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Svetlana Alexievich será publicada pela Companhia das Letras

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Foto: Zuma Press/Fotoarena

Quatro livros de Svetlana Alexievich serão traduzidos no Brasil pela Companhia das Letras. A jornalista foi laureada com o Nobel de Literatura de 2015 pela”obra polifônica, um monumento do sofrimento e da coragem em nosso tempo”.

Como escreveu o editor Leandro Sarmatz, “o Nobel de Literatura concedido semana passada à bielorussa Svetlana Alexievich tem o valor do ineditismo: pela primeira vez o escritor premiado não é poeta, dramaturgo ou ficcionista. Alexievich é jornalista. É uma autora, portanto, de não-ficção, esse gênero que já habitou arrabaldes movediços na periferia da grande literatura mas que hoje se torna protagonista no interior de uma série de manifestações culturais, da própria prosa de imaginação ao melhor cinema”.

Os títulos a serem lançados são “Time second hand”, “War’s Unwomanly Face”, “Last witnesses” e “Voices from Chernobyl”, ainda sem previsão de data para o lançamento.

Companhia das Letras publica os diários de Fernando Henrique Cardoso

Chega às livrarias em 29 de outubro, editado pela Companhia das Letras, o primeiro volume dos Diários da Presidência, de Fernando Henrique Cardoso. Trechos do livro serão antecipados na edição de número 109 da revista piauí, comemorativa de seu nono aniversário, nas bancas em 5 de outubro.

Gravados com frequência quase semanal durante os dois mandatos de FHC (a primeira entrada data ainda de 25 de dezembro de 1994, quando o presidente eleito mas não empossado reflete sobre a composição do ministério), os registros foram transcritos por Danielle Ardaillon, curadora do acervo da Fundação Instituto Fernando Henrique Cardoso, revistos pelo autor e pela editora, e serão organizados em quatro volumes bianuais (1995-6; 1997-8; 1999-2000; 2001-2). Os dois primeiros anos compreendem quase noventa horas de gravação, decupadas a partir de 44 fitas cassete.

Relato franco da prática política no Brasil, os Diários são a um só tempo documento histórico de valor inestimável e crônica cativante do exercício do poder. A editora planeja concluir a publicação dos Diários em meados de 2017.

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Lisbeth está de volta

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Depois de muita espera, finalmente A garota na teia de aranha chega às livrarias.

Hoje, 27 de agosto, é o dia do lançamento mundial do quarto livro da série Millennium, escrito por David Lagercrantz, que dá continuidade às histórias de Stieg Larsson publicadas há 10 anos. Na entrevista coletiva realizada ontem na Suécia, Lagercrantz confessou que “sentia medo de não estar à altura” dos três livros da série escritos por Larsson, mas a recepção, como mostram as resenhas do The New York TimesUSA Today The Guardian, garantem que a nova aventura de Lisbeth Salander e Mikael Blomkvist vai agradar aos novos e antigos leitores de Millennium. Quem se encantou com as personagens fortes e polêmicas em Os homens que não amavam as mulheresA menina que brincava com fogoA rainha do castelo de ar, com certeza não vai perder este novo capítulo da série.

Neste novo livro, Lisbeth e Mikael estão presos a uma teia de aranha mortífera e terão mais uma vez que unir forças, agora contra uma perigosa conspiração internacional. É tarde da noite quando Blomkvist recebe o telefonema de uma fonte confiável, dizendo que tem informações vitais aos Estados Unidos. A fonte está em contato com uma jovem e brilhante hacker — parecida com alguém que ele conhece. Blomkvist, que precisa de um furo para a revista Millennium, pede ajuda a Lisbeth. Ela, porém, tem objetivos próprios.

A seguir, leia a tradução da resenha publicada ontem no The New York Times, por Michiko Kakutani.

* * *

A garota na teia de aranha traz de volta a dupla de detetives de Stieg Larsson

Os fãs do cativante e estranho casal da ficção policial moderna criado por Stieg Larsson — a genial hacker punk Lisbeth Salander e o seu parceiro ocasional, o determinado jornalista investigativo Mikael Blomkvist — não ficarão desapontados com suas aventuras mais recentes, escritas não pelo criador dos personagens, Stieg Larsson (que morreu de um ataque cardíaco aos cinquenta anos, em 2004), mas por um jornalista e escritor sueco chamado David Lagercrantz. Apesar de haver alguns sobressaltos ao longo do romance, Salander e Blomkvist sobreviveram intactos à transição de autores e continuam tão atraentes quanto sempre foram.

Em A garota na teia de aranha, a dupla se envolve no caso do enigmático cientista da computação Frans Balder: um proeminente especialista em inteligência artificial que se vê enredado em uma trama global envolvendo a Polícia de Segurança Sueca, a máfia russa, espiões industriais do vale do Silício e interesses de segurança nacional dos Estados Unidos.

Os esforços de Lagercrantz para conectar crimes na Suécia a maquinações dentro da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA) são confusos e forçados — uma tentativa óbvia de capitalizar em cima das revelações de Edward Snowden sobre a agência e do debate a respeito dos seus métodos de vigilância. Por outro lado, os leitores de Os homens que não amavam as mulheres não foram arrebatados por conta da trama (fortemente baseada em clichês cinematográficos de serial killers), de sua plausibilidade ou da visão política anti-autoritarista de Larsson. Eles foram arrebatados pelo livro e pelos dois subsequentes — A menina que brincava com fogo e A rainha do castelo de ar — por causa do charme rude de Salander e Blomkvist e da química improvável entre os dois. E também porque Larsson foi tão hábil em retratar uma Suécia taciturna e com ares noir que transformou o estereótipo de uma Escandinávia limpa e resplandecente (onde as pessoas dirigem Volvos e compram móveis da Ikea) em uma terra de invernos longos, assombrada pelos fantasmas de Strindberg e Bergman.

Em A garota na teia de aranha, Langercrantz parece entender instintivamente o mundo que Larsson criou e os seus dois investigadores nada convencionais: Blomkvist, o repórter dedicado e honrado (e improvável sedutor de mulheres de meia-idade), e Salander, a garota hostil e machucada que parece uma versão raivosa e punk de Audrey Hepburn (se você conseguir imaginar Holly Golightly com tatuagens e piercings em vez da tiara), que luta com as habilidades arrasadoras da Lara Croft nos videogames.

Lagercrantz captura o cansaço, e até a vulnerabilidade, que se esconde por detrás da aparência de força desses dois personagens, e entende que eles são motivados por uma sede de justiça — Blomkvist por causa de um idealismo combativo, e Salander, de uma determinação para vingar o abuso que sofreu quando criança nas mãos do pai, Zala, um ex-agente da União Soviética que desertou e virou o comandante de uma vasta organização criminosa.

Assim como os romances anteriores, A garota na teia de aranha dá mais pistas sobre o passado de Salander, que lançam nova luz sobre como essa antiga vítima se tornou uma sobrevivente determinada e impiedosa, e foi capaz de se reinventar como uma espécie de super-heroína vingadora. De fato, a sua misteriosa gêmea Camilla, há muito desaparecida, ressurge aqui em algumas cenas exageradamente melodramáticas como sua arqui-inimiga, uma mulher bonita e perigosa que parece mais uma vilã de um filme de James Bond do que um ser humano de verdade.

Um personagem bem mais interessante e comovente é August, filho de Balder, um menino autista de oito anos de idade: um savant extraordinariamente talentoso como artista e matemático, mas severamente traumatizado pelos maus-tratos que sofreu do amante violento da mãe e quase incapaz de falar. August, que testemunhou o assassinato do pai e desempenha um papel crucial na busca pelo assassino, fará com que alguns leitores se lembrem do narrador autista do emocionante romance de 2003, O curioso incidente do cão a meia-noite, de Mark Haddon (posteriormente adaptado para o teatro e vencedor do Tony Award). Lagercrantz faz desse menino um personagem cativante. Seu sofrimento e suas habilidades excepcionais o transformam numa espécie de alter-ego de Lisbeth Salander, que usará toda a sua habilidade, toda a sua engenhosidade — em hackear, coletar informações e em sobreviver — para protegê-lo, quando os inimigos do pai do menino se lançam em sua caçada.

A garota na teia de aranha é menos sangrento e aterrorizante que os livros anteriores. Em outros aspectos, Lagercrantz parece ter canalizado — de maneira bastante hábil, em sua maior parte — o estilo narrativo de Larsson, misturando clichês do gênero com detalhes investigativos e originais, e concebe reviravoltas que lembram cenas dos romances de Larsson, com descrições muito bem pesquisadas sobre essa terra sem lei que é o lado obscuro da internet. É provável que a NSA tenha entrado na história em parte como um meio de prestar homenagem ao anti-autoritarismo de Larsson e sua visão sombria do poder do estado (desenvolvida de maneira mais completa em A rainha do castelo de ar, que abordava a corrupção política na Suécia e a conduta ilegal da Polícia Secreta).

E, ainda que o envolvimento da NSA com o caso investigado por Salander e Blomkvist nem sempre seja descrito por Lagercrantz de forma totalmente convincente, sua narrativa demonstra tanta segurança e agilidade nas sequências finas do livro que ele supera facilmente essas passagens mais dúbias.

Em vez de parar e analisar a plausibilidade de parte das conspirações interligadas em A garota na teia de aranha, o leitor vira as páginas com rapidez para ver como Salander e Blomkvist montarão as peças do quebra-cabeça do caso Balder (com grande ajuda de August). Nos perguntamos como as decisões tomadas por eles no calor do momento — em plena fuga ou sob ataque — lançam nova luz sobre quem eles são a esta altura de suas vidas. E, se a missão de cada um — no caso dele, desvendar a história de Balder; no dela, rastrear a organização criminosa comandada por seu pai odiado — os colocará em rota de colisão ou os irá transformar num par, romântico ou não, mais uma vez.

* * *

Leia um trecho exclusivo de A garota na teia de aranha

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A revolução dos bichos: 70 anos

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Há 70 anos, o mundo conhecia uma das maiores obras de George Orwell: A revolução dos bichos. Escrita em plena Segunda Guerra Mundial e publicada em 17 de agosto de 1945 depois de ter sido rejeitada por várias editoras, essa pequena narrativa causou desconforto ao satirizar ferozmente a ditadura stalinista numa época em que os soviéticos ainda eram aliados do Ocidente na luta contra o eixo nazifascista. Para marcar a data, selecionamos para o blog trechos de A vitória de Orwell, de Christopher Hitchens, livro em que se dedica à desconstrução das mitologias montadas em torno da vida e da obra de Orwell. Leia a seguir.

* * *

A revolução dos bichos foi, nas palavras de Orwell, “o primeiro livro em que tentei, com plena consciência do que estava fazendo, fundir intenção política e intenção artística em um todo”. O duradouro sucesso dessa empreitada reside em sua primorosa simplicidade e brevidade, mas também em uma incomum leveza. Um gracejo aparece logo no começo da revolução dos animais, quando “alguns presuntos, pendurados na cozinha”, são levados para fora e sepultados. Como o quadro inicial não é invariavelmente soturno, o gradual aparecimento de uma tragédia assume a devida proporção. As analogias são cativantes; cada animal é bem escolhido para seu papel, e ainda por cima todos são batizados com nomes excelentes.

[…]

Assim, o esquema de A revolução dos bichos deve sua profundidade e também sua simplicidade ao fato de que os animais não são todos iguais. Em um mundo de alegoria antropomórfica (no qual todos os homens são brutos), os animais podem ser diferenciados. Por exemplo, os porcos — que Orwell desprezava — pelo menos recebem notas altas pela inteligência, enquanto os cães — a quem ele muito admirava — são explorados e, por sua célebre lealdade, são aproveitados como impositores das regras. Orwell foi desde pequeno influenciado pela obra de Jonathan Swift, e seu fascínio pelas metáforas envolvendo criaturas não humanas (sem falar em sua obsessiva repugnância e sua incapacidade de afastar pensamentos ligados à sordidez) deve muito a esse autor. O limpo e honesto mundo dos Houyhnhnms em Viagens de Gulliver é parcialmente recriado em A revolução dos bichos; a morte do ferrenho e obtuso cavalo Sansão comove até mais — por causa da colossal inocência e mansidão do animal — do que a estrepitosa agonia final do elefante birmanês que Orwell matou na vida real.

* * *

Leia mais sobre A vitória de Orwell A revolução dos bichos.

60 anos sem Carmen Miranda

Impressionant Carmen Miranda de B-Toy; al carrer del Triangle.

Na madrugada 5 de agosto de 1955, Carmen Miranda sofreu um infarto enquanto estava sozinha em seu quarto, se preparando para dormir após uma noite se apresentando ao lado de Jimmy Durante para seu programa na TV. As últimas imagens da “pequena notável” que conquistou o Brasil e os EUA mostram ela sorrindo, mandando beijos para a câmera. Sessenta anos após a morte de uma das grandes artistas que o Brasil já teve, reunimos alguns trechos de sua história publicada em Carmen: Uma biografia, escrita por Ruy Castro.

No livro, o autor acompanha ano a ano a vida de Carmen — do nascimento da menina Maria do Carmo, numa aldeia em Portugal (e a vinda ao Rio de Janeiro, em 1909, com dez meses de idade), à consagração brasileira e internacional de Carmen Miranda e sua morte em Beverly Hills, aos 46 anos, vítima da carreira meteórica e dos muitos soníferos e estimulantes que massacraram seu organismo em pouco tempo.

Além dos trechos, também selecionamos alguns vídeos de Carmen Miranda em seus filmes e apresentações, incluindo sua última aparição, para ouvir novamente a voz da brasileira mais famosa do século XX.

Taí

“Conforme a história já muito contada, o educado e retraído Joubert de Carvalho, então famoso pela canção ‘Tutu marambá’, passava pela rua
Gonçalves Dias quando foi chamado pelo sr. Abreu, gerente de A Melodia, loja de discos e partituras ao lado da Confeitaria Colombo, para ouvir um disco que acabara de sair. O disco era ‘Triste jandaia’, com a desconhecida Carmen Miranda. Segundo Joubert, a audição lhe provocou uma sensação inédita: a de estar vendo a cantora, ‘como se ela estivesse dentro da vitrola’. Joubert fez Abreu tocar o disco várias vezes, sempre gostando mais, e lhe pediu que, um dia, o apresentasse à garota. Abreu respondeu que não haveria dificuldade nisso, porque Carmen, como muitos cantores e compositores, ia com freqüência à loja. O acaso então fez das suas, e Carmen em pessoa — maquiada, saltos altos, elegantíssima — entrou pela porta da Melodia.

‘Taí a nova cantora!’, exclamou Abreu.

Os dois foram apresentados e Joubert falou de seu interesse em compor algo para ela. Carmen, encantada, deu-lhe o endereço, e os dois se despediram. Joubert saiu da loja com uma palavra — ‘Taí’ — e uma melodia na cabeça. Menos de 24 horas depois, com a partitura debaixo do braço, tocou a campainha de Carmen na travessa do Comércio.

A porta se abriu lá em cima e Carmen surgiu no alto da escada, com um vestido caseiro, sem pintura e descalça. A princípio, Joubert não a identificou.

‘Sou eu mesma’, disse Carmen. ‘Você não está me reconhecendo porque estou sem a máscara de ontem. Vamos lá, suba!’

A música era uma marchinha, ‘Pra você gostar de mim’, não necessariamente carnavalesca. Não havia piano em casa—sintoma de pobreza numa família cheia de moças —, donde Joubert cantou-a para Carmen em seu estilo seresteiro:

Taí!
Eu fiz tudo pra você gostar de mim
Oh, meu bem, não faz assim comigo, não…

Carmen a aprendeu logo e, quando Joubert tentou orientar sua interpretação, ela disse, com um brilho no olhar:

‘Não precisa me ensinar, não, que, na hora da bossa, eu entro com a boçalidade.’

E, captando um certo choque no rosto do educado Joubert, logo se corrigiu:

‘Desculpe, mas eu sou assim mesmo, meio desabrida!'”

O que é que a baiana tem?

“Aos sessenta minutos cravados do primeiro ato, um cantor mexicano atacou uma rumba (!), acompanhado pela orquestra e pelas dezenas de ‘girls’ — Cesar explicaria depois que, segundo o diretor Edward Dowling, a rumba era para ‘marcar o contraste com o ritmo brasileiro’. Ao fundo, um letreiro começou a piscar anunciando o nome de um cabaré: Páteo Miranda. Finda a rumba, todo o elenco no palco gritou, como se a convocasse:

‘Miranda! Miranda! Miranda!’

Ouviu-se o ritmo do samba. Um lance de cortina, e os seis rapazes do Bando da Lua já apareceram tocando, como um batalhão de choque. Carmen, de baiana, surgiu entre eles, esbanjando malícia, sensualidade e graça em ‘O que é que a baiana tem?’. Os microfones camuflados no chão permitiam que ela cantasse, dançasse e evoluísse pelo palco com toda a liberdade — e Aloysio diria depois que, aquela noite, ali estava uma Carmen que ele próprio nunca tinha visto:

‘Os olhos não brilhavam: faiscavam. Seus movimentos pareciam ter sido preparados por uma Eleonora Duse.'”

Chica chica boom chic

“‘Chica chica boom chic’ era o número de abertura do filme. Carmen cantava a letra de Yaconelli em português (mais uma list song falando da Bahia), e Don Ameche, a letra em inglês de Mack Gordon. Entre as duas partes vocais, a música incluía uma dança combinando alguns vagos elementos de samba com as tradicionais evoluções em hollywoodês. O coreógrafo era Hermes Pan, 35 anos e muito respeitado por ter sido o braço (ou o pé) direito de Fred Astaire em seus nove filmes com Ginger Rogers na RKO. Mas Fred e Ginger tinham desfeito a dupla em 1939, e Zanuck levara Pan para a Fox. Pan vinha de uma família grega e seu nome completo era Hermes Panagiotopoulous — fizera bem em abreviá-lo. Pensando que Carmen, além de cantora, fosse dançarina, ele lhe criara marcações complicadas para “Chica chica boom chic”. E, pela primeira vez, ela se rebelou no estúdio da Fox.

Carmen reagiu às marcações de Hermes Pan. Tinha consciência de que não sabia dançar e precisava de liberdade para fazer os movimentos do samba. Para complicar-lhe a vida, disse a ele, já bastavam a baiana prateada, o turbante de penas e as plataformas de treze centímetros. Pan entendeu e deixou-a à vontade, dentro de certos limites. Mas, com habilidade, convenceu-a a aprender a rodopiar nos braços de um bailarino, ser jogada para o alto e cair de pé, graciosamente, na pontinha da plataforma. O resultado foi um take perfeito logo de primeira, incluindo o take de segurança, filmado simultaneamente por outra câmera.”

Give me a band and a bandana

“Aquele era o primeiro número de Carmen, bem no começo de Greenwich Village (no Brasil, Serenata boêmia), o filme que ela rodou na passagem de 1943 para 1944, menos de seis meses depois de ter quase morrido. Talvez por isso, e por ter se recuperado completamente, estivesse tão esfuziante nesse e em seus dois outros números musicais no filme: “I like to be loved by you”, de Harry Warren e Mack Gordon (uma canção que ficara de fora de Entre a loura e a morena), e “Give me a band and a bandana”, de Nacio Herb Brown e Leo Robin (em que ela interpolava “O que é que a baiana tem?”, de Caymmi, e “Quando eu penso na Bahia”, de Ary Barroso). O irônico era que Carmen enfim conseguira incluir “O que é que a baiana tem?” num filme americano, mas justamente quando já não tinha no corpo nem uma peça da baiana original — nem torço de seda, corrente de ouro e pano-da-costa, nem bata rendada ou saia engomada, nem mesmo bolotas ou balangandãs. Em lugar disso, o que ela tinha era o corte vertical da saia para mostrar as pernas — belas pernas, firmes, bem torneadas, resultado talvez dos muitos anos sobre as plataformas e melhores ainda que as da jovem Carmen —, mas sempre uma coisa típica de rumbeira. Era Carmen se rendendo à figurinista que ela mesma descobrira, a jovem Yvonne Wood.”

Tico-tico no fubá

“Com o fim da guerra e do ciclo de Carmen na Fox, os pósteros consideraram oficialmente encerrada a Política da Boa Vizinhança e a adulação dos Estados Unidos aos países latino-americanos. O marco seria a canção “South America, take it away”, música e letra de Harold Rome, para a revista musical Call me mister, e cantada e dançada por Betty Garrett. A letra exortava a América do Sul a levar de volta os sambas, rumbas e congas que tinham descadeirado os americanos durante a guerra.

Take back your samba
Ay, your rumba
Ay, your conga
Ay, yayay, yay!
I can’t keep shaking, ay
My rumble, ay
Any longer
Ay, yayay, yay
[…]
That’s enough, that’s enough, take it back!
My spine’s out of whack!
There’s a big crack in the back
Of my sacro-iliac!
Take back your conga
Your samba, ay, yay, yay
My hips are creaking, ay
And shrieking, ay
Caramba, ay, yay, yay!
I’ve got a wriggle and a diddle and a jiggle
Like a fiddle in my carcass
Holay!
South America, take it away!

O recado era grosseiro e inequívoco, mas certas coisas a América do Sul não podia levar de volta, porque não lhe pertenciam — a rumba e a conga, por exemplo, que eram originárias de Cuba. Além disso, era menos verdade que os americanos quisessem devolver tudo. Um dos sucessos de 1946 foi a canção “The coffee song (They’ve got an awful lot of coffee in Brazil)”, de Bob Hilliard e DickMiles, lançado na Copacabana revue, no nightclub de Monte Proser, e depois popularizada por Frank Sinatra. Também naquele ano, uma lasciva canção
de Arthur Schwartz e Leo Robin, “A rainy night in Rio”, emergiu de um filminho da Warner intitulado Um sonho e uma canção (The time, the place and the girl) para uma bonita carreira-solo. Ainda em 1946, um antigo choro brasileiro, “Tico-tico no fubá”, de Zequinha de Abreu, já apresentado (com letra de Aloysio de Oliveira) nos filmes Alô, amigos! e Escola de sereias, entraria de vez para o repertório americano ao ser cantado por Carmen a duzentos por hora no filme Copacabana, que ela rodaria no segundo semestre — e “Tico-tico”, sim, era tão de descadeirar que seria gravado até por Charlie Parker.”

Disseram que voltei americanizada

“Alguns se perguntavam como, menos de dois meses depois da maior humilhação de sua vida, Carmen podia estar voltando ao mesmo palco onde aquilo acontecera. E se o fiasco se repetisse? Mas, dessa vez, Carmen sabia que não podia dar errado. Nada de black-tie, de gente do governo ou de bandeirinhas verde-amarelas. Em vez disso, lá estaria o seu público, vestido como pudesse. Como cenário, um painel mostrando uma série de Carmens em efeitos luminosos. E ela própria estava com o gogó tinindo. Quanto à reação da platéia, já tivera uma prova na véspera, à tarde, durante o último ensaio — assistido por dezenas. Ao entrar no palco na noite de estréia, sabia-se amada como sempre.

Mas não se esquecera da agressão, e seu novo repertório continha sambas que comentavam o seu status de sambista brasileira desafiado pelos bobocas: ‘Disseram que voltei americanizada’,

Mas pra cima de mim, pra que tanto veneno?
Eu posso lá ficar americanizada?
Eu que nasci com o samba e vivo no sereno
Tocando a noite inteira a velha batucada.
Nas rodas de malandro, minhas preferidas
Eu digo é mesmo ‘Eu te amo’, e nunca ‘I love you’
Enquanto houver Brasil, na hora das comidas
Eu sou do camarão ensopadinho com chuchu

A última apresentação de Carmen Miranda

“Fim do primeiro bloco e intervalo para trocar de roupa. Meia hora depois, Carmen voltou, já com a fantasia para a sequência num nightclub em que, durante cinco minutos ininterruptos, dançaria com Jimmy e coro misto um frenético medley de ritmos de fox, samba, tango e mambo. Um número que exigiria tudo dos dois. As câmeras já estavam rodando e, em dado momento, quando Jimmy se virou para contracenar com o coadjuvante Eddie Jackson, os joelhos de Carmen se dobraram e ela perdeu as pernas.

Claudicou, quase caiu — e só não caiu porque segurou a mão de Jimmy. Recobrou-se num instante e disse, fora do roteiro, mas ao perfeito alcance dos microfones:

“Fiquei sem fôlego!”

Carmen sorriu, como se imensamente grata pelo fôlego lhe ter voltado — como se isso não estivesse entre os seus direitos de ser vivo. Na sequência, cantou o rapidíssimo “Cuanto le gusta” sem perder um segundo de velocidade.

Imagens estáticas depois retiradas do filme e muito ampliadas mostraram que, quando Carmen dobrou os joelhos, seus olhos se reviraram por um segundo. A boca adquiriu um desenho que nunca tivera. Seus olhos e sua boca, e toda a sua expressão naquele segundo, já eram os da morte. Especulou-se que Carmen tivera ali um colapso. Mas ela não levou a mão ao peito nem se queixou de dores — disse apenas que tivera “falta de ar”. Tudo indica que tenha tido um forte descompasso cardíaco, uma arritmia, como a de dez anos antes. Ou como a que tivera em Las Vegas no outro dia, como a da queda em sua casa, e como outras que podem ter acontecido e de que ela não deixou que se tivesse conhecimento — pequenos avisos de que havia um grande vulcão preparando-se para a erupção fatal. A cada descompasso, seu coração perdia uma ou mais batidas — que viriam a lhe fazer falta muito em breve.

Mais um corte, mais uma pausa, e o cenário do programa voltou para o apartamento de Jimmy. Era o encerramento. Carmen, cansada, mas contente, aparece saindo de costas por uma porta, dançando com o Bando da Lua, jogando beijos e despedindo-se de Jimmy, do público e da vida.

Quem mais teria esse privilégio, de despedir-se com uma imagem em que joga beijos?”