Lançamentos

Semana noventa e nove

Os lançamentos da semana são:

Editora Paralela:
  • Scarpetta, Patricia Cornwell (Tradução de Julia Romeu)
    Uma anã chamada Terri Bridges é estrangulada em seu apartamento em Manhattan e a polícia, após descobrir duas outras vítimas que morreram em circunstâncias parecidas, acredita estar lidando com um assassino em série. Oscar Bane, o namorado de Terri, é o principal suspeito, mas para cooperar ele faz uma exigência: ser examinado pela famosa médica-legista Kay Scarpetta. Após decidir se envolver no caso, Scarpetta deixa temporariamente seu laboratório de patologia forense e, quando finalmente chega a Nova York, Bane conta uma das histórias mais bizarras que ela já ouviu. Para piorar as coisas, detalhes da vida pessoal de Scarpetta vão parar na internet, graças a um site de fofocas escrito por um colunista perverso e misterioso. Scarpetta e sua velha equipe vão ter que deixar as mágoas para trás e decifrar dois enigmas: quem é o assassino de Terri Bridges e como um colunista virtual pode saber tanto sobre suas vidas.
Companhia das Letras:
  • História universal da infâmia, Jorge Luis Borges (Tradução de Davi Arrigucci Jr.)
    Divertido e inteligente, o novo volume da Biblioteca Borges traz contos do começo da década de 1930 em que o autor de O Aleph coloca-se no lugar do leitor, criando contos inspirados por releituras de Stevenson, pela prosa de Marcel Schwob, pelos filmes iniciais de Josef von Sternberg, além da pintura, estimulado, quem sabe, por sua amizade com os pintores Xul Solar e Pedro Figari. Embora as histórias que compõem o volume tenham sido tiradas, em grande parte, de livros de outros autores, o trabalho abissal de reescrita é a novidade, complexa e de grande força expressiva. São obra de um leitor mais tenebroso e singular que os bons autores, como se anuncia num de seus dois prólogos notáveis.
  • Anatomia de um julgamento: Ifigênia em Forest Hills, Janet Malcolm (Tradução de Pedro Maia Soares)
    O caso em julgamento parece ser muito simples: tudo leva a crer que a médica Mazoltuv Borukhova, judia ortodoxa da seita bucarana, mandou matar o marido porque perdeu a guarda da filha na separação do casal. É o que pensam a família da vítima, os jornalistas, a promotoria e a opinião pública. E até mesmo o juiz, que espera uma solução rápida do caso para passar as férias no Caribe. Mas para o olhar agudo e perscrutador de Janet Malcolm nada é muito simples, nem exatamente o que parece. Aos poucos, ela desvela a complexidade dos fatos e das pessoas, aponta para fios que permanecem soltos, sugere motivações obscuras e põe em dúvida o sistema judiciário dos Estados Unidos. E a palavra final fica com o leitor perplexo.
  • Atlântico, Simon Winchester (Tradução de Donaldson M. Garschagen)
    O Atlântico não é só o mar que deslumbra a perder de vista e cujas águas refrescam e restauram quem vai às praias brasileiras. Não é  só o berço da maior parte dos peixes e frutos do mar que fazem a alegria gastronômica de tanta gente. É também muito mais do que o gigante desconhecido que europeus enfrentaram  no século XV, quando encontraram o Novo Mundo com sua população tão múltipla e diversa. Escrever uma biografia não é tarefa trivial. Que dizer, então, da biografia de um oceano que cobre um quinto da superfície da Terra, tem 6400 quilômetros de largura máxima e uma profundidade média de quase quatro quilômetros, e cuja história percorre 190 milhões de anos? É uma missão para um jornalista com formação de geólogo, autor de mais de vinte livros e especialista em construir narrativas vibrantes, capazes de orquestrar uma infinidade de informações e histórias.
Companhia das Letrinhas:
  • Uma chapeuzinho vermelho, Marjolaine Leray (Tradução de Júlia Moritz Schwarcz)
    A reinvenção de uma história clássica aguça a percepção das crianças de que o mundo é feito de múltiplos pontos de vista. No caso deste livro, a Chapeuzinho ingênua e inocente do conto tradicional se transforma numa garota corajosa e perspicaz, que engana um Lobo Mau incapaz de causar medo na menina. Tendo início na parte do conto em que o lobo está prestes a papar a garotinha, que então faz as clássicas perguntas a respeito daqueles olhos, orelhas e dentes tão grandes, esta versão da história tem um final inesperado, muito divertido. A inversão de papéis traz ao livro uma graça única, ao passo que o traço infantil das ilustrações materializam o tom sintético da narrativa.
  • As invenções de Ivo, Rogério Trentini (Ilustrações de Daniel Almeida)
    Uma das características mais marcantes entre as crianças é a imaginação. Seja para brincar ou entender o mundo, elas inventam seres e situações os mais inusitados. Ivo, o narrador deste livro, é o exemplo perfeito, passa o dia fantasiando. Como ele diz: “Às vezes estou sozinho/ e me ponho a imaginar./ Invento um mundo novo,/ é nele que vou brincar.”. Ele cria monstros horríveis e prédios enormes, máquinas de fazer planetas e palavras cabeludas, um amigo divertido e bichos comportados, e assim constrói este poema rimado, cheio de surpresas divertidas. As ilustrações coloridas e originais de Daniel Almeida dão forma às ideias malucas de Ivo, e convidam o leitor a fazer a sua parte: dar asas à imaginação, como o nosso Ivo.
  • Pequenos contos para sonhar, Mario Urbanet (Tradução de Eduardo Brandão)
    Quem não gosta de deitar a cabeça no travesseiro e viver as aventuras mais incríveis? Entre os contos deste livro, surgidos nos quatro cantos do mundo, há a história da mãe que, desesperada para recuperar o seu filho do ninho de uma ave, demora a perceber que pássaros e pessoas falam línguas diferentes; de Dalila que, fugindo do seu destino pressagiado pelo galo, acaba descobrindo o seu verdadeiro amor; de um ferreiro que atravessa o oceano em busca de um tesouro que aparecia em seus sonhos e depois vem a descobrir que a fortuna estava desde o início embaixo de seu nariz; do rapaz que, obstinado a ajudar as pessoas, não percebe que está diante da própria morte, entre tantas outras. Cada narrativa traz, ao seu final, uma lição em versos que, muitas vezes, vai de encontro às morais e ensinamentos difundidos na nossa cultura.

Semana noventa e oito

Os lançamentos da semana são:

Uma morte em família, de James Agee (Tradução de Caetano Galindo)
Uma morte. Em pleno vigor, um homem é tirado de sua família. Uma notícia que poderia ser dada em qualquer momento, em qualquer romance. Para James Agee, que já havia demonstrado seu imenso talento e seu amor prodigioso pelo estudo detalhado das personalidades e dos fatos no clássico livro de reportagem Elogiemos os homens ilustres, trata-se da oportunidade de escrever um romance dedicado quase integralmente a investigar o impacto dessa morte nos membros daquele grupo. Da pequena Catherine, que ainda mal consegue compreender a vida, ao agnóstico Joel, passando pelo torturado Andrew e, talvez principalmente, pelo desorientado Rufus, o filho mais velho, Agee se debruça sobre cada um de seus personagens com uma dedicação e um detalhismo plenamente amorosos, empregando os mais sofisticados recursos da prosa de ficção para retratar essas pessoas e revelar a percepção que têm da realidade.

O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde (Tradução de Paulo Schiller)
Publicado em sua versão final em 1891, O retrato de Dorian Gray foi o primeiro sucesso literário de Oscar Wilde e, algo que se tornaria frequente durante a curta carreira do autor, motivo de grande escândalo. Exemplo extremo de um indivíduo que leva uma vida dupla, seu protagonista comete todo tipo de atrocidade enquanto mantém uma aparência  intocada de beleza e virtude. Seu segredo, porém, está materializado em um retrato guardado em uma sala trancada, que reflete fisicamente as deformações de seu caráter. Ao longo da década em que Wilde conviveria com doses idênticas de fama e infâmia, seu único romance foi usado como parâmetro tanto de sua capacidade artística como de sua total inadequação à sociedade em que vivia. E, se mais de cem anos depois ainda consegue fascinar leitores de todo o mundo, é porque revela muito mais sobre a condição humana do que inicialmente se imaginava.

Paris: A festa continuou – A vida cultural durante a ocupação nazista, 1940-4, de Alan Riding (Tradução Celso Nogueira e Rejane Rubino)
Poucos momentos da história foram mais trágicos e complexos do que a ocupação de Paris pelos nazistas, entre 1940 e 44. Mas o que aconteceu nesses anos sombrios com a efervescente vida cultural da Cidade Luz? Como era o dia a dia dos parisienses obrigados a conviver com a caça aos judeus, a presença opressiva da Gestapo e a escassez de víveres? Neste amplo e vívido painel da vida no período, Alan Riding mostra que, surpreendentemente, “a festa continuou”, ou seja, cabarés, teatros e cinemas continuaram lotados, assim como os salões da elite, e o mercado de arte viveu até um aquecimento. Mas revela também uma trama complexa de relações perigosas dos intelectuais com os ocupantes e seus órgãos de propaganda e controle. Entre o heroísmo da resistência, muitas vezes pago com a vida, e a franca adesão ao nazismo, o autor demonstra que foram inúmeras as atitudes intermediárias, não raro ambíguas e até paradoxais, de artistas e escritores como  Sartre, Picasso, Malraux e Colette.

O diabo & Sherlock Holmes – histórias reais de assassinato, loucura e obsessão, de David Grann (Tradução Álvaro Hattnher)
O líder do principal grupo paramilitar de extermínio do Haiti se torna corretor de imóveis numa pacata cidade dos Estados Unidos. O maior especialista mundial em Sherlock Holmes morre em circunstâncias tão misteriosas quanto as de uma aventura do detetive. Um mestre francês do disfarce assume sucessivas identidades de adolescentes órfãos de diferentes países. Um escritor polonês comete um crime quase perfeito para pôr em prática suas mal digeridas leituras de Nietzsche e Foucault e espalha pistas autoincriminadoras num romance. Essas são algumas das dozes histórias extraordinárias narradas neste livro pelo jornalista norte-americano David Grann. Unindo rigor investigativo e talento literário, o autor que escreveu também o elogiado Z, a cidade perdida, explora com maestria os territórios em que a realidade é tão inverossímil que parece ficção.

Navegação de cabotagem – Apontamentos para um livro de memórias que jamais escreverei, de Jorge Amado
Poucos indivíduos viveram com tanta intensidade as turbulências do século XX. Nestas memórias escritas com a verve, o humor e a sensualidade que caracterizam sua melhor ficção, Jorge Amado passa em revista sua trajetória singular. Da convivência com personalidades da cultura mundial – como Pablo Picasso, Oscar Niemeyer, Pablo Neruda, Dorival Caymmi e Glauber Rocha – ao aprendizado em bordéis, botequins e terreiros de candomblé, os episódios se sucedem como cenas de um filme. Os cenários podem ser o Kremlin de Moscou, um palácio na Suíça, uma redação de jornal carioca, as margens do Sena ou uma ladeira de Salvador. Por trás de tudo, dois grandes temas perpassam estas páginas: o amor, de todas as formas, e o trauma da política.

O fardo da nobreza, de Donna Leon (Tradução de Carlos Alberto Bárbaro)
Os jardins de uma casa abandonada em uma pequena vila na Itália permaneceram intocados por cinquenta anos. Quando o novo proprietário assume o imóvel e dá início a uma reforma, um túmulo macabro vem à tona. Animais, fungos e bactérias fizeram seu terrível trabalho e o cadáver encontra-se em estado avançado de decomposição, o que impede o reconhecimento do corpo. Um anel valioso torna-se a principal pista desse mistério que leva o comissário Guido Brunetti ao coração da aristocracia veneziana e a uma família que ainda sobre com o desaparecimento do filho.

A mulher calada, de Janet Malcolm (Tradução de Sergio Flaskman)
Considerada uma das poetas mais originais do século XX, Sylvia Plath se suicidou numa madrugada de inverno, em 1963, poucos meses depois de se separar do marido, o também poeta Ted Hughes. Esse gesto último selou definitivamente, em torno de sua vida e sua obra, um campo de forças tão poderoso que por muito tempo opôs não só os vivos aos mortos, como todos aqueles que sobreviveram à tragédia. Neste livro, Janet Malcolm – um dos maiores nomes do jornalismo americano, autora de O jornalista e o assassino – se debruçou sobre todas as biografias já escritas sobre Sylvia Plath e sobre as entrevistas com os Hughes, além de adentrar um intrincado mundo de cartas, arquivos e delicadas situações familiares. Assim pôde demonstrar, a cada linha, como é tênue o limite que demarca fato e ficção, trafegando o tempo inteiro entre as várias versões do mito. Dotada de elegância e senso narrativo excepcionais, Malcolm mescla psicanálise, poesia, biografia e reportagem, num ensaio de amplitude e profundidade surpreendentes, capaz de envolver o leitor com o magnetismo de uma trama policial.

Martinha versus Lucrécia, de Roberto Schwarz
Internacionalmente reconhecido pelos livros Um mestre na periferia do capitalismo e Ao vencedor as batatas, que revelaram aspectos ocultos – e notáveis – da arte literária de Machado de Assis, Roberto Schwarz reúne em Martinha versus Lucrécia momentos recentes de sua produção crítica. No livro estão algumas das melhores peças da crítica literária do autor, que, além de Machado de Assis, contempla nomes como Caetano Veloso – com um ensaio inédito sobre a autobiografiaVerdade tropical -, Chico Buarque, o poeta Francisco Alvim e o filósofo Theodor Adorno.

Divinas travessuras – Mais histórias da mitologia grega, de Heloisa Prieto
Depois das Divinas aventuras, em que alguns deuses da mitologia grega contam suas histórias, das Divinas desventuras, narradas por Cronos, o deus do tempo, agora é a vez de Hermes, o deus da trapaça, contar as suas preferidas – que são repletas de travessuras, é claro. Muito arteiro, ele fala sobre o dia em que roubou os novilhos de seu irmão Apolo; sobre quando ajudou, com sua tamanha esperteza, seu tataraneto Odisseu a vencer o gigante Polifemo, entre demais peripécias. São histórias que ensinam sobre a mitologia grega e seus deuses – como o poderoso Zeus e a vingativa Hera, entre outros -, em um tom divertido e próximo do leitor, por conta da narrativa do faceiro Hermes. Ao final, um glossário apresenta a vida dos principais personagens do livro.

Profissão: repórter

Por Lira Neto


(Fotografia de Sioma Breitman. Cortesia de Samuel Breitman. Reprodução de Eneida Serrano.)

Apesar de estar longe das redações de jornal há mais de uma década, continuo essencialmente um repórter. Mesmo depois de seis livros publicados e duas estatuetinhas do Jabuti enfeitando a estante da sala, ainda tenho certo pudor de me identificar como “escritor”. Na portaria dos hotéis, à hora de preencher a ficha de identificação, sempre informo, sem titubear, no quadrinho relativo à profissão: “jornalista”.

Escrevo, na verdade, livros-reportagem. Faço mais jornalismo hoje do que quando trabalhava em jornal. Uma vez liberto dos dois maiores fatores de pressão que incidem sobre o texto de imprensa — o espaço em linhas cada vez mais curto e o tempo de apuração cada vez mais exíguo —, pude enfim me dedicar a investigações de longo fôlego, que me consomem anos de trabalho e exigem algumas centenas de páginas ao serem transpostas para o papel.

Porém, meus métodos, objetivos e ferramentas são os mesmos de todo repórter que se preza. Trata-se de construir e cultivar fontes confiáveis, pôr em dúvida toda e qualquer informação (não existe informação desinteressada, nunca é demais lembrar), entrevistar pessoas, desvendar segredos e tentar estabelecer conexões entre episódios aparentemente estanques. E, acima de tudo, descobrir e contar boas histórias. Em vez de escrever para meu deleite próprio ou por alguma espécie de necessidade artística, escrevo pensando na recepção, na necessária interlocução com o leitor.

Penso nisso agora mesmo, quando me preparo para ter o primeiro dos três volumes da biografia de Getúlio Vargas publicado pela Companhia das Letras. No caso da trilogia “Getúlio”, a exemplo dos meus livros anteriores, faço apenas o bom e velho jornalismo. E digo isso sem a mínima tentação de querer justapor ao substantivo“jornalismo” algum adjetivo mais pomposo — como “literário” — com o intuito de supostamente enobrecê-lo ou distingui-lo. A Companhia das Letras, aliás, tem uma belíssima coleção intitulada justamente “Jornalismo Literário”, onde podemos ler alguns textos de mestres e clássicos imbatíveis do gênero.

Prefiro definir meu trabalho simplesmente como jornalismo. Ponto. Substantivamente. Sem adjetivações. Tive isso em mente ao abraçar a longa pesquisa que tem me levado a mergulhar na vida de Getúlio e nos meandros históricos da chamada Era Vargas. É óbvio que tive de conhecer e rever a caudalosa bibliografia disponível sobre o personagem, ler e reler teses e dissertações acadêmicas, além de relatos memorialísticos, muitos livros de época, alguns hoje raros e esquecidos. Contudo, minha matéria-prima, por excelência, é composta por fontes primárias: cartas, telegramas, diários, jornais do período, fotografias, despachos diplomáticos, inquéritos policiais e judiciais. É isso que fornece o esqueleto e a musculatura de uma boa biografia.

É preciso uma paciência beneditina para vasculhar arquivos, sujar as mãos de pó, decifrar caligrafias garranchudas, passar semanas, meses, até mesmo anos inteiros na caça obsessiva de documentos que ajudem a preencher lacunas, confirmar hipóteses, suscitar novas interrogações.

É isso que busco. Sou movido pela curiosidade. Não corro atrás de verdades absolutas, de certezas peremptórias. Mesmo porque não acredito nelas. Minha profissão é indagar. Meu ofício é a dúvida. Sou repórter.

[O 1º volume da biografia de Getúlio Vargas tem lançamento previsto para 19 de maio. Para saber mais sobre a trilogia, acesse o hotsite: http://biografiagetuliovargas.com/]

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Lira Neto nasceu em Fortaleza em 1963. Jornalista e escritor, ganhou em 2007 o prêmio Jabuti de melhor biografia, por O inimigo do rei: Uma biografia de José de Alencar (Globo, 2006). Dele, a Companhia das Letras publicou, em 2009, Padre Cícero – Poder, fé e guerra no sertão, premiado com o Jabuti de segunda melhor biografia daquele ano. É autor também de Maysa: Só uma multidão de amores (Globo, 2007) e Castello: A marcha para a ditadura (Contexto, 2004).
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Semana noventa e sete

Os lançamentos da semana são:

O chefão dos chefões, de Vito Bruschini (Tradução de Federico Carotti)
Este livro se inscreve na melhor tradição dos romances de máfia, abrangendo um período que vai de 1919 a 1943, Vito Bruschini traça um painel da história e das tensões sociais que prepararam o surgimento da Cosa Nostra. A figura do príncipe Ferdinando Licata está no centro da trama, que começa num vilarejo da Sicília e se desloca para as ruas de Nova York. Conhecido como U Patri, “O Pai”, Licata é um grande latifundiário da região, temido e respeitado por todos. Ameaçado pela ascensão dos fascistas na Itália, ele se vê forçado a ir para os Estados Unidos, onde dará início a uma das organizações criminosas mais conhecidas do mundo. Personagens fictícios e gente real, como o famoso Lucky Luciano, são trabalhados habilmente nesta trama de intrigas em que não faltam os ingredientes indispensáveis ao gênero — suspense, violência, paixões e revelações inesperadas.

HHhH, de Laurent Binet (Tradução de Paulo Neves)
Himmlers Hirn heibt Heydrich: O cérebr0 de Himmler se chama Heydrich. Por si só, a sentença corrente entre os membros da SS permite vislumbrar os horrores vividos pela extinta Tchecoslováquia durante a ocupação nazista. Nomeado pelo Fürer o “protetor” da Boêmia-Morávia (atual República Tcheca), Reinhardt Heydrich — exímio violinista, devotado pai de família e implacável chefe da Gestapo — recebeu a tarefa de administrar com mão de ferro o território incorporado ao III Reich.  Ele logo se tornou um misto de vice-rei e ditador, com absoluto poder de vida e de morte sobre todos os tchecos. Prisões em massa, torturas e execuções sumárias passaram a integrar o cotidiano dos habitantes da capital, que apelidaram seu novo senhor de “o carrasco de Praga”. Neste livro híbrido de romance e relato histórico, premiado com o GOncourt de 2010, Laurent Binet reconstitui a trajetória dos heróis que organizaram o atentado fatal contra Heydrich em plena luz do dia numa rua de Praga, em maio de 1942.

Livro de receitas para mulheres tristes, Héctor Abad (Tradução de Sérgio Molina e Rubia Prates Goldoni)
Qual a receita do amor feliz? E da solidão feliz? Existe remédio para a culpa, para o medo da velhice, para a angústia sem nome? Como lidar com os desejos de grávida, com os desejos proibidos, com a falta de desejo? Há uma fórmula para recuperar o brilho no olhar e as cores do rosto? Héctor Abad dá aqui respostas insólitas, comoventes e divertidas para essas e muitas outras questões sobre os grandes males existenciais e as minúsculas mazelas cotidianas. Fala diretamente à mulher, cochichando como um bom irmão ou amigo do peito, mas convida o homem a ouvir por trás da porta. Tudo em textos breves e inclassificáveis, que ora se aparentam com receitas de cozinha, ora com conselhos sentimentais e simpatias, ora com o aforismo filosófico, o tratado de costumes…Um saboroso pot-pourri temperado com nonsense e poesia, com fortes poderes de consolação.

A cartuxa de Parma, de Stendhal (Tradução de Rosa Freire d’Aguiar)
Escrito em inacreditáveis 53 dias, no final de 1838, narra as descenturas de Fabrice del Dongo, um jovem vibrante, idealista e imaturo que decide se unir ao exército de Napoleão Bonaparte. O notável tratamento dado por Stendhal à batalha de Waterloo, por onde o protagonista vagueira sem saber que está no meio de um acontecimento importante, entusiasmou nomes como Tolstói (que assume a influência do romance sobre o seu Guerra e paz), Ernest Hemingway e conterrâneo Honoré de Balzac. Esta edição inclui introdução do jornalista literário britânico John Sturrock, que contextualiza o romance na conturbada biografia de Marie-Henri Beyle, verdadeiro nome do autor francês.

O homem cordial, de Sérgio Buarque de Holanda
O crítico, historiador e sociólogo paulista Sérgio Buarque de Holanda é um dos maiores intelectuais brasileiros no século XX. Autor de obras capitais, alguns de seus conceitos se tornaram modelos clássicos de interpretação de nossa história. Entre eles se destaca o do “homem cordial”, presente em Raízes do Brasil (1936), seu primeiro livro. Aqui o autor investiga as origens de uma forma de sociabilidade brasileira, mais afeita aos contatos informais e à negação das esferas públicas de convívio. Crítico, ele mostra como a “cordialidade” leva a uma relação problemática entre instâncias públicas e privadas. Este volume reúne, além de “O homem cordial”, outros momentos altos da produção intelectual de Sérgio Buarque de Holanda: “O poder pessoal” (da coleção História geral da civilização brasileira), “Experiência e fantasia” (de Visão do Paraíso, “Poesia e crítica” (de O espírito e a letra) e a”Botica da natureza” (de Caminhos e fronteiras). O conjunto é uma excelente introdução ao pensamento do autor, ou a oportunidade de voltar a esses textos fundamentais, que aliam o rigor metodológico do grande historiador e crítico à fluência narrativa do metre da língua.

Semana noventa e seis

Os lançamentos da semana são:

O talentoso Ripley, de Patricia Highsmith (Tradução de Alvaro Hattnher)
Tom Ripley sobrevive de trambiques em Nova York. Certo dia, o milionário senhor Greenleaf o procura, supondo que seja um grande amigo de seu filho Dickie. Greenleaf lhe oferece uma viagem à Europa para tentar trazer Dickie de volta aos Estados Unidos — o rapaz leva uma vida mansa no litoral italiano, longe da família. Na Itália, Ripley desenvolve uma relação doentia e sedutora com Dickie, que passa então a rejeitá-lo. Acuado, Ripley reage de forma imprevisível. O talentoso Ripley(1955) é um clássico da literatura policial. O livro ganhou duas versões para o cinema: com Alain Delon, em 1959, e com Matt Damon, em 1999.

Contra o dia, Thomas Pynchon (Tradução de Paulo Henriques Britto)
“Isso durou um mês. Aqueles que julgavam ser um sinal cósmico estremeciam ao olhar para o céu a cada entardecer, imaginando catástrofes cada vez mais extravagantes. Outros, para quem o laranja não pareia um tom adequado ao apocalipse, ficavam sentados em bancos de praça, lendo tranquilos, acostumando-se com aquele curioso brilho pálido. À medida que as noites foram se sucedendo e nada acontecia e o fenômeno em pouco tempo foi se reduzindo aos tons habituais de violeta, a maioria das pessoas já não se lembrava da tensão, da sensação de aberturas e possibilidades, que haviam experimentado antes, e mais uma vez voltaram a pensar apenas no próximo orgasmo, alucinação, estupor, sono, para que pudessem atravessar a noite e proteger-se contra o dia.”

Editora Paralela:

O Sinal — O Santo Sudário e o segredo da ressurreição, de Thomas de Wesselow
(Tradução de Berilo Vargas, Denise Bottmann e Donaldson M. Garschagen)
O que, afinal, foi essa faísca? O que inflamou o cristianismo? É esse mistério que me proponho a solucionar aqui. Depois de anos consultando fontes históricas, desvendando evidências científicas e analisando os Evangelhos, o historiador da arte Thomas de Wesselow chega a uma conclusão bombástica e reveladora sobre a origem do cristianismo — não sem antes nos conduzir por um passeio fascinante pela história da religião e narrar passo a passo os eventos que culminaram no fatídico Domingo de Páscoa.