagem de ônibus repleta de tensão, partindo do centro e chegando à periferia pobre de uma cidade grande.
68 contos de Raymond Carver: Raymond Carver é um dos maiores ficcionistas americanos do século XX. Esta coletânea organizada em ordem cronológica mostra bem sua trajetória como escritor. Carver tinha um visão incrivelmente poética sobre as cidades pequenas dos Estados Unidos e sua população de “caipiras de shopping center”: personagens traumatizados pela exclusão, em luta consigo mesmos, mas de uma generosa humanidade. Nestas histórias, emoções vastas são comprimidas em episódios cotidianos, com naturalidade de tom e irrestrita solidariedade com as fraquezas humanas.
- Marta Garcia, editora

Dois clássicos do jornalismo: Dez dias que abalaram o mundo, de John Reed, que recebeu edição integral e nova tradução, e Esqueleto na lagoa verde, de Antonio Callado, uma das melhores narrativas do jornalismo brasileiro.
- Matinas Suzuki Jr., diretor executivo

Hitler, Ian Kershaw: a vida toda do Monstro, das montanhas bucólicas da Áustria ao colírio de cocaína no bunker, com fineza analítica e fluência literária.
A trilogia autobiográfica (A língua absolvida, O jogo dos olhos, Uma luz em meu ouvido), em edição de bolso, do romancista e ensaísta Elias Cannetti, prêmio Nobel de literatura em 1981: da infância na Bulgária natal aos muitos exílios em terras de língua alemã; a formação da linguagem e das obras-primas de um dos mais lúcidos observadores do poder explosivo das massas.
- Otávio Marques da Costa, editor assistente

Só garotos, de Patti Smith: arte & amor & rock’n'roll pra chacoallhar o coração e espantar a caretice.
Quer saber do que é capaz um escritor munido apenas de diálogos? Nada me faltará, do irreverente Mutarelli — e não falta mesmo.
- Thyago Nogueira, editor

Para leitores bem-humorados, fãs de Marjane Satrapi e mulheres mal-intencionadas, recomendo a leitura de Bordados, um manual prático de como burlar a rigorosa moral da sociedade iraniana. E também, mudando radicalmente de tema, Recordações do escrivão Isaías Caminha. Descobrir Lima Barreto foi muito legal.
- Vanessa Ferrari, editora assistente

Je m’accuse!

Por Caetano Galindo

Oops! - Part II
(Foto por Kyle May)

Thomas Pynchon espaça bem seus lançamentos. Tem levado coisa de sete anos (mas já chegou a dezessete!) para entregar mercadoria nova. Também pudera. Os livros tendem a ser grandes. E complexos. E muito.

Daí a surpresa geral de mercado e leitores quando em agosto de 2009, menos de três anos depois de seu maior romance, o lindo Against the day [Contra o dia], ele solta obra nova. Ainda mais estranho: o tal do livro nem chega às quatrocentas páginas.

Fora isso, muito mais parecia estranho: o ritmo mais acelerado, que quase implora por uma adaptação para cinema (já antevejo os irmãos Coen, até já tenho meu elenco preferido); a retomada de temas e ambientes de Vineland (seu livro mais subestimado… e justo aquele, o dos dezessete anos); a reedição da ideia da cruzada de um homem (ou mulher) sozinho contra as conspirações mais e mais enredantes do “sistema”, que já dava o tom de O leilão do lote 49; a formação, assim, de uma espécie de família dos três menores livros do autor (juntos eles não têm o tamanho de Contra o dia)…

Pynchon light, disseram.

Pode ser. Mas pode ser que não…

Aí, para completar a estranha saga daquele Vício inerente (tinha dito que era esse o nome do livro misterioso?), ele se torna o primeiro Pynchon em muitos anos a não ser traduzido aqui entre nós por Paulo Henriques Britto, que, não é novidade para ninguém, é o tradutor que todo mundo quer ser quando crescer.

Bobeia daqui, vacila de lá: o livro cai na minha mão.

Traduzir Pynchon dá bem mais trabalho do que o normal. Mas, amigo, diverte como poucos outros trabalhos.

De um lado, o famoso autor recluso, inencontrável, com quem você não pode bater tranquilos papos sobre o livro. De outro,

(Bom, parênteses: entre os dois lados vem o mundo aloprado pynchoniano. Onde nosso Dom Quixote — Doc Sportello — se une a Sancho — Sauncho mesmo — para investigar um assassinato que acaba por revelar todo um mundo subterrâneo de dentistas mafiosos (eu sabia!), conspirações cósmicas, Jesus Cristo sobre as ondas, obsessões hippongas com os hábitos de higiene do Pato Donald, luz negra, Charlie Manson, maconha, zumbis, surf music, cassinos, chefões italianos que em seus momentos de maior fúria mandam as mammas ficarem paradas diante dos inimigos, fazendo cara de censura… mas é que isso não tem tanto como o tradutor estragar.)

De outro lado, então, o domínio absoluto da técnica narrativa que o cara sempre demonstrou, e só vem aprimorando; o fato de que vira e mexe alguém começa a cantar, ou a ouvir no rádio as músicas mais doidas, com as rimas mais insanas; a necessidade de não pôr a perder chaves que podem estar escondidas nos menores detalhes; e ainda a presença até numerosa de palavras portuguesas no original!

O fato, afinal, de que traduzir é sempre escrever.

E traduzir Pynchon é escrever Pynchon, é entender e adentrar seu mundo, de um humanismo doloroso, de piração, paranoia, piada, paródia e pungência, tudo, rigorosamente, ao mesmo tempo. E tudo, aqui, movido a canabinol, para dar aquela intensificada.

É entrar um pouco mais fundo do que o leitor comum na cabeça do cara que possivelmente melhor representa a America (sem acento), ou que a representa mais amplamente: ridícula, funda, viciada, poderosa, amedrontada, pateta. E ao mesmo tempo dar um jeito de fazer aquele mundo conversar com o nosso, com o teu.

O Brasilzão já presente naquele restaurante O Cangaceiro em que Doc toma cachaça com um homem morto.

O Brasil que me parece ter tanto que ver, que se ver, no espelho bagunçado de Thomas Pynchon; mas o Brasil em que ele ainda não encontrou a repercussão que merece.

Fui lá e fiz.

O melhor que pude, com mais amor que o normal, porque desejaria que esse livro, apesar de tudo (e dos sapatos imensos que eu estava tendo que temporariamente preencher), chegasse mesmo mais longe.

Porque agora, veja só, eu já não sei.

Aquele Pynchon light, pelo contrário, me parece mais um Pynchon destilado. Onde tudo se acumula em ponto menor.

Exatamente como o nosso Sportello, que é nanico (ele diz que o que lhe falta de altitude ele compensa em atitude). Mas acontece que aí, numa viagem psicotrópica, ele fica “sabendo” que vem de outro mundo, outro tempo, em que a expansão do universo estava apenas começando; logo, aqui na Terra, seu corpo parece mais compactado, mais denso, na verdade. E ele pode se ver como um super-homem de um metro e meio.

A única certeza é que, light ou destilado, sempre acabamos recorrendo a esse imaginário de vício para falar de Pynchon. De um jeito ou de outro, Pynchon cria dependência. Seus leitores tendem a se tornar seguidores apaixonados. E, pelo menos até chegar a minha mão, este livro só podia aliciar mais gente. Mais intensamente até.

Malhei o texto? Tomara que não demais. Tomara que o efeito tenha se mantido.

Aliás, veja lá o título.

Aquele vício nem é em drogas, mas um termo jurídico para uma fragilidade incontornável de certas mercadorias, não coberta em contrato. Você compra dez contêineres de lâmpadas, 113 chegam quebradas; nem reclame, faz parte.

Ao ler um livro traduzido, a metáfora cabe à perfeição. Nem tudo se salva, vício inerente.

Mas e algo se ganha?

Bom… depois você me avisa?

[Assista ao trailer do livro Vício inerente, narrado por Thomas Pynchon.]

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Caetano Waldrigues Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já publicou traduções do romeno e do inglês.

Fotografando pessoas

Por Renato Parada

A ideia que tenho de fotógrafo não é das melhores. Penso em um sujeito desconhecido que chega, com uma câmera na mão, pedindo para o fotografado repetir gestos e expressões, colocando-o muitas vezes em situações ridículas, repetindo tudo, à exaustão, até o sujeito do outro lado da lente ficar cansado e, talvez, se sentindo a maior fraude do mundo.

É o que imagino que as pessoas esperam de mim quando vou fotografá-las. Quando o retrato é de escritores, esse contrangimento antecipado piora um pouco. São pessoas inteligentes, com senso estético apurado,  acostumados e muitas vezes cansados de lidar com a imprensa.

Lembro da última vez que José Saramago veio ao Brasil. A Companhia me contratou para fotografá-lo. Haveria uma rápida e reservada sessão. Apenas eu e outro fotógrafo de uma rede de tevê em que Saramago dava uma entrevista.

Meu colega foi mais rápido e avisou que seria o primeiro. Após os primeiros cliques, ele pediu para um Saramago que acabara de escapar da morte: “Dê um sorriso!”. Recebeu como resposta algo mais ou menos como “Não acho que meu sorriso em fotos transmita algo de sincero”.

Quando chegou minha vez, não troquei nenhuma palavra. Fiz poucos cliques. Ele estava cansado, e rapidamente dei por encerrada a sessão. A foto não ficou tão boa como eu imaginava. Fiquei um pouco decepcionado, me questionando se não deveria ter insistido um pouco mais.

O desafio de fotografar qualquer pessoa é fazê-lo da forma mais rápida possível, sem incomodar muito, e ao mesmo tempo dar significado a um momento com grandes chances de passar despercebido.

O resultado dessa comunicação, que aparentemente acontece de forma precária em contraponto com as infinitas possibilidades da fotografia, é o que tanto me fascina e surpreende durante as sessões.

Uma lembrança marcante é de quando, também para a Companhia, fui fotografar o escritor e historiador da USP Boris Fausto. Boris passava por um momento dificílimo. Acabara de perder sua esposa. Porém, me recebeu de forma excelente. Sua aparência era de uma força enorme.

Mais tarde, me disse que estava difícil disfarçar sua angústia. As fotos foram feitas e tudo ocorreu bem. Pedi algumas variações, porém sem saber na hora o resultado daquilo. Quando fui editar o material, a foto abaixo me chamou a atenção em especial.

Boris Fausto

Não conseguia tirar o olho dela, e na hora não sabia muito por quê. A sensação era de que Boris tinha me dado uma espécie de lembrete de esperança ao mesmo tempo em que vivia um difícil sentimento de perda.

Lembrei dessa e de outras histórias ao selecionar as fotos para minha exposição “12 retratos de escritores”, que faço a convite de Marcelino Freire para a Balada Literária. A exposição acontecerá na Livraria da Vila do dia 19 de novembro a 08 de dezembro. Todos estão convidados.

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Renato Parada é natural de São Joaquim da Barra, interior de São Paulo. Mudou-se para a capital há três anos e desde então vem colaborando com seus retratos para as principais editoras e revistas do país. Veja mais de seu trabalho em www.renatoparada.com.

Compromisso?

Por Mariana Mendes

Foi minha a ideia de lermos O xale, de Cynthia Ozick, no segundo encontro do Clube de Leitura aqui da editora. São encontros mensais que acontecem durante o horário de trabalho, mais conhecido como expediente, nos quais conversamos livremente sobre determinado livro. O clube é uma experiência nova da editora, algo que faz muito sucesso, principalmente nos Estados Unidos, e estamos começando a implementar em algumas capitais brasileiras.

O bom do clube é que não há regra nem autoridade, cada um fala o que quer, desde as impressões mais subjetivas até a opinião sobre a capa do livro. Existe, no máximo, um mediador pra pôr ordem e não deixar que sempre os mesmos falem o tempo todo, mas sua função é ser discreto e interferir apenas se necessário. A ideia do clube soou estranha (pra mim) no início — afinal, é comum querermos resultado, aprendizado, mas em tese o clube não existe para ensinar nada. A ideia é compartilhar, dividir a experiência da leitura. Se isso parece pouco, basta pensar no quanto você lê e no quanto para e comenta (tranquilamente) sobre algo que leu por puro prazer. Culpa da falta de tempo?

No clube compartilhamos nossos pontos de vista. Tudo bem que opinião está fora de moda, principalmente se você não é um formador de. Valorizado hoje em dia é o embasamento, o argumento e a justificativa. Sim, entendo a importância de fundamentarmos o que dizemos, não jogar palavras ao léu, mas não sou contra existirem momentos em que seja permitido falar sem pensar, por intuição, sem medir consequências. O clube não é um espaço sério, que delícia!

E se até agora só falei da experiência agradável que foi a nossa reunião, falta dizer o quanto a escolha desse livro, particularmente, foi feliz. Entre os integrantes do nosso grupo, poucos tinham ouvido falar de Cynthia Ozick. Eu mesma, autora da brilhante ideia, não tinha uma atração especial pela escritora, mas me lembrava de ter ouvido elogios ao livro, ao menos internamente. Essa intuição, algo que nos leva muitas vezes a um livro qualquer e que depois se abre de sentidos pessoais, juntou-se à vontade de ler uma mulher contista, algo não tão frequente em nosso catálogo — e ainda pesou muito o fato de o livro ser curto. Viva a brevidade, tão importante na conciliação das agendas!

Editado pela Companhia em 2006, este livro esbelto, de capa azul, com meras 88 páginas, é um soco na boca do estômago do leitor. São dois contos independentes, “O xale” e “Rosa”, interligados por uma personagem lacônica que vive uma perda irreparável durante o holocausto. Trinta anos depois, na segunda história, acompanhamos essa mulher vagando por Miami em busca da vida que lhe foi arrancada. Publicados separadamente na revista The New Yorker, na década de 80, juntos formam uma peça monumental, pela força com que lançam o leitor para dentro dessa consciência hipnótica e perturbadora.

A sensação de descoberta por termos lido algo raro, um livro acomodado em nosso catálogo sobre o qual pouco se falou, valorizou ainda mais nossa experiência. E assim o clube nos obriga, agradavelmente, a criarmos em nossas agendas mais um compromisso de leitura. Nessa sexta, 19 de novembro, vamos de Infância, do Coetzee.

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Mariana Mendes trabalha na Companhia das Letras desde 1998 e é supervisora de divulgação escolar.

Monteiro Lobato por Lygia Fagundes Telles

Recentemente, o Conselho Nacional de Educação (CNE) recomendou que o clássico As caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, não fosse distribuído pelo governo nas escolas públicas brasileiras*, por suposto conteúdo racista. Lygia Fagundes Telles, indignada com a acusação, mencionou este texto que escreveu sobre o autor que tanto admira. Propus a ela que o publicássemos no blog, o que muito a entusiasmou. Aí vai ele.

— Marta Garcia, editora

* A equipe do Blog da Companhia gostaria de se retratar por essa informação: o Conselho Nacional de Educação, partindo de processo que pedia que As caçadas de Pedrinho deixasse de ser usado nas escolas, optou por exigir que essa obra, e qualquer outra que apresente situações racistas, inclua nota de esclarecimento sobre esse tipo de conteúdo. O parecer completo do CNE pode ser lido aqui.

Gostaríamos de ressaltar, entretanto, que em momento nenhum a editora Marta Garcia ou a escritora Lygia Fagundes Telles fizeram referência a censura ou banimento da obra.

Agradecemos a todos que comentaram e se interessaram pelo texto.

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Lobato com alguns de seus personagens (Caricatura por Belmonte)

Monteiro Lobato

Por Lygia Fagundes Telles

Quando cheguei para a primeira aula na Faculdade de Direito, um colega aproximou-se sacudindo na mão o jornal, “Olha aí, o Monteiro Lobato foi preso por causa da carta que escreveu com aquela denúncia sobre o petróleo, lembra? O Getúlio Vargas aprontando outra vez; ele foi preso por crime de opinião, contrariar o presidente dá cadeia!”.

Enquanto eu lia a notícia, o meu colega esbravejava lembrando da nossa passeata, saímos levando na frente o estandarte do Centro XI de Agosto e a bandeira brasileira, todos na maior ordem e silêncio, quando de repente veio por trás a cavalaria já atirando! Um morto, feridos, presos…

“Ele está no presídio da Avenida Tiradentes. Vou lá fazer minha visita”, avisei guardando os livros e cadernos na sacola que dependurei no ombro.

O colega enfiou o jornal no bolso, “Não vão deixar você entrar, é claro!”. Fui saindo rapidamente, “Não custa tentar”. Ele me acompanhou até o ponto de ônibus, não podia ir porque tinha um exame nessa manhã, “E se deixássemos para depois?”. Despedi-me. “Tem que ser agora”.

Quando desci do ônibus, fiquei na calçada olhando o velho prédio encardido e frio. Subi a escada. Um guarda veio e pediu meus documentos. Entreguei-lhe a minha carteirinha de estudante e disse que viera fazer uma visita de solidariedade ao escritor. O guarda vistoriou a minha sacola, “Nenhuma arma?”. Olhou-me com uma expressão meio divertida e ordenou que o acompanhasse. No longo corredor que me pareceu sombrio ele avisou, a visita teria que ser breve mesmo porque já tinha um visitante lá dentro. Entrei na saleta fria. Uma mesa tosca, algumas cadeiras de palhinha. Em torno da mesa, Monteiro Lobato de sobretudo preto, um longo cachecol de tricô enrolado no pescoço. Sentado ao lado, o visitante de terno e gravata, calvo, os olhos azuis. Monteiro Lobato levantou-se abotoando o sobretudo e veio ao meu encontro com um largo sorriso. Era mais franzino e mais baixo do que eu imaginava. Tinha os cabelos grisalhos bem penteados e o tom da pele era de uma palidez meio esverdinhada, mas os olhos brilhavam joviais sob as grossas sobrancelhas negras. Ofereceu-me a cadeira que estava entre ambos. “Este aqui é um caro editor”, apresentou-o e disse o nome do editor, que não guardei. Sem saber o que dizer, fui logo enumerando os seus livros que já tinha lido e que ocupavam uma prateleira da minha estante, ah! as paixões da minha adolescência! Narizinho Arrebitado, Tia Nastácia, o Jeca Tatu, as memórias daquela boneca de pano, a Emília, o Saci-Pererê

Ele interrompeu-me com um gesto afetuoso, eu sabia que era avesso às homenagens e assim entendi a razão pela qual desviou a conversa, afinal seus personagens não eram culpados pela sua prisão, mas sim as cartas que andou escrevendo, ou melhor, as denúncias que andou fazendo através dessas cartas, porque os livros os governantes não liam mesmo. Deviam ler mas não liam, e daí a ideia das cartas curtas e diretas. “Estou aqui no meio de bandidos, tinha que me calar ao invés de avisar que o petróleo é nosso, a mocinha já entendeu, hein? Sei que é estudante, mas o que está estudando?” Quando contei que estava na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, ele abriu os braços num gesto radiante, “Pois foi lá que eu me formei! Só que na nossa turma não tinha meninas, só marmanjos. Ah! se tivesse aqui um vinho a gente poderia brindar estes doutores! Quer dizer que a mocinha vai advogar?”. Comecei gaguejando, bem, era difícil explicar, era uma estudante pobre, queria me formar para ter um diploma e assim arrumar um bom emprego. Na realidade queria ser escritora, escrever contos, romances…

Monteiro Lobato voltou-se para o editor e tocou-lhe no ombro, “Olha aí a mocinha é vidente! Já está sabendo que escrever neste país não dá dinheiro, escritor morre pobre e ignorado. Então ela é uma vidente!” disse e tirou do bolso do sobretudo um pequeno bloco e uma caneta, “Vamos, deixe o seu nome e endereço, o meu amigo aqui vai lhe enviar algumas reedições dos meus livros, vamos, diga logo antes que o carcereiro apareça”.

Ele debruçou-se na mesa para escrever e quando lhe disse o meu primeiro nome ele perguntou, “É com y, não?”. Contei-lhe que escrevia com i porque assim achava mais fácil, mas minha mãe queria que eu escrevesse meu nome com y… Ele me olhou com severidade, “A sua mãe está certa, mocinha! Você acha mais fácil com i, mas desconfie sempre das facilidades, escrevendo com y o nome fica com duas pernas porque ali está o g, melhor para as andanças essas duas pernas, está me compreendendo? As facilidades são sempre sedutoras, mas superficiais, indague a origem do nome e veja se lá longe ele aparece com y”.

Chegou o carcereiro, que ficou em silêncio, rodando na mão a maçaneta da porta. Monteiro Lobato passou para o amigo a folha do bloco, levantou-se e me abraçou. Dirigiu-se ao carcereiro: “A doutora vai sair na frente, peço mais cinco minutos para tratar aqui com o amigo de um assunto urgente, é possível?”.

Fui na direção do carcereiro e saí sem olhar para trás.

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O apartamento onde eu morava com minha mãe era pequeno, e ainda assim ela resolveu convidar alguns colegas e amigos para um vermute, era o meu aniversário. Saiu para comprar pão e presunto para o sanduíche e quando voltou veio anunciar toda satisfeita que tinha encontrado ali na Rua 7 de Abril um escritor importante, o nome? Ah! não podia dizer, era uma surpresa, ele ficou de aparecer. Estava anoitecendo quando a campainha tocou. Abri a porta e ali estava Monteiro Lobato com um ramo de flores: “Vim pagar a visita que a mocinha me fez lá no presídio”.

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Lygia Fagundes Telles nasceu e vive em São Paulo. Considerada pela crítica uma das mais importantes escritoras brasileiras, publicou ainda na adolescência o seu primeiro livro de contos, Porão e sobrado (1938). Estudou direito e educação física antes de se dedicar exclusivamente à literatura. Foi eleita para a Academia Brasileira de Letras em 1985 e em 2005 recebeu o Prêmio Camões, o mais importante da literatura de língua portuguesa.