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Dicas para o Dia dos Namorados

Recentemente lançamos Por isso a gente acabou, de Daniel Handler e Maira Kalman, e A trama do casamento, de Jeffrey Eugenides. Várias pessoas aqui da editora leram os dois, e têm comentando que é engraçado lançá-los perto do Dia dos Namorados. Afinal, o primeiro é sobre um relacionamento que deu errado, e o outro sobre um triângulo amoroso.

Resolvemos, então, reunir nossas próprias dicas de presentes para o 12 de junho pensando não são só nos namorados, mas também nos indecisos e naqueles que vão passar a data sozinhos…

Para os comprometidos:

  • Atlas: último livro de Jorge Luis Borges publicado em vida, reúne relatos e fotos de suas viagens com María Kodama.
  • Claro enigma: uma coletânea de poemas de Drummond com forma mais clássica, que abordam temas como o amor, a morte e a memória.
  • Só garotos: a biografia de Patti Smith sobre os anos em que conviveu com Robert Mapplethorpe, quando os dois ainda estavam tentando virar artistas.

Para os indecisos:

  • A trama do casamento: Madeleine estuda romances vitorianos em plena época do desconstrutivismo, e se vê dividida entre a devoção de Mitchell Grammaticus e a complicada relação dela com o gênio problemático Leonard Bankhead.
  • Dona Flor e seus dois maridos: a professora de culinária Florípedes conhece em seus dois casamentos a dupla face do amor: com o boêmio Vadinho, vive a paixão avassaladora; com o farmacêutico Teodoro, encontra a paz doméstica.
  • O que deu para fazer em matéria de história de amor: enquanto arruma o apartamento de um casal falecido, a narradora tenta tomar decisões sobre sua própria vida.

Para os solteiros:

  • Por isso a gente acabou: sofrendo com o fim do relacionamento, Min resolve escrever uma carta ao ex-namorado e devolver todos os objetos que a fazem lembrar dos momentos que viveram juntos.
  • Mr. Peanut: David ama a esposa, mas vive fantasiando sua morte. Quando ela morre engasgada, o programador reservado vira o principal suspeito, e o casamento dos dois será cuidadosamente analisado.
  • Ulysses: o clássico de James Joyce relata um dia na vida de Leopold Bloom. (Como é preciso muito tempo para terminar esse livro, achamos que poderia ser uma boa sugestão.)

E você, leitor, qual livro indica? Ou qual vai pedir de presente?

Cadeia de poeta

Por Noemi Jaffe

“Noemi, sabe qual é a gíria que se usa aqui no presídio para sentenças pequenas, de dois, três anos? É ‘cadeia de poeta’. Isso porque se a pessoa pega uma pena longa, decente, de uns vinte anos, ela consegue juntar economias aqui dentro para ter um futuro quando sair. Com dois, três anos, ela não consegue juntar quase nada e quando sai daqui não tem futuro nenhum esperando por ela lá fora. É como um poeta.”

Essa foi só uma das coisas que as dezesseis detentas do Clube de Leitura da Penitenciária Feminina de Sant’Ana me ensinaram na sexta-feira, dia 09 de março, quando fui até lá para conversar com elas sobre dois poemas de Drummond: “Infância, do livro Alguma poesia, e “Ausência”, escrito em homenagem a Ana Cristina César, e que está no livro Corpo.

Posso dizer, sem exagero, que minha leitura interpretativa dos dois poemas foi, em grande parte, conduzida pelas questões surpreendentes que elas iam fazendo. Muito do que falei não tinha sido planejado, mas foi sendo construído ali mesmo, à medida que elas mostravam novas possibilidades de leitura. Assim, a Clarice, por exemplo, disse que tinha pensado, a partir do poema “Ausência, que a diferença entre as ideias de “falta” e de “ausência” é que “falta é o que não se tem” e “ausência é o que se tem”. Ao final da interpretação, a Laura disse, espantada e me espantando, que lá no presídio, então, elas “têm tudo”, já que para elas “tudo é ausência.”

Pensar a saudade não somente como algo que entristece e reitera a precariedade da vida, mas também como a presença da ausência e, dessa maneira, dar à saudade o conteúdo de algo que se possui e que determina a individualidade, foi uma grande libertação para todas nós.

E assim foi também com o menino que não sabia que sua história “era mais bonita que a de Robinson Crusoé” e o reconhecimento de que isso só pode acontecer porque sua história é real e própria e a de Robinson Crusoé é ficcional e alheia; que coisas como um pai que campeia, uma mãe que coze e um irmão que dorme podem ser mais importantes e literariamente legítimas do que aventuras, naufrágios e grandes conquistas.

Suas descobertas eram semelhantes às que nós do grupo também fazíamos, vendo-as se encantar com o fato de que “poesia não precisa só falar de amor” e “que não precisa ser romântica”. Enquanto elas falavam, nós, do lado de cá, também descobríamos que o lado de lá é cheio de nuances e de complexidade. A Soraia, por exemplo, foi aos poucos mudando a expressão séria para um sorriso discreto que a acompanhou até o final da aula. Ela não tinha um rosto único. Ninguém tem.

Éramos somente mulheres ali sentadas: as mulheres do grupo de leitura, as funcionárias da coordenação pedagógica do presídio, além de Vanessa, Janine, Sofia, da Companhia das Letras, e eu. Algum tipo de aliança se estabeleceu para que elas pudessem se sentir donas dessa saudade que, essa sim, ninguém tira delas, e nós, aprendizes de uma saudade que, provavelmente, nunca vamos sentir: essa ausência de tudo. Mas, por sermos todas mulheres e leitoras de poesia (ao menos naquelas duas horas), alguma coisa entre nós se igualou.

Na nossa saída do presídio, uma detenta estava sendo solta. Ela corria de um lado para o outro da rua, gritando: “Estou vendo o sol, vou ver a lua!”. De repente, um estrondo: o asfalto cedeu e provocou um buraco enorme na rua justamente quando o carro que veio nos buscar dava  a ré para manobrar.. Tivemos que tirá-lo de lá, enquanto a mulher ainda rodava pela calçada.

Naqueles poucos minutos, a realidade daqui de fora parecia continuar o espaço de sonho que tinha sido criado lá dentro.

Mas logo passou. Agora, de novo, estamos aqui e elas estão lá. Não sei quem elas são, nem elas sabem de mim. Mesmo assim, pelo menos aqui comigo, eu tenho uma ausência a mais.

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Infância

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu… Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro… que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

* Os nomes das participantes do Clube de Leitura são fictícios.

* * * * *

Noemi Jaffe é escritora, professora e crítica literária. Escreveu Todas as coisas pequenas (Hedra), Quando nada está acontecendo (Martins Fontes) e, em setembro, publicará A verdadeira história do alfabeto pela Companhia das Letras.
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A perigosa aventura dos oitenta anos

Por José Mario Pereira (Entrevista publicada reeditada na revista Rio Capital em dezembro de 1992)

Autor de Baú dos ossos (1972), Balão cativo (1973), Chão de ferro (1976), Beira-mar (1978) e Galo das trevas (1981), o mineiro Pedro Nava (1903-1984) é considerado o nosso maior memorialista.

Natural de Juiz de Fora, companheiro, entre outros, de Afonso Arinos e Prudente de Moraes Neto no internato do Colégio Pedro II, Nava formou-se em medicina em 1927. Autor do poema “O defunto”, que impressionou até mesmo Pablo Neruda, incluído por Manuel Bandeira em sua Antologia dos poetas bissextos, Pedro Nava foi também pintor e desenhista.

Quando de sua estreia, em 1972, o poeta Carlos Drummond de Andrade escreveu: “Minha geração, a que ele pertence, tem orgulho de oferecer às mais novas um livro com a beleza, a pungência e o encanto da obra excepcional que Pedro Nava realiza com estes primeiros volumes de memórias, dignos de figurar entre o que de melhor produziu a memorialística em língua portuguesa”.

Poucos dias antes de sua trágica morte, que surpreendeu muitos amigos, conversei com ele por um bom tempo na sede da editora Nova Fronteira, então na Rua Joana Angélica, onde ia com frequência. Ele estava animado, comentou com simpatia a participação de Luiza Brunet num programa de entrevistas na televisão, então dirigido por Danuza Leão, e disse, com ironia, que estava pensando em mudar o título de seu próximo livro, O círio perfeito, porque se sentia cansado de responder que não se tratava propriamente de uma biografia de Paulo Maluf.

Pedro Nava era dono de uma voz poderosa, pleno de vida e saúde, um homem afável, amigo, cuja ausência dá saudade. Estranhamente não se tem falado nele, o que é uma pena. Esta entrevista, publicada originalmente na Última Hora na passagem dos seus 80 anos, diz muito sobre suas preferências e hábitos literários. Que ela seja um convite a reler e relembrar Nava é o motivo maior de sua republicação aqui.

* * * * *

Quando o senhor decidiu escrever suas memórias?

PN: Pertenço a uma família de guardadores de lembranças, de curiosidades. Sou filho de um tempo em que se guardavam cartas. A minha família preparou o terreno para mim. As tias paternas, cearenses, anotavam tudo. Meu declínio natural, o afastamento da medicina, facilitou a coisa. Escrevi sempre. Tenho quase 200 trabalhos publicados sobre temas médicos. Quando comecei a escrever as minhas memórias muitos parentes estavam vivos. Pude assim perguntar, confirmar, documentar situações. Em determinado momento eu deixei de ler, notadamente memórias. Lia muito Saint-Simon, Guimarães Rosa. Parei. São autores poderosíssimos, quase feiticeiros. Sentimos por demais a vontade de imitá-los. Comecei a pensar em colocar no papel minhas lembranças em 1968.

Qual o seu método de escrever?

PN: Escrevo sempre à máquina. Sete a oito páginas por dia, no horário de 1 às 5 da tarde. Sou vagotônico, funciono menos, sou menos vivo pela manhã. Reservo a manhã para a correspondência, o fichamento dos arquivos, meus, dos amigos, da minha família. Para isso estudei numerologia, que me é bastante útil. No momento trabalho no arquivo e na correspondência de Elisabeth Raja Gabaglia Leão, mulher de Epitácio Pessoa. Meus leitores me escrevem com freqüência. Quando ele é inteligente, eu respondo com longas cartas, eu me explico, dou esclarecimentos. O livro é como a carta de um náufrago, o leitor recebe o recado, lê e vem me salvar.

Para a descrição dos tipos eu procuro desenhar primeiro. Fazer o retrato. Se o nariz é grande eu faço maior, caricaturo. Uso plantas de cidades e de casas. Consulto muito o registro funerário. Ali encontro nomes para substituir os reais que não podem aparecer. Sempre coloco o papel na máquina dobrado em dois. Isso ajuda a fazer as correções. Uma impressão, um fato qualquer, tomo nota num caderno. Escrevo só de um lado da página: quando preciso é só cortar e a ficha está pronta.

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Livros no cinema

Em janeiro chegam ao cinema dois filmes baseados em títulos da Companhia das Letras: Millennium – Os homens que não amavam as mulheres e As aventuras de Tintim.

Ambos estão recebendo boas críticas lá fora. Por qual você está mais ansioso?

Bem-vindos ao GNEO, um grupo de apoio aos cronicamente impronunciáveis

[Texto escrito por Liberty Hardy para o site BookRiot e reproduzido aqui com autorização. Tradução de Vanessa Barbara.]

Akron 293 AA Meeting

No subsolo de uma igreja unitarista em Portland, o escritor Chuck Palahnuik se dirige a um grupo de pessoas sentadas em cadeiras dobráveis. Na parede, fotos de Albert Camus e Aleksandr Solzhenitsyn. Estou parada no fundo da sala, junto à mesa do café, sondando o ambiente. Consigo identificar vários dos participantes: Chimamanda Ngozi Adichie, Abraham Verghese, Eoin Colfer. Trata-se de uma reunião dos Grandes Nomes e Obras, ou GNEO — um grupo de apoio para escritores com sobrenomes difíceis de pronunciar.

Palahniuk é uma escolha óbvia como líder do GNEO, não só porque no passado trabalhou no transporte de pessoas que frequentavam grupos de apoio como este, mas porque ele próprio costuma ter seu nome deturpado. Naquela manhã, nos falamos pelo telefone, enquanto acertávamos os pormenores da minha cobertura do evento. “Você se entrega de coração ao trabalho durante dias, meses, anos, e fica feliz com o resultado. Ganha prêmios, torna-se um autor de best-sellers, namora modelos. E então alguém põe tudo a perder errando a grafia do seu nome”, ele me disse. “Você é o seu trabalho. Se as pessoas não conseguem sequer pronunciar corretamente o seu nome, o que isso diz de você? É tão frustrante”.

Vou acompanhando a apresentação de cada um dos escritores presentes, que articulam os próprios nomes com cuidado e compartilham testemunhos. “Ganhei o Prêmio Nobel de Literatura”, declarou a poeta Wislawa Szymborska, “e eles ainda não conseguem acertar o meu nome”.

“Aquele palhaço do Matt Lauer arruinou a minha estreia em rede nacional”, disse Slavoj Zizek. “Tive que me segurar para não largar o microfone e ir embora”.

É a primeira reunião de Siddhartha Mukherjee. “Ainda não me acostumei com o nível de exposição após o anúncio do Pulitzer. É um alívio saber que não estou sozinho”, declara.

Há uma única interrupção, quando um senhor grisalho de olhar bondoso abre a porta. “Não, não, DeLillo”, diz Palahniuk. “Você está procurando a ViFraCoDe, na sala ao lado”. O escritor agradece e fecha a porta. (“ViFraCoDe?”, perguntei a Palahniuk mais tarde. “Viciados em Frases Compridas e Desconexas”, ele explicou.)

Após os testemunhos, juntei-me aos participantes. “As pessoas sofrem com isso desde que existem escritores”, conta Raefel Yglesias.

“Como Ayn Rand?”, eu pergunto.

“Não falamos sobre esse assunto”, ele me sussurra.

Um membro do grupo, que pediu para permanecer anônimo, diz invejar autores com sobrenomes fáceis, como “Waters” ou “Roth”. “Joe Hill? Quer dizer, como assim? O nome inteiro dele só tem duas sílabas”, ele zomba. “E Sara Gran? Claro, seus livros são ótimos, mas ela não sabe o que é sofrimento!”

“Se é tão frustrante assim, por que não trocam de nome?”, eu pergunto, e de imediato a sala cai num silêncio mortal. O grupo me encara como se eu tivesse pedido para urinar no adorado bicho de estimação da família. Chris Bohjalian sorri com desprezo. Ninguém mais fala comigo pelo resto da noite, e a reunião é encerrada pouco depois. O que é bom, pois acho que alguém batizou o ponche. Aposto que foi o Duane Swierczynski.

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