Outros

Livros no cinema

Em janeiro chegam ao cinema dois filmes baseados em títulos da Companhia das Letras: Millennium – Os homens que não amavam as mulheres e As aventuras de Tintim.

Ambos estão recebendo boas críticas lá fora. Por qual você está mais ansioso?

Bem-vindos ao GNEO, um grupo de apoio aos cronicamente impronunciáveis

[Texto escrito por Liberty Hardy para o site BookRiot e reproduzido aqui com autorização. Tradução de Vanessa Barbara.]

Akron 293 AA Meeting

No subsolo de uma igreja unitarista em Portland, o escritor Chuck Palahnuik se dirige a um grupo de pessoas sentadas em cadeiras dobráveis. Na parede, fotos de Albert Camus e Aleksandr Solzhenitsyn. Estou parada no fundo da sala, junto à mesa do café, sondando o ambiente. Consigo identificar vários dos participantes: Chimamanda Ngozi Adichie, Abraham Verghese, Eoin Colfer. Trata-se de uma reunião dos Grandes Nomes e Obras, ou GNEO — um grupo de apoio para escritores com sobrenomes difíceis de pronunciar.

Palahniuk é uma escolha óbvia como líder do GNEO, não só porque no passado trabalhou no transporte de pessoas que frequentavam grupos de apoio como este, mas porque ele próprio costuma ter seu nome deturpado. Naquela manhã, nos falamos pelo telefone, enquanto acertávamos os pormenores da minha cobertura do evento. “Você se entrega de coração ao trabalho durante dias, meses, anos, e fica feliz com o resultado. Ganha prêmios, torna-se um autor de best-sellers, namora modelos. E então alguém põe tudo a perder errando a grafia do seu nome”, ele me disse. “Você é o seu trabalho. Se as pessoas não conseguem sequer pronunciar corretamente o seu nome, o que isso diz de você? É tão frustrante”.

Vou acompanhando a apresentação de cada um dos escritores presentes, que articulam os próprios nomes com cuidado e compartilham testemunhos. “Ganhei o Prêmio Nobel de Literatura”, declarou a poeta Wislawa Szymborska, “e eles ainda não conseguem acertar o meu nome”.

“Aquele palhaço do Matt Lauer arruinou a minha estreia em rede nacional”, disse Slavoj Zizek. “Tive que me segurar para não largar o microfone e ir embora”.

É a primeira reunião de Siddhartha Mukherjee. “Ainda não me acostumei com o nível de exposição após o anúncio do Pulitzer. É um alívio saber que não estou sozinho”, declara.

Há uma única interrupção, quando um senhor grisalho de olhar bondoso abre a porta. “Não, não, DeLillo”, diz Palahniuk. “Você está procurando a ViFraCoDe, na sala ao lado”. O escritor agradece e fecha a porta. (“ViFraCoDe?”, perguntei a Palahniuk mais tarde. “Viciados em Frases Compridas e Desconexas”, ele explicou.)

Após os testemunhos, juntei-me aos participantes. “As pessoas sofrem com isso desde que existem escritores”, conta Raefel Yglesias.

“Como Ayn Rand?”, eu pergunto.

“Não falamos sobre esse assunto”, ele me sussurra.

Um membro do grupo, que pediu para permanecer anônimo, diz invejar autores com sobrenomes fáceis, como “Waters” ou “Roth”. “Joe Hill? Quer dizer, como assim? O nome inteiro dele só tem duas sílabas”, ele zomba. “E Sara Gran? Claro, seus livros são ótimos, mas ela não sabe o que é sofrimento!”

“Se é tão frustrante assim, por que não trocam de nome?”, eu pergunto, e de imediato a sala cai num silêncio mortal. O grupo me encara como se eu tivesse pedido para urinar no adorado bicho de estimação da família. Chris Bohjalian sorri com desprezo. Ninguém mais fala comigo pelo resto da noite, e a reunião é encerrada pouco depois. O que é bom, pois acho que alguém batizou o ponche. Aposto que foi o Duane Swierczynski.

Fregueses vs. livrarias

Por Hillé

O cenário é o de sempre: livraria de grande porte no coração da cidade mais tresloucada do país. Apesar de todo o charme arquitetônico, o que realmente chama atenção de quem a observa com um pouco mais de carinho são os fregueses. Tem de tudo, vai por mim, estou lá há quase três anos. Tem a japonesa que chega às dez da manhã, pega o primeiro livro de concurso público que encontra pela frente e só vai embora quando o expediente da loja chega ao fim; o velhinho de chapéu panamá e sua implacável obstinação em ter todas as edições do kama sutra; a senhora de idade que gasta seus 156 salários mínimos em livros com jovens descamisados na capa (e que ela mesma já admitiu não ler); entre tantos, tantos e tantos outros.

— Você já leu alguma coisa sobre esse livro? Isso é novo? O que você sabe sobre esse aqui? E sobre esse? Esse livro é bom? Alguma revista já falou sobre esse? E esse aqui, é lançamento? Esse é bom? E esse?

Quem dispara a série de perguntas, enquanto aponta para alguns livros expostos, é um frequentador assíduo do lugar onde trabalho: vou chamá-lo carinhosamente de senhor metralha. O senhor metralha é o típico freguês que acha que nós, livreiros, somos seres iluminados e que temos à nossa disposição todo o tempo do mundo para ler o acervo inteiro da livraria. E mais, ele acredita cegamente que temos o privilégio de consumir todos (e quando eu digo todos, creia em mim) os lançamentos antes mesmo do livro ser imaginado pelo próprio autor. Mas o senhor metralha não é o único, há toda uma gangue que, diariamente, tenta deixar a autoestima do povo livreiro lá embaixo com indagações do tipo: “como assim você ainda não leu o novo livro da nossa maior escritora de autoajuda?”. É, meus amigos, não é fácil pra ninguém.

Pra deixar o ambiente ainda mais divertido (ai, que divertido), além da gangue do senhor metralha, existe também a turma dos fregueses que sai de casa confiando apenas na nossa memória visual. “Anotar o nome do livro que eu preciso comprar? Mas que nada! O livreiro daquela livraria conhece TUDO, cê vai ver só”. Sendo assim, não é preciso muito para começar a gincana: “Oi, semana passada eu estive aqui e tinha um livro bem pequeno em cima daquele balcão. Onde ele está?” ou “Eu fui lá na outra loja de vocês e tinha um livro vermelho que falava sobre borboletas jamaicanas. Você sabe qual é?” ou “Oi, eu queria um livro, mas não sei o título, o autor, não sei sobre o que se trata, não sei se tem páginas, mas posso garantir que a capa é azul”. Não disse que era pura diversão?

Embora os dois grupos de fregueses citados acima tenham espaço cativo no coração de todo ser que trabalha em livraria, há o grupo daqueles que nos deixa, assim, de joelhos, de tanto amor. Faz parte desse grupo aquele freguês que confunde alho com bugalhos; que mistura título com autor, livraria com biblioteca, cachorro com gato e Machado de Assis com Brás Cubas. É aquele freguês que diz que Tolstói escreveu a trilogia do Senhor dos Anéis e pergunta se, além de Memórias póstumas, Brás Cubas escreveu outros livros. Não fica de fora, também, o freguês que marcou um x no meu coração, depois de travar o seguinte diálogo comigo ontem:

— Moça, você já tem o livro do filme A árvore da vida?
(peraí, peraí, peraí)
— Mas esse filme foi inspirado em um livro?
— Claro. Já tem?
(“claro”. livreira olha no sistema, revira a internet, pede ajuda às cartas, aos universitários, aos escritores já falecidos, ao universo, e nada.)
— O senhor tem certeza que o filme foi inspirado em um livro?
— Ué, e não foi?
(hahaha ma che!)
— Olha, então, pelo o que eu tô vendo aqui, não, viu?
— Mas eles transformam em livro, né?
— O quê?
— Filme que faz sucesso, moça. Todo filme que faz sucesso não é transformado em livro?
— Como assim?
(ok, o “como assim?” mas, né, desenha o que você tá falando porque eu não tô entendendo nada.)
— Ah, moça, vários livros, né?
— Não, meu senhor, na grande maioria dos casos, livros são transformados em filmes e não o contrário.
— Ah, mas o contrário não acontece mesmo?
(OLHA)

manual prático de bons modos em livrarias:
assim como o personagem de Bill Bailey, da série Black Books (extinto seriado inglês, que retratava o cotidiano de uma pequena bookstore em Londres), antes de trabalhar com pessoas e livros, eu imaginava a livraria como um retrato fiel do paraíso profissional: livros all over, pessoas inteligentes, conversas agradáveis etc etc etc. Mas te dou uma realidade? O delírio cobre tudo isso aí. E, apesar da loucura desenfreada, dos fregueses psicodélicos, diariamente, fico emocionada com alguma situação. A mais marcante, até hoje, foi o caso do senhor que morou por dez anos na rua e diz ter sido salvo pela literatura. E eu poderia passar horas e horas falando sobre os bastidores do meu trabalho, mas o (querido) Rogério Ortega/Ruy Goiaba me mandou um textinho do George Orwell que retrata, de forma brilhante, o trabalho livresco. Para ler, só clicar aqui.

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Hillé comenta sobre seu dia-a-dia de livreira no blog [manual prático de bons modos em livrarias].

Dicas de presentes para o Dia das Mães, por Contardo Calligaris

Amanhã Contardo Calligaris autografa seu novo livro, A mulher de vermelho e branco, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Como neste final de semana é comemorado o Dia das Mães, pedimos a ele que sugerisse alguns títulos para você dar de presente para a sua:

Sigmund Freud, Obras completas, volume 18 (1930-1936)
Mesmo que fosse só para ler ou reler “Mal-estar na civilização”, que é uma janela pela qual não paro de olhar o mundo.

Rafael Sica, Ordinário
Sou fascinado pela tiras de Sica, porque ele me surpreende quase sempre e por tudo o que ele consegue dizer e sugerir com uma extrema economia de traços e sem palavras.

Michel Laub, Diário da queda
Estou no meio do livro, e amando — com a sensação de uma “afinidade eletiva” com Laub, que não conheço, mas que me parece ser meu amigo desde sempre.

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Contardo Calligaris, colunista da Folha de S.Paulo e autor de O conto do amor, fará uma turnê de lançamento que passará por Guarulhos, Salvador, Recife, Ribeirão Preto, Brasília e Cidade de Goiás. Assista ao booktrailer de A mulher de vermelho e branco:

Uma outra Copa

O escritor Mia Couto foi à África do Sul para assistir o jogo Brasil x Portugal da Copa do Mundo, e nos enviou o relato abaixo sobre a experiência:

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Turistas de diversos países em bar de Cape Town, África do Sul (Foto por Damien du Toit)

Uma outra Copa

Quem ganhou o Mundial talvez tenha sido África. Ou mais precisamente, quem venceu a Copa foi uma das selecções que mais cedo foi eliminada: a África do Sul. A forma como decorreu o campeonato convenceu mesmo os mais cépticos. Afinal, uma nação africana passou o teste por todo um continente. Esse foi o golo mais convincente no fundo das redes do afropessismo.

Era isto que eu pensava enquanto, em Durban, a fila de gente esperava, ordeira, pela fila de onibus. Tudo organizado, sem registo de um precalço. Para mim, era uma lição. Também eu, como muitos moçambicanos, tive dúvidas. Vizinhos que somos da África do Sul, sabíamos da capacidade mas mantínhamos os nossos dedos cruzados por detrás da certeza.

Fiz a viagem de carro, com a família, de Maputo para Durban. São mais de 600 quilómetros, incluindo a passagem de três fronteiras. Ao volante, cansado, eu me perguntava: por que razão não fiquei em casa, sentado em frente ao televisor, no conforto do sofá? Mas quando entrei no estádio, as minhas dúvidas emudeceram. Aquela moldura de gente deflagrou como uma explosão nos meus olhos, nos meus ouvidos. As pessoas envergavam não as cores dos seus países, mas as cores da celebração festiva. Não pude deixar de percorrer com um olhar de biólogo aquela multidão dentro e fora do estádio. Milhares de pessoas se apressavam, cruzando-se, saudando-se com amizade para além do facto de serem adeptos de cores adversárias. Então, um sentimento de feliz confirmação me percorreu: a nossa espécie nasceu destinada à cooperação solidária. A ideia que somos, por essência, vocacionados para a agressão é uma construção cuja falsidade se confirmava, uma vez mais, nas minhas vivências.

À saída comentávamos sobre a mediocridade do espectáculo futebolistico. Para mim, porém, um outro espectáculo maior tinha vencido e convencido. Essa foi a Copa que eu lembrarei para sempre.

[Foi mantida a grafia vigente no país de origem do escritor.]

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Mia Couto nasceu na Beira, em Moçambique, em 1955, e é um dos principais escritores africanos, comparado a Gabriel Garcia Márquez, Guimarães Rosa e Jorge Amado. Seu romance Terra sonâmbula foi considerado um dos dez melhores livros africanos do século XX.

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