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A revolução dos bichos: 70 anos

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Há 70 anos, o mundo conhecia uma das maiores obras de George Orwell: A revolução dos bichos. Escrita em plena Segunda Guerra Mundial e publicada em 17 de agosto de 1945 depois de ter sido rejeitada por várias editoras, essa pequena narrativa causou desconforto ao satirizar ferozmente a ditadura stalinista numa época em que os soviéticos ainda eram aliados do Ocidente na luta contra o eixo nazifascista. Para marcar a data, selecionamos para o blog trechos de A vitória de Orwell, de Christopher Hitchens, livro em que se dedica à desconstrução das mitologias montadas em torno da vida e da obra de Orwell. Leia a seguir.

* * *

A revolução dos bichos foi, nas palavras de Orwell, “o primeiro livro em que tentei, com plena consciência do que estava fazendo, fundir intenção política e intenção artística em um todo”. O duradouro sucesso dessa empreitada reside em sua primorosa simplicidade e brevidade, mas também em uma incomum leveza. Um gracejo aparece logo no começo da revolução dos animais, quando “alguns presuntos, pendurados na cozinha”, são levados para fora e sepultados. Como o quadro inicial não é invariavelmente soturno, o gradual aparecimento de uma tragédia assume a devida proporção. As analogias são cativantes; cada animal é bem escolhido para seu papel, e ainda por cima todos são batizados com nomes excelentes.

[…]

Assim, o esquema de A revolução dos bichos deve sua profundidade e também sua simplicidade ao fato de que os animais não são todos iguais. Em um mundo de alegoria antropomórfica (no qual todos os homens são brutos), os animais podem ser diferenciados. Por exemplo, os porcos — que Orwell desprezava — pelo menos recebem notas altas pela inteligência, enquanto os cães — a quem ele muito admirava — são explorados e, por sua célebre lealdade, são aproveitados como impositores das regras. Orwell foi desde pequeno influenciado pela obra de Jonathan Swift, e seu fascínio pelas metáforas envolvendo criaturas não humanas (sem falar em sua obsessiva repugnância e sua incapacidade de afastar pensamentos ligados à sordidez) deve muito a esse autor. O limpo e honesto mundo dos Houyhnhnms em Viagens de Gulliver é parcialmente recriado em A revolução dos bichos; a morte do ferrenho e obtuso cavalo Sansão comove até mais — por causa da colossal inocência e mansidão do animal — do que a estrepitosa agonia final do elefante birmanês que Orwell matou na vida real.

* * *

Leia mais sobre A vitória de Orwell A revolução dos bichos.

60 anos sem Carmen Miranda

Impressionant Carmen Miranda de B-Toy; al carrer del Triangle.

Na madrugada 5 de agosto de 1955, Carmen Miranda sofreu um infarto enquanto estava sozinha em seu quarto, se preparando para dormir após uma noite se apresentando ao lado de Jimmy Durante para seu programa na TV. As últimas imagens da “pequena notável” que conquistou o Brasil e os EUA mostram ela sorrindo, mandando beijos para a câmera. Sessenta anos após a morte de uma das grandes artistas que o Brasil já teve, reunimos alguns trechos de sua história publicada em Carmen: Uma biografia, escrita por Ruy Castro.

No livro, o autor acompanha ano a ano a vida de Carmen — do nascimento da menina Maria do Carmo, numa aldeia em Portugal (e a vinda ao Rio de Janeiro, em 1909, com dez meses de idade), à consagração brasileira e internacional de Carmen Miranda e sua morte em Beverly Hills, aos 46 anos, vítima da carreira meteórica e dos muitos soníferos e estimulantes que massacraram seu organismo em pouco tempo.

Além dos trechos, também selecionamos alguns vídeos de Carmen Miranda em seus filmes e apresentações, incluindo sua última aparição, para ouvir novamente a voz da brasileira mais famosa do século XX.

Taí

“Conforme a história já muito contada, o educado e retraído Joubert de Carvalho, então famoso pela canção ‘Tutu marambá’, passava pela rua
Gonçalves Dias quando foi chamado pelo sr. Abreu, gerente de A Melodia, loja de discos e partituras ao lado da Confeitaria Colombo, para ouvir um disco que acabara de sair. O disco era ‘Triste jandaia’, com a desconhecida Carmen Miranda. Segundo Joubert, a audição lhe provocou uma sensação inédita: a de estar vendo a cantora, ‘como se ela estivesse dentro da vitrola’. Joubert fez Abreu tocar o disco várias vezes, sempre gostando mais, e lhe pediu que, um dia, o apresentasse à garota. Abreu respondeu que não haveria dificuldade nisso, porque Carmen, como muitos cantores e compositores, ia com freqüência à loja. O acaso então fez das suas, e Carmen em pessoa — maquiada, saltos altos, elegantíssima — entrou pela porta da Melodia.

‘Taí a nova cantora!’, exclamou Abreu.

Os dois foram apresentados e Joubert falou de seu interesse em compor algo para ela. Carmen, encantada, deu-lhe o endereço, e os dois se despediram. Joubert saiu da loja com uma palavra — ‘Taí’ — e uma melodia na cabeça. Menos de 24 horas depois, com a partitura debaixo do braço, tocou a campainha de Carmen na travessa do Comércio.

A porta se abriu lá em cima e Carmen surgiu no alto da escada, com um vestido caseiro, sem pintura e descalça. A princípio, Joubert não a identificou.

‘Sou eu mesma’, disse Carmen. ‘Você não está me reconhecendo porque estou sem a máscara de ontem. Vamos lá, suba!’

A música era uma marchinha, ‘Pra você gostar de mim’, não necessariamente carnavalesca. Não havia piano em casa—sintoma de pobreza numa família cheia de moças —, donde Joubert cantou-a para Carmen em seu estilo seresteiro:

Taí!
Eu fiz tudo pra você gostar de mim
Oh, meu bem, não faz assim comigo, não…

Carmen a aprendeu logo e, quando Joubert tentou orientar sua interpretação, ela disse, com um brilho no olhar:

‘Não precisa me ensinar, não, que, na hora da bossa, eu entro com a boçalidade.’

E, captando um certo choque no rosto do educado Joubert, logo se corrigiu:

‘Desculpe, mas eu sou assim mesmo, meio desabrida!'”

O que é que a baiana tem?

“Aos sessenta minutos cravados do primeiro ato, um cantor mexicano atacou uma rumba (!), acompanhado pela orquestra e pelas dezenas de ‘girls’ — Cesar explicaria depois que, segundo o diretor Edward Dowling, a rumba era para ‘marcar o contraste com o ritmo brasileiro’. Ao fundo, um letreiro começou a piscar anunciando o nome de um cabaré: Páteo Miranda. Finda a rumba, todo o elenco no palco gritou, como se a convocasse:

‘Miranda! Miranda! Miranda!’

Ouviu-se o ritmo do samba. Um lance de cortina, e os seis rapazes do Bando da Lua já apareceram tocando, como um batalhão de choque. Carmen, de baiana, surgiu entre eles, esbanjando malícia, sensualidade e graça em ‘O que é que a baiana tem?’. Os microfones camuflados no chão permitiam que ela cantasse, dançasse e evoluísse pelo palco com toda a liberdade — e Aloysio diria depois que, aquela noite, ali estava uma Carmen que ele próprio nunca tinha visto:

‘Os olhos não brilhavam: faiscavam. Seus movimentos pareciam ter sido preparados por uma Eleonora Duse.'”

Chica chica boom chic

“‘Chica chica boom chic’ era o número de abertura do filme. Carmen cantava a letra de Yaconelli em português (mais uma list song falando da Bahia), e Don Ameche, a letra em inglês de Mack Gordon. Entre as duas partes vocais, a música incluía uma dança combinando alguns vagos elementos de samba com as tradicionais evoluções em hollywoodês. O coreógrafo era Hermes Pan, 35 anos e muito respeitado por ter sido o braço (ou o pé) direito de Fred Astaire em seus nove filmes com Ginger Rogers na RKO. Mas Fred e Ginger tinham desfeito a dupla em 1939, e Zanuck levara Pan para a Fox. Pan vinha de uma família grega e seu nome completo era Hermes Panagiotopoulous — fizera bem em abreviá-lo. Pensando que Carmen, além de cantora, fosse dançarina, ele lhe criara marcações complicadas para “Chica chica boom chic”. E, pela primeira vez, ela se rebelou no estúdio da Fox.

Carmen reagiu às marcações de Hermes Pan. Tinha consciência de que não sabia dançar e precisava de liberdade para fazer os movimentos do samba. Para complicar-lhe a vida, disse a ele, já bastavam a baiana prateada, o turbante de penas e as plataformas de treze centímetros. Pan entendeu e deixou-a à vontade, dentro de certos limites. Mas, com habilidade, convenceu-a a aprender a rodopiar nos braços de um bailarino, ser jogada para o alto e cair de pé, graciosamente, na pontinha da plataforma. O resultado foi um take perfeito logo de primeira, incluindo o take de segurança, filmado simultaneamente por outra câmera.”

Give me a band and a bandana

“Aquele era o primeiro número de Carmen, bem no começo de Greenwich Village (no Brasil, Serenata boêmia), o filme que ela rodou na passagem de 1943 para 1944, menos de seis meses depois de ter quase morrido. Talvez por isso, e por ter se recuperado completamente, estivesse tão esfuziante nesse e em seus dois outros números musicais no filme: “I like to be loved by you”, de Harry Warren e Mack Gordon (uma canção que ficara de fora de Entre a loura e a morena), e “Give me a band and a bandana”, de Nacio Herb Brown e Leo Robin (em que ela interpolava “O que é que a baiana tem?”, de Caymmi, e “Quando eu penso na Bahia”, de Ary Barroso). O irônico era que Carmen enfim conseguira incluir “O que é que a baiana tem?” num filme americano, mas justamente quando já não tinha no corpo nem uma peça da baiana original — nem torço de seda, corrente de ouro e pano-da-costa, nem bata rendada ou saia engomada, nem mesmo bolotas ou balangandãs. Em lugar disso, o que ela tinha era o corte vertical da saia para mostrar as pernas — belas pernas, firmes, bem torneadas, resultado talvez dos muitos anos sobre as plataformas e melhores ainda que as da jovem Carmen —, mas sempre uma coisa típica de rumbeira. Era Carmen se rendendo à figurinista que ela mesma descobrira, a jovem Yvonne Wood.”

Tico-tico no fubá

“Com o fim da guerra e do ciclo de Carmen na Fox, os pósteros consideraram oficialmente encerrada a Política da Boa Vizinhança e a adulação dos Estados Unidos aos países latino-americanos. O marco seria a canção “South America, take it away”, música e letra de Harold Rome, para a revista musical Call me mister, e cantada e dançada por Betty Garrett. A letra exortava a América do Sul a levar de volta os sambas, rumbas e congas que tinham descadeirado os americanos durante a guerra.

Take back your samba
Ay, your rumba
Ay, your conga
Ay, yayay, yay!
I can’t keep shaking, ay
My rumble, ay
Any longer
Ay, yayay, yay
[…]
That’s enough, that’s enough, take it back!
My spine’s out of whack!
There’s a big crack in the back
Of my sacro-iliac!
Take back your conga
Your samba, ay, yay, yay
My hips are creaking, ay
And shrieking, ay
Caramba, ay, yay, yay!
I’ve got a wriggle and a diddle and a jiggle
Like a fiddle in my carcass
Holay!
South America, take it away!

O recado era grosseiro e inequívoco, mas certas coisas a América do Sul não podia levar de volta, porque não lhe pertenciam — a rumba e a conga, por exemplo, que eram originárias de Cuba. Além disso, era menos verdade que os americanos quisessem devolver tudo. Um dos sucessos de 1946 foi a canção “The coffee song (They’ve got an awful lot of coffee in Brazil)”, de Bob Hilliard e DickMiles, lançado na Copacabana revue, no nightclub de Monte Proser, e depois popularizada por Frank Sinatra. Também naquele ano, uma lasciva canção
de Arthur Schwartz e Leo Robin, “A rainy night in Rio”, emergiu de um filminho da Warner intitulado Um sonho e uma canção (The time, the place and the girl) para uma bonita carreira-solo. Ainda em 1946, um antigo choro brasileiro, “Tico-tico no fubá”, de Zequinha de Abreu, já apresentado (com letra de Aloysio de Oliveira) nos filmes Alô, amigos! e Escola de sereias, entraria de vez para o repertório americano ao ser cantado por Carmen a duzentos por hora no filme Copacabana, que ela rodaria no segundo semestre — e “Tico-tico”, sim, era tão de descadeirar que seria gravado até por Charlie Parker.”

Disseram que voltei americanizada

“Alguns se perguntavam como, menos de dois meses depois da maior humilhação de sua vida, Carmen podia estar voltando ao mesmo palco onde aquilo acontecera. E se o fiasco se repetisse? Mas, dessa vez, Carmen sabia que não podia dar errado. Nada de black-tie, de gente do governo ou de bandeirinhas verde-amarelas. Em vez disso, lá estaria o seu público, vestido como pudesse. Como cenário, um painel mostrando uma série de Carmens em efeitos luminosos. E ela própria estava com o gogó tinindo. Quanto à reação da platéia, já tivera uma prova na véspera, à tarde, durante o último ensaio — assistido por dezenas. Ao entrar no palco na noite de estréia, sabia-se amada como sempre.

Mas não se esquecera da agressão, e seu novo repertório continha sambas que comentavam o seu status de sambista brasileira desafiado pelos bobocas: ‘Disseram que voltei americanizada’,

Mas pra cima de mim, pra que tanto veneno?
Eu posso lá ficar americanizada?
Eu que nasci com o samba e vivo no sereno
Tocando a noite inteira a velha batucada.
Nas rodas de malandro, minhas preferidas
Eu digo é mesmo ‘Eu te amo’, e nunca ‘I love you’
Enquanto houver Brasil, na hora das comidas
Eu sou do camarão ensopadinho com chuchu

A última apresentação de Carmen Miranda

“Fim do primeiro bloco e intervalo para trocar de roupa. Meia hora depois, Carmen voltou, já com a fantasia para a sequência num nightclub em que, durante cinco minutos ininterruptos, dançaria com Jimmy e coro misto um frenético medley de ritmos de fox, samba, tango e mambo. Um número que exigiria tudo dos dois. As câmeras já estavam rodando e, em dado momento, quando Jimmy se virou para contracenar com o coadjuvante Eddie Jackson, os joelhos de Carmen se dobraram e ela perdeu as pernas.

Claudicou, quase caiu — e só não caiu porque segurou a mão de Jimmy. Recobrou-se num instante e disse, fora do roteiro, mas ao perfeito alcance dos microfones:

“Fiquei sem fôlego!”

Carmen sorriu, como se imensamente grata pelo fôlego lhe ter voltado — como se isso não estivesse entre os seus direitos de ser vivo. Na sequência, cantou o rapidíssimo “Cuanto le gusta” sem perder um segundo de velocidade.

Imagens estáticas depois retiradas do filme e muito ampliadas mostraram que, quando Carmen dobrou os joelhos, seus olhos se reviraram por um segundo. A boca adquiriu um desenho que nunca tivera. Seus olhos e sua boca, e toda a sua expressão naquele segundo, já eram os da morte. Especulou-se que Carmen tivera ali um colapso. Mas ela não levou a mão ao peito nem se queixou de dores — disse apenas que tivera “falta de ar”. Tudo indica que tenha tido um forte descompasso cardíaco, uma arritmia, como a de dez anos antes. Ou como a que tivera em Las Vegas no outro dia, como a da queda em sua casa, e como outras que podem ter acontecido e de que ela não deixou que se tivesse conhecimento — pequenos avisos de que havia um grande vulcão preparando-se para a erupção fatal. A cada descompasso, seu coração perdia uma ou mais batidas — que viriam a lhe fazer falta muito em breve.

Mais um corte, mais uma pausa, e o cenário do programa voltou para o apartamento de Jimmy. Era o encerramento. Carmen, cansada, mas contente, aparece saindo de costas por uma porta, dançando com o Bando da Lua, jogando beijos e despedindo-se de Jimmy, do público e da vida.

Quem mais teria esse privilégio, de despedir-se com uma imagem em que joga beijos?”

Carol Brown Janeway

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É com tristeza que informamos que acaba de falecer Carol Brown Janeway, uma das maiores amigas de Luiz Schwarcz e da Companhia das Letras.

Carol Brown foi editora e vice-presidente da Knopf, além de ser uma tradutora premiada, conhecida por difundir a literatura estrangeira nos EUA. Traduziu trabalhos de Bernhard Schlink, Thomas Bernhard, Daniel Kehlmann, Sándor Marai, entre outros, e publicou autores como José Donoso, do Chile, Ivan Klima, da República Tcheca, e Margriet de Moor, da Holanda. Ganhou os prêmios Friedrich Ulfers Prize pela sua contribuição à literatura alemã e o Ottaway Award 2014 pela promoção da literatura internacional, prêmio que foi entregue por Luiz Schwarcz.

“Carol Brown Janeway é uma das minhas melhores amigas pessoais e da área editorial. Quem conhece seu trabalho entende por que eu digo que não há muitas Carols Janeways no mundo. Ela tem um dos maiores corações que conheci”, disse Schwarcz no discurso de entrega do prêmio, publicado no blog em outubro de 2014 e que você pode ler aqui novamente — ou ler na íntegra a seguir.

* * *

Há um tempo, fui convidado para participar da cerimônia de um prêmio completamente diferente deste. Foi uma cerimônia para premiar alguém como o “homem do ano”, e o vencedor foi um importante empresário brasileiro, amigo meu. O evento correu muito bem, até o momento no qual ele deveria fazer o discurso. Quando o “homem do ano” foi ao microfone e começou a falar, tivemos uma surpresa. Em vez de mencionar todas as suas conquistas nas companhias por onde passou, começou a descrever o primeiro quadro de arte que comprou para sua coleção pessoal. Ele é um importante colecionador da arte modernista brasileira. O quadro, que descreveu em detalhes, era uma paisagem deslumbrante do mar, do artista Pancetti, pintor e marinheiro um homem simples, que fazia parte do partido comunista brasileiro. Suas obras são vistas como um tesouro da arte brasileira modernista figurativa.

A pintura é, sem dúvida, incrível: o mar ocupa a parte inferior do quadro, cerca de um terço, ou mesmo um quarto da tela. Alguns pequenos barquinhos são vistos no horizonte do oceano, e o mar, azul esverdeado, combinado com a luz do azul puro do céu; causam uma forte impressão no observador. Um pouco abaixo, vemos uma extensão de areia que ocupa o restante da obra. O artista sabiamente levou em consideração o que é realmente especial nas praias do Brasil: a areia. Em primeiro plano, muito maior que os barcos e navios, mas ao mesmo tempo com discrição, uma vez que se trata de uma pintura minimalista, vemos algumas pequenas folhas de capim que cresceram na extensão da areia.

Pois bem: ninguém estava entendendo qual era o sentido daquele discurso, especialmente quando ele começou, evidentemente emocionado, a perguntar ao público: “Por que aquele capim cresceu na areia? Alguém poderia me explicar? Capim em terreno árido… como? Por quê?”. A esta altura da noite, o apresentador precisou intervir e retirar o microfone da mão do meu amigo. Começou a fazer o discurso que se esperava do homenageado, listando as empresas que ele comprou, os resultados de seus trabalhos – chegando até mesmo a mencionar sua coleção de arte, mas apenas como resultado de uma vida bem sucedida, possível graças ao mundo dos negócios e de sua dedicação a ele.

Creio que nunca conheci ninguém que ama tanto a literatura como este meu amigo. Então, possivelmente, fui o único a entender o que o “homem do ano” dizia. A importância de coisas que são inesperadas, num mundo onde tentamos constantemente prever tudo, desde o tempo até as emoções. O capim que nasceu na areia seria, para meu amigo, uma metáfora sobre as coisas que realmente importavam a ele. Uma metáfora sobre arte, e especialmente sobre literatura, paixão que carrega até hoje.

Se o discurso era totalmente fora de lugar, acho que isso só reforça a minha interpretação de onde meu amigo gostaria de chegar. A força da arte e, principalmente, da literatura, reside na possibilidade de nos levar para lugares distantes, diferentes daquele onde devemos estar. Através da da liberdade de expressão e da criatividade dos escritores quebramos obstáculos, saltamos fronteiras. Com eles podemos nos transformar em outras pessoas, com eles nos unimos para, ao ler um livro, sermos um só narrador. O verde encontrado na areia da tela e aquele discurso talvez representem a melhor metáfora para a literatura que já pude ouvir. Metáfora que teria sido bem melhor interpretada e compreendida hoje à noite, quando tenho a enorme honra de entregar o Ottawa Award para minha querida amiga Carol Brown Janeway.

Carol Janeway é uma das melhores editoras e tradutoras do mercado editorial contemporâneo. Por conta de seu trabalho, leitores tiveram acesso a obras de diversos países, culturas e línguas. Ela própria traduziu trabalhos de Bernhard Schlink, Thomas Bernhard (curiosamente a grande diatribe contra prêmios literários), Daniel Kehlmann, Sándor Marai, entre outros. Ela publicou autores como José Donoso, do Chile, Ivan Klima, da República Tcheca, e Margriet de Moor, da Holanda.

Se eu disse que uma das principais razões para a existência da literatura é a capacidade de nos fazer viajar dentro de nós, e também para outros países, tempos e culturas, então a importância de Carol no mercado editorial de hoje é inimaginável. Não há outras como ela por aí, e nem mesmo pessoas que são metade do que Carol é. Poucos tradutores ou editores chegam perto de sua mente, uma das mais abertas que conheço. Poucos conseguiram nos levar a praias tão distantes, onde um capim cresce, inesperadamente.

Se tenho razão quando digo que, ao ler um livro, autor e leitor tornam-se um único narrador da história, e que ficção depende, talvez na mesma proporção, da imaginação do leitor tanto como do autor, reconheço a tarefa de um tradutor que precisa lidar com línguas estrangeiras, e de um editor, assim como de todos os mediadores dessa união entre o autor e o leitor, que abrem caminhos para preciosidades que parecem tão distantes. Sim, tradutores e editores de literatura estrangeira possuem uma tarefa gigantesca. Sem o trabalho de pessoas como Carol, nossa jornada a locais áridos, onde o milagre do verde acontece, não seria possível. Um tradutor e editor precisa ter um grande coração. Um coração aberto a surpresas, um coração que está sempre disposto a levar outra pessoa a um lugar diferente.

Comecei a minha editora brasileira há exatos 28 anos e um dia, na minha primeira visita a Knopf, em 1986, acho que Carol ainda não estava lá. Eu fui a Nova York e me encontrei com a ex-responsável pelo setor de venda de direitos de tradução. Disse a ela que iria abrir a minha própria editora. Tinha 30 anos na época. A mulher, muito gentil e que veio a tornar-se uma grande amiga, me fez algumas perguntas:

Há algum livro de nosso catálogo que você gostaria de comprar?

Sim respondi , gostaria de publicar uma coleção de poemas de Wallace Stevens.

COMO? ela respondeu. Você deve ter muito dinheiro para jogar pela janela. Ou é maluco!

O livro de Wallace Stevens foi publicado e acho que está na quarta reimpressão. Imagino que Carol, no nosso primeiro encontro em Frankfurt, alguns anos depois do ocorrido, foi checar os livros que comprei da Knopf e, em vez de questionar o dinheiro que desperdicei, me adotou. Passei a fazer parte de um grupo privilegiado de pessoas que a encontram duas ou três vezes por ano, editores que a procuram para saber onde podem achar novas surpresas, quais fronteiras podem cruzar juntos, quais limites não devem respeitar.

Carol Brown Janeway é uma das minhas melhores amigas pessoais e da área editorial. Quem conhece seu trabalho entende por que eu digo que não há muitas Carols Janeways no mundo. Ela tem um dos maiores corações que conheci. Ela merece este e todos os prêmios do mundo. Estou emocionado e me sinto honrado em ser a pessoa que lhe entrega este prêmio. Obrigado, Carol, por ser a pessoa que é e por me acolher entre os seus amigos. Por favor, continue a nos mostrar o caminho para o inesperado.

Star Wars na Seguinte

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Atenção, jovens padawans!

A editora Seguinte lançará no segundo semestre de 2015 duas séries inéditas que se passam no universo de Star Wars. Voltados aos jovens leitores e a todos os fãs que não aguentam mais esperar pelo próximo filme, os livros apresentarão algumas histórias conhecidas de um jeito totalmente novo, assim como aventuras inéditas de Han Solo, Leia e Luke Skywalker.

Setembro: novelizações

A princesa, o cafajeste e o garoto da fazenda, de Alexandra Bracken
(Novelização do episódio IV, Uma nova esperança)

Então você quer ser um Jedi?, de Adam Gidwitz
(Novelização do episódio V, O Império contra-ataca)

Cuidado com o lado sombrio da força!, de Tom Angleberger
(Novelização do episódio VI, O retorno de Jedi)

Cada um dos três volumes consiste em um episódio da trilogia clássica recontado especialmente para os jovens por um autor de destaque entre o público juvenil.

Outubro e novembro: aventuras inéditas

Esses livros trazem histórias originais e incluem, ainda, dicas e pistas sobre o próximo filme, Star Wars: O despertar da força. São leituras obrigatórias para os fãs que acabaram de chegar e também para os mais antigos!

Nos três primeiros volumes, Han Solo, princesa Leia e Luke Skywalker estão de volta em aventuras inéditas que revelam o que aconteceu com os heróis entre Uma nova esperança e O Império contra-ataca:

A missão do contrabandista: uma aventura de Han Solo, de Greg Rucka

A arma de um Jedi: uma aventura de Luke Skywalker, de Jason Fry

Alvo em movimento: uma aventura da princesa Leia, de Cecil Castellucci

Já em Estrelas perdidas, de Claudia Gray, os jovens adultos terão uma visão geral dos principais eventos do universo Star Wars, desde o estopim da Rebelião até a queda do Império, através dos olhos de dois amigos de infância — Ciena Ree e Thane Kyrell — que cresceram e se tornaram, respectivamente, uma oficial do Império e um piloto da Aliança Rebelde. Agora em lados opostos da guerra, será que esse casal apaixonado poderá ficar junto? Ou seu dever acabará por destruir esse romance — e toda a galáxia? O livro traz, ainda, conteúdo inédito sobre o que se passou depois de O retorno de Jedi.

Nos vemos no segundo semestre.

Que a Força esteja com vocês!

Sobre Editora Seguinte

Selo juvenil do Grupo Companhia das Letras, fundado em 2012 com foco em aventura, romance e literatura pop. Entre seus autores estão Kiera Cass, Lemony Snicket, Cornelia Funke e John Boyne.

Sobre a Lucasfilm Ltd.

Lucasfilm Ltd., uma subsidiária integral da The Walt Disney Company. STAR WARS e todas as propriedades relacionadas são marcas registradas tanto nos Estados Unidos quanto em outros países, de Lucasfilm Ltd. e/ou afiliados. © &TM 2015 Lucasfilm Ltd. Todos os direitos reservados.

O restabelecimento das relações diplomáticas entre Cuba e Estados Unidos

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Passadas mais de cinco décadas de inimizade e tensão entre Estados Unidos e Cuba, as duas nações retomam oficialmente hoje, 20 de julho, as suas relações diplomáticas. Foi reaberta pela manhã em Washington a embaixada cubana no mesmo casarão de 1916 que ocupara antes do rompimento ocorrido em janeiro de 1961. A cerimônia de abertura teve a presença do chanceler cubano, Bruno Rodríguez, que também tem um encontro com o secretário de Estado dos Estados Unidos, John Kerry, para um pronunciamento à imprensa. O marco histórico consolida o intenso processo de negociações entre os dois países, iniciado em dezembro do ano passado.

Em entrevista ao Blog da Companhia das Letras, o jornalista e escritor Jon Lee Anderson comemora o que considera uma “grande vitória do governo Obama”, avalia o impacto da retomada dos laços diplomáticos entre Cuba e Estados Unidos para a América Latina, incluindo o Brasil, e defende que o retorno à normalidade na vida de milhões de cubanos só estará completo com o fim do bloqueio econômico à ilha.

Jon Lee Anderson é autor Che, uma biografia, publicado originalmente em 1997 pela Objetiva, e eleita, na ocasião, o livro do ano pelo New York Times. A obra ganhou uma reedição revisada em 2012, que inclui uma nova introdução, mapas revistos e uma cronologia atualizada do ícone latino americano. No epílogo, Lee Anderson reflete sobre a América Latina nos dias de hoje e avalia a imagem de Che quase quarenta anos depois de sua morte. Em 2016, o jornalista entregará seu próximo ambicioso projeto, a biografia de Fidel Castro, que, no Brasil, será também lançada pela Objetiva.

Leia a entrevista.

O presidente Obama tem recebido críticas nos Estados Unidos e no exterior em relação à sua política internacional para a Rússia e o Oriente Médio. Como você avalia o impacto do restabelecimento das relações diplomáticas entre os Estados Unidos e Cuba dentro desse contexto?

Acredito que o restabelecimento da relação entre Cuba e os Estados Unidos é, de imediato, benéfico para os dois países. Os benefícios econômicos para Cuba são óbvios e representam também uma melhora no ânimo da população em geral. Ocorrerá o mesmo, é claro, quando o embargo for totalmente derrubado. A reaproximação deu também um novo impulso ao governo cubano, por ter sobrevivido à política de isolamento imposta pelos Estado Unidos. Em termos internacionais, o restabelecimento é simbolicamente muito positivo para a imagem dos Estados Unidos — que há décadas é visto, na maior parte do mundo, como o valentão que usa sua política internacional para fazer bullying com a “pequena” Cuba.

Em relação à visão que se tem sobre o governo Obama, se ele é encarado como fraco ou obstinado, não se pode abordar a abertura entre Estados Unidos e Cuba sob o mesmo prisma com que se avalia a relação com o Oriente Médio ou com a Rússia. Cuba já não oferece mais perigo em potencial aos Estados Unidos, o que não é possível argumentar em relação ao Iraque, ao Irã, à Síria ou à Ucrânia. A reaproximação foi uma grande virada do governo Obama. A Casa Branca não só surpreendeu os adversários republicanos dentro do país, como também os estrangeiros. Países como a Venezuela e a Rússia vieram correndo desesperados para Havana para assegurar que seus interesses e seu relacionamento com Cuba ainda estão em boas condições. Para o governo Obama, trata-se de uma grande vitória.

A retomada dos laços diplomáticos entre Cuba e os Estados Unidos, anunciada em dezembro de 2014, vem recebendo grande atenção da imprensa latino-americana. Qual será o impacto na América Latina? Você acredita, por exemplo, que a influência do atual governo da Venezuela no continente perderá força? O Brasil mantém uma relação próxima com Cuba e realizou grandes investimentos nesse país. O Brasil perderá sua influência na ilha?

Para o resto da América Latina, a reaproximação entre os Estados Unidos e Cuba é, de modo geral, algo positivo. O retorno de Cuba à família das nações das Américas com a aprovação dos Estados Unidos, levando em consideração o sectarismo e a politicagem barata que persistiram em decorrência do quadro anterior, é uma ótima notícia. De fato, isso representa um desafio para os países que tentaram se beneficiar econômica e diplomaticamente do status quo anterior.

Cuba não será mais o alvo fácil de governos latino-americanos que procuram difamar levemente Washington sem arcar com nenhuma consequência. E, no que diz respeito ao tratamento preferencial concedido por Havana para comércio ou projetos de investimento, haverá um novo espírito de competição que só pode favorecer o país, ao dispor de mais opções de escolha. É provável que os Estados Unidos também se beneficiem dessa situação, como se fossem um novo pretendente belo e rico ocupando a mesma varanda em Cuba que os antigos noivos, como Brasil, Argentina, Venezuela e México. À luz das revelações em andamento sobre corrupção, se você for escolher hoje um parceiro estrangeiro para um projeto prioritário de infraestrutura, ainda escolheria a Odebrecht? Países da América Latina, como o Brasil, terão que melhorar consideravelmente para permanecer no jogo. Mas, conhecendo os cubanos, especialistas em hospitalidade, duvido que alguma das partes saia perdendo completamente.

A reabertura das embaixadas de Cuba nos Estados Unidos e vice-versa está programada para 20 de julho. Quais serão as mudanças na vida de milhões de cubanos a curto prazo? E a longo prazo?

A curto prazo, cubanos e americanos estarão, de repente, em pé de igualdade tanto do ponto de vista político quanto do diplomático, e não serão mais “inimigos”. Americanos e cubanos poderão circular com bastante facilidade, como vizinhos “normais”. Isso representa uma mudança incrível para os cidadãos de ambos os países, especialmente para os cubanos, que já viveram tão isolados, a ponto de, para chegar a qualquer lugar na região, vamos dizer o Brasil, terem que voar primeiro para Praga.

Enquanto o embargo ainda estiver em vigor (isso terá que ser votado no Congresso dos Estados Unidos), a transformação será incompleta, mas as etapas desse processo que dependiam do governo Obama já foram realizadas, e a atividade econômica em Cuba já aumentou consideravelmente diante do iminente término do embargo. A ilha, já em tendência de alta econômica, tem experimentado um impacto psicológico impressionante na expectativa dos cubanos sobre o futuro. Os cubanos saíram de uma situação em que não tinham expectativa alguma de futuro próspero para agora contarem com um, e isso já vale muito.

A longo prazo, ainda haverá muitos desafios, mas de forma geral, acredito que os efeitos que acabo de descrever como de curto prazo passarão por uma evolução, um amadurecimento e um aprofundamento e se tornarão efeitos de longo prazo decorrentes dessas mudanças momentâneas. Acredito que uma das principais questões para os cubanos será manter a abertura e ainda assim permanecer fortes e unidos para preservar um senso nacional de equilíbrio e soberania cultural, enfrentando face a face o monstro destruidor americano.

É pública a informação de que planeja lançar em 2016 a sua biografia sobre Fidel Castro, que, no Brasil, será editada pela Objetiva. Fidel desempenhou algum papel relevante durante esse processo histórico? Qual?

Fidel desempenhou o papel do antigo chefe de Estado cético diante da última reviravolta do drama na história cubana ao expressar sua lealdade ao irmão e aos guardiões recém-indicados da revolução que ele ajudou a guiar por tanto tempo, mas também exprimiu seu receio em relação aos americanos. Nesse sentido, Fidel é o maior representante da voz da velha guarda conservadora de Cuba, que teme perder o controle da situação como resultado do retorno dos americanos à ilha. A presença persistente de Fidel e seu enorme simbolismo, ainda que com menos autoridade, permitem a Raúl justificar certa precaução em proceder tão rapidamente, e também, é bem possível, em pisar no freio de quando em quando.