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Sem Deb

Por Luiz Schwarcz


O avião acabara de pousar em Ilhéus, onde, a convite de um amigo, Lili e eu passaríamos o feriado de Primeiro de Maio. Comecei a ler meus e-mails no iPhone e, pelo assunto, fui direto ao que dizia: PRIVATE, For Luiz Schwarcz only. A mensagem era da minha amiga Laurence Laluyaux, que trabalha na agência com a qual correpresentamos internacionalmente a maior parte dos nossos autores. O assunto sigiloso era tristíssimo. Laurence me comunicava que a fundadora da agência e minha grande amiga pessoal, Deborah Rogers, falecera havia poucos minutos, ao que tudo indica vitimada por um ataque cardíaco fulminante, ao estacionar o carro em frente de sua casa, no bairro de Notting Hill, em Londres. Laurence me pedia que por ora guardasse em segredo a triste notícia, já que parte de seus autores mais próximos ainda não haviam sido localizados e informados.

Estive recentemente com Deb. Neste ano, o prêmio mais importante da Feira de Londres — que normalmente é agraciado apenas a editores de grande prestígio, em reconhecimento pelo que realizaram ao longo de sua trajetória profissional — foi concedido, pela primeira vez, a um agente literário. Deb estava desconfortável com a premiação. Respondera a meu e-mail de parabéns, anterior à cerimônia, tentando desconversar, falando de mim. Na cerimônia vestia uma roupa comum, como se aquela fosse uma jornada normal de trabalho. De diferente talvez trouxesse apenas um colar de pérolas, uma echarpe e uma leve maquiagem nos olhos. Seu discurso foi precedido pela apresentação de Kazuo Ishiguro, um de seus autores mais próximos. Ish, de forma muito bem-humorada, lembrou que Angela Carter, ao lhe recomendar o trabalho de Deborah Rogers, contou que ela aliava o melhor e mais sofisticado gosto literário a um interesse superkitsch por objetos de decoração, sugerindo que o escritor levasse um pato de madeira ou algum ornamento de gosto discutível, para quebrar o gelo no primeiro encontro com a cobiçada agente. Ao entregar a ela o objeto físico que simbolizava o prêmio, Ishiguro disse estar finalmente realizando o gesto proposto por sua mentora. Todos riram, criando a atmosfera perfeita para Deborah começar a proferir, com sua voz aguda, as poucas e tímidas palavras que preparara como agradecimento. Sentado com a equipe da agência, não resisti e assobiei no momento dos aplausos, como se estivesse num show de rock, homenageando meu grande ídolo, ou num estádio de futebol após a entrada do meu craque mais querido. No ambiente quase formal da sala na Feira de Londres, o assobio causou estranhamento em um agente literário, ao mesmo tempo, amigo e rival de Deborah que se sentava à nossa frente.

Deborah merecia meu entusiasmo e a ovação que recebeu da sala toda. Parece que a comissão que a premiou, e todos nós no auditório, sem saber nos despedíamos de uma grande amiga, a mais importante agente literária que conheci.

Com ela todos os profissionais do livro que gostam de boa literatura aprenderam não só a ler bons livros como a compreender melhor a natureza da relação com os autores que publicamos. Se algum título passava por Deborah, já havia uma qualidade na leitura prévia, nos primeiros esforços de edição realizados pelo próprio agente. Havia segurança na ética profissional que se seguiria logo nas primeiras negociações entre os partícipes do jogo editorial.

Em 2012, acompanhando Ian McEwan, outro de seus autores mais próximos, Deb veio à Flip. Lançávamos na ocasião o último romance de Ian, Serena — que saía primeiro no Brasil, graças à generosidade do autor e da agência. Deb veio com o marido, Michael Berkeley, e Ian, com Annalena McAfee. Depois da feira, saímos os três casais e Jonathan Galassi, editor da Farrar Straus, num tour pelas cidades históricas mineiras. Foram seis dias de puro deleite e aprendizado. O auge se deu em Ouro Preto, num show de rua da velha guarda da Portela, quando Deb foi cortejada por um bêbado de plantão, que a tirou para dançar, quase de rosto colado, alguns dos sambas mais tradicionais do grupo. Michael, um importante compositor de música contemporânea, ria conosco às gargalhadas, observando o espetáculo, mas tentava ao mesmo tempo entender a estrutura melódica das canções, em busca de inspiração para seus trabalhos. Terminado o show, fomos, como de costume, a um restaurante local, onde Deborah encabeçava o bloco das caipirinhas, seguido do tradicional Sauvignon Blanc, seu vinho predileto, tomado como acompanhamento não só de peixes, mas também de tutu de feijão, torresmo ou de qualquer outro prato da pesada comida mineira.

Na semana anterior à sua morte, liguei para Deb para comentar minha leitura do novo livro de Ian McEwan. Falamos não só do livro, que ela começava a ler pela segunda vez, mas também do prêmio que lhe fora concedido, do meu assobio estridente, da caneta com frases de Paulo Coelho que ela recebera e do patrocínio de um fabricante de grappa à cerimônia, que no passado era bem mais informal. Terminamos o telefonema às gargalhadas.

Do aeroporto de Ilhéus à casa dos meus amigos fui pensando no que representa a morte de Deborah. Sua agência ainda trabalha com a filosofia de um tempo largo, onde o senso de oportunidade de um livro vem basicamente de sua qualidade literária. Sou dessa turma, talvez mais ainda por ter encontrado e convivido com Deborah Rogers na vida. Com ela aprendi a curtir um livro até que ele esteja pronto. Com ela me acostumei a olhar para o sucesso como fruto de uma construção lenta e constante.

É uma era que se vai com Deb. Sem ela será muito mais difícil resistir ao jogo do sucesso rápido. Viveremos uma vida literária mais pobre e triste, sem Deb.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Ele contribui para o Blog da Companhia com uma coluna mensal chamada Imprima-se, sobre suas experiências como editor.


Livros da Companhia das Letras ganham selo da FNLIJ

É com muita alegria que compartilhamos com vocês a lista dos livros da Companhia das Letras que receberam o selo Altamente Recomendável 2014 (produção 2013) da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Comemorem conosco!

  • Categoria Imagem: Bárbaro, de Renato Moriconi
  • Categoria Tradução/adaptação Jovem: O menino negro, de Camara Laye. Tradução Rosa Freire D’Aguiar

 

Penguin Random House Brasil adquire Editora Objetiva

A Penguin Random House firmou acordo com o grupo editorial espanhol Santillana para adquirir todos os selos de interesse geral do grupo. O anúncio foi feito hoje em Madrid pelos CEOs Markus Dohle, da Penguin Random House, e Miguel Angel Cayuela, da Santillana. O acordo inclui os selos editoriais da Santillana da Espanha, Portugal, América de língua espanhola e Brasil.

Pelo acordo, a nova empresa Penguin Random House Brasil, que possui participação acionária na Companhia das Letras, adquire a totalidade do controle da Editora Objetiva, incluindo os selos Alfaguara, Suma, Fontanar, Ponto de Leitura e Foglio. As atividades da Penguin Random House Brasil serão supervisionadas por Luiz Schwarcz, que continuará exercendo a função de Diretor Geral da Companhia das Letras. A Objetiva continuará a ser administrada pelo Diretor Geral Roberto Feith e sua equipe de colaboradores.

Para Luiz Schwarcz, “será uma honra para a Companhia das Letras fazer parte deste fantástico universo criativo que combina algumas das melhores editoras do mundo e um catálogo de autores sem rival. Será um tremendo privilégio e um prazer poder, em breve, colaborar com Roberto Feith e a excelente equipe da Objetiva. Ao unir as trajetórias bem sucedidas e os extraordinários autores das duas editoras, preservando a autonomia e a identidade editoriais dos seus selos, acredito que podemos aspirar à construção de um novo padrão para a nossa atividade no Brasil.”

Roberto Feith, Diretor Geral da Objetiva, comentou: “Para mim e toda a equipe da Objetiva será uma oportunidade única e uma satisfação imensa fazer parte de Penguin Random House, uma empresa editorial genuinamente global e extraordinariamente capacitada. Além disto, uma vez concretizada a operação, será um prazer trabalhar com o Luiz Schwarcz. Somos colegas e amigos há anos e já colaboramos em mais de um projeto. A Objetiva certamente vai se beneficiar de sua liderança experiente e do seu respeito pela nossa equipe e nossos programas editoriais”.

Markus Dohle, Diretor Geral da Penguin Random House disse em Madrid que “ficamos muito felizes que a primeira aquisição internacional de Penguin Random House seja o prestigioso grupo de selos de Interesse Geral de Santillana. A operação atende aos nossos dois principais objetivos estratégicos: fortalecer nosso compromisso com a publicação de livros em língua espanhola, incrementando nosso potencial comercial e literário em um dos mercados linguísticos mais dinâmicos do mundo, e estabelecer uma forte presença no Brasil. Vamos nos inspirar e trabalhar a partir das grandes tradições de Penguin Random House, Santillana, Companhia das Letras e Objetiva, e a criatividade e dedicação de suas equipes tremendamente talentosas.”

A operação de aquisição da Santillana somente se concretizará após finalizados os requisitos jurídicos e administrativos pertinentes.

Penguin Random House nasceu em 1º de julho de 2013, após celebração de acordo entre os grupos Berteslmann e Pearson. Bertelsmann é proprietária de 53% da nova empresa, e Pearson de 47% .

O romance de Charlie Chaplin

É ponto pacífico que Charlie Chaplin foi um dos grandes gênios da história do cinema, mas poucos sabiam que ele também havia escrito um romance tão extraordinário quanto seus melhores filmes. Footlights, escrito em 1948, deu origem ao filme Luzes da ribalta, mas nunca chegou a ser publicado.

Sessenta anos depois, a Cineteca di Bologna — responsável pelo arquivo do cineasta inglês — preparou uma edição especialíssima do livro, enriquecida com fotos da época e documentos inéditos da coleção privada do autor; e o biógrafo oficial de Chaplin, David Robinson, fez ainda uma introdução e um longo comentário sobre o contexto em que o artista criou o romance e depois o filme.

A Companhia das Letras adquiriu os direitos de publicação do livro, ainda sem previsão de publicação. Os leitores brasileiros enfim terão acesso à história nostálgica e sombria de Calvero, o palhaço alcoólatra e decadente que salva uma jovem bailarina que acabara de tentar o suicídio. Neste trecho do filme, vemos Chaplin interpretando o protagonista e a bela Claire Bloom em sua estreia no cinema:

Leia a matéria da Folha de S. Paulo sobre Footlights: Único romance de Chaplin sai na Europa

Sebastião Salgado completa 70 anos


(Crédito da imagem: Taschen)

Sebastião Salgado, um dos maiores fotógrafos do mundo, completa hoje 70 anos de idade. Suas imagens marcantes de trabalhadores e refugiados rodaram o mundo todo, evidenciando a dignidade do homem em um cotidiano muitas vezes escondido da sociedade — ou ignorado por ela. Nascido em Aimorés, Minas Gerais, sua carreira como fotógrafo começou na França, onde vive desde 1973. Não demorou muito para se destacar no fotojornalismo, fazendo parte das agências Sygma, Gamma e, a partir de 1979, da Magnum. Pelos seus trabalhos, já recebeu os prêmios mais importantes concedidos ao fotojornalismo, entre eles o de Melhor Repórter Fotográfico do Ano, oferecido pelo International Center of Photography de Nova York, e o Grand Prix da Cidade de Paris.

Entre suas principais obras estão Outras Américas, onde registrou as condições de vida de pessoas pobres da América Latina; Trabalhadores, em que fotografou a rotina de produção de trabalhadores manuais; e Terra, retratos das condições de vida dos trabalhadores rurais sem-terra do Brasil. Em 2013, depois de oito anos de reportagens, Salgado expôs pela primeira vez o celebrado Projeto Gênesis, que deu origem ao livro de mesmo nome, uma jornada fotográfica por lugares intocados, onde o homem convive em harmonia com a natureza.

Sebastião Salgado rodou o mundo buscando imagens que representassem a vida do homem comum e suas dificuldades. Apesar de suas imagens serem reconhecidas em todos os lugares, sua história pessoal, suas raízes políticas, éticas e existenciais de seu engajamento fotográfico ainda não são de conhecimento do público. Mas agora, aos 70 anos de idade, poderemos conhecer quem é Sebastião Salgado. Na autobiografia Da minha terra à Terra, seu talento como narrador surpreende. Um homem que sabe como poucos combinar militância, profissionalismo, talento e generosidade. No livro, o fotógrafo fala de suas viagens, de sua família, de seu amor pela fotografia, relembrando histórias de suas fotorreportagens realizadas em mais de cem países. Mais do que um fotojornalista, Sebastião Salgado é um apaixonado pela vida e pelo mundo, e capta de maneira singular aquilo que vê.

“A única verdade é que a fotografia é minha vida. Todas as minhas fotos correspondem a momentos intensamente vividos por mim. Todas elas existem porque a vida, a minha vida, me levou até elas. Porque dentro de mim havia uma raiva que me levou àquele lugar. Às vezes fui guiado por uma ideologia, outras, simplesmente pela curiosidade ou pela vontade de estar em dado local. Minha fotografia não é nada objetiva. Como todos os fotógrafos, fotografo em função de mim mesmo, daquilo que me passa pela cabeça, daquilo que estou vivendo e pensando.”

Da minha terra à Terra será lançado no início de março pela Editora Paralela, e já está em pré-venda.