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Dia 5: Último debate na tenda da nostalgia

Por José Luís Peixoto

Era muito fácil prever que seria assim, a nostalgia.

Mas, antes disso, comi o primeiro aracajé de toda a minha vida, sentado à frente da igreja matriz de Paraty. Atrás de mim, uma roda de capoeira com crianças de todas as idades (algumas crianças da minha idade também) a colocarem a mão e a entrarem naquela dança de aranha.

A tenda das conversas começou cedo, vozes amplificadas a falarem de poesia, a lerem poesia. Atravessei a ponte sobre o canal e, entre milhares de pessoas, avancei pelo caminho onde muitos autores auto-publicados seguravam os seus livros no colo e tentavam vendê-los. Parei junto de dois autores de cordel, Querindina e Macambira, comprei Acordo ortográfico da língua portuguesa: uma nova tentativa. Continuei o meu caminho e cheguei à tenda do telão. Foi aí, de novo entre milhares, agora sentados, que assisti à poesia debatida.

Na véspera de ontem, no sábado, as ruas do centro histórico de Paraty encheram-se. Muita gente mesmo, multidões a ondularem sobre as pedras acidentadas do centro histórico. A Rua do Comércio encheu-se de índios a venderem colares de sementes de frutas vermelhas, grupos de música, coisas acontecendo. Atravessei tudo isso para ir comprar pasta de dentes fora do centro.

Antes, tinha perguntado na tenda de um dentífrico patrocinador da Flip, se me podiam dar uma das pastas de dentes que estavam oferecendo. Não podiam, aquelas pastas de dentes não eram para escritores, eram para crianças.

Já com a pasta de dentes comprada, fiquei à porta de uma igreja evangélica: gente vestida com as suas melhores roupas, gente penteada cantando a plenos pulmões. Convidaram-me várias vezes para entrar, agradeci, mas recusei.

Voltei à Flip, como se existisse uma fronteira dimensional entre esses dois lugares, entre Paraty e Paraty. E talvez existisse mesmo.

Fui lavar os dentes. Muito boa pasta.

No final da tarde, assisti ao encontro final. Nele, 9 autores leram textos que, por algum motivo, lhes diziam muito. Uns textos foram mais adequados àquela situação, outros menos; uns foram mais bem lidos, outros menos; mas foi bonito assistir a leituras em várias línguas. Foi um momento do bem, moderado pela presença doce de Liz Calder e abençoado por aplausos emocionados.

Depois, houve o cocktail de encerramento, onde as pessoas se iam despedindo umas das outras. E, mais tarde, na tenda do telão, houve a festa final, aberta a toda a gente, a todos os milhares de gente que dançaram ao som de bandas de Paraty. Ciranda Elétrica, muito bom.

Então, no regresso à pousada, aquilo que teria sido tão fácil prever: a nostalgia reflectida pelas águas tranquilas do canal, a noite, a memória do tempo a ser desmontada e arrumada. A noção de que, no dia seguinte, aqueles momentos serão passado, inevitavelmente.

Na pousada, pedi a chave. Com ela, deram-me um envelope. Era uma carta de agradecimento da Flip. Gostei de recebê-la, vou guardá-la, mas tive a certeza que o remetente e o destinatário daquela carta estavam trocados. Deveria ter sido enviada por mim e recebida por eles.

* * * * *

José Luís Peixoto nasceu em 1974, em Galveias, Portugal. Jovem revelação literária, recebeu o Prêmio José Saramago com o romance Nenhum olhar em 2001. Livro foi publicado pela Companhia das Letras em fevereiro. O autor participa da programação alternativa da Flip deste ano e escreve um diário para o blog durante o evento.
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Mesa 18: Entre fronteiras

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Convidados:

Mediação Ángel Gurría-Quintana

Deslizando habilmente entre os pontos de vista do nativo e do estrangeiro, o norte-americano (nascido na Rússia) Gary Shteyngart e o inglês (filho de pai paquistanês) Hanif Kureishi criaram algumas das mais brilhantes sátiras da ficção contemporânea. Na obra desses dois premiados escritores, a perspectiva de viés, que mesmo ao tomar parte dos acontecimentos é capaz de considerá-los de um ponto de vista ironicamente distanciado, torna-se uma forma de expor ao mesmo tempo as tensões do mundo atual e a histeria vazia dos discursos que habitualmente pretendem descrevê-las.

Horário de início: 16h30

[Gary lê um trecho de Uma história de amor real e supertriste.]

Mediador: Fiquei fascinado com seu uso das mídias sociais como forma de desenvolver o romance.

Gary: Quando comecei a escrever o livro, eu tinha um iphone e tive que contratar um jovem pra me ensinar a mexer nele. Foi muito útil pra desenvolver o romance, mas o problema é que eu parei de ler depois disso, eu não leio um livro há 5 anos.

[Hanif Kureishi lê o conto "Casamentos e decapitações".]

Mediador: Quando foi publicado na Inglaterra, esse conto provocou algumas polêmicas.

Hanif: Sim, foi banido pela BBC porque um jonalista estava sendo mantido refém na época. Mas se você não é banido pela BBC, está fazendo alguma coisa errada. Depois eu encontrei o jornalista e ele disse que adoraria que o conto fosse publicado.

Mediador: Gary leu um texto cômico e você leu um texto que nos leva a lugares muito sombrios. Mas a verdade é que mesmo o humor de Gary tem muita tristeza, e no meio dos seus textos há humor.

Hanif: Eu gosto de pensar que sou escritor cômico. Tento incluir piadas. O mundo é terrível e isso é engraçado. Os melhores escritores são engraçados, Joyce, Beckett. Você tem que escrever as coisas mais horríveis das formas mais divertidas.

Gary: Eu cresci na União Soviética, o que não era muito engaçado, mas nós nos divertíamos muito. Ríamos de muitas coisas que aconteciam.

Mediador: O tema da mesa é “Entre fronteiras”, vocês dois têm experiência com famílias que mudaram de país.

Hanif: Eu comecei a escrever pra parar de enlouqecer. Precisava enlouquecer os outros. Cresci no subúrbio de Londres, era um ambiente pesado e não havia virado multicultural ainda. Me perguntavam de onde eu era, eu dizia “daquela casa da esquina”. E eles não aceitavam, me perguntavam “mas de onde você realmente é?”. E eu comecei a escrever pra tentar descobrir uma resposta pra isso.

Gary: Eu li Buda do subúrbio, me deu uma sensação de liberdade ler sobre alguns dos mesmos desafios que eu enfrentava. Me abriu os olhos. Comecei a escrever nos EUA porque queria fazer amigos. O discurso do império do mal, tudo que era vermelho era do mal, os vizinhos me detestavam, diziam que era comunista. Na escola judia tínhamos que ler a Torá e todos odiavam. Um dia escrevi uma paródia do Êxodo, Sexodo, e de repente todos me adoravam!

Mediador: Vamos falar sobre sexo então. Como vocês lidam com o sexo na escrita?

Hanif: Eu cresci no subúrbio nos anos 70, e demorou pros anos 60 chegarem lá. Quando chegaram, foi incrível. A ideia dos anos 70 foi descobrir quem você é. E no livro o personagem tenta descobrir isso através do sexo. É o desejo que move a vida e o livro.

Gary: É um ato de amor sentar e escrever um livro. Comecei a escrever sobre sexo porque não estava fazendo, era como uma simulação de como seria. Então aos 37 anos finalmente fiz sexo, e foi ainda melhor do que havia imaginado nos 2 primeiros livros.

Mediador: Hanif, você tem uma história chamada “The penis” baseada em “The nose”, de Gogol. Você poderia resumir?

Hanif: É uma história de um pênis que se destaca do corpo, adquire uma vida própria, uma carreira. Quando publiquei, o editor disse “por favor, não publique essa história, vão rir de você a vida toda”. Ele estava certo.

Mediador: Gary, fale sobre “Shylock on the neva”, baseado em “Portrait”.

Gary: Eu não escrevi esse conto, terceirizei para a Índia. Nem sei sobre o que é. Os indianos são ótimos escritores.

Hanif: Toda literatura russa poderia facilmente ser reescrita pelos indianos.

Mediadores: Vocês também falam de religião. Gary, você brinca com os lados americano, russo, judeu. Como todas essas facetas se ajustam?

Gary: O público que decide, se me quiserem mais judeu eu fico mais judeu. Pra mim, a literatura russa é mais importante, os EUA são meu lar, e quando escrevo um livro meu pai pergunta “esse vai ser bom pros judeus?”. Na verdade acho que meus livros não são bons pra ninguém.

Mediador: “Meu filho é um fanático” está virado muito atual.

Hanif: Até o 11 de setembro ninguém parava pra pensar sobre o fundamentalismo. É terrível a falta de liberdade no fundamentalismo islâmico.

Mediador: Você esteve aqui na 1ª Flip, e uma das coisas que aconteceu desde então foi a publicação de um livro de memórias sobre seu pai. Por que você decidiu escrever sobre seu pai?

Hanif: Acho que me dei conta que nós dois éramos azarados por sermos imigrantes, mas tive sorte porque me dava um bom material pro meu trabalho, um assunto de que não estavam falando. Mas as pessoas não estavam interessadas. Perguntavam por que os personagens não poderiam ser brancos. Achei que era hora de alguém escrever sobre isso. Meu pai escrevia a vida toda, dizia que queria ser escritor. Quando eu fiquei conhecido, meu pai ficou com inveja. Ele queria ele mesmo ser escritor. Se sentiu um pouco humilhado.

Mediador: Você publicou na Granta uma história sobre seu pai, de que ele tinha orgulho por você dirigir um carro.

Gary: Ele tentou me ensinar a digir, mas ele xinga muito. Eu não consigo xingar tanto, então estava sempre pisando no freio. Minha família achava que era importante alguém na família ser artístico. Minha primeira editora foi minha avó. Ela disse que se eu escrevesse uma história, me daria um pedaço de queijo por página. Então escrevi uma história de 100 páginas chamada “Lênin e seu ganso mágico”. Na verdade até hoje eu sou pago em queijo.

Mediador: Em Absurdistão o personagem principal é obeso, maluco e não muito legal. Você já disse que gostaria de ser assim quando estava crescendo.

Gary: Você não se sente sortudo por ter nascido filho de imigrantes. Eu li Buda do subúrbio e era sobre como um cara descobre que pode virar o cara exótico da vizinhança e lucrar com isso. Eu tentei isso na faculdade, por um tempo ficava exagerando, dizia coisas que não faziam sentido, e as pessoas adoravam.

Mediador: Voltando ao título da mesa. Acho que ele também pode ser aplicado ao gênero, vocês fazem contos, romances. Como você sabe se uma história vai virar um conto ou um romance?

Hanif: Eu penso no que está acontecendo na minha casa. Tenho filhos e todos acham que sou uma máquina de dinheiro. Escrevo roteiros que me dão dinheiro, e aí posso escrever contos e romances. Os autores quando se encontram não falam de arte, falam de dinheiro, agentes, quanto cada um ganhou. Eu adoro escrever contos, mas você ganha 200 libras por eles, e aí tem que escrever roteiros pra comprar remédio pros filhos.

Gary: Por isso gostei de ir pra Pequim. Uma mulher levantou no evento e perguntou “quanto você ganha?”. Foi a pergunta mais honesta que me fizeram.

Mediador: A boa escrita pode ser ensinada? E se não, por que vocês dão aulas em cursos de escrita criativa?

Hanif: A verdade é que todo mundo que sabe escrever aprendeu com alguém. Eu aprendi com meu pai, com meu editor… Outras pessoas podem ensinar outras coisas, podemos sugerir soluções a que eles não teriam chegado por um bom tempo. Nós conseguimos dar conselhos, dizemos o que precisam melhorar. A ideia de que você não pode ensinar escrita é tolice. Tornar alguém um bom escritor não acontece, mas você pode ajudar alguém a chegar no seu lugar.

Gary: Eu gosto de focar na questão da honestidade. Muitos estão escrevendo o que acham que devem escrever. Tento arrancar alguma coisa de dentro deles. É difícil, mas quando acontece é recompensador.

Hanif: Todo mundo consegue escrever 2 ou 3 boas páginas, mas escrever 700 é mais difícil.

Mediador: Você sente que é tão bom quanto sua última obra?

Hanif: O problema é que não adianta escrever apenas um livro bom, você precisa pagar as contas, então precisa continuar escrevendo, e se vai escrever, tem que fazer o melhor possível.

Mediador: Daphne du Maurier disse que um escritor deve ser lido, não ouvido e muito menos visto. O que vocês acham disso? É inescapável?

Hanif: Acho uma afirmação idiota. Porque em muitos lugares do mundo os políticos não são honestos, e às vezes acho que os escritores são os únicos que falam a verdade. Os escritores podem ser uma figura importante num lugar como o Paquistão.

Gary: A maior sorte do tempo quero ficar em casa chorando, mas às vezes é bom sair e encontrar o mundo. A geração do meu pai adorava ficar em casa lendo os romances que haviam sido proibidos. Hoje em dia os russos no subúrbio americano estão todos vendo Fox News. Você tem tanta liberdade e não aproveita.

Mediador: Vocês dois gostam muito de Chekhov, aparece nos seus romances.

Gary: Quando cheguei nos EUA, meus pais tinham poucos pertences. Eles não me deixavam falar inglês nem ver tv, então eu ficava no meu quarto lendo Chekhov e chorando por haver alguém que escrevesse daquele jeito. É uma das melhores coisas da cultura russa.

Pergunta: Gary, quanto você ganha?

Gary: Obrigado por perguntar. Depende da cotação do queijo parmesão. Quando está favorável, ganho quase 20 dólares por ano. Mas quando desce, fica nuns 5 reais por ano.

Mediador: Hanif, o que mudou no festival desde a outra vez que você veio?

Hanif: A cidade é praticamente a mesma, mas tem mais gente comprando livros e interessada na literatura. As pessoas querem ouvir os escritores. É algo digno de aplausos.

Horário de término: 17h46

Mesa 17: Drummond – o poeta presente

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Convidados:

Mediação: Flávio Moura

Poucos autores parecem tão importantes para pensar o que se escreve hoje na poesia brasileira quanto Carlos Drummond de Andrade. Não é fácil, no entanto, precisar exatamente em que consiste essa importância e de que maneira ela se manifesta. Três poetas brasileiros exploram diferentes possibilidades de resposta a essa questão. Num depoimento em vídeo gravado por Walter Carvalho, Armando Freitas Filho fala de sua relação com Drummond, partindo de uma definição inesperada do poeta mineiro como um autor do Lado B. A mesa segue com uma discussão entre Eucanaã Ferraz e Carlito Azevedo.

Horário de início: 14h30

Armando: Quando fiz 15 anos, meu pai me deu dois livros: Poesias de Manuel Bandeira e O fazendeiro do ar & Poesia até agora do Drummond. Em 56, um ano mais tarde, ele me deu um disco que tinha Bandeira dum lado e Drummond do outro. Drummond começou a falar comigo com sua voz seca e súbita. Seria como se uma máquina de escrever falasse. Quando ele morreu, eu cheguei no velório antes do corpo. E o moço que escreve o nome da pessoa no quadro da capela estava lá, eu vi ele compondo o nome do Drummond, procurando cada letra. Hélio Pellegrino e eu entramos juntos, e um repórter perguntou o que aquela morte representava. Hélio falou que não se entenderia como pessoa sem a poesia de Drummond. Eu sou igual. Nós dois tremíamos tanto, ficamos apoiados um no outro.

Não era nem influência, era uma possessão. Fiquei louco pra compreender aquilo tudo. E a partir dos anos 60 comecei a escrever meu primeiro livro. E ele foi dado a Bandeira, que me incentivou a escrever, e me disseram para entregar pro Drummond. Eu não conseguia. Meu pai que entregou por mim. Ele disse que era importante que nós soubéssemos que poemas abriam e fechavam o livro. É algo que você tem que sentir.

Criou-se uma dificuldade extra entre nós porque eu não sabia como chamá-lo: doutor, mestre, senhor? Aí um dia ele me disse, “nós somos amigos, amigos se chamam de você”. Fiquei tão feliz com isso de poder chamá-lo assim. Mas nunca consegui chamá-lo de Carlos só, falava Carlos Drummond.

Ele sempre escreveu pra se explicar a si próprio, escrevia com o próprio fígado. E aquilo se transformava num discurso geral que se aplicava a todos. Ele não escrevia pra ninguém, mas ao mesmo tempo escrevia para todos. Drummond era incrível, era deus.

Carlito: É difícil falar sobre Drummond porque minha relação com poesia sempre foi estranha. Só recentemente consegui entender minha relação com a poesia. Eu gosto de olhar o mundo pela lente do Drummond porque as pessoas quebram. Algumas quebram duas ou três vezes na vida, eu já quebrei também, mas lendo poesia, especificamente a do Drummond, aprendi que quebrar pode ser um aprendizado. Eu descobri que as coisas têm que quebrar, só quando elas quebram você percebe como elas são por dentro. O modo que encontrei pra falar de Drummond foi escrever um poema que é praticamente uma carta a ele, o primeiro poema que escrevo desde meu último livro. [Ele lê o poema]

Eucanaã: Difícil saber como falar de Drummond, porque é um quadro muito amplo e escorregadio. Você pega um pedaço e ele escorrega. Não porque ele não quer que a gente o conheça, mas porque ele quer que a gente o conheça demais.

Drummond tem uma certa ligação com Fernando Pessoa. Pessoa levou aos extremos a questão da multiplicidade, mas com um aspecto arrumado, com heterônimos. Drummond talvez tenha sido mais radical, porque não havia essa separação, todos os lados viviam de um jeito conflitante. Alguns livros dele contradizem os outros. E até num mesmo livro, alguns poemas desmentem os outros. Ele nos deixa numa espécie de enrascada para defini-lo.

Na graduação, na UFRJ, havia disciplinas obrigatórias e optativas. E havia uma grande professora, Marlene de Castro Correia, que era uma grande leitora e crítica do Drummond. E eu ficava voltando pra esse curso todo semestre. Eu devo um pouco da minha ligação com Drummond a ela.

Drummond se incomodava com o título de poeta maior, mas isso veio de sua vontade de não se prender a limites de espaço ou tema. Ele transcende qualquer linha, ele avançou sobre todas elas.

Mediador: Carlito, uma vez você disse que as poesias que aparecem pelas editoras são drummondianas, podem até ser boas mas falta ousadia. O que você quer dizer com isso?

Carlito: Se antes eu falei da queda, preciso dizer que o bonito do Drummond é que você aprende que precisa estar à altura da queda. Antes de escrever seu primeiro livro, Drummond perdeu um filho, que só viveu 45 minutos. E no fim de sua vida, a filha morreu também. E ele não queria mais escrever, não queria mais viver. Ele sofreu essas duas quebras, essas duas perdas, no começo e no fim da carreira. Acho que esse seria o ensinamento de Drummond: é necessário estar à altura da sua queda.

Eucanaã: Não há dúvida que ele sempre esteve à altura de sua queda, mas Bandeira, Cecília, os grandes sempre estavam, as vidas impunham isso. O poeta é aquele que inventa quedas, ele quer cair. Quer ver o abismo. Às vezes ri, às vezes cai e às vezes volta. O problema de dizer que uma pessoa é drummondiana é que ele tem tantos lados, tantas contradições, que você poderia dizer que vários poetas são drummondianos de jeitos diferentes.

Mediador: Vocês selecionaram alguns poemas de Drummond.

[Carlito lê "Tarde de maio". Eucanaã lê "Não se mate", "O quarto em desordem" e "Os materiais da vida".]

Horário de término: 16h

Dia 4: Vi o Ian McEwan

Por José Luís Peixoto

E ele viu-me a mim.

Por email, antes de chegar ao Brasil, aceitei o convite para ler o poema “E agora, José?”, do Drummond, antes de uma das conversas na tenda principal. Quando soube que ia ser antes da conversa entre o Ian McEwan e a Jennifer Egan pareceu-me que esse foi um daqueles momentos em que o cosmos se organizou para fazer sentido. Eu não tinha chegado a este pensamento mas sei que, se tivesse podido escolher, teria sido justamente essa ocasião que teria escolhido para a minha leitura. Isso, claro, porque gostaria de, se possível, olhar para o Ian McEwan. Olhar para ele teria bastado.

A organização da Flip telefonou a perguntar a que horas poderiam ir buscar-me para me acompanharem à tenda. Agradeci, mas dispensei. Fui sozinho, a pé. Cheguei e, já com o livro do Drummond, fui levado por seguranças a falarem através de auriculares. Cheguei, por fim, aos bastidores. Eles já lá estavam, sentados em poltronas, à volta de uma mesa com bolinhos. Fomos todos apresentados, cumprimentámo-nos e fui chamado a uma mesa, onde me esperavam uma meia dúzia de exemplares do meu último romance. Todos os autores que participam na Flip são convidados a dedicar e a autografar um conjunto de livros que se destinam a bibliotecas da cidade, patronos, etc. Escrevi umas palavras também no livro de honra e assinei um papel que dava autorização a fazer qualquer coisa que não sei muito bem o que era porque não li, presumo que tenha sido autorização para captarem imagens e as divulgarem. Só depois voltei para perto deles.

Os livros do Ian McEwan acompanham-me há anos. Alguns fazem parte daquela lista curta que me rasgou horizontes de pensamento, de escrita e de vida, que me apaixonou. Já conheci autores mais do que suficientes para saber que, muitas vezes, o entusiasmo do afecto que se sente por uma obra não é devolvido pela má disposição ou pela antipatia da pessoa que, por acaso, escreveu essa obra. Por isso, sei que se deve ir devagar, como quem avalia a temperatura da água com a ponta do pé antes de entrar na piscina. Foi o que fiz. O sorriso de McEwan foi amplo, abundante, generoso.

Falámos um pouco e tive tempo para o meu momento de admirador. Disse aquilo que achava que devia de dizer tendo em conta aquilo que já tinha recebido através do trabalho daquele homem. A seguir, enquanto eu estava a fazer a leitura, o Ian McEwan e a Jennifer Egan esperavam atrás do cenário para entrarem assim que acabasse.

Isto teria sido suficiente mas, à noite, voltámos a estar juntos com muito mais tempo. Falou-se de política internacional, de futebol, entre outros assuntos menos graves.

A Flip tem muito a ver com estas histórias. Sobre os escritores que participaram noutras edições, é vulgar ouvir: fulano é muito simpático, beltrano andava aí pelas ruas a passear de chapéu de palha, cicrano adorava cachaça. Na Flip, os leitores observam os autores e, mais tarde, quando vier a propósito de qualquer conversa, irão contar aquilo que viram. Sim, eu sei muito bem que a literatura não é isso mas, pessoalmente, sinto muito prazer em coleccionar essas pequenas histórias, são inofensivas e, como se diz aqui no Brasil: por favor, não cortem o meu barato.

Já hoje, domingo, assisti com o Ian McEwan a uma parte da final de Wimbledon, entre Murray e Federer. Saí a meio porque vim aqui escrever estas palavras. Ele continuou lá, a torcer pelo inglês.

Eu sei que não somos amigos, eu sei que ele não reparou tanto neste encontro como eu, mas não me importa. Aquilo que me importa é que esse encontro aconteceu, nada pode mudar isso, ninguém pode fazer com que não tenha acontecido.

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(Foto do instagram de José Luís Peixoto)

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José Luís Peixoto nasceu em 1974, em Galveias, Portugal. Jovem revelação literária, recebeu o Prêmio José Saramago com o romance Nenhum olhar em 2001. Livro foi publicado pela Companhia das Letras em fevereiro. O autor participa da programação alternativa da Flip deste ano e escreve um diário para o blog durante o evento.
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Mesa 16: A imaginação engajada

Convidados:

Mediação: João Cezar de Castro Rocha

Os livros de Francisco Dantas e Rubens Figueiredo, dois dos principais escritores brasileiros, mostram que a força crítica da literatura não depende da contenção do estilo nem da imaginação. É por meio da potência do texto, e não de uma adesão mimética ao real, que a obra de ambos estabelece sua relação com o mundo. Dos grandes centros urbanos ao interior rural, Figueiredo e Dantas se apropriam dos cenários habituais do imaginário nacional para desmanchar sua feição familiar, contrapondo aos generalismos do senso comum a concretude singular de suas histórias.

Horário de início: 11h45

[Francisco lê um trecho de O som e a fúria como homenagem pelos 50 anos da morte de William Faulkner.]

Rubens: Vou tentar explicar rapidamente como fiz meu último livro. Sou professor de português da rede estadual à noite. Por muitos anos dei aula num colégio a 35km da minha casa, pegava dois ônibus pra chegar lá. Hoje em dia vou de bicicleta porque leciono num colégio mais próximo. O livro se passa dentro de um ônibus. O estranho é que tenha demorado tanto tempo pro livro se consolidar. Embora eu vivesse a experiência de fazer o percurso e encontrar as pessoas, percebi que havia uma barreira entre mim e meus alunos, seus familiares. Não era questão de sensibilidade, inteligência, era uma barreira de classe social. É uma coisa que controla sua percepção. Eu demorei pra entender. Em função dessa experiência passei a questionar o modo como via a ficção e a literatura. As noções críticas que vigoram traçam um anel mágico em torno do nosso meio, ficamos alheios ao que está acontecendo ao nosso redor. Foi com essa noção que escrevi o livro. Foi uma forma de tentar compreender a experiência. Acho que já falei bastante.

Francisco: Quero falar um pouco sobre o tema desta mesa. A palavra imaginação muitas vezes é confundida com devaneio na literatura, e é diferente. Devaneio é mais livre, pode estar ligado à loucura, e a imaginação na literatura é disciplinadora. E o engajamento é fatídico pra literatura. Tornou-se pejorativo. E cada escritor tem sua opinião. A literatura não pode trabalhar com discurso de autoajuda. Vivemos num contexto com muita desigualdade social.

Mediador: Vou ler o parágrafo inicial do seu livro, Rubens, e proponho que conversemos um pouco sobre isso. Nele, o narrador não se identifica nem com os passageiros nem com sua classe.

Rubens: Toda sexta-feira à noite ele pega o ônibus pra ir na casa da namorada que mora muito longe. É uma viagem rotineira. Ele não terminou a faculdade e mora com a mãe num apartamento pequeno. Ele não tem carro, mas tem uma sociedade com amigos pra vender livros usados. Ele está um pouco abaixo da classe média. E ele vai prum lugar onde a pobreza é muito acentuada, e isso marca o dia-a-dia das pessoas. Ele tem que entender o que está acontecendo, no vestuário, na fala. É como encontrar outra civilização na mesma cidade. A desigualdade social é tão grande hoje em dia que criou abismos de compreensão assim. Você pode ver as coisas, mas não consegue entender. Eu não queria mostrar a desigualdade, que todo mundo pode ver, queria falar de como entendemos esse tipo de coisa.

Mediador: No princípio de seu romance, Francisco, há a notícia da morte de Lampião. Há aqueles que celebram a morte, e um de seus personagens pergunta quem irá defender o povo então.

Francisco: A questão de Lampião é muito discutida. O principal perigo é fazer um livro maniqueísta. Eu peguei o Lampião dos últimos anos de vida. Não deixo de mostrar o lado mais feroz, mas também abordo as questões mais interiores, os momentos em que considerou se entregar. O mérito do livro é que a questão continue ambígua, porque não é maniqueísta. Eu ambiento todos os meus livros na minha região, o Nordeste. Faulkner ambientava todos os seus livros numa pequena cidade americana, e dizia que uma vida inteira não seria suficiente pra contar tudo.

Pergunta: Por que Darwin nas mãos do protagonista?

Rubens: Quando estava construindo o livro, tinha a intenção de conferir uma dimensão histórica. Não sei de onde isso me veio, mas assim eu poderia incorporar a questão da servidão e do colonialismo. Darwin era uma pessoa de classe alta visitando lugares desconhecidos. E a teoria dele acabou ajudando o colonialismo, a imagem que ela formou de superioridade e inferioridade, isso foi usado em discursos. E hoje nós também tendemos a ver as desigualdades e as injustiças como fatos decorrentes da natureza. Eu olho um ônibus entupido às seis da tarde como se observasse uma árvore. Dito assim parece muito ambicioso, mas mesmo que essas coisas não estejam explicadas no livro, o leitor reconstrói essa noção ao lê-lo.

Pergunta: O cordel influenciou sua literatura?

Francisco: Meu livro obedece uma divisão de cordel. O tom do livro é de cordel, e na maior parte é feito em redondilha maior. Eu quis ligar o cordel à literatura considera culta. Não sei se consegui, mas era o propósito.

Pergunta: Qual a ligação da sua literatura com a atividade de professor?

Rubens: Não interfere muito. Sempre considerei dar aula mais importante que ser escritor. A justificativa era mais imediata. O contrário existe, o convívio com meus alunos influencia meus livros, viram experiências de vida. Eu recebo muito mais do trabalho de professor que o contrário.

Francisco: Quando escrevi Coivaras, achei que não merecia ser chamado de escritor, demorei 30 dias pra mostrar pra alguém. Hoje só me lembro do começo dele, resgatei-o recentemente. Ser escritor ajudou a me formar como professor. Como professor eu lia muito, mas como leitor eu só leio aquilo de que gosto. Nós escrevemos pra nos livrarmos das obsessões que vamos formando, mas também pra agradar. Me dou ao privilegio de só ler o que gosto, na minha idade. O que não podia fazer quando lecionava.

Horário de término: 13h03