Design

Uma oferenda para o menino Tochtli

Por Elisa von Randow

Muitas vezes me perguntam de onde vem a inspiração para fazer as capas de livros. Gosto de dizer que vem do próprio livro, ou seja, do estilo da escrita, da história, das emoções que vão aparecendo ao longo da leitura, dos personagens… Sempre achei que ler o livro já é meio caminho andado para desenhar uma boa capa. Mas às vezes a ideia surge durante uma conversa, um filme ou até mesmo um jantar, como foi neste caso que vou contar.

No dia 31 do último outubro, fui convidada para um jantar especial para comemorar o Día de Muertos, uma das principais celebrações na cultura mexicana. Num cantinho escondido de Pinheiros, um portão insuspeito se tornou uma verdadeira passagem mágica para o México! A sala da residência, transformada em restaurante, vibrava à luz de velas e bandeiras coloridas. O cheiro de pozole prometia um jantar picante e diferente.

Mal nos acomodamos e as tequilas mais deliciosas começaram a circular. O anfitrião de mãos tatuadas com caveiras ia nos contando sobre a origem pré-hispânica da tradição, enquanto os poderes do mezcal começavam a fazer efeito. Bem ao lado da nossa mesa, havia um grande altar, repleto de oferendas e fotografias dos verdadeiros convidados da festa: amigos e parentes, habitantes do mundo das almas.
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Passei boa parte da noite hipnotizada por este altar. Para começar, era impossível registrar num só olhar tudo o que ali estava exposto: frutas, doces, flores, tecidos, objetos, velas, caveiras de açúcar, fitas, bandeiras, objetos sobrepostos e organizados de forma harmoniosa e rica. Dentre as coisas que mais me cativaram estavam as bandeirolas coloridas, feitas de papel de seda, recortadas com delicadeza e maestria.
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À meia noite em ponto as velas do altar foram acesas e o galante Don Felipe seguia explicando que aquela noite era dedicada especialmente aos niños muertos. Já bastante impressionada com tudo aquilo, imaginava a sala recebendo a visita de crianças do além, enquanto eu mastigava o meu Pan de Muerto com chocolate mexicano quente…

Muito bem. Dias depois, comecei a ler o original de um novo livro, para o qual deveria fazer a capa: Festa no covil. Já na primeira página, o pequeno Tochtli me tomou a mão e me carregou para um mundo que não era bem o dos mortos, mas era tão impressionante quanto. Parecia que uma pequena fresta daquele altar mexicano havia ficado aberta para o universo sinistro e delirante da criança fantasma.

Mãos na massa, voltei mentalmente àquele jantar, às cores, às caveiras e comecei a desenhar. Queria fazer uma oferenda a Tochtli. A bandeirinha começou a se formar com o nome do autor, as velas, o título em letras bem desenhadas, flores, fitas, duas pombinhas, corações…. mas ainda faltava alguma coisa… sim, claro! os hipopótamos anões da Libéria que o garoto genial e mimado tanto queria!

Na produção, decidimos usar cores puras e bem vibrantes. Queríamos que a capa refletisse a acidez do humor de Tochtli. Um verniz fosco sobre o desenho se encarregaria de criar o volume, como se fosse realmente uma folha de seda pousada sobre a capa.

E assim, com uma certa ajuda das almas do outro mundo (e um pouco de tequila), nasceu mais uma capa!

[Festa no covil chega às livrarias hoje. Leia o post do autor, Juan Pablo Villalobos.]

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Elisa von Randow é designer (sua babysitter era uma bibliotecária). http://www.elisavonrandow.com/

25 anos em busca de qualidade

Por Elisa Braga

Muitas vezes vejo pessoas admiradas com a grande quantidade de profissionais envolvidos no processo de produção de um livro. Realmente é muita gente, são funcionários, colaboradores, parceiros, que precisam fazer bem a sua parte para o processo seguir adiante.

Em sua coluna desta semana na Folha de S.Paulo, Janio de Freitas cumprimenta a Companhia das Letras pelos seus 25 anos e diz “Os 25 anos da Companhia das Letras são mesmo para comemorar. Com sua chegada, o livro ganhou no Brasil um novo status, na elaboração carinhosa, no tratamento respeitoso ao texto, na elegância da identidade editorial. [...] O significado da Companhia das Letras chegou até mesmo à indústria gráfica brasileira, obsoleta e extenuada, e de repente forçada a repor-se à altura das edições pretendidas”. Sempre ouvimos o Nelson Vido, sócio-diretor da Geográfica, nos agradecer por isso.

Ontem, quase às dez da noite, recebi uma mensagem do Fabio, nosso supervisor de produção de capas, dizendo que a Geográfica recebeu o Prêmio Fernando Pini da Indústria Gráfica, na categoria Livros de Texto, pela impressão dos doze volumes da “Coleção Prêmio Nobel ― 25 anos da Companhia das Letras“. Na produção desta coleção, trabalharam juntos, cuidando de cada detalhe, a minha superequipe (incluindo o Teco), a dupla de artistas gráficos Claudia Warrak e Raul Loureiro (adoramos trabalhar com vocês), e os sempre atenciosos funcionários da Geográfica. Parabéns e obrigada a todos.

Para nós do departamento de produção, este prêmio é um símbolo do reconhecimento da qualidade que sempre buscamos, com a participação essencial de todos os nossos parceiros, as gráficas (Bartira, Donnelley e Prol, além da Geográfica), a indústria de papel, os artistas gráficos, os ilustradores, os diagramadores e os revisores.

Nos próximos 25 anos, vamos continuar querendo mais.

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Elisa Braga é diretora de produção e trabalha na Companhia das Letras desde 1987.

Concurso Getty Images de Melhor Capa de Livro 2010

O banco de imagens Getty Images promoveu o concurso Melhor Capa de Livro 2010, com o objetivo de reconhecer o talento dos designers — profissionais que têm a delicada e difícil missão de transmitir o conteúdo do livro na capa, atraindo o público certo para a obra.

Os jurados tiveram que decidir entre as 133 capas inscritas, todas elaboradas a partir de imagens da Getty Images. O resultado foi anunciado ontem, e ficamos felizes em saber que a capa de um de nossos livros foi a premiada!


Foto original do banco de imagens e a capa de Uma certa paz.

Parabéns aos designers, Claudia Warrak e Raul Loureiro, pelo ótimo trabalho!

60,8 sextilhões de capas

Por Elisa Braga

O lançamento de livro mais bonito que já vi foi em 1988 na Livraria Cultura, no mesmo espaço onde hoje funciona a loja Companhia das Letras por Livraria Cultura. Na ocasião, ao invés do autor, a capa, ou melhor, as capas foram as estrelas da festa. O livro era Os escritores – As históricas entrevistas da Paris Review vol. 1, e cada um dos 3 mil exemplares da primeira edição foi pintado à mão pelos artistas plásticos Marco Mariutti e Clovis França, sobre projeto gráfico de João Baptista da Costa Aguiar. Foram quinze dias de produção, e no final, com o prazo ficando apertado, lembro de o Luiz e eu irmos ajudar os artistas a colocar as capas para secar em estantes de arame na gráfica do avô do Luiz. A Júlia Schwarcz, cronista deste blog, na época tinha 7 anos e também pintou uma capa, que depois foi comprada no lançamento, na frente dela, que ficou vigiando.

O Luiz pediu ao Pedro Herz, da Livraria Cultura, para forrar todas as prateleiras da loja com os livros pintados artesanalmente. Para todos os lados que olhássemos só se encontrava o mesmo título, e assim ficou “menos difícil” de os leitores escolherem o seu exemplar.

Este projeto realça o caráter de unicidade do livro, a ideia de que o livro é formado pela leitura, que é singular a cada leitor.

No ano passado, quando soube que iríamos fazer uma nova edição das entrevistas da Paris Review,  pensei em reeditar a ideia de capas únicas, mas agora utilizando as novas tecnologias gráficas que não param de aparecer. Chamamos a artista gráfica Flavia Castanheira e a gráfica R. R. Donnelley para juntos pensarmos na possibilidade de usar a impressão digital com dados variáveis (método que utiliza impressão digital e um software especial, permitindo personalizar cada parte de um projeto — é a tecnologia utilizada para imprimir o nome e o endereço do destinatário em correspondências, por exemplo). Deu certo: graças ao software que faz as diversas combinações, podemos ter 60,8 sextilhões de capas com variações nas cores das tarjas, na posição dos nomes dos entrevistados e no logo da editora.

Começamos com 3 mil!

[Veja mais fotos da nova edição e da edição original]

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Elisa Braga é diretora de produção e trabalha na Companhia das Letras desde 1987.

Siga a seta: o trabalho de um ilustrador

Por Sandra Jávera

Meu nome é Sandra Jávera e sou assistente do ilustrador Andrés Sandoval. Acompanhei o desenvolvimento do último trabalho dele para um livro infantil e fiz algumas fotos para apresentá-lo a vocês.

Este é o espaço de trabalho do Andrés, lotado de esboços (que aparecem nas paredes e gavetas) que ele fez para o livro Siga a seta, da editora portuguesa Planeta Tangerina. A sequência dos desenhos mostra a evolução da linguagem e alguns estudos de ocupação do espaço da folha.

No começo, o trabalho se concentrou na representação das setas e caminhos que percorriam todo o livro. Apesar de serem o tema principal do texto, a narrativa estava um pouco monótona somente com elas. Assim, logo entraram as cores, acompanhadas de novas personagens e mais elementos da cidade, o que enriqueceu as imagens e deu novo ritmo à história.

Os desenhos de seta foram feitos à mão num pequeno caderno e depois vetorizados e transformados em carimbos. Andrés tem uma grande coleção de carimbos e também desenha os seus. Já os experimentou em outros trabalhos, como no livro Viagens para lugares que eu nunca fui, da Companhia das Letrinhas, e Histórias para ler sem pressa, da editora Globo.

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