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Carol Brown Janeway

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É com tristeza que informamos que acaba de falecer Carol Brown Janeway, uma das maiores amigas de Luiz Schwarcz e da Companhia das Letras.

Carol Brown foi editora e vice-presidente da Knopf, além de ser uma tradutora premiada, conhecida por difundir a literatura estrangeira nos EUA. Traduziu trabalhos de Bernhard Schlink, Thomas Bernhard, Daniel Kehlmann, Sándor Marai, entre outros, e publicou autores como José Donoso, do Chile, Ivan Klima, da República Tcheca, e Margriet de Moor, da Holanda. Ganhou os prêmios Friedrich Ulfers Prize pela sua contribuição à literatura alemã e o Ottaway Award 2014 pela promoção da literatura internacional, prêmio que foi entregue por Luiz Schwarcz.

“Carol Brown Janeway é uma das minhas melhores amigas pessoais e da área editorial. Quem conhece seu trabalho entende por que eu digo que não há muitas Carols Janeways no mundo. Ela tem um dos maiores corações que conheci”, disse Schwarcz no discurso de entrega do prêmio, publicado no blog em outubro de 2014 e que você pode ler aqui novamente — ou ler na íntegra a seguir.

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Há um tempo, fui convidado para participar da cerimônia de um prêmio completamente diferente deste. Foi uma cerimônia para premiar alguém como o “homem do ano”, e o vencedor foi um importante empresário brasileiro, amigo meu. O evento correu muito bem, até o momento no qual ele deveria fazer o discurso. Quando o “homem do ano” foi ao microfone e começou a falar, tivemos uma surpresa. Em vez de mencionar todas as suas conquistas nas companhias por onde passou, começou a descrever o primeiro quadro de arte que comprou para sua coleção pessoal. Ele é um importante colecionador da arte modernista brasileira. O quadro, que descreveu em detalhes, era uma paisagem deslumbrante do mar, do artista Pancetti, pintor e marinheiro um homem simples, que fazia parte do partido comunista brasileiro. Suas obras são vistas como um tesouro da arte brasileira modernista figurativa.

A pintura é, sem dúvida, incrível: o mar ocupa a parte inferior do quadro, cerca de um terço, ou mesmo um quarto da tela. Alguns pequenos barquinhos são vistos no horizonte do oceano, e o mar, azul esverdeado, combinado com a luz do azul puro do céu; causam uma forte impressão no observador. Um pouco abaixo, vemos uma extensão de areia que ocupa o restante da obra. O artista sabiamente levou em consideração o que é realmente especial nas praias do Brasil: a areia. Em primeiro plano, muito maior que os barcos e navios, mas ao mesmo tempo com discrição, uma vez que se trata de uma pintura minimalista, vemos algumas pequenas folhas de capim que cresceram na extensão da areia.

Pois bem: ninguém estava entendendo qual era o sentido daquele discurso, especialmente quando ele começou, evidentemente emocionado, a perguntar ao público: “Por que aquele capim cresceu na areia? Alguém poderia me explicar? Capim em terreno árido… como? Por quê?”. A esta altura da noite, o apresentador precisou intervir e retirar o microfone da mão do meu amigo. Começou a fazer o discurso que se esperava do homenageado, listando as empresas que ele comprou, os resultados de seus trabalhos – chegando até mesmo a mencionar sua coleção de arte, mas apenas como resultado de uma vida bem sucedida, possível graças ao mundo dos negócios e de sua dedicação a ele.

Creio que nunca conheci ninguém que ama tanto a literatura como este meu amigo. Então, possivelmente, fui o único a entender o que o “homem do ano” dizia. A importância de coisas que são inesperadas, num mundo onde tentamos constantemente prever tudo, desde o tempo até as emoções. O capim que nasceu na areia seria, para meu amigo, uma metáfora sobre as coisas que realmente importavam a ele. Uma metáfora sobre arte, e especialmente sobre literatura, paixão que carrega até hoje.

Se o discurso era totalmente fora de lugar, acho que isso só reforça a minha interpretação de onde meu amigo gostaria de chegar. A força da arte e, principalmente, da literatura, reside na possibilidade de nos levar para lugares distantes, diferentes daquele onde devemos estar. Através da da liberdade de expressão e da criatividade dos escritores quebramos obstáculos, saltamos fronteiras. Com eles podemos nos transformar em outras pessoas, com eles nos unimos para, ao ler um livro, sermos um só narrador. O verde encontrado na areia da tela e aquele discurso talvez representem a melhor metáfora para a literatura que já pude ouvir. Metáfora que teria sido bem melhor interpretada e compreendida hoje à noite, quando tenho a enorme honra de entregar o Ottawa Award para minha querida amiga Carol Brown Janeway.

Carol Janeway é uma das melhores editoras e tradutoras do mercado editorial contemporâneo. Por conta de seu trabalho, leitores tiveram acesso a obras de diversos países, culturas e línguas. Ela própria traduziu trabalhos de Bernhard Schlink, Thomas Bernhard (curiosamente a grande diatribe contra prêmios literários), Daniel Kehlmann, Sándor Marai, entre outros. Ela publicou autores como José Donoso, do Chile, Ivan Klima, da República Tcheca, e Margriet de Moor, da Holanda.

Se eu disse que uma das principais razões para a existência da literatura é a capacidade de nos fazer viajar dentro de nós, e também para outros países, tempos e culturas, então a importância de Carol no mercado editorial de hoje é inimaginável. Não há outras como ela por aí, e nem mesmo pessoas que são metade do que Carol é. Poucos tradutores ou editores chegam perto de sua mente, uma das mais abertas que conheço. Poucos conseguiram nos levar a praias tão distantes, onde um capim cresce, inesperadamente.

Se tenho razão quando digo que, ao ler um livro, autor e leitor tornam-se um único narrador da história, e que ficção depende, talvez na mesma proporção, da imaginação do leitor tanto como do autor, reconheço a tarefa de um tradutor que precisa lidar com línguas estrangeiras, e de um editor, assim como de todos os mediadores dessa união entre o autor e o leitor, que abrem caminhos para preciosidades que parecem tão distantes. Sim, tradutores e editores de literatura estrangeira possuem uma tarefa gigantesca. Sem o trabalho de pessoas como Carol, nossa jornada a locais áridos, onde o milagre do verde acontece, não seria possível. Um tradutor e editor precisa ter um grande coração. Um coração aberto a surpresas, um coração que está sempre disposto a levar outra pessoa a um lugar diferente.

Comecei a minha editora brasileira há exatos 28 anos e um dia, na minha primeira visita a Knopf, em 1986, acho que Carol ainda não estava lá. Eu fui a Nova York e me encontrei com a ex-responsável pelo setor de venda de direitos de tradução. Disse a ela que iria abrir a minha própria editora. Tinha 30 anos na época. A mulher, muito gentil e que veio a tornar-se uma grande amiga, me fez algumas perguntas:

Há algum livro de nosso catálogo que você gostaria de comprar?

Sim respondi , gostaria de publicar uma coleção de poemas de Wallace Stevens.

COMO? ela respondeu. Você deve ter muito dinheiro para jogar pela janela. Ou é maluco!

O livro de Wallace Stevens foi publicado e acho que está na quarta reimpressão. Imagino que Carol, no nosso primeiro encontro em Frankfurt, alguns anos depois do ocorrido, foi checar os livros que comprei da Knopf e, em vez de questionar o dinheiro que desperdicei, me adotou. Passei a fazer parte de um grupo privilegiado de pessoas que a encontram duas ou três vezes por ano, editores que a procuram para saber onde podem achar novas surpresas, quais fronteiras podem cruzar juntos, quais limites não devem respeitar.

Carol Brown Janeway é uma das minhas melhores amigas pessoais e da área editorial. Quem conhece seu trabalho entende por que eu digo que não há muitas Carols Janeways no mundo. Ela tem um dos maiores corações que conheci. Ela merece este e todos os prêmios do mundo. Estou emocionado e me sinto honrado em ser a pessoa que lhe entrega este prêmio. Obrigado, Carol, por ser a pessoa que é e por me acolher entre os seus amigos. Por favor, continue a nos mostrar o caminho para o inesperado.

Star Wars na Seguinte

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Atenção, jovens padawans!

A editora Seguinte lançará no segundo semestre de 2015 duas séries inéditas que se passam no universo de Star Wars. Voltados aos jovens leitores e a todos os fãs que não aguentam mais esperar pelo próximo filme, os livros apresentarão algumas histórias conhecidas de um jeito totalmente novo, assim como aventuras inéditas de Han Solo, Leia e Luke Skywalker.

Setembro: novelizações

A princesa, o cafajeste e o garoto da fazenda, de Alexandra Bracken
(Novelização do episódio IV, Uma nova esperança)

Então você quer ser um Jedi?, de Adam Gidwitz
(Novelização do episódio V, O Império contra-ataca)

Cuidado com o lado sombrio da força!, de Tom Angleberger
(Novelização do episódio VI, O retorno de Jedi)

Cada um dos três volumes consiste em um episódio da trilogia clássica recontado especialmente para os jovens por um autor de destaque entre o público juvenil.

Outubro e novembro: aventuras inéditas

Esses livros trazem histórias originais e incluem, ainda, dicas e pistas sobre o próximo filme, Star Wars: O despertar da força. São leituras obrigatórias para os fãs que acabaram de chegar e também para os mais antigos!

Nos três primeiros volumes, Han Solo, princesa Leia e Luke Skywalker estão de volta em aventuras inéditas que revelam o que aconteceu com os heróis entre Uma nova esperança e O Império contra-ataca:

A missão do contrabandista: uma aventura de Han Solo, de Greg Rucka

A arma de um Jedi: uma aventura de Luke Skywalker, de Jason Fry

Alvo em movimento: uma aventura da princesa Leia, de Cecil Castellucci

Já em Estrelas perdidas, de Claudia Gray, os jovens adultos terão uma visão geral dos principais eventos do universo Star Wars, desde o estopim da Rebelião até a queda do Império, através dos olhos de dois amigos de infância — Ciena Ree e Thane Kyrell — que cresceram e se tornaram, respectivamente, uma oficial do Império e um piloto da Aliança Rebelde. Agora em lados opostos da guerra, será que esse casal apaixonado poderá ficar junto? Ou seu dever acabará por destruir esse romance — e toda a galáxia? O livro traz, ainda, conteúdo inédito sobre o que se passou depois de O retorno de Jedi.

Nos vemos no segundo semestre.

Que a Força esteja com vocês!

Sobre Editora Seguinte

Selo juvenil do Grupo Companhia das Letras, fundado em 2012 com foco em aventura, romance e literatura pop. Entre seus autores estão Kiera Cass, Lemony Snicket, Cornelia Funke e John Boyne.

Sobre a Lucasfilm Ltd.

Lucasfilm Ltd., uma subsidiária integral da The Walt Disney Company. STAR WARS e todas as propriedades relacionadas são marcas registradas tanto nos Estados Unidos quanto em outros países, de Lucasfilm Ltd. e/ou afiliados. © &TM 2015 Lucasfilm Ltd. Todos os direitos reservados.

O restabelecimento das relações diplomáticas entre Cuba e Estados Unidos

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Passadas mais de cinco décadas de inimizade e tensão entre Estados Unidos e Cuba, as duas nações retomam oficialmente hoje, 20 de julho, as suas relações diplomáticas. Foi reaberta pela manhã em Washington a embaixada cubana no mesmo casarão de 1916 que ocupara antes do rompimento ocorrido em janeiro de 1961. A cerimônia de abertura teve a presença do chanceler cubano, Bruno Rodríguez, que também tem um encontro com o secretário de Estado dos Estados Unidos, John Kerry, para um pronunciamento à imprensa. O marco histórico consolida o intenso processo de negociações entre os dois países, iniciado em dezembro do ano passado.

Em entrevista ao Blog da Companhia das Letras, o jornalista e escritor Jon Lee Anderson comemora o que considera uma “grande vitória do governo Obama”, avalia o impacto da retomada dos laços diplomáticos entre Cuba e Estados Unidos para a América Latina, incluindo o Brasil, e defende que o retorno à normalidade na vida de milhões de cubanos só estará completo com o fim do bloqueio econômico à ilha.

Jon Lee Anderson é autor Che, uma biografia, publicado originalmente em 1997 pela Objetiva, e eleita, na ocasião, o livro do ano pelo New York Times. A obra ganhou uma reedição revisada em 2012, que inclui uma nova introdução, mapas revistos e uma cronologia atualizada do ícone latino americano. No epílogo, Lee Anderson reflete sobre a América Latina nos dias de hoje e avalia a imagem de Che quase quarenta anos depois de sua morte. Em 2016, o jornalista entregará seu próximo ambicioso projeto, a biografia de Fidel Castro, que, no Brasil, será também lançada pela Objetiva.

Leia a entrevista.

O presidente Obama tem recebido críticas nos Estados Unidos e no exterior em relação à sua política internacional para a Rússia e o Oriente Médio. Como você avalia o impacto do restabelecimento das relações diplomáticas entre os Estados Unidos e Cuba dentro desse contexto?

Acredito que o restabelecimento da relação entre Cuba e os Estados Unidos é, de imediato, benéfico para os dois países. Os benefícios econômicos para Cuba são óbvios e representam também uma melhora no ânimo da população em geral. Ocorrerá o mesmo, é claro, quando o embargo for totalmente derrubado. A reaproximação deu também um novo impulso ao governo cubano, por ter sobrevivido à política de isolamento imposta pelos Estado Unidos. Em termos internacionais, o restabelecimento é simbolicamente muito positivo para a imagem dos Estados Unidos — que há décadas é visto, na maior parte do mundo, como o valentão que usa sua política internacional para fazer bullying com a “pequena” Cuba.

Em relação à visão que se tem sobre o governo Obama, se ele é encarado como fraco ou obstinado, não se pode abordar a abertura entre Estados Unidos e Cuba sob o mesmo prisma com que se avalia a relação com o Oriente Médio ou com a Rússia. Cuba já não oferece mais perigo em potencial aos Estados Unidos, o que não é possível argumentar em relação ao Iraque, ao Irã, à Síria ou à Ucrânia. A reaproximação foi uma grande virada do governo Obama. A Casa Branca não só surpreendeu os adversários republicanos dentro do país, como também os estrangeiros. Países como a Venezuela e a Rússia vieram correndo desesperados para Havana para assegurar que seus interesses e seu relacionamento com Cuba ainda estão em boas condições. Para o governo Obama, trata-se de uma grande vitória.

A retomada dos laços diplomáticos entre Cuba e os Estados Unidos, anunciada em dezembro de 2014, vem recebendo grande atenção da imprensa latino-americana. Qual será o impacto na América Latina? Você acredita, por exemplo, que a influência do atual governo da Venezuela no continente perderá força? O Brasil mantém uma relação próxima com Cuba e realizou grandes investimentos nesse país. O Brasil perderá sua influência na ilha?

Para o resto da América Latina, a reaproximação entre os Estados Unidos e Cuba é, de modo geral, algo positivo. O retorno de Cuba à família das nações das Américas com a aprovação dos Estados Unidos, levando em consideração o sectarismo e a politicagem barata que persistiram em decorrência do quadro anterior, é uma ótima notícia. De fato, isso representa um desafio para os países que tentaram se beneficiar econômica e diplomaticamente do status quo anterior.

Cuba não será mais o alvo fácil de governos latino-americanos que procuram difamar levemente Washington sem arcar com nenhuma consequência. E, no que diz respeito ao tratamento preferencial concedido por Havana para comércio ou projetos de investimento, haverá um novo espírito de competição que só pode favorecer o país, ao dispor de mais opções de escolha. É provável que os Estados Unidos também se beneficiem dessa situação, como se fossem um novo pretendente belo e rico ocupando a mesma varanda em Cuba que os antigos noivos, como Brasil, Argentina, Venezuela e México. À luz das revelações em andamento sobre corrupção, se você for escolher hoje um parceiro estrangeiro para um projeto prioritário de infraestrutura, ainda escolheria a Odebrecht? Países da América Latina, como o Brasil, terão que melhorar consideravelmente para permanecer no jogo. Mas, conhecendo os cubanos, especialistas em hospitalidade, duvido que alguma das partes saia perdendo completamente.

A reabertura das embaixadas de Cuba nos Estados Unidos e vice-versa está programada para 20 de julho. Quais serão as mudanças na vida de milhões de cubanos a curto prazo? E a longo prazo?

A curto prazo, cubanos e americanos estarão, de repente, em pé de igualdade tanto do ponto de vista político quanto do diplomático, e não serão mais “inimigos”. Americanos e cubanos poderão circular com bastante facilidade, como vizinhos “normais”. Isso representa uma mudança incrível para os cidadãos de ambos os países, especialmente para os cubanos, que já viveram tão isolados, a ponto de, para chegar a qualquer lugar na região, vamos dizer o Brasil, terem que voar primeiro para Praga.

Enquanto o embargo ainda estiver em vigor (isso terá que ser votado no Congresso dos Estados Unidos), a transformação será incompleta, mas as etapas desse processo que dependiam do governo Obama já foram realizadas, e a atividade econômica em Cuba já aumentou consideravelmente diante do iminente término do embargo. A ilha, já em tendência de alta econômica, tem experimentado um impacto psicológico impressionante na expectativa dos cubanos sobre o futuro. Os cubanos saíram de uma situação em que não tinham expectativa alguma de futuro próspero para agora contarem com um, e isso já vale muito.

A longo prazo, ainda haverá muitos desafios, mas de forma geral, acredito que os efeitos que acabo de descrever como de curto prazo passarão por uma evolução, um amadurecimento e um aprofundamento e se tornarão efeitos de longo prazo decorrentes dessas mudanças momentâneas. Acredito que uma das principais questões para os cubanos será manter a abertura e ainda assim permanecer fortes e unidos para preservar um senso nacional de equilíbrio e soberania cultural, enfrentando face a face o monstro destruidor americano.

É pública a informação de que planeja lançar em 2016 a sua biografia sobre Fidel Castro, que, no Brasil, será editada pela Objetiva. Fidel desempenhou algum papel relevante durante esse processo histórico? Qual?

Fidel desempenhou o papel do antigo chefe de Estado cético diante da última reviravolta do drama na história cubana ao expressar sua lealdade ao irmão e aos guardiões recém-indicados da revolução que ele ajudou a guiar por tanto tempo, mas também exprimiu seu receio em relação aos americanos. Nesse sentido, Fidel é o maior representante da voz da velha guarda conservadora de Cuba, que teme perder o controle da situação como resultado do retorno dos americanos à ilha. A presença persistente de Fidel e seu enorme simbolismo, ainda que com menos autoridade, permitem a Raúl justificar certa precaução em proceder tão rapidamente, e também, é bem possível, em pisar no freio de quando em quando.

 

Por que Millennium continua

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Quando foi anunciado que seria lançado um novo volume da série Millennium, A garota na teia de aranha, muitos se perguntaram o motivo de continuar publicando, após a morte de Stieg Larsson, novas histórias de Lisbeth Salander. Joakim e Erland Larsson, pai e irmão de Stieg, escreveram uma carta para explicar aos fãs da série como será essa continuação. Leia a seguir na íntegra a carta da família de Stieg Larsson.

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Agosto marca o aniversário de dez anos da publicação de Os homens que não amavam as mulheres na Suécia. Foi o começo de uma das maiores histórias de sucesso literário sueco de todos os tempos. Até hoje, os três romances da série Millennium venderam em torno de 80 milhões de cópias em 48 idiomas ao redor do mundo. Todos os anos turistas de diversos países viajam a Estocolmo para seguir os passos de Lisbeth Salander e Mikael Blomkvist.

Maior do que isso é a nossa tristeza por nosso filho e irmão Stieg Larsson não ter tido a chance de testemunhar este sucesso fenomenal. Menos de um ano antes da publicação do primeiro livro ele faleceu, rápida e inesperadamente. Foi, é claro, uma dor insuperável perder alguém querido tão de repente. Além disso, o fato de não termos conseguido chegar a um acordo amigável com a parceira de Stieg, Eva Gabrielsson, permanece como uma ferida aberta para todos os envolvidos.

Após a morte de Stieg, nós, seu pai e irmão, herdamos os direitos de seu espólio literário. Uma vez que Eva Gabrielsson se recusou a cooperar conosco em relação ao legado de Stieg, nós somos os únicos responsáveis por decidir como as obras dele podem ser usadas.

Concordamos que David Lagercrantz escrevesse sua própria sequência independente para a série Millennium. Em agosto, bem a tempo do décimo aniversário do primeiro romance, A garota na teia de aranha chegará às livrarias. O livro será traduzido e lançado simultaneamente em pelo menos 35 países. Leitores de todo o mundo poderão viver novas aventuras com os protagonistas Lisbeth Salander e Mikael Blomkvist. Nós sabemos que muitos estão ansiosos por isso.

A decisão de publicar um quarto livro na série Millennium foi recebida com críticas por algumas pessoas. Uma das objeções é que seria antiético permitir que outro autor escreva uma sequência baseada nos personagens de um autor falecido. Também foi sugerido que o principal objetivo desta publicação fosse o lucro. Stieg teria se oposto se estivesse vivo, alguns afirmaram.

Nós respeitamos o fato de que outras pessoas têm suas opiniões sobre como escolhemos administrar o legado de Stieg. Mas em um ponto, porém, os críticos estão indiscutivelmente errados: no de que isto foi feito para ganhar um dinheiro rápido. Desde o princípio, deixamos claro que qualquer lucro que obtivermos com A garota na teia de aranha irá diretamente para a revista antirracista Expo, da qual Stieg foi cofundador.

Desde a morte de Stieg, a Expo recebeu 18 milhões de coroas suecas da renda gerada pelas vendas da trilogia Millennium. Ao longo dos últimos anos, o nível de apoio financeiro recebido tem ficado, em média, em torno de 2 milhões anuais. Graças à receita gerada por A garota na teia de aranha, a Expo vai se beneficiar com um capital adicional no valor de vários milhões de coroas suecas. Numa sociedade em que o racismo e a xenofobia estão em ascensão, sua causa parece mais urgente do que nunca.

Apesar disso, é verdade que as editoras poderão, naturalmente, ganhar dinheiro com A garota na teia de aranha. O que nos parece um bom negócio, já que a renda e a lucratividade geradas por publicações bem-sucedidas são essenciais para manter uma indústria editorial forte e dinâmica. Consideramos ainda que ainda Norstedts e as editoras internacionais de Stieg trataram suas obras e seu falecimento prematuro com grande dignidade. Caso contrário, nós jamais teríamos aprovado uma sequência independente para a série Millennium.

Nós nos orgulhamos do que Stieg criou com seus romances. Enxergamos uma oportunidade de permitir que seus personagens e histórias continuem vivos na sequência de David Lagercrantz. Sua maestria literária é célebre, e ele demonstrou perspicácia e empatia ao dar voz a pessoas como Göran Kropp, Alan Turing e Zlatan Ibrahimovic. Não conseguimos pensar em um autor melhor para esse projeto.

David Lagercrantz assinou o romance com seu nome, como ficará perfeitamente claro em todos os materiais de venda, incluindo a capa do livro. Afirmar que estamos tentando vender A garota na teia de aranha como se fosse uma obra de Stieg não faz o menor sentido.

Vale lembrar que a história da Literatura está repleta de exemplos de sequências escritas após a morte do criador original dos personagens, do James Bond de Ian Fleming à Agatha Christie de Sophie Hannah.

Nós esperamos e acreditamos, ainda, que a publicação de A garota na teia de aranha contribuirá para despertar um interesse renovado nos títulos da série Millennium escritos pelo próprio Stieg.

Como herdeiros, não podemos nos esquivar da responsabilidade associada à administração de seu legado. Nós sabemos que Stieg esperava — e sentia — que a trilogia Millennium estivesse destinada a um grande sucesso comercial, e agora tomamos a decisão de permitir que David Lagercrantz continue a esta missão.

Joakim Larsson

Erland Larsson

Publicado originalmente no Expressen no dia 21 de junho de 2015. 

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A garota na teia de aranha chega às livrarias no dia 27 de agosto. Assine nossa newsletter para receber novidades sobre a série Millennium.

Liberdade para as biografias

Por Roberto Feith

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O Supremo Tribunal Federal aprovou ontem com unanimidade a liberação das biografias não autorizadas. Com isso, não é mais necessário a autorização prévia do biografado ou de sua família para a produção e publicação de suas biografias, dando liberdade para escritores, pesquisadores, jornalistas e editores de escreverem e divulgarem suas histórias. Roberto Feith, diretor do Grupo Companhia das Letras e representante da Associação Nacional de Editores de Livros, comemorou o resultado da votação do STF. Leia a seguir o comunicado oficial da ANEL.

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Hoje, os brasileiros reconquistaram o direito de livre acesso ao conhecimento sobre a sua História. A Associação Nacional dos Editores de Livros gostaria de expressar seu reconhecimento pela atuação firme, equilibrada e lúcida do Supremo Tribunal Federal, e em especial pela Ministra relatora Carmen Lúcia, na Ação Direta de Inconstitucionalidade que movemos relativa à censura prévia de biografias independentes, ou não autorizadas.

Esta decisão vem coroar três anos de empenho da ANEL e de muitos brasileiros pela plena liberdade de expressão no caso das biografias. Quando demos entrada na ADIN, em julho de 2012, não poderíamos imaginar que a ação terminaria por deflagrar um amplo e vibrante debate público sobre a questão, ocupando espaço importante nos meios de comunicação. Participaram intensamente dessa discussão, além de editores, escritores, juristas, intelectuais, jornalistas, políticos, artistas e representantes das mais diversas atividades e regiões do país. Foi um exemplo de democracia em ação, fundamentado na pluralidade de pontos de vista e ampla liberdade para a expressão de opiniões diversas.

O processo foi vital para aumentar o interesse e o conhecimento dos brasileiros sobre a questão, o que resultou na cristalização do pensamento de uma ampla maioria pelo fim da necessidade de autorização prévia e da censura às biografias independentes. A decisão do Supremo, fundamentada nos preceitos constitucionais, coroa e conclui a reflexão da sociedade sobre a liberdade para biografias. A decisão também abre um novo capítulo na produção da historiografia nacional e no acesso da sociedade brasileira ao conhecimento sobre as trajetórias e circunstâncias de vida dos protagonistas de sua história.

Estamos certos de que agora, historiadores, pesquisadores e escritores darão continuidade a inúmeras obras adiadas ou interrompidas como consequência das limitações erroneamente impostas às biografias independentes. Sempre confiamos que o Brasil não se conformaria a ser um país restrito às biografias autorizadas e hoje celebramos o fim desta distorção das nossas tradições e normas legais.

É sempre oportuno lembrar que o direito que a ANEL defende, e que os brasileiros reconquistaram em sua plenitude, é o de pesquisar, escrever e publicar informações verídicas, consistentes, apuradas de acordo com os melhores critérios acadêmicos, jornalísticos e editoriais. A publicação de informações falsas ou sem consistência continua passível das sanções legais e criminais, tal como deve ser. Todo direito implica em responsabilidade, e os editores brasileiros estão cientes das suas obrigações e comprometidos com o exercício responsável do seu ofício.

Finalmente, a ANEL agradece e congratula a todos que se uniram no esforço de reconquistar a liberdade para obras biográficas, e, em especial, à Academia Brasileira de Letras e aos autores de biografias, parceiros de primeira hora nesta caminhada.

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Roberto Feith é representante da Associação Nacional dos Editores de Livros e diretor do Grupo Companhia das Letras.