O escritor Mia Couto foi à África do Sul para assistir o jogo Brasil x Portugal da Copa do Mundo, e nos enviou o relato abaixo sobre a experiência:
* * * * *

Turistas de diversos países em bar de Cape Town, África do Sul (Foto por Damien du Toit)
Uma outra Copa
Quem ganhou o Mundial talvez tenha sido África. Ou mais precisamente, quem venceu a Copa foi uma das selecções que mais cedo foi eliminada: a África do Sul. A forma como decorreu o campeonato convenceu mesmo os mais cépticos. Afinal, uma nação africana passou o teste por todo um continente. Esse foi o golo mais convincente no fundo das redes do afropessismo.
Era isto que eu pensava enquanto, em Durban, a fila de gente esperava, ordeira, pela fila de onibus. Tudo organizado, sem registo de um precalço. Para mim, era uma lição. Também eu, como muitos moçambicanos, tive dúvidas. Vizinhos que somos da África do Sul, sabíamos da capacidade mas mantínhamos os nossos dedos cruzados por detrás da certeza.
Fiz a viagem de carro, com a família, de Maputo para Durban. São mais de 600 quilómetros, incluindo a passagem de três fronteiras. Ao volante, cansado, eu me perguntava: por que razão não fiquei em casa, sentado em frente ao televisor, no conforto do sofá? Mas quando entrei no estádio, as minhas dúvidas emudeceram. Aquela moldura de gente deflagrou como uma explosão nos meus olhos, nos meus ouvidos. As pessoas envergavam não as cores dos seus países, mas as cores da celebração festiva. Não pude deixar de percorrer com um olhar de biólogo aquela multidão dentro e fora do estádio. Milhares de pessoas se apressavam, cruzando-se, saudando-se com amizade para além do facto de serem adeptos de cores adversárias. Então, um sentimento de feliz confirmação me percorreu: a nossa espécie nasceu destinada à cooperação solidária. A ideia que somos, por essência, vocacionados para a agressão é uma construção cuja falsidade se confirmava, uma vez mais, nas minhas vivências.
À saída comentávamos sobre a mediocridade do espectáculo futebolistico. Para mim, porém, um outro espectáculo maior tinha vencido e convencido. Essa foi a Copa que eu lembrarei para sempre.
[Foi mantida a grafia vigente no país de origem do escritor.]
* * * * *
Mia Couto nasceu na Beira, em Moçambique, em 1955, e é um dos principais escritores africanos, comparado a Gabriel Garcia Márquez, Guimarães Rosa e Jorge Amado. Seu romance Terra sonâmbula foi considerado um dos dez melhores livros africanos do século XX.