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Os melhores livros de 2014

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Todo fim de ano, fazemos as tradicionais listas de melhores livros lançados. Confira abaixo os títulos publicados pela Companhia das Letras em 2014, e os que deverão ser publicados pela editora nos próximos anos, que entraram nas listas de melhores leituras dos principais jornais, sites e revistas.

Folha de S. Paulo: Repórteres da Ilustrada selecionam os melhores do ano

  • Por escrito, de Elvira Vigna
    “A escritora carioca desconstrói convenções da vida contemporânea neste romance singular.”
  • A festa da insignificânciade Milan Kundera
    “Neste retorno ao romance, após mais de uma década, o tcheco naturalizado francês retrata o vazio de sentido da vida contemporânea.”

O Globo: Os melhores livros de 2014

  • A festa da insignificânciade Milan Kundera
    “Depois de mais de 10 anos sem publicar, o tcheco Milan Kundera voltou à ficção com um romance sobre quatro velhos amigos parisienses em busca de um sentido para suas vidas. Traduzido por Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca, o novo livro do autor de A insustentável leveza do ser retrata a insignificância como ‘a essência da existência’. E não deixa de falar de política, com alusões frequentes a Stalin e à história recente da Europa.”
  • Graça infinita, de David Foster Wallace
    “No Brasil em tradução de Caetano W. Galindo quase 20 anos depois de lançado nos EUA, é uma das mais ambiciosas obras de ficção das últimas décadas, tanto pela extensão (mais de 1.100 páginas) quanto pela complexidade. É também uma reflexão comovente sobre o vício, o individualismo e a obsessão pelo entretenimento, com uma prosa extravagante e bem-humorada.”
  • Por escrito, de Elvira Vigna
    “Com uma dicção própria, pessoal sem ser confessional, e uma voz de mulher que recusa feminilidades, Elvira Vigna dá continuidade à sua trajetória singular num romance onde o afeto e o drama não têm vez. Usando uma linguagem antissentimental, a escritora carioca faz uma reflexão profunda sobre o não pertencimento a partir da secura extrema de sua personagem principal, que não dá nem quer receber nada dos que a cercam.”
  • Luís Carlos Prestes, de Daniel Aarão Reis
    “Resultado de cinco anos de pesquisas, a biografia escrita pelo historiador Daniel Aarão Reis escapa da polarização entre hagiografia e demonização de um dos principais personagens da esquerda brasileira no século XX e traz material inédito, como documentos sobre a Intentona de 1935 encontrados nos arquivos da Internacional Comunista em Moscou e gravações de reuniões decisivas para a reconstrução do PCB realizadas nos anos 1970.”

Diário da Manhã: Os 10 melhores livros de 2014

Zero Hora: Os 10 melhores livros de 2014 segundo a equipe do 2º Caderno

Veja: Os dez melhores livros do ano

Correio do Povo: Dez livros que você devia ter lido em 2014, por Luiz Gonzaga Lopes

Financial Times: Melhores livros de 2014: Negócios

  • Os inovadores, de Walter Isaacson
  • As mudanças e os choques, de Martin Wolf (previsto para março)

Huffingpost: Seis livros de 2014

Bloomberg: Schwarzman, Piketty, Kerry, Gorman escolhem os melhores de 2014

  • Os inovadores, de Walter Isaacson
  • As mudanças e os choques, de Martin Wolf (previsto para março)
  • A era da ambição, de Evan Osnos (previsto para março)

Washington Post: Top 50 livros de ficção de 2014

Washington Post: 50 livros notáveis de não-ficção

The Guardian: Escritores escolhem os melhores livros de 2014 – Parte IParte II

  • A zona de interesse, de Martin Amis (previsto para maio)
  • How to be Both, de Ali Smith (sem data prevista)
  • Nora Webster, de Colm Tóibín (previsto para junho)
  • Funny Girl, de Nick Hornby (previsto para março)

The Guardian: Livros do ano pelos leitores

  •  Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie
  • Can’t and won’t, de Lydia Davis (previsto para o segundo semestre)
  • A zona de interesse, de Mafrtin Amis (previsto para maio)
  • Outro belo dia no mar, de Geoff Dyer (previsto para 2016)
  • Coleção Comissário Maigret, de Georges Simenon
  • A balada de Adam Henry, de Ian McEwan
  • How to be Both, de Ali Smith (sem data prevista)
  • O pintassilgode Donna Tartt
  • A ilha da infância, de Karl Ove Knausgaard (previsto para maio)

The Guardian: Melhores livros de ficção de 2014

  • A balada de Adam Henry, de Ian McEwan
  • A zona de interesse, de Martin Amis (previsto para maio)
  • A ilha da infância, de Karl Ove Knausgaard (previsto para maio)
  • Nora Webster, de Colm Tóibín (previsto para junho)
  • How to be Both, de Ali Smith (sem data prevista)
  • Funny Girl, de Nick Hornby (previsto para março)

The New Yorker: Os melhores livros de 2014

  • A zona de interesse, de Martin Amis (previsto para maio)
  • A ilha da infância, de Karl Ove Knausgaard (previsto para maio)
  • Os inovadores, de Walter Isaacson
  • Can’t and won’t, de Lydia Davis (previsto para o segundo semestre)

The New Yorker: Livros favoritos de 2014, por James Wood

  • A ilha da infância, de Karl Ove Knausgaard (previsto para maio)

E para você, quais foram os melhores livros de 2014?

Até 2015!

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O Blog da Companhia terá uma pausa em sua atualização de 22 de dezembro de 2014 a 4 de janeiro de 2015. A Companhia das Letras deseja um Feliz Natal e ótimo Ano Novo para todos os seus leitores, e agradecemos a todos por nos acompanhar em mais esse ano de boas leituras e discussões no blog.

Boas festas e até o dia 5 de janeiro 2015! :)

Zero zero zero: visão penetrante, conclusiva, e que não autoriza ilusões

Por Luiz Eduardo Soares

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Leia a seguir a versão completa da resenha de Luiz Eduardo Soares de Zero zero zero, publicada hoje no Caderno Prosa do jornal O Globo.

* * *

Cada um de nós tem suas admirações particulares. Roberto Saviano é um dos meus heróis desde que li Gomorra e soube de sua saga pessoal. Agora, em Zero zero zero, seu livro mais recente, ele foi ainda mais longe. Saviano atua em um gênero que pinça o nervo de nosso tempo: convencionou-se denominá-lo jornalismo literário. Para os céticos, esse título significa nem literatura, nem jornalismo. Uma espécie de dupla traição: à autonomia estética do discurso literário e à objetividade neutra do jornalismo, supostamente desapaixonado, livre da força poética das palavras e refratário à imaginação. Prefiro virar esses argumentos pelo avesso: sem o encantamento da linguagem, que requer ourivesaria estética, os relatos, por mais comprometidos que fossem com a descrição fiel da experiência, perderiam a voz, consumidos numa aridez opaca. Sem o toque da imaginação, o que seria das narrativas? Sem fantasia, o que seria do realismo? Sem a arquitetura formal que dá à literatura a dignidade da arte, o que seria da verossimilhança documental? Sem afeto, sedução, empatia e compaixão, como celebrar o pacto da objetividade com o leitor? E sem o cascalho do cotidiano, e seus odores, o que seria da ficção? Além disso, Saviano é um desses exemplos raros e comoventes de bravura cívica que o cinismo militante da opinião pública costuma recusar-se a reconhecer, depois de uma salva de palmas protocolar n’alguma premiação para apaziguar nossa consciência. Afinal, reconhecer suas opções, sua trajetória e os riscos que alguém assim aceita correr em nome do que um dia chamamos “bem comum” nos envolveria a todos, nos mobilizaria, nos obrigaria moralmente a dar-lhe as mãos, chamá-lo irmão, abrir-lhe nossas casas, engajando-nos na mesma cruzada cidadã. Melhor tocar a vida. Já são muitos os nossos problemas privados. Vamos então à obra.

Zero zero zero é um grande livro cuja leitura será indispensável para quem tiver coragem de olhar nos olhos a barbárie contemporânea e de repensar o que supomos saber sobre nosso tempo — e talvez sobre nós mesmos. Parece exagero? Explico meu entusiasmo. Os grandes livros, em minha opinião, são os que nos transformam, incidindo sobre a visão de mundo e os sentimentos dos leitores. Iria mais longe: são aqueles que também transformaram seus autores.

Impacto dessa magnitude existe quando se lê Gomorra, a obra sobre máfias italianas que tornou seu autor mundialmente conhecido e respeitado — menos pelos criminosos, que reagiram fazendo de sua vida um inferno, obrigando-o a exilar-se e a cercar-se de escolta, dia e noite. Esse mesmo efeito transformador, em voltagem ainda mais intensa, é provocado por seu livro mais recente, que a Companhia das Letras acaba de lançar no Brasil, em excelente tradução de Frederico Carotti, Joana Angélica d’Avila Melo, Marcello Lino e Maurício Santana Dias. Entre os dois, Roberto Saviano explorou o universo literário, dialogando de outra forma com seus fantasmas. Em Zero zero zero, apelido da cocaína pura, Saviano deixa a ficção de lado, mergulha no osso do real, e retoma o fio da meada maldita, seguindo o rastro de sangue e pólvora mundo afora, identificando os vestígios da crueldade mais assombrosa e desnudando o processo econômico e político que fez da cocaína o segundo negócio mais lucrativo do planeta, abaixo apenas do petróleo.

“Ah! Eu sei, eu sei, mais um livro sobre drogas e violência, dinheiro sujo, corrupção, essas coisas…”, talvez você resmungue, atribuindo à obra de Saviano a redundância que há tempos o afastaram das tediosas páginas policiais dos jornais, que lhe servem a ração diária de miséria humana. Mas antes que você desista desta resenha e do livro, pergunto-lhe o seguinte: você estaria disposto a suspender sua crença de que as práticas comerciais ilegais de substâncias ilícitas constituem apenas o lado B da economia global, uma espécie de margem ou sombra da qual não há como livrar-se inteiramente, mas que não participa das decisões que definem nosso destino coletivo? E se eu lhe disser que não é assim que as coisas funcionam, que o lado B já se fundiu ao lado A, e que o poder que a margem mobiliza anula essa topografia antiquada e ingênua? E se eu lhe afirmar que suas noções de Estado, soberania, justiça, legitimidade democrática, monopólio do uso da força, instituições da ordem e valores republicanos talvez precisem de um banho de realidade, um mergulho no ácido da evidência que as deformará?

Pronto, agora que conquistei sua atenção e suspendi sua expectativa a respeito do que provavelmente seria um livro sobre cocaína e suas tramas transnacionais, compartilho com você alguns dados que abalam qualquer pessoa sensata e inteligente. Em 2009, como sabemos, o mundo entrou em colapso. As dívidas eram negociadas em fluxo contínuo e a moeda eram outras dívidas, numa cadeia infinita, cuja confiabilidade residia no suposto poder inabalável das instituições financeiras. Pois a hora da verdade chegou: não havia terra firme sob as vaporosas expectativas de pagamento. A bolha revelou-se o que era, e desmanchou no ar. Ou o governo americano (e logo os demais) emitia moeda e traía o dogma do livre mercado, ou outras torres tombariam: os bancos quebrariam, drenando para o ralo a economia global. O buraco inicial representava algo em torno de U$ 1 trilhão. Naquele momento, só um setor da economia continuava a girar sem problema de liquidez: o tráfico de cocaína, que lavou de imediato 352 bilhões de dólares, injetando-os nas instituições financeiras desidratadas. Cerca de um terço da liquidez mundial era dinheiro sujo de sangue. A crise demonstrou a pujança da cocaína e a vulnerabilidade do capitalismo financeiro desregulado.

São produzidas, anualmente, entre 788 e 1060 toneladas de cocaína, segundo dados do World Drug Report, de 2012. A maior fonte de exportação continua sendo a Colômbia, responsável por cerca de 60% da coca que circula no mundo, a despeito do desmantelamento dos cartéis de Medellin e Cali, e também das FARC, que se tornaram agentes do narcotráfico. A política de erradicação das plantações aplicada por sucessivos governos colombianos, em aliança com os EUA, solapou as bases tradicionais da economia camponesa e devastou o meio-ambiente, o que promoveu a dispersão de comunidades rurais e o fracionamento da produção, tornando os pequenos produtores mais vulneráveis aos barões da droga, os quais intensificaram a exploração, investiram nas intermediações e elevaram a margem de lucro. O resultado tem sido o êxito de centenas de micro-cartéis e o fortalecimento de um deles, o Norte del Vale. A crise colombiana não eliminou a produção, mas deslocou as disputas por mediações comerciais para o México, onde mais de 70 mil pessoas já foram assassinadas na guerra interna ao narcotráfico. Aproximadamente 20 milhões de cidadãos cruzam todo ano os três mil quilômetros de fronteiras que separam o país dos Estados Unidos, principal consumidor. Impossível conter os fluxos que se adaptam a todas as circunstâncias e driblam as tentativas de controle. A situação do México é particularmente dramática, porque a proliferação de grupos criminosos ampliou e agravou a disputa por domínio territorial, que corresponde ao poder sobre canais de exportação para o formidável mercado norte-americano. A partir de determinado ponto, o dinheiro não é mais contado, mas pesado, e se desloca com tanta rapidez e facilidade que as narcomáfias mexicanas não têm tido dificuldade em recrutar mercenários e cooptar militares, policiais e políticos, ou em armar-se com tecnologia sofisticada e equipamentos de última geração. Essa, aliás, é a marca que se generaliza no universo da cocaína: grana e armas, poder para corromper, chantagear e matar. Em meados dos anos 1980, Pablo Escobar, líder do cartel de Medellin, lucrava meio milhão de dólares por dia. O capo foi morto, seu cartel liquidado, mas os negócios só prosperaram, em escala global, envolvendo empreendedores das mais distintas nacionalidades e organizações criminosas de todos os continentes.

Entre 2005 e 2007, a Marinha colombiana apreendeu 18 submarinos, identificou 30 e estimou que outros 100 estivessem em operação, transportando a droga pela costa do Pacífico até a Califórnia. O narcotráfico transnacional já acumulou capacidade técnica, acesso a componentes e capital suficientes para produzir seus próprios submarinos, muitos dos quais em fibra de vidro. Seu arsenal inclui helicópteros M18, do exército soviético, aeronaves mais novas, aviões de todas as dimensões, inclusive Boeings, e embarcações dos mais variados tipos.

Falamos em armas e guerras com a superficialidade dos que não as vivenciam, diretamente, ainda que no Rio de Janeiro esta seja uma experiência diária para muita gente. A narrativa forte de Saviano não admite a indiferença e o tom blasé. O autor nos leva pela mão aos mais variados cenários da tortura perpetrada por narcotraficantes em todo o mundo ao longo do livro. Faz questão de nos conduzir aos escombros da modernidade, o outro lado da moeda, a face perversa da economia civilizadora: a crueldade extrema. O leitor talvez tente virar os olhos, como eu fiz tantas vezes, mas há ali, em cada capítulo, uma espécie de imperativo ético que nos impele a não abandonar a vítima, a acompanhar o relato com os olhos bem abertos. As cenas se prolongam além da leitura, eu lhe asseguro. A crueldade não é regida pelo cálculo utilitário ou pelas paixões ordinárias. Há algo mais, ou menos, um excesso, ou uma falta. Não se trata de atavismo animal ou apego à natureza selvagem. Os animais matam para sobreviver. O universo selvagem busca a vida, e por isso elimina o concorrente que ameaça. Não se compraz com  a dor alheia. A crueldade é código exclusivamente humano. Saviano, nesse ponto, nos dá uma lição preciosa: não procurem na natureza humana essa brutalidade assombrosa. Ela se ensina e se aprende. Por isso, o crime organizado em todo o mundo, das máfias ao terrorismo, quando adota a violência como linguagem, inventa assinaturas em seus assassinatos, disputa com grupos rivais a intensidade dos tormentos a que submete suas vítimas e se mede pela habilidade em transformar seu poder em dor, medo e humilhação. Na verdade, os grupos imitam-se uns aos outros para diferenciar-se e quanto mais se esforçam por distinguir-se e afirmar suas marcas singulares, mais se constituem em espelhos de seus inimigos. Esta é a lógica mimética e paradoxal que rege a cultura da violência. A intensificação da brutalidade é o reconhecimento prático da própria impotência: gira-se em falso e a energia deposita-se no mesmo, por isso só resta elevar a voltagem até o limite da própria força, atestando sua subordinação à órbita do outro — do qual procurava afastar-se e distinguir-se para o suplantar.

E o Brasil com isso? Nosso país é o segundo maior consumidor mundial, atrás apenas dos Estados Unidos. Passam por aqui, anualmente, entre 80 e 110 toneladas de pó. Metade cheira-se aqui mesmo — estima-se em 2,8 milhões o número de consumidores brasileiros. O resto segue para a Europa e outros destinos. O aumento do consumo de cocaína verificado na sociedade brasileira tem as mesmas causas do crescimento das vendas de automóveis, cosméticos, pacotes turísticos, cerveja, carne, smartphones e viagra: a elevação da renda média. O mercado europeu também tem crescido bastante, ainda que por lá, de um modo geral, a situação econômica não favoreça a elevação do consumo. Este é o paradoxal milagre dessa mercadoria única: ela dá lucro quando tudo vai bem, porque, afinal, tudo vai bem, e há mais dinheiro para saciar os desejos individuais. E ela vai bem quando tudo vai mal, porque ninguém é de ferro e é preciso turbinar o ânimo para compensar o baixo-astral ambiente e enfrentar mais horas de trabalho ou mais tempo ocioso — e angustiante, deprimente. Observe que não se paga um papelote de cocaína a prazo, com cheque ou cartão de crédito. Essa economia gira velozmente porque seu combustível é a liquidez imediata e sempre disponível. Se a demanda aumenta, nenhum problema: a oferta é elástica. Um quilo pode facilmente converter-se em dois ou três ou quatro. A mágica está na mistura. Cheira-se pouquíssima cocaína no pó que se inala em Londres, Nova York, Paris, Moscou, Roma, Rio ou São Paulo. Salvo nos salões abastados, que recebem o petróleo branco em condições especiais, e pagam por isso. A pureza média da cocaína na Europa varia entre 25% e 43%. Em minha pesquisa pessoal, da qual resultou o livro, Tudo ou nada: a história do brasileiro preso em Londres por associação ao tráfico de duas toneladas de cocaína (Nova Fronteira, 2012), constatei que a coca sai da Amazônia colombiana com 85% de pureza (não pode ser 100% porque é necessária a adição de produtos químicos para proteger a coca da umidade e dos efeitos de algumas condições extremas) e é vendida no varejo, na Inglaterra, com apenas 15% de pureza. Ou seja, o ganho é de 600%, considerando-se o preço da mercadoria no atacado, adquirida na matriz. Claro que há os custos do transporte, da corrupção de agentes, a taxa média de perda etc. Ainda assim, a margem de lucro é considerável. Registra-se que a saúde dos consumidores abusivos é afetada muito mais pelos componentes misturados à coca do que pela própria substância que dá nome à mercadoria

Em todo lugar, o consumo de cocaína democratizou-se. Enquanto as Américas ficam com 450 toneladas a cada ano, a Europa consome 300 toneladas, anualmente. Treze milhões de europeus já usaram a droga, 7,5 milhões entre 15 e 34 anos. No Reino Unido, o número de usuários quadruplicou na última década. Na França, dobrou, entre 2002 e 2006. Estima-se que entre 20% e 30% da produção de cocaína pura destinam-se ao mercado europeu.

As multinacionais da cocaína ramificaram-se por todas as regiões, aproveitando cada oportunidade para explorar a demanda potencial e imiscuir-se nas redes políticas, sociais e econômicas institucionalizadas. A promiscuidade com o mundo legal é seu método de autoproteção, torna-se tática de reprodução e fortalecimento, até converter-se em sua própria natureza, porque, a partir de determinado ponto, não é mais possível distinguir os elos legais dos ilegais, as dinâmicas lícitas das criminosas. Os narcoempresários cercam-se de PhDs, gestores tarimbados que trabalham com metas e esquemas meritocráticos, operadores financeiros de primeira qualidade, sócios bem situados na arena transnacional, conselheiros econômicos e políticos refinados, com trânsito irrestrito no universo empresarial, jurídico-político e na grande mídia. O capital errante lava-se na aquisição de hotéis, restaurantes, redes de supermercados e shopping centers, revendedoras de automóveis, instituições financeiras e indústrias, ou associando-se a empreiteiras e mega-empreendimentos, inclusive nas áreas de energia, em especial petróleo e gás. No passado, o pó corria atrás do dinheiro, dos circuitos do capital para parasitá-lo e fertilizar a fortuna dos cartéis, ainda insulados e territorialmente circunscritos, falando sobretudo espanhol. Hoje, são os mercados que buscam atrair a fortuna dos cartéis e acercar-se dos narconegócios, falando todas as línguas da babel capitalista. Agora, é o dinheiro que gravita em torno do pó. Décadas atrás, o narcotráfico precisava de paraísos fiscais para lavar seus lucros milionários. Hoje, Nova York e Londres, Wall Street e a City são as grandes lavanderias globais, e os lucros são bilionários. O sistema bancário na matriz do capitalismo já deu mostras de que não tem grande interesse em investigar a origem de depósitos, transferências, trocas de papéis e títulos, dívidas e créditos em fluxos financeiros das mais diversas modalidades. Mesmo quando essa identificação, digamos, arqueológica é viável, hipótese cada vez menos provável. A análise de Saviano é penetrante e conclusiva. Não autoriza ilusões.

O exemplo russo talvez seja o mais eloquente e dramático. Enquanto a União Soviética agonizava, máfias preparavam-se para o dia seguinte. Grupos criminosos durante muito tempo abasteceram a dispensa dos membros da Nomenklatura com o contrabando de todo tipo de produto e saciaram o apetite generalizado na população por mercadorias ocidentais inacessíveis. Essa prática duradoura lhes permitiu acumular contatos estratégicos na alta hierarquia do partido comunista e informações confidenciais comprometedoras sobre funcionários poderosos. Contatos e informações, naqueles tempos sombrios, valiam mais que rublos decadentes. Quando o muro finalmente ruiu e a União Soviética desmembrou-se, os empreendedores mafiosos estavam prontos para agir. A riqueza estatal foi rapidamente apropriada por lobos vorazes que monopolizavam o conhecimento relativo a processos decisórios, modos de operação, quais atores estariam dispostos a assumir iniciativa e que regras do jogo seriam aplicadas. Assim, agentes empreendedores da Nomenklatura em aliança com máfias locais herdaram parte expressiva do patrimônio estatal soviético e legaram à etapa capitalista que se instalava um padrão violento e despudoradamente refratário aos princípios supostamente equitativos do mercado. O negócio da cocaína, que já era próspero no período anterior, mostrou-se extraordinariamente promissor. Não por acaso articulou-se com empreendimentos bilionários nas áreas de petróleo e gás. Tal promiscuidade chegou a constituir-se no eixo de conflitos entre Rússia, Ucrânia e Europa, relativos à distribuição de gás, cuja importância é vital para os países europeus. Tampouco é arbitrário o fato de que um agente chave nessa rede estratégica, o mega mafioso Mogilevich, antes de ser desmascarado tenha assumido o controle de um banco russo de prestígio internacional, o Inkombank, entre 1994 e 1998. Sua rede de contas envolvia o Bank of New York, o Bank of China, o suiço UBS e o Deutsche Bank. Outras histórias estão em curso, furando bloqueios e contando com parcerias insuspeitadas. Reitero o ponto: dadas a magnitude, a escala e a complexidade dos fluxos financeiros provenientes do narcotráfico, tornou-se impossível separar o joio do trigo, mesmo quando há interesse em fazê-lo por parte de agentes financeiros, policiais, jurídicos e políticos. A dinâmica do capitalismo financeiro globalizado e a agilidade dos narconegócios, turbinados pela instantânea liquidez de suas operações, gestaram um novelo inextricável. Quanto mais desenvolver-se a economia, mais se potencializará o narcotráfico, seja na ponta do consumo, seja por sua articulação orgânica com a economia legal. Na escala multibilionária dos mercados globais, a diferença legal-ilegal foi condenada à obsolescência, o que nos deixa diante de um dilema do tamanho do planeta: ou legalizamos as drogas e purgamos o veneno letal que infecciona e intoxica governos, instituições e sociedades, ou vamos continuar pavimentando o caminho para a destruição de governos, instituições e sociedades, crescentemente destroçados pela corrupção e a violência.

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Luiz Eduardo Soares é antropólogo e escritor.

Discurso de Malala Yousafzai no Prêmio Nobel da Paz

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Malala Yousafzai e Kailash Satyarthi receberam hoje, 10 de dezembro, em Oslo, o Prêmio Nobel da Paz. A seguir, leia o discurso de Malala feito durante a cerimônia de entrega do prêmio (tradução de Carlos Alberto Bárbaro).

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Bismillah hir Rahman ir rahim. Em nome de Deus, o mais misericordioso, o mais benévolo.

Excelentíssimas majestades, ilustres membros do Comitê Nobel Norueguês, queridos irmãos e irmãs, hoje é um dia de grande felicidade para mim. Aceito com humildade a escolha do Comitê Nobel em me agraciar com este precioso prêmio.

Obrigado a todos pelo apoio e amor permanentes. Sou grata pelas cartas e cartões que continuo a receber de todas as partes do mundo. Ler suas palavras amáveis e encorajadoras me fortalece e inspira.

Queria agradecer a meus pais por seu amor incondicional. Agradecer a meu pai por não cortar minhas asas e me deixar voar. Obrigado, mamãe, por me inspirar a ser paciente e falar sempre a verdade — que acreditamos vigorosamente ser a verdadeira mensagem do Islã.

Muito me orgulha ter sido a primeira pachtun, a primeira paquistanesa e a primeira adolescente a receber este prêmio. E tenho a certeza absoluta de ser também a primeira pessoa a receber um Nobel da Paz que ainda briga com seus irmãos mais novos. Eu quero que a paz se espalhe por todos os cantos, mas meus irmãos e eu ainda estamos trabalhando nisso.

Muito me honra também dividir este prêmio com Kailash Satyarthi, que vem lutando pelos direitos das crianças já há muito tempo. Na verdade, pelo dobro do tempo que já vivi. Fico feliz também por estarmos aqui reunidos demonstrando ao mundo que um indiano e uma paquistanesa podem conviver em paz e trabalhar em prol dos direitos das crianças.

Queridos irmãos e irmãs, recebi meu nome em homenagem à pachtun Joana D’Arc, Malalai de Maiwand. A palavra Malala significa “enlutada”, “triste”, mas, tentando imbuir um pouco de alegria a ela, meu avô iria sempre me chamar de “Malala — a garota mais feliz deste mundo”, e hoje estou muito feliz de estarmos aqui reunidos por uma causa importante.

Este prêmio não é só meu. É das crianças esquecidas que querem educação. É das crianças assustadas que querem a paz. É das crianças sem direito à expressão que querem mudanças.

Estou aqui para afirmar os seus direitos, dar-lhes voz… Não é hora de lamentar por elas. É hora de agir, para que seja a última vez que vejamos uma criança sem direito à educação.

Tenho percebido que as pessoas me descrevem de várias maneiras.

Algumas se referem a mim como a menina que foi baleada pelo talibã.

Outras, como a menina que lutou por seus direitos.

Outras, agora, como “a Prêmio Nobel”.

No que se refere a mim, sou apenas uma pessoa dedicada e teimosa que quer ver todas as crianças recebendo educação de qualidade, que quer a igualdade de direitos para as mulheres e que quer que haja paz em todos os cantos do mundo.

A educação é uma das bênçãos da vida — e uma de suas necessidades. Essa tem sido a minha experiência pelos dezessete anos em que vivi. Em minha casa, no vale Swat, no norte do Paquistão, eu sempre adorei a escola e aprender coisas novas. Lembro-me que quando minhas amigas e eu enfeitávamos nossas mãos com hena para as ocasiões especiais, em vez de desenhar flores e padrões nós pintávamos as mãos com fórmulas e equações matemáticas.

Tínhamos sede de educação porque o nosso futuro estava bem ali, naquela sala de aula. Nós sentávamos e líamos e aprendíamos juntas. E amávamos vestir aqueles uniformes escolares limpos e bem passados e sentar ali com grandes sonhos em nossos olhos. Queríamos que nossos pais se orgulhassem de nós e provar que poderíamos nos destacar nos estudos e realizar algo, o que algumas pessoas pensam que somente os meninos podem fazer.

Mas as coisas mudam. Quando eu tinha dez anos, Swat, que era um recanto de beleza e turismo, de repente se transformou em um lugar de terrorismo. Mais de quatrocentas escolas foram destruídas. As meninas foram impedidas de frequentar a escola. As mulheres foram açoitadas. Pessoas inocentes foram assassinadas. Todos sofremos. E os nossos belos sonhos se transformaram em pesadelos.

A educação passou de um direito a um crime.

Mas com a mudança repentina de meu mundo, minhas prioridades também se modificaram.

Eu tinha duas opções, a primeira era permanecer calada e esperar para ser assassinada. A segunda era erguer a voz e, em seguida, ser assassinada. Eu escolhi a segunda. Eu decidi erguer a voz.

Os terroristas tentaram nos deter e atacaram a mim e a minhas amigas em 9 de outubro de 2012, mas suas balas não podiam vencer.

Nós sobrevivemos. E desde aquele dia nossas vozes só fizeram se erguer mais altas.

Eu conto a minha história não porque ela seja única, mas principalmente porque não é.

Hoje, eu conto as histórias delas também. Eu trouxe comigo para Oslo algumas das minhas irmãs, que compartilham esta história, amigas do Paquistão, Nigéria e Síria. Minhas valentes irmãs, Shazia e Kainat Riaz, que também levaram tiros comigo naquele dia em Swat. Elas também passaram por esse trauma trágico. Também a minha irmã Kainat Somro, do Paquistão, que sofreu violência e abuso extremos, até mesmo seu irmão foi assassinado, mas não sucumbiu.

E há meninas comigo que eu conheci durante minha campanha do Fundo Malala, que agora são como minhas irmãs. Minha corajosa irmã Mezon, da Síria, de dezesseis anos, que atualmente vive na Jordânia, em um campo de refugiados, indo de tenda em tenda para ajudar meninas e meninos a aprender. E minha irmã Amina, do norte da Nigéria, onde o Boko Haram ameaça e rapta meninas simplesmente por elas quererem ir para a escola.

Embora na aparência eu seja uma menina, uma pessoa com um metro e cinquenta e sete de altura, contando com os saltos altos, eu não sou uma voz solitária, eu sou muitas.

Eu sou Shazia.

Eu sou Kainat Riaz.

Eu sou Kainat Somro.

Eu sou Mezon.

Eu sou Amina.

Eu sou aquelas 66 milhões de meninas que estão fora da escola.

As pessoas gostam de me perguntar por que a educação é importante, especialmente para as meninas. A minha resposta é sempre a mesma.

O que eu aprendi da leitura dos dois primeiros capítulos do Alcorão Sagrado foram as palavras Iqra, que significa “leitura”, e nun wal-qalam que significa “pela caneta”.

Assim, como eu disse no ano passado nas Nações Unidas: “Uma criança, um professor, uma caneta e um livro podem mudar o mundo.”

Hoje, em metade do mundo testemunhamos acelerado progresso, modernização e desenvolvimento. No entanto, há países onde milhões ainda sofrem dos antiquíssimos problemas da fome, da pobreza, da injustiça e de conflitos.

Na verdade, lembramos em 2014 que um século se passou desde o início da Primeira Guerra Mundial, mas ainda não aprendemos todas as lições que surgiram da perda daquelas milhões de vidas de cem anos atrás.

Ainda há conflitos em que centenas de milhares de pessoas inocentes perdem suas vidas. Muitas famílias passaram a ser refugiados na Síria, em Gaza e no Iraque. Ainda há meninas que não têm liberdade para ir à escola no norte da Nigéria. No Paquistão e no Afeganistão vemos pessoas inocentes sendo mortas em ataques suicidas e explosões de bombas.

Muitas crianças na África não têm acesso à escola por causa da pobreza.

Muitas crianças na Índia e no Paquistão são privadas de seu direito à educação por conta de tabus sociais, ou forçadas ao trabalho infantil e, no caso de meninas, a casamentos infantis.

Uma das minhas melhores amigas da escola, da mesma idade que eu, sempre foi uma menina corajosa e confiante, que sonhava um dia se tornar uma médica. Mas seu sonho continuou a ser um sonho. Aos doze anos ela foi forçada a se casar, tendo um filho logo em seguida, numa idade em que ela própria era ainda uma criança — apenas catorze anos. Eu sei que a minha amiga teria sido uma médica muito boa.

Mas ela não pôde… porque era uma menina.

Sua história é a razão pela qual eu dedico o dinheiro do Prêmio Nobel para o Fundo Malala, para ajudar a dar às meninas de toda parte uma educação de qualidade e convocar os líderes a ajudar meninas como eu, Mezun e Amina. O primeiro lugar para onde esse financiamento será aplicado é lá onde reside meu coração, para construir escolas no Paquistão — especialmente na minha terra natal de Swat e Shangla.

Na minha própria aldeia ainda não existe uma escola secundária para meninas. Eu quero construir uma, para que minhas amigas possam ter uma educação e a oportunidade que isso traz na realização de seus sonhos.

É por lá que irei começar, mas não é por lá que irei parar. Vou continuar esta luta até ver todas as crianças na escola. Eu me sinto muito mais forte depois do ataque que sofri, porque eu sei que ninguém pode me parar, ou nos parar, porque agora somos milhões, lutando juntos.

Queridos irmãos e irmãs, grandes pessoas que trouxeram mudanças, como Martin Luther King e Nelson Mandela, Madre Teresa e Aung San Suu Kyi, que passaram todos por este palco, espero que os passos que Kailash Satyarthi e eu percorremos até aqui, e que ainda daremos nessa jornada, também tragam mudança — mudança duradoura.

Minha grande esperança é que esta seja a última vez que tenhamos que lutar pela educação de nossos filhos. Queremos que todos se unam em apoio a nossa campanha para que possamos resolver isso de uma vez por todas.

Como eu disse, já demos muitos passos na direção certa. Chegou a hora de dar um salto.

Não é mais o caso de convencer os governantes do quão importante é a educação — isso eles já sabem, seus próprios filhos estão em boas escolas. A hora agora é de convocá-los a agir.

Pedimos aos líderes mundiais que se unam para fazer da educação a sua principal prioridade.

Há quinze anos, os líderes mundiais chegaram a um consenso sobre um conjunto de metas globais, os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Nos anos que se seguiram, testemunhamos alguns progressos. O número de crianças fora da escola foi reduzido à metade. No entanto, o mundo se concentrou apenas na expansão do ensino fundamental e o progresso não chegou a todos.

No próximo ano, em 2015, representantes de todo o mundo se reunirão na Organização das Nações Unidas para decidir sobre o próximo conjunto de metas, os Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável. Isto irá definir a ambição do mundo para as gerações vindouras. Os líderes devem aproveitar essa oportunidade para garantir uma educação fundamental e secundária gratuita e de qualidade para cada criança.

Alguns dirão que isso é impraticável, ou muito caro, ou muito difícil. Ou mesmo impossível. Mas é hora de pensar grande.

Queridos irmãos e irmãs, o chamado mundo dos adultos pode compreender isso, mas nós, as crianças, não. Por que os países que chamamos de “fortes” são tão poderosos em criar guerras, mas tão fracos em trazer a paz? Por que fornecer armas é tão fácil, mas doar livros é tão difícil? Por que fabricar tanques é tão fácil, mas construir escolas é tão difícil?

Vivemos na era moderna, o século XXI, e passamos a acreditar que nada é impossível. Chegamos à Lua e talvez em breve pousaremos em Marte. Então, neste século, temos de insistir em que o nosso sonho de uma educação de qualidade para todos também se torne realidade.

Por isso deixem-nos levar igualdade, justiça e paz para todos. E não apenas os políticos e os líderes mundiais, todos precisamos contribuir. Eu. Vocês. É nosso dever.

Ao trabalho, então… sem esperar.

Apelo às crianças como eu a levantar-se em todo o mundo.

Queridos irmãos e irmãs, que nos tornemos a primeira geração a decidir ser a última [a ficar fora da escola].

As salas de aula vazias, as infâncias perdidas, o potencial desperdiçado — que tudo isso se encerre conosco.

Que esta seja a última vez que um menino ou uma menina desperdice sua infância em uma fábrica.

Que esta seja a última vez que uma garota seja obrigada a se casar na infância.

Que esta seja a última vez que uma criança inocente perca a vida na guerra.

Que esta seja a última vez que uma sala de aula permaneça vazia.

Que esta seja a última vez que se diga a uma menina que a educação é um crime e não um direito.

Que esta seja a última vez que uma criança permaneça fora da escola.

Que comecemos nós a encerrar essa situação.

Que sejamos nós a dar um fim a isto.

Que comecemos a construir um futuro melhor, aqui, agora.

Obrigada.

* * * * *

Em outubro de 2012, Malala Yousafzai foi perseguida pelo Talibã e atingida na cabeça por um tiro quando voltava de ônibus da escola. Contrariando as expectativas, ela sobreviveu e agora continua sua campanha por educação por meio do Fundo Malala, uma organização sem fins lucrativos de apoio educacional em comunidades ao redor do mundo. Sua história de luta pela educação é contada no livro Eu sou Malala, em co-autoria com a jornalista Christina Lamb, que ganhará uma edição juvenil em 2015 pela Editora Seguinte.

Sérgio Rodrigues vence o Prêmio Portugal Telecom

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Aconteceu ontem, dia 8, no Rio de Janeiro, a cerimônia de premiação do Portugal Telecom, um dos principais prêmios literários da língua portuguesa. O drible, de Sérgio Rodrigues, foi o grande vencedor da noite, escolhido como o melhor romance e também ganhador do Grande Prêmio.

O drible concorreu na categoria Romance com Opsanie Swiata (Cosac Naify), de Verônica Stigger, A cidade, o inquisidor e os ordinários (Companhia das Letras), de Carlos de Brito e Mello, e Matteo perdeu o emprego (Foz Editora), de Gonçalo M. Tavares. Já para o Grande Prêmio, a disputa foi com os vencedores da categoria Poesia, Observação de verão seguido de Fogo (Móbile), de Gastão Cruz, e Crônica, Entre moscas (Confraria do Vento), de Everardo Norões.

A Companhia das Letras tem orgulho de publicar a obra de Sérgio Rodrigues e o parabeniza pelos prêmios.